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domingo, 17 de novembro de 2019

Papas. Imperadores e Hereges na Idade Média. José D’Assunção Barros. «À parte estas origens, deve-se ter em vista que o significado da palavra heresia foi adquirindo novos matizes com os desenvolvimentos medievais»

jdact e wikipedia

Heresias na Idade Média. Considerações sobre as fontes e discussão historiográfica
«(…) Heresias, na sua origem, eram divergências que se estabeleceram no próprio seio do cristianismo por oposição a um pensamento eclesiástico que tivera sucesso em se fazer considerar ortodoxo. A palavra ortodoxia, neste caso, estará em referência à ideia de um caminho recto associado a um pensamento fundador original, no caso do cristianismo a um pretenso pensamento que derivaria do Cristo e de seus apóstolos, bem como dos textos bíblicos naquelas das suas interpretações que se queriam considerar as únicas corretas. Desde já, será preciso pontuar que, seja no âmbito das heresias do mundo antigo e da Alta Idade Média, ainda marcadas por serem essencialmente divergências de nível teológico, seja no âmbito das heresias que surgem na Idade Média Central e posteriormente na Baixa Idade Média, estas últimas por vezes já prenunciando a Reforma Protestante do século XVI, a verdade é que em todos estes casos hereges e ortodoxos, conforme sejam chamados de acordo com o jogo dos poderes de nomear, sempre acreditaram tanto uns como outros serem os verdadeiros defensores da verdade da fé. Ou, para falar nos termos propostos por Duby na conferência de encerramento do congresso de historiadores sobre Heresias e Sociedades realizado em Rougement, em 1968, a questão é que todo o herético tornou-se tal por decisão das autoridades ortodoxas. Ele é antes de tudo um herético aos olhos dos outros. O reconhecimento deste ponto, conforme veremos, deve constituir um primeiro cuidado para o estudo das heresias como fenómeno histórico e social.
Dentro desta perspectiva, para considerar de início a história mais remota das heresias, vale lembrar que a partir do final do século II as heresias começam a ser catalogadas por aqueles que conseguiram fazer prevalecer seus posicionamentos nestes séculos iniciais de formação da Igreja Cristã, tanto na sua vertente oriental como ocidental. No século V, já teremos um texto importante de Santo Agostinho denominado De heresibus, que a certa altura lista nada mais nada menos que 88 heresias, transmitindo esta listagem para períodos mais avançados da Idade Média. Do mesmo modo, Santo Isidoro enumera nas Etimologias, escritas no século VII, 70 heresias. Isto nos dá uma ideia do gesto de arbitrariedade que de algum modo pauta a intenção de classificar pensamentos heréticos que se desviam da ortodoxia, isto é, do pensamento que pretensamente descenderia em linha recta do pensamento de Cristo ou dos primeiros Padres da Igreja conforme as autoridades eclesiásticas dominantes.
À parte estas origens, deve-se ter em vista que o significado da palavra heresia foi adquirindo novos matizes com os desenvolvimentos medievais. Háiresis, em grego, significava escolha, partido tomado, mas também o acto de pegar. Para os teólogos, uma metáfora se produzia aqui em alusão ao gesto de Adão e Eva que, segundo o Antigo Testamento, estenderam a mão para pegar o fruto proibido e com isso inauguraram um pensamento discordante em relação a Deus. Heresia corresponderia então, para os primeiros Padres da Igreja e os seus dignitários posteriores, a esta visão particular e discordante. Assim, de uma palavra que no grego original poderia significar a acentuação de um aspecto particular da verdade, passava-se no cristianismo primitivo a um sentido em que heresia se apresentava como negação da verdade original e aceita, ou como pregação de um evangelho diferente daquele que era divulgado pelas verdades apostólicas». In José D’Assunção Barros, Papas, Imperadores e Hereges na Idade Média, Editora Vozes, 2012, ISBN 978-853-264-454-1.

Cortesia EVozes/JDACT

terça-feira, 3 de abril de 2018

Papas. Imperadores e Hereges na Idade Média. José D’Assunção Barros. « As ideias de nomear este período limítrofe como Antiguidade Tardia ou Idade Média Primitiva, caminham juntas…»

Cortesia de wikipedia e jdact

Novas leituras: cultura, psicologia, mentalidade, vida quotidiana
«(…) Sugerindo uma periodização diferenciada, Henri Marrou (1980) propõe-se a examinar o período que envolve a passagem da Antiguidade à Medievalidade considerando questões também ligadas à psicologia e à cultura, mostrando-se particularmente atento aos desenvolvimentos estéticos como sinais importantes para a compreensão das singularidades de um período no qual, além das transformações, as permanências não devem ser esquecidas como importantes elos que conduzem a história. A sua organização cronológica delineia um período entre os séculos III e VI, para o qual a fusão da cultura pagã com os valores cristãos adquire um destaque particularmente significativo, ao lado da afirmação de novas concepções religiosas e estéticas. Ao mesmo tempo, ao encaminhar uma análise que considera as inovações, mas também está atenta para as permanências, Marrou é um historiador importante no que se refere à utilização de um novo conceito na periodização da história da civilização ocidental: o de Antiguidade Tardia, conceito na verdade proveniente da historiografia alemã das décadas de 1910 e 1920, mas que é aqui retomado com especial expressividade.
Outros autores reinvestiriam neste conceito, permitindo-se variar os limites inicial e final deste período que passaria a ser reivindicado como território historiográfico tanto pelos historiadores da Antiguidade como pelos historiadores da Idade Média. As ideias de nomear este período limítrofe como Antiguidade Tardia ou Idade Média Primitiva, caminham juntas, ambas com direito a legitimidade no universo das possibilidades historiográficas. Conforme se olhe para o período com vistas à compreensão dos desenvolvimentos terminais da Antiguidade, ou com vistas à compreensão dos novos processos que mais tarde se consolidariam como tipicamente medievais, teríamos uma possibilidade ou outra. O período limítrofe, aqui considerado, pode se apresentar como disputa de território entre historiadores da Antiguidade e da Idade Média, mas também pode apresentar-se como espaço de diálogo, como lugar onde nativistas e medievalistas se encontram para intercambiar as suas ideias e experiências. De todo o modo, a tendência da historiografia a partir do século XX, conforme se vê, foi a de permitir múltiplas leituras do fenómeno da passagem da Antiguidade à Medievalidade, aliás considerando criticamente os limites espaciais e historiográficos destas expressões. De qualquer modo, a multiplicação de leituras deste período limítrofe entre o que se convencionou chamar de duas eras bem diferenciadas mostra-se interferida por uma profusão de novas perspectivas que, na historiografia contemporânea, introduzem uma miríade de novos campos históricos, como a história social, a história económica, a história cultural, a história das mentalidades, a história demográfica, bem como novas abordagens definidas por campos históricos que vão da história serial à micro-história. Esse enriquecimento de novas perspectivas, aliado à ideia de que a história desenvolve-se através de uma polifonia de temporalidades, tem permitido aos historiadores contemporâneos perceberem, cada vez mais, que não podem existir periodizações fixas e inflexíveis, já que os diversos problemas serem examinados é que definem cada qual a sua periodização.

Novas leituras: história e complexidade
Vale ainda lembrar que, no contexto dos mais estreitos diálogos interdisciplinares que se vão desenvolvendo na historiografia contemporânea, entrar em porto no âmbito teórico também têm permitido reequacionar a passagem da Antiguidade à Medievalidade como fenómeno extremamente complexo. A ideia de que teria ocorrido uma ruína ou desagregação do Império Romano em todos os seus níveis de organização, e não apenas no âmbito político, com a consequente reorganização de elementos para a constituição de um novo sistema, tem sido proposta também por historiadores que buscam amparar as suas análises na teoria da complexidade. Aborda-se, aqui, a possibilidade de considerar o Império Romano como um sistema adaptativo complexo, que entra em crise quando seus diversos componentes estruturais já não respondem com precisão e na mesma proporção ao princípio agregador do sistema». In José D’Assunção Barros, Papas, Imperadores e Hereses na Idade Média, Editora Vozes, 2012, ISBN 978-853-264-454-1.

