Mostrar mensagens com a etiqueta Família. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Família. Mostrar todas as mensagens

terça-feira, 14 de junho de 2016

Galveias. José Luís Peixoto. «A coisa sem nome permaneceu sozinha na herdade do Cortiço, no centro da cratera. Ao longo desse dia, sexta-feira, não recebeu vistorias. O toque de finados, repetido durante a tarde, tirou essa ideia àqueles que, por insensibilidade momentânea…»

jdact

«Escuta lá, de quem é que tu és filho? Sou o filho do Peixoto da serração e da Alzira Pulguinhas»

Janeiro de 1984
«(…) Está claro que não era. As palavras saíam-lhe da boca e ele sabia que não era. Lançou esse palpite sobretudo como expressão do espanto extraterrestre que ali se sentia. Poucas pessoas arriscavam sugestões. O doutor Matta Figueira, de fato, colete e gravata, acompanhado pelo Edmundo, em traje de tratar do jardim, botas de borracha, partilhava dessa cautela silenciosa. A coisa sem nome tinha caído no Cortiço. Os mais velhos lembravam-se dessa herdade já ter dado toda a espécie de cultivo. Naquela hora, estava coberta por um pasto verde, viçoso, próprio para ser apreciado. O caminho não custa: quem vá da vila ao monte da Torre, passa pelo campo da bola e encontra o Cortiço à esquerda, depois de passar pela Assomada e antes de chegar à Torre. Do outro lado da estrada, está a courela do Caeiro.
Era na courela que os perdais se refugiavam. Levantavam-se às vezes, aqui e mais além, num restolhar de penas. Como se quisessem desembaraçar-se de si próprios, aguentavam-se por dois ou três segundos errantes e voltavam logo a cair, vencidos pelo medo. Eram pardais que nunca tinham visto um ajuntamento daqueles. Os galveenses iam chegando em levas. Acercavam-se da cratera, avaliavam a forma da coisa sem nome, sentiam-lhe o calor e o cheiro, mas ignoravam-lhe o mistério. Muitos atravessavam os campos, iam de algum lado a algum lado. Outros juntavam-se em assembleia debaixo dos sobreiros. Às vezes, em ocasiões que passaram despercebidas, havia alguém a querer obrigar um cão a aproximar-se, a empurrá-lo ou a puxá-lo. Nunca conseguiam e acabavam por desistir. Os cães guardavam sempre mais força de vontade. Teriam sido capazes de virar-se contra os donos, não chegou a ser preciso. Ao longo do dia, entre a vila e a herdade do Cortiço, houve viúvas de todas as idades em ritmo de procissão e houve rapazes sem travões a acelerarem a fundo nas motas; houve carroças de mulas, onde os cachopos apanhavam boleias clandestinas, e houve burros arreados a levarem velhotes de pernas fracas e de ancas a dançar.
Nesse serão, os galveenses jantaram sopa de feijão com couve. A seguir, limparam a boca com uma peça de fruta e ficaram pensativos. Isto, claro, com a excepção daqueles que jantaram outra coisa, daqueles que não tinham fruta em casa e daqueles que estavam demasiado compenetrados em alguma tarefa para se distraírem com pensamentos. Uns deitaram-se mais cedo, outros deitaram-se mais tarde. A noite passou. Chegou a madrugada e, logo depois, chegou a manhã. Para muitos, despertar foi um alívio. Esse não foi o caso do ti Ramiro Chapa, que faleceu no posto de socorros ao toque da aurora.
A coisa sem nome permaneceu sozinha na herdade do Cortiço, no centro da cratera. Ao longo desse dia, sexta-feira, não recebeu vistorias. O toque de finados, repetido durante a tarde, tirou essa ideia àqueles que, por insensibilidade momentânea, colocaram a hipótese. Mas esteve também nas conversas na capela de São Pedro. Os homens do lado de fora, a aguentarem um frio que atravessava samarras; as mulheres lá dentro, em redor da presença deitada do defunto, embrulhadas em mantas que não as aqueciam, intoxicadas pelo cheiro a enxofre que, ali, se condensava com uma força que dava tonturas. Era como se o próprio homem, coitado, internado havia tanto tempo no posto de socorros, se tivesse transformado numa barra de enxofre. Foi só na manhã seguinte, depois do enterro, que chegaram novas visitas. Sem saberem como lidar com a coisa sem nome, sem compreendê-la, os mais desocupados e menos sensíveis de nariz regalaram-se a olhá-la. Então, exploradores, perceberam que podiam aproximar-se. O cheiro a enxofre lançava-se pelas narinas como pregos, mas o quente temperava a frieza daquela hora. Era uma dezena de homens com as palmas das mãos assentes sobre uma pedra. Nesse momento preciso, caiu a primeira gota. Logo a seguir, uma chuva mundial. Era o céu inteiro que chovia. Sem descanso, sem uma interrupção, noite e dia, exactamente com a mesma avidez, à bruta, choveu durante uma semana, sete dias seguidos. E todos se esqueceram da coisa sem nome, menos os cães». In José Luís Peixoto, Galveias, Quetzal Editores, Lisboa, 2014, ISBN 978-989-722-179-8.

