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sexta-feira, 19 de fevereiro de 2016

Os Trovadores Medievais. José D’Assunção Barros. «Este marido, entrincheirado de dentro do casamento oficial, representa o mundo da ordem contra o qual se insurge a primazia dos sentimentos proposta pelo ‘Amor Cortês’»

Cortesia de wikipedia

O Amor Cortês. Reflexões Historiográficas
«(…) Amor Cortês pode ser apontado como um momento inovador na complexa história humana dos modos de sentir e das suas formas de expressão. A sua emergência através da poesia trovadoresca deixou tão indeléveis marcas no repertório ocidental de possibilidades estéticas de expressar e vivenciar o amor, e na própria imaginação do homem ocidental concernente à temática amorosa, que frequentemente se aponta o despontar dos trovadores medievais no século XII como o instante mesmo da invenção do amor romântico no Ocidente. Em que consistia, antes de mais nada, este Amor Cortês que rapidamente se difundiu na Europa a partir das cantigas dos trovadores do sul da França, das suas próprias vidas, ou dos romances que tiveram na história de Tristão e Isolda o seu exemplo mais extremado e no Lancelote de Chrétien de Troyes a sua exposição mais sistemática? Antes de tudo, conheçamos as personagens fundamentais do Amor Cortês. No centro de tudo, um Amador que se entrega de corpo e alma a uma paixão incontrolável e ao dedicado serviço amoroso da mulher amada. E ela: uma Dama que, aos olhos do amante apaixonado, é a mais bela e perfeita de todas as mulheres. Uma Dama, deveremos acrescentar, que é em geral inatingível, ou por estar espacialmente inacessível (talvez por morar num país distante) ou, quem sabe neste caso um obstáculo ainda mais intransponível, por ser socialmente inacessível. Nesta última situação aparece eventualmente um terceiro personagem: o marido da dama, já que com alguma frequência a mulher eleita pelo trovador provençal ou pelo herói do romance cortês é casada ou comprometida (via de regra com um poderoso senhor feudal). Por fim, as personagens coadjuvantes: em alguns casos um confidente da confiança do trovador apaixonado, e em outros casos os delactores, os aduladores, os intrigantes, os maledicentes da vida amorosa e os bisbilhoteiros, globalmente classificados como losengiers pelas cantigas trovadorescas, que estão sempre prontos a denunciar o caso de amor ou a difamar os seus envolvidos.
Envolvendo tudo, um Amor tão extremado quanto ambíguo, trazendo no mesmo movimento uma indisfarçável carga de erotização e uma dimensão idealizada, ao mesmo tempo em que carrega a mistura dramática que faz com que este amor subtil tanto enobreça e eduque aquele que ama, como o empurre tragicamente em direcção ao sofrimento e até à morte. Completam o conjunto de sentimentos que o Amor Cortês envolve o desejo, maior do que tudo no mundo, mas irrealizável sob pena de que se acabe o próprio amor, e o perigo de que este amor seja descoberto, e que isto acarrete no fim da relação amorosa ou abale a reputação da dama. Todos estes elementos habitam o plano da sensibilidade e, talvez pela primeira vez com tal intensidade, ameaçam trazer o sentimento para um lugar destacado no cenário medieval, acima mesmo da fé religiosa, da razão erudita, do utilitarismo quotidiano. Conclamar uma autonomia dos sentimentos implica naturalmente na possibilidade de uma nova proposta de leitura das relações entre os dois sexos, relações que, do ponto de vista da cortesia, não deveriam ser mais regidas exclusivamente pela força, pelo instinto, pelo interesse, pelo acomodamento entediante.
Não é de se estranhar que o Amor Cortês tenha apresentado, como se verá adiante, uma decisiva faceta antimatrimonial, já que o casamento era precisamente o território da sujeição do feminino pelo masculino, do acomodamento do indivíduo aos interesses sociais e familiares, da tutela religiosa através do sacramento. Daí o papel simbólico do marido ciumento, traído, ou desprezado secretamente pela esposa em favor do amante cortês. Este marido, entrincheirado de dentro do casamento oficial, representa o mundo da ordem contra o qual se insurge a primazia dos sentimentos proposta pelo Amor Cortês. Mas também não se trata de apenas liberar os sentimentos livremente. Amar dentro dos parâmetros corteses pressupõe também um ritual, um sistema de normas e atitudes a serem observadas e aprendidas, uma determinada concepção acerca de como conduzir o sentimento amoroso que adquire viva expressão na poesia dos trovadores. Em primeiro lugar parte-se da valorização suprema da Dama, e da sujeição do poeta à Dama em nome do Amor. Esta sujeição aproveita aqueles ritos políticos e o imaginário feudo-vassálico que orientavam as relações entre os vários componentes da nobreza na Europa Ocidental do século XII. Assim, a relação de entrega do amador à Dama é traduzida em termos das instituições feudo-vassálicas, ocupando a Dama a posição da suserana a quem o poeta deve fidelidade. O já conhecido ritual da Homenagem, que sela o compromisso entre o vassalo e o suserano, é aqui transposto para o Serviço ou para a vassalagem amorosa que o poeta presta à sua Dama. Este conjunto de apropriações leva alguns historiadores a encararem o fenómeno da cortesia dentro de um rigoroso enquadramento feudo-vassálico». In José D’Assunção Barros, A Arena dos Trovadores, 1995, Os Trovadores Medievais e o Amor Cortês. Reflexões Historiográficas, revista Alethéia, UFG, Abril/Maio 2008.