Cortesia EVozes/JDACT

segunda-feira, 2 de abril de 2018

Papas. Imperadores e Hereges na Idade Média. José D’Assunção Barros. «Atentando para uma importante questão associada à psicologia social, o historiador irlandês Peter Brown constrói a sua explicação para o ‘fim do mundo antigo’»

Cortesia de wikipedia e jdact

«(…) Carlos Magno, representando o mundo carolíngio, surge na sua análise como o inevitável contraponto histórico de Maomé, signo da expansão islâmica.

Novas leituras: cultura, psicologia, mentalidade, vida quotidiana
Se o diálogo mais intenso com a economia permitiu o desenvolvimento de novas análises e organizações cronológicas da passagem da Antiguidade Romana à Medievalidade Europeia, o século XX também trouxe uma atenção especial a questões direccionadas para a percepção da psicologia do homem, o estudo das mentalidades, o exame da vida quotidiana. O mesmo movimento de expansão que permitiria que se afirmasse uma psico-história, uma história das mentalidades, uma história do quotidiano, e tantos novos domínios, também permitiu que novas dimensões fossem priorizadas pelos historiadores deste período que permeia a passagem da Antiguidade à Idade Média.
Em parte, a multiplicação de novos pontos de vista sobre a passagem é produto tanto de uma diversificação temática, mais atenta às diversas dimensões da vida humana e social, como de novas alternativas de fontes e novos concursos interdisciplinares. Tanto a leitura das continuidades como das rupturas envolvidas na passagem do mundo antigo à medievalidade adquirem outras cores com a diversificação de novas possibilidades de fontes. É assim que a ideia de queda é mais uma vez retomada por Brian-Ward Perkins, um arqueólogo que recria através de diversificadas fontes da cultura material um contundente quadro da dura e violenta realidade quotidiana dos que vivenciaram a passagem do mundo antigo para os novos tempos. Ao enfatizar a ruptura, a obra se confronta, pode-se dizer que corajosamente, com os sectores historiográficos que enfatizam as continuidades e que, mesmo em alguns casos, minimizam os aspectos que remetem às violências envolvidas no processo de adaptação das populações do Império Romano ao domínio germânico. Rigorosamente falando, podem ser percebidos reflexos das discussões contemporâneas em torno da unidade europeia no confronto da obra de Brain-Ward Perkins contra todo um amplo sector de estudos contemporâneos que enfatizam os aspectos multiculturalistas, adaptativos e mesmo pacíficos desta movimentação de populações que rompe as fronteiras do Império. A ênfase nas continuidades, minimizando as violências do processo, viria obviamente ao encontro da posição da União Europeia nos dias de hoje (discurso em favor de uma unidade e identidade europeias, sem depreciar circuitos culturais relacionados à ancestralidade das diversas realidades nacionais europeias). Mas esta é certamente uma discussão que nos levaria muito longe.
De todo o modo, o facto é que, com a emergência de uma atenção historiográfica voltada para as mais diversas dimensões da vida humana, permite-se cada vez mais que sejam vistos como períodos dotados de suas próprias singularidades tanto o período do Baixo Império Romano, examinado não mais como um período de decadência, como o período que se situa entre a extinção política do Império Romano do Ocidente e a expansão islâmica no século VIII. As contribuições são inúmeras, e vão desde as leituras atentas às práticas culturais elaboradas por André Chastagnol, um autor que, além de uma leitura mais totalizante como a desenvolvida em O Senado Romano à Época Imperial, procurou examinar questões culturais mais específicas como a das festas imperiais, até às análises atentas às representações culturais e às práticas discursivas desenvolvidas por Averil Cameron, conforme seus estudos sobre A Cristandade e a retórica do império. Do mesmo modo, a atenção à complexidade dos fenómenos culturais, às práticas e representações, aos discursos e sua recepção tem encontrado contribuições fundamentais nos diversos autores preocupados em trazer para primeiro plano uma história cultural da última fase do Império Romano, e este é também o caso de Ramsay MacMullen, que examina desde os movimentos mais gerais relacionados à cristianização do Império até aspectos mais específicos como a utilização das dimensões lúdica e simbólica pelos imperadores romanos no seu relacionamento com a plebe urbana, a oposição contrastiva entre o soldado romano e o civil, ou a recepção discursiva do texto religioso. Mas vamo-nos fixar numa obra que também já se tornou um clássico em termo de reflexão e redefinição de temporalidades com relação à última fase histórica da Antiguidade Romana.
Atentando para uma importante questão associada à psicologia social, o historiador irlandês Peter Brown constrói a sua explicação para o fim do mundo antigo, destacando neste caso o período do Baixo Império entre os séculos III e IV, a partir de uma análise que ressalta enfaticamente, como acontecimentos mais relevantes, a cristianização do Ocidente e a transformação político-militar a partir dos exércitos romanos das províncias (240 d.C.). Para o primeiro factor, um aspecto ligado a transformações psicológicas presentes na sociedade, Brown destaca o pronunciamento no homem comum da necessidade de um deus intimista. Esta mesma necessidade, que ampara na sociedade mais ampla a cristianização do mundo antigo, daria origem também ao monacato, que posteriormente viria a desenvolver-se como uma importante alternativa característica da religiosidade medieval». In José D’Assunção Barros, Papas, Imperadores e Hereses na Idade Média, Editora Vozes, 2012, ISBN 978-853-264-454-1.

Cortesia EVozes/JDACT

Papas. Imperadores e Hereges na Idade Média. José D’Assunção Barros. «… o domínio islâmico do Mediterrâneo Ocidental não apenas quebrará uma unidade mediterrânica que teria caracterizado a Europa até ao século VIII…»

Cortesia de wikipedia e jdact

«(…) A emergência de campos históricos enfatizando a economia e as relações sociais, por exemplo, abre um certo conjunto de possibilidades e de novas leituras possíveis, inclusive permitindo novas periodizações. Uma história económica ou social do Império Romano, por exemplo, impõe cada qual o seu conjunto de recortes que em nada coincidirá com o conjunto produzido pela história política do tipo que era tradicionalmente realizado no século XIX. Seja no âmbito dos historiadores marxistas do século XX, seja no âmbito dos historiadores que são influenciados pela abordagem económica e social da primeira fase dos Annales, surgem aqui novos modelos narrativos e analíticos que geram as suas próprias periodizações. Apenas para citar o âmbito das análises marxistas, outros serão os acontecimentos processuais que deverão ajudar a compreender a passagem da Antiguidade à Idade Média.
Surgem aqui novas possibilidades, considerando as duas definições da história propostas por Marx, de um lado a de que a história é a história da transformação dos modos de produção, e, de outro, a ideia de que a mesma é a história da luta de classes. Para o caso do estudo da passagem da civilização romana para as civilizações medievais, impõe-se de um lado o acontecimento processual da superação do modo de produção escravista num Império que nos seus limites já não consegue conservar a acumulação de mão de obra escrava; de outro lado, destacam-se as crises sociais do século III como acontecimentos fundamentais. Conforme a análise marxista em questão centre a sua atenção mais na ultrapassagem do modo de produção ou na luta de classes, tem-se a possibilidade de matizes diferenciados dentro da análise da passagem da Antiguidade Romana à Medievalidade Ocidental, segundo a abordagem oferecida pelos princípios do materialismo histórico. Apenas para citar dois exemplos, indicaremos as análises propostas por Staerman (1976) e por Andersen (2000).
Seria possível citar também como exemplo de análise que traria a primeiro plano a economia na sua relação com a sociedade a avaliação de Max Weber sobre a passagem da Antiguidade à Idade Média. Também considerando importantes as transformações no regime de trabalho e exploração económica, e avaliando tanto o colapso do sistema escravista como a perspectiva da emergência de uma economia natural, Weber concede uma atenção especial à passagem de uma civilização essencialmente urbanizada para uma civilização que se vai ruralizando nos seus aspectos essenciais. Esta consideração de que o traço essencial da Antiguidade Clássica é a combinação de escravismo e urbanização leva Weber a examinar atentamente o desaparecimento gradual do comércio local e de longa distância, já desde fins do século II.
É também uma explicação e uma periodização atenta aos movimentos comerciais a que nos apresenta o medievalista belga Henri Pirenne. Desenvolvendo uma tese que posteriormente desencadeou muitas críticas, Pirenne destaca como acontecimento mais relevante no decurso de estabelecimento da Idade Média um processo aparentemente político, mas que na verdade tem a sua importância precisamente em virtude dos efeitos económicos que desencadeia. O grande divisor de águas, para o historiador belga, é o acontecimento da expansão islâmica no século VIII, precisamente porque, segundo a sua análise, o domínio islâmico do Mediterrâneo Ocidental não apenas quebrará uma unidade mediterrânica que teria caracterizado a Europa até ao século VIII, como porque ao fazer isso se rompem os caminhos comerciais que sustentavam até então a vida material do Ocidente Europeu, forçando o deslocamento do eixo político-geográfico da nascente civilização do Ocidente Medieval para o centro da Europa». In José D’Assunção Barros, Papas, Imperadores e Hereses na Idade Média, Editora Vozes, 2012, ISBN 978-853-264-454-1.