Cortesia de Quetzal/JDACT

segunda-feira, 28 de março de 2016

Uma pequena vila. Galveias. José Luís Peixoto. «Quando voltou para o campo, aturando os caprichos da motorizada, o Cebolo passou por grupos que avançavam a pé e de bicicleta. Foi ultrapassado por motas mais adolescentes e, mesmo à beira de chegar…»

jdact

«Escuta lá, de quem é que tu és filho? Sou o filho do Peixoto da serração e da Alzira Pulguinhas»

Janeiro de 1984
«(…) A caminho da escola, os cachopos iam todos a coçar as ramelas e a torcer o nariz. Estavam ensonados e rabugentos com aquela manhã tão cinzenta, tão sem consideração pelas suas arrelias. Já na sala, arrumaram-se ao aquecedor de gás, a professora deu licença, e deram soltura às suas teorias. Forasteira, a professora ficou banzada com as cabeças dos cachopos e, nessa manhã, mandou-os para o recreio mais cedo. Achou que precisavam de correr. De madrugada, no alto da rua de São João, os homens e as mulheres firmaram-se e subiram com desenvoltura para os reboques dos tractores. E 1á seguiram para o campo sem grande paleio, sisudos, sentados em fardos de palha, a agitarem-se conforme os buracos da estrada e, se não fosse pelo cheiro cinzento a enxofre, quase a duvidarem que a noite anterior tivesse acontecido. As velhas, viúvas ou não, vinham para a porta de casa com a sua vassoura de mato. De rabo para o ar, começavam a varrer. Passava um instante e levantavam a cabeça para olhar em redor. Queriam dar fé e perceber se havia novidades. Esta incerteza demorou até meio da manhã.
Na torre da igreja, os sinos deram as dez. Estava a rodar essa música de sinos em perfeita afinação quando o Cebolo entrou de motorizada na vila. Era um motor preguiçoso, a gemer uma surdina de besouro, a falhar nas subidas, incerto, espécie de motor bêbado. Trazia o capacete enfiado na cabeça, mas levava a correia desapertada. Passava de olhos muito abertos, um mais aberto do que o outro. Quem o via, tão compenetrado, suspeitava. Quando parou no terreiro e pôs â motorizada na espera, os homens que estavam à porta do café do Chico Francisco ficaram só a olhar para ele. Com vagar, aproximou-se, deixou que passasse um momento e deu-lhes a notícia. Tresandava a uma mistura de enxofre e borregum. Ficaram doidos. Dois deles pegaram logo nas motas e seguiram juntos. Os outros espalharam-se: um desceu pela rua da sociedade, outro desceu pela rua da Fonte Velha, outro subiu em direcção ao Alto da Praça, outro foi para o lado do São Pedro. O Cebolo pouco se mexeu. A vitrina do café do Chico Francisco estava coberta por um tapume velho de contraplacado. Esse fundo deu ainda mais gravidade ao olhar do Cebolo. A notícia foi alastrando a partir do terreiro, como um incêndio, ou como água da chuva nas regadeiras, ou como a notícia de uma morte, ou como uma lata de tinta entornada.
Quando voltou para o campo, aturando os caprichos da motorizada, o Cebolo passou por grupos que avançavam a pé e de bicicleta. Foi ultrapassado por motas mais adolescentes e, mesmo à beira de chegar, foi ultrapassado pelo automóvel do doutor Matta Figueira. Quando essa nuvem de pó se desfez, o Cebolo teve de parar a motorizada para acreditar no que estava a ver. Dezenas de pessoas, centenas talvez, enchiam a herdade do Cortiço, atravessavam-na a passos largos. Contra o ligeiro abrandamento das ervas altas, dirigiam-se à cratera. Muitos rodeavam-na já. Julgando-se abandonadas, as cabras do Cebolo admiravam-se com aquele movimento de gente, levantavam um olhar de medo, coitadinhas, podiam mesmo ensaiar uma fuga espantada se alguém fizesse um gesto mais brusco, mas não chegavam a sair do lugar.
O terreno apresentava uma cratera redonda e inédita: um círculo com um diâmetro de uma dúzia de metros, mais ou menos, abatido a cerca de um metro abaixo do resto da terra. Era como se um martelo gigante tivesse afundado aquele disco. No centro, a coisa sem nome, imóvel, vaidosa, a exibir-se. Aqueles que tinham descido o degrau e feito menção de se aproximar, não aguentaram o calor. Mesmo à distância, a coisa sem nome difundia um calor ardente, que corava as faces e secava a boca. O cheiro a enxofre era quase irrespirável. Muitos tapavam a boca com lenços de assoar ou com a palma da mão. Ali, nunca ninguém tinha visto nada que pudesse comparar com aquilo. Rodeado por alguns dos seus filhos, o Cabeça estava lá, embasbacado. Se calhar, é um bocado de sol, disse». In José Luís Peixoto, Galveias, Quetzal Editores, Lisboa, 2014, ISBN 978-989-722-179-8.

