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sexta-feira, 13 de novembro de 2015

Mal por Mal, antes Pombal. José Jorge Letria. «Convertido ao luteranismo, fui uma das vozes que se ergueram para atribuir as causas profundas do terramoto de 1 de Novembro de 1755 aos erros de políticos como Sebastião José, aos seus abusos…»

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«(…) Agravam-me a honra e mancham-me a memória, e eu sinto-me forçado, com as parcas forças que me restam, a escrever as apologias que me deixem ao abrigo do opróbrio e da condenação injusta. Enquanto um sopro de vida me animar o corpo, tudo farei para que o nome do marquês de Pombal não seja arrastado na lama como se de criminoso comum se tratasse. Sei que as decisões que tomei e as ordens que dei fizeram com que eu tivesse de viver até ao fim dos meus dias cercado de inimigos. Conheço-lhes os nomes, os rostos, sei onde moram, que amantes têm, que vantagens tiraram da minha protecção e, acima de tudo, tenho memória bastante para nunca os esquecer nem lhes perdoar o mal que me fizeram. Se dissesse o contrário, nesta hora em que as grandes contas se acertam, mentiria a mim próprio e a Deus, que na sua infinita sabedoria sabe que as minhas qualidades suplantam os meus defeitos e pecados. Não me arrependo de ter agido como sempre agi, pois sempre estive bem ciente de ser esse o preço que paga quem genuinamente governa, não se limitando a correr com o vento pelas costas.
Eu corri contra o vento das inércias e dos medos antigos, arregacei as mangas e corri os riscos que deve correr um verdadeiro homem de Estado. Eis a razão por que entrei agora, nesta avançada e penosa idade, no impiedoso Inverno da minha vida, alquebrado pelas mazelas do corpo e pelos protestos de uma alma ferida pelos insultos e ofensas nascidos com a Viradeira. À voz que me vem cá de dentro, do fundo de mim, eu respondo com a franqueza de alma que me leva a dizer: em muita coisa terei falhado, feito imperfeito juízo, mas nunca ao ponto de ter hoje como inimigos jurados aqueles que antes da inclemência deste Inverno me aplaudiam, adulavam e enriqueciam à minha custa.

Fala do Cavaleiro de Oliveira
Foi com enorme e justificada satisfação que recebi no exílio a notícia do afastamento do cargo de Sebastião José, meu carrasco em vida, responsável pela minha morte em efígie num público auto-de-fé. Afastado o déspota, ainda acreditei, mesmo doente e na penúria, que me seria possível retornar a Lisboa e servir sua majestade dona Maria I, que tanto admiro e venero. Mas esse superior desígnio acabou por não ser atendido nem cumprido. Eu e Sebastião José conhecemo-nos na legação diplomática portuguesa em Viena de Áustria, onde ambos tínhamos missões de Estado para cumprir. Prontamente antipatizámos um com o outro. Ele fazia diligências para, sendo plebeu de origem, se conseguir casar com uma nobre de alta estirpe. Eu, pelo contrário, rendido aos encantos da libertinagem e não sendo como ele um moralista retrógrado numa Europa que evoluía também nos costumes, seduzia mulheres e conquistava corações, nunca tendo deixado por isso ficar mal o nome de Portugal.
Bem pelo contrário. Sebastião José decidiu perseguir-me a partir dessa altura, informando Lisboa acerca de dívidas de jogo e alegadas imposturas que me eram atribuídas por força da inveja e da mesquinhez humanas. Mas a verdade é que essas intrigas fizeram o seu caminho e eu nunca mais pude regressar à minha querida Lisboa, durante quase quarenta anos. Foi como se várias vezes tivesse morrido em vida. Em países como a Itália ou a Holanda escrevi livros, tornei-me livre-pensador tornei-me protestante, fui reconhecido e apreciado e nunca deixei de me render ao encanto das mais belas mulheres. Sebastião José, já com o título de marquês de Pombal, nunca deixou de me seguir e perseguir à distância, através da sua rede de espiões e esbirros diplomáticos, certificando-se de que eu não teria condições para regressar a Portugal.
Convertido ao luteranismo, fui uma das vozes que se ergueram para atribuir as causas profundas do terramoto de 1 de Novembro de 1755 aos erros de políticos como Sebastião José, aos seus abusos e formas várias de desrespeito pela dignidade humana. Paguei o preço doloroso da coragem que tive ao ver-me condenado pela Inquisição (maldita) a ser queimado em efígie juntamente com o padre Gabriel Malagrida, esse de corpo inteiro, eu só na dor de me saber eterno exilado e apátrida. Nunca entre mim e Pombal houve lugar para o perdão ou para o diálogo, embora muitas vezes lhe tenha escrito e ele tenha deixado sem resposta as minhas bem intencionadas missivas, sempre abertas a uma possível reconciliação, que só teria sido vantajosa para Portugal, tendo em conta os meus contactos privilegiados junto das chancelarias das grandes capitais europeias. Porém, quem triunfou longe de Portugal, com o beneplácito do marquês, foi Luís António Verney, Ribeiro Sanches e Luís Cunha, ficando-me reservada a vala comum do esquecimento». In José Jorge Letria, Mal por Mal, Antes Pombal, Uma Memória de Sebastião J. Carvalho Melo, Clube do Autor, Lisboa, 2012, ISBN 978-989-724-005-8.

Mal por mal, antes Pombal, expressão popular usada pelo povo de Lisboa quando o marquês de Angeja, que substituiu Pombal, mandou suspender todas as obras de recuperação da cidade por ele iniciadas

Cortesia deCAutor/JDACT

Mal por Mal, antes Pombal. José Jorge Letria. «… eis o culpado, o que reconstruiu Lisboa depois do terramoto, o que manteve o imenso Brasil longe da cobiça dos holandeses, o que reorganizou o exército e impôs o respeito às chancelarias estrangeiras…»

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«(…) A minha morte poderá ser a porta pela qual hoje muitos querem entrar, não na História, mas na terra que um dia os baniu, mais por crimes cometidos do que pelo perigo das suas ideias reformadoras. Foi assim com este Cavaleiro de Oliveira, que bem conheci como diplomata em Viena de Áustria e que desde muito cedo se revelou um libertino sem escrúpulos, capaz de tudo fazer para se adornar com a fama e a fortuna alheias, manchando o nome de Portugal com promessas eternamente incumpridas. Sei de quem falo e do que falo e é com estes tons carregados que a minha memória o recorda, pavoneando-se pelos salões sempre em busca de presas fáceis para os seus estratagemas de caçador de fortunas alheias. Pessoas assim só servem para denegrir o nome de Portugal, para o manchar noutras cortes e noutras terras, disse-lho como quem lavra uma sentença, e nem grandeza moral teve para procurar o desagravo num duelo em que, por certo, a razão e a justiça haviam de prevalecer.
Nunca Portugal precisou de gente desta índole para fazer as verdadeiras reformas de que carecia com a finalidade de se tornar grande entre as nações europeias. Imagino-o agora, decadente e amargurado, a empoar-se num qualquer lupanar de rua íngreme, lançado ao abandono por quem não suporta a sua decadência física e moral, na ilusão de que a minha morte representará a passadeira estendida para um regresso que nunca ocorrerá. Sei bem como a inveja de quem me cobiçou o poder e a influência foi a hidra que nunca parou de se enrodilhar nas pernas de quantos, com astúcia e ambição, me adulavam e seguiam, sempre na esperança de que por fim soasse a hora da minha desgraça. E essa hora chegou, colocando em alvoroço nos gabinetes, com sanha de verdadeiros carrascos, aqueles que ainda há poucos meses serviam diligentemente sob as minhas ordens e de tudo me informavam com copiosa imaginação, na esperança de conquistarem um lugar que a intriga ajudasse a vagar.
Restasse-me ainda tempo para semelhante tarefa e havia de escrever um extenso tratado sobre a baixeza moral e a ambição sem limites dos cortesãos deste reino de Portugal e de todos os reinos, que não é afinal muito diversa a condição dos humanos de nação para nação. Aprendo com o passar dos anos esta lição que nunca deixei de ter presente, para o melhor e para o pior. Se é preciso ter um culpado, aqui têm agora o culpado. E em resposta à minha voz interior, que nunca desiste de me confrontar com as suas interrogações, eu respondo apenas, bem seguro do que digo: eis o culpado, o que reconstruiu Lisboa depois do terramoto, o que manteve o imenso Brasil longe da cobiça dos holandeses, o que reorganizou o exército e impôs o respeito às chancelarias estrangeiras e que converteu o comércio e a indústria desta terra em fonte de riqueza para muita gente.
Mas talvez não seja tempo de lembrar tais méritos, se é que assim podem ser entendidos, pois um culpado é sempre um culpado, e mais culpado se torna ainda quando é tratado nas ruas como um algoz da liberdade do seu povo. Mas que liberdade é essa que se ergue sobre o pedestal da miséria, do atraso, da ignorância, da crendice e da superstição, da subserviência e do medo? Se é essa liberdade que agora festejam nas ruas, mais avisado será baptizarem-na com outro nome. À íntima voz que me interroga a cada passo, respondo com esta breve reflexão: se para os novos arautos do poder eu sou o cruel dragão que a rainha escorraçou, que não descansem até que se extingam de vez as labaredas que a pobre criatura lançava pelas narinas ofegantes. O certo é que com todas estas maquinações que tão severamente me visam conseguiram roubar-me o ânimo até para manter em dia a correspondência com os meus filhos e com os amigos que me ficaram leais e dedicados, mesmo estando cientes dos riscos que essa lealdade e dedicação podem representar. E que fique registado nestas páginas que não temo o julgamento de nenhum deles, pois todos em consciência sabem que nunca deixei de colocar acima do meu interesse pessoal o do reino, o do meu rei e o do nosso Portugal.
A todos continuo a dedicar a ternura de que são merecedores, e se algo prezo acima de todos os outros valores e virtudes é a honra do nome que lhes deixo para ser lembrado e respeitado. Quem disso me quiser privar, de tudo me privará, pois será como se me roubasse a própria alma, como se voltasse a fazer tremer debaixo dos meus pés e no fundo do meu ser a terra toda, como aconteceu naquele trágico dia primeiro de Novembro de 1755 em que Deus se esqueceu da devoção deste povo e o condenou a um tal martírio que toda a Europa se ajoelhou, em sobressalto, para rezar pela salvação da sua alma». In José Jorge Letria, Mal por Mal, Antes Pombal, Uma Memória de Sebastião J. Carvalho Melo, Clube do Autor, Lisboa, 2012, ISBN 978-989-724-005-8.

