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sexta-feira, 6 de maio de 2016

A Bela Angevina. José Augusto França. «Não, era mais uma questão de altura, ele tinha coisas a escrever e estava habituado a fazê-lo de pé, era une petite manie, acrescentou, com um ar meio desinteressado, não desejando insistir»

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«(…) Havia ainda prédios assim, em Angers, ruas inteiras, antes das recentes obras, e monsieur Breton foi buscar a um armário envidraçado o Guide Joanne de 1868, relativo a La Loire et le Centre da França, dando conta das grandes transformações urbanas, e apontou com visível prazer as linhas que o testemunhavam. E logo depois era questão de magníficos boulevards bordejados de casas elegantes, de duas pontes novas, e do novo bairro entre o Mail e a estação do caminho-de-ferro, com edificações que respondiam a novas necessidades da cidade; e o exemplo estava ali, neste Hotel du Cheval Blanc, que não tinha rival em França... O pitoresco das velhas casas..., e ele lembrava-se de ruas da sua infância, a da Auguillerie, a da Oisellerie, a Rue Baudrière; mas havia ainda a Maison d'Adam, logo adiante, perto da catedral, a mais bela de todas, era do século XV, e valia a pena a visita. Havia tantas coisas a visitar em Angers! Mas monsieur Grasset teria muito gosto em guiá-lo.
Perante tanta amabilidade, sorrindo, ele perguntou então a monsieur Breton se não tinha algures nos seus sótãos uma mesa de pés altos, em que fosse possível escrever de pé. Se monsieur le Consul desejasse, podia substituir a mesa do seu quarto por outra maior, mas da mesma altura, precisou, com hesitação na voz. Não, era mais uma questão de altura, ele tinha coisas a escrever e estava habituado a fazê-lo de pé, era une petite manie, acrescentou, com um ar meio desinteressado, não desejando insistir. Pois ia ver, na verdade nenhum cliente lho tinha pedido. Mas se fosse preciso, o marceneiro do hotel podia fazer a adaptação necessária, e rapidamente; não, não incomodava nada, por amor de Deus... Mas era tarde já, e ele queria subir ao quarto, menos para se deitar que para folhear mais uma vez o manuscrito daquela desgraça familiar de que não sabia desenvencilhar-se. Escreveu ainda meia folha, e sobretudo nas largas margens das folhas anteriores, com uma letra fina, tão certa na aparência. Mas que fazer depois? E que estava ele a fazer em Angers, a ouvir monsieur Breton contar a sua vida, e de todas aquelas colombages?... Ah, sim, ele tinha feito copiar para si, o que era? A passagem de uma carta de uma condessa d'Armaillé, alguém importante na cidade. Era uma descrição do hotel em 1851. Leu, no esmero da caligrafia: forte ancienne bâtise en bois et en torchis avec des galeries couvertes comme au Moyen-Age. Foi ao gabinete de toilette, verificou que a pequena torneira brilhante do depósito de água funcionava bem, deitando um fio de água na bacia, pôs o seu pó dentífrico (o inglês era certamente melhor do que o que os franceses fabricavam) na escova de dentes, fez a toilette para se deitar, alisou a camisa de dormir, e deitou um olhar preguiçoso ao Little Tour, de Henry James, antes de pousar o monóculo num lenço de cambraia, sobre o tampo de mármore da mesa-de-cabeceira (peniqueira: o termo nortenho veio-lhe de repente à memória, com um largo riso, que lhe vincou o rosto: peniqueira) no Anjou...), afastando o naperon de filet que o cobria e que suspeitou ter pó acumulado. Depois, reflectiu e levantou-se para voltar a lavar as mãos, assoprando então a vela na lamparina de prata, que era com certeza uma distinção de monsieur Breton». In José Augusto França, A Bela Angevina, Editorial Presença, Lisboa, 2005, ISBN 972-23-3359-3.

Cortesia de Presença/JDACT

terça-feira, 11 de agosto de 2015

A Reconstrução de Lisboa e a Arquitectura Pombalina. José Augusto França. «O velho recinto medieval, sucessivamente enriquecido com o palácio da Inquisição (maldito), o convento dos Dominicanos e o Hospital de Todos os Santos, fora regularizado em metade da área da Praça do Comércio pela planta de Eugénio dos Santos…»

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A Praça do Comércio
«(…) A monumentalidade do conjunto é garantida pela sua qualidade rítmica, sobretudo. Elementos celulares simples, arcos que se multiplicam nas três faces dos edifícios contínuos, em galerias mais profundas na face norte (catorze arcos de cada lado do arco do triunfo, com interrupção de duas ruas), do que nas faces nascente e poente (vinte e cinco arcos) definem a arquitectura de Eugénio dos Santos, enobrecida pelos dois pavilhões terminais e pelo arco triunfal donde parte a Rua Augusta, principal do sistema da Baixa. A inspiração vinda da obra de Terzi (que já tivera projecção no complexo joanino do convento-palácio de Mafra, devido a J. F. Ludovice) é evidente, com necessária modernização do novo desenho, a que, numa visão ambiciosa e sem realidade, se pretendeu (talvez Carlos Mardel) acrescentar cúpulas sumptuosas; não deixaria, porém, de levar balaustradas sobre os entablamentos que Eugénio dos Santos, mais estritamente, não previra. O seu arco de triunfo foi, sem dúvida, inspirado em desenhos de Le Brun à glória de Luís XIV embora o coroamento do projecto português seja por demais simples e falto de brio, no seu frontão triangular como suporte de estátuas. Mardel imaginará outro, com uma elegância requintada, e outros ainda serão apresentados ao longo do século XIX, até que, em 1875, se lhe deu a forma académica e sobrecarregada do projecto de A. Calmels, finalmente e em má hora aprovado.
Novo centro oficial da capital e do governo do País, grande teatro do comércio de Portugal, a Praça do Comércio constitui a expressão mais original do magno empreendimento da Reconstrução: nela o espírito pombalino tem a tradução simbólica que lhe convém, digna e prática, e justificada pelo próprio nome que necessariamente lhe foi atribuído.

O Rossio
Novo fórum de Lisboa, a Praça do Comércio absorvia em parte o papel social do Rossio antigo, mas este não deixou de merecer a atenção do legislador que, ao mesmo tempo, em Junho de 1759, tratou de resolver problemas relativos à edificação do que também considerava uma nobre praça. O velho recinto medieval, sucessivamente enriquecido com o palácio da Inquisição (maldito), o convento dos Dominicanos e o Hospital de Todos os Santos, fora regularizado em metade da área da Praça do Comércio pela planta de Eugénio dos Santos que continuava a prever, na sua face nascente, o convento e o hospital. Os terrenos tiveram, porém, outra distribuição, de prédios de rendimento cujo projecto foi cometido a Carlos Mardel, que ficou responsável pela urbanização do sítio. Três fachadas de prédios de três andares e um de águas furtadas completam-se com a fachada norte, destinada ao novo edifício do Palácio da Inquisição que a assumia regularmente. Mais tarde, a face sul da praça será modificada para reproduzir o corpo central do edifício da Inquisição (maldita), com o seu portal, como arco de comunicação com uma rua estreita que, na planta geral da Baixa, não atingiria o Rossio. Dois pormenores nestes prédios diferentes dos das ruas da Baixa chamam imediatamente a nossa atenção: primeiramente, o ritmo das janelas do primeiro andar, que insere modularmente uma sacada entre duas janelas de peito, ligando-a ao portal num conjunto de discreta monumentalidade. O segundo detalhe é constituído pelos telhados ditos germânicos, de águas sobrepostas, que se supõem introduzidos em Lisboa por Mardel, e que imprimem uma maior complexidade arquitectónica e uma maior riqueza visual ao Rossio.
O Palácio da Inquisição, que é dos raros edifícios nobres que o programa pombalino imediatamente admitiu, tem discutível qualidade arquitectónica na sua severidade. Uma grande sacada, com balaustrada de pedra sobre um portal de silharia refendida, e, sob um frontão triangular encimado por uma estatueta figurando a Fé, forma um conjunto que enriquece o corpo central da construção continuada em dois corpos de sete vãos em três andares. Um incêndio destrui-lo-ia em 1836, alterando, com a edificação do teatro de D. Maria II, a imagem original e significativa da praça. Na imediata vizinhança do Rossio realizar-se-iam em breve duas iniciativas necessárias à nova cidade: a instalação dum mercado, por detrás do seu lado nascente, em terrenos que o Hospital e os Dominicanos não utilizariam, e que, posta de parte a intenção de nele levantar quarteirões de prédios, ficaria para sempre devoluto; e a plantação de um jardim público, o primeiro que Lisboa conhecia, expressamente oferecido à sua população». In José Augusto França, A Reconstrução de Lisboa e a Arquitectura Pombalina, Director da Publicação António Quadros, Instituto de Cultura e Língua Portuguesa, Oficinas Gráficas da Minerva do Comércio, Instituto Camões, 1986.