Cortesia de Quetzal/JDACT

quarta-feira, 23 de setembro de 2015

Uma pequena vila. Galveias. José Luís Peixoto. «As velhas, de xaile pela cabeça, só a mostrarem os olhos e a ponta da testa, foram as primeiras a recolher-se. O frio acabou por vencer aquela meia hora, invernia de má raça»

jdact

«Escuta lá, de quem é que tu és filho? Sou o filho do Peixoto da serração e da Alzira Pulguinhas»

Janeiro de 1984
«(…) Só a ti Adelina Tamanco, arrumada ao poial de casa, sussurrava que tinha sido muita força de bruxedos. Não queria que se ouvisse porque sabia que a viva voz chamaria esses bruxedos e, dava para ver, tratava-se de trabalhos feios, horrorosos, que ninguém quereria para si, Deus livre. O Joaquim Janeiro dizia que era a guerra, os americanos, filhos de um rancho de pu… Cada um dizia o que queria, mesmo sem noção. A ti Inácia, arrumada à casa do prior, defendia que tinha sido o Espírito Santo. Afirmava isto e ficava a olhar para o padre Daniel, à espera de comentário que a apoiasse, mas ele fingia que não ouvia e foi o primeiro a queixar-se de frio, realmente estava fresco. Em frente à loja do Bartolomeu, o próprio Bartolomeu, com umas ceroulas bastante manchadas, acreditava que tinha sido uma trovoada eléctrica.
Segundo ele, era um jeito de tempestade, mas com trovões, tipo bombo, e eléctrica. Um terramoto? Chegou a falar-se nisso à porta da loja, mas não deixaram que tivesse um segundo de lógica porque, se fosse um terramoto, o chão teria tremido. As certezas eram muito miúdas, tinham de ser catadas com a pontinha dos dedos. A ti Silvina, à porta da casa dela, puxou a menina Aida e disse-lhe que sabia de onde vinha aquele caso. Quando a outra se dispôs a ouvir, após uma pausa de expectativa, disse-lhe que eram as obras do metro. No Verão, quando a filha veio de férias, contou que lá na Inglaterra andavam a fazer obras do metro ao pé da casa dela e não havia sossego, era um transtorno tal e qual como aquele. A menina Aida continuou a olhar para ela muito séria e encolheu os ombros. Sim, talvez andassem a fazer obras do metro, era uma possibilidade.
As velhas, de xaile pela cabeça, só a mostrarem os olhos e a ponta da testa, foram as primeiras a recolher-se. O frio acabou por vencer aquela meia hora, invernia de má raça. Quando começaram a repetir assunto, as pessoas foram-se apercebendo das orelhas geladas, dos pés gelados, da maré de gelo que entrava por debaixo da roupa e se esfregava até nos refegos mais agasalhados. As crianças custaram a voltar para casa. Estavam já prontas para ficar ali o resto da noite. As mulheres da boîte quiseram aproveitar para seduzir clientela, prometeram bebida de borla e alguns favores sem compromisso. Sem saber para onde se virar, o Miau andava atrás delas, com a língua de fora, a rir-se sozinho. Quem se esforçou mais nesses sorrisos foi a Isabella, brasileira de camisola caicai e com uma mancha de farinha nas calças de licra, a cobrir-lhe a nalga direita. Fazia lembrar as brasileiras das telenovelas, mas não teve sorte. Havia muita gente a olhar para que algum tivesse a ousadia de seguir o convite. Além disso, o pessoal andava pouco abonado. Além disso, era pouco provável que alguém estivesse com disposição. A mãe do Miau chegou à procura dele e conseguiu levá-lo. Mas o último a entrar em casa foi o Catarino. Quando os vizinhos fecharam as portas, foi buscar a motorizada à garagem. A avó tentou dissuadi-lo: Ó Nuno Filipe, vai-te deitar, rapaz. Mas não se empenhou a fundo porque sabia que não valia a pena. O Catarino passou devagar por todas as ruas da vila, mas já não encontrou ninguém». In José Luís Peixoto, Galveias, Quetzal Editores, Lisboa, 2014, ISBN 978-989-722-179-8.