Mal por mal, antes Pombal, expressão popular usada pelo povo de Lisboa quando o marquês de Angeja, que substituiu Pombal, mandou suspender todas as obras de recuperação da cidade por ele iniciadas

Cortesia deCAutor/JDACT

terça-feira, 27 de janeiro de 2015

Em Auschwitz. O Silêncio de Deus. João Medina. «… que ele mesmo teve o cuidado de lhes transmitir, um Deus que tem cóleras ou ternuras no seu trato com a humanidade, um Deus sentimental, humanizado, intervindo na História dos humanos»

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Aleph
«(…) Só o silêncio desnudo e desvinculado de qualquer estratagema artístico me permitiria homenagear uma força que chamo Deus e cuja grandeza inimaginável tento vagamente imaginar sabendo que apenas o meu silêncio pode render homenagem digna a uma força que eu mesmo conceberia como demasiado poderosa para poder ser vista em todo o seu esplendor imenso, como se fosse uma única areia do deserto que tentasse imaginar como seria o céu constelado que cobre o universo visível. Só o silêncio atemorizado, à maneira daquele que Pascal angustiadamente sentia, esse silêncio eterno dos espaços infinitos e tácitos, me pode socorrer para imaginar o que Deus possa ser: algo que só pelo meu absoluto e resignado silêncio posso respeitar e temer na sua suposta grandeza excessiva. Calar-me, em suma, seria a forma suprema de imaginar aquilo que excessivamente me ultrapassa e a que talvez eu pudesse dar o nome cómodo, ou convencional, de divino. Mas nada disto me aproximaria um milímetro daquilo que concebo como podendo ser a infinitude de um ser chamado Deus, uma vez que apenas me dispensaria de ter uma ideia antropomorfizada do conceito de Deus, tornando-lhe, ainda assim, incapaz de conceber a sua luminosa treva sem fundo.

Beth
Nunca entendi como é que se pode querer, ou intentar querer, provar Deus, demonstrá-lo. Há mesmo qualquer coisa de absurdo e fátuo nesse intento, como se ele fosse uma paródia da divindade que se quer mostrar como demonstrada ou demonstranda. Como é que algo tão transcendente pode ser demonstrado como se fosse o teorema de Fermat ou ainda qualquer outro enigma matemático ou lógico ou de qualquer outra natureza afim? Falar de Deus é, desde logo, verbiagem frívola, acto de loucura atrevida, desfaçatez da razão humana: porque é que durante séculos de fez teologia em vez de se ter ficado calado, humildemente calado diante de tamanho mistério incompreensível, desse mysterium tremendum e sem solução possível que era poder haver ou dever haver uma entidade transcendente anterior ao tempo, fundadora do tempo, actuante no tempo e, apesar disso, intemporal? Só a teologia negativa medieval ousou intentar um caminho diferente para Deus, atrevendo-se a dizê-lo impossível de ser nomeado, descrito, explicado, demonstrado, etc. Mas essa via negativa da teologia ficou-se pelo caminho, subsumiu-se na corrente da teologia positiva, mesmo quando alimentava subterrâneos veios místicos heterodoxos, não tendo decisiva sequência no pensamento cristão ocidental, ainda que todo ele tivesse sido marcado pela sua influência seminal, estabelecendo-se como prólogo de outras aventuras místicas mais intrépidas, mais fundas, a dois passos da heresia.
O mistério de Deus, e da sua improvável relação com as suas criaturas, devia ter sido sempre tomado como mistério, apenas como mistério, portanto de todo em todo insusceptível de demonstração ou prova alguma, filosófica, racional, teológica ou científica. A única prova de Deus só poderia ser fornecida pelo próprio Deus, comparecendo diante de nós e, ante nossos olhos mortais, varando-nos com a sua terrível presença, agindo de modo que o entendêssemos, ouvíssemos e víssemos, ou seja, de maneira que os nossos sentidos e a nossa pobre razão não tivesse outra solução a não ser a de aceitar a prova provada de um Deus que assim se abaixaria a provar-nos que é. No fundo, as duas grandes religiões do Livro optaram por um Deus pessoal, que se personaliza e antropomorfiza, que convive com os homens por ele criados, que intercede junto deles, se intromete nos seus negócios temporais e amorosos, lhes barra o caminho ou, ao contrário, propõe rotas para a salvação, lhes abre o mar para que passem, lhes dá as tábuas da sua Lei ou fulmina-os quando estes desobedecem a ditames que ele mesmo teve o cuidado de lhes transmitir, um Deus que tem cóleras ou ternuras no seu trato com a humanidade, um Deus sentimental, humanizado, intervindo na História dos humanos. Em suma, estamos diante de um Deus que se faz humano, sobretudo no cristianismo, a ponto de baixar à terra numa dada época da História humana, para se misturar com os homens e por estes ser crucificado. Ou um Deus que, em pleno século oitocentista, vindo do desaguar das Luzes, se digna convocar o Príncipe das Trevas para lhe perguntar como vai e se pode participar num repto lançado a um sábio germânico, já que é assim que pode ser entendido o Prolog im Himmel do Fausto de Goethe, ainda que coubesse a Mefistófeles garantir que não lhe interessam nem o mundo nem os sóis mas tão só como os homens se atormentam, prólogo no céu, do Fausto…» In João Medina, O Silêncio de Deus em Auschwitz, Aleph, seguido de O Museu do Holocausto, Edição da CM de Cascais, 2001, ISBD 972-637-089-2.

