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quarta-feira, 9 de novembro de 2011

António Ventura. José Frederico Laranjo (1846-1910): «Resta Avis, onde contamos com dedicações muito firmes, mas insuficientes para contrabalançarem as outras influências do círculo. Por isso resolvi abandonar o círculo de Fronteira à oposição»

jdact

O político. Na Câmara dos Deputados
«O ideal era ser candidato por um dos círculos do distrito de Portalegre, o que era lógico dado ele ser natural de Campo Maior e ter desenvolvido em Elvas uma actividade de relevo nas fileiras progressistas, nomeadamente na redacção do jornal “O Correio Elvense”. O problema era encontrar um círculo disponível... Vejamos o seguimento do encontro. Lourenço Cayola perguntou a José Luciano: V. Ex.ª já pensou no círculo por onde me tenciona propor?
  • - Desejaria que viesse representar um dos círculos do seu distrito. Mas isso afigura-se-me difícil e naturalmente terei de apresentar o seu nome, por um outro, que ainda não tenho fixado.
  • - Porque no distrito de Portalegre há só três círculos: o da capital do distrito, o de Elvas e o de Fronteira. O primeiro cabe de direito ao Dr. Frederico Laranjo, a quem o partido progressista deve os mais dedicados serviços. Pelo segundo parece-me conveniente apresentar a candidatura do Eusébio Nunes, mesmo para ver se acabam as desinteligências dos nossos correligionários de Elvas.
  • - Resta o de Fronteira, interrompi eu.
  • - Por esse não o proponho, replicou José Luciano de Castro, porque os regeneradores tem nele uma grande preponderância».
O dirigente progressista fez então um diagnóstico completo da situação daquele círculo eleitoral, que não resistimos a transcrever pelo que representa de conhecimento real da situação concelho a concelho, e pelo diagnóstico político que traça da região: «Constituem esse círculo os concelhos de Fronteira, Crato, Alter, Avis e Ponte de Sor. No Crato, os progressistas dispõem de pouca ou nenhuma influência. Fronteira é um concelho pequeno onde os nossos adversários, devido sobretudo à influência do Marquês da Praia, estão em grande maioria. Em Alter temos amigos valiosos, mas sem boa organização e deixam-se facilmente suplantar pelos regeneradores. A Ponte de Sor é um feudo absoluto da família Vaz Monteiro, cujo chefe não tem filiação partidária definida, embora se incline um pouco mais para os partido que nos é adverso, seguindo em geral uma política regionalista, preocupando-se exclusivamente com os interesses da sua terra. Resta Avis, onde contamos com dedicações muito firmes, mas insuficientes para contrabalançarem as outras influências do círculo. Por isso resolvi abandonar o círculo de Fronteira à oposição».

jdact

A legislatura que se iniciou em 1879 foi de curta duração, sendo a Câmara dissolvida. O governo progressista promoveu eleições que se realizaram a 19 de Outubro de 1880. José Frederico Laranjo publicou então dois documentos políticos. O primeiro é um relatório dirigido aos eleitores do círculo de Portalegre, onde prestava contas do trabalho realizado e analisava o porquê da convocação de novas eleições justificando ao mesmo tempo a actuação do governo progressista. No segundo manifesto, datado de Fevereiro de 1880, defendia o governo contra as acusações formuladas pelos regeneradores locais. O Partido Progressista acabou por triunfar mas a vitória foi de pouca duração. O governo chefiado por Anselmo José Braancamp caiu em Março de 1881, sendo substituído por um novo elenco governativo chefiado por Rodrigues Sampaio. Era o regresso ao rotativismo que tanto caracterizou o sistema nascido da Regeneração. O novo governo carecia, como era usual, de maioria parlamentar, e a única via para o conseguir passava por nova dissolução da Câmara dos Deputados e pela convocação de eleições». In António Ventura, José Frederico Laranjo, Colecção Estudos de História Regional, Edições Colibri, Lisboa, 1996, ISBN 972-8288-48-4.

A amizade de AV
Edições Colibri/JDACT

domingo, 9 de outubro de 2011

António Ventura. José Frederico Laranjo (1846-1910): «A nível regional e local passava-se o mesmo, eram figuras influentes quem animava os partidos, caciques de diverso matiz que arregimentavam votos e conduziam os eleitores até às urnas, como muito bem descreveram os nossos caricaturistas do século passado …»

Cortesia de edicoescolibri

O político. Na Câmara dos Deputados
«As esperanças depositadas nas eleições de 1878 dissiparam-se parcialmente. A nível nacional a vitória pertenceu ao Partido Regenerador - Fontes Pereira de Melo era de novo chefe do governo - mas o Partido Progressista registou avanços substanciais no Alto Alentejo. No círculo de Portalegre, Frederico Laranjo triunfou com mais de 2000 votos de vantagem, vencendo em Castelo de Vide, Marvão e Portalegre, e só perdendo em Arronches. As áreas de influência sua, de Diogo da Fonseca e de Luís Xavier eram nítidas.

