Mostrar mensagens com a etiqueta Jorge Sousa Correia. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Jorge Sousa Correia. Mostrar todas as mensagens

sexta-feira, 3 de janeiro de 2020

O Mistério do Infante Santo. Jorge Sousa Correia. «Presenciei como vinham acabrunhados, humilhados, uns destroços, afectados na sua honra de cavaleiros valentes, vencidos por gentalha sem Deus, sem religião, porque afinal nem mouros eram…»

jdact

À procura do Bem e do Mal
«[(…)] Já que farlei na expedição às ilhas Canárias, devo dizer que não gosto de lembrá-la e Henrique ainda menos, tanto mais que fica desajeitado só de ouvir pronunciar-lhe o nome. Deste acontecimento, por ser frustrante, não me trouxe nenhuma alegria, ficando dele apenas a lembrança aviltante da derrota de Henrique, do sumiço de homens, dinheiro e equipamentos que tanta falta nos faziam. Mas não esqueço, não posso mesmo esquecer-me. Só se não tivesse visto todo o entusiasmo da partida, o ar ufano dos cavaleiros portugueses em véspera de uma conquista e depois o embaraço triste da chegada. Mas vi. Presenciei como vinham acabrunhados, humilhados, uns destroços, afectados na sua honra de cavaleiros valentes, vencidos por gentalha sem Deus, sem religião, porque afinal nem mouros eram.
[…]

Claramente, o pensamento do rei não era escorreito. Se as dúvidas sobre o infante Henrique eram assim tantas, por que motivo iria privilegiar o conselho dele? Caminhando, o rei enchia os olhos de sugestões motivadoras, imagens que lhe permitiam esquecer por algum tempo as suas
preocupações.

A Espera tem um Fim
O infante Henrique, embora sendo entre todos os nobres o que dispunha de mais meios para gerar riqueza, não abria mão da possibilidade de criar novas fontes de rendimento, continuando a procurar o tesouro que suportasse tão desmedida ambição. Por sua vez, o rei Duarte I, uma peça fácil de manusear para Henrique, nem lhe passa pela cabeça que o irmão tem um esquema traçado para o submeter às suas utopias, nem supõe que Fernando e dona Leonor fazem parte dos planos dele. O rei veio rapidamente de Almeirim para Lisboa procurar ajuda junto do irmão, mas só dois dias depois da chegada é que Henrique compareceu no Paço. A estratégia do infante Henrique estava traçada. O pequeno retiro na acolhedora vila de Sintra, quase de improviso, entre caçadas, comidas e rezas, servia para ajustar ideias, medir solidariedades ou impor vontades aos que ainda se mostravam indecisos. Nesta perspectiva, convinha-lhe manter-se afastado do irmão por mais algum tempo, no justo momento em que a conversa que iriam ter punha fim a anos de espera. Fazer Duarte aguardar para lá do razoável fora ideia sua, pois sabia que contaria com a cunhada para a primeira abordagem, o que tornava dona Leonor numa aliada fundamental para os seus estimados projectos.
O infante tinha um espírito desinquieto, mas também percebia que sozinho, ou só com a participação de Fernando, não suportaria os custos que uma armada de muitos milhares de homens e equipamentos representava. Mesmo tendo abundantes cedências da Coroa, através de distinções, privilégios, benefícios ou isenções, que lhe enchiam os cofres e a importância, não conseguia fazer-se ao mar para conquistar Tânger sem que o rei arcasse com as maiores despesas». In Jorge Sousa Correia, O Mistério do Infante Santo, 2013, Clube do Autor, 2013, ISBN 978-989-724-067-6.

Cortesia de ClubedoAutor/JDACT

quinta-feira, 2 de janeiro de 2020

O Mistério do Infante Santo. Jorge Sousa Correia. «Por isso, mal rompeu o dia, acompanhado da sua corte itinerante, começou a viagem sem nunca perder de vista o infatigável Tejo. Pensativo, segue sem revelar emoções nas faces»

jdact

À procura do Bem e do Mal
«(…) Se o infante D. Henrique fazia parte do seu destino, fugir-lhe não podia. Logo que a informação saiu do rei para o camareiro que haveria de avisar o infante Henrique da sua chegada a Lisboa, nada mais havia a fazer a não ser reforçar a ideia da importância do encontro e esperar que o irmão tivesse uma solução para o seu requerimento. Virás com a resposta do infante seja a que horas for, e se não o encontrardes na corte, deveis requisitá-lo, esteja ele onde estiver, porque a urgência do que lhe quero dizer sobreleva qualquer assunto que ele tenha entre mãos, ordens sucintas, claras, sem contestação, que o rei fez questão de vincar ao estafeta.
Instruções repetidas, numa tarde já em declínio, o rei Duarte I não conseguiu mais sossego para tratar do que era devido, pois a concentração não lhe vinha e sem ela de nada lhe valia a teima. No outro dia, bem tarde, o rei Duarte I, já com uma resposta afirmativa de que o mano Henrique tinha sido avisado, preparou tudo para na manhã seguinte viajar até Lisboa. Por isso, mal rompeu o dia, acompanhado da sua corte itinerante, começou a viagem sem nunca perder de vista o infatigável Tejo. Pensativo, segue sem revelar emoções nas faces, a oculta e a visível, tanto mais que a modorra da caminhada sobre o animal domado o fez pender a cabeça de sono. Os pensamentos não lhe despertam os sentidos e assim o trote indolente do equino amolece-lhe a vivacidade. Mais adiante, acordado do estado de sonolência que se tinha apoderado dele, começou a procurar no horizonte o fim do destino, um lugar que nunca mais enxergava, atendendo a que o transporte lhe magoava os rins e lhe aquecia as pernas até o suor escorrer.
Tudo justificava aquele desconforto em cima do animal. A falta de outra compensação, a conversa que ia ter com o infante Henrique indemnizá-lo-ia certamente de todos os pequenos sacrifícios que uma viagem daquelas comportava. Já a maior distância tinha sido vencida, o rei voltou a falar sozinho: agora que caminho para Lisboa e para a corte ao encontro de Henrique, o conselheiro da minha espontaneidade, revejo-me sem soluções. Pior que isso, sinto-me assaltado pelo cepticismo, um sentimento pior que a dúvida, porque provém de um estado de alma inócuo. O rei Eloquente lá vai pachorrento em cima da montada, inseguro nos pensamentos, preocupado com as incertezas, tudo problemas desagradáveis que lhe fazem mal à saúde e lhe tiram a alegria. Esquece-se dos conselhos que os físicos lhe deram quando teve de vencer a depressão, não os adopta e muito menos os pratica, fixando-se em ideias que por certo conduzirão à opacidade os pensamentos claros.
Anda assim, há coisas que não mudam. Dona Leonor, a paixão da sua vida, espera-o, continua a amá-lo como sempre e a festa pode muito bem compensar os aborrecimentos. A excelente senhora desde que se casaram teve todos os anos um filho, e até no ano de 1132 teve dois, um útero real na acepção da palavra. Mas agora não! A excelente senhora já ultrapassou a quarentena pós-parto do último feto que pariu, em Julho, um filho que morreu também logo que nasceu, estando por isso num momento de inteira disponibilidade. Não, não! Dona Leonor em princípio não estaria traumatizada pelo insucesso do parto, porque, sendo embora a perda de um recém-nascido um acontecimento lúgubre, a rainha tinha força suficiente para ultrapassar o infeliz momento com tolerância e ânimo valente, tal como se deve pedir a quem tem sangue real.

Numa cavalgada quase ininterrupta, a comitiva fez uma pausa mais prolongada para matar a fome a meio da jornada, esquema já determinado num itinerário pensado em duas etapas. Retomado o caminho, o rei voltou ao mundo povoado de incertezas, esforçando-se no entanto por encontrar no espírito evasões para os seus enfados:

Será como Pedro alvitrou nas suas cartas? Quererão os nobres construir um cenário que nos leve à guerra? Até hoje, com o objectivo de guerrear alguém fora do nosso território, só autorizei uma expedição às Canárias que meu irmão Henrique me propôs e eu avalizei em 1434, porque por seu empenho tinha conseguido do papa Martinho V autorização para ocupar essas ilhas pagãs, que não são de ninguém e Castela diz pertencer-lhe. Com uma bula sobre a mesa e quase uma exigência sobre as costas, que é como quem diz, pressionado pela Igreja e por Henrique, fui levado a ceder por me convencerem de que dali não vinha grandes males para a armada que lá iria confirmar a soberania portuguesa e matar mouros.
[…]
In Jorge Sousa Correia, O Mistério do Infante Santo, 2013, Clube do Autor, 2013, ISBN 978-989-724-067-6.