Cortesia de I. Camões/JDACT

Urbanismo e Arquitectura. Lisboa. José Augusto França. «Assim, S. Sebastião da Pedreira e Arroios são verdadeiros extremos da cidade alargada, de onde se ganham os arrabaldes rurais. Em volta do monte do Castelo, pelo contrário, multiplicam-se também as ruas vermiculares…»

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A Cidade Manuelina e Filipina
«(…) Constituem a haste maior as ruas dos Escudeiros, dos Douradores, (alargada em 1716) e dos Ourives do Ouro, e a haste menor a famosa rua Nova dos Ferros que termina no largo do Pelourinho onde morre também a rua dos Ourives da Prata, vinda da Madalena. A primeira haste do L, a princípio da rua dos Escudeiros, bifurca-se na rua dos Odreiros que parte igualmente da face sul do Rossio. Ali têm ainda começo a rua do Lagar do Cebo e a longa praça da Palha; a primeira desce irregularmente, pelas ruas das Mudas e dos Carapuceiros, até à rua transversal dos Mercadores, a segunda, continuada pela rua das Arcas, vai ter ao largo da igreja de S. Nicolau onde desembocará também a rua da Cutelaria, que vem do largo da igreja de Santa Justa e, mais atrás, da rua do Poço do Borratém, numa espécie de V cujo vértice se marca na primeira igreja, importante na rede confusa da Baixa.
Outra igreja de importância é a de S. Julião, de onde parte para a igreja da Conceição dos Freires a rua dos Mercadores, no sentido poente-nascente, que é o sentido da rua Nova, mais abaixo, e da rua da Confeitaria, ambas estas paralelas à face norte e oblíqua do Terreiro do Paço, que à última se liga, indirectamente embora, pelos arcos dos Pregos e dos Barretes, que ainda são portas da cerca fernandina. Ainda no sentido norte-sul, sai do Rossio a rua dos Espingardeiros, paralela à dos Odreiros, e do ângulo sudoeste da praça parte a Rua do Carmo que, pelas escadinhas do Caracol do Carmo vai à calçada de Paio de Novais que entronca na rua Nova do Almada no ponto de intercepção da rua das Portas de Santa Catarina. A norte desta (que, continuando pelo Calhariz e Paulistas, vai a S. Bento) é o bairro do Carmo e da Trindade, a sul o bairro de S. Francisco por detrás do qual (e do palácio dos duques de Bragança) se desce aos Remolares, à beira do rio.
Daqui, depois de alguns desvios, sobem rente às muralhas, as ruas do Conde e a larga de S. Roque, deixando a poente o bairro das Chagas e o bairro Alto, e propondo, para norte, o caminho que, pela Cotovia, leva ao Rato, de onde, em vasta encruzilhada, realmente uma placa distribuidora de trânsito, e agora já com diminuta densidade de casario, se passa a S. Bento, a Santa Isabel, a Campolide, a S. João de Bem-Casados, ou se desce, pela rua do Salitre, a Valverde. Ao longo deste, a caminho de S. Sebastião da Pedreira e a partir das Portas de Santo Antão, para norte, correm as ruas das Portas, de S. José, de Santa Marta e de S. Sebastião. Ainda do ângulo nordeste do Rossio se passa, pela calçada, ao Campo de Sant’Ana de onde sai a carreira de cavalos, adiante da qual a Cruz do Taboado é ainda sítio quase inteiramente rústico; ou se passa, por detrás de S. Domingos e pela Saúde, à rua da Palma, deixando a poente os altos de Sant’Antão e do Desterro, a caminho de Santa Bárbara e de Arroios.
Assim, S. Sebastião da Pedreira e Arroios são verdadeiros extremos da cidade alargada, de onde se ganham os arrabaldes rurais. Em volta do monte do Castelo, pelo contrário, multiplicam-se também as ruas vermiculares e só a Sé, a Graça e S. Vicente impõem presenças fortes que são roturas e ao mesmo tempo focos de atracção urbana. Da Graça, pelos Quatro Caminhos, na direcção da Senhora do Monte e da Penha de França, esboça-se já uma linha de urbanização; outra, dos Quatro Caminhos desce para Santa Apolónia. A oeste da cidade, do sítio da Boa-Morte vai uma urbanização para as Necessidades e, ao longo de toda a margem do Tejo, de Santos-o-Novo até Alcântara, é uma mancha ininterrupta de casario, em maior ou menor densidade. Porque o rio é, desde a Idade Média (ou desde sempre) a via real da cidade, a sua possibilidade maior de comunicação.
Manchas maiores ou menores, lineares ou enoveladas em bairros mais antigos, elas fazem de Lisboa joanina, com as suas calçadas em ruína (1746), mau grado o fausto da corte do rei Fidelíssimo e a sua riqueza decorativa (e mesmo contando as suas duas praças, nobre uma, popular a outra), o que um famoso viajante francês (L. S. Mercier) achou ser uma cidade de África. E o Cavaleiro de Oliveira, exilado, nada mais que uma fermosa estrivaria…

A cidade pombalina
Grande parte desta cidade desapareceu cerca das 10 horas da manhã do dia 1 de Novembro de 1755, abalada por um terramoto de raríssima intensidade (graus VIII e X sobre XII da escala de Mercalli) e magnitude (grau 9, o máximo na escala de Richter), cujo epicentro é localizável a oeste de Gibraltar e que foi sentido por toda a Europa, a África do Norte e até nas Américas. Ao sismo, e por ele provocado, sucedeu um vasto incêndio, mais catastrófico ainda, e do duplo cataclismo resultaram cerca de 10 000 mortos (embora na altura os cálculos apavorados tivessem subido até 90 000) e perdas materiais incalculáveis, em prédios e riquezas móveis e preciosas». In José Augusto França, Lisboa. Urbanismo e Arquitectura, Director da Publicação Álvaro Salema, Instituto de Cultura e Língua Portuguesa, Oficinas Gráficas da Livraria Bertrand, série Artes Visuais, Instituto Camões, 1980.

Cortesia de ICamões/JDACT

quinta-feira, 9 de julho de 2015

Urbanismo e Arquitectura. Lisboa. José Augusto França. «… a nascente pela colina do Castelo e a poente pela que se estende de S. Francisco ao Carmo, um grande L, descendo do Rossio enviezadamente e dobrando a noventa graus para poente, comanda a malha urbana…»

Cortesia de wikipedia e jdact

A Cidade Manuelina e Filipina
«(…) As fontes públicas foram também preocupação régia que Mardel satisfez numa série de desenhos, os mais simples executados (Esperança, Rato, rua Formosa), os outros abandonados, e entre estes duas fontes monumentais coroadas por estátuas de João V, uma equestre, numa edificação de grande volume, outra pedestre, ignorando-se para que locais da cidade, então servida por um magno aqueduto que foi a grande obra de engenharia do reinado joanino. Depois de tentativas e empreendimentos já em 1573, e nos reinados filipinos (1618 e 1621), a iniciativa partiu então do procurador da cidade, Gorgel Amaral (1728), com a intenção de levar água corrente a uma parte da cidade, o Bairro Alto e daí para baixo até ao paço real, remediando uma habitual carência em que já várias vezes tinham pensado os edis. Uma legislação apropriada deu apoio fiscal à empresa, e o decreto de 12 de Maio de 1731 mandou começar as obras iniciadas no ano seguinte e terminadas dezassete anos depois, com prolongamento nas fontes citadinas, numa mãe d’água e num notável arco, às Amoreiras, de Mardel, em 1752. Os engenheiros Manuel Maia e Custódio Vieira conduziram os trabalhos, e depois (1747) o próprio Mardel, sempre com o interesse régio. Desde Caneças, das Águas Livres que lhe deram o nome, o aqueduto conta dezoito quilómetros até às Amoreiras, emergindo da terra no alto da Serafina para galgar o vale de Alcântara até Campolide, em perto de um quilómetro de extensão sobre 35 arcos, 21 de volta perfeita, 14 quebrados ou ogivais, numa forma que não deixou de ser criticada na altura, pela sua lembrança medieval depreciada. O mais alto destes arcos, fechado em Outubro de 1744, mede 65,25 metros de altura, e o todo apresenta uma monumentalidade que impressionou os contemporâneos. A mais magnífica e a mais sumptuosa empresa deste género sem excluir as dos Romanos e dos Franceses, afirmava em 1755 o Journal Etranger de Paris, no ano em que a sua boa construção o fez resistir ao terramoto.
No pólo utilitário oposto ao paço real e à sua patriarcal, o aqueduto é um sinal maior da cidade municipal, num equipamento urbano de que ela precisava e que os seus habitantes mereciam, numerosos como eram já nos princípios de Setecentos. 90 000 fogos (ou seja 360 000 habitantes) contavam as relações paroquiais em 1704, enquanto em 1716, para obtenção de uma segunda diocese na cidade, se garantia ao papa que só a parte ocidental, em questão, tinha 300 000 habitantes, ou seja, o total de 600 000 para a cidade inteira, como se concluiu, imprudentemente, em 1754, em informação igualmente fornecida a Roma. Já em 1739 se tinha afirmado a existência de 800 000, mas mais verosimilhança apresenta um cômputo de 1729, quando se tratava de lançar realistamente o imposto do real da água para a construção do aqueduto; calcularam-se então 50 000 vizinhos (famílias), ou seja uma população de cerca de 200 000 pessoas. Cálculo em certa medida documentado indica 250 000 habitantes na altura do terramoto de 1755.
Este quarto de milhão de pessoas vivia numa cidade que há muito transbordara da cerca medieval: pelos meados do século citavam-se já os sítios dos Anjos, de Andaluz, de S. José, de Santa Marta, da Esperança, de S. Paulo, de Santa Catarina. Ela não alterara por isso a sua estrutura antiga, como vimos, ao longo dos dois últimos séculos: no mesmo sistema parcelar, os mesmos prédios se iam restaurando ou reconstruindo, nas mãos dos seus proprietários, novecentos dos quais eram foreiros do Senado em 1717. A planta que o engenheiro-mor do reino, Manuel Maia, levantou por ordem régia, entre 1713 e 1718, com toda a individuação de praças, palácios, templos, mosteiros, freguesias, ermidas, ruas e travessas, desaparecida, mas de que chegaram cópias até nós, mostra-nos Lisboa em pleno reinado joanino, e é essa cidade que importa agora descrever, nas suas linhas de força. No largo vale da Baixa, limitado a sul pelo Tejo e pelo Terreiro do Paço, de configuração irregular, a norte pelas hortas de Valverde e pelo Rossio, irregular também, a nascente pela colina do Castelo e a poente pela que se estende de S. Francisco ao Carmo, um grande L, descendo do Rossio enviezadamente e dobrando a noventa graus para poente, comanda a malha urbana enredada do conjunto». In José Augusto França, Lisboa. Urbanismo e Arquitectura, Director da Publicação Álvaro Salema, Instituto de Cultura e Língua Portuguesa, Oficinas Gráficas da Livraria Bertrand, série Artes Visuais, Instituto Camões, 1980.

