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domingo, 21 de julho de 2019

O Delfim. José Cardoso Pires. «Estou-lhe a dizer. Cães, criado e dona Mercês, já nada disso existe. Caramba, não me diga que não sabia»

Cortesia de wikipedia e jdact

«(…) Cada ofício com seu estilo, e este, guia, pregoeiro, arauto e actividades associadas, precisa de ter o seu. Por que diabo não há-de haver copyrights para os cauteleiros? Então o Infante?, aí está como ele me veio receber, não há muito tempo, quando me apeei no largo. E, enfim, não se pode dizer que seja uma maneira muito própria de saudar um conhecido, um hóspede, como é o caso, que regressa à aldeia ao cabo de uma ausência de 365 dias. É verdade, trezentos e sessenta e cinco dias, Velho. 31 de Outubro de 1966, 31 de Outubro de 1967. Datas de caçador. E este ano, que eu saiba, não foi bissexto. Mas, ainda que tivesse decorrido apenas um mês, ainda que fosse uma escassa quinzena, uma semana, a questão põe-se no mesmo pé. Um caçador desembarca naquele terreiro, corre os olhos em redor, muralha, casas mudas, a porta aberta da loja do Regedor, e salta-lhe uma voz não sabe donde. Vira-se. Dá com um homenzinho a fitá-lo: então o Infante? Palavra, parece uma acusação. Desconcerta encontrar assim uma cara que nos é conhecida e no meio dela um grande dente espetado a pedir-nos contas: o Infante? Depois os olhos, Velho. Essas frestas sem brilho também se estavam nas tintas para tudo, para mim, visitante de boa vontade, e para todos os outros caçadores que hoje e amanhã vêm à Gafeira em romagem às aves da lagoa. Queriam saber do Engenheiro (do Infante, peço desculpa). Quanto ao resto, os olhos nem bom-dia nem boa-tarde. Não o viu? Não se encontrou com ele lá por Lisboa? Perante isto um homem hesita. Percebe que houve coisa. Mas o quê? Crime, pronuncia o dente inquisidor; e sente-se que dentro do Velho se tinha levantado uma alegria mansa. A vitória do profissional de novidades que gosta de chegar primeiro, e no momento inesperado, com a revelação que deslumbra o visitante.
Estou-lhe a dizer. Cães, criado e dona Mercês, já nada disso existe. Caramba, não me diga que não sabia. Calcula-se como um dente como aquele, único, eremita, pode apanhar um forasteiro à hora do meio-dia numa aldeia em silêncio. É um osso eriçado no deserto, um estilete que se aproveita da desorientação de um estranho para penetrar nele a fundo, sempre mais fundo, de modo a destruir-lhe os últimos restos de dúvida e de serenidade. Homem..., tenta ainda o viajante. E o outro a cortar rápido, sem mais aquelas: assim mesmo. A dona Mercês matou o criado e o Infante matou-a a ela. Nem mais. A partir daqui o Velho não tem bandeira. Entrou num discurso tortuoso, carregado de meias palavras, no qual era possível vislumbrar Maria das Mercês, tresloucada de todo, a enfrentar o marido e o criado, essa estranha aliança que a torturava. Acabou-se. Comeram-se uns aos outros, tiveram o fim que mereciam... Agora quem quiser caçar na lagoa já não precisa da autorização do Infante para nada. E etc.
Assim, de cabeça baixa, gabardina no braço, deixei eu há coisa de três horas o meu carro, rumo à pensão. Levava em cima de mim a voz do pregoeiro da aldeia; ia envolvido numa tempestade de vinganças e delírios populares, as tiras de lotaria esvoaçavam à minha frente e o homem parecia louco, louco varrido. Ou fazia o seu número?, perguntava eu a todo o passo. Avalio deste miradouro as voltas e contravoltas que aquele dente não deu sobre o terreiro: picando-o todo em redor de mim, mordiscando-o em círculos enquanto estive parado junto do carro; singrando depois em ponto corrido a perseguir-me com lengalengas, e finalmente, já mais confiante, tecendo renda de palavras, enovelando-se-me nos passos, a tolher-me a marcha. A dada altura fui eu que me deixei levar por ele. Tocado pelo veneno da curiosidade, em vez de me dirigir logo para aqui, onde uma estalajadeira de caçadores aguardava a minha chegada desde manhã, acompanhei o Velho ao café. A pensão que esperasse, decidi. Primeiramente convinha tomar fôlego, beber um copo, e, já agora, conhecer as linhas com que se cose o caçador ignorante dos mistérios aldeões. Estes da Gafeira sobretudo tinham sido muitos e inacreditáveis. Se tinham. Eu não dizia?, anunciou o Velho, mal entrámos no café. O Infante também não está em Lisboa. Apontava-me a dois homens que estavam sentados a uma mesa, como se me tivesse ido buscar algures para vir ali confirmar o que há muito suspeitava. Diabo..., murmurou um deles, o dono do café, coçando a cabeça. Isso agora é que é o diabo... E o outro, um batedor de caça: teria ele abalado para a África? África?, gritou o Velho. Deixa-me rir. Em África nunca ele estaria em segurança. O Batedor então: de qualquer maneira fugiu. E quem foge é porque não quer ser apanhado. Essa é que é essa. Velho-dum-Só Dente: agora assobiem-lhe às botas. Matou, cometeu crime... E ainda dizem que há justiça». In José Cardoso Pires, O Delfim, 1.ª edição, Moraes Editores, Lisboa, 1968, 10.ª edição, Publicações Dom Quixote, 1988, 2003, ISBN 972-201-654-7.