No entanto, o novo executivo não terá vida longa. No Parlamento levantam-se incómodas discussões em redor de questões candentes como a concessão da Zambézia. A Câmara dos Pares hostilizava o governo, que foi substancialmente enfraquecido com as demissões dos ministros Barjona de Freitas, Andrade Corvo, António Lourenço de Carvalho e Couto Monteiro. A sobrevivência do executivo estava comprometida, acabando por se demitir a 1 de Junho de 1879. Era tempo de os progressistas assumirem o poder. Naquele mesmo dia tomava posse um novo elenco ministerial chefiado por Anselmo José Braancamp, com José Luciano de Castro (Reino), Adriano de Abreu Cardoso Machado (Justiça), Barros Gomes (Fazenda), João Crisóstomo (Guerra), marquês de Sabugosa (Marinha e Ultramar) e Saraiva de Carvalho (Obras Públicas).
Frederico Laranjo assumira, entretanto, o seu lugar no Parlamento. Entrara na «cova dos leões», como lhe chamou António Cabral. Antes de partir pata a capital, Luís Xavier de Barros Castelo Branco procurou-o e disse-lhe:
  • «É provável que o Partido Progressista vá ao poder; é provável que me façam pedidos para lhe transmitir; se eu lhe fizer qualquer pedido, veja se o que peço é bom para o país, bom para o seu partido, bom para si; se for bom sob estes aspectos, faça, se puder; se não, não se apoquente, que não será por isso que me molestarei».

Cortesia de wikipedia

Luís Xavier queria marcar a diferença. O Partido Progressista estava agora no poder. Tinha que mostrar que não era igual ao Regenerador. Façamos um breve parêntesis para abordar outra questão. Como se sabe, os partidos políticos nessa época nada tinham que ver com os partidos dos nossos dias. Não eram partidos de massas, de militantes, com estruturas nacionais. Bem pelo contrário, assentavam em uma ou duas personalidades nacionais prestigiadas, que serviam de bandeira e de programa, em redor das quais se congregavam outros notáveis, os «marechais». A nível regional e local passava-se o mesmo, eram figuras influentes quem animava os partidos, caciques de diverso matiz que arregimentavam votos e conduziam os eleitores até às urnas, como muito bem descreveram os nossos caricaturistas do século passado e o próprio Eça de Queiroz, nessas páginas inolvidáveis de “As Farpas”. Nesta região, o Partido Progressista estruturava-se, assentando para além das personalidades já referidas, num conjunto assinalável de nomes bem sonantes:
  • Em Portalegre, Henrique de Sá Nogueira de Vasconcelos, Dr. Martinho de França de Azevedo Coutinho, João da Fonseca Achaioli, António Dinis Sampaio, Dr. António Joaquim Araújo Juzarte de Campos, Dr. Francisco António Rosa, Inácio Castelo Branco, o Cónego Adolfo Ernesto Mota;
  • No resto do distrito, salientamos os nomes de Eusébio David Nunes da Silva, José Alfredo Menice Sardinha, António Lino Neto, António José Repenicado, António Amaro Canelas, João Magrassó, José Augusto Serra, João Rafael Mendes Dona, Joaquim de Calça e Pina...
Era também o partido com maior popularidade junto dos operários, em especial os corticeiros. O tipógrafo Leonardo Augusto, por exemplo, um dos pioneiros do movimento associativo em Portalegre, era membro do Partido Progressista e será vereador da Câmara Municipal local por aquela formação política.
No campo contrário a situação era semelhante. Ali se congregavam figuras de relevo à frente das quais estava o Vigário Geral da diocese, Dr. José d'Andrade Sequeira, máximo responsável distrital do Partido Regenerador. Outros dirigentes regeneradores dignos de registo foram os viscondes de Reguengo e dos Cidrais (este, Adolfo Juzarte Rolo, acompanhará João Franco na cisão que dará origem ao Partido Regenerador-Liberal, sendo seu dirigente distrital), o conde de Avilez, Jerónimo Sequeira, o cónego José Maria Ressurreição, e, naturalmente, os diversos governadores civis que dirigiram o distrito, com especial destaque para o Conselheiro Cândido Maria Cau da Costa.