Cortesia de ICamões/JDACT

Tomar. Thomar Revisited. José Augusto França. «Ali Henrique realizou grandes obras civis, adaptando a ponte, fundando Estaus de novidade urbana, como em Lisboa fizera o irmão Pedro (Regente), e aqui para uso de visitantes e criadagem dos mestres e dos cavaleiros»

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Sítio e história
«(…) Já dois anos atrás o infante João fora investido no Mestrado de Avis, mas agora o caso era mais importante, e o pedido real foi satisfeito pelo papa e, mais, em 1456 e até 1514, o espiritual, das terras descobertas coube na confirmação do privilégio inicial dos Templários de Nulla Diocesis. A Cruz da Ordem de Cristo foi então emblema do velame das naus dos descobrimentos e, desde 1420, os seus enormes réditos foram sempre administrados por príncipes da casa real, o infante Fernando, sobrinho e herdeiro do infante Henrique, seus filhos Diogo e Manuel, duques de Beja, e, desde este, pelos próprios reis, até a rainha dona Maria II, à extinção das ordens religiosas, em 1834. A economia dos descobrimentos, em nova vocação nacional animada inicialmente pelo Infante Henrique, dependeu, como se sabe, em considerável parte, dos rendimentos de que o regedor, dispunha, seus (de que não prescindiu e muito aumentou, por não ter feito voto de pobreza ao assumir, propositadamente, não o mestrado mas a administração da Ordem) e da própria Ordem assim administrada.
A acção do infante à frente da Ordem de Cristo foi considerável com todo o poder dos cavaleiros, que aumentou por força de novos estatutos em 1426, e de reformas desejadas, de que foi incumbido em 1434, mas só com aplicação em 1443 e sobretudo 1449, João Vicente, bispo de Lamego, antigo médico de João I. Eram elas conformes aos estatutos da Ordem de Calatrava, modelo que lhe fora, já em 1319, e agora mais imposto. Grandes obras no castelo-convento foram levadas a cabo, e ali o infante residiu até se fixar, já em anos 40, no Algarve, na chamada Vila do Infante, desaparecida e de hipotética localização, onde morreria em 1460 (mas em 1451, por exemplo, estava em Tomar), deixando em testamento à Ordem as suas ilhas açoreanas de S. Miguel e de Sta. Maria que, como o restante arquipélago, recebera do rei, e indo as outras para a coroa ou para o sobrinho herdeiro. Paços de residência no castelo, outros, possíveis, ditos da Ribeira, existentes à Várzea Grande, onde se julga que veio a morrer o rei Duarte I em 1438, abrilhantaram a vida da povoação que muitas figuras henriquinas atravessaram. Ali Henrique realizou grandes obras civis, adaptando a ponte, fundando Estaus de novidade urbana, como em Lisboa fizera o irmão Pedro (Regente), e aqui para uso de visitantes e criadagem dos mestres e dos cavaleiros, e também de feirantes, já que, em 1420, uma feira franca foi criada, a seu pedido, em Tomar, por autorização régia e com privilégios então únicos no país. Saboarias com monopólio de fabrico, concedido ao infante em Santarém em 1424, foram-lhe também autorizadas em Tomar, nos antigos celeiros dos Templários, os cubos, com notável progresso económico da vila.
Também uma reforma hospitalar que o infante esboçou (e Manuel I terminaria) representou progresso para Tomar, cujo urbanismo se configurou por então na Vila de Baixo, tal como a conhecemos hoje, e deve ser considerado modelo empírico, não, bem entendido, da Lisboa pombalina, mas do Bairro Alto de S. Roque jesuíta, traçado por então, na capital. Nos paços henriquinos, necessariamente adaptados, viveu o infante Manuel, duque de Beja, administrador da Ordem por sucessão de irmão e pai; e também ao rei que foi, depois ficou devendo Tomar um novo e notável progresso. Ele dedicou-se à vila, corrigiu-lhe o curso do rio, deu-lhe casas de Câmara na Praça de S. João Baptista (que seria de Manuel I), absorvendo as boticas, da feira e com pelourinho defronte, e um hospital centralizado da Misericórdia, em 1520, na linha de assistência que sua régia irmã criara, e uma nova carta de foral em 1510. Ferrarias no Prado, para fabrico de armamento, já antes de 1504, lagares e moinhos, celeiros e adegas foram ainda mandados construir por Manuel I, muitas dessas construções foram, por gratidão e hábito, chamadas pelos tomarenses, até aos dias de hoje. E a importante ponte da vila foi igualmente renovada por ele.
Também então o Convento de Cristo recebeu obras que lhe definiram o estilo dito muito mais tarde manuelino, e logo na célebre janela que o simboliza. E as igrejas da vila, reedificadas como a de S. João Baptista, acumularam então consideráveis riquezas, como a preciosa cruz-relicário feita, ao que se julga, com o primeiro ouro vindo da Índia, que desapareceu do Convento entre 1829 e 34, enquanto outras peças do seu acervo religioso passaram ao Museu de Arte Antiga, ou do Tesouro da Sé de Lisboa. E por todo o lado o rei impôs, a par da esfera armilar de seu emblema, a cruz da Ordem emblematizada também, como na Levada, à beira da ponte, se observa. Tais obras foram acompanhadas por nova reforma administrativa de que o real valido Diogo Pinheiro, primeiro bispo do Funchal, se encarregou. De qualquer modo, logo em 1497, Manuel I criou uma Mesa Conventual, da Ordem, para gerência de seus bens». In José-Augusto França, Tomar, Thomar Revisited, Editorial Presença, Lisboa, 1994, ISBN 972-23-1846-2.

Cortesia de EPresença/JDACT

sábado, 17 de janeiro de 2015

Tomar. Thomar Revisited. José Augusto França. «E tive um sobressalto quando a guia nos fez visitar uma sala secundária (... donde) descemos a uma cripta. Ao fundo de sete degraus, uma pedra nua conduz à abside, onde poderia surgir um altar ou o trono do Grão-Mestre, e onde se chega passando debaixo de sete fechos de abóbadas…»

Tomar dos templários
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Sítio e história
«(…) A povoação iria desde então crescendo, apesar da crise do fim do século, passava em breve para fora das muralhas, na Vila de Baixo, e Gregório IX daria indulgências a quem visitasse Sta. Maria de Tomar, no segundo quartel de Duzentos. S. João Baptista foi então edificado e na segunda metade do século ter-se-á aberto, entre olivais, a Corredoura, ainda hoje a grande rua tomarense. A vila vinha então, em importância, logo após Santarém e Leiria, a par de Coimbra e Abrantes, à frente de Ourém, Pombal, Torres Novas, Montemor. Sucederam-se vinte e três Mestres na poderosa Ordem que ia somando terras e bens, na região de Soure e Pombal, que fora seu anterior território, na de Castelo Branco e Idanha, até ao Fundão e nesta de Tomar, com limites a sul na Quinta da Cardiga e no Castelo de Almourol, ao todo perto de 3700 quilómetros quadrados de domínio. Até que o Templo foi levado à extinção e à liquidação por reforma da Ordem no grande movimento internacional determinado por Filipe, o Belo, de França e apoiado pelo papado, a que o rei Dinis naturalmente obedeceu, mas ressalvando a sua estrutura em 1319, numa nova Milícia ou Ordem de Cavalaria de Jesus Cristo que, depois de ocupar Castro Daire e Castelo Branco e com outras indecisões, se sediou finalmente e de novo em Tomar, em 1357, a pedido dos próprios freires que se queriam então menos expostos a encontros com os Mouros, se acreditarmos no que nos diz frei Bernardo Brito na Monarquia Lusitana.
Assim também, diplomaticamente, grande parte dos bens que o mesmo papa da extinção, João XXII, já quisera doar a um cardeal francês de sua valia, foi salva através das conhecidas inquirições, mandadas fazer pelo rei em 1317, para provar a pertença originária das suas terras ao reino de Portugal. Transitaram os cavaleiros de uma para outra Ordem e outros foram admitidos, esvaziando-se heraldicamente a cruz vermelha dos Templários antes que o tempo lhe alterasse o desenho em linhas angulosas. E alguma oculta suspeita restará de ligação local com a Ordem mãe no seu misterioso e secreto itinerário. Nela insistirá, em 1988, Umberto Eco na fantasia erudita do seu romance Il Pendolo di Foucault...