Cortesia de Alethéia/JDACT

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2016

Os Trovadores Medievais. José D’Assunção Barros. «Ela não é a única contribuição do trovadorismo para a cultura medieval e para a história do pensamento do homem ocidental, mas seguramente é a mais impactante»

Cortesia de wikipedia

O Amor Cortês. Reflexões Historiográficas
«(…) Todos estes universos trovadorescos guardam as suas próprias especificidades. Mas existem certas características comuns que tocam todo o grande conjunto de poetas-cantores medievais, como a itinerância de boa parte dos seus participantes ou a oralidade de sua produção. A entender por estes critérios, a cultura medieval contou com uma longa duração de movimentos trovadorescos nas várias partes da Europa (a partir da Idade Moderna esta longa duração desfaz-se num mundo que será progressivamente tomado pelo predomínio da escrita, pela separação entre poesia e música, pela profissionalização mais estabilizadora do artista, e por toda uma série de novas práticas que deixarão o mundo dos trovadores medievais para trás). E, contudo, naquela espécie de longa duração trovadoresca marcada pela itinerância e pela oralidade se inscrevem as durações mais curtas, compreensíveis a partir de um enfoque historiográfico que permite isolar os diversos trovadorismos de acordo com as sociedades que os envolvem. É aqui que surge uma acepção mais restrita para a designação trovadores. Segundo esta, o movimento trovadoresco pode remeter a uma realidade mais específica, como a das cortes régias e senhoriais a partir do século XI, quando a cultura aristocrática assimila a produção poético-musical como uma das suas actividades distintivas. Os historiadores puderam debruçar-se mais especificamente sobre estes trovadores cortesãos que actuaram no Ocidente Europeu entre os séculos XI e XIV porque eles deixaram muitos registos, seja sob a forma de cantigas das quais se conhece a poesia e a música que foram anotadas em grandes códices de manuscritos palacianos, seja sob a forma de relatos acerca das suas vidas que nos foram legados pelos cronistas da época e por textos difundidos pelos próprios trovadores. É frequentemente a este universo trovadoresco mais singular que muitos historiadores se referem quando utilizam a designação trovador.
Assim, esta acepção mais restrita representa uma espécie de recorte, no espaço social e no tempo, dentro da produção trovadoresca mais ampla. Refere-se pois à poesia, popular ou aristocrática, que circulava no meio cortesão, notando-se que desta circulação participavam os mais diversos tipos sociais. Além disso remete a um período que vai do século XI ao XIV, estendendo-se ao século XV em algumas cortes alemãs. É a esta contribuição trovadoresca mais específica que nos referiremos a partir daqui. Tal como foi dito, característica comum à boa parte dos trovadores medievais de que trataremos aqui era a sua itinerância, ainda que esta não deva ser exagerada, já que muitos trovadores se estabeleciam a seu tempo em alguma corte ou região. Ser um meio movente traz uma efervescência especial ao meio trovadoresco. O trovador liga-se por esta afinidade àquelas figuras do cavaleiro andante, do clérigo errante, do mercador e navegante, cada qual um elemento importante no processo de transformação da sociedade medieval a partir do século XI. Ao mesmo tempo, a itinerância punha em contacto todos os trovadores, facilitava as trocas culturais e criava uma grande malha que recobria todo o Ocidente Europeu com o seu tecido de versos e sonoridades.
O grande concerto dos poetas-cantores tinha contudo os seus timbres internos. Para efeito de simplificação, consideremos as cinco principais regiões culturais em termos de produção trovadoresca. A França via-se então dividida culturalmente em norte e sul, daí gerando dois subconjuntos distintos e separados pela linguagem. No sul occitânico o subconjunto provençal dos troubadours, da langue d’oc e da civilização cátara, berço do amor cortês. No norte, os trouvères, cantando na langue d’oil as primeiras canções de gesta. Em torno do vale do Pó, foi mais tardio o movimento dos trovadores italianos, dando origem ao chamado dolce stil nuovo. Na Alemanha, a Minnesang contribuía com a sua versão germânica para o amor cortês (minne = amor subtil) e para outros géneros trovadorescos. Finalmente, o subconjunto dos trovadores galego-portugueses, que unificava através de uma língua poética comum boa parte da Península Ibérica cristã (com excepção de Aragão e da Catalunha, mais ligados ao circuito provençal). Dos cinco subconjuntos destacados, o Provençal pode ser tomado como o grande pólo de irradiação que detonou o trovadorismo de corte. A grande novidade trazida por estes troubadours do sul occitânico (cortes da Provença, Toulouse, região da Catalunha) foi sem sombra de dúvida o Amor Cortês. Explica a sua irresistível difusão por toda a Europa Feudal o facto de que este novo modelo do sentir estava em imediata sintonia com os valores feudovassálicos do seu tempo, com formas apaixonadas de religiosidade que então surgiam, com necessidades sociais interfamiliares que proporcionaram não apenas o surgimento dos trovadores, mas também dos cavaleiros andantes em busca de aventuras e de oportunidades. É esta contribuição mais específica do Amor Cortês que enfocaremos agora. Ela não é a única contribuição do trovadorismo para a cultura medieval e para a história do pensamento do homem ocidental, mas seguramente é a mais impactante». In José D’Assunção Barros, A Arena dos Trovadores, 1995, Os Trovadores Medievais e o Amor Cortês. Reflexões Historiográficas, revista Alethéia, UFG, Abril/Maio 2008.

Cortesia de Alethéia/JDACT