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segunda-feira, 19 de dezembro de 2016

De Goa a Lisboa. 1676-1677. Charles Dellon. José Brandão. «O Palácio Real, a que os Portugueses chamam O Paço, é um edifício mais ou menos do tamanho do Palácio do Luxemburgo, mas não tão belo; não tem jardins…»

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Sucessos durante a viagem. Chegada a Lisboa
«(…) Logo nos primeiros dias de viagem, tivemos os ventos contrários e foi com muita dificuldade que se dobrou o cabo de Santo Agostinho, levando mais de quinze dias a fazer o que, com tempo normal, se teria feito em três ou quatro. Apesar de não nos encontrarmos tão bem alimentados como durante a viagem de Goa, comendo nesta apenas cassave e carne salgada ou fumada e só bebendo água, os casos de doença foram poucos e de morte apenas três ou quatro. Não ponho por isso em dúvida que o uso frequente do açúcar, que cada um de nós dissolvia na água, a cassave e a abundância de frutas de compota com que nos havíamos abastecido no Brasil, contribuíram em muito para nos defender da cruel doença chamada escorbuto, porque nos alimentou o calor natural, cujo enfraquecimento, observando bem, é a causa única de tal doença. A tripulação da nossa nau havia ficado muito fatigada da viagem de Goa para o Brasil e apesar de todos os cuidados que se haviam tomado para impedir as doenças, poucos tiveram a felicidade de não sentirem alguns sintomas, encontrando-se a maior parte dos tripulantes num estado deplorável ao chegarem a terra. Pelo caminho faleceram 30 homens. Na viagem do Brasil para Portugal gozou-se de uma melhor saúde, mas as frequentes tempestades que tivemos de suportar e nos puseram à beira da morte impediram-nos de gozar em paz o bem da saúde, e ainda a infelicidade de assistirmos à morte de dois homens que caíram ao mar, sem ter havido possibilidade de os socorrer. No trajecto avistámos a ilha Fernando de Noronha; é pequena e tem o nome daquele que a descobriu. É inabitável embora se diga que noutro tempo se ia ali fazer aguada. Acrescenta-se, porém, que se tornou inabitável depois de os ingleses ali terem deixado, de propósito ou por acaso, cães de fila que se foram multiplicando e tornaram tão ferozes e selvagens que ali impedem o desembarque.
Continuámos a nossa rota até às alturas das ilhas dos Açores, onde os Portugueses se haviam estabelecido há muito tempo e donde retiram a maior parte do trigo que se consome em Portugal. A ilha mais importante deste arquipélago é a Terceira, onde o rei Afonso residiu numa espécie de exílio, até que Pedro, seu irmão, no receio de que os Espanhóis ali o fossem raptar, o transferiu de lá para Lisboa e daí para o Paço de Sintra, onde ficou encarcerado até à morte.
Ainda se pensou em fundear na Terceira, mas o vento afastou-nos e passámos das ilhas de Santa Maria e de São Miguel, às quais tentámos abordar, mas as tempestades não o permitiram. Acrescentarei somente que depois de uma infinidade de fadigas comuns e de desgostos particulares chegámos a Lisboa a dezasseis de Dezembro, onze meses depois da partida de Goa.

Breve descrição da cidade de Lisboa
Nas proximidades do porto de Lisboa existe uma montanha chamada a Roca, que já de longe se avista. A medida que nos vamos aproximando do dito porto, vão-se encontrando bancos de areia e rochedos à flor da água, o que torna a entrada difícil e perigosa aos navios cujos capitães não queiram tomar os pilotos, que, aliás, por ali abundam, oferecendo os seus serviços a todos os navios que se aproximam da barra. São frequentes os capitães ousados que, correndo o evidente risco de naufragarem, recusam os serviços destes pilotos, pagando com o naufrágio dos seus navios a temeridade que cometeram. Estes exemplos funestos não impedem que haja sempre oficiais desejosos de exibirem habilidade e experiência, que repitam a façanha, arriscando os seus navios ao recusarem os auxílios que lhes podiam dar segurança.
Logo que os navios se aproximam do forte, a que os portugueses chamam Torre do Bugio, o perigo desapareceu. Esta torre está construída sobre estacaria, em pleno mar e possui uma importante guarnição e artilharia pesada. Em frente, já em terra firme, avista-se um outro forte, chamado de São Julião, por corrupção de São João. Este forte tem melhor guarnição e está mais bem artilhado que o do Bugio. Nenhuma embarcação pode ali passar sem se colocar ao alcance dos canhões destas duas fortalezas da barra do Tejo. Na outra margem do rio, defronte da Torre de Belém, existe um grande edifício destinado à quarentena de todas as pessoas que entrem neste porto provenientes de lugares onde havia a peste. De Belém até à cidade encontra-se um grande número de lindíssimas casas de campo com agradáveis jardins. Os navios fundeiam defronte do Palácio Real, de cujas janelas se podem ver todos os navios ali reunidos. O Palácio Real, a que os Portugueses chamam O Paço, é um edifício mais ou menos do tamanho do Palácio do Luxemburgo, mas não tão belo; não tem jardins, mas em compensação situa-se na margem do Tejo, dando uma das faces para uma das maiores e mais belas praças que existem, chamada Terreiro do Paço. É nesta praça que se realizam as touradas e os torneios, espectáculos a que o rei e a corte podem assistir das janelas do Paço. É também nesta mesma praça que se realizam os autos-de-fé, em Lisboa; para isso a praça é coberta e arma-se uma espécie de igreja, colocando-se um trono a cada lado do altar, um ocupado pelo inquisidor-mor e o seu conselho e o outro pelo rei, príncipes, os grandes da corte e os supremos magistrados. Para a realização deste acto é preferido o Terreiro do Paço a uma qualquer igreja por causa da amplidão, pois só ali caberá a grande multidão de espectadores. Muito próximo da Praça Real, e também à beira do Tejo, existe uma outra grande praça onde se realiza o maior mercado de toda a cidade; ali se vendem mercadorias de toda a espécie e embora existam muitos outros mercados de menor importância, é ali que os criados das grandes casas se vão fornecer». In José Brandão, Este é o Reino de Portugal, Saída de Emergência,2013, ISBN 978-989-637-457-0