Cortesia de PdomQuixote/JDACT

quarta-feira, 10 de julho de 2019

O Delfim. José Cardoso Pires. «A palavra deve andar a correr neste momento acolá, no café em frente. Não me admiraria muito. Infante para a esquerda, infante para a direita..., porque é no café que o velho cauteleiro faz praça»

Cortesia de wikipedia e jdact

«(…) Gente, não a meto por enquanto: não a havia nessa manhã em que desembarquei na Gafeira. De vivo, tudo quanto encontrei foi a ladainha e os cães que estavam de sentinela ao poderoso automóvel, e mesmo esses não se dignavam olhar-me. Gemiam, rancorosos, e arreganhavam os dentes para as vozes que passavam por eles a contrapelo: Au... aú-aúúú... Aúúú... Os uivos esfarrapavam a ladainha e, naturalmente, haviam de chegar à igreja, que era acanhada e de madeiros pintados, igreja pobre como se depreende. Aí abalariam os camponeses na sua fé ensonada, inquietavam-nos (e não se esqueça que, momentos depois, eu iria presenciar o desfile daquela gente à saída da missa, posso vê-la portanto lá dentro: os homens de pé, as mulheres de joelhos. Filhas-de-Maria, de rosário nos dedos; rapazes com transístores e blusões de plástico recebidos de longe, duma cidade mineira da Alemanha ou das fábricas de Winnepeg, Canadá; moças de perfil de luto, as viúvas de vivos, assim chamadas, sempre a rezarem pelos maridos distantes, pedindo à Providência que as chame para junto deles e, uma vez mais, agradecendo os dólares, as cartas e os presentes enviados... Chega. Todos, homens e mulheres, estariam como mandam as narrações sagradas, isto é, na apatia dos seus corpos cansados; todos a repetirem um ciclo de palavras, transmitido e simplificado, de geração em geração, como o movimento da enxada. E nisto..., eis os uivos, lá fora. Correu um murmurar de botas no soalho, ouviu-se um choro de criança, e então, no altar-mor, talvez o Engenheiro se tivesse voltado ligeiramente na cadeira.
Se assim foi (como é de crer que tenha sido), tanto bastou para que um criado, por sinal maneta e mestiço, deslizasse por entre os fiéis e viesse à rua calar os animais. Eu próprio o vi sair ao terreiro na tal manhã em que cheguei à Gafeira. Passou por mim a assoprar palavrões, cortado pelo sol e a balouçar o braço decepado. Só que, para espanto meu, diante das feras tornou-se frio de repente e falou-lhes em tom comedido. Dirigiu-se à primeira: lorde duma cana, que nunca mais tens juízo... E começou a desatar-lhe a trela. Um, respondeu-lhe o lorde, deitando-se por terra. Dirigiu-se à segunda fera, uma cadela: e tu? Queres festa, maruja? Está-te a pular o pé? Um, respondeu a maruja. Um-um... E empinou-se, de língua de fora, para o cumprimentar. Mas o mestiço afastou-se secamente. Com a única mão, desprendeu os animais e conduziu-os para o outro lado do largo. Escolheu duas argolas, amarrou-os com força e tão curto que roçavam o focinho na parede, mal tocando o chão com as patas dianteiras. E sempre a falar-lhes, sempre num sermão constante que, à distância onde me encontrava, me parecia um discorrer de conselhos paternais. Causava assombro assistir a semelhante tarefa de punição, à autoridade com que ele a executava e aos movimentos precisos e eficazes da mão no governo de duas feras tão difíceis. Mão arguta, pensei. Mão controlada.

