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sábado, 7 de novembro de 2015

Saudade da Literatura. Crónica. Antologia. 1984-2012. Manuel António Pina. «Por isso Oliveira de Figueira não terá a homenagem que merece. Nenhum banco se lembrará de cunhar em moeda, nenhum estudante pedirá uma bolsa à Gulbenkian, nenhuma Câmara lhe porá o nome numa rua, nem a estátua numa praça»

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Louvação de Oliveira de Figueira
«Em pleno quinto centenário dos Descobrimentos, talvez seja a altura de trazer ao lume (brando, brando...) da crónica o inesquecível señor (com ñ) Oliveira de Figueira. Os leitores de Tintin conhecem-no bem de Os charutos do faraó e de outros episódios da epopeia de Hergé. Juntamente com Pedro João Santos, físico famoso e professor da Universidade de Coimbra que, em A estrela misteriosa, acompanha o repórter do Le petit vingtième na expedição ao meteorito que, afinal, não destruiu a boa e velha Terra, Oliveira de Figueira representa-nos generosamente a todos no díspar painel de personagens que o lápis e o coração do belga legaram aos outros homens. E podemos gabar-nos de que ambos pertençam à galeria dos bons. O mesmo, por exemplo, não podem fazer os gregos (o mais tenebroso inimigo de Tintin é um grego, o ricalhaço Rastopopoulos), nem os ingleses, nem os americanos, nem os franceses, nem os indianos, nem os japoneses, nem mesmo os incas, que têm gente de um lado e do outro... Como Tintin, o cronista tem encontrado Oliveira de Figueira um pouco por toda a parte onde os acasos do jornalismo e da vida o têm levado. (O que prova que Hergé sabia mais de nós e da nossa errante natureza do que poderia fazer supor o facto de, para ele ou, ao menos, para a sua obra, não haver portugueses maus). Hoje, com o que sei de Oliveira de Figueira e da sua vocação de cidadão do mundo, surpreende-me que o bíblico Adão não tenha dado de caras com ele no seu primeiro passeio solitário pelo Éden...
Em Tóquio encontrei-o à frente de um restaurante chamado Nazaré; no Alasca atrás de um aspirador, a trabalhar na limpeza do aeroporto de Anchorage; em Seul na cozinha de um escuso bar cheio de fumo e de filipinos; em Reykyavik numa loja de roupas... indianas; em Berlim num infantário; em Oslo ao volante de um táxi; em Kyoto ensinando Português numa universidade. Em Salvador da Baía e no Rio, como por todo o Brasil, Oliveira de Figueira aparece ao virar de cada esquina; em Paris, e por toda a Europa, como por toda a África, é o que se sabe: é mais fácil encontra-lo do que a um algarvio no Algarve! O homem das Arábias que, no último instante, em pleno deserto, surge, bonacheirão e cordial, em salvação de Tintin e o esconde da ira dos maus no seu impenetrável labirinto de bugigangas, tem também salvo o cronista do pecado da saudade em tudo quanto é sítio. Ao jornalista, por outro lado, Oliveira de Figueira salva-o todos os dias da rotina das notícias das agências internacionais. Há um choque de comboios em Paris? Oliveira de Figueira está, pelo menos, entre os feridos. Um atentado na África do Sul? Oliveira de Figueira ia a passar. Um assalto a um paquete no Mar Egeu? Oliveira de Figueira ia no cruzeiro com a família e viu tudo e, com um pouco de sorte, até tirou fotografias! Mesmo quando já partiu, e mesmo que já tenha partido há muitos séculos, Oliveira de Figueira deixou um rasto de simpatia e de História que protege o viajante que o segue como o escudo invisível do dentífrico. Uma vez, em Nagasaki, entrei numa loja para comprar uma garrafa de saké e um serviço de louça em que o ministrar mais tarde, em casa, com a exigível propriedade, às visitas mais requintadas. O lojista não tinha que ser especialmente perspicaz para descobrir que eu não era japonês; só teve que ser um pouco curioso para me perguntar, num inglês ainda pior do que o meu, donde era eu from. Quando soube que eu era from Portugal, os seus olhos e as suas palavras ficaram subitamente em festa: falou-me, então, da chegada dos portugueses àquelas costas muitos séculos atrás, em estranhos barcos à vela, da forma como por lá se foram ficando e de como venderam às gentes da terra, o famoso bazar de Oliveira de Figueira!, coisas dispersas e ideias tão singulares como fabricar pão, espingardas, vitrais coloridos ou fazer chá. E, num arroubo de reconhecimento e cordialidade (nunca um português lhe tinha entrado pela loja, e até a família fora chamar lá dentro para me ver!) ofereceu-me tudo o que eu lhe queria comprar e embrulhou-mo num chamejante papel de seda amarelo.
Mas o episódio não acaba aqui. Quando, no hotel, contei o sucedido aos outros portugueses que comigo viajavam, a expedita alma comerciante de Oliveira de Figueira acordou alvoroçadamente neles, vinda do fundo dos tempos. Todos queriam ir também à loja (eu é que lhes não disse onde era!) onde os portugueses eram very welcome para terem saké e jarrinhas de porcelana de borla... Infelizmente, a imprevisível Comissão dos Descobrimentos, que para aí gere milhões com a falta de bom senso que se sabe, deve ser mais leitora de La Salade do que de Hergé. Por isso Oliveira de Figueira não terá a homenagem que merece. Nenhum banco se lembrará de cunhar em moeda os seus dalinianos bigodes, nenhum conferencista lhe dedicará uma palestra, nenhum estudante pedirá uma bolsa à Gulbenkian para lhe seguir o rasto através dos continentes, nenhuma Câmara lhe porá o nome numa rua, nem a estátua numa praça. A homenagem da crónica, em letra impressa, não ressalvará o resto; que, ao menos, sirva de efémera memória da sua passagem generosa e corajosa pelos perplexos mundos da nossa infância e do nosso coração». In Manuel António Pina, Jornal de Notícias, 23/07/1988.

In Manuel António Pina, Crónica, Saudade da Literatura. Antologia, 1984-2012, selecção de Sousa Dias, Assírio Alvim, Porto, 2013, ISBN 978-972-37-1684-9.

Cortesia de AssírioAlvim/JDACT

Saudade da Literatura. Crónica. Antologia. 1984-2012. Manuel António Pina. «O nome de Pessoa é uma inesgotável mina onde os políticos e os universitários vão buscar lustro para os cargos e para os currículos»

