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domingo, 30 de agosto de 2015

A Doença e as Mortes dos Reis e Rainhas na Dinastia de Bragança. José Barata. «João IV é descrito pelos seus biógrafos como de estatura mediana, de rosto cheio e corado, ornado de barba loura, mais clara que o cabelo, e salpicado de cicatrizes de varíola que contraiu por volta dos 15 anos»

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«(…) João foi capciosamente aceitando tais incumbências, e simultaneamente consolidando o poderio da sua casa com valiosas mercês outorgadas por Filipe IV. Terá constituído uma profunda surpresa para Castela a adesão de João à causa dos conjurados, ficando por esclarecer a estratégia do duque, entre prudente e ambígua, mantendo a sua reserva na aceitação da coroa até meados de Novembro de 1640. O apoio de dona Luísa Gusmão à decisão do marido é consensual nas diferentes fontes históricas sendo, contudo, relegada para o domínio da lenda a sua épica frase antes viver reinando que acabar servindo, que a história, de facto, não regista. Consumada a restauração da independência, a 1 de Dezembro de 1640, com a lendária defenestração de Miguel Vasconcelos e a prisão da duquesa de Mântua, o 8.º duque de Bragança é aclamado rei de Portugal a 15 de Dezembro seguinte, sob o nome de João IV, inaugurando, assim, a última dinastia de Portugal.
João IV é descrito pelos seus biógrafos como de estatura mediana, de rosto cheio e corado, ornado de barba loura, mais clara que o cabelo, e salpicado de cicatrizes de varíola que contraiu por volta dos 15 anos. Nada mais é assinalado sobre a saúde do rei até Dezembro de 1654, altura em surgem os primeiros sintomas da doença que o levaria à morte, cerca de dois anos depois. O rei sofre um episódio de retenção urinária, de provável etiologia obstrutiva, descrito pelo seu médico pessoal, Francisco Morato Roma, de forma elucidativa: … estando el-rei nosso senhor João IV, nos campos de Salvaterra, numa madrugada de Dezembro à caça, e depois de alguns dias de exercício, a pé e a cavalo, lhe sobreveio uma repentina e total supressão de urina. Deu conta aos médicos, que palparam e tentaram as vias da urina e acharam que a supressão era superior, porquanto na bexiga nem na uretra havia urina detida. Começaram a aplicar remédios e, como não bastassem, suposto que não havia febre nem dor, o sangraram por haver enchimento nas veias. Não bastaram estas evacuações para desembaraçar as vias da urina, passaram a banhos e cozimentos de ervas apropriadas em que se banhava de manhã e à tarde. Estando no banho tomava remédios diuréticos, assim em bebidas como em substância, quintas essências e outros de grande eficácia. Ajuntaram-se os médicos da câmara real, que eram sete, concordaram todos assim no conhecimento do achaque, como na aplicação dos remédios. Passaram-se neste aparato quatro dias e como nestes casos o prognóstico é de pouca esperança, tratou-se de acudir a Deus. Comungou sua majestade, fizeram-se preces, vieram relíquias, continuando-se os remédios com muito cuidado.
Ao 5º dia se assentou entre os médicos tomasse as pílulas de aço. Levantou-se sua majestade, tomou cinco pílulas, que teriam meia oitava de aço, passeou meia hora, recolheu-se, descansou e nisto pediu retrete. Tomou o urinol, lançou quantidade de uma onça de urina, com a qual saiu um limo de fleima, coisa pequena, e trazia consigo envolta uma pedrinha branca da figura e tamanho de uma pevide de limão pequeno. Foi continuando a urinar em tanta cópia que naquele dia e no outro lançou três canadas e no dia seguinte outro tanto. No quarto dia tornou a natureza o seu curso ordinário. Nos dois anos seguintes, não dispomos de informação sobre a evolução da saúde do rei João IV. A 4 de Outubro de 1656, surge novo episódio de retenção urinária que lhe seria fatal, ao fim de duas semanas de sofrimento». In José Barata, A Doença e as Mortes dos Reis e Rainhas na Dinastia de Bragança, Verso da Kapa, Lisboa, 2012, ISBN 978-989-840-654-5.