Dois cães e um escudeiro, como numa tapeçaria medieval, e só depois se apresenta o amo em toda a sua figura: avançado na praça com a esposa pela mão; blazer negro, lenço de seda ao pescoço. De entrada pareceu-me mais novo do que realmente era, talvez pelo andar um tanto enfastiado, talvez, não sei, pela maneira como acompanhava a mulher, de mão dada, dois jovens em passeio. (Quando, na noite seguinte, o viesse a conhecer, compreenderia que, afinal, o que pairava nele era o ar indefinido, o rosto sem idade de muitos jogadores profissionais e amantes da vida nocturna. Mas continuemos.) Continuemos, como naquela manhã, a seguir marido e mulher atravessando o largo. Havia sol a jorros, brilho e ouro, e não a claridade sem vida deste final de Outubro a que estamos a assistir e que desgraçadamente nasceu comprometido, irmão do Inverno. Lembro-me bem de que na altura pensei na maravilha da luz do Outono, a melhor de todas, e em duas moedas resplandecentes, enquanto observava o casal em marcha para o Jaguar. Seriam sessenta metros ao todo (ponhamos mesmo setenta, a avaliar pela distância a que o meu carro está da igreja), setenta metros de silêncio e a passo de procissão, através de camponeses endomingados e ainda entontecidos pela lenta e pesada obrigação da missa. E eles avançando de cabeça levantada, mão na mão, sem um cumprimento a quem quer que fosse; sem uma palavra entre ambos, e muito menos para o mestiço que os esperava com os cães pela trela. Duas silhuetas de moeda, dois infantes do meio-dia. Dois quê? Sorrio: infante nunca foi um termo meu. Saltou-me à ponta da frase porque desde que cheguei que o tenho no ouvido. Então o infante? Não encontrou o infante lá por Lisboa?
A palavra deve andar a correr neste momento acolá, no café em frente. Não me admiraria muito. Infante para a esquerda, infante para a direita..., porque é no café que o velho cauteleiro faz praça, com as suas duas tiras de lotaria penduradas na gola do casaco. Só ele é que trata assim o Engenheiro, por Infante, e se calhar julga-se com direito a isso. Talvez tenha razão. Talvez, insisto eu, tenha mesmo necessidade desse direito, já que, além de vendedor de sortes grandes e terminações, ele é o guia e o arauto da aldeia». In José Cardoso Pires, O Delfim, 1.ª edição, Moraes Editores, Lisboa, 1968, 10.ª edição, Publicações Dom Quixote, 1988, 2003, ISBN 972-201-654-7.

Cortesia de PdomQuixote/JDACT

quarta-feira, 19 de junho de 2019

O Delfim. José Cardoso Pires. «… espalho um pouco de música também, ponho a deslizar certos coros esganiçados que costumam ouvir-se nas missas de província»

Cortesia de wikipedia e jdact

«(…) Feira e arraial. Arraial bordado por um friso de animais de carga, um friso de caudas a dar-a-dar (como galhardetes ao vento), nuvens de moscas em torno de ancas luzidias, e lojas cheias de forasteiros, lojas cheias, lojas cheias, e, atrevo-me a acrescentar, dinheiro e vinho a correr, mesmo que fosse a hora da missa e os camponeses embalados nos negócios e nas conversas de balcão esquecessem lamentavelmente os seus deveres de cristandade. Não se lhes levaria a mal por isso, tinham desculpa. A igreja, já de si pequena para a povoação, não comportaria os mercadores de fora, e os mais atrasados haviam de ficar à porta, ao ar livre, acompanhando a cerimónia por simples cálculo de tempo e pela campainha do sacristão. Os últimos, à falta de melhor, recolher-se-iam nas tendas, bebendo e conversando em tom comprometido, mas todos, no largo ou ao balcão, fariam o sinal-da-cruz quando, através da manhã silenciosa, soasse o tilintar de sanctus, sanctus, sanctus.
Pois sim, mas agora o largo é o que se vê. Uma muralha, um espectro. Mais exactamente, um terreiro enfeitado de argolas que tiveram a sua época quando rompiam das pedras chumbadas para deterem o viajante pela arreata da montada, de modo a fazerem desta praça uma estação, um ponto desejado. Por isso ele se mostra tão triste e paciente no seu silêncio e, mais que paciente, esquecido da aldeia. Tão renegado como o conheci faz hoje um ano, dia trinta e um de Outubro, por ocasião da minha primeira caçada na lagoa. Abade Agostinho Saraiva:

Desta terra da Gafeira quis a Providência fazer exemplo de castigo. Porque sendo dotada de águas boas na cura das feridas malignas e de abundante e saboroso pescado, não a redimiu o Senhor com a vara de Sua Altíssima Clemência, a qual tem duas pontas e são a do castigo do século e a do arrependimento cristão. E estas pontas são de fogo e de mel e conduzem à absolvição no dia em que das entranhas da Gafeira desaparecer o último sinal de paganismo bem como dos festins e orgias que se levaram a efeito nas termas romanas instaladas por Teófilo e das quais restam pedras ímpias e inscrições de agravado speculum exemplorum.

