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segunda-feira, 16 de janeiro de 2017

Histórias de um Portugal Assombrado. Vanessa Fidalgo. «Felismina era ainda uma menina quando foi viver para aquela casa. Aquela que todos diziam ser a casa dos medos, apesar de ser uma pequena e humilde casa algarvia»

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A minha casa está assombrada
«(…) Ansiosa, abanou vigorosamente o marido, obrigando-o a acordar. José, agricultor humilde e bonacheirão de uma aldeia próxima de Cabeceiras de Basto, é que não estava para conversas àquela hora da madrugada. Deu meia-volta na cama, ajeitou a almofada e disse-lhe para continuar a dormir. Dorme mulher. Não é nada! Palavras vãs, pois Ana continuava assustada, como se uma torrente de ansiedade e temor tivesse tomado conta do seu corpo e da sua mente e fosse agora impossível de conter. Abriu muito os olhos, tentando focar melhor na escuridão e então pareceu-lhe que o rato tinha voltado, mas desta vez com o dobro do tamanho! Ainda por cima, começou a crescer, a crescer, depressa ocupando todo o quarto. A mulher amedrontada voltou a insistir com o marido, que desta vez se zangou. O Zé acorda, olha este rato enorme e está a crescer, disse quase desabando num pranto. José nem sequer lhe respondeu, pois talvez já tivesse embalado novamente no sono. Ana acabou por tapar a cabeça, concentrou-se nas suas orações com todas as forças que tinha e que não tinha e, mesmo sobressaltada, lá acabou por adormecer. Na manhã seguinte, o assunto veio à mesa juntamente com o pequeno-almoço. Ana insistia na sua visão, o marido impacientava-se e estalou a discussão, não daquelas feias que apartam os sentimentos e magoam os corações, mas das rezingonas, que levam as pessoas a proferir frases como lá estás tu outra vez ou tu nunca me ouves em vez de olharem de frente para um problema que, diga-se em abono da verdade era totalmente novo. Todo o dia não lhe saiu a ideia da cabeça a ela e, de vez em quando, insistia com o marido. Ao serão, antes de se deitar, manifestou medo, mas José escolheu não ligar. No entanto, lá no fundo do seu coração, que já há tanto tempo amava aquela mulher, estava a ficar algo preocupado com ela. E o bom homem tinha, de facto, razões para isso. Nessa mesma noite, Ana voltou a encontrar um rato no seu leito. A certa altura, contaria ela depois à parapsicóloga Maria Luísa Albuquerque, que o rato era quase do tamanho do quarto e começou abater insistentemente com a pata na madeira rugosa da cama. Acordou o marido outra vez aos safanões, mas sem sequer dar por isso, tal era o pânico que se apoderara do seu peito. E dessa vez, ele não viu
nada mas ouviu as tais pancadas e começou então a partilhar do susto da mulher, fazendo finalmente jus à promessa que há mais de trinta anos lhe fizera de a acompanhar nos bons e nos maus momentos. Depois da renitência inicial, agora era José quem precisava de resolver o problema que era coisa do diabo, do outro mundo ou fosse lá o que fosse, mas que queria bem longe da sua casa. E assim que se decidiu, meteu-se ao caminho para ir falar com o padre da paróquia, pedindo-lhe que lhe benzesse a casa. O padre franziu o sobrolho à demanda, mas lá anuiu ao pedido.
Só que apesar de todas as rezas, velas e promessas que dona Ana fez aos santinhos de que era mais devota, o rato teimava em aparecer e até mesmo para o marido José, que já andava tão ou mais assustado do que a mulher. Aconselharam-nos a consultar uma parapsicóloga. Alguns dias depois, Ana e José fizeram-se ao caminho e só pararam no consultório de Maria Luísa Albuquerque, no Porto. Era uma tarde morna de Primavera, o consultório estava cheio, mas vendo que o pobre casal continuava num estado de grande excitação e ansiedade, Maria Albuquerque optou por começar a aplicar algumas técnicas de relaxamento na mulher, numa pequena salinha interior no consultório que serve precisamente tais propósitos. De repente, ouve-se na parede ao lado do divã onde a paciente estava deitada, um enorme estrondo, como se um potente chicote tivesse acabado de estalar contra a parede. O ruído não passou sequer despercebido a quem aguardava na sala de espera, e até a especialista se assustou, dando um salto na cadeira, pois não esperava tal manifestação daquilo que na sua opinião não se trata de uma assombração mas sim de uma manifestação da energia mental de Ana, que acabou por contagiar o marido pelo seu poder de sugestão. Ana, que nada entendia dessas ciências, voltou-se para a parapsicóloga e disse-lhe com um ar surpreendentemente calmo: creio que desta ele foi-se embora. Agora já acredita em mim?