Cortesia de wikipedia

Os elencos dirigentes registaram algumas alterações na sua composição provocadas pela chegada de novos elementos, em especial funcionários públicos colocados quando mudava o governo, ou estudantes que terminavam os cursos, por falecimentos, mas nota-se uma certa estabilidade nos dirigentes concelhios e distritais.
Os mecanismos conducentes à designação dos candidatos a deputados, eram desencadeados pelos órgãos directivos nacionais dos partidos, que se impunham às regiões, provocando por vezes conflitos que levavam a demissões e ao aparecimento de candidatos independentes. Um caso paradigmático foi o do Conselheiro José Rebelo, que foi sucessivamente eleito deputado devido à influência que detinha na região de Gavião. As direcções partidárias acabavam por impor elementos alheios aos círculos pelos quais se apresentavam, como forma de assegurar a sua eleição. António Cabral, nas suas memórias políticas, dá-nos um bom exemplo com a sua experiência pessoal. A nível desta região, um futuro deputado do Partido Progressista e redactor do Correio da Noite, Lourenço Cayo1a, descreveu num dos seus livros de memórias o convite que José Luciano de Castro lhe dirigiu para ser candidato e a forma como foi escolhido o respectivo círculo:
  • «Uma noite, o prestigioso estadista, em sua casa, chamou-me de lado e disse-me sem preâmbulos: - Como sabe, vamos ter em breve eleições de deputados. Desejava que o meu amigo fizesse parte da futura Câmara e por isso queria combinar consigo o círculo por onde há-de vir a ser proposto. Sendo há quatro anos um dos redactores políticos do Correio da Noite, o órgão da imprensa do Partido Progressista, e conhecendo há muito a estima que me dedicava o meu chefe político, a frase que acabara de lhe ouvir não me causou grande surpresa. Nem por isso, porém, ela deixou de me dar o maior prazer».
In António Ventura, José Frederico Laranjo, Colecção Estudos de História Regional, Edições Colibri, Lisboa, 1996, ISBN 972-8288-48-4.

Edições Colibri/JDACT

quinta-feira, 15 de setembro de 2011

António Ventura. José Frederico Laranjo (1846-1910): «... falávamos de literatura, quando Luís Xavier nos disse: Pois se o Dr. Laranjo quiser o meu apoio para a sua eleição de deputado, está às suas ordens: - Mas V.ª Ex.ª, respondi eu, tem parentes que talvez queiram ser deputados, e eu não faço questão de mim. Mas faço-a eu, replicou ele; se for o Sr. o candidato, entro na luta; se não, não…»


Cortesia de bibdigitalfduc e fontedavilaorg

O político. Na Câmara dos Deputados
«Sendo natural de Castelo de Vide e desenvolvendo aí uma actividade continuada no campo associativo, não foi difícil o aproveitamento de um episódio particular, isolado, transpondo-o para o plano político, mais geral. Esse foi o primeiro passo. Depois, era uma questão de transformar o seu grupo de apoiantes e de amigos em núcleo local do Partido Progressista. Mas em Portalegre a situação era bem diferente. Quem conhecia José Frederico Laranjo, salvo alguns estudantes em Coimbra? Necessitava de apoios de personalidades de grande prestígio local. A mais importante foi a de Diogo da Fonseca Achaioli Coutinho de Sousa Tavares, figura proeminente na vida social portalegrense, descendente de algumas das principais famílias nobres da região, os Achaioli, os Fonsecas, os Jusantes, e os Sousas de Arronches. Diogo da Fonseca, (1831-1904), morgado da Lameira, quinta nos arredores de Portalegre, na freguesia de Reguengo, onde viveu como um cenobita, para utilizarmos a expressão de Rocha Martins num artigo que lhe dedicou, filiara-se no Partido Histórico pugnando sempre pelos interesses da sua terra e das camadas mais desfavorecidas. «O povo acompanhava-o, incondicionalmente, para onde fosse ou quisesse ir em matéria eleitoral». A sua acção humanitária fazia-se sentir junto das classes pobres que carinhosamente lhe chamavam «Pai Diogo». De 2 de Julho de 1871 até 1876, Diogo da Fonseca foi o máximo responsável pela Misericórdia de Portalegre, sendo então alvo de calúnias que pretendiam atingir a sua honorabilidades.

Cortesia de ecolibri e jdact

Tanto o episódio de Castelo de Vide como o de Portalegre foram largamente explorados por José Frederico Laranjo nos manifestos «Aos Habitantes de Castelo de Vide (1817) e Ao Concelho de Portalegre (1878)».