Cortesia de Verso Kapa/JDACT

domingo, 10 de maio de 2015

A Doença e as Mortes dos Reis e Rainhas na Dinastia de Bragança. José Barata. «João vivendo tranquilamente no recato do seu couto, não era alheio ao ambiente político do tempo, marcado pela dominação espanhola do reino de Portugal, na pessoa de Filipe IV de Espanha (III de Portugal). A defesa do seu imenso património…»

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«(…) O embalsamamento pré-tumular foi regularmente praticado nos reis da dinastia de Bragança a partir do século XVIII, procedendo-se, nalguns casos, ao concomitante estudo necrótico. Infelizmente, os raros relatórios de autópsia que chegaram aos nossos dias constituem, salvo raríssimas exceções, meros exercícios de anatomia básica, estruturados de forma empírica, não permitindo obter conclusões substantivas sobre as entidades nosológicas subjacentes. As primeiras décadas do século XX foram férteis em estudos nosográficos de personagens régias das quatro dinastias.
Ricardo Jorge dissertou sobre o óbito de João II, Pires Lima sobre a doença de Afonso VI, Cabral Sacadura sobre o parto mortal de dona Maria II, Júlio Dantas sobre a apoplexia de José I e, por último, Montalvão Machado arrisca um trabalho de fôlego procurando aclarar as causas de morte da totalidade dos reis portugueses. Embora provenientes de inquestionáveis figuras da medicina portuguesa, tais estudos pecam, em regra, pelo excesso de certezas, em consonância com a postura afirmativa que caracterizava o pensamento médico de então, convergindo, invariavelmente, as hipóteses de diagnóstico nos grandes grupos nosológicos com os quais os autores estavam mais familiarizados. Apesar de muitas destas hipóteses apresentarem razoável credibilidade, jamais poderão ser subscritas com carácter indiscutível, tendo em conta a subjectividade das fontes documentais, quantas vezes produzidas por pessoas sem qualquer formação clínica, e não raro orientadas por nexos de causalidade estranhos à medicina científica.
Não se pretende, no presente texto, sugerir diagnósticos definitivos a partir da documentação estudada e apresentada. Se alguns relatos poderão ser elucidativos quanto à etiologia de determinado quadro clínico, outros são suficientemente latos para suscitar múltiplas conjecturas diagnósticas. O estudo da doença e das mortes na dinastia de Bragança, que teve a pretensão ser exaustivo, visa, acima de tudo, proporcionar uma perspectiva evolutiva do conhecimento médico em Portugal no decurso de um amplo período histórico, crucial para a história da ciência no mundo ocidental, que se estende desde o pré-iluminismo até à idade moderna.

João IV, o Restaurador (1604-1656). Reinou de 1640 a 1656
Nascido duque de Bragança, em 1604, em plena ocupação filipina, deve o seu reinado, tal como João I, à conjuntura histórico-política do seu tempo. Herdeiro da mais opulenta casa senhorial portuguesa, a Casa de Bragança, estava João destinado a governar um domínio único em património e privilégios, que embora sedeado em Vila Viçosa, abarcava um terço das terras do reino. O seu quotidiano pacato decorria entre a gestão dos bens patrimoniais, as caçadas, os ofícios religiosos e a música, que cultivou com paixão e mestria. Mesmo vivendo longe do círculo aristocrático da corte, e apesar de pouco propenso ao estudo das letras, recebeu de seu aio, Diogo Melo, esmerada educação. Com Jerónimo Soares aprendeu latim e teologia, e com o súbdito inglês Robert Tornar, que seu pai contratara para mestre da capela de Vila Viçosa, estudou composição musical.
João vivendo tranquilamente no recato do seu couto, não era alheio ao ambiente político do tempo, marcado pela dominação espanhola do reino de Portugal, na pessoa de Filipe IV de Espanha (III de Portugal). A defesa do seu imenso património, potencialmente ameaçado pela soberania estrangeira, constituía uma preocupação legítima, já herdada de seu pai, o duque Teodósio, falecido em 1630. O contrato de casamento do duque de Bragança, futuro João IV, com dona Luísa Gusmão, oriunda do ducado andaluz de Medina-Sidónia, em 1633,constituiu um estratégico acordo entre partes, importante para Filipe IV, que assim pensava segurar a fidelidade dos poderosos Braganças, e apelativo para João que esperava manter os seus ancestrais privilégios, no seio da monarquia ibérica. Na mesma óptica aproximativa, Filipe IV, através do seu valido conde-duque de Olivares, parente de dona Luísa Gusmão, foi-se insinuando junto do duque de Bragança, incumbindo-lhe missões pacificadoras junto de alguma nobreza alentejana descontente com a carga fiscal imposta por Castela, e nomeando-o, menos de dois anos antes do 1º de Dezembro, Governador-Geral das Armas de Portugal». In José Barata, A Doença e as Mortes dos Reis e Rainhas na Dinastia de Bragança, Verso da Kapa, Lisboa, 2012, ISBN 978-989-840-654-5.