A casa do medo I
Felismina era ainda uma menina quando foi viver para aquela casa. Aquela que todos diziam ser a casa dos medos, apesar de ser uma pequena e humilde casa algarvia, térrea e pequena, pintada de branco e com um pequeno quintal. Uma casa parecida com todas as outras em que Felismina já tinha morado na aldeia de Marim, porque a mãe gostava de mudar de casa, exceptuando talvez na má fama que corria de boca em boca». In Vanessa Fidalgo, Histórias de um Portugal Assombrado, 2012, A Esfera dos Livros, Lisboa, 2012, ISBN 978-989-626-371-3.

Cortesia de EdosLivros/JDACT

quarta-feira, 4 de janeiro de 2017

Histórias de um Portugal Assombrado. Vanessa Fidalgo. «A ciência defende ainda que as ondas sonoras de baixa frequência podem fazer os seres humanos experimentar sensações de incómodo como calafrios, pânico e a sensação de estar a ser vigiado»

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A minha casa está assombrada
«(…) Carlos Lucas, da Associação de Divulgadores do Espiritismo em Portugal, garante que a maioria das referências a casas assombradas são, na verdade, relatos de fenómenos espíritas, ou seja, interferências do mundo espiritual no mundo corpóreo. O espírita português, de 47 anos, militar da Força Aérea, defende ainda que todos podemos sentir manifestações de fantasmas em qualquer momento: todos nós somos médiuns, ou seja, possuímos uma percepção extrassensorial, em maior ou menor escala, o chamado sexto sentido. Este é um sentido que vai além dos cinco tradicionais, e que permite captar o estado vibracional do mundo espiritual, como ouvir vozes de pessoas que vivem no mundo espiritual, ver caras ou pessoas falecidas, escrever ou falar em transe. Recordo-me das cartas do escritor Fernando Pessoa à sua tia Anica, em que ele escrevia: esta mediunidade que me atormenta e me faz levantar a altas horas da madrugada e escrever contra a minha vontade. Tal frase faz pensar se os seus heterónimos seriam espíritos de escritores que através dele materializavam a sua escrita, afirma, acrescentando que quem testemunha assombrações geralmente desconhece que tem capacidade mediúnica.
Quem não aceita qualquer uma destas teorias é o padre católico António Fontes, que há 27 anos impulsiona o Congresso de Medicina Popular de Vilar de Perdizes, em Montalegre, onde curiosamente vive numa casa à qual o povo atribuiu diversas assombrações. Começando por esclarecer que a Igreja Católica não aceita tais teorias, reconhece que muitos são os fiéis que recorrem à Igreja para resolver alegados problemas com almas do outro mundo. Quando isso acontece, explicamos que tudo não passa de uma ilusão. A pessoa viu mas na realidade não estava lá, era apenas produto da sua imaginação. Não pratico rezas, nem exorcismo, apesar de já mos terem requisitado. Eu próprio moro numa casa dita assombrada... Nunca lá vi nada de estranho. São vozes de boatos do povo. Que, pelos vistos, não chegam aos céus.
