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sábado, 23 de janeiro de 2016

Como eu Atravessei África. Alexandre Serpa Pinto. «Se não é fácil explorar a África, não é menos difícil falar ao ministro, e sobre tudo se esse ministro é João Andrade Corvo. Tinha a seu cargo duas pastas…»

Cortesia de wikipedia

Como eu atravessei a África do Atlântico ao Mar Índico. Viagem de Benguela à Contra-Costa, através de Regiões Desconhecidas. A Carabina d’el rei
«(…) No correr do ano de 1869, fiz parte da coluna de operações que no baixo Zambeze sustentou cruel guerra contra os indígenas de Massangano. José Maria Latino Coelho, então Ministro da Marinha e Ultramar, dera ordem ao governador de Moçambique, para que, finda a guerra, me proporcionasse os meios de subir o Zambeze, a fazer um detalhado reconhecimento do país, tão longe quanto me fosse possível. A ordem foi dada, mas não foi cumprida; e depois de vãs instâncias, e de um ligeiro passeio pelas terras portuguesas da África Oriental, voltei à Europa, com mais desejo que antes, de estudar o interior daquele continente, que mal tinha visto. Razões particulares de família fizeram adiar, se não aniquilaram, os meus projectos. Oficial do exército, sempre de guarnição em pequenas terras de província, fazia das minhas horas de ócio horas de trabalho; e ainda que mal antevia a possibilidade de ir a África, era o estudo das questões africanas o meu único e exclusivo passatempo. As sublimes questões de astronomia não eram por mim desprezadas, e o muito tempo que me deixava a vida da caserna era repartido entre o estudo da África e do céu. Servia em Caçadores 12 no correr de 1875, e ali tive por camarada um dos mais inteligentes homens que tenho conhecido, o capitão Daniel Simões Soares.
Pouco depois de termos feito conhecimento, ficamos ligados por estreita amizade. O quarto mesquinho do ilustrado oficial, na caserna da Ilha da Madeira, reunia-nos durante as horas em que o regulamento nos obrigava a viver ali; e quantas vezes, estando um de nós de serviço, teve a companhia do outro! África, e sempre África, era o nosso assunto de conversa. Apraz-me recordar esse tempo, essas horas que fazíamos correr velozes, debatendo questões, que eu mal pensava seria chamado a resolver um dia. Em fins de 1875, redigi uma memória, que submeti à crítica de Simões Soares, e de outro meu camarada, o capitão Camacho; memória filha das nossas intermináveis palestras Africanas. Propunha eu um meio de estudar parcialmente o interior das nossas colónias de África Oriental, e isso com a maior economia para o Estado. Depois de muito debatida a questão por nós três, foi a memória enviada ao governo da sua majestade; mas soube depois que nunca chegara às mãos do ministro da Marinha.
A esse tempo, eu pensava outra vez em voltar à África, apesar de ser chefe de família, e de me prenderem a Portugal interesses de subida importância. Por fins de 1876 voltei a Lisboa, e conheci que as questões Africanas tinham ali tomado grande interesse com a criação da Comissão Central Permanente de Geografia, e com a fundação da Sociedade de Geografia de Lisboa. Falava-se muito numa grande expedição geográfica ao interior de África Austral. Fui procurar imediatamente o ministro das Colónias. Era João Andrade Corvo. Se não é fácil explorar a África, não é menos difícil falar ao ministro, e sobre tudo se esse ministro é João Andrade Corvo. Tinha a seu cargo duas pastas, Marinha e Estrangeiros, e o tempo não lhe sobejava para falar aos importunos. Persegui-o uns oito dias, e na véspera da minha partida de Lisboa, obtive uma audiência do ministro dos Negócios Estrangeiros». In Londres, 61 Gower Street, 5 de Dezembro de 1880, Alexandre Serpa Pinto, Como eu Atravessei África, 1881, Projecto Livre, livro 502, Poeteiro Editor Digital, S. Paulo Brasil, Iba Mendes, 2014.