[…] Se eu posso imaginar um castelo templário, assim é Tomar. Chega-se a ele por um caminho fortificado que passa junto dos bastiões exteriores, com seteiras em forma de cruz, e logo se respira uma atmosfera de cruzes, desde o primeiro instante. Os Cavaleiros de Cristo naquele sítio tinham prosperado durante séculos. (...) A longa e feliz existência que ali tinham gozado fez reconstruir e ampliar o castelo, ao longo dos tempos, de tal modo que à sua parte medieval se juntaram alas renascença e barrocas. Comovi-me entrando na igreja dos Templários com a sua rotunda octogonal que reproduz a do Santo Sepulcro. (...) Depois, a nossa guia levou-nos a ver a janela manuelina, a janela por excelência, um buraco, uma colagem de reportórios marinhos e submarinos, algas, conchas, âncoras, amarras e correntes, em celebração das aventuras dos Cavaleiros sobre os oceanos. Mas, dos dois lados da janela, a apertar como uma cintura as duas torres que a enquadram, vêem-se esculpidas as insígnias da Jarreteira. Que fazia ali, num mosteiro português, o símbolo de uma ordem inglesa? Não soube responder a guia, mas logo a seguir, em outro lado, creio que a noroeste, mostrou-nos as insígnias do Tosão d'Oiro. Não pude deixar de pensar no jogo subtil de alianças que unia a Jarreteira ao Tosão d'Oiro, este aos Argonautas, os Argonautas ao Graal, o Graal aos Templários... (...) E tive um sobressalto quando a guia nos fez visitar uma sala secundária (... donde) descemos a uma cripta. Ao fundo de sete degraus, uma pedra nua conduz à abside, onde poderia surgir um altar ou o trono do Grão-Mestre, e onde se chega passando debaixo de sete fechos de abóbadas, em forma de rosas, umas maiores do que outras e a última, maior de todas, sobrepuja um poço. A cruz e a rosa, e num mosteiro templário, e numa sala certamente construída antes das manifestações rosacrucianas.. . Fiz algumas perguntas à guia que sorriu: se soubesse quantos estudiosos de ciências ocultas aqui vêm em peregrinação... Diz-se que este sítio era uma sala de iniciação…[…] In Umberto Eco, Il Pendolo di Foucault, Milano, l988

Entretanto, a povoação desenvolvera-se, tornara-se vila cuja vida municipal mais ou menos se conhece. A passagem de uma Ordem a outra acrescentou a lista dos Mestres havidos depois de Gualdim Pais e, sempre eleitos, contaram-se mais oito nomes desde o primeiro da nova organização, por dois anos só, porque morreu Gil Martins, que era Mestre da Ordem de S. Bento de Avis, cujos estatutos foram adoptados então. E passando pelo 6.º Mestre Nuno Rodrigues de Andrade, amigo do rei Pedro I e daí aio do seu bastardo João que seria rei, e assim viveu em Tomar de 1357 a 1363, até Lopo Dias Sousa, dos Sousas-Arronches, sobrinho materno de dona Leonor Teles, que por isso pôde ser eleito com doze anos de idade. A vila fora assolada pela peste negra, em 1348, e em 85, apesar da atitude dúbia do Mestre, Tomar tomou partido contra Castela na guerra da sucessão portuguesa. Num seu arrabalde se juntaram as hostes do Mestre de Avis e de Nun’Álvares, a caminho de Aljubarrota. Um padrão quinhentista comemorará o acontecimento, como veremos, e na própria Várzea Grande da vila se exercitaram, para a improvável vitória, as forças do Condestável, firme no seu propósito de travar batalha. Por essa altura conhecem-se as primeiras referências à comunidade judia, de artesãos e negociantes, que teria sinagoga cerca de 1460. Em 1405, o Mestre Lopo entrou em demanda de grados interesses contra a vila, que ganhou, e à sua morte, em 1420, o rei João I pediu ao papa que, sem mais eleições capitulares, a regência e administração perpétua da Ordem fosse dada a seu filho, o infante Henrique, para serem utilizados os seus rendimentos na luta contra os sarracenos e na difusão da fé, agora em empreses africanas iniciadas em Ceuta, ou desde 1433 com a descoberta da Madeira». In José-Augusto França, Tomar, Thomar Revisited, Editorial Presença, Lisboa, 1994, ISBN 972-23-1846-2.

Cortesia de EPresença/JDACT

sexta-feira, 16 de janeiro de 2015

Tomar. Thomar Revisited. José Augusto França. «… que o sítio de Tomar se verifica ser ponto de cruzamento de acreditadas forças telúricas, caras aos Templários, e encontrar-se na linha que, em relação ao meridiano de Paris, forma um ângulo de 34º…»

Inscrição de Gualdim Pais em Sta Maria do Olival
jdact

Sítio e história
«(…) O concelho de hoje, inserido entre os de Ourém e de Ferreira do Zêzere, a norte, da Barquinha, a sul, de Abrantes, a leste, com o rio Zêzere em fronteira, e de Torres Novas, a oeste, tem uns 25 quilómetros de norte a sul e uns 20 de leste a oeste, em suas maiores distâncias. Rio e cabeço fronteiro foram certamente razões que determinaram Gualdim Pais a escolher o sítio para nele finalmente sediar a Ordem dos Templários, de que era 4.º ou 6.º mestre nacional, conforme a contagem, após ter sido comendador dela em Braga, e de nas suas hostes se ter batido na Palestina, durante cinco ou nove anos (discute-se o prazo), rico-homem de Entre-Douro-e-Minho, da nobre estirpe dos Ramirões, criado junto do próprio rei, ao que se julga, e por ele armado cavaleiro em Ourique, como se julga também. A opção de Tomar veio depois de o Mestre ter recebido as ruínas do castelo de Ceras (Castrum Caesaris, se supõe), junto à ribeira deste nome e, depois, do lugar de Alviobeira, a duas léguas para norte-nordeste. Impunha-se fundar ali, ou por ali, um forte castelo que, com outros em vizinhança, na Cardiga ou no ilhéu de Almourol, defendesse o acesso de Coimbra, pelo vale que subia de Santarém: seria ele em Ceras ou em Tomar, considerado seu território, por razões exactas que se ignoram, mas nas quais o rio muito provavelmente terá influído. Outras não deixam, todavia, de ser evocadas, de muito diferente categoria, ligadas à vida lendária do Templo. E seria assim que o sítio de Tomar se verifica ser ponto de cruzamento de acreditadas forças telúricas, caras aos Templários, e encontrar-se na linha que, em relação ao meridiano de Paris, forma um ângulo de 34º, significativo nos esquemas das construções da Ordem, correspondendo à diagonal da relação 2/3 que se observa na constelação de Gémeos, signo templário por excelência. E, mais, podem achar outros pesquisadores que, no seu saber esotérico, os cavaleiros do Templo se fixaram no paralelo equidistante dos lados norte e sul, do país calculado entre limites naturais que haviam de ser verificados pela História, gerando assim um duplo quadrado que está de acordo com o tema templário da duplicação que dois cavaleiros montados no mesmo cavalo logo significam, no seu emblema...
Ruínas que houvesse no alto escolhido, ou perto dele, que deixaram vestígios arqueológicos nas novas construções, elas foram remodeladas com três longas cintas de muralhas atorreadas que havemos de ver. A construção iniciou-se em 1160, no 1.º dia de Março (conforme reza lápide no sítio conservada), no ano seguinte à doação régia que ressalvou importantes direitos espirituais da Ordem, em situação de Nullius Diocesis, isto é, com directa sujeição ao papa, que seria bispo de suas terras, e foi Adriano IV e depois Urbano III, Inocêncio III e Honório III, em verificações sucessivas, até 1217. Foi esse acerto objecto de difícil trato com o bispo de Lisboa, logo em 1159, que exigia ali jurisdição sua, sobre aquela que a Santarém já tinha pertencido e que logo em 1147 o rei Afonso Henriques passara ao Templo. A autoridade lograda (e que só seria eclesiasticamente anulada em 1882) permitiu a Gualdim Pais, com seu talento administrativo, povoar rapidamente as terras que o castelo protegia, com gente vinda do Norte do país novo, dando aos seus habitantes um foral logo em 1162, inspirado no de Coimbra, e completado, doze anos depois, com definições jurídicas de carácter criminal, ao mesmo tempo que fazia edificar a Igreja de Sta. Maria do Olival, ou de Tomar, provavelmente aproveitando ruínas beneditinas; seria ela bailia, casa capitular e panteão dos mestres templários, na outra margem do rio, em antigo sítio de Sellium que fez dar à igreja também o nome popular de Sta. Maria do Selho, pelos séculos XII e XIII.
Mas, em 1190, Iacub ben Iuçuf Almançor, o último ilustre rei marroquino da Hispânia, da dinastia dos Almóadas, veio à Península repor os seus direitos de conquista, destruiu arredores de Lisboa e de Santarém, avançou sobre Leiria e cercou Tomar com 900 homens de armas, como informa uma lápide de leitura corrigida, no castelo. Mas não conseguiu vencer a resistência do duro velho, (A. Herculano) Gualdim Pais e dos seus cavaleiros que os vilões ajudaram, e retirou, enfim, com o exército desencorajado e doente, com inumeráveis perdas de homens e animais, e com esperanças perdidas de poder reapoderar-se da antiga Lusitânia. A resistência de Tomar, ponto-chave sobre Coimbra, assume assim um papel militar importantíssimo na consolidação do país afonsino, evitando atrasos ou retrocessos na sua história. Almançor morreria nove anos mais tarde, o mestre templário cinco. A sua biografia está resumida numa extensa lápide trazida para um muro do castelo, da fortaleza templária de Almourol». In José-Augusto França, Tomar, Thomar Revisited, Editorial Presença, Lisboa, 1994, ISBN 972-23-1846-2.