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Os salteadores da Arca Perdida
«Espécie em vias de extinção, os poetas, cuja duvidosa relação com os múltiplos poderes não excluiu, ao longo dos tempos, tempestades e conflitos, têm servido para cantar o poder e têm sido pagos para isso. E têm servido para dourar o poder, os poderes, como adereço requintado, sobretudo depois de mortos, porque se tornam então politicamente mais baratos e menos controversos. A estranha sedução e reverência que a poesia, a arte e, em geral, a chamada cultura despertam nos que mandam e nos que têm dinheiro (qualidades que, na maior parte dos casos, andam juntas…) contagia depois os que obedecem e não têm dinheiro, e por via dessa sedução e dessa reverência se alimentam também os valores da obediência e do reconhecimento sobre que os poderes se fundam. Quando um banco japonês compra os Girassóis deVan Gogh por milhões não é só um negócio que faz; é um negócio muito especial, com um verniz que entra nos balanços na coluna da imagem e do prestígio, cuja contribuição para as colunas mais estritamente contabilísticas passa por misteriosos mecanismos iconográficos. Os discursos, as inaugurações, as festividades, os programas de TV, suscitados por tudo quanto é sítio da política e da cultura pelo centenário do nascimento de Fernando Pessoa andam por caminhos parecidos. O nome de Pessoa é uma inesgotável mina onde os políticos e os universitários vão buscar lustro para os cargos e para os currículos. Quando vejo Abecasis na TV, e todos os Abecasis que vão à TV, encher a boca com o nome de Pessoa, e quando os locutores e jornalistas, no exercício do seu sacerdócio do poder e dos valores constituídos, repetem reverentemente os rituais das entrevistas com intelectuais universitários e com comemorativos em geral, das reportagens, das homenagens, ou debitam os lugares-comuns apropriados à centenária circunstância, dói-me num sítio que não me custa a crer seja o mesmo sítio onde doeu a Pessoa a poesia que escreveu.
Ao contrário dos poetas, a poesia, felizmente, não serve para nada. A não ser aos poetas (aos poetas que escrevem poesia e aos poetas que lêem poesia). Tenebrosa e absoluta, a poesia furta-se (os poetas nem sempre...) aos dedos grossos do poder, mesmo quando se verte em cantorias de louvor e de exaltação. Os poetas são mais sólidos e mais vulneráveis, têm emprego, nacionalidade, Bilhete de Identidade. A poesia não. Nem a pintura. Os livros, os quadros, aprisionam-se, utilizam-se, exibem-se, vendem-se; a poesia e a pintura são coisas gratuitas e desmesuradas, que nascem e vivem num território onde não chegam os exércitos nem as administrações. A poesia, e a arte, sempre foram uma igreja de catacumbas, cuja iniciação se faz no silêncio e na solidão, que são terras altas inacessíveis ao voo das aves que, como os corvos de Nietzsche, grasnam e andam em bandos. Dir-se-á que não há mal nenhum em que os emblemas e os fetiches da poesia e da pintura circulem na praça pública como mercadoria e que andem ao pescoço dos políticos. E que talvez seja inevitável, e dispiciendo, o comércio do poder político e do poder económico com a arte e com a poesia. Mas os sentimentos estão para além do bem e do mal e o preço que se paga vendo Pessoa em bronze sentado a uma mesa do Chiado, ou os Girassóis fechados num cofre de Tóquio, é um sentimento; um sentimento talvez demasiado, mas de qualquer maneira um sentimento. E não deixa de ser uma impressão estranha assistir ao espectáculo das multidões kultas à volta da fogueira pessoana, tentando papudamente, e em vão, agarrar o seu fogo e gritando Agarreio-o! Agarrei-o!; e dos actores declamando, diante de câmaras embasbacadas, Álvaroo de Campos com os gestos e os trejeitos com que declamam André Brun; e dos universitários debruçados, nas salas de anatomia crítica, sobre o corpo poético cógnito e incógnito de Pessoa, dissecando símbolos, pesando metáforas, separando heterónimos, publicando afanosamente relatórios, teses e artigos em tudo quanto é revista e editora, disputando a famosa arca para os currículos como os soldados romanos à volta da túnica de Cristo.
Releio isto e descubro alguma, provavelmente excessiva, sintomatologia de ressentimentos, amarguras, margens. A doença infantil da poesia não há-de deixar esquecer o que deve a alguns críticos muita da poesia de Pessoa tirada da arca, e a saída de muita dela do seu particular universo para o nosso universo colectivo; estou a lembrar-me de João Gaspar Simões, de Maria Aliete Galhoz, de Teresa Rita Lopes, de Eduardo Lourenço, de Agostinho da Silva, de Dalila Pereira da Rocha e de muitos outros (mesmo de alguns dos militantes da terrível tropa dos assistentes universitários que se lançaram ao assalto da arca perdida). Já aos políticos (se calhar com a excepção de António Ferro) ninguém, nem a poesia de Pessoa, deve nada. Eles é que têm uma dívida para com ela que, naturalmente, não conseguirão pagar com estátuas nem com nomes em ruas. Infelizmente, ao contrário do filme de Spielberg, este vai terminar mal e, ou muito me engano, ou, desta vez, Indiana Jones dificilmente levará a melhor sobre os salteadores da arca perdida de Pessoa». In Manuel António Pina, Jornal de Notícias, 18/06/1988.

In Manuel António Pina, Crónica, Saudade da Literatura. Antologia, 1984-2012, selecção de Sousa Dias, Assírio Alvim, Porto, 2013, ISBN 978-972-37-1684-9.

Cortesia de AssírioAlvim/JDACT

Saudade da Literatura. Crónica. Antologia. 1984-2012. Manuel António Pina. «O Ferraz, poeta maldito, a Vitória, fragilíssima, e o Paiva, que algum estranho deus contemplara com o raro dom, proibido às pessoas comuns, de ver as coisas pela primeira vez, ficaram para sempre no “Fala Barato”»

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Alguns jornais velhos
«O que será feito do Ferraz? E da Vitória? E do Artur? E do Paiva? E, dos outros? Há 20 anos eram crianças. E poetas. (e eu, e nós, o que éramos há 20 anos?). Hoje háo-de estar por aí, em qualquer lado, dispersos para sempre, provavelmente ao torno em alguma oficina, ou a fazer contas e a preencher papéis em algum absurdo escritório, ou repetindo desencantados gestos em linhas de montagem sem sentido. Há 20 anos, a Vitória queria ser uma flor: Se eu fosse flor / devia ser linda, / cor-de-rosa. / E as senhoras cortavam-me / para pôr nas jarras. O que quererá ela hoje? O Ferraz revoltava-se: Morrer enquanto estamos vivos / não adianta nada, / havíamos de morrer só quando estivéssemos mortos, / ou na barriga da mãe! Hoje ter-se-á resignado? E o Paiva surpreendia-se com coisas simples e surpreendentes: o Natal, a gente nas ruas, a toalha sobre a mesa da sala de jantar. Não é fácil ser criança. (Para dizer a verdade, ser adulto, o que quer que isso signifique, também não é...). Há 20 anos, o Ferraz, a Vitória, o Paiva e os outros eram crianças numa casa quase anónima da Senhora da Hora, o Centro de Recuperação de Crianças, onde alguns adultos as ajudavam a ser crianças, que é como quem diz que se ajudavam a si próprios a ser adultos. Pode muito bem ter sucedido que o Centro os tenha recuperado a todos e eles hoje estejam tão feios e tão recuperados, como nós e que os seus sonhos recuperados, sejam agora o Totoloto ou umas férias em Torremolinos.
Na altura, todos eles (e se calhar todos nós) sonhavam sonhos mais graves e mais improváveis. O Artur, por exemplo, sonhava ser uma casa: Se eu fosse casa, as pessoas dormiam dentro de casa, / e também jantavam dentro de casa, / e lavavam a cara no lavatório. Há 20 anos era a infância, esse misterioso lugar, perdido nas sujas ruas da grande cidade, ou nas ruas, também sujas, da escola e da família, que eles recuperavam na casa da Senhora da Hora. Com a ajuda de um imenso pequeno jornal de quatro páginas, o Fala Barato, que se publicava ao sabor do Sol: na Primavera quando era Primavera, no Verão quando era Verão, no Outono quando era Outono e no Inverno quando era, e era tantas vezes!, Inverno. Num desses invernos vieram buscar a Vitória e ela, subitamente aprisionada fora de si, escreveu uma prosa terrível no jornal: Eu gosto muito do Natal. Eu era para passar o Natal aqui no Centro, mas veio uma senhora buscar-me para ver a minha mãe que estava morta. Agora, 20 anos depois, folheio os Fala Barato, que encontro por acaso, velhos e despropositados, no fundo da estante, e procuro-os a todos, ao Ferraz, à Vitória e ao Paiva, mas encontro apenas sombras. E palavras, que é a matéria de que a memória, como a infância (e como os jornais), são feitos. Onde quer que hoje eles estejam, o Ferraz e os outros, não são o Ferraz e os outros que lá estão; o Ferraz, poeta maldito, a Vitória, fragilíssima, e o Paiva, que algum estranho deus contemplara com o raro dom, proibido às pessoas comuns, de ver as coisas pela primeira vez, ficaram para sempre no Fala Barato.
Tinham todos sido recolhidos no Centro, vindos sabe-se lá de onde, para serem recuperados. Porque a infância, como a poesia, sobretudo quando são mais puras, suportam mal a vida; eram crianças com problemas, e a infância é um problema que a vida raramente perdoa. Fora do Centro teriam certamente soçobrado no mundo dos adultos e das pessoas comuns. Hoje, provavelmente, são também, como todos somos, pessoas comuns. O mais certo é que já, não escrevam poesia e guardem os Fala Barato escondidos em qualquer sítio inacessível no fundo de si próprios. Os meus Fala Barato guardei-os também, de novo, no fundo inacessível da estante. E ali jazerão para sempre, mortos e irrecuperáveis». In Manuel António Pina, Jornal de Notícias, 28/05/1988.