A ciência, livre dos dogmas, não disfarça o seu cepticismo sobre uma questão que já levou ordas de cientistas de várias áreas disciplinares ao terreno para testar a veracidade das crenças sobre locais assombrados. Invariavelmente, concluíram que presenciar fantasmas é uma consequência das próprias limitações perceptivas do homem. As percepções têm quase sempre explicações banais: por exemplo, as mudanças de pressão atmosférica podem fazer portas bater. As luzes de um carro reflectidas através de uma janela ou espelho facilmente criam, vultos e sombras que se deslocam. A pareidolia, um tipo de apofenia que consiste num fenómeno psicológico que resulta de um estimulo vago e aleatório que é percebido como algo significativo, é outras das explicações possíveis apontadas pelos cientistas, enquanto à sensibilidade da visão periférica do homem pode resultar nuns quantos falsos fantasmas mirados pelo canto do olho.
Investigadores como Michael Persinger, da canadiana Laurentian University, concluíram que as mudanças nos campos geomagnéticos (provocadas pela pressão do núcleo terrestre ou actividade solar) também podem estimular os lobos temporais do cérebro e produzir muitas das experiências associadas a fantasmas. A ciência defende ainda que as ondas sonoras de baixa frequência podem fazer os seres humanos experimentar sensações de incómodo como calafrios, pânico e a sensação de estar a ser vigiado. O único problema são aqueles que já as sentiram na pele, como os protagonistas dos relatos que se seguem, pois para eles não há ciência, religião ou equívoco que justifique tamanho arrepio... Uma vida inteira sem grandes preocupações, vivida na placidez do campo e isenta de correrias e alaridos, admite que se contem pelos dedos de uma mão as vezes que dona Ana passou uma noite em vigília. E quando isso aconteceu foi quase sempre por causa dos filhos, aos quais embalou febres, prantos e dores nos tempos idos da infância. Mas agora que eles já tinham seguido com a sua vida, longe da casa e do regaço materno, dona Ana não conhecia sequer o significado da palavra insónia. Por isso, ainda mais estranho foi quando, certa noite, sem que houvesse razão que o justificasse, a sexagenária acordou sobressaltada, com um pesadelo. Meio ensonada, olhou para as sombras do quarto e, ainda sob o efeito dormente do sono, viu um rato, coisa que na verdade até nem seria de estranhar numa casa que já não era propriamente nova e rodeada de campos cheios de batata, milho e trigo, verdadeiras iguarias para o apetite voraz dos roedores. Só que Ana, pelos vistos, não gostava de ratos, muito menos dentro de casa e à beira da sua cama». In Vanessa Fidalgo, Histórias de um Portugal Assombrado, 2012, A Esfera dos Livros, Lisboa, 2012, ISBN 978-989-626-371-3.

