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terça-feira, 26 de janeiro de 2016

Jaime Cortesão. Crónicas Desaparecidas, Mutiladas e Falseadas. «… uma nova direcção nos Descobrimentos, quer dizer, para ocidente do Atlântico, fora para o autor a razão divisória oculta entre as duas épocas navegadoras»

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«(…) Quanto ao número de cativos trazidos para o reino, Azurara promete referi-lo mais adiante, como com efeito vem a fazer no fim da obra, mas abrangendo então a mais os anos que vão até ao fim de 1448. Daqui é lícito inferir que daquela data por diante, isto é, de 1446, qualquer circunstância marcava uma época nova na obra do infante Henrique, e no que expressamente tocava aos descobrimentos. Se rebuscarmos nos restantes capítulos, não encontramos, todavia, nada justifique esse balanço final referido àquela data. Notemos já que, fazendo o reconto de todos os navios que foram às novas terras descobertas, em vez de 51 encontramos 53. Mas, como Azurara se refere expressamente a caravelas, tirando da soma pelo menos uma barca, dois varinéis, dois navios e uma fusta, aquele número fica reduzido a 47. Além disso também na cronologia das viagens até aquela data se diria que há soluções de continuidade. De 1443 até ao começo de 1446, o relato da Crónica passa duma viagem para outra sem especificar a data claramente, dizendo, tentando aquele ano, ou referindo o dia e o mês, e ainda factos sincrónicos, como se anteriormente o ano ficasse declarado.
Em cronista tão minucioso aquele erro de soma e esta obscuridade cronológica, quando é certo que nos outros passos do relato ele se mostra por demais solícito em fazer notar as passagens dum ano a outro, dão direito a supor que exista qualquer lacuna na série das viagens até aquela data realizadas. Mais adiante veremos se há motivos sérios para crê-lo. Analisemos agora a parte da Crónica que imediatamente continua o balanço das caravelas enviadas e das léguas percorridas. Observará, que imediatamente a seguir a este capítulo em Azurara implicitamente fecha uma época navegadora, ele começa a falar sucessivamente do descobrimento das Canárias, Madeira, Porto Santo e Deserta, e se refere a algumas ilhas dos Açores. Dir-se -ia assim, relacionando o estranho seguimento duns e dos capítulos restantes, que uma nova direcção nos Descobrimentos, quer dizer, para ocidente do Atlântico, fora para o autor a razão divisória oculta entre as duas épocas navegadoras. Mas é certo que todas as ilhas a que se refere Azurara foram descobertas antes de 1446 e desde o fim desse ano até ao fim de 1448, último a cujos feitos se refere a Crónica, a darmos crédito a Zurara, por tal forma diminuiu a actividade descobridora, que o cronista refere unicamente três capítulos a esses dois anos, sem que qualquer das expedições relatadas seja propriamente de descobrimento. Poder-se-ia assim alegrar que a ausência de avanços exploradores bastava a justificar aquele balanço de Azurara. Mas ainda depois disso, e antes daqueles três capítulos, isto é, durante 1446, ele relata a segunda viagem de Álvaro Fernandes, cujo êxito explorador, como nota o cronista, excedeu em extensão e alcance todas as anteriores. Há, pois, a acrescentar ao mistério daquela divisão essa inexplicável pouquidade nos feitos relatados durante os últimos dois anos a que se refere a Crónica». In Jaime Cortesão, A Expansão dos Portugueses no Período Henriquino, Portugália Editora, Lisboa 1965.

Cortesia de PortugáliaE/JDACT

Jaime Cortesão. Crónicas Desaparecidas, Mutiladas e Falseadas. «Quando atento, folheando a Crónica, entra na última parte, chegado aos capítulos 71º e 73º (a obra tem noventa e sete), notará que o cronista dá um balanço à obra do infante Henrique…»

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«(…) Rui de Pina só em 1497, isto é, já no reinado de Manuel I, era investido no cargo de cronista-mor, que Vasco Fernandes Licena, o chanceler-mor do cível, lhe cedia. Todavia, já antes de 1490, ele fora encarregado de escrever os feitos do rei e do reino, por João II. A que vinha esse encargo confiado ao escrivão da câmara, se o ilustre Vasco Lucena, grande doutor in utroque jure, orador e diplomata, figura preeminente da nação, era o cronista-mor? Conforme cremos, a razão está em que nem todos se prestavam à tarefa de extorquir, mutilar ou destruir o alheio labor, defraudando a uns a glória dos feitos e a outros o mérito de os ter perpetuado, ainda que sob a fácil indulgência da razão do Estado. A ilustrar o nosso estudo vai a reprodução duma iluminura com que abre o manuscrito da Crónica de D. Afonso V, feita no começo do século XVI, e desde então guardado no Arquivo Nacional, na qual estão representados, e, segundo os entendidos, com todos os caracteres do retrato, Rui de Pina, o autor da Crónica, e Manuel I, monarca, a quem foi oferecida. Lá se vê, moreno, grisalho e gordo, envolto em rico manto, e farto das benesses que fruía, o cronista, de giolhos (joelhos) em terra aos pés do trono, ofertando ao monarca o seu inglório e minguado epitome. Adiante veremos que outras razões mais nos convencem de seus furtos e emendas, e ao mesmo tempo o inocentam em grande parte deles.