Cortesia de ClubedoAutor/JDACT

sábado, 8 de dezembro de 2018

A Tentação de D. Fernando. Jorge S. Correia. «Tal como o rei e os grandes nobres que o apoiavam, também a peonagem se deixou levar pela onda de entusiamo. Não era para tanto, mas que se havia de fazer?»

jdact

Invasão da Galiza
«(…) Mas será que o Trastâmara assassino não vem a terreiro defender o território galego?, interrogava-se Fernando I com justificada surpresa, em voz alta, para que os mais próximos ouvissem e comentassem. Não vem, senhor!, afirmou o conde Andeiro. Todos na Hispânia vos conhecem. Sabem o cavaleiro que vós sois, temem-vos. Se não o fordes buscar, majestade, ao vosso encontro é que ele não virá. Travestido de uma confiança construída por aduladores, Fernando avançou. Ir em frente não lhe custava, mas ao chegar a Monterrey teve a primeira surpresa. O pueblo não tinha mais do que uma fortaleza mal defendida, com pouca população, incapaz de se defender de um exército inteiro. Mas o que se havia de fazer? Teimosos, não queriam nada com o rei português, uns ingratos que não viam nele o rei elegantíssimo que era. Rejeitam-me? Não querem um rei bem-parecido e de boas maneiras? Preferem um assassino? Pois bem, vamos lá a ver se têm ameias que cheguem para aguentar a força lusitana.
Pelo sim, pelo não, Fernando pediu ao conde Andeiro que parlamentasse com os sitiados. E já estava a ser magnânimo. Oferecia-lhes uma rendição honrosa, isso bastava, porque a outra hipótese era arrasar Monterrey com tudo o que havia lá dentro. Na volta, o conde Andeiro apenas disse que os do castelo preferiam morrer a deixar-se governar por um rei estranho. Estranho? Nem estranho, nem mal acabado, o que eles querem é empatar, deduziu o rei. A indignação do formoso rei não tinha razão de ser. O que os de Monterrey queriam dizer é que ele era estrangeiro, galego não era de certeza. As vossas palavras são ordens que todos respeitaremos, assentiu João Fernandes Andeiro, disposto a expulsar as dúvidas da cabeça do rei, mas, senhor, o que o alcaide quis dizer é que vós sois estrangeiro, não tem nada de pessoal.
Adiante, tomai a dianteira, mandai formar as forças e atacai. Os engenhos do contrapeso começaram a deslocar-se devagar, e quando chegaram à distância de tiro, lançaram os seus pesados pedregulhos contra as portas e as ameias do frágil castelo, começando a partir os cubos e a destapar os sitiados que tentavam com as suas bestas acertar nos combatentes portugueses. Partidos os dentes do castelo, as bastidas (construção de madeira como torre ou castelo mais alto do que a muralha do inimigo, permitindo aos assaltantes desfechar ataques sobre os sitiados escondidos atrás das ameias) logo avançaram até se encostarem às muralhas, num instante despejando dentro do burgo hordas de guerreiros prontos a matar e a pilhar o que por lá houvesse.
A vitória sobre os de Monterrey foi um ápice. Embriagado pelo triunfo insignificante, transformado logo pelos apologistas em uma batalha decisiva, el-rei convenceu-se de que não havia força que o detivesse na sua caminhada triunfal: hoje foi Monterrey, mais à frente e mais longe será Valladolid, até só haver um rei em toda a Hispânia. Viva o nosso rei, viva Portugal! Viva a Galiza!, exultavam com ele uma corja de bajuladores e sanguessugas do erário.
Tal como o rei e os grandes nobres que o apoiavam, também a peonagem se deixou levar pela onda de entusiamo. Não era para tanto, mas que se havia de fazer? A vitória é o oposto da derrota, nisso o rei e toda aquela pantalha tinham razão, pois se fosse ao contrário, se em vez de vencer, fracassassem, seria uma humilhação. Por isso, os quatro amigos da taberna da Mariamem, lídimos representantes das classes menos favorecidas, regalavam-se à sombra dos choupos frondosos nas margens da ribeira, comendo uma galinha que surripiaram com facilidade. Sim, era uma guerra cansativa, está bem de ver, pois andar de um lado para o outro com a tralha às costas, sempre disponíveis para acorrer às requisições dos seus senhores, custava muito, mas tinha as suas compensações, entre elas os soldos que entrariam no bornal, e como naquele dia, comer um acepipe sem penas». In Jorge Sousa Correia, A Tentação de D. Fernando, Clube do Autor, 2017, ISBN 978-989-724-344-8.

Cortesia de CdoAutor/JDACT

sexta-feira, 7 de dezembro de 2018

A Tentação de D. Fernando. Jorge S. Correia. «A campanha estava a revelar-se para o monarca Fernando bem mais fácil e compensadora do que alguma vez pensara. Até ali não gastara uma seta, uma pedra…»

jdact

Invasão da Galiza
«(…) Senhor, ides tão cedo..., murmurou a dona, palavras que custavam a ouvir..., mandai o camareiro esperar, dizei-lhe que tendes uma emergência, qualquer coisa que vos faça ficar mais um ratito. Às palavras madrugadoras da galega, Fernando I não voltou resposta. A moça era linda, ele suspirava. Ela sem bordados que lhe tapassem as virtudes, ele na borda da cama sentado a enfiar as calças soladas e a pensar quão aborrecido era marchar atrás de tantas cavalgaduras por esses caminhos afora. Pensasse em outras coisas. Ali não podia ficar. Vontade não lhe faltava, mas como voltaria as costas às obrigações? Combater o usurpador, anulá-lo, anexar mais um bocado de terra ao território português valia bem o esforço que teria de fazer para resistir ao chamamento do corpo oferecido sobre a cama.
Saído de Tui, por aí acima foi um passeio até Padrón, pequeno povoado sem a dimensão da cidade à beira do rio Minho, mas suficiente para à sua volta caber toda a tropa, enquanto a comitiva real assentou arraiais na única casa apalaçada que lá havia, modesta demais para tanta exuberância, mas bem digna se mostrou quando o fidalgo que a detinha se ajoelhou aos pés de Fernando e fez o voto feudal de auxílio e conselho. O mesmo acolhimento e mesuras em Pontevedra, mais ofertas e bajulices, antes de rumar a Santiago de Compostela, isso sim, um santuário de verdade, onde o rei permaneceria por dois dias em actos devocionais, promessas, rogos, tudo em comunhão com Deus e os santos.
A campanha estava a revelar-se para o monarca Fernando bem mais fácil e compensadora do que alguma vez pensara. Até ali não gastara uma seta, uma pedra, não quebrara uma lâmina, nem uma baixa se verificou entre a tropa. Levavam já dez dias de caminho, espaço de tempo em que as viandas começavam a dar sinal de exaustão, mas nesta campanha comiam que nem nababos, era à larga, divertimento e tudo. Nem sequer os mais frágeis ficaram pelo caminho, pois se eram tão bem alimentados, por certo resistiriam, pelo menos até encontrarem quem lhes tirasse o apetite.
Mas havia os que estranhavam. É que o tempo passado desde que saíram de Lisboa não tinha nas suas horas qualquer reacção de Henrique de Trastâmara. Matutando nisto, Fernando I, ajudado a pensar pelos do Conselho, concluiu que o rei castelhano se encolhia de medo só de pensar que a caminho ia um verdadeiro rei, filho e neto de outros reis, de uma realeza insuspeita, diferente do castelhano, que era bastardo. O cúmulo da invasão deu-se quando o exército irrompeu pelas ruas da Corunha, no meio de vivas ao rei Fernando, o grande salvador da Galiza. Era como se os coruñeses esperassem o seu rei, que voltava de uma longa viagem.
Até chegar ao paço condal foi uma festa, e ainda Fernando não tinha desmontado, já o conde João Fernandes Andeiro se torcia em requebros de grande cavaleiro. Ajoelhou-se, beijou-lhe as mãos e fez todas as promessas, as que cumpriria, e as outras, que mais tarde, sem por enquanto os dois saberem, o levaria à traição. Logo ali houve uma empatia fulminante entre os dois. Era de um homem assim que o rei precisava para seu conselheiro particular; o último entre muitos a oferecer-lhe soluções, a ajuda mais competente na hora de decidir.
Com a pessoa certa a seu lado, o rei Fernando demorou-se algum tempo na cidade a cerzir tácticas de guerra e teias políticas, tudo para levar de vencida o usurpador. Para tal, exigiu reforços, mandou erguer muros e indigitar fidalgos para os diferentes cargos, impondo em Tui e Baiona atalaias e velas pela noite afora, não fosse o adversário atacá-lo durante as trevas. Todas as decisões tinham carácter militar, no entanto, não deixavam de ser deliberações administrativas, como se a sua presença na Galiza estivesse para durar». In Jorge Sousa Correia, A Tentação de D. Fernando, Clube do Autor, 2017, ISBN 978-989-724-344-8.