Cortesia de Editorial Presença/JDACT

terça-feira, 15 de julho de 2014

José e os Outros. Almada e Pessoa. Romance dos Anos 20. José Augusto França. «Foi ao saírem do café que viram Columbano, no passeio fronteiro, subindo a São Carlos, rente às paredes, olhando só o chão. Era um dia importante, um dia definitivo para os destinos da arte portuguesa»

jdact

A Inauguração
«(…) O Nazaré despedia-se com um gesto breve: voltava à noite para ver Com a Aurora? Passava pelo Bristol antes. Agora era o Marques quem chegava, o benjamim. As telas dele eram mais complicadas, os recortes não davam. … Cortam-se, decidiu Pacheco, olhando as talhas repolhudas do relógio, no fundo escuro da sala. Era disso que o Teles mais gostava, e o Norte Júnior também: ah, aqueles espelhos e aquelas pilastras de mármore negro!... O João Franco achava uma pena, mas calava-se e serviu outro café ao Pacheco que partiu a falar ao homem da camioneta, no Jardim do Regedor, e tinha também que ir falar ao carpinteiro do Pátio do Tronco, para lá estar. Assim o Teles, que era unhas-de-fome, não fizesse questão em pagar. Que mais queria, com o preço que largara pelos quadros?... Se não fosse ele, e arranjara-se com o Malta para a colaboração; não fora fácil.. . O Stuart, esse é que não se ralava... O mais exigente era sempre o Soares; que queria ser mais bem pago: tinha voltado da exposição de Paris muito cheio de si, dizendo mal do Canto que lá vira. Uma vergonha a falta de presença portuguesa!
José ficava ainda e chamou o João Franco de parte, estava aflito. Deixe lá, Senhor Âlmada, paga para a semana… Ele estava à espera do Falcão, e o Stuart, que garatujava a uma mesa, o cigarro de mortalha colado ao beiço, um fósforo partido molhado num pequeno tinteiro de tinta da China que tirara do bolso do sobretudo; ia ao Diário de Lisboa e daí para o seu arranjinho na Rua das Gáveas. Só às dez, ó Batista, recomendara mais uma vez o Teles, pelo telefone, com o seu sotaque brasileiro que incitava prodigiosamente Pacheco, nas suas discussões que eram sempre de dinheiros. O Barradas e o José não tinham sido pagos, pelo menos na totalidade, o irmão do Viana, o da mercearia, esse recebera por ele; entendia-se melhor com o Teles, em negócios, mas só o Soares conseguira receber tudo, e era dos mais caros, porque os seus ares altivos impressionavam o cliente. A Brasileira ficava como de costume, depois da hora do café e dos jornais e do eléctrico de ir jantar a casa; durante a tarde assim estivera, com entradas e saídas. Gualdino voltara à sua mesa, depois de um amuo que moveu abaixo-assinados, duzentos requerentes em verso e prosa, dezenas de celebridades, Gago Coutinho, Pascoaes e Aquilino, jornalistas, poetas e dramaturgos, o Almada não, por históna antiga, Soares sim e, evidentemente, José Pacheco, que veio cumprimentá-lo à mesa. Então é hoje? perguntou-lhe amavelmente o decano, papa do Chiado.
Viera da sua biblioteca, como sempre, sem tirar o chapéu preto, de feltro mole, moldado em tacho. Ficara à espera de resposta, as lunetas assestadas, delicadamente, mas o seu interesse pelos quadros que tardavam levava uma ironia de céptico que A Brasileira diariamente acalentava. Ouvira e lera dos quadros anunciados mas não eram do seu interesse e nem fora vê-los ao Salão. A decoração do Norte Júnior era o que era, e até a achava bem, ao lado da Casa Havaneza, e com as mesas Sextavadas… Todos se lembravam da blague que fazem sobre a sua geometria. Gualdino Gomes tinha os seus gostos e, sobretudo, a sua opinião sobre os futuristas do Orpheu que eram, de modo geral, da Brasileira. E do Chiado Terrasse; fez uma careta só ao lembrar-se daquele sarau, e do Almada, poeta futurista e tudo, como era? Ele não tinha assinado para a sua volta à Brasileira, hum... Não havia de esquecer... Aquele Pacheco com diploma de arquitecto pela graça de Deus… Olhou-o de baixo: É então hoje à noite o grande dia? José saíra há muito com o Falcão que lhe recomendara cuidado com o Teles e com os outros; era o seu maior admirador e desconfiava do que lhe acontecesse naquela noite de abrocharem. Foi ao saírem do café que viram Columbano, no passeio fronteiro, que recolhia da Academia, subindo a São Carlos, rente às paredes, olhando só o chão.
Era, porém, um dia importante, um dia definitivo para os destinos da arte portuguesa! Que acharia o Pessoa? Na Revista não dissera ele que por arte portuguesa devia entender-se uma arte de Portugal que nada tivesse de portuguesa por nem sequer imitar o estrangeiro?... José fora-se rindo: os destinos da arte portuguesa naquelas telas do Teles, como dizia o Barradinhas... Ele figurara-se numa delas para que não pudesse haver dúvidas, e o Vítor Falcão ficara estupefacto diante do quadro, e repetia-lhe agora, a caminho do Tavares, que as figuras pintadas eram resplendentes de expressão, que tinham alma...» In José Augusto França, José e os Outros, Almada e Pessoa, Romance dos Anos 20, Editorial Presença, Lisboa, 2006, ISBN 972-23-3546-4.

Cortesia de E. Presença/JDACT

segunda-feira, 14 de julho de 2014

Unicórnio, Etc.. A década de 50 e as “Córnio”. José Augusto França. Miguel Real. «Tive, nisso, inevitáveis culpas, é claro. Mas muitas não as tive eu, e outras, embora as tivesse tido, não serão minhas. As primeiras conheço-as mal. Má direcção? Naturalmente, sim. Demasiada ambição? Isso com certeza»