Foi nesse ambiente conflituoso e tenso que se vivia em Portalegre, que José Frederico Laranjo se deslocou à capital do distrito com dois objectivos:
  • procurar adesões ao Partido Progressista,
  • organizar uma candidatura para as eleições de 1878.
Uma das personalidades a contactar, era, naturalmente, Diogo da Fonseca. O próprio Laranjo descreve as razões que o levaram a avistar-se com ele e as circunstâncias em que o encontro decorreu:
  • «Diogo da Fonseca estava em disputa com o Governador Civil Read Cabrals; nós combatíamos em Castelo de Vide o governo regenerador; simultaneamente tivemos a ideia de nos procurarmos para unirmos esforços; foi a primeira conferência no palácio do Corro, hoje liceu; o Sr. Diogo da Fonseca pedia a nossa coadjuvação na luta em que estava empenhado, a troco da dele para a nossa candidatura a deputado; respondemos que sua Ex.ª tinha um cunhado que era advogado distinto, o Sr. Dr. Temudo, que podia querer ser deputado, não fazíamos questão de ser nós; a única questão era que as lutas devem ser em nome e sob a bandeira do Partido Progressista. O Sr. Dr. Temudo foi consultado; não quis a candidatura, e desde então ficou assente a nossa».
Outra personalidade que constituiu um dos esteios fundamentais no lançamento da carreira política de Frederico Laranjo, dedicando-lhe sempre uma amizade que ultrapassava camaradagens partidárias, foi Luís Xavier de Barros Castelo Branco, natural de Castelo de Vide e rico proprietário naquela vila, em Arronches, Nisa e Portalegre. Oriundo de uma família de tradições liberais, que estivera refugiada em Marvão, durante as Guerras Liberais, quando a vila foi tomada pelos emigrados vindos de Espanha, tomara posições semelhantes em períodos críticos como o de 1846 em que apoiou a revolta anticabralista. Em 1867 foi um dos dirigentes do movimento de repulsa contra o projecto de reforma administrativa do Ministro Martens Ferrão, que previa a supressão do distrito de Portalegre, o que se não concretizou por influência do Duque de Loulé e pela queda do executivo, e de unir o concelho de Arronches ao de Monforte.

Castello de Vide, 10-8-1907

Cortesia de fontedavilaorg e jdact

Durante as conversações entre Frederico Laranjo e Diogo da Fonseca Achaioli, levantou-se a hipótese da escolha do candidato progressista para as eleições de 1878 recair sobre Luís Xavier. A solução parecia a mais lógica pelas suas qualidades pessoais e pelo conjunto de apoios que poderia recolher. Era, por um lado, tio de Diogo da Fonseca, assegurando assim os votos que este mobilizaria. Por outro lado, através do casamento estava ligado a uma das mais importantes famílias regeneradoras de Portalegre. De facto, sua mulher, Brites Constança, era irmã de Álvaro e João da Fonseca Coutinho, pilares do Partido Regenerador naquela região. Quem poderia ser um candidato mais indicado que Luís Xavier, congregando amigos e dividindo inimigos? Frederico Laranjo foi-lhe apresentado num clube local e depois foi convidado para tomar chá em casa do influente proprietário. Vejamos como ele descreveu a entrevista:
  • «... falávamos de literatura, quando Luís Xavier nos disse: Pois se o Dr. Laranjo quiser o meu apoio para a sua eleição de deputado, está às suas ordens: - Mas V.ª Ex.ª, respondi eu, tem parentes que talvez queiram ser deputados, e eu não faço questão de mim. Mas faço-a eu, replicou ele; se for o Sr. o candidato, entro na luta; se não, não. - Ao que devo eu, perguntava, muito surpreendido, o então candidato a deputado, a espontânea adesão de V. Ex.ª à minha candidatura? - Ao facto de me parecer que tem as condições para ser um bom deputado; ao reconhecimento da sua instrução; às informações que tenho do seu carácter; se corresponder ao juízo que eu faço, continuo a auxiliá-lo; se não, não».
In António Ventura, José Frederico Laranjo, Colecção Estudos de História Regional, Edições Colibri, Lisboa, 1996, ISBN 972-8288-48-4.


A amizade de AV
Edições Colibri/JDACT

domingo, 21 de agosto de 2011

António Ventura. José Frederico Laranjo (1846-1910): «No ano em que me doutorei, em 1877, havia eleições municipais; estava o país propenso a dar sinais de vida política, o que poucas vezes lhe acontece; em Castelo de Vide combatiam-se dois grupos rivais sem partido definido; uma parte da população respondia, quando lhe solicitavam o voto, que votaria comigo…»

Fotografia de Augusto Rainho
Cortesia de edicoescolibri

O político. Na Câmara dos Deputados
«Se é verdade que a carreira académica de José Frederico Laranjo foi relevante, e que o seu contributo nos campos científico e pedagógico não pode ser ignorado, existe outra vertente da sua vida que se sobrepôs, indiscutivelmente, à de professor universitário. Durante trinta anos, empenhou-se na luta política convertendo-se numa das mais importantes figuras da sua região e com amplo prestígio a nível nacional. José Manuel da Costa tinha razão ao afirmar, na sessão que em Castelo de Vide assinalou o centenário do seu nascimento, que «no Doutor José Frederico Laranjo o político esbateu o homem de ciência».