Cortesia de PoeteiroED/Iba Mendes/JDACT

Como eu Atravessei África. Alexandre Serpa Pinto. «Principiado em Londres em Setembro de 1879, o meu livro foi quase todo escrito nos meses de Setembro e Outubro, de 1880, na Figueira da Foz, em Portugal»

Cortesia de IbaMendes

Como eu atravessei a África do Atlântico ao Mar Índico. Viagem de Benguela à Contra-Costa, através de Regiões Desconhecidas
«Não tem pretensões a obra de literatura este livro. Escrito sem preocupação da forma, é a fiel reprodução do meu diário de viagem. Cortei nele muitos episódios de caçadas, e outros, que um dia no descanso, produziram um volume de carácter especial. Busquei sobre tudo fazer realçar o que mais interessante se tornava para os estudos geográficos e etnográficos, e se não me pude eximir a narrar um ou outro dos muitos episódios dramáticos que abundaram na minha fadigosa empresa, foi quando a esses episódios se ligavam factos consequentes, de importância, já para alterar o itinerário projectado, já determinando demoras, ou marchas precipitadas, que seriam incompreensíveis sem a exposição das causas determinantes. À Europa, e em geral ao homem que nunca viajou nos sertões do interior de África, não é dado compreender o que se sofre ali, quais as dificuldades a vencer a cada instante, qual o trabalho de ferro não interrompido para o explorador. As narrações de Livingstone, Cameron, Stanley, Burton, Grant, Savorgnan de Brazza, d’Abbadie, Ed. Mohr e muitos outros, estão longe de pintar os sofrimentos do viajante Africano. Difícil é compreendê-lo a quem o não o experimentou; àquele que o experimentou difícil é descrevê-lo.
Não tento mesmo pintar o que sofri, não procuro mostrar o quanto trabalhei, que me façam ou não a justiça de que me julgo merecedor aqueles que examinarem os meus trabalhos, hoje é isso para mim indiferente; porque me convenci, de que só posso ser bem compreendido pelos que como eu pisaram os longínquos sertões do continente negro, e passaram os maus tratos que eu por lá passei. Assim como só o homem que, sendo pai, pode compreender a dor pungente da perda de um filho, assim também só o homem que foi explorador pode compreender as atribulações de um explorador. Há sentimentos que se não podem avaliar sem se haverem experimentado. Os factos narrados neste livro são a expressão da verdade. Verdade triste muitas vezes, mas que seria um crime ocultar. Procurei apresentar nele os resultados de um trabalho aturado de muitos meses, e garanto o que digo sobre geografia Africana, porque só eu sou autoridade para falar nela na parte respectiva à minha viagem, em quanto outro não houver seguido os meus passos através de África, e não me convencer do contrário.
As minhas opiniões genéricas sobre um ou outro problema podem ser errôneas, são sujeitas à crítica, podem cair por terra com uma demonstração prática das futuras viagens, como tem acontecido a asserções de muitos dos meus antecessores os mais ilustres; mas o que não tem nem pode ter contestação, são os factos que eu vi, são aqueles que se referem aos países que percorri, e que descrevo neste livro com a consciência que deve sempre ditar as acções do explorador. Não fui à África ganhar dinheiro. Tive a mesquinha paga de oficial do exército e não quis outra. Abandonei uma família extremosamente querida; deixei a pátria e tudo para trabalhar, e só para trabalhar, em cooperação com os outros países, na grande obra do estudo do continente desconhecido, e tenho a consciência de que fiz tanto quanto podia fazer. Deixo aos homens de ciência e àqueles que são autoridades em tal matéria avaliá-lo. Ponho ponto neste assunto que parecerá filho de um orgulho que não tenho, mas factos insólitos aparecidos no decurso dos primeiros meses da minha residência na Europa, depois de ter completado a fadigosa jornada de África, ditaram as palavras que escrevi.
Há um ano que comecei a coordenar em livro os resultados dos meus trabalhos Africanos, mas uma pertinaz doença por vezes interrompeu a vontade que nutria de dar à estampa esses trabalhos. Principiado em Londres em Setembro de 1879, o meu livro foi quase todo escrito nos meses de Setembro e Outubro, de 1880, na Figueira da Foz, em Portugal. A pressa com que foi terminado contribuirá decerto muito para a incorreção da forma. A publicação dele é feita em Londres, onde encontrei na grande casa editora Sampson Low, Marston, Searle and Rivington, todas as facilidades que não pude obter fora dela. Estes cavalheiros não recuaram ante a enorme despesa a fazer com uma tão difícil e custosa publicação, e levaram a sua condescendência a fazer imprimir em Inglaterra a edição Portuguesa; trabalho dificílimo, porque a diferença das línguas dos dois países obrigou até à fundição de tipo, por causa dos sinais e acentos privativos do nosso idioma. Devo-lhes a maior gratidão pelo interesse que tem dedicado a esta publicação, para o mérito da qual, se é que ela tiver algum mérito, eles decerto concorreram muito. O sr. António Ribeiro Saraiva, que, apesar dos seus trabalhos e da sua avançada idade, me quis fazer o favor especial de rever as provas do livro; o sr. E. Weler, o cartógrafo, que se encarregou da gravura das minhas cartas geográficas; o sr. Cooper, que interpretou magnificamente os meus esboços de viagem nas gravuras que ilustram a obra, concorreram também decerto muito para o valor dela. Aí vai, pois, o livro, e só desejo que ele corresponda e sirva à curiosidade de uns e ao estudo de outros; e venha dar novos incitamentos à grande e sublime cruzada do século XIX, a cruzada da civilização do Continente Negro». In Londres, 61 Gower Street, 5 de Dezembro de 1880, Alexandre Serpa Pinto, Como eu Atravessei África, 1881, Projecto Livre, livro 502, Poeteiro Editor Digital, S. Paulo Brasil, Iba Mendes, 2014.