Cortesia EVozes/JDACT

quinta-feira, 29 de março de 2018

Os Trovadores Medievais e o Amor Cortês. Reflexões historiográficas. José D’Assunção Barros. «Daí o papel simbólico do marido ciumento, traído, ou desprezado secretamente pela esposa em favor do amante cortês»

Cortesia de wikipedia e jdact

«(…) O Amor Cortês pode ser apontado como um momento inovador na complexa história humana dos modos de sentir e de suas formas de expressão. A sua emergência através da poesia trovadoresca deixou tão indeléveis marcas no repertório ocidental de possibilidades estéticas de expressar e vivenciar o amor, e na própria imaginação do homem ocidental pertencente à temática amorosa, que frequentemente se aponta o despontar dos trovadores medievais no século XII como o instante mesmo da invenção do amor romântico no Ocidente. Em que consistia, antes de mais nada, este Amor Cortês que rapidamente se difundiu na Europa a partir das cantigas dos trovadores do sul da França, das suas próprias vidas, ou dos romances que tiveram na história de Tristão e Isolda o seu exemplo mais extremado e no Lancelote de Chrétien de Troyes a sua exposição mais sistemática? Antes de tudo, conheçamos as personagens fundamentais do Amor Cortês. No centro de tudo, um Amador que se entrega de corpo e alma a uma paixão incontrolável e ao dedicado serviço amoroso da mulher amada. E ela: uma Dama que, aos olhos do amante apaixonado, é a mais bela e perfeita de todas as mulheres. Uma Dama, deveremos acrescentar, que é em geral inatingível, ou por estar espacialmente inacessível (talvez por morar num país distante) ou, quem sabe neste caso um obstáculo ainda mais intransponível, por ser socialmente inacessível. Nesta última situação aparece eventualmente um terceiro personagem: o marido da dama, já que com alguma frequência a mulher eleita pelo trovador provençal ou pelo herói do romance cortês é casada ou comprometida (via de regra com um poderoso senhor feudal). Por fim, os personagens coadjuvantes: em alguns casos um confidente da confiança do trovador apaixonado, e em outros casos os delactores, os aduladores, os intrigantes, os maledicentes da vida amorosa e os bisbilhoteiros, globalmente classificados como losengiers pelas cantigas trovadorescas, que estão sempre prontos a denunciar o caso de amor ou a difamar os seus envolvidos. Envolvendo tudo, um Amor tão extremado quanto ambíguo, trazendo no mesmo movimento uma indisfarçável carga de erotização e uma dimensão idealizada, ao mesmo tempo em que carrega a mistura dramática que faz com que este amor subtil tanto enobreça e ensine aquele que ama, como o empurre tragicamente em direcção ao sofrimento e até à morte. Completam o conjunto de sentimentos que o Amor Cortês envolve o desejo, maior do que tudo no mundo, mas irrealizável sob pena de que se acabe o próprio amor, e o perigo de que este amor seja descoberto, e que isto acarrete no fim da relação amorosa ou abale a reputação da dama.
Todos estes elementos habitam o plano da sensibilidade e, talvez pela primeira vez com tal intensidade, ameaçam trazer o sentimento para um lugar destacado no cenário medieval, acima mesmo da fé religiosa, da razão erudita, do utilitarismo quotidiano. Conclamar uma autonomia dos sentimentos implica naturalmente na possibilidade de uma nova proposta de leitura das relações entre os dois sexos, relações que, do ponto de vista da cortesia, não deveriam ser mais regidas exclusivamente pela força, pelo instinto, pelo interesse, pelo acomodamento entediante. Não é de se estranhar que o Amor Cortês tenha apresentado uma decisiva faceta anti-matrimonial, já que o casamento era precisamente o território da sujeição do feminino pelo masculino, do acomodamento do indivíduo aos interesses sociais e familiares, da tutela religiosa através do sacramento. Daí o papel simbólico do marido ciumento, traído, ou desprezado secretamente pela esposa em favor do amante cortês. Este marido, entrincheirado de dentro do casamento oficial, representa o mundo da ordem contra o qual se insurge a primazia dos sentimentos proposta pelo Amor Cortês». In José D’Assunção Barros, Os Trovadores Medievais e o Amor Cortês, Reflexões historiográficas, 1995, revista Alethéia, UFG, Abril/Maio, 2008.

Cortesia de RAlethéia/JDACT

Os Trovadores Medievais e o Amor Cortês. Reflexões historiográficas. José D’Assunção Barros. «No sul occitânico o subconjunto provençal dos troubadours, da langue d'oc e da civilização cátara, berço do amor cortês»