Cortesia de CdoAutor/JDACT

A Tentação de D. Fernando. Jorge S. Correia. «Sua majestade vai com os pensamentos a saírem-lhe do chapeirão, por enquanto, porque quando envergasse o elmo na guerra feia, nem se lembraria de quem era filho»

jdact

Invasão da Galiza
«(…) Aquilo era bonito de se ver. Assim que o Sol mostrou a luminosidade que prometia para esse dia de Julho de 1369, começaram a sair do castelo de S. Jorge os mais altos dignitários da terra portuguesa, acompanhados pelos nobres galegos partidários da união galaico-portuguesa. Iam tomar posse de toda a Galiza e de alguns lugares de Castela que desejavam ter Fernando I como seu senhor, formando no seu todo mais uma excursão a caminho do Norte do que um exército invasor. Sobre o sucesso da caminhada até à Corunha, e dali para cima se fosse preciso, dava ao rei português todas as certezas, nenhumas desconfianças.
É certo que ainda estava em território lusitano, Henrique de Trastâmara não se dispunha a vir por aí abaixo interceptá-lo, mas a verdade é que o rei castelhano, até as tropas começarem a deslocar-se, não fizera qualquer aviso a Fernando I, nem sequer parecia incomodado com a expedição do exército português à Galiza. Era uma festa. Os músicos a retirar os sons ainda antes de saírem do castelo, cornetas, tambores e atabales na máxima expansão, ordenando aos que dormiam que chegassem às janelas, saíssem à rua para ver o formoso rei arrastar com ele alguns milhares de portugueses sem saber se voltariam.
Na frente seguiam os mestres de Santiago e de Cristo, mais Álvares Peres Castro, o condestável; o conde João Afonso Teles III; Álvaro Gonçalves Pereira, prior do Hospital; enquanto atrás deles, bem encavalitado, lá ia sua alteza corno se já estivesse a resguardar-se, e logo a seguir, os vários corpos de nobres portugueses e galegos que por certo seriam os mais brigosos guerreiros, comandantes das alas que iam esticar Portugal para norte. Durante a noite, os homens de pé ficaram por ali, acomodados nos pátios e nos terreiros, só os mais especializados, aqueles que ofereciam o seu talento profissional para apoio da guerra, tiveram direito a dormir na esplanada do castelo, entre eles, os assíduos clientes da taberna do Justo Lourenço e das meninas de Mariamem: o almocreve Eliel, o barbeiro Falcão, Lenir, o homem do forno, e o escudeiro Tomé. Por mar iria uma frota de oito galés com a respectiva equipagem, prevendo o rei que se juntassem depois na Corunha, quartel-general de onde partiria a última torrente invasora.
Sua majestade vai com os pensamentos a saírem-lhe do chapeirão, por enquanto, porque quando envergasse o elmo na guerra feia, nem se lembraria de quem era filho ou se o tabardo real lhe favorecia a imagem. Neste dia, não. Tudo quanto lhe vinha à cabeça correspondia a cenas de grande exaltação, um homem a caminho do seu destino, o monarca português que iria pôr em sentido o usurpador castelhano e ficar com o que era dele. Para reforçar a grande conta que tinha de si, depois de o exército atravessar o rio Minho, logo ali, em Tui, apareceu gente aos magotes para vitoriar Fernando I. Queriam vê-lo de perto, analisar a sua lendária formosura, dizer-lhe que eram todos portugueses e galegos ou galegos e portugueses, que para o caso tanto faz. Olhando em redor e para dentro de si, o soberano português via-se quase imperial, rei de Portugal e da Galiza e o que mais adiante se veria, o maior senhor da Península Ibérica sem sequer desembainhar a espada. Então, e as donas galegas que acorreram para ver tanto garbo e formusura? E aquelas miradas, senhor! Já antes de abalar andara com as chicas na cabeça, no pensamento tinha-as quando queria, olhos negros, faces morenas, beiços carnudos, de um vermelho vivo, como se fossem frutos silvestres. Ah, como seria sublime, depois de estilhaçar os corpos nas batalhas que iria travar, ter na cama um corpo de mulher para acariciar, pele lisa, montes e vales por todo lado, curvas e destinos oferecidos.
Após passar o rio Minho, fronteira natural entre os dois reinos, Fernando I fez uma entrada triunfal em Tui, onde pernoitou e de onde, no outro dia, lhe custou a sair. Foram tantos os louvores, elogios tão rasgados, que foi preciso muita coragem para depois de acordar se desenlear do perfume que o leito expelia. Deixou-se levar pela festa, danças, cantares, devaneios, moças da nobreza local a rodopiarem à sua volta, cumprimentos dos fidalgos, lembranças para o caminho e para quando voltasse. Nessa noite, como cumpria, não faltou quem lhe aquecesse a cama. A moça, uma dona cheia de salero, sentiu-se como se estivesse no Céu, mesmo à beira dele, actuando mais do que pensando, pois era, no trabalho competente que se jogava toda a sua capacidade para convencer o rei de que lhe fazia muita falta, embora soubesse que nunca se sentaria no trono». In Jorge Sousa Correia, A Tentação de D. Fernando, Clube do Autor, 2017, ISBN 978-989-724-344-8.

Cortesia de CdoAutor/JDACT

A Tentação de D. Fernando. Jorge S. Correia. «Mas se ao meu … pusessem orelhas e lhe bem fingissem sobrancelhas de parecer nada vos deveria»

jdact

O reino precisava mais do que um homem bonito
«(…) Então vossemecê não foi ao casamento, ti Lourenço, interpôs de modo provocador um tal Tomé, jovem escudeiro, que por enquanto entrava pela porta da frente da taberna até que subisse na hierarquia, ouvi dizer que sua majestade nem lá pôs os pés... O que me disseram, foi que a princesa aragonesa não passa de uma criança. Nem tem saliências nem senhoria. Mas diz-me, Tomé, tens visto o rei?, quis saber o taberneiro. Ora, sua senhoria passa o tempo com os seus conselheiros ou vai à caça quando está em Santarém. Pouco sai. Uma vez por outra, desloca-se até à porta sul do castelo a ver o Tejo. Até parece que sonha... Não havia de sonhar..., sonha ele acordado e eu a dormir cheio de pesadelos, intrometeu-se na conversa o barbeiro, também ele um dos primeiros a ser mobilizado para a guerra. Ó Falcão, quis o Eliel, almocreve no castelo, provocar o barbeiro, estás para aí a tremer..., tens medo da guerra, meu menino, tens? Um homem destes, chamado só para desfazer barbas e cortar cabelos, põe-se-me aqui arreceado e ainda nem um passo demos a caminho da Galiza.
Estás parvo?!, volveu o Falcão. O que faz isso é o nosso rei Pedro vos desabituar da guerra. Já se esqueceram das obrigações de um barbeiro? Quem é que arranca os dentes aos queixosos? Quem põe cataplasmas e faz sangraduras? Julgas que é o mesmo que tratar de bestas como tu? É lá! Bestas como eu, salvo seja. Então porque tremes? Eu?! Pelo mesmo que tu. Vamos atrás das ilusões do rei, sei eu lá o que nos pode acontecer. Pronto, está bem, não se zanguem, procurou Justo Lourenço amaciar a conversa dos dois milicianos. Ó Tomé, dizem para aí que o nosso rei tem grandes apoios em Castela. É ou não verdade? Então não é! Ao castelo chegam às dezenas de galegos prontos a combater por Portugal contra o usurpador do trono castelhano. E não é só isso. Granada e Aragão já tomaram partido por sua majestade. E o que lhe deu o nosso rei em troca?, intrometeu-se o alfaiate.
Isso não sei, mestre, tem de perguntar à Mariamem. Que ela disso sabe mais do que o chanceler. Ó ti Lourenço, insistiu o aprendiz de escudeiro, então quando é que posso subir as escadas? Olhe que a vida não pára. Daqui a pouco estou a fazer falta no castelo e já não volto. Se calhar nunca mais vejo a Almara. A tirada do jovem foi motivo de gargalhada geral. Não era no entanto despropositada a afirmação. Mariamem, através das meninas, estava a par de quase tudo quanto se passava no castelo, e ele, com guia de marcha para a Galiza, até a morte lhe podia acontecer. Enquanto o convidado especial não entrava pela porta do quintal à procura de um pouco de atenção da bela Almara, e os clientes nunca mais viam os seus desejos satisfeitos, no castelo, o alardo das tropas não parava. Neste sentido, o almocreve pôs-se também a andar, cantando uma moda bem apimentada, abraçado ao barbeiro e ao jovem escudeiro. Ó Eliel, canta lá uma daquelas que tu sabes, propôs o barbeiro. Ai é?! Então vejam lá se sabem esta da cara de …

