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sexta-feira, 19 de julho de 2019

Cemitério de Pianos. José Luís Peixoto. «Não mexas em nada, diz-lhe, brusca. E avança pela alcatifa do corredor. Como se uma ideia caminhasse também pelo corredor, viesse na sua direcção…»

Cortesia de wikipedia e jdact

«(…) A íris vai para começar a chorar, mas a minha mulher consegue contê-la. Diz-lhe: pronto, pronto. E enrola-lhe a mão pequena numa tira de ligadura que prende com fita adesiva. Depois, encontra um instante para lhe passar os dedos pelo cabelo: ternura: e, devagar, aproxima-lhe os lábios da testa. Sorri-lhe: já passou. A íris fica em bicos de pés, com o queixo erguido sobre o lavatório, enquanto a minha mulher lhe lava a cara ainda desordenada pelo choro. Sente-lhe o rosto. Sente-lhe o rosto através da toalha de pano turco e, só depois, pousando-lhe uma mão sobre o ombro, pergunta como é que o móvel caiu. Era a boneca, diz a íris. A minha mulher percebe que a nossa neta quis subir ao armário para tirar a boneca, vestida de nazarena, que a Maria tinha a enfeitar uma das estantes do armário. É uma boneca de plástico que a Maria comprou numa excursão. Tem as sete saias das mulheres dos pescadores da Nazaré e um chapéu preto sobre um lenço de flores. Tem pestanas pintadas sobre os olhos pintados. Está descalça sobre uma base redonda que diz: recordação da Nazaré. Apesar de todas as vezes que a avó lhe ralhou, a íris tem uma cegueira desmedida por aquela boneca. Quando a minha mulher começa a preparar-se para lhe ralhar, tocam à campainha. Mais uma vez, o seu coração. Já passa da hora em que o carteiro poderia tocar à campainha, é cedo para a hora de almoço da nossa filha e não é costume haver outras visitas durante todo o dia. A minha mulher deixa a íris a esperá-la na casa de banho.
Não mexas em nada, diz-lhe, brusca. E avança pela alcatifa do corredor. Como se uma ideia caminhasse também pelo corredor, viesse na sua direcção e se cruzasse com ela, passa-lhe pela cabeça que quem está a tocar à campainha pode ser a mesma pessoa que lhe telefonou há minutos. Pode ser alguém que precisa de avisá-la de uma notícia terrível que já aconteceu, que a deitará por terra: a morte: que a destruirá: a morte: que a condenará outra vez. Tenta afastar esse pensamento negro. Carrega no botão que abre a porta da rua lá em baixo e, nesse instante, escuta o eco eléctrico da porta a abrir-se na entrada do prédio. Espera. Tenta distinguir os passos que deveriam agora entrar no prédio, ou que deveriam agora subir os degraus de mármore, mas, em vez disso, ouve três batidas na porta de cima: a pouca distância de si: três batidas firmes na madeira. Com o susto, alarmada, pergunta: quem é? Mas ninguém responde. Volta a perguntar: quem é? Mas ninguém responde.
A pensão Flor de Benfica não era muito distante. Foi a vontade que tinha de chegar que fez com que, nesse dia o caminho me parecesse tão longo. As ruas de Benfica que conhecia desde sempre, eram novas porque não conseguia vê-las. Enquanto caminhava, não reparava nos cães abandonados e sarnosos que se encostavam às paredes, amedrontados, com as pálpebras pesadas sobre os olhos; nem nas casas em ruínas, com vidraças partidas à pedrada e com paredes pintadas de cinzento pelo tempo; nem nas crianças, sujas, de cabelo rapado por causa dos piolhos, que puxavam as mangas dos casacos das mulheres e que lhes estendiam a palma da mão. Era sábado e o início da tarde trazia movimento às ruas. Passavam mais automóveis do que era habitual: apitavam cornetas e assustavam as velhas, que davam saltos debaixo dos xailes e praguejavam. Grupos de miúdos descalços corriam atrás de arcos de ferro: o som da varinha a deslizar no interior do arco. Raparigas levavam alcofas de fazer mandados no ângulo do braço e desviavam o rosto corado quando passavam à porta dos cafés. Alheio a tudo isso, eu continuava a caminhar e prestava atenção às imagens que apenas existiam dentro de mim ou que seriam o mundo todo se, por acaso, tivesse fechado os olhos: o rosto do meu tio de manhã, o meu rosto quando chegava a casa ao início do serão e o rosto do italiano quando lhe comunicasse que o piano estava pronto. Nas duas manhãs anteriores, desde que o piano chegara à oficina, quando eu entrava no alto da rua, via logo o meu tio encostado ao portão, a esperar-me. Tinha um ar esperto e, ainda à distância, já lhe começava a distinguir o sorriso infantil. Quando eu me aproximava com a chave, ele dava-me uma palmada nas costas e, assim que abria o portão, passava-me à frente e caminhava directo para o piano. Ao fim do dia, nem por uma vez ficou na taberna. Antes de subir ao poial da minha casa, via-o descer a rua e afastar-se, fechado nas suas cismas, na direcção do quarto onde, nessa altura, morava. Era o início do serão quando eu, na casa onde jantava sozinho, enchia a bacia e, depois de lançar as duas mãos cheias de água sobre o rosto, parava-me a olhar para o espelho pequeno do lavatório. Dentro dos meus olhos, distinguia um sentimento que só então começava a conhecer e que me fazia inventar toda a espécie de sonhos». In José Luís Peixoto, Cemitério de Pianos, 2006, Bertrand Editora, QuetzalEditora, 2009, ISBN 978-972-564-823-0.