Cortesia de EdosLivros/JDACT

Histórias de um Portugal Assombrado. Vanessa Fidalgo. «A morte, enquanto interrogação universal sobre o que acontece depois da vida, parece ser o princípio deste fenómeno cultural universal»

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A minha casa está assombrada
«(…) Casa assombrada, é o aparatoso título que usualmente se atribui a um edifício onde acontecem situações insólitas que, sem uma razão plausível, acabam por ser atribuídas à manifestação de entidades sobrenaturais, vulgo fantasmas ou fenómenos de poltergeist, de acordo com a terminologia alemã. O assunto é obviamente controverso e susceptível de muitas crenças e descrenças. Já para não falar em acesas discussões. Mas as histórias de fantasmas existem desde que o mundo é mundo, longe ou aqui mesmo ao lado, e continuam a causar calafrios e interrogações, apesar do estado de conhecimento e progresso que a civilização actual alcançou. Há casos mundialmente famosos relatados pela parapsicologia, como o da célebre mansão de Raynham Est, em Norfolk (Inglaterra), onde foi tirada a foto da silhueta enevoada da badalada Dama de Marrom a descer as escadas. Apregoa-se que o fantasma visto na fotografia é de Dorothy Townshed, trancafiada pelo marido numa ala da casa por suspeitas de traição. Dorothy morreu oficialmente de varíola, porém, muitos acreditam que o marido vingativo a empurrou escadaria abaixo, sítio onde ela ainda procura o filho de cinco anos. Divulgada em centenas de livros, jornais e revistas pelo mundo fora, esta fotografia passou a ser talvez a mais famosa imagem de um fantasma, num mundo sequioso de provas materiais. Há também o caso de Amityville, onde reza a história que em 1976 a família Lutz foi severamente atormentada por espíritos durante os curtos 27 dias que viveu numa casa da pequena cidade norte-americana e onde se ouvia constantemente o som de uma banda marcial a tocar. Esta narração, muito popular em terras do tio Sam foi, aliás, passada para a tela com o nome de Horror em Amityville, o que lhe valeu um estatuto mítico no ranking dos sítios mais assombrados do mundo.
Mas o que é afinal um fantasma? Para começar, é um conceito que a maioria teme, alguns desprezam e outros tantos já tentaram explicar. Também denominado por espectro, aparição ou alma penada, baseia-se na ideia de que o espírito existe separadamente do corpo e, portanto, quando a matéria morre, o espírito perdura. Reside precisamente nesta crença, comum a várias filosofias e religiões, o tradicional hábito da cerimónia fúnebre, enquanto conjunto de rituais que concedem o eterno descanso àquele que deixou o mundo dos vivos, assegurando-se assim que não volte para assombrar os vivos. A mais usada frase dos obituários, descanse em paz, comprova a crença. A morte, enquanto interrogação universal sobre o que acontece depois da vida, parece ser o princípio deste fenómeno cultural universal, julga a antropologia. Mas os fantasmas e, por conseguinte a existência ou não de casas assombradas, são um tema que obviamente nada tem de consensual. O catolicismo rejeita-os veementemente e a ciência encara-os com grande cepticismo. A parapsicologia, que se dedica concretamente ao estudo e análise de tais fenómenos, atribui-os à energia somática. Outras correntes filosóficas, como a doutrina espírita, admitem não só a existência do espírito como a possibilidade de se poder com ele comunicar. Um imbróglio para quem tentar procurar a verdade ao fundo do túnel.
O nosso corpo tem energia, que se transforma segundo os efeitos que realiza. É energia motora quando anda, energia sonora quando fala, etc. Mas em períodos particularmente difíceis da vida, a energia emanada pelo ser humano pode produzir fenómenos de efeito físico, como mexer pequenos objetos inconscientemente, aos quais a parapsicologia dá o nome de telergia. À libertação dessa mesma energia chama-se psicorragia. Esses fenómenos sobrenaturais nunca acontecem, todavia, a mais de cinquenta metros da pessoa que o produz, sendo mais frequentes a cinco ou seis metros. Quer isso dizer que não existem casas assombradas, apenas fenómenos energéticos produzidos pelas pessoas que estão dentro delas. As assombrações são um produto dos vivos e não dos mortos explica a parapsicóloga Luísa Albuquerque. Muito antes do surgimento da parapsicologia, no século XVIII, já Franz Mesmer, médico, criador da teoria do magnetismo animal e também estudioso dos fenómenos energéticos do corpo, tinha distinguido vários subtipos de telergia passíveis de serem produzidos pelo homem: fenómenos de luz (fotogénese), som (tiptologia), fogo (pirogénese) e movimento (telecinesia). A negação da possibilidade do espírito se manifestar após a morte afronta, porém, outras correntes de pensamento como, por exemplo, o espiritismo». In Vanessa Fidalgo, Histórias de um Portugal Assombrado, 2012, A Esfera dos Livros, Lisboa, 2012, ISBN 978-989-626-371-3.

Cortesia de EdosLivros/JDACT

sábado, 26 de novembro de 2016

Seres Mágicos em Portugal. Vanessa Fidalgo. «Os Romanos chamaram-lhe versipélio, os eslavos volkodlák, os saxões werewolf, ou dracopyre, os franceses loup-garou. Na América Central e do Sul é referido como lubiszon ou lubishome…»