Donzela quem quiser entenderia
Que vós muito formosa parecedes
E se é como vós dizedes
No mundo um par igual não haveria
E ainda que vosso par não houvesse
Se em meu … cosmético pusesse
De bem parecer venceria

Vós andades dizendo no concelho
Que muito formosa parecedes bem
Eu nisso não vejo quem
Mesmo que vos ponhais de branco ou vermelho
Pois se um pouco de sol o meu … pegue
E puser um pouco de alvaiade
Comparar-se-á convosco ao espelho

Donzela vós sodes bem talhada
Se no apronto erro não fizerdes
Ou em essa saia que vós trazedes
Mas se ao meu … pusessem orelhas
E lhe bem fingissem sobrancelhas
De parecer nada vos deveria.

Tropeçando uns nos outros, lá iam os três, cerro acima, cantando sempre a mesma cantiga, rindo com a alarvidade que o vinho lhes transmitia, por certo ignorantes de que o dia seguinte poderia ser o último das suas vidas». In Jorge Sousa Correia, A Tentação de D. Fernando, Clube do Autor, 2017, ISBN 978-989-724-344-8.

Cortesia de CdoAutor/JDACT

quarta-feira, 30 de maio de 2018

A Tentação de D. Fernando. Jorge S. Correia. «Quem não achava graça às quimeras de Fernando I, nem abria mão de um metro do território castelhano, era Henrique de Trastâmara»

jdact

O reino precisava mais do que um homem bonito
«(…) Dos dois reis castelhanos, um, D. Pedro I, o Cru, matara a mãe do meio-irmão Henrique que, por sua vez, o matou a ele. Então que ordem iria Fernando I repor na Galiza? Sintetizemos o que Lopez Ayala, consagrado cronista castelhano, disse deste episódio: Henrique não jogou com as mesmas armas do meio-irmão. Levava consigo tantos fidalgos quantos precisava para eliminar Pedro, o Cru, apanhado desprevenido nos seus aposentos. Assim que entrou, Henrique atirou-se cego de vingança e de ódio sobre o irmão. Em vez de lhe levar um abraço fraterno, o que tinha para lhe oferecer era um desvairado aperto assassino. Ora, abraços dá-se aos amigos, não é coisa de matar, mas este que Henrique deu a Pedro tinha duas finalidades: vencer ou morrer. Pedro por baixo, Henrique por cima, pés e mãos dos seus vassalos em cima do desgraçado, pois sem o manietarem o seu senhor não conseguiria aplicar-lhe o golpe mortal. Com as mãos livres, Henrique segurou no punhal punitivo, apontou-o à garganta do irmão e desferiu-lhe as punhaladas que o seu íntimo vingativo lhe requisitou, mais do que seriam precisas para matar o filho mais velho do seu pai, que não da sua mãe.
Antes de marchar para tomar posse do que os nobres galegos lhe ofereciam, assegurou o apoio do rei granadino, Mohamad, como se o andaluz tivesse alguma intenção de provocar Henrique de Trastâmara. Depois, para consolidar uma frente na rectaguarda de Henrique, um contra-senso militar, tratou de oferecer o seu belo corpo à princesa Leonor, filha do rei de Aragão, assegurando assim mais um reforço contra o Trastâmara. Para este subsídio, Pedro IV de Aragão, o Cerimonioso, só de cognome, aceitou logo a proposta, aprontando-se o casamento dos dois jovens na igreja de São Marinho
(sic) de Lisboa. Havia ainda uma razão circunstancial para Fernando I apostar tudo na aventura galega. Então não é que se deixou convencer de que, sendo neto da rainha Beatriz, teria direito à coroa castelhana, depois da morte do primo Pedro? Era uma descendência no mínimo longínqua. A princesa casara com o rei português Afonso IV, era filha de Sancho IV um rei que governara Castela e Leão havia quase cem anos. Pelas contas que fizeram a Fernando, sendo bisneto do dito Sancho, mesmo que fosse pela via feminina, era o mais legítimo herdeiro ao trono castelhano. Quem era o néscio que se convencia desta ligação? Só quem queria, e Fernando, pelos vistos, era um destes.
Quem não achava graça às quimeras de Fernando I, nem abria mão de um metro do território castelhano, era Henrique de Trastâmara. Quando soube da pretensão do jovem rei de Portugal ao trono de Castela, deve ter passado o dia a rir de cada vez que lia a árvore genealógica e perdia a ligação de Fernando com Sancho IV. Mas isso que interessava ao Formoso rei? A cabeça dele não aguentava tanta lisonja, era tudo em frente, rumar a norte, passar o Minho, jantar e pernoitar em Tui para dias depois, se chegasse a tempo, se instalar na Corunha. Pelo caminho ia construindo ilusões e tácticas destrutivas, até se sentar na cadeira de onde Henrique não queria levantar-se». In Jorge Sousa Correia, A Tentação de D. Fernando, Clube do Autor, 2017, ISBN 978-989-724-344-8.

Cortesia de CdoAutor/JDACT

quinta-feira, 1 de fevereiro de 2018

A Tentação de D. Fernando. Jorge S. Correia. «Olha quem fala! Vê-se logo que ficas sentadinho a alinhavar os tabardos de sua majestade. A ti não te custa, não. Cá o almocreve, que mate o corpo atrás das cavalgaduras»