A sua actividade política iniciou-se em 1877 nas fileiras do recém-fundado Partido Progressista. Até então, a vida nacional era, e continuou a ser durante mais algum tempo, dominada pelo Partido Regenerador onde pontificava Fontes Pereira de Melo. Os dois partidos que se lhe opunham até então, o Histórico e o Reformista, dirigidos respectivamente por D. António Alves Martins, Bispo de Viseu, e pelo Duque de Loulé, raramente ocuparam as cadeiras do poder. Compreendendo que só um entendimento das correntes mais avançadas poderia fazer frente à hegemonia regeneradora, elementos dos dois partidos iniciaram conversações que conduziram a um acordo. É certo que em ambas as formações houve descontentes e marginalizados, mas o objectivo foi alcançado.

Cortesia de portugalimagens

A7 de Setembro de 1876 na Praia da Granja, decorreu um encontro em que participaram os principais dirigentes dos dois grupos: D. António Alves Martins, Anselmo Braancamp, José Luciano de Castro, Mariano de Carvalho, José Ribeiro da Cunha, Luís de Campos, Francisco Pinto Beça, Francisco de Albuquerque e Adriano Machado. No final foi assinado um documento, que ficou conhecido como Pacto da Granja, marcando o nascimento do Partido Progressista.

Em Dezembro de 1876 realizava-se a assembleia constitutiva, com a aprovação do programa, onde, entre outras medidas, se defendia a descentralização administrativa, a reforma da Carta Constitucional e da administração financeira, a ampliação do sufrágio e o aperfeiçoamento do sistema fiscal. A vida da nova formação partidária não foi fácil. Não bastava um simples congregar de forças, um somatório de influências nacionais e locais para assegurar, automaticamente, o acesso ao poder e a entrada no rotativismo, mesmo que espaçado. Era preciso que o Partido Progressista se afirmasse. A 1 de Março de 1877, o governo regenerador presidido por Fontes Pereira de Melo foi obrigado a demitir-se, sucedendo-lhe um novo executivo chefiado pelo Marquês de Ávila e Bolama. As eleições municipais de 1877 serão o baptismo de fogo para novel formação partidária, e nelas vai intervir pela primeira vez Frederico Laranjo.

Cortesia de maludaumnomundoeu

As circunstâncias em que tal ocorreu foram por ele descritas:
  • «No ano em que me doutorei, em 1877, havia eleições municipais; estava o país propenso a dar sinais de vida política, o que poucas vezes lhe acontece; em Castelo de Vide combatiam-se dois grupos rivais sem partido definido; uma parte da população respondia, quando lhe solicitavam o voto, que votaria comigo; não podendo conciliar todos em volta de um ideal administrativo e de política geral, o que pretendi, coadjuvei um dos grupos, sob a bandeira do partido progressista em que me filiara, e vencemos. Isto deu-me ali uma posição política importante, contribuiu para que a alcançasse em Portalegre, onde encontrei favorável acolhimento e amizades rápidas e entusiásticas».
A questão de Castelo de Vide incidiu sobre uma disputa envolvendo um velho amigo de Frederico Laranjo, o Dr. José António Serrano, e que o futuro deputado descreverá tempos depois:
  • «Nós, o Dr. Serrano e o Dr. João Augusto de Carvalho tinhamo-nos formado em 1875; o bom povo de Castelo de Vide pedia-nos que nos uníssemos para bem da terra e para bem nosso; era simpático e utilíssimo o plano; entre nós e o Dr. Serrano era facílima a aliança; éramos dois irmãos; com o Dr. Carvalho era porém possível que a aliança se não pudesse manter (...); retirando-nos para Coimbra, para nos doutorarmos, ficaram na terra o Dr. Serrano e o Dr. Carvalho; a família que dominava a Misericórdia de Castelo de Vide começou a fazer pirraças ao Dr. Serrano; uma delas foi não o admitirem a prestar juramento de irmão da Misericórdia poucos dias depois de o terem admitido, sob pretexto de que ainda não tinha 25 anos; nós pretendemos fazer reparar esta injustiça; não o conseguimos, porque no governo civil nem sequer se dava andamento ao processo, e a questão resolveu-se nesta outra - se haviam de governar Castelo de Vide os monopolistas da Misericórdia, ou gente de mais alto espírito e melhor orientada».
In António Ventura, José Frederico Laranjo, Colecção Estudos de História Regional, Edições Colibri, Lisboa, 1996, ISBN 972-8288-48-4.

A amizade de AV.