Cortesia da CMCascais/JDACT

segunda-feira, 6 de outubro de 2014

Mal por Mal, antes Pombal. Uma Memória. José Jorge Letria. «Era, pois, tempo de partir, de buscar o recolhimento que a minha avançada idade e a minha débil saúde exigiam para poder acabar os meus dias em paz. Mas ainda faltavam a humilhação dos infindáveis interrogatórios»

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«(…) E, nas minhas costas, havia sempre uma voz venenosa e sibilina a murmurar: - Afastem-se que o homem vai passar, e que ninguém queira ser visto na sua companhia, apiedando-se dele, nesta hora, pois é pior do que ter peçonha. Chegara o tempo da mudança, da Viradeira, o tempo de esquecer o que trouxera progresso à cidade e ao país e de encontrar o culpado de todos os males, de todos os erros, de todas as usurpações, de todos os crimes. E esse culpado só podia ter um nome: Sebastião José Carvalho Melo. Estava em marcha uma campanha de difamação, de aviltamento do meu nome e da minha obra contra a qual eu nada podia fazer, a não ser pedir à rainha que intercedesse em minha defesa, ou seja, em defesa de quem servira seu pai com dedicação e absoluta lealdade, salvaguardando os interesses da coroa e a posição de el-rei, que nunca em mim deixou de confiar, em nome de Portugal.
A rainha acedeu ao meu pedido de exoneração de todos os cargos, aceitou a minha retirada para Pombal e ainda me agraciou com a comenda da S. Tiago de Lanhoso. Mas, ao mesmo tempo, soltou das prisões para cima de oitocentos condenados, muitos deles de delito comum, que nada tinham de político no seu cadastro civil. O povo fora posto a ferro e fogo contra o ex-ministro do Reino, e disso me dei conta quando, passando a minha carruagem pelo meio da multidão, a caminho da minha residência em Oeiras, ouvi insultos e palavras de chacota que muito me feriram na dignidade e na honra. Morte ao ladrão, ao carrasco do povo, ao inimigo da coroa. Que Deus o castigue por todo o mal que fez, eis o que agora gritavam os que antes me louvavam e temiam. Talvez a História venha um dia a tomar o meu partido, mas o povo, que antes me respeitara e aclamara, via agora em mim o inimigo público que urgia humilhar e abater. Em horas como estas, um homem de Estado caído em desgraça é bem mais vulnerável que qualquer condenado de delito comum.
Era, pois, tempo de partir, de buscar o recolhimento que a minha avançada idade e a minha débil saúde exigiam para poder acabar os meus dias em paz. Mas ainda faltavam a humilhação dos infindáveis interrogatórios, o corpo em chaga, as hemorragias, as febres, os pesadelos de noite inteira, a fraqueza do estômago, as dores e a amarga sensação de que, sempre que me interrogavam sobre coisas de muito duvidosa relevância, era como se me fizessem subir ao cadafalso para me decapitarem à vista da populaça enfurecida, com a maldita mitra na cabeça, a que o povo por desprezo chama carocha. E bem mais humano teria sido tirarem-me a vida desse jeito do que prolongarem o meu sofrimento para além do que é humanamente tolerável.

Carta do marquês de Pombal ao filho Henrique, conde de Oeiras
Meu filho do meu coração
«Tua carta me acha tão triste e tão saudoso como só, porque não tenho ainda a consolação de tua mãe, e as pessoas da equipagem com que devo continuar o meu caminho não têm chegado até agora. A noite foi como podes bem crer; acrescendo-se aos trabalhos antecedentes a separação de filhos e genros, a quem amo com tanta ternura. Não tenho, porém, maior abatimento do que aquele com que me saí de casa. Deus que vê os meus trabalhos, e a resignação com que os sofro, me dará força para os tolerar. Lanço-te a minha bênção. É tudo o que posso dizer-te.
O teu pai que muito te ama»
Sebastião José
Oeiras, 6 de Março, pela manhã

Nunca percebi se existe uma porta para se entrar na História e se essa porta poderá ser aberta para alguém como eu. Neste momento, acossado pela suspeição e pelo desamor do povo e dos novos governantes, serei por certo o último a vê-la ao meu alcance. De pouco me serve entrar ou não entrar no livro da História, já que ele é sempre escrito por quem detém o poder e, nesta hora de sofrimento pessoal profundo, não serei eu nem ninguém que me seja afecto a ditar os seus termos. Morro um pouco mais todos os dias e estou consciente de que esse é o desiderato de quem me odeia: fazer-me penar e padecer até à agonia final, já que a razão de Estado recomenda, depois de tanta obra feita, que não me conduzam a outro cadafalso que não seja o da humilhação. Entre os que perto e longe me odeiam, imagino a bizarra figura do Cavaleiro de Oliveira na penúria, algures nessa Europa, talvez em Itália, talvez na Holanda, planeando o seu regresso a Lisboa após tantos anos de exílio». In José Jorge Letria, Mal por Mal, Antes Pombal, Uma Memória de Sebastião J. Carvalho Melo, Clube do Autor, Lisboa, 2012, ISBN 978-989-724-005-8.

Mal por mal, antes Pombal, expressão popular usada pelo povo de Lisboa quando o marquês de Angeja, que substituiu Pombal, mandou suspender todas as obras de recuperação da cidade por ele iniciadas

Cortesia deCAutor/JDACT

domingo, 6 de julho de 2014

Em Auschwitz. O Silêncio de Deus. João Medina. «… aquilo que excede todo o pensamento e que habita para além das alturas da morada celestial (...) Aquele que está acima de toda a essência e toda a inteligência…»

Cortesia de wikipedia

Aleph
«(…) Contudo, ao escrever e pensar estas limitações ao acesso do divino pela mente humana, não estarei, afinal, a imaginar Deus, a postulá-lo com uma hipótese ou uma premissa garantida? Creio que não. Limito-me, sim, a conceber que Deus é uma entidade desde logo inconcebível, porque, se existisse, ultrapassaria tudo quanto a nossa pobre mente seria capaz de pensar dele: inconcebivelmente vasto, complexo, misterioso, transcendente, inacessível, inatingível, incompreensível, etc. Só recorrendo ao quia absurdum seria o meu espírito capaz de o aceitar como graniticamente existente e susceptível de ser conhecido. Não intento sequer aproximar-me desse deserto imenso e interminável que seria Deus ou desse mar profundo e infinito sem margens finais em lado nenhum do espaço universal que seria, assim, a sua imensidão inexaurível, a sua prodigiosa e derrotante grandeza sem quaisquer termos ou fronteiras ou limites.
Por isso, à maneira da teologia negativa da Idade Média, desde o corpus areopagiticum do chamado pseudo-Dionísio (século VI d.C.), que imprimiu um selo platónico a toda a escolástica e mística da Idade Média, fascinando todo o seu pensamento, o pseudo-Dionísio definia Deus como extra-ser, aquilo que excede todo o pensamento e que habita para além das alturas da morada celestial (...) Aquele que está acima de toda a essência e toda a inteligência (De mysthica Theologia), só posso conceber a minha própria incapacidade de o conceptualizar e abarcar, a minha nativa e insuperável inabilidade para imaginar o que Deus possa ser ou como possa ser, definindo-o negativamente. Nenhum voo vertical me levantaria, assim, do chão miserável onde rasteja o meu espírito, como a serpente bíblica condenada por Deus por ter auxiliado Adão e Eva a julgarem pelos próprios intelectos. Deus fica sempre para além de tudo quanto eu possa imaginar ou intentar racionalmente exprimir, a menos que desde logo o decretasse como cognoscível, ser a amar, ser amado, e nessa medida susceptível de ser atingido pelo meu caminho persistente para ele ou de algum modo erguido até ele pelo próprio amor que ele me tivesse, à maneira de todos os utopistas individuais que se chamam místicos, viajantes temerários que buscam tão ardentemente uma incógnita terra buscada e sonhada, a qual, mesmo que não existisse, Deus a criaria para que a achassem algum dia.
Crer em Deus supõe, ao fim e ao cabo, a graça de crer nele, a vontade que é só dele de se fazer amado por mim, a graça que ele me desse para que eu o amasse, o pudesse ou quisesse amar. Só com a sua ajuda, portanto , a minha alma poderia achá-lo ou concebe-lo, o que é, evidentemente, absurdo para quem não parta de um pressuposto de crença prévia nele, como é o nosso caso. Como é que eu posso imaginar esse espantoso ser inimaginável, a menos que previamente me sinta dotado da capacidade, ou do mérito, de por ele ser encaminhado, ou erguido, para a sua esfera transcendente, ou capaz de anular a infinita distância que me separa do seu trono pela simples presença de uma vontade que, no fundo, me anula e supera, de molde a encurtar essa infinidade espacial que me separa de Deus e, deste modo, tornar possível o meu caminho para ele? Simone Weil, ardente enamorada de Cristo, supunha que o ser humano é uma flor que Deus se abaixa a colher porque só ele é capaz do infinito amor que tal gesto de humildade implica. A vinda do seu filho à terra e o seu sacrifício eram uma prova suprema deste mesmo amor desta infinita humildade dadivosa e sacrifical do amor de Deus pelos homens, deste sacrifício por nós. Mas como posso aceitar esta postura, se não creio em Deus nem no seu filho feito homem?
Que fazer então, em relação a uma realidade tão vasta que não se deixa conceptualizar pela mente humana sem o auxílio do próprio divino, a menos que ela mesma se digne auxiliar esse pobre e grotesco instrumento de medida com o qual se intenta medir o incomensurável? O registo poético permite-me, talvez, superar distâncias infindas, imaginando tropos que me ajudariam a esboçar o que Deus possa ser. O que, desde logo, me parece ser um recurso de astúcia artística que pode satisfazer um esteta mas não a alma que buscasse uma certeza íntima e satisfatória, ou seja, artifício que não passa afinal de uma vaidade ridícula de substituir a questão da transcendência divina pelo mero sortilégio do violino quebrado que, afinal, toda a arte dos homens é. Não há maneira de escapar a esta aporia: se Deus não me ajudasse a pensá-lo e a chegar até ele, eu seria incapaz de o pensar e de chegar até ele, mesmo que andasse séculos e subisse verticalmente de avião em direcção aos céus. Tal hipótese suporia que Deus se interessasse desde logo pela minha patética busca dele, o que não passaria de uma maneira inaceitável de erguer o meu pobre Ego miseravelmente pequeno de humano a dimensões de vertigem: o que é que me pode tornar digno de ser amado e acolhido pelo amor de DeusIn João Medina, O Silêncio de Deus em Auschwitz, Aleph, seguido de O Museu do Holocausto, Edição da CM de Cascais, 2001, ISBD 972-637-089-2.