A Crónica da Guiné foi mutilada e truncada
Voltemos agora à Crónica da Guiné. De há muito, e sempre que a líamos, ainda que como livro de consulta e sob alguns dos seus aspectos parciais, ficávamos com a impressão mal definida de que havia através dela, mormente nos últimos capítulos, ou fossem insuficiências de relato, ou desconexões ou soluções de continuidade, que a tornavam abortiva e falha. Suspeitosos de que o cronista soubera mais do que nos dizia na sua Crónica, e impressionados ainda com a estreiteza dos resultados obtidos pelo infante, medidos pela invocação exclamativa do prólogo, donde era lícito supor que o infante Henrique tivera vastos conhecimentos do Oriente, adquiridos pelos seus servidores numa série de viagens por terra, formulámos a hipótese de que o manuscrito de Paris não correspondesse integralmente ao primeiro original. Demo-nos então a uma análise da Crónica, o mais minuciosa e paciente que pudemos, pela única edição impressa, a do visconde de Carreira. Em vez de apesentarmos as nossas conclusões, segundo o processo por que as conseguimos alcançar, vamos seriá-las conforme a ordem lógica e por maneira que as faça ressaltar com maior evidência.
Quando atento, folheando a Crónica, entra na última parte, chegado aos capítulos 71º e 73º (a obra tem noventa e sete), notará que o cronista, sem que nenhum facto até aí relatado o possa explicar, dá um balanço à obra do infante Henrique realizada até ao começo do ano de 1446, sumariando nos dois primeiros alguns informes sobre a geografia física e política do Noroeste de África, visitado por nós, assim como sobre os costumes dos respectivos habitantes, e declarando no seguinte o número de caravelas ali enviadas até aquela data, ou sejam cinquenta e uma e o número de léguas de costas exploradas, que vem a ser quatrocentas e cinquenta». In Jaime Cortesão, A Expansão dos Portugueses no Período Henriquino, Portugália Editora, Lisboa 1965.

Cortesia de PortugáliaE/JDACT

terça-feira, 2 de outubro de 2012

Jaime Cortesão. Crónicas Desaparecidas, Mutiladas e Falseadas. «Perante esta série de factos não podem ficar dúvidas de que houve um deliberadíssimo propósito de calar na historiografia oficial do tempo a obra dos Descobrimentos, e que igualmente se impunha fazer desaparecer dos documentos escritos tudo o que necessariamente se lhe prendesse»


Iluminira da Crónica de Afonso V
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«[…] maiormente as do “Africano” e do “Príncipe Perfeito”, onde a nação se apaga e mal rasteja como uma sombra aos pés do trono, anémicas, escassas, subservientes, constatará com dor que as deste último são um pálido resumo das crónicas dos seus antecessores, que ele aproveitou, e representam com a sua monstruosa deformação uma imensa e irremediável perda para a história nacional
Desde já podemos dar a prova desse facto. Em várias das suas crónicas Azurara, para evitar delongas ou repetições, remete o leitor para a crónica geral do reino. Dois passos, por exemplo, da ‘Crónica da Guiné’, mostram-nos que Azurara relatou na sua ‘Crónica de Afonso V’, factos relativos aos Descobrimentos, que Rui de Pina mais tarde totalmente eliminou. ‘E era ainda aí Palenço, que era um homem que tinha feito mui grande guerra aos mouros, e que toda sua vida dispendeu em serviço de Deus e do reino, cometendo e acabando por si mui grandes feitos, segundo temos falado na crónica geral, depois que Ceuta foi tomada’.
  • O corsário Palenço, como se depreende das crónicas dos condes de Meneses, de Azurara, e principalmente da Historia de las Indias, de Las Casas, desempenhou papel importantíssimo na defesa do estreito de Gibraltar e no impedimento armado das novas navegações atlânticas aos castelhanos.
Rui de Pina calou esses feitos culminantes para a compreensão da nossa empresa. Ainda outra remissão de Azurara:
  • E da primeira vinda destes Canareos a este reino e doutras muitas cousas que se passaram acerca deles, falaremos mais compridamente na crónica geral dos feitos do nosso reino.
Estes canareos, segundo todas as probabilidades, devem-nos ter auxiliado na guerra contra os castelhanos nas suas ilhas natais, mas toda a história dessa longa luta que terminou pela posse das ilhas e sem a qual se não pode compreender o nosso vasto plano dos Descobrimentos, foi eliminada nas crónicas de Rui de Pina. Provado temos, pois, que não só Rui de Pina se apropriou destas crónicas dos seus antecessores, como delas omitiu passos fundamentais para a história dos Descobrimentos.
Acrescentemos ainda que de toda a ‘Crónica da Guiné’, ou antes do I volume, que nos é conhecido e abrange os Descobrimentos até ao ano de 1448, Rui de Pina aproveitou apenas o que basta para parte dum único capítulo nas suas duas crónicas de Duarte I e de Afonso V. descaso do cronista ou dos príncipes, o ‘Perfeito’ e o ‘Venturoso’, ao serviço dos quais ele escreveu? Mas durante a primeira quarta parte do reinado de Afonso V e quando os Descobrimentos estavam apenas no começo e mal se podiam sonhar as suas consequências, dois cronistas, Cerveira e Azurara, eram encarregados de os relatar minuciosamente. Como se pode conceber que em menos conta fossem tidos esses feitos, quando por via deles a nação culminava o apogeu da glória e do poder e de súbito se antepunha em acção civilizadora e transformadora do mundo a toda a Europa?
Perante esta série de factos não podem ficar dúvidas de que houve um deliberadíssimo propósito de calar na historiografia oficial do tempo a obra dos Descobrimentos, e que, sendo assim igualmente se impunha fazer desaparecer dos documentos escritos tudo o que necessariamente se lhe prendesse (249)».
In Jaime Cortesão, A Expansão dos Portugueses no Período Henriquino, Portugália Editora, Lisboa 1965.