Cortesia de wikipedia e jdact

«(…) Todos estes universos trovadorescos guardam as suas próprias especificidades. Mas existem certas características comuns que tocam todo o grande conjunto de poetas-cantores medievais, como a itinerância de boa parte de seus participantes ou a oralidade da sua produção. A entender por estes critérios, a cultura medieval contou com uma longa duração de movimentos trovadorescos nas várias partes da Europa (a partir da Idade Moderna esta longa duração desfaz-se num mundo que será progressivamente tomado pelo predomínio da escrita, pela separação entre poesia e música, pela profissionalização mais estabilizadora do artista, e por toda uma série de novas práticas que deixarão o mundo dos trovadores medievais para trás). E, contudo, naquela espécie de longa duração trovadoresca marcada pela itinerância e pela oralidade se inscrevem as durações mais curtas, compreensíveis a partir de um enfoque historiográfico que permite isolar os diversos trovadorismos de acordo com as sociedades que os envolvem. É aqui que surge uma acepção mais restrita para a designação trovadores. Segundo esta, o movimento trovadoresco pode remeter a uma realidade mais específica, como a das cortes régias e senhoriais a partir do século XI, quando a cultura aristocrática assimila a produção poético-musical como uma de suas actividades distintivas. Os historiadores puderam debruçar-se mais especificamente sobre estes trovadores cortesãos que actuaram no Ocidente Europeu entre os séculos XI e XIV porque eles deixaram muitos registos, seja sob a forma de cantigas das quais se conhece a poesia e a música que foram anotadas em grandes códices de manuscritos palacianos, seja sob a forma de relatos acerca de suas vidas que nos foram legados pelos cronistas da época e por textos difundidos pelos próprios trovadores. É frequentemente a este universo trovadoresco mais singular que muitos historiadores se referem quando utilizam a designação trovador. Assim, esta acepção mais restrita representa uma espécie de recorte, no espaço social e no tempo, dentro da produção trovadoresca mais ampla. Refere-se pois à poesia, popular ou aristocrática, que circulava no meio cortesão, notando-se que desta circulação participavam os mais diversos tipos sociais. Além disso remete a um período que vai do século XI ao XIV, estendendo-se ao século XV em algumas cortes alemãs. É a esta contribuição trovadoresca mais específica que nos referiremos a partir daqui. Tal como foi dito, característica comum à boa parte dos trovadores medievais de que trataremos aqui era a sua itinerância, ainda que esta não deva ser exagerada, já que muitos trovadores se estabeleciam a seu tempo em alguma corte ou região. Ser um meio movente traz uma efervescência especial ao meio trovadoresco. O trovador liga-se por esta afinidade àquelas figuras do cavaleiro andante, do clérigo errante, do mercador e navegante, cada qual um elemento importante no processo de transformação da sociedade medieval a partir do século XI. Ao mesmo tempo, a itinerância punha em contacto todos os trovadores, facilitava as trocas culturais e criava uma grande malha que recobria todo o Ocidente Europeu com o seu tecido de versos e sonoridades. O grande concerto dos poetas-cantores tinha contudo os seus timbres internos. Para efeito de simplificação, consideremos as cinco principais regiões culturais em termos de produção trovadoresca. A França via-se então dividida culturalmente em norte e sul, daí gerando dois subconjuntos distintos e separados pela linguagem. No sul occitânico o subconjunto provençal dos troubadours, da langue d'oc e da civilização cátara, berço do amor cortês. No norte, os trouvères, cantando na langue d'oil as primeiras canções de gesta. Em torno do vale do Pó, foi mais tardio o movimento dos trovadores italianos, dando origem ao chamado dolce stil nuovo. Na Alemanha, a Minnesang contribuía com a sua versão germânica para o amor cortês (minne = amor subtil) e para outros géneros trovadorescos. Finalmente, o subconjunto dos trovadores galego-portugueses, que unificava através de uma língua poética comum boa parte da península ibérica cristã (com excepção de Aragão e da Catalunha, mais ligados ao circuito provençal). Dos cinco subconjuntos destacados, o Provençal pode ser tomado como o grande pólo de irradiação que detonou o trovadorismo de corte. A grande novidade trazida por estes troubadours do sul occitânico (cortes da Provença, Toulouse, região da Catalunha) foi sem sombra de dúvida o Amor Cortês. Explica a sua irresistível difusão por toda a Europa Feudal o facto de que este novo modelo do sentir estava em imediata sintonia com os valores feudo-vassálicos do seu tempo, com formas apaixonadas de religiosidade que então surgiam, com necessidades sociais inter-familiares que proporcionaram não apenas o surgimento dos trovadores, mas também dos cavaleiros andantes em busca de aventuras e de oportunidades. É esta contribuição mais específica do Amor Cortês que enfocaremos agora. Ela não é a única contribuição do trovadorismo para a cultura medieval e para a história do pensamento do homem ocidental, mas seguramente é a mais impactante». In José D’Assunção Barros, Os Trovadores Medievais e o Amor Cortês, Reflexões historiográficas, 1995, revista Alethéia, UFG, Abril/Maio, 2008.

Cortesia de RAlethéia/JDACT

quarta-feira, 28 de março de 2018

Os Trovadores Medievais e p Amor Cortês. Reflexões historiográficas. José D’Assunção Barros. «Os trovadores medievais ajudaram certamente a escrever um dos capítulos mais fascinantes da História da Cultura na Idade Média»

Cortesia de wikipedia e jdact

«Entre os séculos XII e XIV, num contexto de desenvolvimento do trovadorismo medieval que inclui dimensões que vão do reflorescimento urbano à expansão feudal, prosperaram em reinos que iam desde a França até aos reinos ibéricos de Portugal e Castela movimentos trovadorescos extremamente significativos que continham entre si similitudes e contrastes. O objecto deste artigo será examinar as relações do trovadorismo medieval com o Amor Cortês, analisando o surgimento de um novo padrão de sensibilidade entre os poetas medievais.
Os trovadores medievais ajudaram certamente a escrever um dos capítulos mais fascinantes da História da Cultura na Idade Média. De certo modo, estes músicos-poetas estão no centro de um novo modo de pensar e de sentir, e é isto o que habilita os historiadores de hoje a avaliarem a sua contribuição muito específica para a cultura medieval. Os próprios trovadores costumavam ver a si mesmos como portadores de um novo tipo de ciência: uma Gaia Ciência, isto é, uma ciência alegre, ou, se assim quisermos, uma ciência gaiata, ao mesmo tempo articulada ao mundo e capaz de transcendê-lo. Mas é verdade que esta gaia ciência, expressão de um aprendizado em que o trovador tornava-se um mestre da arte de viver intensamente, e de transformar a sua própria vida em obra de arte, também podia implicar em sofrimento. O Amor Cortês, criação original dos trovadores que foi tão bem traduzida pelas cantigas trovadorescas de amor e pelos romances corteses do período medieval, não raro podia levar ao desespero, à paixão desmedida, ao desejo de morte diante da impossibilidade de realização da união com a mulher amada. Eis aqui índices extremamente significativos que denotam o surgimento de um novo modelo de sensibilidade amorosa e de atitude estética diante da vida. Mas antes de abordar este ponto, convém situar os trovadores medievais no seu tempo, compreender esta designação que por vezes é tão ambígua, entender o espaço social em que eles se movimentavam. Num sentido mais amplo, pode-se chamar de trovadores a todos os poetas-cantores que percorriam a Europa nos tempos medievais, levando a sua poesia e o seu modo de vida a ambientes tão diversificados como a praça pública, as universidades ou as cortes principescas e aristocráticas. Nesta acepção mais ampla, a designação trovador termina por abarcar realidades tão diferenciadas como a dos skops anglo-saxônicos desde o século IV, a dos escaldos islandeses e noruegueses a partir do século X, a dos trovadores cortesãos do século XII em diante, a dos goliardos desde o século IX, a dos jograis um pouco por toda a Idade Média. E, mesmo tomando mais especificamente um destes tipos, por vezes recaímos em novas designações que são igualmente ambíguas. A designação jogral, por exemplo, é uma das mais vagas, já que por vezes se refere não apenas ao músico-poeta, mas também ao artista saltimbanco, ao histrião, ao malabarista, e a tantos outros profissionais do espectáculo que percorriam o mundo medieval oferecendo a sua arte e os seus serviços.
Compreender a diversidade trovadoresca nestes diversos tempos e sociedades implica na percepção de que os vários tipos de poetas-cantores podiam desempenhar funções diversas nas sociedades em que circulavam. Uns especializavam-se em difundir em verso mitologias povoadas por deuses guerreiros, como é o caso dos eddas noruegueses à época das invasões nórdicas contra o mundo românico; outros eram contratados para louvar dinastias reinantes, como ocorreu entre os reis e chefes guerreiros islandeses que mantinham nas suas cortes grandes círculos de poetas profissionais, os escaldos, para o seu próprio louvor e enaltecimento, e na verdade para a difusão de suas gestas num círculo social mais amplo. Havia os poetas-cantores que se dedicavam à poesia sagrada, como a dos trovadores que se empenharam em produzir cantos para o enaltecimento da Virgem Maria; e, num outro extremo, havia os que resolveram dedicar a vida a uma alegre vagabundagem, como os goliardos que desde o século IX difundiam canções de enaltecimento à vida mundana e sátiras contra uma sociedade que desprezavam. Outros, por fim, especializaram-se nas cantigas de amor, e inventaram mesmo uma nova forma de Amor, como foi o caso dos trovadores cortesãos que começaram a frequentar os palácios medievais a partir do século XII». In José D’Assunção Barros, Os Trovadores Medievais e o Amor Cortês, Reflexões historiográficas, 1995, revista Alethéia, UFG, Abril/Maio, 2008