Cortesia da CMCascais/JDACT

Em Auschwitz. O Silêncio de Deus. João Medina. «Mesmo que andássemos ao longo de séculos, não faríamos mais do que andar à volta da terra. Mesmo de avião, não faríamos outra coisa. Não nos é possível avançar verticalmente»

Cortesia de wikipedia e jdact

Aleph
«(…) A impensabilidade de Deus, a impensabilidade de tudo quanto seja divino: Deus não pode ser pensado por nós, mesmo que ele nos tivesse criado. A magnitude abissal do que ele seria, se fosse, basta para não o tentarmos pensar, mesmo com metáforas e linguagem poética. Deus é sempre demasiado: demasiado grande, demasiado complexo, demasiado incompreensível, demasido misterioso, etc., para a nossa mente, limitada para a vertiginosa pequenez do ser humano, mortal e vão. A nossa mente não pode conceber o ilimitamente ilimitado que seria Deus, só o podemos imaginar vagamente, como quem passeia à beira de um oceano cujos exactos limites nem a nossa vista nem a nossa imaginação logram conceber na sua extensão total. Imaginá-lo na sua infinita extensão e grandeza relevaria de uma espécie de aposta, diferente daquela que imaginou Pascal, mas com igual sentido de tentar acertar por palpite, intento desde logo vão e nada seguro. Pensar Deus é, deste modo, um absurdo: só podemos imaginar vagamente, por exemplo, o que possa ser o Infinito ou a Eternidade ou o Tempo sem limites ou a simples morte.
Deus fica sempre para além de, para além de toda a nossa possibilidade conceptual ou mesmo imaginativa ou artística, humana, meramente humana, porque finita, vulnerável, incerta, limitada, de o conceber, de falar dele, de indicar as suas eventuais propriedades, dimensões, capacidades, etc. Deus é um absoluto absolutamente insusceptível de ser pensado, apreendido pelo nosso cogito. Mesmo almas tão crentes e ousadamente cristãs como a de Simone Weil não hesitaram em observar esse fenómeno de inacessibilidade da esfera do divino: … a infinidade do espaço e do tempo separa-nos de Deus. Como o procurarmos? Como irmos até ele? Mesmo que andássemos ao longo de séculos, não faríamos mais do que andar à volta da terra. Mesmo de avião, não faríamos outra coisa. Não nos é possível avançar verticalmente. Não podemos dar um passo em direcção aos céus. (Pensées sans ordre concernant l'amour de Dieu, 1942).
A mística francesa, saída de um judaísmo que nunca chegara a conhecer, caminhando em plena tormenta dos anos negros da ocupação e da barbárie nazi em direcção a um Cristo que ela amava com a paixão fervorosa de quem se converte a um ideal extremo e inevitável, com a mesma dolorosa e dadivosa vontade que a fizera bater-se pelos republicanos espanhóis, acrescentava, logo a seguir ao texto acabado de citar, que essa infinidade de espaço podia ser superada pelo amor de Deus: … para além da infinidade do espaço e do tempo, o amor infinitamente mais infinito de Deus vem-nos colher. Ele vem na sua hora. Semelhante asserção parte de um postulado místico apriorístico, o de que Deus ama quem o busca e quem quer por ele ser encontrado, cabendo-nos tão só acertar ou recusar essa socilitude do próprio divino: Deus ama-nos e vem buscar-nos movido por esse amor infinito por nós. Petição de princípio de raiz crente, que nada adianta para quem, como nós, não parte de semelhante premissa, de qualquer amor prévio e consentidor por parte do próprio Deus, não aceitando que Deus queira ser amado e procurado, antes duvida que a infinidade do espaço entre a alma humana e Deus alguma vez possa ser transposta, não fazendo sentido que seja Deus a tomar a iniciativa de ultrapassar essa distância. Muito ao invés da postura crente dessa alma esfolada que era Simone, a nossa atitude é de que, de facto, nunca faríamos mais do que andar à roda da terra se tentássemos ascender em direcção a Deus, até porque Deus é, desde logo, insusceptível de ser pensado ou abarcado pela nossa mente ou explicado, descrito ou sequer referido pela indigente palavra humana». In João Medina, O Silêncio de Deus em Auschwitz, Aleph,seguido de O Museu do Holocausto, Edição da CM de Cascais, 2001, ISBD 972-637-089-2.

Cortesia da CMCascais/JDACT

quarta-feira, 4 de junho de 2014

Em Auschwitz. O Silêncio de Deus. João Medina. «A estada de alguns foi muito breve. Outros permaneceram meses e até anos. Alguns acabaram mesmo por se radicar na nossa terra, beneficiando das condições de acolhimento e de hospitalidade que o estatuto neutral do país durante a guerra favoreceu»