Cortesia de Portugália Editora/JDACT

quarta-feira, 28 de dezembro de 2011

Jaime Cortesão. Crónicas Desaparecidas, Mutiladas e Falseadas. «Na “Crónica de D. João II”, isto é, quando os Descobrimentos dominam toda a política do Estado, apenas dois ligeiros capítulos lhes são expressamente dedicados. O ajustamento e simultaneidade destes factos bastaria, que uns se explicam pelos outros, ou melhor, que tanto o desaparecimento das crónicas como o silêncio de Rui de Pina sobre os Descobrimentos…»

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«Uma outra série de razões, que passamos a enumerar, nos confirma inteiramente nessa explicação do enigma.

a) Antes de mais nada convém observar que, pelo que diz respeito à obra de Azurara, apenas desapareceram as crónicas que certamente se referiam a Descobrimentos. De todas as restantes e que hoje se conhecem existiam, antes da impressão, e existem numerosos apógrafos nas Bibliotecas Nacional, Municipal do Porto, da Academia de Ciências e Torre do Tombo.

b) Na “Crónica de D. Duarte”, de Rui de Pina, não se fala de Descobrimentos.

c) Na de Afonso V, do mesmo cronista, apenas um capítulo se refere muito ligeiramente à grande empresa nacional. Foi o mesmo Góis quem primeiramente o observou: «… porque nas crónicas del rei D. João e del rei D. Duarte, seu filho, nenhuma cousa se trata do que toca a estes descobrimentos e na del rei D. Afonso quinto, seu neto, em um só capítulo, onde se escreve o falecimento do infante D. Henrique, conta este cronista, brevemente, algumas cousas das que até então passaram…»

d) Na “Crónica de D. João II”, isto é, quando os Descobrimentos dominam toda a política do Estado, apenas dois ligeiros capítulos lhes são expressamente dedicados.

e) Sobre as explorações atlânticas, a ocidente dos arquipélagos dos Açores, Madeira e Cabo Verde, realizadas desde o reinado de Afonso V e continuadas em tempo de João II, nem uma palavra existe nas respectivas crónicas. Todavia, uma dessas expedições, ordenada por este último monarca, e antes da primeira partida de Colombo, a de Pedro de Barcelos e João Fernandes Labrador, à América do Norte, alcançava a «parte do norte», segundo os documentos autênticos do tempo.

O ajustamento e simultaneidade destes factos bastaria, se outras razões mais poderosas não tivéssemos, a evidenciar que uns se explicam pelos outros, ou melhor, que tanto o desaparecimento das crónicas como o silêncio de Rui de Pina sobre os Descobrimentos se filiam no segredo que envolveu desde o começo a empresa nacional. As crónicas que versavam os Descobrimentos foram sequestradas ou destruídas, tal coimo os nossos grandes feitos navegadores desapareceram das obras de Rui de Pina.

Cortesia de wikipedia

Nem este assumiria à grave responsabilidade de chamar suas as alheias crónicas, quando muitos testemunhos o poderiam delatar, se lhe não tivessem dado o encargo de as “emendar”, como diz Barros, isto é, de apagar delas tudo o que pudesse informar os estranhos sobre as causas íntimas e muitos dos resultados da empresa nacional.
Qual a alma vil e peca de cronista, que na sua história de motu-próprio calasse ou diminuísse as nossas maiores façanhas, se alguma grave razão de Estado o não tivesse coibido?