Cortesia de QuetzalE/JDACT

Livro. José Luís Peixoto. «Chegava de longe o cacarejar de uma galinha, chegava do quintal do vizinho, do outro lado do muro. Era um cacarejar permanente, quase a adormecer, quase a arrastar-se, mas a continuar sempre»

Cortesia de wikipedia e jdact

«No alto do cabeço, o barbeiro tirava o cigarro da boca, como se o desembaraçasse do bigode, chegava-o ao pavio e fazia cara feia enquanto segurava o foguete de braço esticado, a jorrar fagulhas, antes de o largar. Era um bicho ruim que queria ser solto. Mal podia, num ruído de lixa, esfregava-se no ar e estourava uma bola de fumo no céu, espécie de nuvem anã. De pescoço dobrado para trás, o Ilídio e o Cosme encostavam as mãos à testa para verem esse efeito. A cana, desarmada, indefesa, via-se sem pé e deixava-se cair sobre os campos, coitada». In José Luís Peixoto

«(1948)
A mãe pousou o livro nas mãos do filho. Que mistério. O rapaz não conseguia imaginar um propósito para o objecto que suportava. Pensou em cheirá-lo, mas a porta do quintal estava aberta, entrava luz, havia muita vida lá fora. O rapaz tinha seis anos, fugiu-lhe a atenção, distraiu-se, mas não se desinteressou pelo livro, apenas deixou de o interrogar enquanto objecto em si, começou a questioná-lo de maneira muito mais abstracta, enquanto intenção, enquanto sombra de um acto. A mãe disse o nome do filho: O rapaz, Ilídio, estava nesse momento a tentar imaginar a vontade da mãe e, o que pretendia ao entregar-lhe aquele livro, que era grande de mais para as suas mãos, mas que não era demasiado pesado. A mãe voltou a dizer o nome do filho, Ilídio. E as cores da mãe voltaram a definir-se diante dele. Escuta.
Esta palavra simples, de sílabas simples, foi entendida pelo Ilídio de modo completo, estava a ouvi-la antes de ser dita e continuou a ouvi-la no silêncio que se lhe seguiu. Aquela voz a dizer aquela palavra fazia parte do Ilídio. Podia ouvi-la na cabeça sempre que quisesse. Em certas noites quando se agarrava à mãe e, ao quente, sem ser capaz de dormir, ouvia pedaços da voz da mãe, rasgados, a passarem-lhe pela cabeça como serpentinas. Numa dessas noites, ou em várias, é bem possível que tenha distinguido essa maneira de paz com que a mãe sempre lhe dizia: escuta. Havia tons de voz que a mãe só utilizava para certas palavras ou expressões, como quando se saturava e dizia: por favor, a esculpir cada consoante, com um grande silêncio entre por e favor, a soprar no fim; ou como quando dizia: ora, é só lérias e mais lérias e dava uma gargalhada; ou como quando dizia: tu queres é remolgaria e parodim, e parecia que estava a cantar. Não faltariam exemplos de palavras que conseguia lembrar na voz da mãe. O Ilídio tinha fome.
Chegava de longe o cacarejar de uma galinha, chegava do quintal do vizinho, do outro lado do muro. Era um cacarejar permanente, quase a adormecer, quase a arrastar-se, mas a continuar sempre. Era um cacarejar que, assente sobre aquela hora da tarde, parecia distribuir uma misteriosa harmonia, como o milho moído que, muitas vezes, o vizinho lançava sobre a terra do quintal. O Ilídio sabia que, normalmente, a galinha comia pedras e, em momentos assinalados, lutava com minhocas, que vencia num duelo desigual. Do cimo da pilha de lenha, já a tinha visto. Em ocasiões, colocou a possibilidade de provar minhoca. Quando a galinha as esticava com o bico, as rebentava e exibia o seu interior, pareciam-lhe deliciosas. A mãe ia dizer alguma coisa importante. A mãe era uma mulher que falava muito e ria muito. O Ilídio chamava-a quando queria que ela visse alguma coisa, ela olhava, mas não parava de rir ou de falar. Ali, naquela hora, a mãe dizia as palavras uma a uma, como se só pudesse usar poucas e tivesse de escolhe-las muito bem. Havia demasiado silêncio. O Ilídio sentia isto, mas não era capaz de saber as palavras para dizê-lo a si próprio. Isto era qualquer coisa que sentia como a mudança da hora no Verão, no Inverno, como os dias de semana, o sábado, a quarta-feira e muitas outras coisas que sentia sem conhecer. O Ilídio esperava, tinha seis anos, estava tranquilo. A mãe disse: nunca esqueças». In José Luís Peixoto, Livro, Quetzal Editores, 2010, ISBN 978-972-564-899-5.