Desenho de almadanegreiros
jdact e wikipedia

A década de 50 e as Córnio
«(…) Neste sentido, as Córnio ressuscitam o e tudo que o futurismo de Almada anunciara, ou, em bloco e no campo do ensaio, anseiam ser o quarto número que não houve de Orpheu. Tem José-Augusto França consciência de que a sua iniciativa é tocada pelo furor do novo, anunciando um Portugal que não existe? Em Nota servindo de prefácio, publicada em Unicórnio, Maio de 1951, o autor escreve que os textos e gravuras escolhidos exprimem uma maneira actual de encarar a realidade, considerando que os autores que participam nas Córnio possuem uma maneira aparentada de perspectivar a realidade e reitera que actualidade (ser actual) é o que nas suas páginas se pretende registar. Com efeito, o pensamento être absolument moderne, de Rimbaud, preenche na totalidade a consciência de França e as Córnio constituem, na década de 50, a sua maneira de o ser. Estaria Portugal culturalmente preparado para uma revista absolutamente moderna? Não, não estava. Salazar recusara a abertura política pós-II Guerra Mundial, o perigo vermelho de Estaline, dividindo a Europa em duas, suavizara o juízo das democracias europeias sobre o regime do Estado Novo, Alfredo Pimenta lançara o grito integralista o comunismo. Inimigo N.º 1, de novo Portugal se radicalizava, extremava, desenhando um mundo a preto e branco, António Sérgio e Vieira de Almeida lançavam para a arena um general de pensamento inconsistente que ousava declarar que Portugal também era Europa, Portugal merecia ser absolutamente moderno, Salazar não perdoou, endureceu-se, encarniçou-se e mandou reprimir, repetindo o gesto amordaçante de princípios da década de 30, fechando-se e fechando Portugal a novo intento de modernidade. O modernismo falhara culturalmente com Pessoa, Almada e Mário de Sá Carneiro, dez anos depois falhara com José Régio, João Gaspar Simões e Branquinho da Fonseca. O terceiro modernismo, o de José-Augusto França, de Jorge de Sena, Eduardo Loureço, teria pior destino, anunciara-se para logo se falhar, esboçado em revistas sem continuidade, ao longo da década de 50. Os seus autores experimentaram o livor da aurora, sem comungarem da claridade da madrugada. Eram netos de avós que maioritariamente o Portugal institucional não reconhecia. Entre a aurora e a madrugada, as labaredas da fogueira da liberdade tinham sido espevitadas, mas o cinzento-escuro dos fatos oficiais do regime político tinha-lhes quebrado o vigor. O fogo da modernidade falhara de novo.
No dia 31 de Dezembro de 1956, França fechou o ciclo das Córnio, no ano seguinte escreveu um espantoso Primeiro Diálogo sobre Arte Moderna, resgatou o seu amigo Amadeo narrando-lhe a obra, publicou um conjunto de contos, que intitulou, bem a propósito, Despedida Breve, e partiu, certamente tão falhado quanto Portugal estava. Um dolente sentimento de amargura devia cobrir-lhe as faces, França presumia ter falhado a sua juventude. Afinal, cumprira apenas o permanente ritual de iniciação do intelectual português, de Sá de Miranda a António Damásio, de Camões a Agostinho da Silva. França, agora, não era só França, tornara-se a personificação da imagem permanente da cultura portuguesa, de Francisco Sanches e padre António Vieira a Alexandre Herculano e Almeida Garrett, de Damião de Góis a Eça de Queirós, de João de Castro neto a Sampaio Bruno, Eduardo Lourenço e António José Saraiva, buscando Portugal fora de Portugal, como Ulisses penitente buscando a sua Ítaca, foi encontrá-la em Paris.
As Córnio fechavam, o jovem França morria, nascia o especialista em arte. O fato cinzento que vestia Portugal entrava em guerra, enlutando o país e bloqueando a modernidade… até à inteira madrugada em que de novo o espírito das Córnio saiu à rua, em 25 de Abril de 1974». In Miguel Real, Fontanelas, 23 de Agosto de 2006

Conversa com José Régio. Post-facio a toda a obra ou de par ma chandelle verte
Este é o último número duma revista que falhou. Eu explico.
O Unicórnio foi publicado em 1951, e pensava eu então em fazer sair de três em três meses um número; ou só três por ano, ou apenas dois, como depois fui levado a projectar. Ao fim de quase seis anos, saíram cinco números. Nem anual foi. Ao mesmo tempo, outras revistas foram aparecendo e desaparecendo em números mais baixos, a maior parte delas. Escusado será dizer que nenhuma consolação tiro desse facto, mas dele tenho que tirar ajuda para a lição que veremos. Dizia eu que esta revista falhou. Tive, nisso, inevitáveis culpas, é claro. Mas muitas não as tive eu, e outras, embora as tivesse tido, não serão minhas. As primeiras conheço-as mal. Má direcção? Naturalmente, sim. Demasiada ambição? Isso com certeza.
A demasiada ambição que foi um defeito confessado, vai porém de mim para os outros, e finalmente assenta nos colaboradores da revista. Escolhi os que escolhi e dentro das amplas, livres e actuais opiniões europeias que se pretendia propor e discutir, poucos escolhíveis ficaram de fora destas trezentas e tantas páginas publicadas. Não me queixo, evidentemente nem de uns nem de outros, mas dos terceiros, daqueles que não podiam caber na revista. Porque se eles pudessem ali caber seriam mais e suficientes os primeiros, e a revista não acabaria». In José Augusto França, Inicórnio, Etc., Mostra Documental, 2006-2007, Apresentação de Biblioteca Nacional, 2006, A década de 50 e as Córnio, Miguel Real, ISBN 978-972-565-413-2.

Cortesia da BNP/JDACT

sexta-feira, 11 de julho de 2014

Urbanismo e Arquitectura. Lisboa. José Augusto França. «… o rei José I fará construir, ainda junto do Paço da Ribeira, um teatro de ópera, traçado por um arquitecto bolonhês, da família Bibiena: coroava-se assim a lenta evolução do gosto da corte agora adepta do bel-canto»

Cortesia de wikipedia e jdact

A Cidade Manuelina e Filipina
«(…) A pequena capela do rei Manuel I foi ampliada para o efeito e chegou a ter três naves, oito altares e uma profunda capela-mor, tudo enriquecido e decorado em talha que a influência romana desde cerca de 1725 modificara. Esta igreja magnífica, chefiada em 1737 por um cardeal com sacro colégio, e o Paço da Ribeira também ampliado, com uma nova ala paralela ao rio e uma famosa Torre do Relógio, tudo em luxuosa decoração aqui laicamente francesa, por várias vezes teve concorrência, no espírito do rei, de outros planos, de uma basílica talvez em Buenos Aires, em 1715, ou, trinta anos mais tarde, nas alturas da Cotovia, pensando então o arquitecto Ludovice num edifício que pudesse rivalizar com S. Pedro de Roma. Ludovice tinha construído para João V o grande complexo de igreja-convento-palácio de Mafra, monumento maior que o reino, com primeira pedra posta em 1717 e obra adiantada cerca de 35, mas em 1719 o rei tinha feito vir um arquitecto de Turim, Juvara, para estudar um outro complexo, não se sabe onde, magníficos edifícios de palácio e igreja dignos da riqueza nacional, ou apenas real, projectos esboçados mas abandonados, mais pela demora da sua execução que pelo custo elevadíssimo, ao que se pretendeu.
Assim, durante o seu reinado, até ao exacto meio do século, João V cristalizou os seus sonhos sumptuosos no próprio palácio real, mas sem saber ao certo onde eles teriam local apropriado, entre o Terreiro do Paço já tradicional e alturas ainda rústicas da cidade, extra-muros. Aliás, para ocidente, ao alto de Alcântara, ele fizera edificar outro conjunto de igreja-palácio e hospício para os Oratorianos, as Necessidades (arquitecto Caetano Tomás Sousa), elevado até 1750, e já antes (1725) comprara uma casa de quinta em Belém, ali reedificando um palácio, com embelezamento dos jardins. Já após a sua morte, o rei José I fará construir, ainda junto do Paço da Ribeira, um teatro de ópera, traçado por um arquitecto bolonhês, da família Bibiena: coroava-se assim a lenta evolução do gosto da corte agora adepta do bel-canto, com consequências na arquitectura, que passou dos pateos espanhóis às salas de ópera italianas, em estruturas diferenciadas que os cuidados exteriores revelavam também. A sumptuosa Ópera do Tejo durou, porém, apenas meia dúzia de meses, em 1755, desaparecida, como foi, no terramoto desse ano.
Entretanto, alguns conventos (Arroios, Rilhafoles) foram construídos em Lisboa, muito menos, no entanto, que em Seiscentos, e também as igrejas foram pouco numerosas, desde o Menino Deus, começado em 1711 e sagrado em 37, em baixo das muralhas da Alcáçova, até Santa Isabel, mais banal, que marcou, em 1741, uma única nova freguesia, adiante do Rato. Ao mesmo tempo, porém, muitos templos receberam benefício de azulejos e talhas de altar, ao novo gosto italianizante, e foi o caso da própria , de S. Vicente, dos Paulistas, de S. Domingos, até à aventura final de João V: a magnífica capela de S. João Baptista em S. Roque, encomendada a Vanvitelli e instalada em 1751, já falecido o monarca. Sempre um gosto de interiores, de que a cidade só gozava indirectamente, não deixava de intervir na sua imagem mental, definindo assim a mais autêntica cidade joanina. Esta não descuidava, porém, a edificação de palácios de fidalgos da Corte, espalhados pela cidade ou seus arredores (Cunhas-Olhão no Combro, como os Sousas-Palmela, Barbacenas no campo de Santa Clara, como os Almeidas-Avintes, num palácio desejado pelo primeiro cardeal-patriarca de Lisboa para um seu herdeiro, ao mesmo tempo que engrandecia o seu Paço de veraneio, da Mitra, ao Beato, Unhões em Xabregas, um Pimenta no campo Grande, outros da Junqueira a Belém, zona em favor desde os princípios do século), mas, embora mais cuidados que os do século anterior, não impressionavam favoravelmente os estrangeiros. Um destes viajantes comentara (em 1738) que o mal estava no despropósito de as casas não seguirem os planos durante a construção, aceitando ocasional conselho de curiosos, num jeito antigo que perdurava mesmo em tempos de fausto aparente.
Traçadas pelo arquitecto de Mafra, seu proprietário, ou por Mardel, arquitecto húngaro imigrado, duas casas nobres marcam, todavia, especial relevo neste período: a casa Ludovice, em S. Pedro de Alcântara (1747) e já a de Lázaro Leitão, na Junqueira, 1734, edificações de uma burguesia de funcionários ou nobreza de toga e clerical, com mais exemplos (Corte-Real, na Junqueira, Mitelo, a Santa Clara). Pelo contrário, outro palácio nobre, de grande porte e novidade, dos Taroucas, vindo do fim de Seiscentos (arquitecto João Antunes), eternizou-se em obras sem fim que dariam novo nome ao sítio da Cotovia. Outras obras ainda marcaram cuidados de João V pela cidade, e logo um enorme cais estudado desde os anos 30 e com uma proposta colossal em 1742, implicando aterro da zona ribeirinha, de modo a definir uma longa linha direita cujas superfícies conquistadas ao rio se encheriam de edifícios, com uma rua direita e um passeio público. Houve também então a remodelação monumental da Fábrica da Pólvora, o alargamento da ponte de Alcântara, que uma estátua de S. João Nepomuceno passou a ornar, em 1744, terceiro monumento público, depois das populares estátuas seiscentistas de Apolo, no Terreiro do Paço, e de Neptuno, no Rossio, com suas fontes». In José Augusto França, Lisboa. Urbanismo e Arquitectura, Director da Publicação Álvaro Salema, Instituto de Cultura e Língua Portuguesa, Oficinas Gráficas da Livraria Bertrand, série Artes Visuais, Instituto Camões, 1980.