Cortesia de RAlethéia/JDACT

sábado, 24 de março de 2018

Papas. Imperadores e Hereges na Idade Média. José D’Assunção Barros. «… já Salviano comporia uma obra, intitulada Do governo do mundo, para sustentar a ideia de que os desregramentos dos cristãos é que haviam atraído as invasões bárbaras»

Cortesia de wikipedia e jdact

Interlúdio: algumas leituras sobre a passagem que remonta à sua própria época
«(…) Diante das diversas avaliações produzidas na própria época sobre o fim do Império Romano como decorrente das invasões de povos não latinos, e também das avaliações sobre o declínio do Império como decorrentes da corrupção dos costumes, ou mesmo diante da consideração de pretensos desdobramentos negativos que se julgava que deveriam ser creditados à adopção do cristianismo como religião oficial do Império, pode-se dizer que estas interpretações produzidas na própria época não deixam de ser precursoras de posições historiográficas que se fortaleceriam depois. Os saques de Roma e a crise do fim do Império, enfim, ofereceram-se como verdadeira arena para combate intelectual entre defensores do paganismo ou do cristianismo que desejavam culpar o campo oposto pelos eventos mais alarmantes que iam se produzindo no Império. As várias posições possíveis encontraram argutos defensores. Já Montesquieu, nas suas Considerações sobre as causas da grandeza dos romanos, ilustrava esta pequena arena de ideias que se organizara na própria época dos acontecimentos mais traumáticos do último Império Romano mencionando exemplos das três posições clássicas: Orósio, Salviano e Agostinho. Assim, enquanto Orósio busca situar-se em uma posição relativizada no debate entre cristianismo e paganismo, escrevendo uma história para provar que em todos os tempos existiram desgraças tão grandes quanto aquelas de que se queixavam os pagãos (mas já induzindo a ideia de que a medida da ocorrência das desgraças é o afastamento em relação a Deus e, em última instância, em relação ao cristianismo), já Salviano comporia uma obra, intitulada Do governo do mundo, para sustentar a ideia de que os desregramentos dos cristãos é que haviam atraído as invasões bárbaras.
A posição de Santo Agostinho foi bem singular. Interessado em livrar o cristianismo de qualquer acusação ou responsabilidade pela queda do Império, já que à sua época autores pagãos insinuavam ou argumentavam bastante abertamente em torno da ideia de que a sujeição de Roma por povos pagãos revelava claros sinais de que o Império estaria sendo punido pelos deuses por sua adopção do cristianismo, ocupa-se em trabalhar com a ideia de um declínio que teria sido provocado precisamente pela corrupção dos costumes pagãos, que de acordo com sua argumentação já viria de tempos anteriores. A concretização maior desta argumentação, a par de uma extensa tentativa de demolir a filosofia não cristã e todas as críticas ao cristianismo, foi a obra intitulada Cidade de Deus, e nela a tese de um declínio da civilização romana herdada dos tempos do paganismo encontra um grande resguardo.
As duas posições, exemplificadas à própria época pelo contraste entre Salviano e Santo Agostinho, seriam retomadas constantemente em épocas posteriores, a do abate externo (com ou sem a punição de Deus ou dos deuses) ou a do declínio interno, e a interpretação de Maquiavel pode ser evocada como um exemplo de análise que novamente coloca os ataques bárbaros na centralidade do processo. Gibbon, por outro lado, já escrevendo em 1776, reformula a seu modo a ideia de um declínio interno, e sugere em certas passagens que o abuso do cristianismo teria exercido um papel considerável no declínio do Império, embora procure formular também a hipótese de que o declínio de Roma teria sido consequência natural e inevitável de sua desmedida grandeza

Novos campos e novas leituras contemporâneas: economia e sociedade
Conforme vimos até aqui, as posições de que os fins do Império Romano estão relacionados ora às agressões e penetrações dos povos não latinos, ora a factores internos, que podiam ir desde aspectos sociais a religiosos, foram recorrentes num longo período que principia à própria época dos acontecimentos mais marcantes que anunciaram a queda ou o declínio do Império Romano. Essas posições, de lado a lado, atingem os séculos XIX e XX com a célebre querela sobre o assassinato ou a morte natural do Império Romano. Mas logo abririam espaço para outras proposições, mais tendentes a enxergar a transformação de um período em outro, do que o fim taxativo de um grande período da história. Estas novas proposições, naturalmente, são beneficiadas precisamente pela multiplicação de novos campos históricos, para além da história política tradicional». In José D’Assunção Barros, Papas, Imperadores e Hereses na Idade Média, Editora Vozes, 2012, ISBN 978-853-264-454-1.

Cortesia EVozes/JDACT

Papas. Imperadores e Hereges na Idade Média. José D’Assunção Barros. «… ao longo de toda a história do Império Romano, contingentes menores ou maiores de migrações germânicas forçaram as fronteiras do Império…»

Cortesia de wikipedia e jdact

Novos campos historiográficos e novas leituras da passagem
«(…) A síntese desta complexa trajectória dos visigodos para dentro e por dentro do Império, com encaixes e desencaixes dos povos visigodos em relação ao Império e ao sentimento de pertença em relação à cidadania romana, revela-nos desde o século III sucessivas nuances: a de opositores militares, refugiados, povos assimilados, povos assimilados que se revoltam, contingentes militares integrados ao Império, contingentes integrados ao exército imperial que novamente se insurgem, para retornar então à nuance de opositores militares. Para além disto, deveríamos verificar ainda a nuance sempre presente de populações de visigodos que poderiam ser vistas simplesmente como migrantes, como grandes massas populacionais, que encontram oportunidade de se deslocar para terras romanas em busca de melhores condições. O congelamento de rios como o Reno, em certos invernos como o de 406, pode oferecer em certos momentos uma ponte natural para populações de povos não latinos que, do outro lado do rio, só poderiam concretizar este deslocamento massivo com o apoio deste providencial facto da natureza. Por outro lado, ao longo de toda a história do Império Romano, contingentes menores ou maiores de migrações germânicas forçaram as fronteiras do Império como um facto que sempre fora bem administrado.
No conjunto dos migrantes, novas nuances desenhavam-se, de salteadores que chegavam e partiam a homens procurando trabalho que se estabeleciam, a guerreiros que conseguiam ser assimilados no próprio exército romano. Percebemos, portanto, as mais distintas nuances acompanhando os deslocamentos visigodos, e de outros povos germânicos de modo geral, para dentro do Império e por dentro do mesmo, o que não permite falar apenas, taxativamente, de invasões visigodas, ou também de invasões bárbaras para os outros casos. A história demográfica, a história social, a história cultural, com seus extraordinários desenvolvimentos historiográficos a partir do século XX, permitiriam, aliás, examinar estes processos migratórios e estes grandes deslocamentos a partir de novas perspectivas, para além da que era antes proporcionada pela história militar.
                                        
Interlúdio: algumas leituras sobre a passagem que remonta à sua própria época
Antes de avançarmos num quadro mais diversificado de perspectivas sobre a passagem, será útil insistir na ideia de que, em que pese o facto de que tenha sido a história política do século XIX o que grosso modo favoreceu certas leituras acerca do papel das agressões externas ou do declínio interno na queda do Império Romano, diversas destas interpretações já vinham sendo colocadas até mesmo na própria época da passagem da Antiguidade para o período Medieval. Tal como foi ressaltado antes, acontecimentos como o saque visigodo de Roma em 410 impactaram de tal maneira os cidadãos do Império que, tão logo ocorreram, começaram a produzir imediatas interpretações. Exemplos significativos são as inquietações expressas em algumas das Epístolas de São Jerónimo, ou na já mencionada História contra os pagãos redigida por Paolo Orósio, para além de algumas interpretações cristãs de cunho milenarista que queriam pressentir, nos surpreendentes acontecimentos que assolavam o Império, a proximidade do fim do mundo. Em contrapartida, havia os que enxergavam nas transformações religiosas do Império, consolidando-se na adopção do cristianismo como religião única, a verdadeira origem das calamidades que agora se abatiam sobre a civilização romana, de modo que para salvar esta civilização seria preciso reverter ao paganismo. Por fim, havia os que viam as invasões germânicas e hunas como um brutal e irreversível acontecimento que estava prestes a soterrar inexoravelmente o mundo civilizado». In José D’Assunção Barros, Papas, Imperadores e Hereses na Idade Média, Editora Vozes, 2012, ISBN 978-853-264-454-1.