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«(…) Valores como a esperança e a justiça são transpostos, analisa o investigador. Mas não só. segundo Mieder, os contos explicitam verdades sobre o ser humano, o que os torna atemporais e independentes de universos culturais específicos. Na maioria das lendas, das fábulas e dos contos estão representados os problemas arquetípicos do ser humano, mas através de uma linguagem poética e simbólica. Assim, podemos identificar-nos para além das fronteiras entre as culturas, conclui o investigador, que tem vindo a observar que o fantástico e o folclore têm sido recuperados precisamente pela necessidade do homem de sentir uma ligação à terra e ao seu passado. É assim que as lendas passam a fazer parte da cultura e da história dos povos, sendo alicerces vitais para a sua identidade, tal como explica o professor e investigador de património oral da universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro, Alexandre Parafita: a lenda é um relato transmitido por tradição oral de factos ou acontecimentos aos quais o povo atribui um fundo de verdade. Geralmente têm algo que é real e algo que é fruto da imaginação popular. A lenda é, por isso, mais histórica e mais verdadeira do que o conto. Não é por acaso que a lenda raramente começa, tal como o conto, com a fórmula era uma yez, uma fórmula que nos remete, desde logo, para um passado e um lugar longínquos e indefinidos. Por isso, cada comunidade conserva afincadamente as suas lendas, pois o povo, através delas, conta também a sua história.
Finalmente, a pergunta a que ninguém resiste: existem seres fantásticos? É claro que sim! Existem naquele secreto lugar do inconsciente que teima em não abandonar as deliciosas reminiscências dos contos da infância e que faz de nós adultos mais idealistas e com mais recursos. No final desta investigação, quase em jeito de resposta sobre a pertinência do trabalho que estava a desenvolver, deparei com uma notícia surpreendente: a construção de uma estrada a sul de Reiquiavique foi interrompida porque iria destruir um habitat de elfos. O caso está à espera de uma decisão do Supremo Tribunal da Islândia, onde todos os anos dão entrada vários processos pelo mesmo motivo. A estrada passaria por um campo de lava natural que, segundo o grupo Amigos da Lava, iria atravessar um habitat de elfos e uma catedral. A igreja dos elfos é conectada através da energia da luz com outras igrejas, outros lugares, explicava a um jornal Ragnhildur Jónsdóttir, islandês que afirma ver elfos, acrescentando que se uma igreja é destruída..., bom, isso não é uma coisa boa. Ora, em 2007, uma pesquisa concluiu que cerca de 62 por cento dos entrevistados islandeses acreditava na possibilidade de existirem elfos. Perante isto, resta-me esperar que esta colecção de histórias sirva para deleite de todos aqueles que acreditam ou que gostavam de acreditar...

Lobisomens e Corolários
Motivo inspirador de várias crenças, o lobisomem é uma das mais conhecidas personagens mitológicas e protagonista favorito de muitas lendas portuguesas de norte a sul do País. A designação refere-se à transmutação de um ser humano que, por via de uma maldição ou castigo divino, e apenas em determinadas circunstâncias, adquire a forma e a conduta do lobo. Mas esta assustadora figura lendária tem origens muito antigas e alcance quase universal. Os Romanos chamaram-lhe versipélio, os eslavos volkodlák, os saxões werewolf, ou dracopyre, os franceses loup-garou. Na América Central e do Sul é referido como lubiszon ou lubishome, sendo esta uma das áreas geográficas do globo onde este género de lendas está ainda muito viva. De entre as várias superstições e maldições invocadas para justificar a aparição e o fado de um lobisomem, uma das mais populares em Portugal refere-se ao nascimento de setes filhos do mesmo sexo, sendo o sétimo amaldiçoado! São também comuns as lendas sugerindo que o lobisomem tem de percorrer sete cemitérios, passar por sete encruzilhadas, em sete freguesias, para poder retornar à sua forma humana, antes do amanhecer». In Vanessa Fidalgo, Histórias de um Portugal Assombrado, 2012, A Esfera dos Livros, Lisboa, 2012, ISBN 978-989-626-371-3.

Cortesia de EdosLivros/JDACT

sexta-feira, 25 de novembro de 2016

Seres Mágicos em Portugal. Vanessa Fidalgo. «E embora a maioria de nós insista em não acreditar em lendas e contos de fadas, as narrativas fantásticas não deixam de ter um papel de extrema importância também nos nossos dias»