Cortesia de Quetzal/JDACT

segunda-feira, 31 de agosto de 2015

Uma pequena vila no 31. Galveias. José Luís Peixoto. «O ar estava coberto por um sólido cheiro a enxofre. Era como se a própria noite tivesse essa consistência, como se fosse aquele cheiro agreste a dar-lhe cor. Debaixo desse veneno, os galveenses não puderam encher os pulmões…»

jdact

«Escuta lá, de quem é que tu és filho? Sou o filho do Peixoto da serração e da Alzira Pulguinhas»

Janeiro de 1984
«(…) Sem que o soubessem, guardavam sintonia com um ritmo maior do que as paredes à sua volta. Logo quando começaram, em cadência incerta, ou depois quando continuaram a uma velocidade mecânica, tipo comboio, ou mesmo quando se dirigiram para o fim com estocadas rápidas, as duas cinturas a baterem palmas côncavas, toc, toc, toc, dirigiam-se já para aquele ponto no tempo. Em sincronização perfeita, o Sem Medo e a mulher receberam uma onda de prazer e de glória, que os varreu durante um minuto inteiro e que coincidiu, segundo após segundo, com a explosão que se sentiu em Galveias. Por isso, ao contrário de todos, quando o Sem Medo saiu de cima da mulher, estavam os dois arrasados de profunda satisfação.
Muitos acharam que era o fim do mundo, principalmente o padre Daniel, que acordou ainda baralhado da bebedeira, com a cara espalmada de encontro à mesa da cozinha. Com a face crivada de migalhas de pão duro. Como uma buzina feita de morte, a explosão cobriu os gritos por completo. A maioria dos galveenses desconhecia um barulho tão bruto, não sabia que era possível. Alguns, por instinto, passaram esse minuto a gritar. Sem possibilidade de raciocínio, sentiram que se ouvissem a sua voz estariam a controlar a situação. Ao mesmo tempo, seria sinal de que estavam vivos. Mas, com a garganta em esforço, não chegavam a escutar-se sequer dentro da cabeça. Abriam a boca, gritavam e, apesar de sentirem a vibração da voz, o sangue a palpitar nas têmporas, os olhos quase a rebentarem, não ouviam nada. Quando o barulho terminou, ficou um silêncio insistente, um guincho nos ouvidos. Então, podiam ter gritado, mas aquele já não era tempo de gritos, era hora de respirar. Por isso, todos foram para a rua, velhos, crianças, mulheres, homens com a barba por fazer.
O ar estava coberto por um sólido cheiro a enxofre. Era como se a própria noite tivesse essa consistência, como se fosse aquele cheiro agreste a dar-lhe cor. Debaixo desse veneno, os galveenses não puderam encher os pulmões mas, em roupa de cama ou roupa de casa, malvestidos, apreciaram o frio, soube-lhes bem na pele. Tinham sobrevivido. A meio da noite, as portas abertas de todas as casas da vila, luz entornada, e as ruas cheias, mulheres de camisa de noite, homens de ceroulas, contentes por se verem uns