Cortesia de QuetzalE/JDACT

quarta-feira, 17 de janeiro de 2018

Cemitério de Pianos. José Luís Peixoto. « Mais tarde, haveria de dizer tantas coisas. Naquele momento, não soube dizer nada. Toquei a face do menino com as pontas dos dedos. Toquei a testa da minha mulher com os lábios»

jdact

«(…) Sentia a minha mulher acordada. Poderia ter-me lembrado que faltavam poucos dias para a data que o médico tinha dito, mas lembrava-me apenas das noites em que o calor não a tinha deixado adormecer. Era o início de Setembro. Ela dava voltas impacientes na cama. De cada vez que se virava, o mundo ficava suspenso nos seus gestos porque era tudo muito lento, porque era difícil e, às vezes, parecia que era impossível. O seu corpo era grande de mais. Os seus braços tentavam agarrar-se aos lençóis. Não encontrava posição. As juntas da cama rangiam. Eu estava acordado, adormecido, acordado, adormecido. Quando adormecia, continuava meio acordado. Quando acordava, continuava meio adormecido. Nos pensamentos vagos que tinha, acreditava que era o calor que não a deixava adormecer totalmente. Estremunhado, abri os olhos quando senti as pernas quentes e molhadas, quando ela me abanou os ombros, gritando e sussurrando: acorda! Rebentaram-me as águas. Custou-me a acertar com os pés nas calças. Tentava acertar com um pé e dava pulinhos com o outro. Ela fechou-se na casa de banho. Quando bati à porta, pediu-me para ir avisar a Marta. Entrei no quarto das nossas filhas às escuras. A Marta acordou assustada. Esperei pelo silêncio até se ouvirem apenas as marés da respiração da Maria a dormir. Nesse momento, disse-lhe: a tua mãe está quase a ter a criança. Vamos agora para a maternidade. Toma conta dos teus irmãos quando acordarem. Na penumbra, os olhos da Marta escutavam-me muito sérios. Saí do quarto das nossas filhas. A Marta ficou sentada na cama. Os seus olhos eram preocupados e brilhavam. Abri a porta do quarto do Simão. Era ainda tão pequeno, e dormia. Fechei a porta devagar.
Procurei a minha mulher. Atravessei o corredor. A camioneta tinha menos de um ano e, nos últimos meses da gravidez da minha mulher, estacionava-a à porta de casa. Amparei a entrada da minha mulher na camioneta. Corri para a porta do condutor. Arranquei em segunda. Limpei as remelas com o indicador nas primeiras vezes em que parámos atrás de automóveis parados. Prestava pouca atenção ao início daquela manhã. Às vezes, a minha mulher começava a queixar-se mais alto. Então, acelerava, dava solavancos nos carris dos eléctricos, ultrapassava automóveis que apitavam, passava por semáforos vermelhos. Depois, tinha automóveis à frente e não conseguia passar. Virava-me para a minha mulher e perguntava-lhe se estava bem. Olhava para o relógio, o tempo era muito rápido. Perguntava-lhe outra vez se estava bem. Acelerava um rugido do motor sem sair do lugar, olhava para o relógio, o tempo era muito rápido. Perguntava-lhe outra vez se estava bem e, quando conseguia andar, voltava a acelerar: solavancos nos carris dos eléctricos, ultrapassar carros, passar semáforos vermelhos. Ela, no seu sofrimento, dizia-me: vai com calma.