(Continua)
Cortesia de Edições Colibri/JDACT

segunda-feira, 22 de novembro de 2010

José Frederico Laranjo: O Acontecimento da Derrota de 1881 no Círculo de Portalegre

Fotografia de Augusto Rainho
Cortesia de Edições Colibri 

A Derrota de 1881

«O acto eleitoral de 1881 foi precedido por uma intensa luta política que adquiriu especial vivacidade no círculo de Portalegre, tendo como pano de fundo as disputas locais que se agudizaram durante a governação progressista. Era natural que o Partido Regenerador, que estivera afastado do poder, jogasse tudo por tudo para alcançar uma vitória eleitoral e assegurar uma confortável maioria no Parlamento...

No círculo de Portalegre, José de Frederico Laranjo apresentou-se de novo como candidato. Era lógico que assim fosse. Prestara contas aos eleitores, como prometera (70), tivera algum protagonismo nos debates parlamentares e consolidara localmente a sua influência. A vantagem que obtivera nas eleições anteriores e os apoios que continuava a ter, asseguravam-lhe, à partida, uma vantagem confortável. No seu manifesto eleitoral, Laranjo justificava a queda do governo progressista e a não realização de todas as promessas anteriormente formuladas, passando em revista as lutas travadas no distrito em 1877 e 1878. Fazia ainda considerações de carácter geral, relembrando os escândalos antigos que provocaram a queda do Partido Regenerador e a chegada ao poder dos progressistas. Curiosamente, nesse documento não há qualquer alusão ao seu opositor.

Cortesia de portugalimagens
Nem um ataque, nem uma leve censura sequer. Qual a razão dessa omissão, desse prudente silêncio?
O Partido Regenerador local estava consciente das dificuldades. O agrónomo Ramiro Larcher Marçal recorda o clima que se vivia e a opção dos regeneradores: «os ânimos em Portalegre achavam-se sobremodo exacerbados pelas controvérsias políticas. O Partido Regenerador estava deveras abalado depois de repetidos revezes, perante a urna eleitoral. Em 1881, ao tratar-se das eleições gerais, o desânimo era grande nas fileiras regeneradoras. O Partido Progressista apresentava a candidatura do Sr. José Frederico Laranjo e reputava-se de antemão certa a sua eleição e o seu triunfo. Era difícil opor-se-lhe um antagonista com possibilidades de vitória. Em tal conjectura, é que foi indicado o nome de Augusto da Fonseca para candidato do Partido Regenerador, depois de previamente consultado e de ter dado o seu consentimento» (71).

Quem era, afinal, o candidato regenerador?

Augusto Maria da Fonseca Coutinho era um jovem de 24 anos, recém-formado em Direito pela Universidade de Coimbra (1879), na própria escola onde Laranjo leccionava. Quais as razões que levaram à sua indigitação? A simpatia poderia ser um factor positivo, a Sua juventude nem tanto; mas as razões fundamentais foram outras - era sobrinho de Luís Xavier de Barros Castelo Branco. A sua candidatura era uma hábil tentativa de neutralizar aquele apoio fundamental do Partido Progressista, colocando-o entre o dilema de se manter fiel ao seu partido ou à sua família. Frederico Laranjo reconheceu, anos mais tarde, a difícil opção que se deparou a Luís Xavier: «… Uma vez encontrámos por antagonista um seu parente, o malogrado Dr. Augusto Fonseca Coutinho; e nessa ocasião deu-nos provas da sua excepcional amizade e da excepcional grandeza do seu carácter, arriscando-se a deixar perder para seu filho a primeira fortuna de Portalegre, para não abandonar na luta as suas ideias políticas e o seu amigo; aquela candidatura dum seu sobrinho por afinidade fora escolhida de propósito para verem se se conseguia separá-lo de nós, colocando-o em colisões e embaraços; queremos ver, diziam os adversáríos, como que o Luís Xavier descalça esta bota; e ele soube do dito, sorriu e respondeu vou mostrar-lhes como a descalço; e entrou a pedir votos de porta em porta na cidade e no campo, o que não costumava fazer; procedia assim porque, por considerações para com sua esposa, tínhamos favorecido um despacho dum irmão do nosso antagonista, o que desagradara ao nosso partido; ele não pedira nada; mas julgava-se obrigado a uma gratidão que os mais próximos não tinham; e o cálculo que supunha em tudo aquilo indignava-o; encontrando-o numa aldeia próxima da cidade nesta faina eleitoral, no verão, pela hora de maior calma, o então chefe do partido regenerador no distrito exclamou: que grande amigo e que admirável carácter!» (72).