aos outros. Estavam alarmados e magoados mas, assim que dividiram o peso dessa aflição por todos, o alívio foi imediato. Houve quem começasse a sorrir logo ali. Ninguém tinha respostas. Do Queimado à Amendoeira, no Alto da Praça, na Deveza, na Fonte, as ruas estavam cheias de gente a expulsar de dentro de si o susto. Sob o trauma dos estrondos e o cheiro a enxofre, falavam sem parar. Perdiam o sentido, mas não perdiam a oportunidade. Àquela hora, bem passava da meia-noite, em Janeiro, as ruas estavam cheias de gente a falar. Todos queriam dizer alguma coisa. Quando parecia que estavam compenetrados, não estavam realmente a ouvir, estavam só à espera de vez, à espera de um bocadinho vago para entrarem com o que tinham a dizer. Até as crianças, ignoradas pelos crescidos, procuravam-se e arregalavam os olhos. Dentro do segredo, entre as sombras, os cães cheiravam-se uns aos outros, murchos, magoados, de orelhas descaídas, como se tentassem consolar-se de uma tristeza infinita.
Na fachada do Matta Figueira, na rua da Fonte Velha, o candeeiro estava tombado, de pescoço partido, cabeça caída, sem préstimo. Era um candeeiro de estimação, pendia daquela parede desde épocas em que o pavio era aceso todas as noites. E, sim, o próprio Matta Figueira estava na rua, dois passos diante da sua porta, e estava também a senhora, e também o filho, menino Pedro, também a nora e o neto. Como se posassem para uma fotografia. Apesar de terem acordado de imprevisto como toda a gente, estavam bem penteados e passados a ferro. Essa solenidade contagiava os vizinhos. Até o Acúrcio e a mulher, do outro lado da rua, vestidos com a roupa com que atendiam todos os dias na taberna, nódoas de vinho tinto, estavam em sentido, mas sem convicção. O cabo da guarda, vindo do lado do terreiro, foi direito ao Matta Figueira. Em tom de relatório, não tinha explicações seguras. De olhar baixo, lamentava muito, pedia desculpas, quase como se assumisse responsabilidade da ocorrência. O doutor não o desculpou logo. Não podia esquecer com tanta facilidade um incómodo daquela dimensão. A sua família, como era visível, tinha sido bastante atingida. Além disso, havia a situação do candeeiro. O cheiro a enxofre engelhava a cara das pessoas em toda a vila». In José Luís Peixoto, Galveias, Quetzal Editores, Lisboa, 2014, ISBN 978-989-722-179-8.

Cortesia de Quetzal/JDACT

quinta-feira, 11 de junho de 2015

Galveias. José Luís Peixoto. «O João Paulo parecia ter um certo gosto em apontar para o portão de ferro. Rodeado de motas e de bocados de motas, os olhos brilhavam-lhe. Sempre que fosse preciso, limpava as mãos a um esfregão de desperdício…»

jdact

«Escuta lá, de quem é que tu és filho? Sou o filho do Peixoto da serração e da Alzira Pulguinhas»