Eu enervava-me: como é que eu posso ir com calma? Ela dizia-me: calma. E chegámos à maternidade, corri para ela, e entrámos de braço dado, eu a puxá-la, ela pesada com dores, e eu a puxá-la. Dirigi-me a uma enfermeira e, antes de conseguir dizer alguma coisa, a enfermeira disse-me: calma. E levou-a. A minha mulher virou-se para trás para me ver sozinho, com os braços e com os olhos abandonados. E esperei. Olhava para o relógio. A manhã. A manhã com o tamanho de um Verão. Toda a manhã. Olhava para o relógio. O tempo era muito lento. A enfermeira passava por mim, eu ia atrás dela e, antes de conseguir dizer alguma coisa, era ela que me dizia: tenha calma. Vá comer qualquer coisa. E eu desistia. Foi depois da hora de almoço que a enfermeira voltou a entrar na sala de espera e me disse: então, não quer ir ver o seu filho? Os meus pés deslizaram pelo chão de mosaicos, o meu corpo atravessou os corredores de paredes cinzentas e de lâmpadas quase fundidas, intermitentes, a falharem. Os meus olhos não viam nada. E entrei no quarto. De uma vez: a minha mulher deitada na cama a segurar o nosso Francisco nos braços. A sorrir com a vida. Caminhei mudo e lento até à cama. Não soube dizer nada. Mais tarde, haveria de dizer que, logo ali, tinha percebido tudo aquilo de que ele seria capaz.
Mais tarde, haveria de dizer tantas coisas. Naquele momento, não soube dizer nada. Toquei a face do menino com as pontas dos dedos. Toquei a testa da minha mulher com os lábios. O tempo não existia. Sem um instante para gastar com perguntas sem resposta, a minha mulher volta a entrar na casa de banho com a íris ao colo e, quando abre a porta do armário dos medicamentos, não quer pensar em quem poderia estar a telefonar-lhe. A íris já é pesada. A minha mulher senta-se na ponta do bidé e pousa-a no chão. À sua frente, a íris fica de pé, com a mão aberta e estendida para ela. São uma avó e uma neta. Sobre os joelhos, a minha mulher equilibra algodão, tintura de iodo, fita adesiva e um rolo de ligadura. Tem a voz delicada porque quer que a íris não chore mais. Tenta sorrir e tenta distraí-la: agora, vinhas ao hospital para te curares. Então diga lá, senhora, teve um acidente? Com os lábios apertados e os olhos muito grandes, a íris murmura gemidos magoados, quase fingidos, e estende-lhe mais a mão. Oh, vamos já curá-la. E despeja tintura de iodo sobre uma bola de algodão que aproxima da ferida». In José Luís Peixoto, Cemitério de Pianos, 2006, Bertrand Editora, Quetzal Editores, 2009, ISBN 978-972-564-823-0.

Cortesia de QuetzalE/JDACT

Cemitério de Pianos. José Luís Peixoto. «No início da tarde de sábado, olhámo-nos com uma satisfação tímida quando soubemos que o piano estava pronto. A meio da manhã, o meu tio saiu para ir buscar o afinador»