Cortesia de bibdigitalfduce
Augusto Maria da Fonseca Coutinho nascera em Portalegre a 17 de Novembro de 1857, no seio de uma família de linhagem antiga, com importantes bens na região. o avô, Luís Freire da Fonseca Coutinho, fora desembargador do paço seu pai, João da Fonseca Coutinho fixou-se em Portalegre por volta de 1836, sendo uma personalidade bem conhecida na época. Nascido em l8l2, Moço Fidalgo por mercê de D. João VI, estudou Humanidades no Real colégio das Artes de Coimbra e frequentou os dois primeiros anos de Direito e Matemática na Universidade daquela cidade. A guerra civil levou à interrupção dos estudos, partindo João da Fonseca Coutinho para Paris, em 1832, e só regressando finda a Guerra Civil. Em Portalegre converteu-se numa figura prestigiada e influente.

Foi presidente da câmara ou vereador de 1842 a 1873, com excepção do biénio de 1862-4, e deputado pelo mesmo círculo de 1857 a 1864. Desempenhou ainda os cargos de provedor da Misericórdia local e de Procurador à Junta Distrital. Faleceu a 19 de Abril de 1881, no mesmo ano em que se realizaram as eleições legislativas a que seu filho iria concorrer. Quanto a Augusto Maria da Fonseca Coutinho, concluíra a formatura em Direíto na Universidade de Coimbra - onde foi aluno de Laranjo... - a 10 de Junho de 1879, com 2l anos de idade. Naquela cidade colaborou na Literatura Ocidental - tal como o seu professor - e redigiu O Mosaico, juntamente com Sérgio de Castro, Magalhães Lima e o visconde de Monsaraz. Filiou-se então no partido Regenerador. Regressou a Portalegre, onde instalou banca de advogado num escritório que partilhava com o Dr. Francisco Lopes de Azevedo Coelho de Barros Castelo Branco. Em 1880 fez concurso para delegado do procurador Régio, alcançando elevada classificação. Era este o adversário que Frederico Laranjo devia enfrentar.

Cortesia de allentejo

Augusto da Fonseca imprimiu à sua campanha um cunho diferente do que caracterizava habitualmente as pugnas eleitorais, utilizando uma linguagem não agressiva, em contraste flagrante com a prática de alguns dos seus correligionários. Veja-se, como exemplo, o folheto anónimo, mas certamente da responsabilidade do Centro Regenerador local, publicado em 1880 como resposta ao manifesto de José Frederico Laranjo. Para além dos habituais ataques a Temudo de Oliveira, era pródigo em insultos ao deputado progressista, classificado de «palhaço de Castelo de Vide» e de «imbecil que infunde comiseração»; o manifesto não passava de «rosário de baboseiras» - «o vosso deputado estourou mais uma vez girândolas de tolices; a montanha pariu mais um microscópio ratinho – um novíssimo original opúsculo! para os momentos críticos, difíceis, da sua tristíssima existência política, tem sempre Laranjo de reserva esta tábua de salvação, a que se agarra freneticamente, alucinadamente» (73). Augusto Maria não pactuou com esta tradição, repudiando e rompendo com a prática insultuosa, que era comum a todas as formações. No seu manifesto aos eleitores, «extremamente modesto e simples, proclamando a moderação como norma de proceder» (74), fazia um compromisso de honra: «Como deputado local hei-de esforçar-me por seguir as tradições do meu pai, porque no meu coração me orgulho quando ouço fazer a história das suas dedicações. Como ele, não quero a política para interesses mesquinhos; quero-a para promover, quanto em mim cabia, o bem estar do círculo que é a minha pátria. Bem esquecido tem ele andado, nos anos em que o representaram indiferentes e naqueles em que foi representado por apaixonados; tão inúteis uns como outros!

Cortesia de grupolena
Não venho falar de guerra: a paz é o campo onde mais contentamente vive o meu espírito; não venho atiçar ódios nem vinganças porque tendo o direito de protestar contra os abusos, sei que há leis, sei que há moral, sei que há educação, e estas são as minhas armas, e com elas combaterei usurpações e arbitrariedades» (75). Se é verdade que Frederico Laranjo, que já surgia nessa época como o virtual chefe do partido no distrito (76) - se absteve de ataques pessoais, o Partido Progressista não podia ficar indiferente, publicando um «Manifesto aos honrados eleitores do Círculo de Portalegre», que não é assinado, mas que se vê ser da responsabilidade do centro progressista local: «O centro progressista (...) resolveu apresentar mais uma vez, como candidato a deputado por este círculo, o Dr. José Frederico Laranjo. A sua candidatura honra-nos tanto quanto a do candidato do governo, oposto àquele cavalheiro, é risível. O candidato neste círculo pelo governo, Augusto da Fonseca, não passa de um bom moço vindo há dois dias de Coimbra, sem experiência da vida nem dos negócios públicos; que ainda não revelou aptidões de espécie alguma, nem muita gente dá esperanças disso; é um discípulo carregado de RRR a combater o mestre ilustre por paga de grandes benefícios recebidos. Está travada a luta. Os RRR de um tão fraco discípulo não hão-de fulminar os talentos do mestre! O Sr. Augusto da Fonseca não escalará por estes ganchinhos as fortalezas progressistas, fazendo seu prisioneiro de guerra o esclarecido lente da Universidade» (77).

