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sábado, 3 de outubro de 2015

José Ferreira Almeida. Adelino P. Carlos. «… abordava “O Problema do Processo sem Lide no Direito Processual Civil Português”. Logo de entrada José Carlos escreveu nesse trabalho ser ele o fruto das leituras e da meditação a que durante meses consagrava todas as horas livres…»

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«Conheci José Carlos Ferreira de Almeida em 1957, quando começou a ser meu aluno no 4.º ano de Direito. Regia eu, então, não só a minha cadeira de Direito Processual Civil, mas também o curso de Direitos Reais, este último em razão da carência de pessoal docente com que a minha Faculdade se debatia. O José Carlos e o seu condiscípulo e grande amigo Sérvulo Correia propuseram-se publicar as minhas lições desta disciplina; e daí nasceu entre nós um contacto permanente e apertado, que logo me fez conhecer as suas excepcionais qualidades de inteligência, a sua probidade intelectual, o seu amor ao estudo, a sua invulgar cultura e, acima de tudo, os primores do seu carácter. Fiquei a tributar-lhe uma amizade que se manteve até ao fim da sua curta vida e que ainda perdura, para além da sua morte, agora pelo poder mágico da saudade.
Tive sempre a preocupação de despertar nos meus discípulos o entusiasmo pelos estudos de Direito Processual. Esta matéria, cuja dignidade científica só há pouco foi reconhecida, está em plena elaboração e oferece, por isso mesmo, um campo vastíssimo à curiosidade dos investigadores. Não me foi difícil comunicar a José C. Ferreira Almeida o gosto pelos problemas do processo civil; mas surpreendeu-me a maturidade que revelou em dois trabalhos sobre temas da maior complexidade. No primeiro, já, publicado na Revista da Faculdade, abordava O Problema do Processo sem Lide no Direito Processual Civil Português. Logo de entrada José Carlos escreveu nesse trabalho ser ele o fruto das leituras e da meditação a que durante meses consagrava todas as horas livres de outras prementes obrigações escolares.
Confissão enternecedora, por comprovar, a um tempo, o seu gosto pela disciplina e a sua devoção à ciência. Sabida como é a subtileza do tema, iluminado com invulgar fulgor pelo génio jurídico de Carnelutti, qualquer se apercebe de que aos vinte anos só um escolar dotado de aptidões invulgares conseguiria tratá-lo da forma brilhante por que o fez José Ferreira de Almeida. Os louros académicos que com a sua dissertação justamente colheu incitaram-no, porém, a prosseguir na senda que iniciara; e no seu 5.º ano elaborou o seu segundo trabalho, também da maior valia, sobre O Problema da Natureza e Função do Título Executivo. A Revista da Faculdade vai igualmente dá-lo à estampa, porque lástima seria que ficasse conhecido apenas de raros; e então verá o público ledor a agilidade intelectual com que José Ferreira Almeida se movia na discussão de matéria tão difícil e como ele dominava a doutrina elaborada à sua volta, revelando o seu profundo e ponderado conhecimento.
Não será porventura plausível o conceito defendido por José Carlos sobre a função do título executivo; mas o certo é que ele nos deixou uma contribuição para o estudo do problema que não pode ser esquecida. Nestas linhas breves e comovidas deixo o retrato do meu aluno José Carlos Ferreira Almeida. Mas algo tenho de acrescentar, com mal contida emoção. Finda a sua licenciatura, José Ferreira Almeida quis inscrever-se na Ordem dos Advogados e deu-me a honra de pedir-me que no meu escritório o recebesse para fazer o seu tirocínio. Foi um estagiário exemplar. A sua simpatia irradiante, a sua correcção, a sua argúcia, logo conquistaram todos os meus companheiros de trabalho breve espaço em que foi um dos do nosso grupo. Andava então a preparar a dissertação que iria apresentar no exame do Curso Complementar de Ciências Jurídicas; e ainda para ela escolhera um tema de processo civil que eu próprio lhe indicara: O Processo Arbitral». In Adelino Palma Carlos, José Carlos Ferreira Almeida, In Memoriam, Vários Autores, Neogravura1968.

Cortesia de Memoriam/Neogravura/JDACT

José Ferreira Almeida. Abílio P. Lemos. «… a sua breve existência e o seu exemplo mostraram bem que o destino, até o fim, as forjara e fundira num todo único; uma vincada personalidade…»

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Recordação
«Desde muito pequeno lhe acompanhei os passos na existência, que o destino mandou fosse curta mas plena, e reveladora do que ele valia. Criança, adolescente, e homem: estas imagens sucessivas e sobrepostas, que evoco com pungente saudade, avivam-se em mim na dolorosa recordação desse magnífico rapaz que não se limitou a ser exemplar na vida transitória e efémera, mas que a morte escolheu para dar testemunho de si às gerações que hão-de seguir. Herdara, com o sangue e tradição daqueles donde provinha, o sentido do dever: dever para com os seus, traduzido no afecto que lhes votava; dever para com a sociedade, ilustrando o seu nome ao longo duma brilhante carreira universitária; dever para com a Pátria, oferecendo-lhe com entusiasmo a sua própria vida. Por desígnio dos fados e vontade própria, nele se misturavam, o que não é frequente, em balanço equilibrado, inteligência e acção. E não era apenas o conhecimento aprofundado dos seus estudos escolares que o ocupava: a sua curiosidade estava sempre largamente aberta a todas as coisas do espírito, e não só àquelas que a tradição tinha cristalizado, mas igualmente às novas audácias e aventuras do entendimento. Ainda recordo a impressão que me fez, numa das minhas vindas a Lisboa, o ouvi-lo falar, com firmeza e à-vontade, da pintura abstracta, então no seu auge, e da literatura moderna, tão carregada de tintas filosóficas, que começa a ser difícil definir-lhe as fronteiras com a arte. De tudo isso falámos: ele com entusiasmo, eu com o espanto que sempre causa o ver aqueles que conhecemos nas primeiras letras, transformados em gente grande e nossos iguais na apreciação dos homens e das coisas. Porém esta abertura de espírito e ilimitada curiosidade, não era expressão, como tantas vezes acontece, dum mole e confortável cepticismo que viaja através das múltiplas concepções e ideias por puro divertimento intelectual, sem se fixar ou definir. E aí é que aparece o homem de acção, que necessita de fazer escolha e de encontrar certezas. E ele tinha essas certezas; caminhava esclarecido por um ideal, em que se misturava a herança sempre renovada do que foi e a esperança do que há-de ser. É esse o segredo e a explicação dum sacrifício, que as suas virtudes exaltaram na hora derradeira. A inteligência e a acção não viviam em compartimentos separados: a sua breve existência e o seu exemplo mostraram bem que o destino, até o fim, as forjara e fundira num todo único; uma vincada personalidade, que todos nós, os seus amigos, evocamos com ternura e devoção; e a dor de ver partir tão cedo e tão inesperadamente a sua gentil e prometedora mocidade da terra dos homens, que, embora em tão curto trânsito, o José Almeida ainda teve tempo de enriquecer com o fecundo exemplo da sua vida. Neste mundo de lágrimas, ligeiramente entrecortado de pequenas alegrias, ele cumpriu: viveu pouco, mas foi fiel aos que o precederam, porque os honrou e os seguiu». In Abílio Pinto Lemos, Roma, Junho de 1967, José Carlos Godinho Ferreira Almeida, In Memoriam, Vários Autores, Neogravura1968.

Cortesia de Memoriam/Neogravura/JDACT