In Manuel António Pina, Crónica, Saudade da Literatura. Antologia, 1984-2012, selecção de Sousa Dias, Assírio Alvim, Porto, 2013, ISBN 978-972-37-1684-9.

Cortesia de AssírioAlvim/JDACT

terça-feira, 18 de novembro de 2014

Saudade da Literatura. Crónica. Antologia. 1984-2012. Manuel António Pina. «… uma casa onde morar e uma cama onde dormir e um sono onde coincidiremos com a nossa vida, um sono coerente e silencioso, uma palavra só, sem voz, inarticulável, anterior e exterior, como um limite tendendo para destino nenhum e para palavra nenhuma…»

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1988. Chamo-lhes Crónicas porque não sei o nome disto
Louvor e simplificação de Pacheco Pereira
«(…) Pode estranhar-se (até eu estranho) a por assim dizer insistência com que estas crónicas perdem tempo e espaço com Pacheco Pereira, o fogoso deputado liberal e de esquerda e social-democrata e independente. Pacheco Pereira é uma oportunidade que um cronista dificilmente pode deixar escapar. Crónica é relação mais ou menos fiel e verdadeira dos dias, no caso concreto das semanas, do cronista, e os dias, hoje, são de arrependimento e de arrependidos, acontecendo que, na circunstância, Pacheco Pereira terá justamente granjeado estatuto de autêntica metáfora nacional (ainda ninguém se lembrou de um Grande Prémio Nacional do Arrependimento, mas não menosprezemos a imaginação premiante portuguesa...). Depois, estes dias poderão também muito bem ser a última ocasião de falar de Pacheco Pereira e do seu imenso estatuto metafórico, pois o mais provável é que, daqui a algum tempo, já ninguém se lembre outra vez dele, e lá se perdiam duas ou três crónicas que, elas scripta manent, permanecem.
A explicação é esta; espera-se que seja convincente... Vem desta vez Pacheco Pereira a propósito de ter surpreendido o jornalismo menos avisado com a afirmação de que, de Maio de 68 para cá, pouco mudou na Europa, muito em Portugal, e que ele próprio não mudou nada! Achou algum jornalismo e algum cronismo, facilmente levados pelo rio das aparências, que Pacheco Pereira, pelo contrário, terá mudado muito mais do que Portugal, pelo facto de hoje ter bancada na Assembleia da República e de ser aí autor das evidências que se conhecem. Compara esse cronismo os imperativos categóricos que Pacheco Pereira emite hoje na Assembleia da República com os emitidos pelo mesmo Pacheco Pereira há alguns anos atrás nas ruidosas fileiras ML. E vê abissais diferenças. Quem vê diferenças, ensina o Livro do Tao, caminha de morte em morte. Desse castigo está no entanto livre este vosso criado, que na verdade não vê diferença nenhuma entre o que Pacheco Pereira dizia há alguns anos e o que diz agora, mesmo, e sobretudo, quando era autor das mais fervorosas prosas espargindo incenso teórico sobre a prática estalinista.
Quem não vê diferenças, explica agora a oftalmologia caminha para a miopia galopante. Será talvez o caso do cronista destas, para quem Pacheco Pereira continua tão estalinista como há 20 anos ou há menos. O estalinismo é que mudou de sítio, eis a tese que aqui se defende. De sítio e de natureza. Hoje o estalinismo já não manda ninguém par a a Sibéria quando muito manda para o desemprego, e com subsídio e tudo. Assina com pseudónimo e os seus decretos perderam o ar do primarismo dos bons velhos tempos. E tendo o estalinismo e a intolerância mudado de sítio, mesmo tendo-se (o estalinismo e a intolerância) tornado soft, e descafeinado pelo caminho, que poderia Pacheco Pereira fazer senão correr atrás deles?
A visão teórica da sociedade e do mundo que notabilizaram Pacheco nas barricadas do marxismo-leninismo como o notabilizaram hoje nas bancadas parlamentares do PSD ter-se-ão, há-de reconhecer-se; trata-se, todavia, mais do que de um aggiornamento, de um (como é que se diz?) percurso político. Ora um percurso é um caminho para chegar a algum sítio, quer se trate de uma viela tortuosa quer da mais transparente das auto-estradas. No caso de Pacheco Pereira, é convicto da crónica, trata-se de um caminho para não sair de sítio nenhum. Que seja tão incompreendido é o preço da coerência desse caminho, porque em política ninguém perdoa aos que, como Pacheco Pereira, não mudam. Para chegares onde estás, escreve Eliot nos Quatro Quartetos, (tens que seguir por um caminho onde não há êxtase), e em êxtase foi coisa que nunca nenhum deputado do povo, nem nenhum povo, viu Pacheco Pereira na Assembleia da República. Quando muito é possível vê-lo em êxtase nas prosas do Semanário, sobretudo quando se exercita em parágrafos indescritíveis, e à falta de purgas mais gloriosas, a decretar a purga dos jornalistas dos jornais estatizados. (Segundo se lê esta semana no Tempo, o entusiasmo ortodoxo leva-o já a reclamar purgas dentro do próprio PSD!).
Os jornalistas têm sido, desde os tempos imemoriais da URSS de Estaline, os mais apropriados objectos de purgas. Os jornalistas e os camaradas de partido e de bancada. Há uma altura na vida das sociedades e dos partidos, como na vida das árvores, em que chega o tempo da poda; e as ramificações e as florescências jornalísticas e partidárias tendem, como se sabe, perigosamente para a heterodoxia. Se alguma coisa mudou fomos nós, foi o Universo, foi o alfaiate de Pacheco Pereira; ele não. Talvez esteja um pouco mais gordo, um pouco mais (sage), talvez tenha perdido alguns cabelos e alguns escrúpulos, mas continua a ser o bom velho Pacheco Pereira de Maio de 68, de Março de 75 e da semana passada. Se ele diz que não mudou nada por que diabo não havemos de acreditar nele? In Manuel António Pina, Jornal de Notícias, 21/05/1988.

In Manuel António Pina, Crónica, Saudade da Literatura. Antologia, 1984-2012, selecção de Sousa Dias, Assírio Alvim, Porto, 2013, ISBN 978-972-37-1684-9.

Cortesia de AssírioAlvim/JDACT

quinta-feira, 19 de junho de 2014

Saudade da Literatura. Crónica. Antologia. 1984-2012. Manuel António Pina. «… acho que consegui dizer uma coisa do género na problemática entrevista. Nem que não sirva. As palavras falam sozinhas. As crónicas fazem-se a si próprias, o cronista é o menos. E se lhes chamo crónicas é porque não sei que nome dar a isto»