jdact

O reino precisava mais do que um homem bonito
«(…) Chegava agora ao poder um rei mais brando, o oposto do pai, deixando aos portugueses grandes interrogações, mas também justa esperança. No entanto, desconfiavam. Se a formosura não lhe trazia competência para reinar, o facto de ser bom caçador também não descansava o povo. Dizem que na caça matava tudo quanto se mexesse, até pequenas aves, como se ao abater indefesos animais fosse a antecâmara de uma batalha. Para além de tudo isto, Fernando I ainda era notável no manejo da espada, um reconhecimento que os seus habituais companheiros de torneios e adestramento invejavam, e agora sim, rei que se preze, deveria espadeirar com habilidade. Havia no entanto um outro factor que não se ajustava ao que um rei deveria transparecer para os seus súbditos. Era um homem muito bonito, vaidoso e elegante, tudo aspectos que não ligavam muito bem com a governação. Para municiar a sua líbido, Fernando I dispunha de uma despensa particular onde se abastecia de jovens donas (mulher que conhece varão, não virgem) da nobreza. Mas será pecado ser namoradeiro? Um bom rer não podia ser amador de mulheres e achegador a elas, e ao mesmo tempo governar com acerto o reino? - Então não pode?!, perguntava e afirmava a belíssima Almara. Eu que o diga! Que sabes tu disso, rapariga?, interveio a patroa, Mariamem, desconhecendo outras virtudes da sua menina de estimação. Ó patroa, então vossemecê não conhece os homens que entram pela porta do quintal? É tudo gente de seu, senhora. Então não pode?! Saem daqui mais espertos e corajosos do que quando entraram. Quem me dera a mim deitar-me com o nosso rei. A alma até lhe crescia, digo-lhe eu! Sim, está bem, vai à tua vida. Não sabes quem cá vem hoje? Reza, filha, benze-te que ele logo te absolve.
Do modo e da força física de Fernando I ninguém duvidava. Mas seria ele arrojado? Teria dentro de si a coragem que parecia sobrar enquanto combatia sem inimigos e caçava ajudado por dezenas de falcoeiros? Diante de guerreiros de verdade, o rei daria boa conta de si? É que há diferença entre a condescendência de um companheiro de armas e o olhar furibundo de um adversário disposto a não se deixar matar. São coisas radicalmente diversas, e o rei, até então, não fizera prova de que seria capaz de cortar a direito, motivar-se com o espargir do sangue dos belatores (os que combatem, oratores, os que oram ou rezam, laboratores, os que trabalham) enquanto esquartejava braços e abria cabeças. Tudo se veio a revelar quando o rei Fernando, em 1369, influenciado por aduladores e oportunistas, decidiu invadir a Galiza. Sabem o que vos digo?, questionou o almocreve para os que estavam como ele a refrescar a garganta na taberna de Mariamem. Este rei ainda nos vai fazer pagar caro as suas aventuras castelhanas. Não sejas dramático, Eliel, contemporizou Fernão Vasques, o homem que ganhava fortunas a fazer fatos para el-rei.
Olha quem fala! Vê-se logo que ficas sentadinho a alinhavar os tabardos de sua majestade. A ti não te custa, não. Cá o almocreve, que mate o corpo atrás das cavalgaduras por esses caminhos afora. Tão sossegados que el-rei Pedro I nos trazia, vem este agora armado em galego a querer o que é dos outros. Depois, impaciente, pôs-se a protestar contra o taberneiro. Ó Justo, vê lá se me fazes justiça, porra! Já posso ir eu ou quê? Nah! Hoje a Almara não é para os teus beiços. Então é p’rós beiços de quem? Oh, oh, tens de adivinhar. Mas uma coisa te asseguro, não vais vê-la de certeza. Os fregueses da taberna do Justo Lourenço e de Mariamem riam-se das alarvidades que trocavam, cabeças de pouco pensar, entregues a duas preocupações fundamentais: o desejo de um pouco de divertimento e a guerra que daria os seus passos no outro dia. Por que razão ia este simpático rei entrar em uma guerra de sucesso duvidoso? Por uma legítima necessidade de vingança? Henrique de Trastâmara, o soberano de Castela, matara-lhe o primo Pedro para se apoderar do poder, ia ele agora, cavaleiro justiceiro, pôr o outro na ordem. E, neste tempo, um primo valia o quê? O desassossego de milhares de portugueses? Nem aos irmãos era dado esse privilégio, quanto mais aos primos». In Jorge Sousa Correia, A Tentação de D. Fernando, Clube do Autor, 2017, ISBN 978-989-724-344-8.

Cortesia de CdoAutor/JDACT

A Tentação de D. Fernando. Jorge S. Correia. «Antes de fazer os vinte e dois anos, com um percurso de vida fácil e sem ter de se expor a nada que o desafiasse, Fernando I passeou pelo reino a sua elegância…»

jdact

O fim como princípio de tudo
Morre o corpo fica a fama
«(…) Cada vez mais curioso, o Falcão surpreendeu-se quando o cortejo parou diante do Paço do Apar de S. Martinho, mas logo descobriu a razão por que a comitiva entrara pela Porta do Ferro e não pela Porta do Mar. Convencera-se de que a procissão seguiria colina acima até ao castelo, mas quando chegaram diante do Paço do Apar, mesmo ali à sua frente, ao desmontarem todos como se quisessem fazer um intervalo, ouviu falas que o levaram a considerar que era ali o destino da trouxa que jazia na carroça. Por enquanto só tinha uma certeza. Não podia chegar-se para não ser visto, deveria manter-se na sombra, espiar em vez de intervir, até que, para dar alimento à curiosidade, observou os esforços que os criados faziam para resgatar o embrulho que vira dentro da carroça. Deitavam-lhe as mãos com cuidado, tentavam pô-lo de pé, mas a múmia desmoronava-se, perdia o equilíbrio, logo emparedada pelos homens que vira atrás da carroça. Foi então que os olhos se lhe abriram mais do que a noite permitia. Caídos os panos, a visão ofereceu-lhe a silhueta de el-rei, uma coisa por metade, quando a um soberano se devia exigir que fosse inteiro.
Completo Fernando I não estaria, partido em dois também não, nem era preciso, pois o Falcão num instante descobriu a razão de tanta deformidade. O rei tossiu. Como ele tossia! Engasgou-se, tossiu de novo, dobrou-se sobre si, e de cada vez que arrancava a gosma da garganta mais se dobrava, sempre a ceder, até que os dois homens o levaram de cadeirinha, mãos e braços cruzados para transportar el-rei. Valeu a pena, considerou o Falcão sempre atento às manobras dos noctívagos. Depois vieram-lhe ao pensamento certezas que antes eram só pressentimentos: nem mais nem menos, é o nosso rei, pois então! Ignorante da razão por que traziam o rei escondido, voltou a recorrer ao seu proverbial dom de adivinho: o pobre coitado já não é quem era. Já sabia que el-rei estava doente, mas assim? Nah..., doença? Cá para mim, está mais morto do que vivo.

O reino precisava mais do que um homem bonito
Antes de fazer os vinte e dois anos, com um percurso de vida fácil e sem ter de se expor a nada que o desafiasse, Fernando I passeou pelo reino a sua elegância e porte varonil, um regalo para todos quantos o miravam. Como quase todos os reis, era dado às caçadas, montarias onde levava atrás de si dezenas de falcoeiros, homens que treinavam os falcões e o ajudavam a abater as presas. Era também mulherengo incorrigível, defeitos ou virtudes que faziam dele um modelo ao gosto dos portugueses do seu tempo. Os súbditos conheciam-no, podia até dizer-se que era uma carta aberta para eles e ninguém lhe levava a mal, de tão cativante que era. Para além da mansidão e desleixo encantador, a sua atitude em relação à justiça foi desde logo pautada por uma relação pragmática, bem diferente do justicialismo de seu pai, Pedro I, este obcecado em castigar antes de ouvir as partes, como se na sua cabeça a punição estivesse à frente da razão. Ao contrário do pai, Fernando I permitia aos artífices das leis e do Direito que determinassem as penas e usassem a justiça com parcimónia. No modo e nas diferentes aptidões que o monarca Fernando I manifestava, era também conhecido como bom cavaleiro, temível nos torneios, pois era bom justador (Justa, torneio que se fazia em praças cercadas, acometendo-se os justadores uns contra os outros com lanças), óptimo lançador do tavolado (jogo de exercício militar, consistia em lançar por terra um castelo de madeira), braceiro (que atira longe pedras), invencível na luta corpo a corpo, alguém que reunia todas as condições para substituir com vantagem o rei Pedro I, um monarca que as gentes se habituaram a estimar e com ele partilhar noites de estouvada folia». In Jorge Sousa Correia, A Tentação de D. Fernando, Clube do Autor, 2017, ISBN 978-989-724-344-8.