Cortesia EVozes/JDACT

Papas. Imperadores e Hereges na Idade Média. José D’Assunção Barros. «Na sequência, promoveriam saques de diversas cidades em direcção ao Mediterrâneo. Depois disso, com muitas negociações, os visigodos»

Cortesia de wikipedia e jdact

Novos campos historiográficos e novas leituras da passagem
«(…) De facto, os modernos estudos de história demográfica começaram a levar os historiadores a enxergarem numa perspectiva mais ampla penetrações e migrações dos povos não latinos, na qual a parte das invasões seria apenas a ponta de um iceberg mais significativo a ser considerado. De outro lado, os desenvolvimentos de uma história cultural em perfeito diálogo com a Antropologia tornavam inaceitável a segunda parte da expressão, a que permitia denominar certos povos como bárbaros. Da mesma forma, esta mesma história cultural, com a sua revolução de novos objectos, permitiu um exame mais pertinente da interacção entre as populações latinas e germânicas, ao lado da avaliação de seus confrontos de alteridade. O encontro e o choque de culturas, mais do que o entrechoque de exércitos, podia desempenhar a partir daqui um papel mais central nas análises historiográficas. Ainda a propósito da reavaliação da questão do impacto dos povos não latinos sobre o Império Romano, será preciso considerar, acompanhando as interpretações historiográficas mais recentes, que os povos não latinos (germânicos, citas) agridem ou adentram o Império de muitas maneiras, e não apenas como invasores que podem ou devem ser analisados de um ponto de vista estritamente militar. Assim, por exemplo, se tomarmos apenas como foco de análise o caso dos godos nos seus dois principais ramos, os ostrogodos e os visigodos, poderemos examinar várias nuances de adentramentos em momentos diversos, e, certamente, um grande leque formado por estas nuances ao longo de todo o processo. Os visigodos já vinham enfrentando militarmente os romanos desde 251 d.C., obtendo algum sucesso, e registam-se no decurso do século III muitas de suas incursões militares a territórios romanos. Mas já no século IV, quando sofrem terríveis derrotas diante de contingentes hunos vindos do leste e que os massacram e empurram para o Oeste, é na qualidade de uma massa de cerca de 100.000 refugiados visigodos que eles imploram e recebem autorização do imperador romano Valente para atravessarem o Danúbio de modo a viverem dentro dos limites do Império. Ali veremos multidões famintas e amedrontadas que atravessam o Danúbio, mais do que aqueles guerreiros conquistadores que logo ficariam imortalizados na imagem do saque de Roma no ano 410, e é nesta qualidade de uma massa de refugiados que eles são acolhidos em princípios do século IV, sendo notável destacar que passam inclusive a serem explorados pelas autoridades romanas com impostos excessivos e condições de trabalho desfavoráveis. A exploração é tanta, aliás, que já por volta da segunda metade do século IV eles estão a ponto de se rebelarem contra o Império que os acolhera, e é agora um confronto sob esta nova perspectiva, de povos que já estavam vivendo dentro dos limites do Império e sob o jugo das autoridades romanas, e que contra estas se rebelam, que veremos o embate de 378 entre romanos e visigodos, com a vitória destes últimos na célebre e marcante batalha de Adrianópolis, onde integram um exército confederado de povos não latinos que impõe pesada derrota ao exército imperial romano. Na sequência, promoveriam saques de diversas cidades em direcção ao Mediterrâneo. Depois disso, com muitas negociações, os visigodos são integrados pelo exército romano, e já em 382 vemo-los estabelecidos pelo Imperador Teodósio I numa província romana ao norte da Península Balcânica, onde desempenham um significativo papel na defesa daquelas fronteiras do Império até ao ano 395. E será já como exército vinculado ao Império que mais tarde, a partir de 401, em novo movimento para o oeste, eles se insurgem, novamente se desvinculando da autoridade Romana, até que os acontecimentos conduzem ao saque visigodo de Roma, sob o comando de Alarico, em 410. A história não se encerra aí, e já em 418 veremos os visigodos estabelecerem-se no sul da Gália e na Hispânia, já novamente como federados do Império, a partir de um acordo entre o imperador Constâncio e o rei Ataulfo dos visigodos. Mas em 475 assistiremos um novo movimento de independência onde Eurico estabelece um reino visigodo de Tolosa, desvinculado do Império». In José D’Assunção Barros, Papas, Imperadores e Hereses na Idade Média, Editora Vozes, 2012, ISBN 978-853-264-454-1.

Cortesia EVozes/JDACT

domingo, 28 de maio de 2017

Papas. Imperadores e Hereges na Idade Média. José D’Assunção Barros. «A polémica em torno da ideia de decadência aplicada à transição entre os períodos antigo e medieval é, como nos poderiam mostrar outros autores, bastante problemática»

jdact e wikipedia

«(…) Neste sentido, é de lembrar que já remonta aos próprios tempos antigos a diversidade de leituras estabelecidas em torno dos marcos históricos que foram pressentidos pelos próprios antigos como sinais do fim de todo um período. Assim, enquanto alguns autores pagãos, particularmente tomados por uma visão pessimista, tenderam a encarar o saque de 410 sob a perspectiva de um acontecimento que sinaliza uma decadência que havia fragilizado o Império e possibilitado o saque de Alarico, já será outra a visão de Paolo Orósio (c. 385- c. 420), autor da primeira história universal escrita por um cristão e entretecedor de uma avaliação dos acontecimentos históricos onde cada aspecto ou acontecimento é medido em função da sua aproximação ou afastamento em relação ao cristianismo. Para Orósio, o saque visigodo do ano de 410 é positivado simultaneamente como demonstração do juízo de Deus e como anúncio de uma nova era que estaria por vir, acrescentando-se ainda a ênfase numa leitura sobre Alarico como visigodo convertido que desfecha um golpe fatal sobre a Roma pagã. Este tipo de leitura divinizante da história, aliás, onde cada acontecimento (seja este um sucesso ou uma catástrofe) fala directamente de Deus e de uma relação dos actores humanos com Ele, que pode no caso ser punida ou premiada, seria prontamente incorporada na Idade Média.
Os embates em torno da perspectiva da decadência do Império Romano já afloram, portanto, na própria época de desarticulação do mesmo. Em vista disso, amparando-se numa cuidadosa análise historiográfica sobre a apropriação e reapropriações desta noção carregada de sentido valorativo, Santo Mazzarino procura ressaltar os problemas de utilização da noção de decadência pela moderna historiografia, e sua recomendação taxativa é a de rejeitar a compreensão da Antiguidade Tardia como um período de decadência.
A polémica em torno da ideia de decadência aplicada à transição entre os períodos antigo e medieval é, como nos poderiam mostrar outros autores, bastante problemática. Por fim, veremos oportunamente, ao lado das ideias de declínio, queda e decadência, outros conceitos que têm sido propostos pela historiografia recente, incluindo o de desagregação, todos com implicações mais específicas para o estudo do último período do Império Romano.