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1988. Chamo-lhes Crónicas porque não sei o nome disto
«Ricardo Pinto, cronista da Rádio Universitária, pôs-me outro dia, aos microfones uma questão de todo em todo improvável: O que é isso de crónicas? Fiquei em pânico, como um trapezista que tivesse falhado o salto, sem resposta a que me agarrar; e devo ter esbracejado desesperadamente antes de me ter estatelado em qualquer definição de almanaque. Na Rádio trabalha-se sem rede; o meu por assim dizer género, dado muito a perguntas e pouco a respostas, conforma-se, coitado dele, mais com a escrita, onde se podem facilmente fazer passar as grandes ignorâncias por uma questão de estilo.E ainda mal estava refeito da provação já tinha que me safar de outra situação dramática: E para que servem as crónicas?, (Eu que andava a pensar numa entrevista à secretária de Estado da Cultura com perguntas más como: O que é a cultura?...).
O caso deu-me para pensar (naturalmente sob a forma de crónica) acerca de definições, que é coisa com que nunca me entendi. Ezra Pound refere Fennollosa a propósito da escrita ideogramática chinesa, falando desta questão das definições. Observa ele que, por exemplo, se se pergunta a uma língua como o Inglês (ou o Português) o que é o vermelho, ela há-de responder que é uma cor; e se, depois, se lhe pergunta o que é uma cor, há-de dizer qualquer coisa do género, É uma forma de energia; e por aí adiante até acabar no ser e no não-ser. O ideograma chinês que significa vermelho contém, pelo contrário, vários elementos vermelhos (o flamingo, ainda e sempre por exemplo, embora esteja a citar tudo isto de cor), e o vermelho é aquilo. Uma resposta vai de abstracção em abstracção, outra vai, passe o simplismo, direita ao assunto. Eu podia ter respondido (fosse eu chinês...) que crónica é isto (não sei bem o quê); mas a verdade é que não sei o que isto é. E, muito menos, Para que serve.
Num certo poema, o filho de O'Neill pergunta-lhe com ingénua sabedoria: O que é o fogo? É o que queima!, responde o pai chegando-lhe (um pai poeta é um problema para um filho!) lume aos dedos. Eu, por meu lado, também tenho uma história parecida. Há, muitos anos, já não me lembro porquê (de facto é uma pergunta insolente), perguntei aos imensos três anos de minha filha: Para que serve a barriga? E ela: Para coçar a barriga! Era indesmentível. Mas quis ver onde ia dar aquilo: E as unhas, para que servem? Evidentemente: Para coçar a barriga! Então, lógica de pai tem consequências terríveis, as unhas e a barriga servem para a mesma coisa? Servem! E eu a teimar: Para quê? Lógica de filha: Para coçar a barriga! As coisas (a barriga, as unhas, as crónicas) servem para usos que escapam a grandes reflexões e o que são furta-se quase sempre àquilo que se sabe delas. Para que servirão então as crónicas? E o que é isto de crónicas? Se me perguntam (como não me lembrei de Santo Agostinho na Rádio Universitária?) não sei o que é, se não me perguntam sei.
Há dias, no Campo 24 de Agosto, um jovem pediu-me um emprego. Conhecia-me disto, das crónicas e, lá, na sua, pensou que as crónicas podiam muito bem servir para arranjar emprego. Também recebo cartas de leitores: tal assunto dava, sugerem os leitores, uma boa crónica; e, aqui ao lado, os amigos têm também inúmeras ideias sobre crónicas. Eu tenho cada vez menos. Vou falando da chuva e do bom tempo, da memória, das minhas circunstâncias e das minhas perplexidades, dos trabalhos (sobretudo dos trabalhos forçados!) e dos dias, de coisas grandes e de coisas pequenas, como quem está sentado ociosamente à mesa do café rodeado de amigos, mudando instavelmente de estilo, às vezes a ironia, às vezes a ternura, às vezes a revolta, como quem muda de sítio. E é natural que, de vez em quando, me pergunte também se não estarei a gastar o meu tempo e o meu latim. Na verdade não quero que isto, não sei o quê, sirva para nada em especial (acho que consegui dizer uma coisa do género na problemática entrevista da Rádio). Nem que não sirva. As palavras falam sozinhas. As crónicas fazem-se a si próprias, o cronista é o menos. E se lhes chamo crónicas é porque não sei que nome dar a isto. O crocodilo responde às questões práticas da alimentação que no dia-a-dia se lhe vão pondo sacudindo os interlocutores Para a água e discutindo o assunto aí, no seu ambiente. O meu ambiente é este, diante da máquina de escrever, sem microfones. Quem pode, por isso, estranhar que tenha trazido para aqui uma questão tão sem importância como estaIn Manuel António Pina, JN, 23 de Abril de 1988.

In Manuel António Pina, Crónica, Saudade da Literatura. Antologia, 1984-2012, selecção de Sousa Dias, Assírio Alvim, Porto, 2013, ISBN 978-972-37-1684-9.

Cortesia de AAlvim/JDACT

Saudade da Literatura. Crónica. Antologia. 1984-2012. Manuel António Pina. «Que terra é esta?, acrescentando quando de terra lhe gritaram que era New Jersey: sigo mais uns dias, até um pouco mais abaixo! O cronista agarrou-se à ideia com todas as forças, à espera que ela chegasse para o levar até ao fim das duzentas linhas da praxe»

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1988. New Jersey Fora de Horas
«É sexta-feira, são 9 horas da manhã, isto é, da madrugada, dead line para os textos da Última, e o cronista está sem crónica e sem assunto. E sem paciência. Do lado, como bombeiros o mais voluntários possível, acorrem os amigos: ouviste o que disse o Cavaco sobre a popularidade do Governo?; e sobre a greve geral?; ó Pina, escreve sobre o pãozinho quente e o leitinho de Cavaco no dia da greve geral; toma a lista dos enganos de Cavaco, ele que nunca se engana e raramente tem dúvidas (ou que nunca tem dúvidas e raramente se engana?); e a Leonor Beleza?, escreve sobre a Leonor Beleza; olha: conta aquela do polícia sinaleiro de Setúbal...
A solidariedade dos amigos é sempre uma coisa bonita, sobretudo para um cronista sem crónica. Mas resolve poucas coisas; uma ideia, mas onde diabo pode um homem ir buscar uma ideia às 9 horas de sexta-feira, ajudaria. Nem seria preciso uma boa ideia, bastaria uma ideia assim-assim, mas Cavaco Silva, mas Leonor Beleza, são péssimas ideias, mesmo para quem não tem melhores. A única ideia que ocorre insistentemente ao cronista é voltar para a cama, mas, apesar de serem 9 horas, o cronista está lúcido para perceber que essa ideia não resolveria a crónica.
Nunca nenhuma cabeça esteve tão vazia de ideias como a do cronista, sentado diante da máquina de escrever, acendendo cigarros, rodeado de amigos por todos os lados menos pelo da crónica. Nesta altura converter-se-ia a qualquer religião, assinaria letras e abaixo-assinados em branco, prometeria qualquer coisa (até ler o Correio da Manhã!), em troca de um bom assunto, se não fosse pedir muito já pronto para ir para a fotocomposição! O Pacheco Pereira é um bom assunto, mas nunca às 9 horas da manhã; Maldonado Gonelha e Ângelo Correia são também sempre cronicáveis, mas o escárnio e o maldizer, que é o género que lhes vai, exigem uma preparação física especial, duas ou três semanas antes da crónica, e um estágio de vários dias em Eça ou em Alphonse Allais, e o cronista nos últimos tempos só tem lido A Bola e comunicados sindicais...
Rubem Braga, uma vez, escapou-se à servidão semanal da crónica contando uma que já tinha contado. Argumentou que a Sétima de Beethoven também não foi feita para ser ouvida uma só vez, nem As meninas de Velázquez ou as Galas todas de Dalí para serem vistas uma só vez. Mas este cronista não tem, sequer, a megalomania de Rubem Braga, nem outra mania capaz de lhe valer numa emergência como a presente. Está sentado à máquina de escrever, a escrever à máquina, na esperança de que a crónica se escreva a si mesma. Já lhe tem acontecido...
Quando, subitamente, o Espírito Santo dos jornalistas lhe segreda ao ouvido que a falta de assunto pode ser, talvez, um bom assunto, ou ao menos um assunto assim-assim, bastante para descarregar o problemático defunto desta semana. E como aquele náufrago de Carl Sandburg que, agarrado a uma tábua durante dias e noites, deu finalmente à costa e perguntou: Que terra é esta?, acrescentando quando de terra lhe gritaram que era New Jersey: sigo mais uns dias, até um pouco mais abaixo!, o cronista agarrou-se à ideia com todas as forças, à espera que ela chegasse para o levar até ao fim das duzentas linhas da praxe. Com as dificuldades de que o leitor é testemunha, consegui chegar até aqui; mas, contrariamente ao herói americano, vai ficar-se por New Jersey. Para a semana, se puder, irá um pouco mais longe. Mas de barco». In Manuel António Pina, JN, 9 de Abril de 1988.

In Manuel António Pina, Crónica, Saudade da Literatura. Antologia, 1984-2012, selecção de Sousa Dias, Assírio Alvim, Porto, 2013, ISBN 978-972-37-1684-9.