Cortesia de CdoAutor/JDACT

domingo, 10 de setembro de 2017

A Tentação de D. Fernando. Jorge S. Correia. «… o pensamento diz-me que falta razão para tanto sigilo: será o rei o embrulhado? Dormirá? Nah! Nem morto! Alguma coisa lhe aconteceu»

jdact

O fim como princípio de tudo
Morre o corpo fica a fama
«(…) Já perto da margem, engasgado por tanta expectoração, Fernando transmite aos companheiros de viagem a ideia de que não é capaz de chegar ao paço. Cospe as entranhas para a água escura do rio, baba-se, suja a roupa imaculada, contorce-se, até que os suores dão razão ao paradoxo que é a sua vida agora: em vez de arrefecer aquece. Não chego a Lisboa, mestre Gil..., palavras desanimadas que saíram da garganta do rei quase sem som. Chegará, senhor. Deus há-de acompanhá-lo muito para lá da cidade, compôs o mestre em palavras de sentidos diversos. Muito para lá, dizes bem, assentiu o rei. Perguntai aqui ao bispo Martinho onde fica o Além, que ele logo vos dirá. Não me referia a outra coisa, senhor, que não fosse ao vosso bem-estar na Terra. Os mistérios do Céu não são comigo. Pois não, eu sei. Por isso é que vos disse para falardes ao bispo. Amparado pelos aios, algum ânimo permitiu ao rei sair pelo seu pé da barca, mas já não foi capaz de galgar o degrau da carroça que o esperava e menos ainda de sentar-se no assento que lhe deveria caber. Viera desde Almada deitado até ao cais em Cacilhas, deitado entrara no batel, voltava a não ser capaz de se manter hirto. Mais uma vez, desarticulado, jogou-se sobre as almofadas que o protegiam das tábuas rijas da carreta e ali ficou tapado com a pouca vida que ainda reservava.
Mansa a noite, sossegada a cidade, o pequeno cortejo, em vez de subir pela Porta do Mar, avançou na direcção da Porta do Ferro, nas imediações de onde o Falcão estava, confirmando o palpite inicial do taberneiro. Para onde irão? Quem virá ali? Na dúvida, o espreita recuou num salto para lá da Porta do Ferro, um pouco mais acima, já quando a rua se alarga na direcção da calçada da Sé. Quando a comitiva ultrapassou a Porta do Ferro e começou a subir na direcção do Largo de Santo António, um misterioso vulto escondido na noite escura espreitava com os olhos que Deus lhe deu os movimentos de tão suspeitoso acompanhamento. O Falcão, como uma sombra, viu passar primeiro o pregoeiro, depois um cavaleiro mais apessoado, um e outro anunciando penas para quem desobedecesse ao pregão real. Esperou. Os arautos já pouco lhe interessavam. Tenho cá um pressentimento…
Assim que o cortejo desembocou ao fundo da rua, o Falcão firmou o olhar na noite escura, insistiu, mas o que viu foi gente em cima de animais em passo lento, tão desanimada que mais parecia um enterro: é isso, é um enterro. Alguém de nome morreu! Terá sido o rei? Aos poucos, enquanto a procissão se definia, distinguiu de entre vários cavaleiros o chanceler, por o ter visto em outras ocasiões junto do rei, alguns cavaleiros que conhecia de vista, dois deles seus fregueses, mestre Gil, que de vez enquanto entrava pela porta das traseiras à procura das protegidas de Mariamem, e o bispo que há tempo lá não entrava, mas que fora um cliente dos melhores. A razão fundamental continuava por descobrir. Mesmo à sua frente, a pouco mais de quatro ou cinco passos, lá vinha devagarinho o cortejo macabro, pois não lhe saía da cabeça que tudo aquilo não era mais do que o transporte de um morto. Assim que ficou com as traseiras da carroça no seu ângulo de visão, com vista para o bispo Martinho, reparou que junto dele havia uma coisa embrulhada que não identificou logo: que raio de embrulho será aquele? Na forma..., na forma parece uma pessoa! Mas porque virá alguém embrulhado? Tê-1o-ão matado?
Para um espertalhão que de certo modo vivia de expedientes, a dúvida desacertava os ponteiros que tinha dentro da cabeça. Queria juntar as coisas, retirar delas algum lucro, mas tudo o que lhe vinha ao juízo não fazia sentido. Assim, em vista de tanta perplexidade, optou por outra análise: ora deixa-me cá ver quem vem no cortejo. Um é o chanceler, já disse. Na frente vão dois fidalgos de preço. Os outros não contam, é arraia-miúda que frequenta a porta da frente da taberna; dentro da carroça vai mestre Gil e o bispo Martinho; juntando estes, mais o embrulho, o pensamento diz-me que falta razão para tanto sigilo: será o rei o embrulhado? Dormirá? Nah! Nem morto! Alguma coisa lhe aconteceu». In Jorge Sousa Correia, A Tentação de D. Fernando, Clube do Autor, 2017, ISBN 978-989-724-344-8.

Cortesia de CdoAutor/JDACT

sábado, 9 de setembro de 2017

A Tentação de D. Fernando. Jorge S. Correia. «Transportar Fernando I até ao alojamento que destinara para morrer talvez se transformasse no caminho da morte»

jdact

O fim como princípio de tudo
Morre o corpo fica a fama
«(…) Caminhando como uma sombra, o Falcão pensava a cada passo na estratégia que deveria adoptar para ver sem ser visto. No seu pensamento, não era seguro ir logo do Largo de Santo António à Sé, mais acima de onde tinha a taberna, fazendo o percurso inverso para melhor surpreender o que aí vinha. Era um palpite, tinha fama de bom adivinhão, uma veia que com a experiência e os anos foi desenvolvendo. Recebida a informação virtual, deixou-se ficar pela Porta do Ferro, dali tinha uma visão alargada da Ribeira, e mesmo que não visse, ouviria com certeza os sons que os arautos do rei queriam silenciados. Mas escondido, atrás de uma ermida que ali havia, aos pouco foi identificando rumores que vinham do lado do rio: cá está, é ou não como eu imaginei? A insistente notícia do pregoeiro, repetida uma e outra vez, podia convencer muitos, mas ao Falcão, não! Via em cada atitude, em cada palavra deformada uma oportunidade, e desta vez, dizia-lhe o pressentimento, o que estava para vir era coisa de muito preço. No entanto, ao invés, mesmo esforçando o juízo para lá, da massa cinzenta que lhe ocupava a imaginativa cabeça, nessa noite, a informação que lhe chegava, dizia-lhe que a razão era de importância para o reino, mas nem um real ganhava com a espreitadela: é o rei. De certeza! Quem havia de ser? Alguém mais tem autoridade para fechar as ruas? Sim, é sua alteza. Mas qual a razão? Isto é que me estraga a cabeça! Esperemos..., concluiu o homem decidido a não sair do esconderijo.
No outro lado do rio, em Almada, el-rei Fernando I moldava o corpo ao andor que o haveria de transportar até à embarcação encostada ao cais de Cacilhas. Como se fossem unguentos, mestre Gil dava-lhe os últimos conselhos e determinava-lhe os paliativos, tudo excipientes que talvez dessem algum vigor ao pensamento doído e ao corpo devassado do rei. Antes de se agarrarem aos braços do andor, os criados seguraram o corpo de Fernando I, ajeitaram as almofadas para o aliviar do pouco peso que o corpo já tinha, mas de nada lhe puderam valer quando os assomos de tosse lhe arrancaram da garganta quantidades nunca vistas de escarros, de um volume que mais pareciam vísceras. Para o jovem rei de trinta e oito anos, uma vida que devia ser longa para a frente, cada movimento correspondia a um delírio de sofrimento. Os preparativos de trasladação do rei para a barca foram demorados. O percurso dispensou a padiola, substituída pelas cavalitas de um criado ajudado e acompanhado por mestre Gil, o cirurgião que em momento algum deixava o seu paciente de estimação ao arbítrio de um qualquer transportador.
Presenciando toda esta trasfega, mestre Gil ia pensando que o seu senhor já não tinha remédio: um homem tão bom. Será que Deus não olha aquém? Tão novo e já de morte encomendada. Depois, como a desculpar-se, argumentou a seu favor: quantas vezes, mas quantas, o aconselhei: vossa majestade não faça a guerra, não se alie a esses que só vos querem perder; os galegos vêm pelo vosso dinheiro, mais nada. Não acredite vossa alteza no Andeiro, desconfiai dele, senhor. Mal lhe virava as costas, já ele ia a caminho de mais um desacerto. Está mais do que visto. Foi ela, aquela depravada, o que havia de ser? Sim, eu sei, não me fica bem falar mal da rainha, mas que posso eu dizer de alguém que tanto mal causou ao nosso rei? Rio afora, a barca, num gingar suave ao ritmo das ondas rasteiras, permitia ao rei algum conforto, mais por o balanceio lhe trazer uma modorra anestesiante do que por ausência de sofrimento. A meio do rio, quando os contornos da cidade apagada pareciam agora mais nítidos, sua majestade tossiu tanto que os companheiros de viagem pensaram que não chegaria vivo à outra margem. Atentos, os fiéis servidores, verdadeiros amigos do rei, descansaram quando as convulsões terminaram e o rei sossegou. Mais tranquilos, deitam uma pestana contra a outra, entregam a missão aos remadores, mesmo assim convencidos de que, ao chegarem à margem lisboeta, o desembarque transformar-se-ia numa agonia. Transportar Fernando I até ao alojamento que destinara para morrer talvez se transformasse no caminho da morte». In Jorge Sousa Correia, A Tentação de D. Fernando, Clube do Autor, 2017, ISBN 978-989-724-344-8.