Como explicar o desaparecimento duma série tão notável de crónicas se uma razão comum o não justificasse?

Em abono desta opinião devemos relembrar ainda alguns factos semelhantes e já hoje presentes.
f) Da série de crónicas desaparecidas ou caladas, durante o tempo em que os Descobrimentos foram o eixo de toda a vida nacional, devemos aproximar o mistério que nesta mesma época envolveu os livros que versavam a arte náutica, em que foram os mestres da Europa. O mais notável deles, o “Regimento do Astrolábio”, uma espécie de manual prático para ensinança de marinheiros, e que estes dois cronistas igualmente calaram, tornou-se tão raro que da primeira edição conhecida só há poucos anos tivemos notícia pelo exemplar único da Biblioteca de Munique que Joaquim Bensaúde estudou e publicou pela primeira vez. O mesmo ilustre historiógrafo conclui que o desaparecimento total duma primeira edição dessa obra e a extrema raridade da segunda, foram deliberadamente provocados.

g) Os documentos da cartografia portuguesa do século XV desapareceram também inteiramente.

h) A mesma sorte ainda tiveram muitos dos documentos originais, que mais nos poderiam elucidar e se referiam a terras ou ilhas descobertas, as instruções dadas aos navegantes e os seus respectivos relatórios.

Cortesia de wikipedia 

Uns e outros factos têm sido explicados pela mesma razão: o segredo nacional.
Finalmente outras razões demonstram a nossa afirmação.
i) Quem meditar na compreensão da história que sucessivamente tiveram Lopes, Azurara e Pina depressa compreenderá que este despojou as crónicas daqueles, ao “emendá-las”, de muitos dos factos e pormenores, que encarnam o povo na vida da nação e tornam forte e palpitante o seu relato. Quem ler a “Crónica de D. João I”, de Fernão Lopes, na parte que hoje conhecemos, e onde se sentem tumultuar os interesses e paixões das classes e onde a burguesia e os mesteres, mais organizados, substituindo-se a uma nobreza dividida, inspiram, servem e amparam os heróis nacionais; ou as crónicas da Guiné e dos condes de Meneses, de Azurara, onde tantas vezes transparecem os grandes objectivos nacionais, e ainda a intervenção das classes, posto que sem o vigor daquele, mas sempre tão minuciosa, tão humanas em certos passos e tão severas por vezes no juízo dos homens, e as comparar às crónicas de Rui de Pina, maiormente as do “Africano” e do “Príncipe Perfeito”, onde a nação se apaga e mal rasteja como uma sombra aos pés do trono, anémicas, escassas, subservientes, constatará com dor que as deste último são um pálido resumo das crónicas dos seus antecessores, que ele aproveitou, e representam com a sua monstruosa deformação uma imensa e irremediável perda para a história nacional (247)». In Jaime Cortesão, A Expansão dos Portugueses no Período Henriquino, Portugália Editora, Lisboa 1965.

Cortesia de Portugália Editora/JDACT

sábado, 17 de dezembro de 2011

Jaime Cortesão. Crónicas Desaparecidas, Mutiladas e Falseadas. «O mesmo Góis acaba por separar um do outro facto, pois na “Crónica do Príncipe D. João”, a última publicada, se refere apenas ao desaparecimento das crónicas da segunda dinastia, relacionando-as desta vez e apenas com os Descobrimentos. Notemos ainda que a grave acusação de Góis a Rui de Pina é claramente confirmada por Barros…»

D. João II
Cortesia de arqnet 

«E adiante, quando fala das crónicas que Rui de Pina escreveu sobre os reis da primeira dinastia, observa que ‘em muitas partes tem semelhança de estilo com as de Fernão Lopes’, acrescentando depois que o texto das crónicas de D. Duarte e D. Afonso V daquele mesmo autor pertence quase sempre a Fernão Lopes e a Azurara. Góis lança, pois, sobre Pina a culpa de furtador, acusação esta que Herculano aceitou.
Na “Crónica do Príncipe” já Góis não fala das crónicas da primeira dinastia, atribuídas a Fernão Lopes, ainda que continue a fazer para as restantes a insinuação de que houve furto. Aquelas deveriam ter constituído, segundo as próprias palavras de Fernão Lopes, o primeiro volume da sua história. Devemos separá-las, pois, das restantes, as únicas que interessam ao nosso estudo.