Cortesia de ICamões/JDACT

Urbanismo e Arquitectura. Lisboa. José Augusto França. «João IV, com engenheiros militares (sobretudo franceses), mandou rodear Lisboa de uma nova cerca defensiva com 32 e depois só 16 baluartes: a sua linha de cortinas, nunca terminada, ia de Santa Apolónia (onde restam os bastiões desse nome e da Cruz da Pedra»

Planta de 1650
Cortesia de wikipedia e jdact

A Cidade Manuelina e Filipina
«(…) Inaugurado só em 1629, e ainda longe de estar acabado, S. Vicente deve a sua traça a Terzi, ao que se supõe, com possível ingerência de Herrera; Santa Engrácia, através de campanhas sucessivas de obras, é a partir de 1682 que, com planos de João Antunes, definitivamente se caracteriza, embora tivesse ficado inacabada até ao século XX. S. Vicente é uma obra maneirista de grande importância, com influência serliana, e será modelo lisbonense pelos séculos XVII e XVIII; Santa Engrácia é uma obra de grande riqueza estrutural com a sua planta em cruz grega e a sensibilidade borrominesca mais contemporânea que se manifesta, de modo único, nas suas fachadas e na notável espacialidade interna. Mas outras igrejas, recentes ou mais antigas, tiveram então novas decorações de talha dourada que, cerca de 1675, apresentaram uma nova estrutura, no estilo nacional de notável retórica barroca. Ligada a um novo gosto de painéis de azulejo historiados e emoldurados conforme modelos de gravuras em curso internacional, a talha seiscentista marca em Lisboa uma nova imagem decorativa cuja riqueza não tem paralelo na arquitectura laica. Trazidas pelos espanhóis, as representações teatrais impuseram, também, nos Pátios das Arcas e das Fangas, na Baixa, uma arquitectura meio precária de sala de espectáculos que inovaram nos hábitos da cidade a eles rapidamente rendidos, tal como se renderam a outro hábito, sumptuário, de circular em coches, que passaram a perturbar o trânsito de ruas estreitas não preparadas para tal moda, que, porém, se impôs, apesar de uma proibição passageira em 1626 e de um condicionamento em 72, dada a importância do sinal social que acarretavam.
As ruas de Lisboa mantinham a sua definição medieval, com uma ou outra inovação: a Rua Nova do Almada, aberta em 1665 para dar passagem a poente ao já animado bairro de Santa Catarina (Chiado), entre os conventos do Espírito Santo e da Boa Hora, o desdobramento, para benefício do trânsito, da Rua Nova da Palma em 1673, o alargamento da importante rua dos Ourives da Prata, em 1681, que ficou com mais de nove metros de largura mesmo na parte mais estreita, o alargamento de dez portas e postigos da cerca antiga e sempre respeitada. Se em 1673 a rua Nova da Palma era considerada uma das principais serventias da cidade, dando sobre a porta do seu nome, em 1620 as portas de Santo Antão, de S. Vicente, da Cruz (no ângulo sueste da cerca) e da Esperança (no ângulo oposto) eram dadas como entradas principais, por onde passavam diariamente mantimentos e comércio geral, ou seja, grosso modo, 35 por cento vindo do Norte, 40 por cento de Leste e 25 por cento da banda ocidental e ribeirinha.
Durante o século só duas freguesias se formaram, por desdobramento de outras: as Mercês e S. Sebastião da Pedreira, esta especialmente significativa por traduzir um povoamento mais cerrado para norte da cidade. Em 1650, João Nunes Tinoco tirou a primeira planta geral da cidade cuja cópia chegou até nós. Limita-a ainda a cerca fernandina, mas o extravasamento é visível a poente, com a quadrícula do Bairro Alto, e a nascente, pela Mouraria e Santa Clara, e é um dédalo de ruas, tecido vermicular onde só abrem clareiras o Terreiro do Paço e o Rossio, ou as encostas inóspitas do Castelo e as terras dos frades de S. Francisco da Cidade. Então, e dois anos depois, João IV, com engenheiros militares (sobretudo franceses), mandou rodear Lisboa de uma nova cerca defensiva com 32 e depois só 16 baluartes: a sua linha de cortinas, nunca terminada, ia de Santa Apolónia (onde restam os bastiões desse nome e da Cruz da Pedra) até Alcântara (onde ficaram os do Sacramento e do Livramento ou das Necessidades), e passava pelos Prazeres, Alto do Carvalhão, Campolide, Estrela, Cotovia, S. José, Capuchos e Senhora do Monte, deixando ou não vestígios, como aconteceu a ocidente, na Junqueira, com os baluartes de S. Paulo e de S. João. As guerras da Restauração findaram, porém, e as obras foram abandonadas e esquecidas na época mais amena que se seguiria.

A Cidade Joanina
O rei João V subiu ao trono em 1706 e cedo se dedicou à sua capital, contando com a miraculosa riqueza aurífera que desde o fim de Seiscentos entrava no País, vinda do Brasil, e com a paz garantida em Utreque, em 1713, que o libertava da política austríaca e lhe abria o caminho da França que, com o de Roma, irão polarizar as influências artísticas e culturais recebidas pelo seu reinado. Mas a capital de João V era, antes de mais, o seu paço e, mais do que este, a capela real, paroquial em 1709, colegial em 10, patriarcal em 16, sede de nova diocese da meia Lisboa ocidental». In José Augusto França, Lisboa. Urbanismo e Arquitectura, Director da Publicação Álvaro Salema, Instituto de Cultura e Língua Portuguesa, Oficinas Gráficas da Livraria Bertrand, série Artes Visuais, Instituto Camões, 1980.

Cortesia de ICamões/JDACT

Urbanismo e Arquitectura. Lisboa. José Augusto França. «… o convento do Rato, este num largo que, longe da cidade murada, era já uma importante placa distribuidora para os arrabaldes. … Duas igrejas marcam o princípio e fim da arquitectura Seiscentista de Lisboa: S. Vicente de Fora, cerca de 1580, e Santa Engrácia, cem anos depois»