jdact

«(…) Nas sombras imaginava segredos de um tempo, antes de eu nascer, que me seria proibido para sempre: a eternidade: e que, no mesmo instante, se tornava tão concreto e simples como os objectos que tocava todos os dias, como o caminho entre a casa e a oficina, como as memórias que tinha e que me guiavam. Sozinho, sentindo-me vigiado por todos os pianos sem arranjo, avançava. Contornei um piano vertical e, no fundo desse novo corredor, vi o meu tio com os braços dentro de um piano de cauda e apressei-me na sua direcção. Deu um passo atrás, pousou-me uma mão no ombro, apresentou-me o mecanismo do piano com a outra mão e disse que aquele seria um dos pianos a que voltaria para buscar peças. Olhei-o incrédulo, mas encontrei tal confiança que, nesse momento, deixei de ter dúvidas de que seríamos capazes de consertar o piano. Nessa tarde, e no dia seguinte, e no outro, e na manhã de sábado, aprendi a parte mais importante daquilo que, durante toda a minha vida, haveria de aprender sobre pianos. Solene, o meu tio olhava-me directamente com o seu olho esquerdo quando me queria explicar os pontos que eu não deveria esquecer nunca. Eu abanava a cabeça e prestava atenção a cada uma das suas palavras. Ficavam gravadas em mim, como se, no meu interior, existisse um lugar feito de pedra à espera de receber a forma do significado dessas palavras. Da mesma maneira, prestava atenção a todas as histórias que o meu tio contava. Quando se perdia em pormenores e começava a esquecer-se de contar o fim de alguma, eu perguntava-lhe o que tinha acontecido depois do ponto em que se afastara. Ele não estranhava o meu interesse súbito pelas suas histórias e continuava. Nas histórias que o meu tio contou durante esses dias, percebi um pouco mais da minha própria história. O meu pai, como o seu pai antes dele, tinha passado anos a fazer portas e janelas porque não conseguia sobreviver apenas de consertar pianos. Na maior parte do tempo, o meu pai fazia portas e janelas, fazia bancos para as pessoas se sentarem, fazia mesas a desejar que as pessoas tivessem pratos de sopa para pousar nelas; mas, em todas as ilusões, escutava pianos, como se escutasse amores impossíveis. Quando acabava de consertar um piano, sozinho, sem saber uma nota, o meu pai fechava a oficina toda para, no centro da carpintaria, tocar músicas que conhecia e músicas que inventava. Gostava talvez de ter sido pianista mas, nem mesmo quando ainda não tinha desistido de todos os seus sonhos, se tinha permitido sonhos desse tamanho. O meu tio fixou o seu olho esquerdo em mim para garantir que eu nunca iria esquecer e disse: o teu pai, quando falava ou pensava em pianos, tinha redemoinhos de música dentro dele. Durante esses dias, o meu tio mandou-me muitas vezes ao sótão.
Antes, apontava-me a peça de que precisava: um abafador, uma mola da alavanca, um botão de regulação: e, logo a seguir, voltava a esconder o rosto no interior do piano. Nas primeiras vezes, a voz da minha mãe, repetida pela memória, voltava a dizer-me as palavras de quando eu era criança e lhe falava daquela porta fechada na minha oficina. Depois, aos poucos, fui-me convencendo com as palavras do meu tio: o teu pai iria ficar tão feliz se aqui estivesse. E comecei a acreditar que, qualquer que fosse a ideia da minha mãe: proteger-me, proteger a lembrança do meu pai: eu estaria a respeitá-la porque estava a dar uma vida nova aos sonhos do meu pai, da mesma maneira que estava a dar uma vida nova às peças mortas daqueles pianos. Às vezes, demorava-me um pouco mais do que seria necessário porque ficava a entender a tranquilidade, ou a olhar para os pianos que me rodeavam e a imaginar as histórias que cada um deles guardava: palcos de tábuas, bailes, mestres a ensinar, meninas com punhos de renda a aprender. Quando regressava à carpintaria, o meu tio nunca dava pelo atraso e sorria-me quando lhe estendia a peça certa que tinha pedido.
No início da tarde de sábado, olhámo-nos com uma satisfação tímida quando soubemos que o piano estava pronto. A meio da manhã, o meu tio saiu para ir buscar o afinador. Chegou, trazendo-o pelo braço. O afinador era cego. Apontava a cabeça para cima ou para lugares onde não acontecia nada. A cabeça girava-lhe autónoma sobre o pescoço. Era mais velho do que o meu tio. Tinha as mãos lisas. Falava pouco. Passámos horas a acertar notas em cada tecla. O afinador apertava as cordas com uma chave de prata que segurava, firme e cuidadosamente, entre os dedos. E os sons puros: nítidos no silêncio: desenhados no ar, a demorarem-se breves, a ecoarem na memória e a deixarem outro silêncio: outro silêncio: outro silêncio diferente. Quando por fim se ouviu uma palavra, foi o meu tio que me pediu para ir avisar o italiano. Sorri-lhe, abanei a cabeça afirmativamente e não fui capaz de dizer nada porque, dentro de mim tinha um redemoinho infinito de música infinita». In José Luís Peixoto, Cemitério de Pianos, 2006, Bertrand Editora, Quetzal Editores, 2009, ISBN 978-972-564-823-0.