Algumas razões nos levam ainda a fazer esta separação. Conta Góis, transcrevendo uma carta de João Róis de Sá, alcaide-mor do Porto, que as crónicas dos reis passados se tinham perdido em poder de Fr Justo, bispo de Ceuta, que Afonso V mandara vir de Itália para lhas verter em latim, e quando ele morreu de peste em Almada. Acrescenta além disso que João II mandou entregar a Rui de Pina umas crónicas dos reis antigos, que existiam em poder dum tal Fernão de Novais. Mas Pina já antes de 1490 fora encarregado do ofício de cronista por João II e o bispo Justo ainda em Abril de 1493 era vivo. Notemos igualmente que foi Manuel I quem, segundo Góis, encarregou Rui de Pina de escrever as crónicas dalguns dos reis da primeira dinastia e que o documento em que João II em 1490 concede uma pensão a Rui de Pina reza assim:
  • «esguardando ao trabalho e à ocupação grande que Rui de Pina escripvão da nossa câmara tem com o carrego que lhe demos de escrepver e assentar os feitos famosos asy nossos como de nossos regnos que ‘em nossos dias são passados e ao deante se fizerem…»
Ora o escrivão da câmara de João II, que o serviu nalgumas das suas embaixadas e conhecia os segredos da política nacional:
  • “não podia escrever sobre os feitos dos dias, isto é, da vida do monarca, diminuindo e escondendo em grande parte, como fez, a obra dos Descobrimentos, sem ajustar nesse ponto pela mesma apertadíssima craveira as crónicas dos reis anteriores que igualmente versavam a empresa nacional”.
Podemos separar assim os desaparecimentos das crónicas não só no que toca à primeira e à segunda dinastia, como à missão de Pina no reinado de João II e no de Manuel I.


Cortesia de vidaslusofonas e bnp 

O mesmo Góis acaba por separar um do outro facto, pois na “Crónica do Príncipe D. João”, a última publicada, se refere apenas ao desaparecimento das crónicas da segunda dinastia, relacionando-as desta vez e apenas com os Descobrimentos.
Notemos ainda que a grave acusação de Góis a Rui de Pina é claramente confirmada por Barros no que toca às crónicas de Duarte e Afonso V, de Azurara:
  • «’e porque cada um não perca seu trabalho’, também escreveu a crónica deste rei Afonso até à morte do infante Pedro e a crónica del rei Duarte seu padre, as ‘quais Rui de Pina que o sucedeu no ofício fez suas, pelo que emendou’ e acrescentou nelas principalmente na del rei Afonso, acerca das cousas que passaram depois da morte do infante Pedro».
O exame das mesmas crónicas de Rui de Pina, comparadas com a de João II, que é inteiramente sua e com as que foram escritas por Azurara, nos confirma na opinião de que Pina se apropriou do trabalho daquele.

Como explicar então o “furto” de Rui de Pina?
Será que ele, corvo de João II, como Herculano insinuou, se quisesse apenas enfeitar com as penas de pavão dos anteriores cronistas? É crível que ele assumisse tamanha responsabilidade, exactamente na época em que o relato dos feitos “emendadosinteressava a muitos dos seus autores ou descendentes e quando existiam por certo muitos possíveis denunciantes desse furto? NÃO; segundo cremos, só o sigilo oficial sobre os Descobrimentos pode explicar o estranho facto (243)». In Jaime Cortesão, A Expansão dos Portugueses no Período Henriquino, Portugália Editora, Lisboa 1965.
Cortesia de Portugália Editora/JDACT

terça-feira, 13 de dezembro de 2011

Jaime Cortesão. Crónicas Desaparecidas, Mutiladas e Falseadas. «Mas, facto estranho, Barros na sua “Década I”, introduz alterações notáveis no texto de Azurara e até alguns factos muito importantes, que este não relata, como a referência a Jaime de Maiorca, e que todos se encontram no “Esmeraldo”»

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Crónicas sequestradas ou destruídas
«Outras crónicas ou escritos notáveis sobre as navegações foram inteiramente desconhecidas por Damião de Góis, quais sejam a “O Esmeraldo de Situ Orbis”, por Duarte Pacheco:
  • Nem Góis, nem Barros o citam. Mas, facto estranho, Barros na sua “Década I”, introduz alterações notáveis no texto de Azurara e até alguns factos muito importantes, que este não relata, como a referência a Jaime de Maiorca, e que todos se encontram no “Esmeraldo”.
Um escritor estrangeiro, o primeiro que assinalou estes últimos factos, num pequeno mas interessante estudo, observa:
  • «Quando n voit avec quel soin l’auteur dês décardes a cite la chronique de Guinée, l’on cherche en vain la raison qui l’a a determine a passer sous silence l’Esmeraldo de situ orbis de Pacheco Pereira, auquel il fait cepandant de larges emprunts. Aussi ce n’est pás qu’il n’attache aucune importance au témoignage de cet écrivan. Au moyen de cette nouvelle source il complete Azurara et eil est même curieux de constater qu’il préfère, en cãs de contradiction, les données de Pacheco».
Adiante veremos que não é difícil encontrar a razão que obrigou Barros, e porventura Góis, se conheceu a obra, a calar o nome de Duarte Pacheco.
Desde 1474, em que Azurara faleceu, até 1497, data da nomeação oficial de Rui de Pina, sabe-se apenas da existência dum cronista-mor, Vasco Fernandes de Lucena. Não se conhece de todo o tempo em que ele exerceu o cronistado, uma única página sua escrita, sobre história, que justifique a sua longa permanência no lugar. É crível que João II durante todo ou quase todo o seu reinado (Lucena já em 1484 era cronista-mor) o mantivesse nesse cargo sem qualquer proveito ou razão aparente?