Novos campos historiográficos e novas leituras da passagem
Por ora, consideraremos que os desenvolvimentos modernos da historiografia sobre a passagem da Antiguidade à Idade Média correspondem precisamente à superação desta dicotomia que, apesar de gerada por posições aparentemente inconciliáveis, o assassinato ou a morte natural do Império, trazem como pano de fundo um mesmo posicionamento historiográfico francamente baseado nos acontecimentos políticos em nível institucional. Com o desenvolvimento da historiografia do século XX, o olhar dos historiadores vai como que se desatrelando desta exclusividade em relação à história política de âmbito institucional, e cada vez mais novas dimensões vão sendo colocadas em cena como questões centrais passíveis de serem examinadas. Economia, cultura, mentalidades, imaginário, demografia, a afirmação de novas especialidades da história voltadas para o diálogo com estas dimensões fundamentais permite que um mesmo conjunto de acontecimentos seja beneficiado por diversificadas cronologias que dependerão do problema a ser examinado pelo historiador.
Os estudos de análise histórica de populações, por exemplo, ao instituírem a partir de meados do século XX um novo campo histórico a ser definido como história demográfica, rechaçam por princípio a antiga maneira historiográfica de apodar de invasões bárbaras ao fenómeno do adentramento do Império Romano por povos diversos. Nem invasões e nem bárbaras, aliás, pois duplamente tem sido revista esta antiga maneira de interpretar o movimento de gentes que iria transformar tão completamente a face do Império Romano». In José D’Assunção Barros, Papas, Imperadores e Hereges na Idade Média, Editora Vozes, 2012, ISBN 978-853-264-454-1.

Cortesia EVozes/JDACT

terça-feira, 18 de abril de 2017

Papas. Imperadores e Hereges na Idade Média. José D’Assunção Barros. «O que é significativo, de qualquer modo, é que também nesta leitura o Mundo Romano e o Mundo Medieval são mostrados um tanto como planetas estanques»

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«(…) Consideradas as simplificações e complexidades possíveis a esta primeira leitura, consideraremos agora que, em radical oposição à tese de que a civilização romana é destruída pelas invasões ou migrações dos povos germânicos, teremos os historiadores que defendem a ideia do declínio do Império Romano. Opondo-se à frase de Piganiol de que o Império Romano foi assassinado, um dos defensores da hipótese do declínio, propõe a frase de que o Império Romano morreu de morte natural. Aqui, além da ideia do acontecimento que produz o corte ou a ruptura definitiva, teremos a ideia do processo que conduz à decrepitude de toda uma civilização. O acontecimento-ruptura é aqui, ainda mais necessariamente, substituído pelo acontecimento-processo. De qualquer forma, em um caso ou outro, ainda teremos a ideia de algo que termina, e não de algo que se transforma. Na análise de Lot, as crises sociais, económicas e políticas do século III teriam gerado uma nova resposta política assinalada por um estado interventor, corrupto e burocratizado que substitui a antiga autoridade senatorial. A esta crise, da qual o Império Romano jamais teria se recuperado, também se somaria o novo tipo de organização militar onde os povos germânicos incorporados ao Império desempenhariam um papel cada vez mais destacado, por vezes à maneira de mercenários. Estes e outros processos são mostrados como os sintomas de um declínio. O que é significativo, de qualquer modo, é que também nesta leitura o Mundo Romano e o Mundo Medieval são mostrados um tanto como planetas estanques: um começa onde o outro já se foi, e são bastante minimizadas as interpenetrações entre estes dois mundos. Podemos indagar sobre o que nos revela, acerca das concepções historiográficas que a sustenta, a dicotomia que permeia a ideia de que o Império Romano morre como um grande Ser, ora assassinado, ora definhando como um velho moribundo que ao final de sua vida vê esvair-se gradualmente a sua energia vital enquanto se desbotam os principais traços que lhe compunham a identidade. A ideia de um acontecimento-ruptura que teria presidido a morte do Império através da violência dos povos germânicos se adapta, por exemplo, a uma historiografia que tem importantes desenvolvimentos no século XIX, e que anseia delimitar com precisão o acontecimento, situando-o por vezes em uma data bem-definida, e de qualquer modo sempre enfatizando o acontecimento político, político no sentido antigo, do macro poder que se estabelece ao nível dos grandes estados, instituições e confrontos militares. Ao mesmo tempo, na outra ponta da dicotomia, a ideia de queda ou de declínio ampara-se em muitos casos, embora por um caminho distinto, nesta mesma velha história política que se orienta tendo como perspectiva central a ser analisada a capacidade de uma civilização manter ou não uma unidade imperial mais ampla. Perder a unidade política, deste ponto de vista, é morrer, envelhecer, decair em vigor. É aliás oportuno lembrar as considerações do historiador francês Jacques Le Goff sobre as apropriações historiográficas do conceito de decadência, um conceito que acrescenta um tom ainda mais depreciativo à ideia de declínio, e que também pode eventualmente ser direccionado para questões meramente políticas relacionáveis à desintegração da estrutura política.
Vale lembrar que o conceito de decadência foi colocado também em pauta pelas próprias gerações de pensadores que vivenciaram e se seguiram à desarticulação do Império Romano em favor das novas unidades políticas e territoriais que introduzem o período medieval. É assim que, em um célebre estudo sobre O fim do Mundo Antigo que é também já um clássico, Santo Mazzarino (1916-1987) busca historiar precisamente as trajectórias da ideia de decadência na produção literária e na cultura latina como um todo, reinserindo-a no confronto ideológico entre cristianismo e paganismo que eclode na época e se estende também por períodos posteriores. A ideia de decadência, e essa é uma chave importante para a compreensão do uso do conceito pelos próprios autores da época, implica sempre uma comparação do período que se considera como decaído ou decadente em relação a um período anterior, necessariamente visto como melhor. Assim, na ideia de decadência está sempre explícita, de algum modo, uma exaltação ao passado. A consideração acerca de qual seria o elemento que produz ou produziu a decadência, obviamente, transmuta-se conforme a perspectiva do analista, que na época dificilmente escaparia de um posicionamento em relação à questão da dicotomia entre paganismo (ou humanismo clássico) e cristianismo». In José D’Assunção Barros, Papas, Imperadores e Hereges na Idade Média, Editora Vozes, 2012, ISBN 978-853-264-454-1.

Cortesia EVozes/JDACT

quarta-feira, 30 de novembro de 2016

Papas. Imperadores e Hereges na Idade Média. José D’Assunção Barros. «Para a imagem, hoje bastante questionada, da Roma assassinada pelos bárbaros, os saques visigodo e vândalo parecem funcionar como duas facadas iniciais»