Cortesia de PoeteiroED/Iba Mendes/JDACT

domingo, 3 de julho de 2011

A Obsessão pela Natureza: «Outros dos elementos que melhor identificam o estilo nórdico é o profundo respeito que se professa pela Natureza. Trata-se de uma Natureza igualmente temida e amada, não tão idealizada como a romântica, mas igualmente violenta nos seus contrastes»



Cortesia de wikipedia 

«Se algo une as diversas figuras que a Noruega deu à História é o papel de destaque que nas suas vidas desempenha a Natureza, assumida em toda a sua imensidão e esmagadora força telúrica.
O estilo norueguês, ou numa visão mais ampla, o estilo nórdico, foi uma das «novidades» que deram ao mundo as vanguardas do século XX, que internacionalizaram uma estética e uma maneira de viver e de pensar que até finais do século anterior mal chegaram a ultrapassar as fronteiras dos povos escandinavos.

Simplicidade, calor e funcionalidade.
A popularidade conseguida por Amundsen depois dos seus êxitos expedicionários contribuiu de maneira notável para dar a conhecer um tipo de personalidade que haveria de ser muito valorizado no futuro imediato. A competição entre o inglês Robert Scott e o norueguês Roald Amundsen era em boa medida um confronto entre dois modos de aproximação ao mesmo projecto.
Na estratégia de Amundsen, por exemplo, incluía-se levar mais cães que o necessário na viagem de ida, para serem sacrificados no intuito de armazenar carne para o regresso, o que proporcionou uma maior força de tiro, diminuiu o peso da alimentação dos animais e assegurou a dos cães sobreviventes na viagem de volta.
Scott recusou esta estratégia por ser «moralmente inferior» à sua, baseada em cavalos mongóis, que tinham de carregar sacos com aveia para se alimentarem, o que aumentava o seu peso e as possibilidades de se enterrarem na neve.



Cortesia de wikipedia

Além disso, o suor congelava na sua pele. Outra grande qualidade do norueguês, era a simplicidade com que levava a cabo os projectos mais complexos. O explorador Nansen, ídolo da juventude de Amundsen, disse que este era a «própria simplicidade» e que «as suas façanhas levavam o sinal da naturalidade, e é difícil imaginar que pudessem realizar-se de outra maneira». Amundsen também ganhou a partida na sua habilidade para combater o frio mais inclemente. Ainda hoje, o estilo nórdico apresenta esses mesmos traços característicos:
  • simplicidade, calor e funcionalidade.
O poder da Natureza.
Outros dos elementos que melhor identificam o estilo nórdico é o profundo respeito que se professa pela Natureza. Trata-se de uma Natureza igualmente temida e amada, não tão idealizada como a romântica, mas igualmente violenta nos seus contrastes.



Edvard Munch
Cortesia de wikipedia

No mais fundo da motivação dos exploradores nórdicos radicava uma atracção pelo abismo, típica de quem experimentou a grandiosidade de uma natureza que convida a perder-se e a naufragar no seu interior.
Esta visão sagrada da Natureza, conservada nalgumas correntes «ambientalistas» nórdicas, pode observar-se até na pintura de outro norueguês de fama internacional do século XX, contemporâneo de Amundsen, Edvard Munch, cujas telas se enchem de mares e de céus embravecidos, árvores, bosques e rochas junto ao mar, luas, sóis... tudo elementos de um profundo simbolismo e de uma intensa expressividade.
Referindo-se à pintura de Munch, o escritor sueco Strindberg falou do mar como um «devorador de sóis», para evidenciar o papel do Sol na arte expressionista norueguês, que apresenta muitos cenários que têm lugar na moldura de um espectacular entardecer.
A última aventura.  Entre 11 e 14 de Maio de 1926, Amundsen fez parte, juntamente com a tripulação do dirigível Norge, do primeiro grupo humano a sobrevoar o Polo Norte. Em 1928, Amundsen desapareceu numa missão de resgate árctico para localizar outro dirigível, o Italia, capitaneado pelo seu antigo companheiro Nobile». In Wikipédia.