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Como vimos, a maior parte das notícias sobre o desaparecimento de crónicas provêm-nos de Damião de Góis. Foi ele o único historiador que apontou esses factos e os relacionou, procurando dar-lhe uma explicação, tendo em cada uma das crónicas de D. Manuel e do príncipe dedicado ao assunto seu capítulo. Das duas foi esta última, como era natural, a primeira que escreveu; mas só a deu à estampa depois de composta e publicada a de D. Manuel. Esta foi impressa em 1566; aquela em 1568. E do próprio texto do capítulo VI da “Crónica do Príncipe”, em que versa o nosso caso, se depreende que ele a retocou, depois de ter escrito a de D. Manuel.
O que escreve, pois, naquela crónica, deve tomar-se, naquilo em que divergem, como a sua última e mais esclarecida opinião.
Como explica então o desaparecimento das crónicas? Tanto num como noutro dos citados capítulos atribui-o a furto. A diferença está em que na “Crónica de D. Manuel” é mais lato e claro na atribuição:

«Dos quais logares recitados se vê na verdade ter Fernão Lopes escritas e acabadas todas as crónicas do reino. Começando do conde D. Henrique até à del rei D. Duarte, que foram em número de (?) doze, mas como se lhe roubou o louvor de tamanho trabalho, julgue-o quem o bem entender (240)». In Jaime Cortesão, A Expansão dos Portugueses no Período Henriquino, Portugália Editora, Lisboa 1965.

Cortesia de Portugália Editora/JDACT

terça-feira, 22 de novembro de 2011

Jaime Cortesão. Crónicas Desaparecidas, Mutiladas e Falseadas. «Outras crónicas ou escritos notáveis sobre as navegações foram inteiramente desconhecidas por Damião de Góis, quais sejam a “Crónica sobre os Descobrimentos”, de Afonso Cerveira. Esta crónica foi escrita antes de Azurara e era muito mais minuciosa que a sua»

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Crónicas sequestradas ou destruídas
«A “Crónica de D. Duarte”, por Fernão Lopes. A “Crónica de D. Afonso V até à morte do Regente”, por Fernão Lopes:
  • [«Bem claro se vê deste lugar que fez Fernão Lopes a “Crónica del Rei D. Duarte…», cap. XXXVIII da parte IV da Crónica de D. Manuel. «… a qual história geral Fernão Lopes continuou até à morte do infante D. Pedro…» cap. VI da “Crónica do Príncipe D. João I” [...].
A “Crónica de El Rei D. Duarte”, por Azurara:
  • […«porque o Cap. V da “Crónica del Rei D. Duarte” (de Rui de Pina) é seu e assim todos os razoamentos que na dita crónica são escritos sobre a ida a Tânger o que se bem conhece e vê do estilo e ordem costumada do mesmo Gomes Eanes», cap. VI da “Crónica do Pr. D. João”. Barros neste ponto é mais expresso: «E porque cada um não perca seu trabalho, também escreveu (Azurara) a “Crónica” deste rei D. Afonso até a morte do infante D. Pedro e a “Crónica del rei D. Duarte, seu padre…» “Décadas I, livro II, cap. II].
Uma grande parte da “Crónica de D, Afonso V", por Azurara:
  • [Ao anterior testemunho de Barros acrescentemos o de Góis; «De maneira que esta “Crónica del Rei D. Afonso V” foi começada por Gomes Eanes e depois continuada por outros…», cap. XXXVIII da “Crónica del Rei D. Manuel”. Esta mesma afirmação é confirmada por vários passos das outras crónicas de Azurara. Góis crê que ele tivesse escrito essa “Crónica” até ao ano em que morreu, aproximadamente. Azurara faleceu em 1474.]