Cortesia de SEmergência/JDACT

sexta-feira, 15 de janeiro de 2016

De Goa a Lisboa. 1676-1677. Charles Dellon. José Brandão. «Cadeiras e palanquins não se veem neste país, e muito menos coches. Quanto a cavalos, existem muito poucos. As pessoas abastadas fazem-se transportar em ‘hamaos’»

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Partida de Goa. Chegada ao Brasil
«(…) O Brasil tem a particularidade de ninguém aqui atingir a grande miséria, aquela que obriga a esmolar o pão. Os desgraçados que aqui chegam, vindos de países longínquos, por mais incapazes que se encontrem para trabalhar, nunca são deixados ao abandono pelas pessoas que têm de seu, constituindo ponto de honra para todos o acolherem em suas casas os miseráveis que ali abordem, havendo casos em que os senhores de qualidade sustentam em suas casas um número avultado de inválidos, sem de tal sequer terem conhecimento, pois os seus capatazes têm ordem para, sem prévia autorização, acolherem e sustentarem quem se apresente a pedir abrigo. A cidade de São Salvador é a capital de todo o Brasil, está situada no 13º grau de latitude meridional e foi construída ao fundo da baía, no lado norte. Em São Salvador residem ricos comerciantes de todas as nações e a prosperidade que tem mantido até hoje o seu comércio, bem como todo o do restante Brasil, deriva da oposição que os seus habitantes têm feito ao estabelecimento da Inquisição (maldita) que não tem siclo possível levar a efeito ali, apesar das muitas diligências dos oficiais do Santo Ofício (maldito). Outrora, havia nesta cidade um bispo, mas desde que São Salvador foi elevada a arcebispado, tornou-se metrópole de todas as dioceses dos domínios do rei de Portugal desde o Trópico de Câncer até ao cabo da Boa Esperança. Da Guiné, de Angola e de outros lugares de África são levados para o Brasil grande número de escravos, que são vendidos publicamente em mercados como se fossem animais. Estes escravos são empregados nos trabalhos mais pesados e tratados da maneira mais cruel que aquela que os corsários dão aos prisioneiros cristãos. Aqueles, porém, que conseguem as boas graças do seu dono são dispensados dos trabalhos mais violentos, ficando encarregues das funções domésticas, mais leves; acompanham os seus senhores à cidade e ajudam aos transportes. Cadeiras e palanquins não se veem neste país, e muito menos coches. Quanto a cavalos, existem muito poucos. As pessoas abastadas fazem-se transportar, tanto na cidade como no campo, em hamaos, uma espécie de redes com o comprimento de cerca de sete pés e com a largura de quatro, que vai pendurada por dois lados num grosso tronco. Dois escravos carregam este engenho, apoiando as extremidades da viga nos ombros, enquanto outros escravos, empunhando guarda-sóis, cobrem de sombra quem vai deitado na rede.
A não ser pelos navios que por acidente ou necessidade de abastecimento sejam obrigados a aportar no Brasil, as comunicações regulares com a metrópole são feitas anualmente, pelo menos, por uma numerosa frota que parte de Portugal e que, ao atingir a linha, se divide em várias esquadras, seguindo uma para o Rio de Janeiro, outra para Pernambuco e, a maior, para São Salvador. A corte de Portugal faz sempre acompanhar estas esquadras por navios de guerra, que escoltam os navios mercantes carregados com grandes quantidades de mercadorias da Europa, necessárias aos habitantes do Brasil. Logo que os navios estejam (de novo) carregados e as tripulações suficientemente refeitas, todas as esquadras voltam a reunir-se em certo ponto previamente escolhido e daí se fazem à vela, conjuntamente, de regresso a Lisboa. Assim os comerciantes estão menos expostos aos assaltos dos corsários que não desistem de os aguardar, na esperança de surpreenderem algum navio que por imprudência ou desventura se afaste do corpo da esquadra. Pouco depois da minha chegada à Baía de Todos os Santos, a esquadra que vinha de Portugal ancorou também ali. Trabalhou-se então apressadamente a carregar todos os navios e a pô-los em estado de se fazerem ao mar, levando-nos também, para o que estávamos preparados desde Agosto. Nos começos de Setembro fizeram-me embarcar para Lisboa. Esta última viagem, porém, não foi tão tranquila como a que havíamos feito da India para a Baía». In José Brandão, Este é o Reino de Portugal, Saída de Emergência,2013, ISBN 978-989-637-457-0