Cortesia de QuetzalE/JDACT

terça-feira, 16 de janeiro de 2018

Cemitério de Pianos. José Luís Peixoto. «Sentou-se, levantou a tampa que cobria o teclado e percorreu-o com o olhar. Quase comovido, disse: o teu pai iria ficar tão feliz se aqui estivesse»

jdact

«(…) O telefone continua a tocar. Os passos da minha mulher são rápidos na alcatifa porque ninguém costuma telefonar durante o dia. Dentro de si, teme que seja uma má notícia, teme que seja uma notícia que a deite por terra, que a destrua, que a condene outra vez: a morte. Aperta a menina de encontro ao peito e avança ansiosa pela alcatifa: o mais depressa que é capaz. E o telefone pára de tocar. Os passos da minha mulher perdem o sentido, abrandam e param. Na cozinha, a música de piano continua a nascer da telefonia e é empurrada pelo vento que entra através da janela aberta. Não queria dizer nada ao meu tio, porque queria ver o resultado do seu entusiasmo. Ele rodeava o piano com palavras e passos que, subitamente, mudavam de direcção. À distância, com os braços cruzados sobre o peito, eu olhava-o e não acreditava em nada do que dizia. Na serradura que cobria o chão, havia o desenho de uma forma irregular que era o carreiro por onde o meu tio seguia. Num impulso, quebrou essa corrente de passos desenhados e foi buscar um banquinho: coberto de restos de tinta e de pregos tortos: que colocou à frente do piano. Sentou-se, levantou a tampa que cobria o teclado e percorreu-o com o olhar. Quase comovido, disse: o teu pai iria ficar tão feliz se aqui estivesse.
Foi nesse momento que tudo encontrou um sentido dentro de mim. O meu pai. Como um dedo sobre uma tecla a despertar um mecanismo adormecido, compreendi. À entrada da oficina, à direita, havia uma porta fechada, tapada pelo tempo e por cadeiras a que faltava uma perna, por tampos de mesas e outros restos que se foram acumulando num monte desordenado. Nesse início de tarde, eu e o meu tio afastámos tudo e, como não sabíamos da chave, fui eu que arrombei a porta com dois pontapés na fechadura. A minha mãe evitava falar dessa divisão fechada da oficina. Se o fazia, dizia sempre que não havia lá nada que me interessasse. Quando essa explicação deixou de ser suficiente, falou-me de sustos. Disse: há sustos lá dentro.
Com dez anos, essa explicação chegava-me. Depois, passaram verões e invernos. Deixei de fazer perguntas. Havia uma porta fechada à entrada da oficina, lentamente tapada por tábuas, por trastes, e eu não pensava nisso. Pensava noutras coisas. Nesse início de tarde, ficámos parados durante um momento perante essa porta subitamente aberta. Lá dentro, a escuridão absoluta cobria todas as formas. Era como se tivéssemos aberto uma porta sobre a noite. Diante de nós, na escuridão podiam estar campos cobertos pela noite, ou um rio coberto pela noite, ou uma cidade inteira: adormecida ou morta: coberta pela noite. O meu tio entrou primeiro. Deixei de vê-lo entre sombras de sombras: um vulto entre vultos. Ele sabia os caminhos, e foram precisos poucos passos, poucos sons misteriosos dentro da escuridão, até que, com a manga da camisola, começasse a limpar o vidro da pequena janela coberta de pó. Através dos seus movimentos, entraram raios de luz. Devagar, a claridade encheu todo o vidro.
A luz deslizou pelas superfícies de pó. Pouco se via da sujidade das paredes e o peso do tecto baixo era mais real porque havia pianos de todos os géneros que se erguiam, sólidos e empilhados, quase a tocarem o tecto. Encostados às paredes, havia pianos verticais uns sobre os outros: na ordem com que o meu pai, ou o seu pai antes dele, os tinha equilibrado. Ao centro, havia muros de pianos sobrepostos. A luz atravessava os espaços vazios entre eles e, mesmo da porta, podia distinguir-se o labirinto de corredores que camuflavam. E sobre um piano de cauda estava outro piano de cauda, mais pequeno e sem pés; sobre esse estava um piano vertical, deitado; sobre esse estava um monte de teclas. Ao lado, separados por uma fresta que a luz atravessava, dois pianos verticais, com a mesma altura, encostados um ao outro, suportavam um piano vertical mais robusto que, no seu topo, segurava um pequeno piano de armário. Havia pianos encaixados de todas as formas possíveis. Nas folgas onde não se encaixavam completamente, a claridade atravessava teias de aranha abandonadas que seguravam gotas de água, como pontos de brilho. O ar fresco entrava nos pulmões e trazia o toque húmido do pó pastoso que era a única cor: o cheiro de um tempo que todos quiseram esquecer, mas que existia ainda. O silêncio desprendia-se dessa cor clara e antiga. A luz atravessava o silêncio. No chão, havia tampos esfolados de pianos, ao alto, encostados a outros pianos. Em certos cantos, havia varões de metal, teclas, pedais e pernas de piano presas umas às outras com arames. Através do espaço entre dois pianos, a partir da pequena janela finalmente luminosa, o meu tio olhava-me com um sorriso. Quando fixei directamente o seu rosto, sorriu mais, saltou para o chão com um estrondo das botas e desapareceu entre os pianos. Entrei, escolhendo o lugar onde pousava cada pé, como se temesse alguma coisa que desconhecia». In José Luís Peixoto, Cemitério de Pianos, 2006, Bertrand Editora, Quetzal Editores, 2009, ISBN 978-972-564-823-0.