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O I e o II volumes da “Crónica do Descobrimento e Conquista da Guiné", por Azurara:
  • [«…mas pode ser que o fizesse na história da Guiné, que ele diz que compôs, de que não há notícia…», cap. VI da “Crónica do Príncipe D. João”. Como vimos atrás, Barros conheceu ainda fragmentos desta crónica; e pouco mais ou menos na data em que Damião de Góis duvidava até que ela tivesse existido, em Espanha, Las Casas extractava-a largamente para a sua “História das Índias”. O I volume da “Crónica da Guiné” conhece-se apenas desde o meado do século passado, pela impressão do exemplar manuscrito (único em letra do século XV) existente na Biblioteca Nacional de Paris. O II volume, a que ele envia por vezes o leitor, nalgumas passagens do I, é inteiramente desconhecido. Não há, todavia, razão alguma para crer que ele deixasse de o escrever.].
Outras crónicas ou escritos notáveis sobre as navegações foram inteiramente desconhecidas por Damião de Góis, quais sejam a “Crónica sobre os Descobrimentos”, de Afonso Cerveira:
  • [Esta crónica foi escrita antes de Azurara e era muito mais minuciosa que a sua. Eis como ele se lhe refere: «Não curo de escrever algumas cousas da viagem destes, que achei escritas por Afonso Cerveira, que esta história primeiramente quis ordenar…» “Crónica da Guiné”, p. 165. «Não nos pareceu necessário falarmos na chegada das caravelas a Lisboa nem ocuparmos nossa escrita no recontamento da venda dos mouros, assim como o achamos no traslado de Afonso Cerveira, de que tiramos esta história…» Idem, p. 259. «E posto que achássemos o teor daquela carta, intitulada no primeiro livro que fez Afonso Cerveira, pelo qual prosseguimos esta história…» Idem, p. 393. A carta a que o cronista se refere neste passo, é aquela em que o Regente, a 3 de Fevereiro de 1446, concede a seu irmão D. Henrique o monopólio do comércio com as ilhas Canárias. Destes trechos, pois, se pode concluir que Cerveira escrevera um volume sobre os Descobrimentos, o qual abrangia as viagens realizadas pelo menos até 1446; que Azurara o utilizou largamente, finalmente que o resumiu] 238».
In Jaime Cortesão, A Expansão dos Portugueses no Período Henriquino, Portugália Editora, Lisboa 1965.

Continua
Cortesia de Portugália Editora/JDACT

domingo, 6 de novembro de 2011

Jaime Cortesão. Crónicas Desaparecidas, Mutiladas e Falseadas. «Todo um capítulo, o VI da “Crónica do Príncipe D. João” ele dedica claramente a apontar o desaparecimento duma série de crónicas que deviam versar sobre os Descobrimentos, chegando a insinuar que as furtara Rui de Pina»

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Crónicas sequestradas ou destruídas 
«Finalmente termina o relato dos descobrimentos em tempo de D. Afonso V com estas estranhas palavras: 
  • «Também se descobriu a ilha de S. Thomé, Anno bom e a do Príncipe por mandado del Rey dom Affonso, e “outros resgastes e ilhas”, das quais não tratamos em particular por não termos quando e per que capitões foram descobertas. Porém sabemos na voz comum serem mães cousas passadas e descobertas no tempo deste Rey do que temos escrito…»
Que outras ilhas e resgates (comércios), por consequência terras habitadas, seriam estas? Na África por certo não, pois ele continua descrevendo o descobrimento das suas costas, dizendo quando e os capitães que as descobriram. E é crível, porventura, que o culto D. Afonso V, que se encarregara Azurara de escrever sobre os Descobrimentos em tempo de seu tio e lhe encomendara as crónicas, de não maior interesse, dos condes de Meneses, esquecesse os feitos descobridores realizados após a morte de D. Henrique? 
Góis, se não avança uma afirmativa de tal alcance como esta última de Barros, é, todavia, mais explícito no que toca ao silêncio dos cronistas. Todo um capítulo, o VI da “Crónica do Príncipe D. João” ele dedica claramente a apontar o desaparecimento duma série de crónicas que deviam versar sobre os Descobrimentos, chegando a insinuar que as furtara Rui de Pina. As suas notáveis afirmações sobre o desaparecimento das crónicas são ratificadas e desenvolvidas ainda no longo capitulo XXXVIII da parte IV da “Crónica de D. Manuel”.

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Conjugando o que uns e outros dizem com alguns outros factos que Damião de Góis desconheceu ou calou, e com o exame da “Crónica da Guiné”, cremos alcançar a prova de que o silêncio dos cronistas foi propositadamente organizado, a data em que ele começou e os seus principais agentes e mandatários. 
Digamos desde já que em especial Góis cita e relaciona uma série tal de desaparecimentos de crónicas ou omissões de factos nas que ele conhecia, sobre Descobrimentos, que não se pode crer senão que ele soubesse a causa explicativa, mas não a pudesse revelar.
Para melhor inteligência dos leitores vamos referir, um por um, a série desses factos, relacionando-os pouco a pouco até as condições finais. Quando Góis escrevia, segundo as suas próprias afirmações, de longa data que haviam desaparecido: 
  • A terceira parte da “Crónica de D. João I, por Fernão Lopes, e que ia da tomada de Ceuta ao falecimento do Rei, abrangendo assim os começos da época dos Descobrimentos;
  • […nestes novos descobrimentos…aquilo que por extenso houvera de ser escrito na terceira parte da “Crónica de el-rei D. João", o primeiro, depois da tomada de Ceuta, até o seu falecimento, que foi tempo de dezoito anos, dos quais não vi cousa que Fernão Lopes, que foi cronista e guarda da Torre do Tombo e compôs de novo esta “Crónica de el-rei D. João", escrevesse, a qual terceira parte eu ousaria de afirmar que ele fez, mas como se lhe este trabalho roubou não me atreveria a dizer por honra dos que depois dele escreveram…» Cap. VI da “Crónica do Príncipe D. João”. No cap. Citado da “Crónica de D. Manuel” afirma; «…donde se vê na verdade ter este copioso escritor Fernão Lopes feitas e compostas as crónicas dos reis atrás e toda a del rei D. João I»] 236».
In Jaime Cortesão, A Expansão dos Portugueses no Período Henriquino, Portugália Editora, Lisboa 1965.