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«(…) Eles próprios ficam agora surpreendidos com os encantos e o poder de sugestão que as suas histórias tiveram outrora. Um certo embaraço tolhe agora dona Adelina, uma simpática e muito lúcida octogenária que tive a felicidade de conhecer e que me recebeu com um carinho incomparável na soleira da sua casa, na freguesia da Bemposta, perto de Abrantes. De carrapito branco e olhos doces, dona Adelina não se fez rogada a uma boa conversa. Cada palavra foi puxando outra palavra, num diálogo adoçado pelo bolo quentinho que fizera questão de pôr a crescer no forno para receber os forasteiros. E assim, dona Adelina, que é a única do seu tempo que por ali ainda está lúcida e de boa saúde para tais conversas, lá foi desfiando um rol de histórias sobre procissões de fantasmas que outrora varriam a rua da Assaquia, mas também o fado de um maléfico lobisomem que antigamente corria as ruas pela noite, estragava o pão que cozia de madrugada nos fornos e, claro está, tinha o condão de a assustar nos dias idos da infância. Um lobisomem que assim sobreviveu até aos dias de hoje e cujo rasto deambula agora pelas páginas que se seguem. Mas nos dias de hoje, até dona Adelina coça o queixo e pousa os olhos no horizonte, pensativa quando reflecte sobre a inverosimilhança das suas histórias, reconhecendo a insensatez da credulidade que na juventude lhe devotara: eram coisas que se diziam e contavam naqueles tempos. Naquela altura era tudo assim..., muito misterioso. Devia ser por causa do escuro. Só havia velas à noite! Contava-se e as pessoas acreditavam, claro está. E ri-se, levando as mãos à faca para cortar e oferecer outra fatia de bolo de cenoura, tão generosa quanto as palavras que partilha com os forasteiros sem esperar nada em troca. Mas estarão as lendas encerradas apenas nas aldeias e na memória dos nossos anciãos? É claro que não, e uma breve viagem pela internet espelha o quanto estas narrativas fascinam gente de todas as idades e eras tecnológicas. É por isso que neste livro há histórias dos avós, mas também dos seus netos, que as partilham em sítios específicos, como redes sociais próprias. Em Portugal, o Forum Portugal Paranormal é um bom exemplo disso, e os seus utilizadores foram, neste livro, os principais narradores vivos que encontrei entre as gerações mais jovens, os quais conseguiram surpreender-me ao brindarem-me com incríveis relatos inéditos.
Pena é que nem todos tenham acedido a revelar a sua verdadeira identidade, preferindo que as suas narrações se mantivessem identificáveis pelos seus nicknames. A par com a identificação dos interlocutores entrevistados para este livro, segue-se, em primeiro lugar, a indicação do local de recolha e, finalmente, da localidade a que se refere a história, sempre que foi possível apurar. Através desta pesquisa, foi-me ainda revelada uma característica bastante interessante da actual situação do nosso património lendário: se, por um lado, as lendas quase desapareceram na oralidade, por outro, passaram a ser contadas de outra forma e por outros meios, aqueles que a era digital nos trouxe para partilhar tudo e mais alguma coisa. E embora a maioria de nós insista em não acreditar em lendas e contos de fadas, as narrativas fantásticas não deixam de ter um papel de extrema importância também nos nossos dias, que está sobejamente teorizado. Wolfganag Mieder, professor de Filologia Alemã e Folclore na universidade de Vermont e vencedor do Prémio Europeu de Contos de Fadas em 2012, pesquisa há mais de 40 anos sobre esta temática.
Diz Mieder que, embora aconteça amiúde as narrativas antigas serem adaptadas ao momento presente, mantêm geralmente o seu cerne original. A oposição entre o bem e o mal está sempre presente, atormentando as escolhas do homem desde que o Mundo é Mundo: são os finais didácticos. É claro que eles contêm sempre algo do mal, mas a beleza das histórias está na ideia de que há sempre uma certa justiça e que o bem acaba por vencer». In Vanessa Fidalgo, Histórias de um Portugal Assombrado, 2012, A Esfera dos Livros, Lisboa, 2012, ISBN 978-989-626-371-3. 

Cortesia de EdosLivros/JDACT

sexta-feira, 23 de setembro de 2016

Histórias de um Portugal Assombrado. Vanessa Fidalgo. «Não está sozinho, o barão da Glória, num país que, de lés-a-lés, tem personagens e histórias assombradas para contar: no Castelo de Almourol ou no de Bragança, amores incompreendidos deixaram espectros a pairar nas suas torres e ameias»