Cortesia de wikipedia

Para que Nunca Mais
«O Holocausto, expressão habitualmente utilizada para referir o que os judeus designam por Shoah, continua a ser a ferida mais teimosamente aberta na memória do conturbado século XX. A crueldade indescritível do aparelho de extermínio nazi provocou a morte a mais de seis milhões de pessoas em campos de concentração espalhados por vários países da Europa Central, designadamente a Alemanha, a Polónia e a Checoslováquia. Esses campos de horror foram a trágica etapa final de milhões de vidas ceifadas por uma máquina de destruição que não poupou judeus, opositores políticos, ciganos, homossexuais e testemunhas de Jeová. Das vítimas conhecidas, seis milhões eram judeus. O seu único crime foi pertencerem a uma etnia e a uma religião, praticada ou não, transformando-se, só por esse motivo, no alvo daquilo que Hitler e os seus sequazes designaram por Solução Final.
O horror dos militares Aliados e das tropas soviéticas ao entrarem pela primeira vez nesses campos de extermínio, numa altura em que o regime nazi se encontrava já na fase de colapso final, continua a ser partilhado por todos quantos, nos nossos dias, tomam contacto com essa realidade que as palavras são sempre parcas para definir e classificar. Como disse um filósofo do século XX, o horror dos campos de concentração é imprescritível, ou seja, não pode nem deve ser apagado da memória contemporânea, tão volátil, tão apressada e tão esquiva que tenta condenar ao esquecimento tudo aquilo que a incomoda e põe em causa, sobretudo se estiver associado aos valores humanistas que consubstanciam o nosso pacto com a liberdade e com a condição humana.
O Espaço dos Exílios, criado pela CM de Cascais, em Fevereiro de 1999, pretende dar um contributo no sentido de que a memória dessa época não prescreva nem se apague. Por esta zona do país passaram dezenas de milhares de pessoas, na sua maioria judeus, que, fugindo do terror nazi, buscavam em Portugal condições para partirem para lugares onde uma nova vida pudesse iniciar-se. A estada de alguns foi muito breve. Outros permaneceram meses e até anos. Alguns acabaram mesmo por se radicar na nossa terra, beneficiando das condições de acolhimento e de hospitalidade que o estatuto neutral do país durante a guerra favoreceu.
Vários pontos do concelho, e, em particular, Cascais e Estoril, foram o ponto de abrigo para gente de várias origens e distintas culturas que fugia da humilhação e do extermínio, perplexa e acossada perante a sanha assassina que os elegera como vítimas preferenciais. Passaram décadas desde o Holocausto. No entanto, imagens como zaquelas conservam intacta a sua actualidade. Essa actualidade resulta da circunstância de, na Europa e noutros pontos do mundo, continuarmos a assistir, diariamente, ao atropelo reiterado e sistemático dos direitos humanos. Quer isto dizer que o ser humano continua a ser capaz da maior grandeza e maior vileza, consoante as condições históricas em que se encontra e as situações com que é confrontado. Historicamente, está provado que não tem povos incapazes de actos bárbaros dependendo o seu potencial de agressividade e beligerância das circunstâncias com que são confrontados». In José Jorge Letria, Para que nunca mais, João Medina, O Silêncio de Deus em Auschwitz, seguido de O Museu do Holocausto, Edição da CM de Cascais, 2001, ISBD 972-637-089-2.

Cortesia da CMCascais/JDACT

domingo, 16 de março de 2014

Mal por Mal, antes Pombal. Uma Memória. José Jorge Letria. «… ministro do monarca José I, era agora um animal a abater a qualquer preço, mas antes teria de ser sangrado em vida com os ferros aguçados da humilhação e do opróbrio. Não podiam restar-me dúvidas de que me esperava a exoneração imediata e vingativa»

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«(…) Estou doente, muito doente e fraco. Tenho o corpo numa chaga que me martiriza dia e noite com comichão, ardor e dores, sinto-me a desfazer por dentro e por fora, e não há médico capaz de mitigar este sofrimento que parece ser já um castigo terreno para os muitos males que em Lisboa me atribuem, como se eu tivesse sido a encarnação do próprio demónio, o rosto secreto do Mal, e de novo a voz interior me pergunta se espero absolvição dos pecados que possa ter cometido em nome daquilo em que acreditei e servi. Em horas como estas é sempre preciso encontrar um culpado, um responsável, um rosto e um nome sobre os quais se abata a cólera dos novos poderes. Quem melhor do que eu estaria em condições de preencher este dramático requisito? Pareço ter sido talhado para desempenhar esse papel no grande teatro da baixeza humana, em que os papéis de acusadores e carrascos são agora desempenhados por aqueles que me bajularam enquanto cumpriam as minhas ordens, sempre solícitos, sempre prontos a ouvir e intrigar, sempre dispostos a denunciar e a colher os frutos da delação.
Cedo se anunciou de forma eloquente a pena que me estava reservada quando, mesmo sendo eu ministro do Reino e tendo essa incumbência protocolar fui afastado da preparação das exéquias do Senhor Rei José I e proibido de acompanhar o féretro até S. Vicente de Fora, onde me fiz representar pelo meu filho Henrique, conde de Oeiras e presidente do Senado de Lisboa, que me deu conta da frieza, indiferença e mesmo imperdoável deselegância com que foi recebido: Meu pai, não me restou outro procedimento que não fosse abandonar o local como forma de protesto contra a maneira como senti ser ferido o meu e o vosso orgulho. Não se trata assim quem representa aquele que, servindo o Rei e o Estado, deu o melhor de si para que Portugal progredisse e se tornasse respeitado. Bati com a porta e saí, meu pai, sabendo que só esse gesto poderia fazer justiça ao vosso bom nome e à dignidade da nossa família. Assim se lavrava, tacitamente, a sentença que acabou por me atingir com a chegada a Pombal de dois juízes, no passado dia 9 de Outubro, com a incumbência de me interrogarem durante horas. Os interrogatórios têm decorrido horas a fio entre as 11 e as 15 horas, mostrando-se os inquiridores, a que prefiro chamar inquisidores, totalmente insensíveis à miséria do meu estado físico, tendo mesmo um deles sussurrado para o colega, em tom jocoso: O homem sofre é de lepra e temos de nos acautelar com o perigo de contágio.
Falarei no passado ou no presente, ao longo destas memórias, por me ser já indiferente o tempo verbal. O que conta é que o meu tempo de vida está muito próximo do fim e tudo me parece agora distante e vago, como se todas as despedidas tivessem já sido feitas e nada mais houvesse doravante a acrescentar. Era apenas o começo do meu calvário final que se prolongou por quase três meses, com sessões de várias horas, em que tudo me era perguntado, mais para dar como garantida a minha humilhação e sofrimento físico do que para obterem as respostas que nunca me furtei a dar, mesmo porque, apesar da debilidade física, a memória se conservava, até por obstinação de nobre humilhado, ágil e fresca numa atitude de resistência e de firmeza moral. Senhores, responderei a tudo o que me for perguntado, mas não imaginem que possa ceder no que vos disser, apenas para obter clemência ou para que encurtem o tempo dos vossos interrogatórios. Quem viveu a vida como eu a vivi, não se amesquinha agora por tão pouco, seja qual for o grau do seu sofrimento.
Eu estava condenado muito antes de haver acusação formal, já que, em Lisboa, os meus inimigos me acusavam de tudo o que a pródiga imaginação lhes ditava, desde abuso de poder até à criação de um labirinto que envolvia todos os negócios civis e políticos do Reino. O Marquês de Pombal, ministro do monarca José I, era agora um animal a abater a qualquer preço, mas antes teria de ser sangrado em vida com os ferros aguçados da humilhação e do opróbrio. Não podiam restar-me dúvidas de que me esperava a exoneração imediata e vingativa e que por isso a ela devia antecipar-me com um pedido bem fundamentado. Disso me dei conta quando, ao deslocar-me ao meu gabinete para recolher papéis e alguns objectos pessoais, vi gente que muitos favores me devia e que sempre de mim dependera a virar-me ostensivamente as costas, como se ali estivesse um assassino ou um ladrão do erário público. Quando os seres humanos descem a tal patamar de baixeza, percebemos como é frágil a nossa condição, como é ingrata a memória daqueles a quem fizemos bem e como, mudando os ventos, também mudam as regras e os procedimentos do poder. Tinha chegado, sem glória, a hora do afastamento compulsivo, que só não se consumou sob a forma de crime de sangue porque ninguém teve coragem bastante para chegar a esse extremo». In José Jorge Letria, Mal por Mal, Antes Pombal, Uma Memória de Sebastião J. Carvalho Melo, Clube do Autor, Lisboa, 2012, ISBN 978-989-724-005-8.

Mal por mal, antes Pombal, expressão popular usada pelo povo de Lisboa quando o marquês de Angeja, que substituiu Pombal, mandou suspender todas as obras de recuperação da cidade por ele iniciadas

Cortesia deCAutor/JDACT

terça-feira, 28 de janeiro de 2014

Jazz. Carlos Martins. Poesia. «Quando eu for pequeno, mãe, quero ouvir de novo a tua voz na campânula de som dos meus dias inquietos, apressados, fustigados pelo medo. Subirás comigo as ruas íngremes com a certeza dócil de que só o empedrado e o cansaço da subida me entregarão ao sossego do sono»

Cortesia de wikipedia

 
«Rubricavam os decretos, as folhas tristes
sobre a mesa dos seus poderes efémeros.
Queriam ser reis, czares, tantas coisas,
e rodeavam-se de pequenos corvos,
palradores e reverentes, dos que repetem:
és grande, ninguém te iguala, ninguém.
Repartiam entre si os tesouros e as dádivas,
murmurando forjadas confidências,
não amando ninguém, nada respeitando.
Encantavam-se com o eco liquefeito
das suas vozes comandando, decretando.
Banqueteavam-se com a pequenez
de tudo quanto julgavam ser grande,
com os quadros, com o fulgor novo-rico
das vénias e dos protocolos. Vinha a morte
e mostrava-lhes como tudo é fugaz
quando, humanamente, se está de passagem,
corpo em trânsito para lado nenhum.
Acabaram sempre a chorar sobre a miséria
dos seus títulos afundados na terra lamacenta».