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quarta-feira, 26 de outubro de 2011

Jaime Cortesão. Crónicas Desaparecidas, Mutiladas e Falseadas. «E, se quisermos estudar os propósitos do Infante pelas empresas posteriores a 1448, último ano que alcança a “Crónica da Guiné” por Azurara, vemo-nos desde logo nos maiores embaraços»

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Alguns dos feitos que se calaram
«Daí vem, que uma parte imensa da obra do Infante, a que esclarece definitivamente os seus intuitos, ainda hoje tão discutidos, só agora se pode conhecer. Todavia o maior organizador do segredo nacional dos Descobrimentos foi D. João II. Sabemos pela crónica de Resende que para o conservar ele usou de todos os meios, quer obrigando os navegantes a grandes juramentos, quer propalando lendas proibitivas sobre as terras descobertas, quer infligindo a quantos o pretendiam revelar castigos crudelíssimos.
Mais do que isso, ele foi o grande organizador da defesa militar, diplomática e secreta, por meio da espionagem, das navegações e descobrimentos portugueses. É certo que a esse tempo já outras nações mais nos disputavam a posse do comércio das novas terras descobertas. Não seria natural que o ciosíssimo organizador do segredo nacional impedisse também a sua divulgação pela história impressa ou manuscrita, quando os estrangeiros procuravam por todas as formas o seu conhecimento?
Este aspecto político da empresa dos Descobrimentos nas suas relações com a historiografia oficial nunca foi encarado. Não obstante, como não haviam as crónicas, mandadas escrever pelos monarcas, sobre feitos coevos ou de repercussão coeva, de sofrer das enormes limitações e reservas, que lhes impunham os formidáveis interesses que se debatiam?

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Se em história é perigoso medir todos os factos passados pela mentalidade de hoje, não deixa de ser ingénuo supor por demais primitivos certos processos políticos de outrora.
Quem ler as crónicas de Rui de Pina, o cronista oficial, ao serviço de D. João II, quase de todo omisso sobre os Descobrimentos, convencer-se-á de que, para ele, bem ao invés do que acontecia com o seu régio amo, a empresa marítima e colonizadora dos Portugueses era um acidente mínimo na vida nacional. E, se quisermos estudar os propósitos do Infante pelas empresas posteriores a 1448, último ano que alcança a “Crónica da Guiné” por Azurara, vemo-nos desde logo nos maiores embaraços.

Se até àquela data já são muitas as dificuldades, desde aí por diante começa aquilo a que podemos chamar a “época negra” na historiografia oficial dos Descobrimentos portugueses. Entramos desde logo na maior confusão e carência dos dados cronológicos, não sendo mais clara ou certa a história no conhecimento dos descobridores, das terras descobertas e sua respectiva atribuição.

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Crónicas sequestradas ou destruídas
Quando mais tarde, depois do primeiro quartel do século XVI, passado o período de esplendor da epopeia marítima, os nossos cronistas, principalmente Barros e Góis, a querem relatar desde os seus inícios, logo se queixam dessas dificuldades em termos duma rara eloquência. O que espanta apenas é que até hoje ninguém tivesse feito reparo de maior nas palavras dos dois historiadores.
Barros, logo no prólogo das “Décadas”, dirigido a D. João III, declara, depois de se queixar do descuido dos Portugueses em encomendar os seus feitos «à custódia das letras», que se dispõe a escrever o que eles fizeram, porque estão perdidos e até aquela data e sabe “por escrituras particulares serem maiores do que aparentam nas crónicas oficiais”.
Depois, terminado o relato dos Descobrimentos durante a vida do Infante D. Henrique, declara que tudo ou a maior parte tirou de Azurara, mas «não foi pequeno o trabalho que tivemos de ajuntar cousas derramadas e por papéis rotos, e fora da ordem que ele Gomeeanes levou no processo deste descobrimento».

Com efeito é muito de estranhar que não houvesse então em Portugal mais do que folhas mutiladas e soltas da “Crónica do Descobrimento e Conquista da Guiné”». In Jaime Cortesão, A Expansão dos Portugueses no Período Henriquino, Portugália Editora, Lisboa 1965.

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Cortesia de Portugália Editora/JDACT