Aceitemos a maldição. Soletremos a muralha pecadora e com mão oficial, zeloso doutor, escrevamos o nihil obstat para descanso de todos nós. Sou assim, respeito os mortos que deixaram a sua palavra no granito e no papel. Mesmo que os mortos se chamem Agostinhos Saraivas, Júlios Dantas, Augustos Castro e outros literatos menores, sem esquecer os das estátuas. Bem, e depois? Depois, quero dizer que os respeito mas que não me aproprio deles, ao contrário de muitos políticos, para lhes torcer o cadáver e as ideias à minha feição. Na maior parte dos casos passo de chapéu na cabeça por tais personagens, como se continuassem vivos, e a isso chamo eu respeitar. Por conseguinte, o muro que se conserve como está, e o abade também (nas páginas que escreveu), porque um e outro são incapazes de me explicar o terreiro acolá batido pela luz da tarde. Para o compreender tenho de fazer um desvio, recuar um ano. Escolher uma manhã de domingo e colocar, ao centro da moldura de argolas encimada pela legenda romana, não o bufarinheiro de outros tempos, não as galinheiras debaixo dos guarda-sóis nem o ferrador a talhar cascos, mas um Jaguar modelo E-4.2. litros. Isso: o largo e um Jaguar de frente para a igreja, mais ou menos no sítio onde está o meu carro. Um pouco à esquerda, talvez; vinte passos, digamos. Agora junto, se me permitem, dois lobos-de-alsácia, cada qual amarrado ao seu escudete do pára-choques; junto sol, muito sol, e, perdoai, abade, que não sei o que faço, espalho um pouco de música também, ponho a deslizar certos coros esganiçados que costumam ouvir-se nas missas de província». In José Cardoso Pires, O Delfim, 1.ª edição, Moraes Editores, Lisboa, 1968, 10.ª edição, Publicações Dom Quixote, 1988, 2003, ISBN 972-201-654-7.

Cortesia de PdomQuixote/JDACT

O Delfim. José Cardoso Pires. «Diariamente, ano após ano, século após século, essa muralha, mal o sol se firma, envia a sua sombra para o terreiro, arrastando uma outra, a da igreja»

Cortesia de wikipedia e jdact

«(…) O largo. (Aqui me apareceu pela primeira vez o Engenheiro, anunciado por dois cães.) O largo: Visto da janela onde me encontro, é um terreiro nu, todo valas e pó. Grande de mais para a aldeia, é facto, grande de mais. E inútil, dir-se-á. Pois, também isso. Inútil, sem sentido, porque raramente alguém o procura apesar de estar onde está, à beira da estrada e em pleno coração da comunidade. Tal como um prado de cardos, mostra-se agressivo, só domável ao tempo; e se não pica repele, servindo-se das covas, dos regos das chuvas ou da poeirada dos estios. Um largo, aquilo a que verdadeiramente se chama largo, terra batida, tem de ser calcado por alguma coisa, pés humanos, trânsito, o que for, ao passo que este aqui, salvo nas horas da missa, é percorrido unicamente pelo espectro do enorme paredão de granito que se levanta nas traseiras da sacristia. Diariamente, ano após ano, século após século, essa muralha, mal o sol se firma, envia a sua sombra para o terreiro, arrastando uma outra, a da igreja. Leva-a envolvida, viaja com ela pelo deserto de buracos e de pó, cobre o chão, arrefece-o, e ao meio-dia recolhe-se, expulsa pelo sol a pino. Mas a tarde é dela. À tarde a sombra recomeça a invasão, crescendo à medida que a luz enfraquece. Tão escura, observe-se, tão carregada de hora para hora, que parece uma mensagem antecipada da noite; ou, se preferirem, uma insinuação de trevas posta a circular pela muralha em pleno dia para tornar o largo mais só, deixando-o entregue aos vermes que o minam.
Assim, o enorme paredão figura mais como vulto, fantasma familiar, do que propriamente como muro. Isto, num certo sentido. Porque para quem conheça a aldeia (consulte-se a citada Monografia do Termo da Gafeira, do abade Agostinho Saraiva, MDCCCI) é ali que está o pórtico do povoado, o mastro, segundo ele, dumas gloriosas termas romanas mandadas construir por Octavius Theophilus, Pai da Pátria. Lá se pode ler, na pedra imperial (e na gravura que abre o livro), o mandato solene gravado a todos os ventos: ISIDI DOMIN – M. OCT. LIB THEOPHILVS.
A muralha, como lápide de uma vasta e destroçada campa com vinte séculos de abandono. Ou simplesmente como cabeça do largo. E, crucificada nela e na sua legenda de caracteres ibéricos, digo, lusitanos, a igreja. Depois temos buracos e terra esquecida até à estrada de alcatrão, temos tabernas e comércio sonolento e, a fechar o traçado, uma fila de casas a cada margem, muitas delas vazias e ainda com as argolas onde antigamente se prendiam as bestas. Antigamente, em tempos mais felizes. Antigamente, cinquenta, setenta anos atrás, o terreiro foi com certeza uma praça de feira, porque não? Um arraial. Um encontro de marchantes, com almocreves e mercadores de sardinha vindos de longe atrás das muares. Haveria barbeiros tosquiando ao sol e mendigos de chaga e alforje; tabuleiros com arrufadas; galinheiras de guarda aos seus pequeninos cestos de ovos, acocoradas debaixo de largas sombrinhas (visto não existirem árvores); não faltaria sequer o capador em visita, cavalgando uma égua tristemente guedelhuda... Tudo isto devidamente emoldurado por uma correnteza de mulas e de jumentos presos às argolas das paredes enquanto os donos se perdiam pelas tabernas». In José Cardoso Pires, O Delfim, 1.ª edição, Moraes Editores, Lisboa, 1968, 10.ª edição, Publicações Dom Quixote, 1988, 2003, ISBN 972-201-654-7.