Cortesia de SEmergência/JDACT

segunda-feira, 14 de setembro de 2015

De Goa a Lisboa. 1676-1677. Charles Dellon. José Brandão. «… da prisão da Galé e da vida dos forçados, de cuja sorte participava. Apesar de perseguido, preso e condenado pela Inquisição (maldita) a uma pena infamante, não deixou Portugal a dizer mal da terra e das gentes»

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«Charles Dellon veio a Portugal muito contra a sua vontade e na pior das condições possíveis; desembarcou em Lisboa, no dia 16 de Dezembro de 1676, carregado de ferros, com destino à Galé onde fora condenado pela Inquisição (maldita) de Goa a cumprir a pena de cinco anos de trabalhos forçados. No auto-de-fé realizado em Goa, no dia 12 de Janeiro desse mesmo ano, figurara como herético.
(...)
Até à altura a que se reporta a sua narrativa na Relation, Dellon conhece as prisões de Damão, Baçaim e Goa. Assim as descreve: a prisão de Damão fica a nível inferior ao do rio próximo, o que a torna húmida e malsã (...) as paredes são espessas e ocupa duas grandes salas, uma subterrânea e outra no piso superior: os homens estão na de baixo e as mulheres na de cima. A maior tem 40 pés de comprimento e 15 de largura e a outra tem dois terços destas dimensões. Nesse espaço encontrávamo-nos cerca de 40 homens e não havia qualquer local para satisfazer as necessidades ordinárias, pelo que o compartimento tinha de ser baldeado; as águas, acumulando-se, formavam uma espécie de charco. As mulheres, no seu andar, não tinham melhores cómodos, a não ser a vantagem de as águas se escoarem pelas fisgas das tábuas do sobrado para a nossa prisão onde todas as águas ficavam estagnadas Da prisão de Baçaim diz: é maior e menos suja que a de Damão. A prisão de Goa é por ele classificada como a mais suja, a mais obscura e a mais horrenda de todas as que havia conhecido e não crê que possa haver outra mais fedorenta e mais repugnante: é uma espécie de cave onde só por uma pequena fresta penetra a luz do dia, mas onde não passa o mais fraco raio de sol. O fedor é extremo, porque não há outro lugar para satisfazer as necessidades dos prisioneiros senão um poço aberto no chão, a meio da casa, onde não é possível aproximar-se alguém por causa dos dejetos que o circundam. ... O autor narra a sua partida de Goa estada em S. Salvador, no Brasil, desembarque em Lisboa e os seis meses que aqui permaneceu, preso na Galé. O que conheceu e descreveu de Lisboa foi pouco e pode bem dizer-se que nunca se afastou do que então era o centro da cidade. No entanto, se foi pouco o que viu, o que deixou relatado tem valor documental, principalmente a descrição da prisão da Galé e da vida dos forçados, de cuja sorte participava. Apesar de perseguido, preso e condenado pela Inquisição (maldita) a uma pena infamante, não deixou Portugal a dizer mal da terra e das gentes. In Branco Chaves