Cortesia de AAlvim/JDACT

quinta-feira, 27 de março de 2014

Saudade da Literatura. Crónica. Antologia. 1984-2012. Manuel António Pina. «Perdemos Fernando Pessoa irremediavelmente; conseguimos salvar Mário Sá-Carneiro, Camilo Pessanha e Cesário, […] onde só se pode chegar armado de um amor proibido aos publicitários e aos donos dos partidos»

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Reivindicação da poesia
«Escrever poesia, como editar poesia, como sobretudo ler poesia, é um acto de amor louco, gratuito e perdulário em tempos como estes, de prosa e de literatura de negócios. Poucas dezenas de exemplares que os prelos, nos intervalos das facturas, dos cartões de visita e dos romances de Lobo Antunes, dão à estampa são lidos quase clandestinamente, no segredo dos quartos, por seres fugidios e perversos, e recolhidos depois no fundo de gavetas intemporais da maledicência dos colegas do escritório e dos assinantes das selecções. Ou são lentamente folheados nos cafés, às horas mortas em que os vendedores já voltaram às ruas e os empregados bancários aos balcões, por aristocratas pálidos e decadentes e por vagos estudantes de Letras.
Ao todo, e descontados os que os leem por obrigação, em penosas autópsias nas aulas de Linguística, não serão mais de duzentos ou trezentos os leitores de livros de poesia, e outros tantos (tudo fica, pois, entre nós, entre nós, não é, O'Neill?) os que inconfessadamente escrevem poesia. Todavia, o número dos que invocam o nome dos poetas em vão, nos discursos ou nas Prosas, ou se organizam em bandos comemorativos a propósito disto ou daquilo, é imensamente superior, constituindo provavelmente a bancada mais ruidosa de toda a troupe cultural. De facto, não há político hoje que não leve Pessoa na lapela quando vai a discursos, nem jornalista que não tenha de cabeça, que não de coração, uma ou duas frases da Mensagem Para ilustrar os leads. A palavra cultura, enche as bocas (e é de crer que algumas bolsas também) e suspeita-se por esses lados que poesia, o que quer que isso seja, tenha algo a ver com cultura. Assim, é indispensável a quem leve amigos ou clientes a casa ter uma edição de versos na estante, ao lado dos livros de Irving Wallace e das prosas de Joaquim Letria. Os mais exquis talvez possuam alguma encadernação dos Rabbayat ou da Comédia, os mais desembaraçados ficar-se-ão pelos Sonetos de Camões em percalina e dourados. De qualquer modo, a qualidade de um homme du monde vê-se hoje tanto pela estante como pela marca de colónia a que fede, e um ou dois livros de poesia ficam bem na estante de uma pessoa de sucesso.
Tudo o que não parece, porém, impedir que alguns editores associais continuem a orgulhar-se de vender os seus livros de poesia a poucas dezenas de eleitos. Com efeito, um dos principais problemas dos poetas, nestes dias, em Portugal, além de o de resistir à tentação de escrever um romance, é o de conseguir manter a sua obra ao recato da chamada crítica e dos concursos do Círculo de Leitores. E um risco indiscutível que uma obra corre, sobretudo se tiver a infelicidade de sair da igreja dos iniciados, é o de começar a ser invocada pelos políticos Para ornamentar as conferências de Imprensa e a servir de slogan à publicidade das cervejas ou dos aldeamentos de férias do Algarve. Seria realmente desastroso se, por exemplo, Helder Moura Pereira fosse publicado nos livros de Bolso da Europa-América ou se o Álvaro Manuel Machado se pusesse a dizer bem na TV, atrás do copo dos cachimbos, dos poemas de António José Forte ou a recomendar Silvia Plath ou Joaquim Manuel Magalhães aos pais de família. Se o escândalo da poesia se tornasse também best-seller, as últimas almas privadas teriam que inventar outro continente interior para onde emigrar e fugir aos turistas. Perdemos Fernando Pessoa irremediavelmente; conseguimos salvar Mário Sá-Carneiro, Camilo Pessanha e Cesário, e o próprio arquipélago pessoano tem ainda recantos e alturas onde só se pode chegar armado de um amor proibido aos publicitários e aos donos dos partidos.
Porque o amor, contrariamente à pornografia, tem horror às partouzes e às multidões. Nos grandes rituais colectivos de poesia, como os dirigidos por Ginsberg nos anos 60, milhares de fiéis comungavam da festa transgressiva da palavra com o poeta celebrante; hoje só ficaram os turistas espiando o espectáculo das galerias, com a mórbida curiosidade de quem observa algo que não sente nem compreende, ou exibindo a poesia como adorno das mais prosaicas intenções, como os crucifixos de ouro sem fé sobre os pêlos do peito e por entre as camisas desgoladas dos gigolos, da Fórmula Um. Expulsos pela horda dos comemorativos de uma boa parte da obra pessoana, os leitores de poesia refugiam-se, como uma espécie em extinção, nas ruínas de Ricardo Reis e nas ortonímias que o estômago da turba não consegue, apesar de todos os esforços, digerir com a mesma facilidade com que consumiu as famigeradas cartas de amor. E é com uma resignação dolorosa que vêem por aí a Chuva Oblíquo à mercê dos copywriters e dos advogados, como se lhes não bastassem as vulgarizações histriónicas dos declamadores da TV e os exercícios estruturalistas de anatomia descritiva dos suplementos literários...» In Manuel António Pina, JN, 19 de Março de 1988.

In Manuel António Pina, Crónica, Saudade da Literatura. Antologia, 1984-2012, selecção de Sousa Dias, Assírio Alvim, Porto, 2013, ISBN 978-972-37-1684-9.

Cortesia de AAlvim/JDACT

segunda-feira, 10 de fevereiro de 2014

Saudade da Literatura. Crónica. Antologia. 1984-2012. Manuel António Pina. «A vida é que nos mudou a todos; “o Che” morreu na Bolívia, baleado por um ‘ranger’ anónimo; “José Afonso” morreu de doença; e o “Artur Queirós” ganhou o Prémio Ibéria de Jornalismo»

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1988
«(…) Há 20 anos éramos esquerdistas, maoístas, trotskistas, guevaristas, anarquistas; hoje somos todos neo-liberais e post-modernos (enfim, quase todos...). De Gaulle disse que éramos la pègre, la chienlit; não fazíamos a barba, tínhamos longos cabelos, óculos redondos, blue jeans sujos, camisas de flanela, sandálias, os mais radicais boina e saca maquisard, onde, à falta de carregadores e rações de combate, iam os livros da 10/18. Eram os tempos heroicos do 2 cavalos, e do LSD, do punho fechado, das correrias à frente da Polícia de Choque, do amor livre, do excesso e da poesia. Os tempos, agora, vão mais para a prosa, para Megas Ferreiras e Vascos Graça Moura, para a monogamia e para os preservativos. E para os carros caros, as camisas de seda, as gravetas Balmain, os pubs, a heroína. Os hippies tornaram-se yuppies, e mudaram-se do Vavá para o João Sebastião Bar e do Piolho para o bar do Sheraton; já não celebramos a Marx, Marcuse e Mao, nem aos seus profetas Cohn-Bendit, Geismar, Sauvageot, Rudi Vermelho Dutke, mas Wall Street, à Reaganomics, ao sucesso e ao dinheiro.
Diz-se revolução, ensinam os dicionários burgueses, o movimento de um corpo que, descrevendo uma curva fechada, passa sucessivamente pelos mesmos lugares; os revolucionários de há 20 anos descobriram, pelo menos na Europa, que os dicionários sabem mais de revoluções do que o livrinho vermelho das citações. Continuam (continuamos) tão razoáveis como dantes; só que já não exigimos o impossível, mas tão-só deixarmos de ser pobres e, se não for pedir muito, sermos ricos, ou podermos ostentar look em conformidade; o BMW (ou, ao menos, o Rover), o American Express (ou, ao menos, o Visa), a casa de praia (nem que seja em time sharing), o fato Pestana e Brito (na pior das hipóteses da Alfaiataria Ayres), as acções da SONAE (ou, vá lá, da PROADEC). Burgueses éramos, já então, todos, ou ainda menos, como Cesariny solitariamente explicava em pleno consulado neo-realista. Hoje continuamos a ser burgueses, mas já não vemos, afinal, mal nenhum nisso. O compromisso político foi substituído pela chamada transgressão estética e já ninguém deixa de ir ao S. Carlos por causa do smoking. Todos queremos ser burgueses e os poucos corações proletários não são poupados pelas prosas convertidas de Pacheco Pereira e de Vilaverde Cabral.
Estes tempos são tempos de arrependidos de todos os géneros; Bob Dylan está cheio de dinheiro e usa lentes de contacto; Regis Debray estuda Milton Friedman às escondidas. Não transformámos o mundo nem mudámos a vida; a vida é que nos mudou a todos (o Che morreu na Bolívia, baleado por um ‘ranger’ anónimo; José Afonso morreu de doença; e o Artur Queirós ganhou o Prémio Ibéria de Jornalismo). Foi uma derrota sem glória, pelo menos sem tanta glória como a derrota dos nossos pais nas trincheiras de Valência, nos campos de Almeria, ou passando o Ebro en un barquito de vela. Os revolucionários, mesmo os de café, são os cornudos da História; nós nem por isso. Os cafés passaram a bancos e as namoradas com quem, de mãos dadas, atravessámos os anos da brasa, sobre as barricadas do Quartier Latin ou nos jardins da Cidade Universitária, são hoje professoras do liceu e assinantes do Círculo de Leitores.
Restam-nos alguns discos, alguns livros, algumas memórias. E nem temos uma história, uma grande história, para contar aos filhos, porque os nossos filhos preferem as histórias dos campeões da Wall Street e emocionam-se mais com um crash, da Bolsa do que com verduras românticas com pavés, slogans, ocupações selvagens. Elvis Presley afinal, não era informador da CIA? João XXIII não tinha acções nas fábricas de material de guerra? Giap não tinha campos de concentração? Fidel não tinha Padilla a apodrecer numa cadeia?» In Manuel António Pina, JN, 5 de Março de 1988.