Cortesia de QuetzalE/JDACT

sábado, 14 de outubro de 2017

Cemitério de Pianos. José Luís Peixoto. «O telefone continua a tocar. Cada toque é uma mão que agarra o corpo da minha mulher e o aperta, que agarra a sua cabeça e a aperta, que agarra o seu coração e o aperta»

jdact

«(…) Quando o italiano se cansou ou quando já não sabia mais como se explicar, eu e o meu tio olhámo-nos para confirmar que tínhamos entendido. O italiano tocava e cantava em bailes. Tinha um piano avariado e alguém lhe dissera que, ali, poderíamos consertá-lo. Com o italiano entre nós, atravessámos a carpintaria e a entrada, caminhámos até à rua e, no topo de uma carroça puxada por duas mulas cansadas, estava um piano de cauda, a reflectir as nuvens no seu brilho negro, atado por cordas que o envolviam. Antes que eu conseguisse dizer alguma coisa, o meu tio olhou para o italiano e, com gravidade, estendeu-lhe a mão e disse: pode deixar que nós consertamos-lhe o piano a tempo de tocar no baile. O italiano ignorou a mão do meu tio, sorriu e, virando-se para mim, disse que o baile seria no sábado à noite. Tínhamos três dias. Virei-me para o meu tio para discutir a decisão, mas fiquei a meio da primeira palavra porque ele tinha já virado as costas e, contornando poças de óleo do mecânico de motorizadas que ficava um pouco mais acima, caminhava apressado na direcção da taberna. Mudo, olhei para o italiano, encolhi os ombros num instante de incompreensão mútua e, com a mesma pressa, o meu tio saiu da taberna, liderando um grupo de homens esfarrapados, trôpegos, velhos, tortos e aleijados. Sob as ordens do meu tio, os homens começaram a desatar o piano. Foi o meu tio que abriu completamente o portão da oficina e que, com um salto, subiu para cima da carroça e começou a empurrar lentamente o piano, que deslizava nas suas pequenas rodas para os braços dos homens.
Aguentem aí. E desceu para ajudá-los. O meu tio contou até três e, num som do interior do peito, disse: upa. Nesse momento, levantaram mais o piano e deram passos que arrastaram o som da poeira no chão. Carregavam o piano como se estivessem a carregar o mundo inteiro. Os corpos dos homens, agarrados ao piano, e as suas pernas, dobradas pelo peso, eram um animal negro, como uma aranha. As suas vozes, abafadas pelo peso: não largues agora, empurra para a tua esquerda: rodeavam o piano. Atravessaram a entrada da oficina e dirigiram-se para a carpintaria. Havia homens que entravam de costas e havia outros que, de frente, levantavam o pescoço para os guiar. Assim que desapareceram na porta da carpintaria, o italiano entregou-me um cartão: pensão Flor de Benfica. Ainda eu tinha o cartão diante dos olhos, quando o italiano me apresentou a mão. Estendi-lhe a minha e ele, veloz, apertou-me o pulso e abanou-me o braço. Sorriu muito, limpou o verniz dos sapatos na parte de trás das calças, subiu para cima da carroça e, com uma palavra em italiano, partiu rua acima.
Quando os homens saíram, como se tivessem visto o mundo todo entre as paredes da carpintaria, escondiam o esforço num sorriso e batiam as mãos, como se as limpassem do pó, esfregavam as mãos nas pernas das calças cheias de nódoas, como se as limpassem. O meu tio vinha com eles, segurava o novelo das suas vozes. Saiu com eles pelo portão, contornaram-me como se fosse invisível, deram passos na estrada de terra e entraram na taberna. O meu tio pousou os cotovelos sobre o balcão de mármore e pagou um copo de vinho a cada um dos homens. Era ainda de manhã. Eu estava sozinho e parado na estrada, frente ao portão aberto da oficina. Tinha