Poema de José Jorge Letria, in "Quem com Ferro Ama"





 
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segunda-feira, 6 de janeiro de 2014

Mal por Mal, antes Pombal. Uma Memória. José Jorge Letria. «Herói? Nunca tal estatuto ou condição reclamei. Fui somente um homem de Estado, um governante dedicado que serviu o seu soberano e a sua Pátria, sem todavia descurar a atenção que sempre deve ser reservada a quem…»

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Mal por mal, antes Pombal, expressão popular usada pelo povo de Lisboa quando o marquês de Angeja, que substituiu Pombal, mandou suspender todas as obras de recuperação da cidade por ele iniciadas.

«(…) Que lhe fosse, entretanto, dada a oportunidade de se defender de todas as acusações e que dessa defesa se fizesse detalhado registo, para constar da memória histórica, à qual nem governantes nem governados se deverão eximir de prestar contas. Que se fizesse igualmente registo de todas as falas e outros testemunhos considerados relevantes para o apuramento da culpa ou da inocência de Sebastião José de Carvalho Melo, conde de Oeiras e marquês de Pombal. Na manhã em que os homens de leis rumaram a Pombal, a rainha experimentou uma rata sensação de alívio, ajoelhou-se e rezou, e, nessa noite, pela primeira vez em meses, não foi atormentada por pesadelos nem viu o pai a debater-se, mirrado e ardente, com as infernais chamas do castigo divino. Aspirava a rainha a ver-se livre de um fantasma ainda vivo, o do marquês, que lhe consumia a alma como se fosse um enviado de Lúcifer para lhe infernizar a vida. Se queria em seu redor uma Corte apaziguada e respeitadora dos preceitos, das regras e das distâncias protocolares, precisava de sentir que Pombal agonizava dia a dia, porquanto o seu sofrimento era o preço do resgate da sua tão almejada paz de espírito. Nas ruas, o povo ainda reclamava a condenação de Pombal, o mesmo que anos antes fizera renascer Lisboa das cinzas e dos escombros da catástrofe, mas nenhuma dessas vozes chegou aos aposentos reais, muito menos aquelas que, em surdina, começavam já a murmurar: Mal por mal, antes Pombal.

Vai declinando a luz no horizonte dos meus dias breves. Sinto que o fim se aproxima pela mão da doença e do cansaço. Que de mim não se espere já alento ou vontade para contrariar este inexorável declínio. Em Lisboa, os meus inimigos, que são muitos, desfraldaram as bandeiras do triunfo depois da minha partida e tudo fizeram para eu ser condenado, de preferência em julgamento público e com sentença capital. Mas eu sei que não se irá tão longe, embora existam outras formas de condenar um homem e de executar, mesmo que não seja necessário fazê-lo subir ao cadafalso. O que de mim se diz talvez não seja o que sobre mim se sente. E há uma voz cá dentro que me acompanha e interroga sempre que as certezas ameaçam não prescrever e as dúvidas se amotinam no meu espírito para me roubarem a paz a que aspiro. Não pode um homem de Estado queixar-se da ingratidão da Pátria ou daqueles que serviu, pois é sentimento que quase nunca existe em relação a quem teve sobre os ombros o peso da governação. Não é o povo que é ingrato; é a memória dos homens que tende a encurtar-se no escrutínio da História quando se trata de deitar contas ao que foi o exercício do poder. Longo, muito longo e tantas vezes árduo foi o caminho que percorri até chegar ao ponto em que hoje me encontro, ao todo vinte e sete anos, revisitando datas, nomes, lugares, feitos e desaires. Que ninguém espere de mim a lamúria ou autocomiseração por qualquer tragédia que me tenha assombrado a vida. Apenas uma me abalou o corpo e a alma, e falo do terramoto que assolou Lisboa em 1755. Foi a prova mais dura que Deus e a vida quiseram pôr-me no caminho, confrontando-me com a magnitude de uma dor colectiva e de uma destruição nunca antes conhecidas pelas gentes da nossa terra. Arregacei as mangas, juntei homens e vontades, cabedais e muita valentia, e ordenei que sobre os escombros nascesse não apenas uma nova capital mas uma nova mentalidade, uma outra maneira de sentir e de pensar Portugal. E eis que a voz interior me pergunta: …terá sido este o melhor caminho, o mais justo, o que não faz de um homem um déspota? E eu contenho-me e calo-me, pois nem as vozes que nos habitam, sejam elas de Deus ou da nossa consciência, merecem outra resposta que não seja a do silêncio que medita e aconselha. A verdade é que parte do meu desígnio foi cumprida; a restante só o tempo o poderá dizer.
Herói? Nunca tal estatuto ou condição reclamei. Fui somente um homem de Estado, um governante dedicado que serviu o seu soberano e a sua Pátria, sem todavia descurar a atenção que sempre deve ser reservada a quem, sediciosamente, tenta lançar por terra, em nome de privilégios e títulos há muito acumulados, o que, esforçadamente, outros conseguiram erguer para o bem comum, mesmo vindo de mais baixa condição. Estou só, muito só, apesar do apoio dedicado e sempre presente de minha mulher, e também num grande padecimento físico e moral. Só, na realidade, sempre estive nas horas em que tive de tomar as decisões que permitiram a Portugal resistir, modernizar-se e engrandecer-se de novo. É sina dos governantes, por mais vozes que ouçam e prezem, ouvirem somente a sua própria voz no momento em que são chamados a escolher, a sentenciar, a perdoar ou a punir. Por muito que um homem de Estado seja dado à partilha de opiniões, a última palavra será sempre a sua, para o melhor e para o pior, e entre os meus muitos defeitos nunca constou o de me inibir ante os imperativos da razão de Estado. Ouvi quem tinha de ouvir, dando preferência àqueles em quem confiava, mas a última voz que a minha consciência ouviu foi sempre a minha e nenhuma outra». In José Jorge Letria, Mal por Mal, Antes Pombal, Uma Memória de Sebastião J. Carvalho Melo, Clube do Autor, Lisboa, 2012, ISBN 978-989-724-005-8.

Cortesia deCAutor/JDACT

terça-feira, 17 de dezembro de 2013

O Profeta do Orvalho. Poesia. Wenceslau Moraes. José Jorge Letria. «Eu sou o que sempre se perdeu na memória que de si deixou no coração dos outros. Lembras-te de mim, Arrusi, negra bonita com olhos incendiados pela luz matutina da savana?»

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O Profeta do Orvalho
[…]
Visto este quimono com pássaros estampados
e sou eu que ganho asas para a exaltação do voo,
para a aventura azul de uma viagem circular
em redor dos cumes brancos e das crateras adormecidas
dos vulcões onde a lava hibernou e se fez pedra.
Vestido assim, sou um ser raro e inclassificável
que as fotografias não explicam
e a memória dos meus olhos não entende.
Vêem-me assim vestido, com as minhas barbas longas,
e mesmo que me dediquem atenção e afecto
só me podem sentir como estrangeiro,
eu que sou de todos os lugares e de lugar nenhum,
eu que sou do sítio da saudade de já não ter pátria
sem nunca ter consentido que ela morresse em mim.

Como eu invejo a coragem altiva dos samurais,
que mascara de aço a sensibilidade quase feminina
de quem sabe morrer por um orgulho ferido.
Desembainhava o meu sabre guerreiro,
na beligerância de quem enfrenta o desespero,
e decapitava nuvens e sombras, decepava cerce
a ignomínia de rumores antigos, e depois
cortava o fio que me prende à existência.
Mas eu não sou um suicida: eu preciso de viver
para lançar ao vento o fel das minhas queixas
e para encontrar nas mulheres amadas
o refúgio e a paz que o casulo das noites
insistentemente me nega, como se eu fosse
a alma penada de quantos amei e já partiram.