Partida de Goa. Chegada ao Brasil
Fui conduzido, com grilhetas nos pés, à nau que se encontrava na enseada pronta a partir para Portugal; confiaram-me ao mestre da tripulação que ficou encarregado de me entregar à Inquisição (maldita) de Lisboa. [,ogo que o capitão recebeu os últimos despachos, levantou âncora, em 27 de Janeiro de 1676, e nesse mesmo dia tiraram-me a grilheta. A viagem foi feliz até ao Brasil, onde chegámos no mês de Março. Logo que se fundeou na Baía de Todos os Santos, o mestre, a cuja responsabilidade eu vinha entregue, levou-me para terra, conduziu-me ao palácio do governador e daí à prisão pública, onde me entregou ao carcereiro. Permaneci nesta prisão todo o tempo que a nau demorou no porto, mas por mercê de alguns amigos que eu tinha feito neste país, gozei durante o tempo que ali estive da liberdade de poder sair durante o dia e só de noite ficar encarcerado.
Em todo o Brasil o clima é temperado e aprazível, os ares são puros, a terra fértil e por toda a costa são frequentes os bons ancoradouros onde os navios podem ficar em segurança. Os naturais do Brasil não são negros, mas também não são completamente brancos, tendendo principalmente para o vermelho. São bem-feitos de corpo, usam os cabelos compridos e, embora não tenham o rosto disforme, têm uma expressão de ferocidade, que se não pode bem definir, mas que os assemelha muito à dos tártaros setentrionais. São muito aguerridos, o que os torna cruéis para os prisioneiros que fazem, os quais matam e comem.
Em muitos sítios do Brasil, os homens e as mulheres andam nus, mas desde que os Portugueses tomaram posse do país, aqueles que com eles têm convivido, têm, pouco a pouco, tomado o hábito de se vestirem, perderam o costume de comer carne humana, havendo muitos que se fizeram cristãos. Os portugueses têm acasalado com mulheres do Brasil, pelo que acontece haver hoje ali mais mestiços que portugueses puros. Como todo o Brasil é frequentemente regado por chuvas, as pastagens são muito boas e facultam facilmente a alimentação de grande quantidade de gado, e acresce também que nenhuma parte do mundo é banhada por tão excelentes rios como a América. No Brasil facilmente o homem se apercebe desta liberalidade da natureza; a abundância de água não só fertiliza as terras, como também a abundância de peixes que há no mar favorece a alimentação das populações vizinhas das costas». In José Brandão, Este é o Reino de Portugal, Saída de Emergência,2013, ISBN 978-989-637-457-0

Cortesia de SEmergência/JDACT

quinta-feira, 10 de junho de 2010

Miguel Bombarda: Um médico psiquiatra e político republicano português

(1851-1910)
Rio de Janeiro
Cortesia de vidaslusofonas
Miguel Augusto Bombarda foi um médico psiquiatra e político republicano português. Estudou na Escola Médico-Cirúrgica de Lisboa, onde viria a ser professor e foi director do Hospital de Rilhafoles, onde criou o Laboratório de Histologia em 1887. Como professor na Escola Médico-Cirúrgica deu um importante contributo para a reforma do estudos médicos. Republicano convicto, foi um acérrimo anticlerical. Tornou-se membro do Partido Republicano Português em 1909, tendo sido eleito deputado em Agosto de 1910.
Cortesia de vidaslusofonas

Membro do comité revolucionário que implantou a República em Portugal, em 5 de Outubro de 1910, e considerado o seu chefe civil. Não chegou, contudo, a assistir à vitória dos republicanos por ter sido assassinado por um doente mental do Hospital de Rilhafoles em 3 de Outubro de 1910, poucas horas antes do início da revolta. Teve um funeral conjunto ao de Cândido dos Reis, no dia 6 de Outubro.

«... Lá o mataram! Pela cidade, a notícia corre veloz, como correm as más novas. E toda a gente, ansiosamente, indagava do fundamento do que se propagava. Seria verdade? Teriam realmente assassinado o Dr. Miguel Bombarda? Mas quem? Com que fim? Para quê? E, enquanto a triste verdade não era conhecida em todos os seus pormenores, bordavam-se mil conjecturas. Grupos, pelas ruas, comentavam a notícia, ainda mal definida, dos quais saíam pragas contra o assassino, de identidade e condições de momento ignoradas. Lá o mataram! Nada está, a tal respeito, averiguado. O que, de positivo, se sabe, é que o ilustre psiquiatra morreu às mãos de um doido, com o delírio da perseguição. É o que, por enquanto, está averiguado. Se o doido, e a sua especial doença, foram alvo de uma criminosa sugestão, impossível é dizê-lo, ou, no momento prová-lo, caso este boato tenha qualquer fundamento. A verdade é que o Dr. Miguel Bombarda, deputado republicano por Lisboa, foi assassinado. Está morto; e a verdade é que esse facto produziu em toda a cidade de Lisboa e produzirá em todo o país uma sensação indescritível. A notícia realmente caíra na cidade como um raio. Ao princípio, a sensação foi de estupor; depois, foi de dor, depois de indignação contra o assassino. Mas se ele é um doido?...». In Vidas Lusófonas, José Brandão.
 


Cortesia de vidas lusófonas/Carlos Bobone/JDACT