Os regeneradores triunfaram a nível nacional - era habitual, no rotativismo, a vitória de quem estava no governo... -, e em Portalegre Augusto Maria da Fonseca Coutinho, o «bom moço vindo há dois dias de Coimbra, sem experiência da vida nem dos negócios públicos» também ganhou as eleições por uma margem escassa, é certo, apenas 27 votos, mas suficiente para tal. As qualidades pessoais, as ligações familiares e a moderação utilizada, contrastando com a violência habitual, tiveram os seus frutos. «O resultado da luta foi-lhe favorável e a vitória sua, sendo eleito em 2l de Agosto de 1881 deputado pelo antigo círculo de Portalegre para a legislatura de 1882-84 (78).

Cortesia de maludaumnomundoeu
A acção de Augusto da Fonseca Coutinho no Parlamento teve reflexos na sua região. Na legislatura de 1882-4 integrou as comissões parlamentares de Reforma Eleitoral e do Centenário do marquês de Pombal, intercedeu a favor da instalação de um hospital em Avis, na venda de terrenos da Câmara Municipal de Castelo de Vide e apoiou o pedido da Câmara Municipal de Arronches no sentido de não continuar a suportar as despesas com os professores da instrução primária. Mas o acto que mais marcou a sua passagem pela Câmara dos Deputados foi a criação de uma escola de desenho industrial em Portalegre. O ministro António Augusto de Aguiar elaborara um projecto que previa a instalação de escolas em diversas localidades, mas não em Portalegre. Augusto Maria insistiu e conseguiu que a sua cidade fosse contemplada com um estabelecimento de ensino que ainda hoje existe noutro local e com outro nome - é a Escola Secundária de São Lourenço. Em 1884 foi nomeado Governador Civil de Angra do Heroísmo, cargo que desempenhou de 20 de Novembro daquele ano a 5 de Novembro de 1885. Razões de saúde levaram-no a solicitar transferência para o Continente. Foi ainda Governador, Civil de Bragança de 5 de Novembro de 1885 a 25 de Fevereiro ao ano seguinte, sendo então demitido pelo novo governo progressista. Retirou-se para Portalegre, onde chefiou o Partido Regenerador até à sua morte, ocorrida a 1 de Novembro de 1887, quando contava apenas 30 anos de idade». In José Frederico Laranjo, Colecção de História Regional, Edições Colibri, ISBN 972-8288-48-4, Lisboa, Novembro de 1996 (Obra adquirida no Turismo de CV, 2002)
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(70) A 5 de Outubro de 1879, Laranjo convidava os eleitores de Portalegre, através de um panfleto, «em desempenho do que prometera no manifesto de 23 de Setembro de 1878 (...) a reunirem-se no dia 9 do corrente, pelas 7 horas da noite, na casa do Exm.º Sr. Presidente do Centro Progressista, a fim de dar conta do que se fez na sessão legislativa passada, da parte que tomou nela, e na direcção dos negócios deste círculo». Folha solta pertencente à colecção do autor.
(71) Ramiro Larcher Marçal, «Dr. Augusto Maria da Fonseca Coutinho», o Distrito de Portalegre, nº 185, de 9 de Novembro de 1887, p. l.
(72) José Frederico Laranjo, À Memória de Luís Xavier de Barros Castelo Branco _ Biografia e Impressões de alguns Amigos, Portalegre, Tipografia Leonardo, 1908, p. 14.
(73) Aos Eleitores Progressistas do Círculo de Portalegre, Portalegre, 1880, folheto sem indicação do autor e da casa impressora, pp. 1 e2.
(74) Ramiro Larcher Marçal, artigo cit.
(75) Manifesto «Senhores Eleitores do Círculo de Portalegre», datado de 20-8-1881. Folha solta pertencente à colecção do autor.
(76) Assim o demonstra a sua participação nas reuniões nacionais de 2 e 4 de Junho de 1881, em Lisboa onde secretariou Manuel de Jesus Coelho. Correio da Noite, 3-6-1881, p. 1 e 5-6-1881, p. 1
(77) «Manifesto aos Honrados Eleitores do Círculo de Portalegre», folha solta pertencente à colecção do autor.
(78) Ramiro Larcher Marçal, artigo citado.

A amizade de AV.
Cortesia de Augusto Rainho/Edições Colibri/JDACT