Cortesia de PdomQuixote/JDACT

terça-feira, 18 de junho de 2019

O Delfim. José Cardoso Pires. «O delfim é o engenheiro Tomás Manuel Palma Bravo. Uma espécie de cognome, entre outros de menor valia e alcance. Mas, sobretudo, uma forma de estar no mundo…»

Cortesia de wikipedia e jdact

«Alongando o braço para alcançar os cigarros e a boquilha, Maria das Mercês fica estirada ao comprido. Não se mexe durante muito tempo, é capaz de se manter assim uma eternidade. Deitada e de pernas penduradas no braço do maple, está voltada para as traves do tecto onde se reflecte o brilho da lareira.(...) As mãos repousam sobre o vinco do slip. Ali, junto desse contorno (de rendas?, de nylon?) que ela afaga por cima do tecido das calças, a pele lisa das coxas tem o toque mais precioso de um corpo de mulher (...)» In José Cardoso Pires

«O delfim é o engenheiro Tomás Manuel Palma Bravo. Uma espécie de cognome, entre outros de menor valia e alcance. Mas, sobretudo, uma forma de estar no mundo, uma forma de ficar na história, uma forma de ascender ao plano do mito. Mas O Delfim é também o título de um romance, este romance que o leitor vai ler, e onde se fala da vida, e da proximidade da morte, de Palma Bravo. Talvez seja conveniente começarmos por chamar a atenção para o facto de que também o romance, o livro de Cardoso Pires, foi envolvido nessa atmosfera mítica que parece desprender-se do seu aparente herói, e tem hoje um lugar muito nítido, e obviamente privilegiado, na literatura de ficção do nosso século XX. Mais do que procedermos a análises minuciosas, e inevitavelmente fastidiosas na sua tecnicidade específica, repetindo as múltiplas interpretações que a obra de Cardoso Pires tem suscitado, pretendemos, fundamentalmente, considerar essa força mítica expansiva que envolve a personagem, o romance, o que o próprio autor escreveu sobre o romance, ou à margem dele, e o que críticos e leitores lhe têm vindo a acrescentar. E um nome, em primeiro lugar, um nome apropriado que se torna próprio e emblema de um sentido natural da propriedade: o Delfim como herdeiro do poder numa linha de soberania, mas também o delfim como ave prenunciadora de desgraças e catástrofes. Mas é sobretudo o nome como emanação de um lugar: a lagoa. Porque é da lagoa, esse corpo de água e incessante respiração, essa voragem significante, porque é da lagoa que tudo parte, Lagoa, para a gente daqui quer dizer coração, refúgio de abundância. Odre. Ilha. Ilha de água cercada de terra por todos os lados e por espingardas da lei. Mas ilha, odre, coroa de fumos ou constelação de aves, é a partir dela que uma comunidade de camponeses-operários mede o universo [...]. E, veja-se, é igualmente a lagoa (ou a nuvem em sua representação) que me chamou aqui e me tem entre quatro paredes, à espera e a recordar. Há assim um fio enigmático que nos une: todos nós, de José Cardoso Pires, escritor, até aos narradores em que o escritor se representa, dos tipógrafos aos capistas, dos editores aos livreiros, dos críticos aos leitores, dos professores aos estudantes, todos continuamos a ser, de certo modo, súbditos dessa lagoa que o texto de Cardoso Pires inventa para passar a ser apenas a sombra da sua própria invenção. Há, portanto, uma circularidade que se alarga, é ela que nos envolve, e é para ela que solicitamos a cumplicidade do leitor […]». In Eduardo Prado Coelho.