In Manuel António Pina, Crónica, Saudade da Literatura. Antologia, 1984-2012, selecção de Sousa Dias, Assírio Alvim, Porto, 2013, ISBN 978-972-37-1684-9.

Cortesia de AssírioAlvim/JDACT

Saudade da Literatura. Crónica. Antologia. 1984-2012. Manuel António Pina. «E o mesmo em relação a outros ditos de uso corrente em entrevistas, conferências de Imprensa e declarações mais ou menos públicas. Toda a gente sabe que "não confirmo nem desminto", significa 'como é que este tipo soube?'; que "o assunto está a ser estudado" significa 'não faço a menor ideia do que se trata…'»

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Breve tratado de saber viver para as novas gerações de jornalistas
«(…) É de muito mau gosto e revela um espírito mal formado procurar explicitar certas expressões consagradas. Os leitores sabem o que elas significam e o jornalista não deve passar um atestado de menoridade à inteligência dos leitores. Só jornalistas associais, inadaptados, anarquistas, bolchevistas e congéneres não respeitam as convenções linguísticas estabelecidas. Toda a gente sabe que quando um político diz que vai ser nomeada uma Comissáo de Inquérito isso significa o assunto vai ser abafado. É inoportuno e manifesta enorme falta de experiência e de educação perguntar-lhe: isso significa que o assunto vai ser abafado?. Se tal sucedesse o político deveria responder-lhe: não faço comentários, que significa, como toda a gente sabe, acertou em cheio!. Não deveria todavia o jornalista, sob pena de ficar o resto da vida a redigir a Necrologia, insistir: isso significa que acertei em cheio? Do mesmo modo, quando um político diz que não está agarrado ao lugar, apesar de toda a gente saber que isso quer dizer daqui não saio, daqui ninguém me tira!, não é conveniente o jornalista perguntar-lhe mais nada sobre o assunto que eventualmente possa forçar o homem a expressar melhor o seu pensamento.
E o mesmo em relação a outros ditos de uso corrente em entrevistas, conferências de Imprensa e declarações mais ou menos públicas. Toda a gente sabe que não confirmo nem desminto, significa como é que este tipo soube?; que o assunto está a ser estudado significa não faço a menor ideia do que se trata; que ganhe o melhor significa precisamos de ganhar, nem que tenhamos que oferecer um casaco de peles à mulher do árbitro; que o povo português, etc.) significa votem em mim; que o sr. director não está significa o sr. director está mas não está para o aturar; que os altos interesses nacionais significa convém-me que; que reduzir o peso do sector público, significa passar a patacos as EP's que dão lucro e fazer os contribuintes pagar os prejuízos das outras; que competitividade, significa salários baixos; que flexibilidade das leis laborais significa despedimentos fáceis; que competência significa é do meu partido; que o árbitro roubou-nos um penalty significa perdemos porque jogámos pior; que grande arbitragem significa fomos beneficiados pelo árbitro; que estou muito contente por vir cantar a Lisboa significa saquei uma boa maquia a estes pategos; que o Porto é a capital do trabalho significa preciso dos votos daqueles parolos; que não tenho nada a declarar significa é tudo verdade; que segundo fontes geralmente bem informadas significa disse-me um chauffeur de táxi; que observadores são de opinião que significa foi-me encomendado que espalhasse que; que isto é of the record, significa contem tudo mas não digam que fui eu que disse; e por aí adiante.
As convenções linguísticas dos homens públicos e dos jornalistas são pilares sobre que assentam a segurança da sociedade democrática e a liberdade de Imprensa. Os leitores, os telespectadores, os ouvintes da rádio, dominam um complexo código cifrado de comunicação que os jornalistas devem respeitar, sob pena de deverem procurar emprego a vender andares ou a legalizar carros de emigrantes em qualquer agência fora do tempo e do espaço. Noblesse oblige e a paz e a gramática das famílias (Nação é com maiúscula, Governo e Imprensa com as maiores maiúsculas possíveis) também obligent. Exemplo de grande economia de bom senso é o daquela senhora da melhor sociedade que contava que, quando era obrigada a insultar, ao volante do seu automóvel, outro automobilista, em vez de um chorrilho de palavrões, como faria qualquer delegado de propaganda médica, gritava para fora da janela: seu bicho da fruta! Assim, explicava ela: no meio da confusão eles percebem o que quero que eles percebam e eu escuso de sujar a língua!» In Manuel António Pina, JN, 12 de Dezembro de 1987.

In Manuel António Pina, Crónica, Saudade da Literatura. Antologia, 1984-2012, selecção de Sousa Dias, Assírio Alvim, Porto, 2013, ISBN 978-972-37-1684-9.

Cortesia de AssírioAlvim/JDACT

quinta-feira, 6 de fevereiro de 2014

Crónica. Saudade da Literatura. Antologia. 1984-2012. Manuel António Pina. «É verdade é que as entrevistas, as declarações à saída disto ou daquilo, as conferências de imprensa, os “press release”, os comunicados, obedecem a modelos canónicos que asseguram há longos anos…»

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Breve tratado de saber viver para as novas gerações de jornalistas
«Uma grande parte da vida dos chamados homens públicos, da política, das artes, da cultura, do desporto, é encenação para as plateias dos jornais. E da TV e da Rádio. Em frente às câmaras, diante dos microfones, perante os repórteres de esferográfica em punho, representam o seu próprio papel de personagens públicos debitando sem emoção as tiradas adequadas a cada circunstância. O jornalismo é, com se sabe, a mais velha profissão do mundo; e um jornalista que se preze há-de saber dar, em cada momento e a cada homem público, a deixa adequada para a fala que o público leitor, telespectador e ouvinte espera. Só um repórter novato faz perguntas com que o entrevistado não conta ou não se contenta com a resposta que lhe são dadas…
Por exemplo, só um estagiário do primeiro ano se lembraria de embaraçar o presidente de todos os portugueses… quando ele outro dia explicava na TV que o Ajax de Amesterdão estava em dificuldades no campeonato alemão, perguntando-lhe em qual das duas Alemanhas ficava, na sua opinião, Amesterdão. Um jornalista experiente, como o que o entrevistou, devia ter-se dado, como foi o caso, por satisfeito, porque ao telespectadores querem ouvir umas palavras, não querem lições de geografia. Como só um estudante de jornalismo, e também por exemplo, estranharia que o famoso político socialista… lhe declarasse que só serei secretário-geral se os meus camaradas quiserem, sendo sabido que, tratando-se de um lugar de eleição (?), só se os eleitores seus camaradas de partido quiserem poderá, naturalmente … ou qualquer outra pessoa, ser eleito secretário-geral.
É verdade é que as entrevistas, as declarações à saída disto ou daquilo, as conferências de imprensa, os press release, os comunicados, obedecem a modelos canónicos que asseguram há longos anos a seriedade da Imprensa e a segurança das instituições. Quando um político não confirma nem desmente uma informação, o jornalista não deve querer aprofundar, com particularidades inconvenientes, a filosofia da asserção, nem tão-pouco chamar a atenção do homem público que diz não faz comentários a um determinado acontecimento, comentando que acaba precisamente de fazer um comentário; o político e o homem público em causa deram, à deixa do repórter, a réplica adequada ao instante do espectáculo e o repórter não deve pretender introduzir alterações no argumento. Porque a política, como as artes, a cultura e o desporto, não são happenings e a tranquilidade das famílias depende de frases certas como não confirmo nem desminto e não faço comentários ditas no momento certo pelo homem político certo». In Manuel António Pina, JN, 12 de Dezembro de 1987. 