Cortesia de Verso Kapa/JDACT

quarta-feira, 6 de maio de 2015

A Doença e as Mortes dos Reis e Rainhas na Dinastia de Bragança. José Barata. «A doença do rei era institucionalmente assumida como matéria de interesse publico, os seus estados mórbidos mereciam edição destacada na ‘Gazeta de Lisboa’»

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«A morte do rei constituiu, em todos os tempos, um fenómeno de grande impacto social e político, sobretudo se ocorria em circunstâncias trágicas ou se punha em risco o curso da história, como aconteceu nos casos de Sebastião I ou de Carlos I. A medicina prestou sempre grande atenção às figuras reais, sendo convocados os médicos mais conceituados do reino sempre que a doença ameaçava a integridade do monarca. Em cada época, os clínicos deram o seu melhor para mitigar o sofrimento da família real, com recurso às mais avançadas terapêuticas disponíveis, sendo pontualmente requisitada a colaboração de eminentes figuras médicas estrangeiras, quando se suspeitava da insuficiência científica dos clínicos nacionais. A dinastia de Bragança reinou em Portugal durante quase três séculos, entre 1640 e 1910, e por ela passaram 14 cabeças coroadas de ambos os sexos. Apanhada na transição da monarquia tradicional para os modelos liberais emanados da revolução francesa, a última casa reinante procurou adaptar-se à mudança, num percurso político-social conturbado, que incluiu massacres, revoluções, guerras civis, exílios e regicídios, tentado e consumado. Talvez por isso o espectro do sofrimento tenha estado sempre tão presente no seio desta família. A mortalidade infanto-juvenil marcou presença dramática e constante na marcha genealógica da dinastia. A morte precoce ceifou a vida à maioria dos varões primogénitos, príncipes herdeiros por direito, impedindo-os de atingir o trono. É a lendária Maldição dos Bragança, um tenebroso anátema lançado à família real por um frade mendicante a quem João IV terá recusado esmola. Apesar dos desvelados cuidados médicos de que foram alvo, apenas três monarcas brigantinos ultrapassaram os 60 anos de idade, atestando as conhecidas limitações da medicina de então. Os grandes flagelos da época como a sífilis, a tuberculose e a febre tifóide, mas também a patologia vascular cerebral, a loucura e a morte violenta atormentaram a última dinastia, cujo trono ruiu há 100 anos, como consequência indirecta do trágico fim do seu penúltimo caudilho. A doença do rei era institucionalmente assumida como matéria de interesse publico, pelo que os boletins clínicos relatando os seus estados mórbidos mereciam edição destacada na Gazeta de Lisboa. Tais registos representam hoje preciosos documentos para o estudo da história da medicina portuguesa.
A saúde da família real, enquanto assunto de estado, constituía também preocupação diplomática. A correspondência entre a corte e os embaixadores de Portugal acreditados nas diversas capitais da Europa de então, proporciona interessantes detalhes sobre a saúde do rei e da sua família. Reciprocamente, também as delegações estrangeiras representadas em Lisboa se apressavam a informar os seus governos, sempre que algum contratempo perturbava o bem estar do rei ou de algum importante membro da corte. Alguns médicos da real câmara tiveram a preocupação de editar para a posteridade curiosos e detalhados registos das observações clínicas e das terapêuticas aplicadas aos seus régios pacientes, recheados de pitorescos conceitos fisiopatológicos e de bizarros princípios farmacológicos, tão típicos da medicina pré-científica. A análise crítica, à luz documental, dos padecimentos dos diferentes monarcas de Bragança e das suas causas de morte confrontam-nos, de forma fascinante, com os mais avançados conhecimentos da medicina portuguesa de cada época, e com a progressiva evolução do saber médico. Se durante os séculos XVII e XVIII pontuam o empirismo da prática clínica e a ingenuidade das concepções nosológicas, no decurso do século XIX é já notória a preocupação com o rigor científico, procurando os clínicos objectivar, de forma racional, o curso da doença e as causas da morte». In José Barata, A Doença e as Mortes dos Reis e Rainhas na Dinastia de Bragança, Verso da Kapa, Lisboa, 2012, ISBN 978-989-840-654-5.

Cortesia de Verso Kapa/JDACT