Cá estou. Precisamente no mesmo quarto onde, faz hoje um ano, me instalei na minha primeira visita à aldeia e onde, com divertimento e curiosidade, fui anotando as minhas conversas com Tomás Manuel Palma Bravo, o Engenheiro. Repare-se que tenho a mão direita pousada num livro antigo, Monografia do Termo da Gafeira, ou seja, que tenho a mão sobre a palavra veneranda de certo abade que, entre mil setecentos e noventa, mil oitocentos e um, decifrou o passado deste território. É nele que penso também, nisto tudo, na aldeia, nos montes em redor e nos seres que a habitam e que formigam lá em baixo, por entre casas, quelhas e penedos, à distância de um primeiro andar. Sou um visitante de pé (e em corpo inteiro, como numa fotografia de álbum), um Autor apoiado na lição do mestre. Lavatório de ferro à esquerda, mesa de trabalho à direita; em fundo, a porta com a espingarda e a cartucheira penduradas no cabide. Pormenor importante: enfrento a janela de guilhotina que dá para o único café da povoação, do outro lado da rua, e, mais para diante, vejo o largo, a estrada de asfalto e um horizonte de pinhais dominado por uma coroa de nuvens: a lagoa. Algures, no corredor, a dona da casa chama pela criadita. Temos, pois, o Autor instalado na janela duma pensão de caçadores. Sente vida por baixo e à volta dele, sim, pode senti-la, mas, por enquanto, fixa-se unicamente, e com intenção, no tal sopro de nuvens que é a lagoa. Não a vê dali, bem o sabe, porque fica no vale, para lá dos montes, secreta e indiferente. No entanto, aprendeu a assinalá-la por aquele halo derramado à flor das árvores, e diz: lá está ela, a respirar. Depois, se quisesse escrever, passaria apenas o dedo na capa encarquilhada do livro que o acompanha (ou numa tábua de relíquia, ou numa pedra) e sulcaria o pó com esta palavra: Delfim. Seria uma dedicatória. Um epitáfio, também. Seis letras que, de qualquer maneira, não teriam mais do que a justa e exacta duração que a poeira consentisse até as cobrir de novo». In José Cardoso Pires, O Delfim, 1.ª edição, Moraes Editores, Lisboa, 1968, 10.ª edição, Publicações Dom Quixote, 1988, 2003, ISBN 972-201-654-7.

Cortesia de PdomQuixote/JDACT

sábado, 2 de abril de 2016

Histórias de Amor. José Cardoso Pires. «Ele foi feito sobretudo depois da sua morte, mas é o fruto e testemunho de vivências anteriores…»

jdact

«(…) A um conhecimento grosseiro, a uma experiência sempre limitada do elemento humano poderá atribuir-se-me o que porventura haja para além ou fora deste aspecto. Mas, numa melhor hipótese, tal facto poderia derivar da própria força dos acontecimentos e, consequentemente, da obrigação a que o cronista se imporia de os penetrar no máximo das suas possibilidades.
Se é negra a realidade com que me encontrei entendo que a ela me não deveria ter furtado, por mais despatriados que possam parecer os fenómenos que a compõem. Razão, pois, porque ouso apresentar a Rapariga dos Fósforos, que, até. por ser obra de aprendiz, não terá talvez a filiação literária duma Joaninha de Olhos Verdes, seja-me perdoado o arrojo da comparação.
Mas por outro lado, ocorre-me muitas vezes atentar, e com sincero pavor, na vaga hibridez que nos foi imposta (a nova terminologia da angústia), e daí insisto em não me negar a enfrentá-la. Viera-me um vislumbre do génio do grande Garrett, e a Rapariga dos Fósforos seria facilmente reconhecida entre as muitas costureiras de cave, burguezinhas de lar negado, colegiais e futuras esposas de ofício que tanto vemos por aí…
Assim fica, quanto mais não seja para mim, como uma tentativa que acarinho porque cansidero que, perto ou longe dos nossos vínculos tradicionais, ela existe. Infelizmente existe. E o maís trágico, porém, é que a sua presença. se reveste de significado real, motivo que me pareceu imperioso para que a considerasse objecto de literatura». In J. C. P. Maio de 1952

Entretanto continuavam a olhar um para o outro, sorrindo levemente, sem palavras. Beijaram-se, e de novo tombavam para o lado e ficaram assim, as bocas abertas entreabertas, os olhos a luzirem. Estava calor e muita luz no pequeno quarto do hotel barato. O sol forte que rompia entre as frestas do estore espalhava-se pelas paredes nuas e pela roupa revolvida da cama. O moço suava, o suor corria-lhe no queixo e nas axilas misturado com a saliva dos beijos. Passou-lhe as mãos pelas faces, com uma ternura súbita: é indecente, estou a molhar-te com suor. Querido, segredou ela, e sorria. Então ergue-se no leito, limpando-o carinhosamente com a ponta do lençol enquanto ia dizendo querido, oh querido e deixava que os dedos dele lhe percorressem ao de leve o corpo. E agora?, brincou». In José Cardoso Pires, Histórias de Amor, [Livro proibido e censurado], colecção Os Livros das Três Abelhas, Editorial Gleba, Lisboa, 1952, Arquivo Nacional da Torre do Tombo.