jdact e wikipedia

«(…) Do primeiro grupo de análises indicado, aquele que metaforiza o Império Romano como um grande ser vivo, tornou-se célebre e emblemática a frase do historiador Piganiol, que costumava afirmar que a civilização romana não morreu de morte natural; foi assassinada. A grande crise económica, política e militar do século III, marcada por intensas guerras civis, para Piganiol teria dado origem a uma nova concepção de poder imperial que se consolidaria no futuro Império Bizantino. A parte ocidental, contudo, não teria resistido aos avanços bárbaros, para utilizar esta expressão do próprio historiador, de modo que aqui a explicação da queda do Império é direccionada para os factores externos. Nesta mesma esteira, Arther Ferril (1989) defende a ideia de que o grande marco da queda seria o ano 476, por ocasião da deposição de Rómulo Augusto, o último imperador romano do Ocidente, por Odoacro, o que teria contribuído decisivamente para destruição do poderio militar romano. Guardemos esta primeira posição: ela nos revela o olhar do corte que vem de fora, da ruptura mais imediata. Outras datas importantes para este tipo de leitura da passagem que privilegia os eventos bélicos podem ser buscadas nos momentos emblemáticos em que povos não latinos saqueiam Roma, berço e símbolo máximo do poderio do Império Romano. Neste sentido, o saque de Roma pelos visigodos sob o comando de Alarico, em 410 d.C., vivido de maneira particularmente traumática pelos habitantes de Roma e de modo mais geral pelos cidadãos do Império nas diversas províncias, bem como o saque de Roma pelos vândalos em 455 d.C., parecem prenunciar de uma certa óptica este acontecimento aparentemente mais definitivo que é a deposição de Rómulo Augusto por Odoacro, rei dos hérulos, em 476 d.C.. Para a imagem, hoje bastante questionada, da Roma assassinada pelos bárbaros, os saques visigodo e vândalo parecem funcionar como duas facadas iniciais, e de facto pode-se dizer que de algum modo estes acontecimentos contribuíram significativamente para ferir irremediavelmente, no âmbito simbólico, a ideia de uma Roma inexpugnável. Mas daí a situar acontecimentos como estes na centralidade de um processo que por suposto teria conduzido abruptamente ao desaparecimento do mundo romano vai uma distância maior, e, em vista de um posicionamento crítico em relação à centralidade dos acontecimentos militares que teriam promovido todo um fim de uma época, surgiram concomitantemente novas interpretações, conforme veremos mais adiante. Por ora, vale lembrar ainda que mesmo a leitura do assassinato do Império Romano permite-se a examinar este que seria o fatídico momento ou o processo do assassinato, se assim podemos dizer, de modo bem mais complexo, e neste caso o acontecimento das invasões bárbaras pode ser lido não necessariamente como um saque em destaque ou uma invasão específica, mas sim como todo um conjunto de acontecimentos relacionados às invasões ou migrações germânicas. Neste sentido, fariam parte de um mesmo acontecimento-pacote, entre outros itens, os confrontos que se dão entre povos germânicos e romanos a partir do século III d.C., bem como eventos mais específicos, como o facto de que os godos já tinham aniquilado legiões romanas em Adrianópolis em 378 d.C., os saques visigodo de 410 d.C.. e vândalo de 455 d.C., fechando-se o pacote, finalmente, com a deposição de Rómulo Augusto em 476 d.C. Estes, naturalmente, são apenas alguns exemplos, e o acontecimento-pacote ao qual nos referimos engloba certamente muito mais eventos, alguns que possivelmente sequer passaram à história registada, mas que devem ter trazido a sua contribuição atomizada para o resultado geral que em um tempo relativamente curto mudou a face da história do mundo antigo». In José D’Assunção Barros, Papas, Imperadores e Hereges na Idade Média, Editora Vozes, 2012, ISBN 978-853-264-454-1.

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terça-feira, 29 de novembro de 2016

Papas. Imperadores e Hereges na Idade Média. José D’Assunção Barros. «… os valores greco-romanos que futuramente se tornariam uma base para a cultura burguesa, e o cristianismo, que se tornaria a religião predominante no Ocidente…»

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«Delimitar um grande período historiográfico no tempo, separando-o de um que se estende atrás dele e de outro que começa depois, é uma operação que traz indeléveis marcas ideológicas e culturais que nos falam da sociedade na qual está mergulhado o próprio historiador, dos seus diálogos intertextuais, de visões de mundo, que de resto estende-se para muito além do historiador que está estabelecendo seus recortes para a compreensão da história. Os próprios desenvolvimentos da historiografia, os novos campos históricos e domínios que surgem, a emergência de novas relações interdisciplinares, os enfoques a abordagens que se sucedem como novidades ou como reapropriação de antigas metodologias, trazem obviamente uma contribuição importante para que a cada vez se veja o problema da passagem de um a outro período histórico sob novos prismas. Examinaremos sob esta perspectiva a questão da Antiguidade e de sua oscilação de fronteiras temporais em relação à Idade Média, quando se tem em vista uma periodização da história no Ocidente. Será oportuno partir da constatação de que o acontecimento fundamental que rege muito habitualmente esta fronteira, ainda que se discutindo qual o momento mais emblemático a ser considerado, é recorrentemente o fim do Império Romano, ou o fim da civilização greco-romana, para considerar o problema em uma perspectiva mais ampla. Este acontecimento, que de resto não teria maior importância para as diversas histórias possíveis de serem construídas em relação às espacialidades não europeias, busca colocar precisamente em relevo a importância do Ocidente na história do mundo. De igual maneira, aqui temos um acontecimento-demarcador que também favorece uma historiografia cristã específica, pois o mundo antigo vai cedendo lugar ao mundo medieval à medida que a Igreja Cristã vai-se afirmando como força política importante, como aspecto definidor de uma nova civilização e, sobretudo, de uma nova cultura. É interessante observar, aliás, que a Antiguidade e a Idade Média são parceiras no projecto de fornecerem ao Ocidente Moderno e ao Contemporâneo dois de seus principais traços definidores de identidade: os valores greco-romanos que futuramente se tornariam uma base para a cultura burguesa, e o cristianismo, que se tornaria a religião predominante no Ocidente. Identitariamente, o Ocidente poderia ser apresentado simultaneamente como filho de Aristóteles e filho de Cristo, para falar em termos metafóricos. Por outro lado, se o fim do Império Romano, tomado como signo do próprio fim do mundo antigo, é habitualmente proposto como evento demarcatório entre os dois períodos, é relevante destacar que entre o desaparecimento do mundo antigo e a emergência da Idade Média existe uma grande zona temporal repleta de ambiguidades, por assim dizer, onde se confrontam intensamente as rupturas e permanências entre estas duas fases da história europeia. Por isso, esse grande período de alguns séculos, que alguns situam entre os séculos IV e VIII, ou mesmo entre os séculos III e VIII, tem sido perspectivado de maneira diferente pelos vários grupos de historiadores, gerando inclusive denominações distintas. Alguns dos historiadores da Antiguidade chamam-no de Antiguidade Tardia. Já alguns dos medievalistas preferem-no chamar de Alta Idade Média ou de Primeira Idade Média. Vale dizer que muitos dos medievalistas costumam ver neste período um começo, o início de uma nova era, e incorporam-no como seu território historiográfico. Reconhecendo as permanências trazidas da Antiguidade, que só lentamente se desfazem, centram contudo o principal de suas atenções sobre as rupturas, sobre o que este período traria de singularmente novo para a história. A posição no campo dos antiquistas é bastante dividida. Uma das dicotomias mais tradicionais, de certo modo já superada pela historiografia recente, é aquela que se estabelece no seio do grupo de historiadores que comparam a civilização greco-romana a um organismo vivo. De um lado teremos aqueles que investem no imaginário de que a civilização greco-romana teria desaparecido abruptamente; de outro, teremos aqueles que investem na ideia de que a civilização greco-romana foi definhando ou decaindo mais ou menos gradualmente. À parte isto, já veremos, seria possível visualizar o Império Romano não como organismo vivo, e sim como algo que a partir de certo momento vai se transformando nas novas realidades civilizacionais que se afirmariam no período medieval, de um lado o Império Bizantino, de outro a civilização ocidental cristã partilhada pelos novos reinos europeus. Por fim, a visualização do Império Romano não como organismo, mas como um outro tipo de sistema complexo, permitiria examinar o seu rápido ou gradual desaparecimento, conforme a perspectiva do analista, como uma desagregação das forças que o sustentavam e que lhe davam a sua especificidade». In José D’Assunção Barros, Papas, Imperadores e Hereges na Idade Média, Editora Vozes, 2012, ISBN 978-853-264-454-1.

Cortesia EVozes/JDACT