In Manuel António Pina, Crónica, Saudade da Literatura. Antologia, 1984-2012, selecção de Sousa Dias, Assírio & Alvim, Porto, 2013, ISBN 978-972-37-1684-9. 

Cortesia de Assírio & Alvim/JDACT 

domingo, 13 de outubro de 2013

Crónica. Saudade da Literatura. Antologia. 1984-2012. Manuel António Pina. «Os médicos não cumprem? O cidadão X queixa-se da Urgência, do Hospital Y, onde esteve a protestar durante uma hora até lhe engessarem por engano a perna direita em vez do braço esquerdo?»

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Não há portugueses maus
«Em Portugal o concreto fá-las e o geral é que (em geral) as paga. O geral tem larguíssimas costas: as culpas dos males nacionais são todas da sociedade, do sistema, do modelo económico, do Estado, do Governo (nunca do ministro Fulano ou do ministro Sicrano, mas do Governo, quando não dessa misteriosa entidade que é o Executivo, tudo seres do mais geral que, quanto a generalidades, se pode arranjar), ou ainda do regime, da organização dos serviços, da burocracia e de outras abstracções por aí adiante, até ao fado, que é a mais geral e mais portuguesa forma de fazer queixas sem atirar com as culpas para ninguém nem para coisa nenhuma. A justiça não funciona? O juiz marcou uma dúzia de julgamentos para o mesmo dia e para a mesma hora, sabendo que os não pode realizar a todos ao mesmo tempo, e depois adiou-os a todos menos a um, mandando queixosos, réus, declarantes, testemunhas, para casa e ordenando novas citações, notificações, registos, para outro dia e outro adiamento? A culpa não é do juiz, é da organização dos tribunais ou do sistema judiciário! Os médicos não cumprem? O cidadão X queixa-se da Urgência, do Hospital Y, onde esteve a protestar durante uma hora até lhe engessarem por engano a perna direita em vez do braço esquerdo? A culpa é dos serviços de Saúde, não do médico nem da enfermeira (quando muito é dos serviços de Saúde mais do jornal que dá a notícia...).
O contribuinte A (que é como quem diz você, ou este seu criado, ou qualquer um de nós) perdeu o tempo, a paciência e alguns contos de réis na Repartição de Finanças B, enquanto os funcionários discutiam o golo de Madjer em vez de lhe darem atenção, ou envolveu-se em controvérsia com o notário Sicrano, que lhe não reconheceu o atestado porque o papel de 25 linhas era azul bebé e não azul celeste e tinha margens mais estreitas do que as devidas? A culpa é desse estranho e misterioso personagem que é a burocracia e não do burossáurio concreto que o atendeu! O preço do bacalhau é duas vezes o da tabela? A culpa não é do comerciante que o vendeu, nem do armazenista que o vendeu ao comerciante, é da inflação! Corrupção? Perguntem ao regime! Trabalho infantil? Levante-se a sociedade! Um grande e horrível crime? Notifiquem-se o desemprego, os filmes de violência da TV, o Governo, quem quer que seja, menos o criminoso!
A Sociologia, a Psicologia, a Psiquiatria, a Psicanálise, a Antropologia, a Criminologia e todas as chamadas Ciências Humanas foram transformadas num imenso alibi português para atirar com as responsabilidades de cada um de nós (e de alguns deles) para as costas da abstracção mais à mão de semear. Somos todos, afinal e sem excepção, vítimas de coisas e de circunstâncias do tipo das que não se podem meter na cadeia e das a quem não se podem pedir contas; todos somos vítimas: o motorista que bebeu dois litros de cerveja ao almoço e atirou com o autocarro cheio de crianças pela ribanceira, a parteira que ficou a ver a telenovela e se esqueceu do parto, o funcionário que só com o agradecimento, dentro do envelope é que andou com o processo, o construtor civil que recrutou os operários na pré-primária, o litigante que resolveu o litígio com uma enxada na cabeça do vizinho e o desempregado que arranjou emprego a assaltar bombas de gasolina com uma espingarda de canos serrados. Porque não há portugueses maus». In Manuel António Pina, JN, 21 de Novembro de 1987.

In Manuel António Pina, Crónica, Saudade da Literatura. Antologia, 1984-2012, selecção de Sousa Dias, Assírio & Alvim, Porto, 2013, ISBN 978-972-37-1684-9.

Cortesia de Assírio & Alvim/JDACT

sábado, 5 de outubro de 2013

O Anacronista. Crónicas. Manuel António Pina. «O fim das ideologias e o fim da História são saudados euforicamente por quase todos e os raros que persistem em alguma forma de fidelidade ou de fé são olhados despeitadamente de viés como sobreviventes dinossáurios»

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Notícias do pesadelo
«(…) Em vésperas do fim do século, ai está ele, insidioso e perverso, o pesadelo orwelliano sob aforma do triunfo dos porcos. Na sua História da Revolução Francesa, Cadyle observa, quero crer que com algum desapontamento, como das revoluções, sonhadas por utópicos e realizadas por fanáticos, quem acaba sempre por tirar proveito são os desavergonhados de todas as espécies. Hoje já não há lugar para as revoluções, e muito menos para as utopias; é tempo, sim, de tirar proveito, e depressa. A mediocridade e a vulgaridade ganharam em todas as frentes. E os sonhos, anda há poucas décadas da desmesurada medida da liberdade, da justiça, ou da paz, parecem hoje reduzidos, até entre os jovens, de cuja imatura matéria sempre foram feitos os grandes sonhos das sociedades, ao tamanho mesquinho do BMW do cartão de crédito e da carta de curso.
A assustadora estirpe dos homens práticos e dos técnicos instalou-se, um pouco por toda a parte, nos mais secretos lugares do coração das nossas sociedades, vampirizando a sua identidade e as suas forças e sujando o seu sangue mais profundo. Os poetas foram expulsos da cidade e resistem, os que resistem e ainda não se converteram também ao espectáculo industrial em que a arte e a cultura se transformaram, em obscuras catacumbas interiores, celebrando clandestinamente aos deuses caídos da esperança e da gratuitidade. Que futuro pode ter uma sociedade sem esperança e sem poesia? Uma sociedade em que a esperança se reduziu progressivamente à mera sobrevivência individual e cujos valores se personificam em modelos como Silvester Stallone ou Madonna? Vejo a sanha com que os nossos líderes políticos e os pivots dos telejornais espezinham furiosamente os restos da tragédia em que descambou a utopia comunista e pergunto-me se, neles, nesses terríveis destroços, eles odeiam os crimes do socialismo real (o maior dos quais terá sido, provavelmente, o da traição à utopia igualitária) ou se não é, antes, a própria ideia de utopia e de esperança que, incapazes de compreender, eles sobretudo odeiam e perseguem. Ouço-os grunhir vitoriosamente que o comunismo acabou e fico certo de que é o humano, demasiadamente humano, ideal comunista, insusceptível, como o ideal cristão, e todos os outros grandes ideais, de ser reduzido aos seus números e às suas torpes estatísticas, que eles profundamente temem.
E que nos oferecem eles em troca? Comércio. Como se os homens pudessem viver, viver e não tão só sobreviver, de comércio, e como se as sociedades pudessem, desde sempre, prescindir dos grandes sonhos irrealizáveis e dos grandes mitos de que os poetas, e os artistas, e os filósofos, são a alma e o corpo. Como disse o poeta, eles não sabem (nem sonham) que é o sonho, e não as cotações da bolsa, que comanda a vida, e que pelo sonho é que vamos. E como não sabem, nem podem saber, roubaram-nos o melhor que tínhamos, os sonhos, os ideais, os valores (até, tantas vezes, os meros e pouco rentáveis escrúpulos), deixando-nos absolutamente sós fora de nós mesmos, como mutantes desamparados e assustados errando na imensa selva do mais forte e do mais velhaco.
Em Portugal, a metástase cavaquista do fenómeno contamina hoje até os que, pessoas e partidos, aparentemente, deviam estar do outro lado. O fim das ideologias e o fim da História são saudados euforicamente por quase todos e os raros que persistem em alguma forma de fidelidade ou de fé são olhados despeitadamente de viés como sobreviventes dinossáurios. E, no entanto... Outro dia estive a observar na TV o desastrado combate que um tal J.E.M. tentava travar contra Cunhal, como se, falando línguas tão díspares, ambos se pudessem de qualquer modo entender, ou sequer desentender. Numa sociedade como aquela em que se tomou a sociedade portuguesa dos últimos anos, inteiramente órfã de ideias e de valores, bons ou maus, Cunhal parece ter-se tornado, de facto, numa espécie de paradigma, e contra ele e contra a sua quixotesca, fé (pois que o homem teima, apesar de tudo, em continuar a acreditar em algo) se lançam todos os Sanchos Panças triunfantes da nossa praça pública. É a coragem que os move ou antes o confuso e irracional medo de alguma coisa, imensa e incorruptível, onde as suas mesquinhas contabilidades não podem, pobres delas, absolutamente alcançar?»