Cortesia EGleba/JDACT

domingo, 21 de junho de 2015

Histórias de Amor. José Cardoso Pires. «Só assim a mulher dos três K, impura de há tantos séculos, a que traz no seio a inibição do pecado original ou a majestosa frieza da esterilidade com que os poetas a coroaram, só assim ela vai adquirindo grandeza de maravilha»

jdact

«(…) Que se seja levado a falar da mulher ofendida por um tempo que a atrofia e degenera não será certamente pecado do escritor. Mas quando considera apartados os problemas, atribuindo-lhes explicações autónomas e particulares que, por isso, os não resolvem, então o escritor cria heroínas-mito e incorre em grave culpa. Só um conto da presente colectânea. Week End, escrito em Setembro de 49, se pode relacionar de perto com uma história de triângulo. Incluo-o aqui unicamente por ter julgado que nele ultrapassara os moldes clássicos do tema e aquilo que, quando da sua publicação na antologia Meridianos do Porto, alguns amigos classificaram como pouco mais do que uma história de magazine. Ainda hoje o não entendo assim e, embora ciente de que não tenha conseguido revesti-lo com a clareza do ambiente que lhe determina e está para além da acção, apresenta-o com muito poucas alterações da versão primitiva.
Isto, volto a insistir, porque suponho não ter alienado no dito canto quaisquer factos que lhe dessem mais realidade, sem que, evidentemente, por outro lado fizessem perigar a própria realidade literária. E a alienação, o menosprezo ou a ignorância de qualquer dos dois valores efectivos da vida são, a meu ver, o pecado comum de que enfermam na generalidade as histórias triangulares. Servindo-me das palavras dum poeta, direi que esses valores são o Leito e a Banca, realidades do homem que lhe povoam os sonhos mais luminosos, são uma só causa e um mesmo objectivo e, pois que vivem solidárias, confundem-se em toda a sua permanência. De sorte que defendê-las se tornou a grande razão da vida: Alterando-as nas leis que as regem, alterados serão os ritos, a geografia do sentimento, as convenções bíblicas que pesam sobre o Amor.
Só assim a mulher dos três K, impura de há tantos séculos, a que traz no seio a inibição do pecado original ou a majestosa frieza da esterilidade com que os poetas a coroaram, só assim ela vai adquirindo grandeza de maravilha. Forja a sua luta na luta do companheiro e surge já não estranha mas enriquecida de liberdade, amiga inseparável dos dias e das noites, apta a dar filhos de boa vontade e com uma nova alegria. Assim defenderá como suas e terá o justo lugar entre estas realidades do Leito e da Banca sem descurar de qualquer delas. Diminuir uma ou outra seria desautorizar-se e ao homem; e um homem sem autoridade é incapaz de tudo. Até de amar.
Julguei necessário anteceder as histórias de amor com estas palavras por demais extensas e, para, muitos, sem dúvida desnecessárias, de evidentes que são. Neste caso, tanto melhor. Regozijo-me por sabê-las presentes e não olvidadas, como em tão larga medida o vem provando o dia-a-dia que vivemos. De qualquer maneira, porém, resta-me o esclarecimento de que as não escrevi para justificar as cinco histórias que se seguem, dado que me parece muito mal ir o autor que necessite de explicar uma obra que só os factos narrados podem e devem definir. Limito-me, quando muito, a observar que lhes chamei de amor por estar neste ponto a matriz em que julguei ver fundidas certas manifestações específicas do homem, capazes (perdoem-me os poetas ofélicos) de o definir na época ou a época, através dele». In José Cardoso Pires, Histórias de Amor, colecção Os Livros das Três Abelhas, Editorial Gleba, Lisboa, 1952, Arquivo Nacional da Torre do Tombo.