Cortesia de wikipedia e jdact

A Cidade Manuelina e Filipina
«(…) Em 1527 o bairro contava já 408 fogos (cerca de 1600 habitantes) e, em 1554 ou 55, o Sumário de Cristóvão Rodrigues já mencionava cinco ruas traçadas no sentido Norte-Sul e duas no sentido Nascente-Poente, na freguesia do Loreto; a malha virá a adensar-se, mas respeitando o traçado fundamental de então. Uma planta de 1650 nos mostrará o bairro perfeitamente desenhado, a noroeste da cidade; e, pela mesma altura, um cronista da Companhia, dirá que ele era uma bastante cidade, de ruas belas, o mais gabado da cidade, com os seus edifícios grandiosos e mui nobres, de traça moderna e romana, em tudo dignos de fidalgos ilustres que passavam a habitá-lo. O Bairro Alto marca a passagem do século XVI para o XVII na vida urbana de Lisboa, e a aquisição de uma consciência urbanística e arquitectónica que ao longo de Seiscentos se processou, a partir e em grande parte graças à ocupação espanhola que trouxe à capital portuguesa a influência da civilização castelhana no momento em que nela se desenvolvia a grande arquitectura do Siglo d’Oro. Depois de 1640, o movimento continuou dentro do espírito adquirido, até inícios de Setecentos, quando se verificará uma clivagem cultural no País.
Filipe II, I de Portugal, apressou-se a vir tomar posse da nova coroa dos Áustrias, e logo em 1581 passou ano e meio em Lisboa, recebido com os primeiros arcos de triunfo de uma arquitectura de festa maneirista, elevados no Terreiro do Paço, sítio de festejos, de procissões e autos-de-fé, de touradas, de mercado também. Logo ali Filipe II desejou transformar o paço manuelino numa habitação régia condigna e para isso empregou um arquitecto e engenheiro militar bolonhês estabelecido em Portugal desde 1577, Filippo Terzi, com quem Herrera, o grande arquitecto do Escorial, se entendeu, ficando como muito provável orientador da obra. Esta consistiu, principalmente, num maciço mas elegante torreão quadrangular (o torreão de Tércio) com 15 a 20 metros de lado, cúpula e lanternim, edificado na extremidade do pavilhão manuelino, cujo corpo sofreu também enorme modificação monumentalista, passando a ocupar toda a face poente do Terreiro. Em 1619, quando da visita de Filipe III a Lisboa, esta parte da obra estava terminada e rapidamente se inseria na imagem da cidade, como mais evidente sinal de uma modernidade marcada pelo maneirismo e pelo barroco austero.
Perto, para poente e ainda sobre o rio, o valido português do invasor, feito marquês de Castelo Rodrigo, elevou também um palácio de grande qualidade, dito de Corte-Real (do proprietário do terreno, sogro do edificador), com as suas duas alas de 37 metros perpendiculares ao Tejo, cobertas de terraços, e os seus 185 quartos e dezoito salões reais. Era certamente um dos mais magníficos» palácios de Lisboa, a que respondia a enorme massa do palácio Bragança, sobrepujando-o, ao alto do monte de S. Francisco. Outros palácios, em grande número, foram então construídos em variados sítios, muitas vezes fora de portas, durante ou depois da ocupação espanhola, como o dos futuros Abrantes, que fora o Paço de Santos, o dos Távoras no Campo Pequeno, já longe da cidade, tal como o dos Fronteiras, em S. Domingos de Benfica, o dos Arcos em Alfama, os dos Ericeiras, dos Redondos, dos Castelos-Melhor e dos Almadas, a Valverde, o dos Marialvas a Santa Catarina, o dos Soures no Bairro Alto, o dos Alegretes na Mouraria, o casarão dos Tancos na Costa do Castelo, o dos Óbidos e o dos Alvores às Janelas Verdes, e até um paço real em Alcântara, sem grande relevo, e um Paço da rainha-viúva de Inglaterra, filha de João IV, na Bemposta, da melhor arquitectura da época. Outra série diz respeito a conventos, uma vintena (21, entre enumerações de 1554 e de 1620, mais 44 até 1745 quando somarão 87 na cidade e seu termo, e mais em Lisboa do que em todo o reino, afirmava-se em 1651), incluindo as grandes casas de S. Bento da Saúde e dos jesuítas de Santo Antão, e ainda os Paulistas, as Trinas e o convento do Rato, este num largo que, longe da cidade murada, era já uma importante placa distribuidora para os arrabaldes, de que dependerá o urbanismo futuro desta parte ocidental da cidade. Trata-se de construções ou de reconstruções ampliadas, dentro do esquema de enriquecimento das Ordens, mas toda esta quantidade de construção não correspondeu a uma qualidade real que nos grandes casarões monásticos ou seculares se satisfazia com pouco, e geralmente só com o portal nobre. Duas igrejas marcam, porém, o princípio e fim da arquitectura Seiscentista de Lisboa: S. Vicente de Fora, cerca de 1580, e Santa Engrácia, cem anos depois». In José Augusto França, Lisboa. Urbanismo e Arquitectura, Director da Publicação Álvaro Salema, Instituto de Cultura e Língua Portuguesa, Oficinas Gráficas da Livraria Bertrand, série Artes Visuais, Instituto Camões, 1980.

Cortesia de ICamões/JDACT

domingo, 22 de junho de 2014

Lisboa. Arquitectura e Urbanismo. José Augusto França. «… foi a lenta criação de um bairro novo, definido a par das muralhas ocidentais e ao longo delas, desde o rio até ao ângulo de Noroeste, e acima deste, para a Cotovia. Trata-se da ‘Vila Nova de Andrade’, ou ‘Bairro Alto de S. Roque’. Todo o sítio fora propriedade do mestre Guedelha Palançano»

Cortesia de wikipedia e jdact

A Cidade Manuelina e Filipina
«(…) De resto, outros conventos e igrejas se ergueram no século XVI, poucos já dentro da cidade (a Graça reconstruída, como o Espírito Santo), vários não longe dela, pelo exterior (Anunciada, S. Roque, Sant’Antão, Esperança, igrejas do Loreto, de Sta. Catarina do Monte Sinai), outros mais distantes (Santos-o-Novo, já desde fins do século XV, Madre de Deus, Chelas, Odivelas, S. Domingos de Benfica, S. Francisco de Xabregas, Capuchos, os Jerónimos). Em meados do século, Lisboa, grande metrópole à escala europeia» (Oliveira Marques), contaria cerca de 80 mil habitantes, com 432 ruas e travessas, 89 becos, e 62 postos que viriam a evoluir do seu estatuto de meio rural para sítios e depois bairros, conforme um Sumário (das) Coisas (…) de Lisboa, de Cristóvão Rodrigues Oliveira publicado em 1554 ou 55, e que é uma das primeiras descrições estatísticas da cidade que se conhecem. De meados para fins de Quinhentos, por desdobramento (quer dizer por aumento de população fixada), definiram-se doze freguesias além das vinte e três existentes já no século XIII.
Mas outra descrição da cidade foi publicada em 1554: Urbis Olisiponis Descriptio, de Damião de Góis, em 1554. Este humanista distinguia então em Lisboa sete monumentos principais: a Misericórdia, o Hospital do Rossio e os Estaos, os armazéns do trigo, os das Casas da Mina e da Índia, a Alfândega e o Arsenal, a que atribuía magnificência e sumptuosidade Inacreditáveis, adjectivos que, aliás, empregava também, juntamente com elegante, sobre muitas das construções, quer de pessoas principais e nobres, quer de particulares», e alguns conventos. Contrariamente, dois embaixadores de Veneza, em 1580, achavam que todas as casas dos Senhores, mesmo as maiores, eram construídas com pouca regularidade e sem carácter arquitectónico e não mereciam consideração quanto à matéria. Já em 1571, aliás, Francisco de Holanda lamentava que a Lisboa falecessem monumentos condignos. Uma excepção, porém: a casa ribeirinha dos Bicos, do herdeiro de Afonso de Albuquerque, de gosto italianisante, já no primeiro quartel do século.
Outra documentação, de carácter gráfico, foi abundantemente devida a autores estrangeiros, S. Munster (Basileia, 1541) e G. Braunio (Colonia, 1572 e 93), que, sobretudo o último, puseram nas vistas panorâmicas que editaram cuidados de informação que permitem uma ideia de conjunto ou de massa da cidade de então. O flamengo S. Beninc, em outra vista desenhada em 1530-34, representava também a margem do rio e já punha nela os Jerónimos e a Torre de Belém. Estes monumentos, tal como a Madre de Deus e a Misericórdia, exprimem um estilo que, contemporâneo do período dos Descobrimentos, a eles se ajustou, com interpretação simbólica, em termos românticos, o manuelino, referido ao seu construtor, o rei Manuel I. A Oeste, a caminho da barra, ou a Leste, as três igrejas e a bonita torre defensiva à beira-rio enriqueceram a cidade do princípio de Quinhentos com edifícios sumptuosos nos seus lavores de pedra, que marcaram uma época na história da arquitectura portuguesa, em Lisboa especialmente expressa. Lisboa cujos limites ribeirinhos a nascente e a poente ficavam assim marcados pela Madre de Deus e pelos Jerónimos.
Mas, mais importante que estes monumentos pontuais, para a vida da cidade e para o seu processo urbanístico, foi a lenta criação de um bairro novo, definido a par das muralhas ocidentais e ao longo delas, desde o rio até ao ângulo de Noroeste, e acima deste, para a Cotovia. Trata-se da Vila Nova de Andrade, ou Bairro Alto de S. Roque, cuja edificação regularizada se realizou desde os princípios de Quinhentos e ainda pelo século seguinte, conforme estatutos sociais sucessivos. Todo o sítio fora propriedade de um astrólogo e cirurgião judeu, valido dos quatro primeiros reis da dinastia de Avis, mestre Guedelha Palançano, cuja viúva, perante as perseguições à sua colónia realizadas nos fins de Quatrocentos por Manuel I, se viu levada a vender as terras a dois fidalgos da corte. Os herdeiros destes entenderam-se de modo que um deles, Bartolomeu Andrade, cuja família já tivera casa nobre, a S. Pedro de Alcântara, decidiu em 1513 uma larga operação de loteamento logo posta em prática, a partir do rio. Tratou-se, a princípio, de um caseamento algo irregular e modesto, destinado a habitação de artesãos e marinheiros, gente ligada à expansão marítima, que se multiplicava e não tinha já pouso na cidade, sobretudo após o terramoto de 1531 que a terá grandemente prejudicado. A edificação foi rápida, açodada por multas se ela tardasse mais de três anos, e ocupou uma primeira zona, até à meia encosta marcada pela via que saía das Portas de Santa Catarina descendo pelo Combro a caminho da Horta Navia. Acima dessa linha, num aclive mais suave, pela altura de S. Roque até à Cotovia, onde os Andrades tinham casa, outra urbanização se processou, de maior standing, envolvendo já palácios e casas nobres, ao fim do século e em Seiscentos ainda (casas dos Ericeiras, Soures, Lumiares, Minas). Registe-se que, em 1553, os Jesuítas vieram instalar-se junto à cerca, no limite das terras dos Andrades, e o seu renome e influência contribuíram sem dúvida para a nobilitação da Vila Nova transformada em Bairro». In José Augusto França, Lisboa. Urbanismo e Arquitectura, Director da Publicação Álvaro Salema, Instituto de Cultura e Língua Portuguesa, Oficinas Gráficas da Livraria Bertrand, série Artes Visuais, Instituto Camões, 1980.

Cortesia de ICamões/JDACT