Janeiro de 1984
«(…) Durante um minuto inteiro, Galveias foi atravessada por uma sucessão de explosões contínuas, sem um intervalo pequeno, sem uma folga. Ou também é possível que tenha sido uma só explosão, longa, a durar um minuto inteiro. Em qualquer dos casos, explosões ou explosão, chegou como um pau espetado no peito, como o terror durante um minuto, Segundo a segundo a segundo. Foi como se a terra estivesse a partir-se ao meio, como se o planeta inteiro estivesse a partir-se: uma rocha do tamanho deste planeta, dura e negra, basalto, a partir-se. Ou talvez fosse o céu, feito dessa mesma rocha, a partir-se em duas partes maciças, mas separadas sem remédio. Talvez esse céu, tantas vezes dado como seguro, estivesse desde sempre à espera daquele momento. Talvez aquela explosão do além trouxesse solução às perguntas mal respondidas. A vitrina do café do Chico Francisco estourou numa remessa de pedaços mais pequenos do que uma unha. Era vidro grosso, com muitos anos em cima. Um dos homens que lá estava, o Barrete, disse que viu a vitrina formar uma bola no centro, conforme uma bola de futebol, disse que só depois se desfez em todas as direcções. Pode calcular-se o estrondo de um caso desses, mas não é garantido que tenha sido mesmo assim. A vitrina era transparente e muitos duvidaram que, àquela hora da noite, alguém lhe conseguisse distinguir formas. Além disso, o Barrete era amigo do branco, do tinto e da pinga de qualquer cor, e a vitrina com formato de bola já parecia muita história. O Barrete ficava ofendido se alguém duvidava e, como prova, tinha uma ferida funda, fresca, que abria com a ponta dos dedos para mostrar. Tinha sido feita por um caco de vidro espetado no antebraço. Só conseguiu proteger-se a tempo porque estava a olhar para a vitrina quando rebentou. Segundo ele, o caco de vidro ia-lhe direito à vista.
O João Paulo parecia ter um certo gosto em apontar para o portão de ferro. Rodeado de motas e de bocados de motas, os olhos brilhavam-lhe. Sempre que fosse preciso, limpava as mãos a um esfregão de desperdício e contava que, quando tudo começou, estava a mexer na motorizada do Funesto. Concordava que tinha parecido o fim do mundo, mas afiançava que nem se lembrara de medo. Acreditou que eram uns sujeitos da Ervideira a procurá-lo. Tinham ficado incomodados com uma série de habilidades que fez à porta de um baile em Longomel ou na Tramaga, já não se lembrava bem. Achou que estavam três ou quatro desses malandros a dar pontapés no portão da oficina. Por fim, tinham vindo cumprir a ameaça. Enfiou um capacete, agarrou numa chave inglesa das maiores e avançou sobre o portão. Assim que o abriu, levou com ele de chapa nos dentes, voou atordoado e bateu despedido com as costas no cimento. Este era o ponto em que se ria mais alto. Ria-se à gargalhada, forçando aqueles que o ouviam a rir também. De olhos espantados, riam por cortesia. Só as gargalhadas dele eram sinceras. Estas eram conversas fáceis de vários dias depois. Na hora, ao longo daquele minuto inteiro, as pessoas mudaram de cor. Durante o apocalipse, ninguém tem espírito para graças. Identificando essa gravidade, o Sem Medo ouvia as descrições feitas pelos homens do terreiro, encolhia os ombros e admirava-se em silêncio. Perante as mesmas histórias, contadas por vizinhas, a mulher do Sem Medo escancarava os olhos, desentupia os ouvidos com o mindinho, e calava-se também. Na hora do sucedido, estavam nus, na cama, a pensarem noutros temas». In José Luís Peixoto, Galveias, Quetzal Editores, Lisboa, 2014, ISBN 978-989-722-179-8.

Cortesia de Quetzal/JDACT

sábado, 29 de novembro de 2014

Galveias. José Luís Peixoto. «Galveias e todos os planetas existiam ao mesmo tempo, mas mantinham as suas diferenças essenciais, não se confundiam: Galveias era Galveias, o resto do universo era o resto do universo»

jdact

«Escuta lá, de quem é que tu és filho? Sou o filho do Peixoto da serração e da Alzira Pulguinhas»