Cortesia de Wikipédia/JDACT

Roald Amundsen: «A sua «corrida contra-relógio» com o inglês Robert Scott, que Amundsen acabou por vencer ao chegar em primeiro lugar à meta, às três da tarde do dia 14 de Dezembro de 1911, é uma das aventuras mais admiráveis do século XX. Amundsen e Scott protagonizaram um duelo inesquecível»


(1872-1928)
Borge, Noruega
Cortesia de wikipedia

«Ao iniciar-se o século XX, restavampoucos desafios ao ser humano no que respeita à exploração do nosso planeta. Amundsen conseguiu superar três destes reptos:
  • navegar pela Passagem do Noroeste,
  • ser o primeiro a pisar o Polo Sul,
  • sobrevoar pela primeira vez o Polo Norte.
Roald Engelbregt Amundsen mostrou desde criança uma espantosa vontade de agarrar o que desejava como seu destino:
  • ser o grande explorador dos últimos confins da Terra.
Como as metas mais importantes que ficaram por conquistar eram as regiões polares, o menino Amundsen começou a preparar-se físicamente para vencer as condições mais adversas. Dormiu com a janela aberta em pleno Inverno desde os 8 anos para se habituar ao frio, começou a nadar nas gélidas águas norueguesas e a andar de bicicleta diariamente para se tornar competitivo, endurecer os músculos, melhorar o folgo e aumentar a sua resistência. Na sua juventude, apesar de acatar a imposição paterna de estudar medicina, Amundsen prosseguiu com o seu treino próprio de um atleta olímpico, à espera de poder cumprir a sua ambição de pioneiro.

Gjöa
Cortesia de wikipedia

Em 1893, depois da morte dos seus progenitores, com 21 anos e uma formidável preparação física e mental, Amundsen pôde finalmente entregar-se de corpo e alma à sua vocação de explorador. No seu entender, a maioria dos acidentes que tiveram lugar durante a exploração dos polos deviam-se à inexperiência dos capitães de navios naquelas latitudes. Assim sendo, ingressou na marinha norueguesa em 1894 e dedicou-se durante anos aos estudos científicos.
Em 1897, participou numa expedição belga à Antártida, onde a sua intervenção foi fundamental para salvar a vida dos marinheiros vitimados pelo escorbuto. Em 1903, já como navegador experiente, comprou um barco de pouco calado chamado Gjöa e, à frente de um grupo reduzido de exploradores, lançou-se na aventura de descobrir a mítica Passagem do Noroeste que une os oceanos Atlântico e Pacífico a norte do continente americano. Para dar a conhecer esta gesta, Amundsen realizou outra:
  • desembarcou e partiu com um trenó puxado por cães até ao telegráfico mais «próximo», situado em Eagle City, a 750 km de distância.
Na sua viagem através das terras do Alasca, que incluiu a travessia de uma cadeia de montanhas de 3000 metros de altitude, Amundsen conviveu com os esquimós, numa aprendizagem inestimável para as suas futuras expedições.


Cortesia de wikipedia

Após realizar o sonho de todos os exploradores desde a descoberta do Novo Mundo e de estabelecer a posição do polo magnético do Norte, Amundsen, com 36 anos, começou a preparar-se para a aventura árctica suprema:
  • a descoberta do Polo Norte.
No entanto, viu os seus planos frustrados em finais de 1909, quando o norte-americano Robert Peary garantiu ter chegado ao Polo Norte. No mesmo instante em que ficou a saber a notícia, Amundsen decidiu mudar o rumo da sua expedição... até ao polo oposto, pois, nessa altura, o Polo Sul passou a ser o último desafio polar. A sua «corrida contra-relógio» com o inglês Robert Scott, que Amundsen acabou por vencer ao chegar em primeiro lugar à meta, às três da tarde do dia 14 de Dezembro de 1911, é uma das aventuras mais admiráveis do século XX. Amundsen e Scott protagonizaram um duelo inesquecível. No entanto, a bandeira que ficou no extremo mais austral da Terra foi a norueguesa». In Gayban Grafie.

Cortesia de Gayban/JDACT