In Jornal de Notícias, 7 / 10 / 92

In Manuel António Pina, O Anacronista, Crónicas, Edições Afrontamento, 1994, ISBN 972-36-0323-3.

Cortesia de E. Afrontamento/JDACT

domingo, 18 de agosto de 2013

O Anacronista. Crónicas. Manuel António Pina. «… mas os nossos economistas liberais estão já a servi-los vorazmente à mesa, aos pobres, aos reformados, aos velhos, aos fracos. Sem sombra de pecado, isto é, de cultura, que é o mais preocupante»

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Sem Sombra de Pecado
«(…) No meio disto tudo, cultura é ter um óleo de Vieira da Silva na sala de jantar ou no cofre-forte ou investir num contador indo-português em algum leilão de Leiria & Nascimento. E a ostentação mais primária tomou-se no sinal exterior de felicidade e de inocência da parte dos que (e são cada vez mais) alegremente se vão libertando dos encargos da consciência moral. Curioso é que a espécie de cultura económica que cauciona a predação social instalada não prescinda de pregar ética às presas...
Quem- lê habitualmente estas crónicas sabe que aqui não se gosta (e não se gosta é o mínimo que é possível dizer) de economistas. Se calhar injustamente, as generalizações são sempre injustas. Mas convenhamos que exis tem boas razões para isso. Basta olhar em volta.
Cristo, que não percebia nada de Finanças, expulsou à chibatada os economistas do Templo, e Dante, vivesse ele em Portugal e soubesse o que nós sabemos hoje, ter-lhes-ia certamente destinado um penoso lugar no último círculo do Inferno. O triunfo da Economia passa pela expulsão dos poetas e dos visionários da cidade. Quem se surpreenderá, pois, que a Poesia, sob todas as suas incertas e gratuitas formas, seja o inimigo mortal dos mercadores?

De facto, a vulgata económica capitalista e a sua cultura de clã contaminaram, como uma peste, a nossa vida e a nossa alma colectivas. Os melhores de nós vagueiam agora, como indefesos sobreviventes, no pesadelo climatizado finissecular que resta da antiga cultura. Passou o tempo de queimar livros, agora compram-se (e os escritores também) sob a forma de best sellers; a religião formalizou-se e ritualizou-se até perder qualquer significado cultural; a própria História foi reescrita.
Swift, há 250 anos, sugeriu aos ricos que comessem os pobres. Na altura ninguém o levou a sério, mas os nossos economistas liberais estão já a servi-los vorazmente à mesa, aos pobres, aos reformados, aos velhos, aos fracos. Sem sombra de pecado, isto é, de cultura, que é o mais preocupante.

In Jornal de Notícias, 11/11/92

In Manuel António Pina, O Anacronista, Crónicas, Edições Afrontamento, 1994, ISBN 972-36-0323-3.

Cortesia de E. Afrontamento/JDACT

quarta-feira, 19 de junho de 2013

Crónica. Saudade da Literatura. Antologia. 1984-2012. Manuel António Pina. «Se a beleza se comesse já o bicho teria acabado em algum vernissage ou em qualquer banquete oficial, não ficava à espera de um desempregado que passasse...»

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Os Olhos e a Barriga
«A notícia veio nos jornais: um desempregado de 23 anos, pai de dois filhos, deitou a mão a um dos belos cisnes do lago do Parque de Basílio Teles, em Matosinhos, torceu-lhe o pescoço e levava-o para casa, para o jantar da família, quando foi apanhado por um polícia. Os cisnes são, desde tempos imemoriais, símbolos de beleza e de perfeição e, nessa qualidade, bibelots vivos da decoração de lagos e jardins. Nos jardins suspensos da Babilónia; nos do shogun, em Kyoto; em Pequim, nos do imperador; nos lagos imensos do palácio de Kublai Khan, como nos do edénico jardim inicial, vogaram, vogam eternamente, cisnes. Sob as suas formas tranquilas e longilíneas se ocultou Zeus para seduzir Leda e desse amor nasceu Helena, por cuja beleza morreram Aquiles e Heitor, Páris e Ajax, Ifigénia e Polixena, e caiu para sempre, em chamas, a orgulhosa Tróia.
O infeliz herói desta crónica, todavia, não teve pelo seu lado nem a complacência dos deuses nem a do polícia de giro. Passeava no Parque de Basílio Teles quando topou com o cisne e, em vez de lhe dar para qualquer arroubo helénico, muito prosaicamente representou à sua frente sete ou oito quilos de carne vogando ociosos e inúteis nas águas paradas. Quem o culpará de, em vez da memória de Leda e de Zeus ou em vez de ter escrito uma ode, lhe terem ocorrido coisas mais corriqueiras, como a mulher e os filhos com fome em casa e o crédito esgotado na mercearia? Vejo Charlot perseguido pelo garimpeiro de A quimera do oiro de faca e garfo na mão, e, que Apolo me perdoe, um cisne sempre é mais parecido com um frango do que o homenzinho do côco e da bengala!
O gesto do desempregado, debruçado, como Narciso, sobre as águas, agarrando pragmaticamente o bicho pelo pescoço, não fiçará na história da arte; mas há-de reconhecer-se-lhe dignidade para ficar na história da vida, pelo menos na da sua miserável e concreta vida de português de Matosinhos, em 1985, mais precisado do efémero útil do que do eterno agradável.
O Tribunal de Polícia vai agora ser chamado a dirimir na antiga questão da arte pela arte ou da arte pela vida. E, como é de esperar, optará (muito concretamente) pela mais abstracta das duas posições, e o homem de 23 anos aprenderá à própria custa coisas essenciais: que os cisnes são para encher os olhos e não a barriga e que a beleza não se come. Se a beleza se comesse já o bicho teria acabado em algum vernissage ou em qualquer banquete oficial, não ficava à espera de um desempregado que passasse...»
In Manuel António Pina, JN, 05de Outubro de 1985

In Manuel António Pina, Crónica, Saudade da Literatura. Antologia, 1984-2012, selecção de Sousa Dias, Assírio & Alvim, Porto, 2013, ISBN 978-972-37-1684-9.

Cortesia de Assírio & Alvim/JDACT