Poema de Wenceslau Moraes, in ‘O Profeta do Orvalho

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segunda-feira, 16 de dezembro de 2013

O Profeta do Orvalho. Poesia. Wenceslau Moraes. José Jorge Letria. «Em tantos lugares me perdi que hoje, para me encontrar, não me basta nem mapa, nem bússola, nem sextante»

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O Profeta do Orvalho
[…]
Há na tua boca o frio das Palavras
feridas pelo gelo do vento. Responde-me,
que eu não posso ficar sem uma voz
que seja o rasto e o eco do que eu digo,
que seja o timbre do que eu canto.
Emudecida, deixas-me assim entregue
a este duplo e aterrador exílio:
o do coração e o da terra, indefeso,
a ver-te subir, alada e leve,
até ao céu onde se perdem os nomes
da glória dos deuses e dos santos.
Se um dia voltares, que seja
pela fímbria das praias da neblina
onde tudo se agiganta e se desfaz.

Eu nunca proporcionei felicidade àqueles que amei
porque nunca soube o que é ser feliz.
Será, talvez, este adormecimento dos sentidos
que apazigua em mim as dores ancestrais e ferinas,
que me põe no sono o bálsamo das noites sem temores.
A felicidade é uma deusa esquiva e tumultuosa
que mal se deixa tocar pelos dedos vacilantes
de quem a quer dominada e cativa.
Ela que tudo tem para dar, para partilhar,
outra coisa não fez senão recusar-me
o consolo de uma concha de água
nas horas delirantes e embravecidas da sede.
Nunca mais lhe dedicarei preces nem oferendas,
porque o meu tempo não serve para conjugar
os verbos em que ela se corporiza e ganha voz.

Poema de Wenceslau Moraes, in ‘O Profeta do Orvalho

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domingo, 8 de dezembro de 2013

Mal por Mal, antes Pombal. Uma Memória. José Jorge Letria. «O marquês de Pombal sai do pedestal e desce à terra. Empolgante que permite conhecer uma época de luzes e sombras, glórias e catástrofes e os enigmas de uma figura polémica, viva, grande e contraditória»

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Mal por mal, antes Pombal, expressão popular usada pelo povo de Lisboa quando o marquês de Angeja, que substituiu Pombal, mandou suspender todas as obras de recuperação da cidade por ele iniciadas.

«(…) Mais do que mostrar que é piedosa e magnânima, a jovem rainha, que não esquece as dores imensas de que amigos seus padeceram, mostra que tem grande astúcia política, intuição e sentido da medida. Para castigar Pombal como os seus inimigos reclamavam, ela teria de rejeitar o despotismo de Pombal e deixar manchado na galeria da História o retrato de seu pai com as sombras da pusilanimidade, da ausência de firmeza na governação e da passividade cúmplice. Só em circunstâncias extremas guarda uma filha semelhante tratamento para um pai, sobretudo quando ele foi rei e amado nessa dupla condição. Nunca Maria, devota e temente a Deus, rezaria para que se agravasse ainda mais a decrepitude de Sebastião José. Mas, no íntimo, ansiava pelo desfecho fatal, pelo epílogo trágico que pusesse fim a tantos meses de sofrimento. Se fosse essa a vontade de Deus, seria uma dádiva dos céus para o sofredor Pombal e para a nova governação. Já nas terras que lhe davam título, em Pombal, ele próprio, farrapo de si mesmo, febril e em crescente estado de putrefacção, daria a ordem de execução, como muitas vezes fizera antes, se tal de si pudesse depender. - Majestade, só a morte pelo garrote e pelo fogo, como a que foi imposta ao pobre padre Malagrida, dará a Pombal o castigo que merece e que Deus, por certo, para ele tem reservado no tribunal da Sua vontade suprema. Raro era o dia em que D. Maria I não ouvia da boca de nobres e plebeus com responsabilidades frases deste jaez, ditadas por um ódio que nenhum bom senso ou memória de feitos incontroversos seria capaz de apaziguar. Até o povo, antes de pedir pão, reclamava agora a punição exemplar daquele que em nome dele tantas vezes pronunciara a palavra progresso ao falar do renascimento de Lisboa e do futuro de Portugal, prática tão comum que se vulgarizara.
Nem os confessores, jurados inimigos do ex-governante, davam agora sossego à jovem rainha, sussurrando-lhe visões dantescas como a que aqui fica registada:
  •  - Sabei, Majestade, que vosso amado pai sofre agora as tremendas penas do Inferno, por ter permitido que Pombal mandasse matar, degredar e humilhar tanta gente inocente, somente por ser na Terra um dos representantes do próprio Demónio.
Piedosa e de espírito atormentado, a rainha padecia de terríveis pesadelos, nos quais via o pai José I a arder no meio das mais furiosas labaredas, gritando pelo seu nome e exigindo-lhe que castigasse severamente o seu ministro por tanto o ter enganado e desviado do recto e iluminado caminho. Entretanto, despertava alagada em suores e dava-se conta de que o verdadeiro Inferno era ali mesmo na Terra, junto de si, com a vizinhança daquela personagem que, embora fisicamente distante, nos interrogatórios de Pombal, todos os dias a assombrava, a desassossegava, como se fosse ela e não ele o arguido. Os temores e alucinações que mais tarde viriam a toldar-lhe de vez a razão e a empurrá-la para a loucura foi nesses meses que se instalaram na sua mente inquieta para nunca mais dela saírem. As raízes da insanidade nunca se desprendem do chão movediço da razão atormentada. Se Pombal, o Marquês de todos os males e suspeitas, tinha de ser confrontado com a justiça, que o fosse quanto antes, sem tergiversações ou ambiguidades. Para tanto, designou a rainha dois desembargadores da sua confiança, ambos conhecedores dos trabalhos e do carácter do ex-ministro do rei, que deveriam confrontá-lo com todas as acusações contra ele inventariadas. E que não fossem brandos nem excessivamente cruéis, buscando a medida justa no discurso e na gestão do tempo.
Mais do que condenar Pombal, era imperioso, diga-se, fazer sofrer Pombal, sem permitir que viesse a Lisboa defender-se em tribuna pública, como chegou a reclamar, já que, se tal desiderato fosse atendido, iriam ouvir-se da sua boca muitas inconveniências sobre pessoas e instituições entretanto guindadas às mais altas funções do Estado. - Que se justifique, padeça e se defenda, caso possa, e que o interrogatório seja, em si mesmo, a parte mais importante da execução da sentença. O mais que houver para ser dito e lavrado para depois se tornar História constará de um decreto que assinarei com o meu punho, e não quero que tarde a hora em que o farei. Foi com estas ordens que os desembargadores José Luís França e Bruno Manuel Monteiro, reputados homens de leis, partiram sem demora, para, entre Outubro de 1779 e Janeiro de 1780, fazerem pesar sobre a consciência do Marquês o sentimento de agravo de uma nação inteira e de uma rainha comprometida com o destino do seu povo e com o valor sagrado da justiça, acima da qual o homem que fora ministro da plena confiança de seu pai não poderia em circunstância alguma ficar». In José Jorge Letria, Mal por Mal, Antes Pombal, Uma Memória de Sebastião J. Carvalho Melo, Clube do Autor, Lisboa, 2012, ISBN 978-989-724-005-8.

Cortesia deCAutor/JDACT

sábado, 7 de dezembro de 2013

Mal por Mal, antes Pombal. Uma Memória. José Jorge Letria. «… dá a voz a Pombal e a uma boa parte daqueles que o amaram e odiaram. Escutamos as testemunhas que o exaltaram e combateram, assistimos às suas conquistas e dores e presenciamos a queda de um homem poderoso»

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Mal por mal, antes Pombal, expressão popular usada pelo povo de Lisboa quando o marquês de Angeja, que substituiu Pombal, mandou suspender todas as obras de recuperação da cidade por ele iniciadas.