Cortesia de CdoAutor/JDACT

sexta-feira, 8 de setembro de 2017

A Tentação de D. Fernando. Jorge S. Correia. «Se a entrada da frente se fazia por um beco impreciso, sem saída, a de trás, quem a não conhecesse, nem dava por ela»

jdact

O fim como princípio de tudo
Morre o corpo fica a fama
«(…) Não serve para nada!, lamentou-se Falcão, um antigo barbeiro dedicado à taberna da companheira, compondo a seguinte tese. Sua senhoria nem sequer faz jus ao que dizem dele. Bom amador? Bah... Se fosse, a rameira não lhe enfeitava a cabeça. É que no reino temia-se o pior. Os estratos da sociedade de então, fossem eles eclesiásticos, nobres, burgueses ou o povo, estavam preocupados com a provável perda da independência, um desastre, mais um, depois do monarca Fernando perder todas as batalhas em que se metera.
Ao pregão, ouvido durante todo o dia pelas ruas de Lisboa, nem todos estariam dispostos a submeter-se. O Falcão era um desses. Homem de grande iniciativa, fizera prosperar a taberna de Mariamem, por quem se apaixonara, emergindo agora através dessa ligação como legítimo proprietário do estabelecimento que fora de Justo Lourenço. Muito politizado, participara na batalha do Salado ao lado de el-rei Afonso IV nas campanhas da Galiza atrás das quimeras de Fernando I, num tempo em que, sendo a sua antiga profissão equiparada à dos cirurgiões, cortava cabelos e arrancava dentes, distribuía punções e punha emplastros, lidando com todos, desde o mais ilustre fidalgo ao moço de estrebaria. Este convívio diário deu-lhe o reforço de que precisava para entender os enredos políticos, quase todos críticos na relação do reino com o rei. Era também homem de não ter medo, de se atirar ao desconhecido sem se encolher, ver onde os outros não chegavam. Um homem destes, com campanhas de guerra contra os castelhanos e ingleses, alguma vez se deixava iludir por avisos mal justificados?
Avisos?, interrogou-se o antigo barbeiro, nem que sejam reais, quero lá saber. Em vez de respeitar o pregão, cedeu à curiosidade, ficou de orelha alerta, ele que já muitas coisas vira e mais ouvira. Ficar encerrado na taberna enquanto as novidades corriam lá fora? Nem pensar. Ao ouvir a proclamação tantas vezes repetida, o Falcão deduziu logo que tal intimação era daquelas que escondiam coisas muito para além do que parecia. Pensou nisto, e não foi preciso o último aviso para confessar à companheira que uma pulga lhe entrara no ouvido. Olha, Mariamem, não descanso enquanto não expulsar este incómodo. Falas assim, mas quem te percebe sou eu, concluiu a estalajadeira, amante e sócia, municiadora das Almaras e Orianas, moças que jogavam o corpo para sensuais devaneios de escudeiros e outros senhores do castelo.
Logo que a noite assomou e a hora marcada pelo pregão para fechar janelas e portas chegou, a custo, o taberneiro começou a expulsar a clientela, usando como de costume a sua experiente capacidade para convencer cabeças cheias de vapores. Não há direito, ó Falcão!, reclamava um almocreve do serviço das cavalariças do castelo. Então a gente gasta aqui a nossa riqueza e tu pões-nos na rua? Vamos, hoje tenho mais que fazer, não vos posso aturar o resto da noite, não é? Ó Falcão, o almocreve tem razão, papagueou outro pingado, e não é só por isso. Se apareço em casa a esta hora, a mulher desconfia... Sim, está bem! Não tens nem mulher nem casa e queres fazer da minha a tua. Vá, todos lá para fora! Não ouviram o pregoeiro? Se os guardas do rei vos apanham, pelo menos das chibatadas não se livram. Vá, todos lá para fora!
Com insistentes argumentos e alguns empurrões, suaves, pois alguns mal se tinham de pé, o taberneiro lá conseguiu evacuar a taberna. Sempre com o pensamento numa boa história e na respectiva recompensa, assim que fechou o comércio e deu algum tempo para que os habituais fregueses seguissem os seus destinos, o Falcão vestiu um capote sombrio que o cobriu de alto a baixo, dispondo-se a sair pelo quintal da casa de primeiro andar onde habitava com Mariamem, naquele recanto de Lisboa a dois passos do Largo de Santo António. Para ele, que não tinha filhos, a mulher era a sua fortaleza, a musa, sócia e parceira de noites cada vez mais dormidas do que sentidas. Escondido na sua veste, o antigo barbeiro saiu para a rua pelas traseiras, um quintal onde tinha animais de criação e um anexo onde agora dormia a Almara, por deferência de Mariamem. Era um covão sem vista para lado nenhum, encimado por um muro arrombado do lado de cima, um alcouce imperceptível por onde entravam os senhores mais importantes, quando o entusiasmo lhes chegava ou quando os dias tristes se iluminavam nas carícias que recebiam das meninas da casa. Se a entrada da frente se fazia por um beco impreciso, sem saída, a de trás, quem a não conhecesse, nem dava por ela». In Jorge Sousa Correia, A Tentação de D. Fernando, Clube do Autor, 2017, ISBN 978-989-724-344-8.
                                                                               
Cortesia de CdoAutor/JDACT

domingo, 28 de maio de 2017

A Tentação de D. Fernando. Jorge S. Correia. «Recuando no tempo, o rei viera de Elvas para Salvaterra, daqui para Almada, escolhendo esta vila por ser cerca de Lisboa e a1i encontrar o sossego que tanta falta lhe fazia»