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«Por todos os preconceitos, desconfianças e crenças que o assunto revolve, entabular conversa sobre fantasmas e casas assombradas não é desafio fácil. Nas aldeias, os velhos ainda contam as histórias que lhes povoam os lugares da memória com naturalidade, mas nas grandes cidades as referências são escassas e fugazes, os narradores fugidios. Ainda assim, há fantasmas ao virar da esquina. Uma certa tarde de pesquisa no Gabinete de Estudos Olisiponenses, divisão da Câmara Municipal de Lisboa que tem como intuito cooperar com a comunidade científica para o estudo e a reflexão sobre a cidade, comprovou-o. Uma cidade que pode ter muitas dimensões. Algumas delas escondidas. Como aquela, que logo ali se desvendou. Histórias de fantasmas na cidade?, quer saber o historiador Ernesto Jana, técnico superior do gabinete. Olhe que nós, por acaso, temos um aqui. É o barão da Glória! O barão que arrasta grossos volumes de livros e caixotes de documentos pelo Palácio do Beau Séjour fora, e que pôs os funcionários da Câmara com os cabelos em pé à procura do espólio perdido. O mesmo espólio que muitos dias de procura depois se encontrava exactamente no local onde tinha sido deixado, por obra e graça do tal barão que também faz tilintar as chávenas em cima das mesas e soar as campainhas da quinta de São Domingos de Benfica, onde viveu, morreu e amou a arte. Não está sozinho, o barão da Glória, num país que, de lés-a-lés, tem personagens e histórias assombradas para contar: no Castelo de Almourol ou no de Bragança, amores incompreendidos deixaram espectros a pairar nas suas torres e ameias. Na Serra de Sintra sobram razões para ter medo, tantos são os relatos e os testemunhos. No Porto, há espectros a discutir a herança pela calada da noite e apartamentos que, afinal, contra todas as razões da lógica, não estão vazios como aparentam. Em Castro Marim, as mouras ainda andam à solta, e em Penafiel os sustos marcam o ritmo dos dias na Quinta da Juncosa, que há séculos foi palco de um crime hediondo. As situações mais insólitas, como a da inacabada casa em Langarinhos, Gouveia, obra que nenhum proprietário consegue finalizar, causam um friozinho no estômago a uns, sorriso trocista a outros, mas estão longe de ser únicas, num fenómeno cultural global. Lá fora, há poucos meses, a notícia encheu os títulos gordos dos jornais: Cláudia Schiffer e o marido, Matthew Vaughn, tinham acabado de se mudar com os três filhos para uma tradicional casa de campo vitoriana em Suffolk, East Anglia, Inglaterra, quando se sentiram atormentados pelo fantasma de Penélope, uma antiga dama da corte, aparentemente pouco disposta a dividir o seu secular tecto com os forasteiros. A mansão foi alvo da intervenção de especialistas em exorcismos e, só depois disso, a família de Schiffer pôde então desfazer as malas sossegada. O caso mais ilustre diz respeito à Casa Branca, onde vários presidentes norte-americanos e as suas famílias se viram importunados pelos fantasmas dos seus antecessores! Jenna Bush, filha do presidente George W. Bush, confessou mesmo ter ouvido música clássica sair da lareira, do seu quarto na Casa Branca. Ouvi ópera a sair da minha lareira. Quando disse à minha irmã Barbara, ela não acreditou. Mas voltou a acontecer na semana seguinte, desta vez com música dos anos 50, confessou numa entrevista à Texas Monthly. Depois do episódio, nunca mais voltou a dormir na mais poderosa residência oficial do mundo. O site da Casa Branca (www.whitehouse.gov) dedica uma página inteira aos seus respeitáveis fantasmas, onde pode ler-se, por exemplo, que ao longo de várias décadas o staff governamental viu Abraham Lincoln divagar pelos corredores do número 1600 da Pennsylvania Avenue. Winston Churchill recusou-se mesmo a dormir no quarto de Lincoln, depois de ali ter avistado o seu vulto. Harry Truman, em 1946, garantia numa carta dirigida à mulher, Bess: este lugar está assombrado, tão certo como dois e dois serem quatro. O Reino Unido, o país que clama mais fantasmas por metro quadro do que qualquer outro, tem igualmente o seu séquito de espectros notáveis e lugares (muitos) assombrados, incluindo monumentos mundialmente famosos, como a Torre de Londres ou o Castelo de Old Wardour. Mas afinal de onde vêm as histórias sobre fantasmas, intemporais e universais, e o que as torna tão impressionantes ao ponto de perdurarem através dos séculos? Que medos e preocupações desvendam e como têm evoluído desde os tempos mais remotos da história dos povos até aos nossos dias, nas suas modernas versões urbanas? E de que forma todas estas histórias, que em abono da verdade dão pelo nome de lendas, podem encaixar num universo ainda maior e de formidável riqueza, que é o da literatura oral? Que papel desempenham na sociedade?» In Vanessa Fidalgo, Histórias de um Portugal Assombrado, 2012, A Esfera dos Livros, Lisboa, 2012, ISBN 978-989-626-371-3. 
Cortesia de EdosLivros/JDACT