«A rainha que sucedera no trono a seu pai, José I, queria ficar na História como pessoa indulgente, caritativa e jamais movida pelas labaredas da acrimónia e da vingança. Não gostava de Pombal, nunca gostara. Execrava a sua sede de poder, a sua arrogância, os excessos do seu pulso de ferro e o desprezo que nutria por quem tivera berço superior ao seu. Era um homem temível que, pessoalmente, nunca lhe fizera qualquer agravo ou desconsideração, talvez por estar ciente de que, mais tarde ou mais cedo, teria de lhe prestar contas, de se ajoelhar à sua frente para lhe pedir perdão. Se dependesse somente dela, tudo se resolveria com firmeza mas sem alarido, para não se acordarem nos túmulos fantasmas antigos. Porém, o regresso de exilados como o duque de Lafões e de centenas de jesuítas expulsos do país forçava a rainha a mostrar a firmeza do seu mando, ordenando, entre outras medidas, a reabertura do processo dos Távora, com vista à libertação e reabilitação de todos os que Pombal mandara condenar, banir e executar.
Lisboa tornara-se uma cidade anti-Pombal, como se um novo terramoto a abalasse, mas, desta feita, em nome das injustiças que deviam ser reparadas e da limpeza da honra por que tantos clamavam, sobretudo à porta das igrejas, onde narravam, com cópia de pormenores, as malfeitorias de que haviam sido vítimas estando Sebastião José Carvalho Melo no poder. Muita gente se amotinava reclamando a punição exemplar daquele a quem, em tom de chacota, chamavam O Cabeleira, e que agora, degredado nas suas terras de Pombal, padecia dos pestilentos males do corpo por certo como punição divina por tanto mal ter feito a gente piedosa e inocente, a avaliar pela veemência dos testemunhos que ecoavam nas ruas, à mistura com lágrimas, preces e imprecações e súplicas. Com tudo isto fazia o povo coro, repetindo as rimas que verberavam a honra, a dignidade e a honestidade do marquês, antes temido e temível, até pelo porte imponente que alguém em tempos comparara ao do rinoceronte enviado a Roma para espanto do papa.
Raro era o dia em que a rainha não recebia em audiência quem fosse queixar-se de Pombal e dos actos com que agravara Portugal e os portugueses. Por vezes, agastada com a veemência dos testemunhos, dormitava agitada, e depois retirava-se para se refrescar e rezar. Sentada no trono que fora de seu pai, não podia furtar-se a esse encargo, mas estava ciente de que governar devia ser coisa de outra índole e que o seu tempo não podia ser todo consumido com as queixas que envolviam os muitos anos de presença de Pombal no poder. Se tinha de ser castigado, que fosse, mas nunca se devia perder de vista que condená-lo seria também condenar a memória do reinado de seu pai, que Sebastião José engrandecera com muitas medidas severas, mas justas e oportunas. A rainha sabia até que ponto o rei José I confiara no seu ministro, na sua competência e no seu poder de decisão, ciente de que nunca dele partiria qualquer maquinação ou manobra sediciosa que pudesse fazer perigar a sua autoridade real.
Lidava a rainha com um drama de todas as horas: Pombal já pertencia ao passado, mas permanecia obstinadamente presente, desde os pregões populares e das rimas dos cegos até aos sermões dos jesuítas regressados à grandiloquência vingativa e pomposa dos púlpitos. Quisera a rainha ver de vez aquele assunto selado e arquivado, mas faltava cunhá-lo com um libelo acusatório que mantivesse Pombal em Pombal, a morrer lentamente, como se agonizasse num tribunal imaginário, respondendo a múltiplos quesitos, enquanto as feridas corporais se abriam, fétidas e dolorosas, a febre aumentava e a comichão o deixava sem posição nem sossego. Ainda que não houvesse o propósito real de o fazer subir ao cadafalso, era necessário que o povo soubesse que o ex-governante não sairia impune e seria sujeito a uma sentença talhada para o ferir muito mais na honra do que na esperança de vida, já de si tão minguada, tão fugidia. A rainha castiga, mas sem derramar sangue. Decreta contra Pombal, que se vê privado de títulos e honras, mas, ao mesmo tempo, louva a sua acção como estadista. Os perseguidos, os degredados, os espoliados, os que vinham do reinado antigo de João V, querem mais, exigem que se vá mais longe, que role pelo menos uma cabeça. Mas Maria limita-se a fazer cair o medalhão que liga Pombal a seu pai, no pedestal da estátua, no Terreiro do Paço. Para ela, é quanto basta, estando nas suas mãos e não em quaisquer outras o ceptro do mando real». In José Jorge Letria, Mal por Mal, Antes Pombal, Uma Memória de Sebastião J. Carvalho Melo, Clube do Autor, Lisboa, 2012, ISBN 978-989-724-005-8.

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sábado, 30 de março de 2013

O Profeta do Orvalho. Poesia. Wenceslau Moraes. José Jorge Letria. «Vê como eu apodreço à ilharga da música que sai do interior das conchas junto à rebentação das ondas, no sítio onde os poetas há muito deixaram de escrever e de sonhar»

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Aqui
Aqui, entre os juncos e as flores do lótus,
compreendi que o inferno e o céu,
por mais que os deuses e os livros nos levem
a pensar o contrário, estão no coração do homem.
Eu conheci ambos deambulando por dentro de mim
e fazendo da sombra um desejo de luz
e da luz um secreto desejo de sombra.
Não foi o sol que me queimou o rosto,
foi o lume das inquietações fatais,
e quedei-me assim, apátrida e só,
numa terra a que chamo minha
mas que faz o longe tornar-se fatalidade.

Apego-me à sabedoria volátil e certa dos provérbios
e aprendo neles que sou, que sempre fui,
um insecto do estio a voar para a chama
e que após a neve vem o Nirvana.
Sempre encaminhei os meus passos na direcção da luz,
mas foi a treva que encontrei, fixando os pedaços
de reboco que se soltam do tecto
presos ao voo dos besouros, enquanto
eu me perco no labirinto da minha solidão.

Vê como eu morro devagar
enquanto a chuva desenha na poeira
as metáforas do Outono e do assombro.
Vê como eu apodreço à ilharga da música
que sai do interior das conchas
junto à rebentação das ondas,
no sítio onde os poetas há muito
deixaram de escrever e de sonhar.
Vê como eu me torno estrangeiro absoluto
numa terra que quer ser minha
mas que eu não consigo guardar no coração
como coisa essencial da minha vida.

Poema de Wenceslau de Moraes, in ‘O Profeta do Orvalho

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quarta-feira, 6 de março de 2013

Poesia. O Profeta do Orvalho. Wenceslau Moraes. José Jorge Letria. «Volto à sabedoria dos provérbios ancestrais e sei que a flor tombada da árvore a ela não poderá regressar, perdida que está para o mistério da seiva, para o sortilégio do estio»

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O Profeta do Orvalho

De longe nos chegam as notícias de catástrofes;
a terra tremeu na Martinica, na Formosa e em Nápoles,
e aqui é a minha alma doente que estremece e vibra
sob o impulso de um vulcão secreto
que mistura sofrimento com júbilo,
que confunde doença com saúde eterna.
Podia encomendar a minha alma magoada
a estes acolhedores deuses da casa
com quem é possível falar e que num instante
se tornam nossos cúmplices em nome da eternidade.
Mas que hei-de eu dizer-lhes que eles não saibam já?
Eu sou uma alma estremecida e indefesa
à espera que um tremor real da terra
daqui me leve para onde moram as outras almas.

Volto à sabedoria dos provérbios ancestrais
e sei que a flor tombada da árvore
a ela não poderá regressar, perdida que está
para o mistério da seiva, para o sortilégio do estio.
Caíram da árvore que eu sou
as flores mais amadas, as de aroma perene,
e eu vi que a minha vida se tornou igual
ao orvalho da manhã, evaporada pelo sol
como uma gota de água na pele de uma folha.
Falo dos que amei e visita-me a sua sombra,
tão perfeita e precisa que quase logro tocar-lhe.

Como eu gostava de ter sabido educar, na idade certa,
este pobre coração rebelde e ansioso
que nunca cessou de buscar na viagem
a paz que a imobilidade lhe negou.
Deixei, com o andar dos anos, que fosse ele
a conduzir-me os passos e a moldar-me os gestos.
Ao ouvir a pressa da água no corpo da rocha,
percebi que a minha vida se havia de esgotar
nessa voragem de andanças e regressos,
como o bambu que a labareda consome,
sem poder evadir-me dessa sina escrita no vento
com a pena aguçada dos poetas da chuva.

Poema de Wenceslau de Moraes, in ‘O Profeta do Orvalho

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