Cortesia E Gleba/JDACT

sábado, 25 de abril de 2015

Histórias de Amor José Cardoso Pires. «… tão falível e de validade tão restrita? Pergunto até se num mundo contradito nas f orças que o movem, razão e instinto e instinto e razão podem dissociar-se em tamanha escala»

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«(…) Aqui pretendia, pois, chegar. E maís: à conclusão de que, vivendo o homem do combate, se vê levada por este conceito a atribuir à luta sentimental todo a sentido de viver e a ela devotar todas as forças, razões e anseios de devir, isolando-se de outras solicitações da vida, indispensáveis a que se enriqueça. Mais assento nisto quando leio Radiguet em Le Diable au Corps: Mas o amor, dizia consigo mesmo, trás certamente grandes compensações, uma vez que é nele que o homem alcança toda e liberdade. Ou Lady Chatterley: E teve que penetrar na paz sobre a terra que representava aquele corpo doce e imóvel. Foi na verdade um momento de paz perfeita.... Agora, depois destes dois exemplos, abalanço-me à ingénua pergunta: será verdadeiro, inteligente, reduzir a liberdade humana a um ponto, mesmo a um momento, tão falível e de validade tão restrita? Pergunto até se num mundo contradito nas f orças que o movem, razão e instinto e instinto e razão podem dissociar-se em tamanha escala.
Parece-me, antes, que Lawrence, dizendo noutra ocasião que é necessário ter-se boa alma para se poder amar esteve a um passo breve de definir o problema e de explicar a essência do drama que tão corajosamente abordou sem todavia esclarecer. O mal foi que não ousou o passo. Descurou de considerar como se molda a alma do homem, qual o caminho de este a dignificar e, pois, de dignificar o Amor. Ainda por este motivo, a revolta que proclamou contra as factores que impedem e contaminam o Amor esvaiu-se de tão abstracta que era A angustiosa, necessidade de comunhão que o atormentava contentou-a ele com o encontro sereno e compreensivo, mais exactamente, com a togetherness a que tantas vezes se refere. E bem difícil havia de ser que numa ilha de náufragos, como era então o mundo saída da Guerra de 14, pudesse acontecer um encontro assim, sereno e compreensivo…» In José Cardoso Pires, Histórias de Amor, colecção Os Livros das Três Abelhas, Editorial Gleba, Lisboa, 1952, Arquivo Nacional da Torre do Tombo.

Cortesia E Gleba/JDACT

terça-feira, 21 de abril de 2015

Histórias de Amor José Cardoso Pires. «Mas acabam por equivaler-se os dois dramas: instintivo um, sublimado o outro, ambos vêm a demonstrar-se inconsequentes em si mesmo e sem solução real e efectiva, impasse este de que procurou libertar-se a odisseia…»

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«Falando de amor como objecto de literatura, falo por certo de Lawrence, mergulhado na teia freudiana das majestosas triangular love stories que nos legou, solitário na sua condição de homem-de-elite e sofrendo toda a amargura do isolamento que nele e à sua volta reina. Desdenhoso e mártir, recusa-se a ultrapassar o limite da justificações individuais e firma por isso nos signos de Édipo, nas intangíveis rotas do instinto ancestral, a raiz última do comportamento dos seus personagens. E f alo também de Gide, outro sinal da mesma latitude, patriarca da irrealidade feita, ainda, realidade particular: Tocando a tema e pousando nela apenas um pé nu, o mago Gide desfia as sentenças dum paganismo divinizado e entroniza Nathanael, esse filho pródigo de Werther, dogmático de candura e despido de sinceridade afectiva. Ousa, assim, descrever a oratória do idílio intemporal, a coberta duma visão limitada do tempo e dos fenómenos que a compõem. De intemporal que é, o amor dita intelectualizado de Nathanael queda-se numa suspensão latente sem aquela carga emotiva que vigora na libertação mítica da soledade de Constance de Chatterley, por exemplo.
Mas acabam por equivaler-se os dois dramas: instintivo um, sublimado o outro, ambos vêm a demonstrar-se inconsequentes em si mesmo e sem solução real e efectiva, impasse este de que procurou libertar-se a odisseia de Davíd H. Lawrence ao ensaiar uma ética do instinto ou, já em última análise, resignando-se a reduzir toda a luta a um entendimento inteligente da couple: Saibamos ao menos, disse ele, pensar sexualmente com inteligência e plenitude. - Recurso extreme, creio eu, de quem não pode já agir, pensando. Não me repugna aceitar que ao leitor a comparação possa parecer excessiva e descabida. Arrisco sublinhá-la, apesar de tudo, em vistas da grande marca que tanto Lawrence como Gide deixaram na literatura actual em que se erguem como magníficos e renovados pilares dos velhos cânones do amor. Se venho falar de ambos é porque cuido que o retorno a estes velhos princípios, mormente ao clássico triângulo sentimental e à consequente luta pela conquista da mulher, tende a alienar a verdadeira imagem do homem de hoje. Vida e força da temática de Lawrence, tal luta, se bem que na superfície antagónica da assexuada e metafísica especulação gideana, vem não obstante a confundir-se com ela num paralelo de igual latitude: o amor como razão primeira e última do homem». In José Cardoso Pires, Histórias de Amor, colecção Os Livros das Três Abelhas, Editorial Gleba, Lisboa, 1952, Arquivo Nacional da Torre do Tombo.

Cortesia E Gleba/JDACT