jdact

«(…)
Morre o corpo fica a fama
Porque me fostes tão infiel?, quase implorou o monarca Fernando I quando a esposa entrou no aposento de Almada, onde o rei se refugiou para esconder o deplorável estado físico que a doença lhe provocava. Senhor, não é hora de falar de infidelidades, respondeu-lhe a rainha, sem vontade de alargar a conversa. Alguma vez vos abandonei? Isso é que conta. Não estive sempre do vosso lado? Sabeis bem o que digo. São infidelidades, senhora, não são opções, insistiu Fernando, sem já articular bem as palavras. Avisado pelo sofrimento, desde há algum tempo que o corpo do rei começara a mirrar, as dores e a febre a tomarem conta do sossego, até que viu nos sinais o fim dos seus ainda jovens dias. Após anos de frustrações militares e diplomáticas, Fernando I, cedendo ao sabor das contingências políticas e da fraqueza de carácter, estava agora no ocaso da sua existência a ser devorado pela doença, arrancando-lhe do fundo das entranhas manchas de um esverdeado pegajoso. Prostrado, estando acompanhado no aposento que lhe servia de enfermaria, na verdade era o homem mais solitário do mundo. Há meses que fugia do contacto do povo, dias e dias que não queria ver ninguém do seu serviço, a não ser as pessoas fundamentais que o ajudavam a sobreviver.
Recuando no tempo, o rei viera de Elvas para Salvaterra, daqui para Almada, escolhendo esta vila por ser cerca de Lisboa e a1i encontrar o sossego que tanta falta lhe fazia. Não é que a vila da margem esquerda do Tejo fosse um sanatório, não era isso. Escondia-se do mundo, encobria o belo aspecto que tivera, não queria que lhe vissem a carcaça ressequida de tanto vomitar as entranhas. A vida, para ele, resumia-se agora a pequenos períodos de vitalidade, pois já nem os chás nem as mezinhas tinham o efeito soporífero que os físicos desejavam. Sem vigor, sem esperança, em Setembro de 1383 decidiu voltar ao paço, a Lisboa que tanto amava, onde esperaria que a morte lhe fosse suavizada por um não sei quê de espiritualidade. Uma morte santa, talvez pensassem os seus servidores. No século XIV havia muito disto. Ainda não passara meio século desde que a Peste Negra derrubara um terço das almas na Europa conhecida, um castigo da divindade sobre os pecadores, por assim dizer uma ideia difundida pelos próceres mais sectários da Igreja. É que as mortes podiam ser invocações do Inferno ou requisições de Deus, e este rei, pelo seu percurso de vida, embora pecaminoso nos costumes, não deixava de ser uma alma inocente.
Em Almada, mestre Gil, o principal cirurgião do rei, perante a gravidade da doença, requisitou os bons ofícios de mestre Mohamad, um famoso cirurgião mouro, que não fez mais do que confirmar o que o português Gil afirmara. Sua majestade sobreviverá o tempo que os deuses deixarem. Em vista do estado crítico que o contaminava, já mal respirava e da sua garganta só saíam bocados dos pulmões embalados em viscosidade, Fernando transmitiu ao chanceler a necessidade de vir morrer a Lisboa. Ordem respeitada, o monarca Fernando quis um pouco mais: quando chegarmos, de noite, todas as luzes deverão estar apagadas, as ruas despidas de pessoas, as janelas e portas das casas cerradas.
Chegaria à capital sem darem por ele, uma toleima, pensariam os servidores, como se o mais alto magistrado do reino pudesse passar sem ser visto. Rei é rei, um pensamento que do mais humilde criado ao nobre mais notável tinha como divisa, e sendo assim, o melhor era respeitar os desejos do soberano. Mensagem recebida, mensagem transmitida. Foram enviados pregoeiros para percorrerem as ruas de Lisboa, em particular as que iam das Portas do Mar e da Porta Ferro ao Paço do Apar, avisando os moradores e passantes que deviam recolher às suas casas quando o crepúsculo assentasse sobre a cidade, ameaçando com pesadas penas aqueles que desobedecessem.
Qual seria o pensamento do rei? Nunca fora de grandes urdiduras, porquê tanto sigilo? Quereria ele apanhar Leonor Teles em flagrante delito de adultério? Não era a altura para isso. A rainha acabara de ter outra gravidez infeliz, por certo não se poria a derramar paixões adúlteras para cima do conde Andeiro, enquanto o marido se desprendia da vida. Não sendo por isto, que outra razão haveria? O povo perdera-lhe o respeito, desde o atribulado casamento com Leonor Teles, uma ideia consubstanciada pelo carácter fraco do rei, sem jeito para a guerra e menos ainda para a diplomacia, por isso talvez quisesse evitar encontros desagradáveis com a plebe». In Jorge Sousa Correia, A Tentação de D. Fernando, Clube do Autor, 2017, ISBN 978-989-724-344-8.
                                                                               
Cortesia de CdoAutor/JDACT

A Tentação de D. Fernando. Jorge S. Correia. «Quantos mais fidalgos galegos Fernando recebia, e foram muitos, mais fantasias territoriais o rei concebia»

jdact

«Do justo e duro Pedro nasce o brando
(vede da natureza o desconcerto)
remisso, e sem cuidado algum Fernando,
que todo o Reino pôs em muito aperto,
que vindo o Castelhano devastando
as terras sem defesa, esteve perto
de destruir-se o Reino totalmente,
que um fraco Rei faz fraca a forte gente».
In Luís Vaz de Camões, Os Lusíadas.

«Em Janeiro de 1367, o rei Pedro I, cognominado O Justiceiro, morre em Lisboa deixando o reino para o seu filho primogénito, Fernando de seu nome. O novo rei de Portugal tem atributos pessoais louváveis, embora os mais cépticos o considerem fraco. A primeira imagem que o jovem de vinte e dois anos transmitia ao seu povo era a de um homem valente, ledo e namorado, amador de mulheres e achegador delas. As virtudes apontadas ao rei podiam fazer dele um monarca respeitado, talvez até invejado, ainda mais que estando cerca de muitos homens, posto que conhecido não fosse, logo o julgavam por rei dos outros. A questão tem mais o que se lhe diga. Nesse tempo, como em outros, gostar de mulheres ou ser bem-parecido não era condição para triunfar na vida, quanto mais para chefiar um país. Podia ajudar, mas se compararmos Fernando I a Pedro I, seu pai, também ele um grande amador, não só com Inês de Castro, também com Teresa Lourenço e dona Constança, verificamos que não sendo bonito como o filho, aliou bem os arrebatamentos amorosos a uma boa governação.
Amadores de mulheres somos todos, até de homens também, como insinua Fernão Lopes na crónica que escreveu de Pedro I. A interpretação do cronista é arriscada, transparece dela a ideia de que o pai de Fernando I teve um fugaz interesse por um seu escudeiro, uma relação que talvez nesse tempo não fosse assim tão extravagante, pois Fernão Lopes dá mais ênfase às consequências do que à suposta relação: el-rei Pedro I, ao saber que um seu escudeiro se insinuava nas graças de uma mulher casada, e como quer que ElRey muito (o) amasse, mais do que se pode aqui dizer, posto de parte todo
o bem-querer, e amor, mandou-o prender em sua câmara, e mandou-lhe cortar todos aqueles membros que os homens em mais preço e estima têm, de maneira que não lhe ficou carne até aos ossos.
Não era preciso tanto! Cortar pela raiz o elemento que entretinha o escudeiro e os amores dele, não se faz. Assim, tal como o cronista, somos levados a pensar que se tratou de uma manifestação de ressentimento do monarca Pedro e uma irresponsabilidade de Afonso Madeira, o jovem escudeiro que se esqueceu da exclusividade que devia ao rei. Não saberia ele que em questões de preeminência sua senhoria estava em primeiro?
Ao contrário do pai, não consta que Fernando I tivesse desvios de género, nem que fosse brutal como ele. Era um homem sensível, um cavaleiro sem sorte, alguém que corria atrás de quimeras à procura de honra e fama, ignorando a força dos adversários e as suas próprias debilidades. Era também de uma vaidade ingénua, deixando-se facilmente seduzir por bajulices oportunistas com que muitos nobres o enredaram. Quando Henrique de Trastâmara, filho bastardo de Afonso XI de Castela, venceu o meio-irmão, Pedro I de Castela e Leão, este sim, filho legítimo, primo direito de Fernando, os nobres que respondiam pelo rei vencido vieram ressabiados procurar apoio em Portugal e encher a cabeça de Fernando com juras, adesões, promessas de fidelidade, tudo fantasias que o jovem monarca não soube discriminar.
Quantos mais fidalgos galegos Fernando recebia, e foram muitos, mais fantasias territoriais o rei concebia. Levado por uma ambição construída por outros, começou logo a pagar por conta: permitia aos que vinham lisonjeá-lo vida sossegada e abastada, cedia-lhes bocados de Portugal, premiava a sabujice com somas consideráveis de dinheiro. Anos mais tarde, já depois de Fernando I perder as ilusões e Henrique governar Castela com mão de ferro, Afonso Mujica, um fidalgo menor que também veio louvar o rei, pedir guarida e prometer o que não tinha, comentou mordaz numa roda de outros nobres como ele, tudo quanto o rei lhe deu: trinta cavalos, trinta mulas, trinta corpos de armas de todas as peças, trinta mil libras de prata lavrada, quatro azémolas muito bonitas carregadas de tapeçarias e roupa de cama; e ainda uma provisão, pela qual lhe dava de juro a vila de Torres Vedras.
A guerra e a diplomacia foram duas das tarefas que o rei também não soube exercer; lutou contra adversários que não podia vencer, construiu alianças errando no tempo e nos protagonistas. Os erros foram muitos, mas aqueles que trouxeram ao rei uma vida desafortunada estão ligados ao período em que este invadiu a Galiza e se apaixonou por dona Leonor Teles, mulher de carácter forte e pensamento ambicioso, determinada a conquistar-lhe o corpo e sobretudo a autoridade». In Jorge Sousa Correia, A Tentação de D. Fernando, Clube do Autor, 2017, ISBN 978-989-724-344-8.

Cortesia de CdoAutor/JDACT