Janeiro de 1984
«Entre todos os lugares possíveis, foi naquele ponto certo. O serão ia adiantado e sem lua, só estrelas geladas a romperem o opaco do céu, espetadas a partir de dentro. Galveias descaía lentamente para o sono, os pensamentos evaporavam-se. A escuridão era muito fria. Ao longo das ruas desertas, os candeeiros entornavam cones de luz amarela, luz fosca, engrolada. Passavam minutos e quase podia haver silêncio, mas os cães não deixavam. Ladravam à vez, de uma ponta da vila à outra. Cães novos, sozinhos em quintais, a gritarem latidos que terminavam em uivos; ou rafeiros moribundos de sarna, encostados ao lado de fora de um muro e a levantarem a cabeça apenas para lamentar a noite, revoltados e fracos. Se alguém estivesse a prestar atenção àquela conversa , talvez enquanto adormecia entre lençóis de flanela, seria capaz de distinguir a voz de cães maiores e mais pequenos, cães ariscos, nervosos, estridentes ou de voz grossa, gutural, animais pesados como bois. E um cão lá longe, a ladrar sem pressa, o som do seu discurso alterado pela distância, erosão invisível; e um cão aqui perto, demasiado perto, a raiva do bicho quase a levantar uma espertina no peito; mas depois um cão noutra ponta da vila e outro noutra e outro noutra, cães infinitos, como se desenhassem um mapa de Galveias e, ao mesmo tempo, assegurassem a continuação da vida e, desse jeito, oferecessem a segurança que faz falta para se adormecer. Lá do alto, do cimo da capela de São Saturnino, Galveias era como as brasas de um lume a apagar-se, cobertas de cinza e imperturbáveis. Mesmo como as brasas de um lume, certas chaminés largavam fios de fumo muito direitos: gente que ainda estava acordada, a espicaçar restos de fogo com conversas ou cismas. Mas as casas, noite e janeiro, firmavam-se no chão, faziam parte dele. Rodeada por campos negros, pelo mundo, Galveias agarrava-se à terra.
No espaço, numa solidão de milhares de quilómetros onde parecia ser sempre noite, a coisa sem nome deslocava-se a uma velocidade impossível. O seu sentido era recto. Planetas, estrelas e cometas pareciam observar a decisão inequívoca com que avançava. Eram uma assembleia muda de corpos celestes a julgar com os olhos e com o silêncio. Ou, pelo menos, essa impressão era provável porque a coisa sem nome atravessava a lonjura do espaço com uma velocidade de tal ordem, de tal indiferença e desapego que todos os astros pareciam estáticos e severos por comparação, todos pertenciam a uma imagem nítida e pacífica. Assim, o mesmo universo que a lançara, que a insuflara de força e direcção, assistia suspenso ao seu percurso. Existia o ponto de onde tinha partido, mas cada segundo destruía um pouco mais a memória desse lugar. Aquela sucessão de instantes compunha um tempo natural, isento de explicações. Passado sim, futuro sim, no entanto aquele presente impunha realidade, era composto apenas por ambições límpidas. E nem a violência que a coisa sem nome fazia ao rasgar caminho conseguia sobrepor-se à tranquilidade da sua passagem, distante de tudo e, mesmo assim, integrada numa arrumação cósmica, simples como respirar. Avisados por um alerta secreto, os cães calaram-se durante um instante que não dava mostras de fim. O fumo das chaminés paralisou-se ou, se continuou, seguiu uma linha imperturbável, sem sobressaltos. Até o vento, que se entretinha apenas com o barulho de alisar as coisas, pareceu conter-se. Esse silêncio foi tão absoluto que suspendeu a acção do mundo. Como se o tempo soluçasse, Galveias e o espaço partilharam a mesma imobilidade.
E até aqueles que estavam sozinhos nas suas casas, esparramados numa soneira ou distraídos na última tarefa do dia: pousar o púcaro de esmalte no armário, esticar o dedo para desligar a televisão, descalçar as botas. Todos mantiveram a sua posição única e todos ficaram parados no acto que os ocupava. Até a Lua, onde quer que estivesse, invisível naquela noite. Até o adro da igreja, lá no alto, com vista para a Deveza, imóvel como a estrada de Avis. E os campos em redor, trevas arborizadas, a estenderem-se até à Aldeia de Santa Margarida, conforme se sabe, e imóveis também. Até o terreiro. Até o jardim de São Pedro e a estrada de Ponte de Sor, a recta da tabuleta. Até a rua de São João. Até o monte da Torre e a barragem da Fonte da Moura, até o Vale das Mós e a herdade da Cabeça do Coelho. Galveias e todos os planetas existiam ao mesmo tempo, mas mantinham as suas diferenças essenciais, não se confundiam: Galveias era Galveias, o resto do universo era o resto do universo. E o tempo continuou. Tudo muito de repente. A coisa sem nome continuou à mesma velocidade desmedida, como um grito. Quando entrou na atmosfera da terra, já não tinha o planeta inteiro à sua disposição, tinha aquele ponto certo». In José Luís Peixoto, Galveias, Quetzal Editores, Lisboa, 2014, ISBN 978-989-722-179-8.

Cortesia de Quetzal/JDACT