os braços estendidos ao longo do corpo e um cartão abandonado numa das mãos. Pedaços de vento traziam badaladas de sinos que assinalavam horas distantes. Tinha vinte e dois anos, tinha os braços estendidos ao lado do corpo, nunca tinha consertado um piano e não me conseguia imaginar a ser capaz de fazê-lo. Diante da porta da sala, sem que parasse realmente, foi como se a minha mulher tivesse parado porque, num único instante, uma imagem, inteira e nítida, suspendeu-se diante de si: a Íris, pequena, sentada, com a boca aberta num grito constante; rodeada de vidros partidos, jarros derrubados, bonecos de loiça sem cabeça; ao lado do móvel de canto, tombado sobre o tapete, como um cadáver velho caído de bruços; e a Íris com a mão levantada, aberta, com a palma da mão coberta de sangue que lhe escorria entre os dedos. Em três passos de vidros a estalarem abafados sob a sola das pantufas, a minha mulher segura-a por baixo dos braços e levanta-a no ar. Os gritos da nossa neta rasgam as paisagens estampadas nos quadros das paredes, cortam a pele do rosto da minha mulher e impedem-na de respirar.
Pronto, diz, enquanto abre a torneira do lavatório sobre a mão da Íris, mas os gritos da menina são reflectidos pelo espelho manchado de ferrugem e pelos azulejos brancos da casa de banho. O telefone começa a tocar. Sobre a mesa de pinho: a gaveta de papéis riscados e de esferográficas que não escrevem: sobre o napperon de renda: a madrinha da minha mulher a escolher novelos de linha na retrosaria: ao lado da moldura cromada: a fotografia que tirámos todos juntos no Rossio: o telefone grita. Com a força do ferro, estende uma urgência constante, que se interrompe durante um fôlego rápido, para voltar logo a seguir, com o mesmo pânico e a mesma autoridade. O telefone continua a tocar. A Íris chora e grita. As lágrimas desenham-lhe riscos de água quente sobre as faces vermelhas. A minha mulher segura-lhe a mão debaixo da torneira aberta. O sangue dilui-se na loiça rachada do lavatório e desaparece. Na palma da mão da Íris, um vidro enterrado numa ferida. Num só gesto, com a ponta dos dedos, a minha mulher puxa-o e sente o interior da carne. Pronto, pronto, diz, ao voltar a pousar-lhe a mão sob a água fria. Os gritos da Íris tornam estridente a luz branca da lâmpada pendurada num fio, tremem os frasquinhos de loções ordenados numa prateleira, entram na banheira e arranham a superfície do esmalte com guinchos.
O telefone continua a tocar. Cada toque é uma mão que agarra o corpo da minha mulher e o aperta, que agarra a sua cabeça e a aperta, que agarra o seu coração e o aperta. Nos seus braços, a voz da Íris começa a encontrar conforto e, lentamente, alguma paz. A minha mulher fecha a torneira, enrola a mão da Íris numa toalha branca do bidé e, levando-a ao colo, sai da casa de banho a correr e avança pelo corredor». In José Luís Peixoto, Cemitério de Pianos, 2006, Bertrand Editora, Quetzal Editores, 2009, ISBN 978-972-564-823-0.

Cortesia de QuetzalE/JDACT

sexta-feira, 13 de outubro de 2017

Cemitério de Pianos. José Luís Peixoto. «Ao mesmo tempo, usava as mãos limpas, lisas, brancas, e os dedos esguios, bem tratados, as unhas ligeiramente compridas, para fazer gestos e, assim, esculpir no ar…»

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«(…) As manhãs passavam com o meu tio a contar histórias que, às vezes, repetia e que, às vezes, não terminava; passavam sob as histórias que o meu tio contava e que eu, às vezes, não ouvia. Enquanto trabalhava: martelos a bater, serras a atravessarem ripas, limas a limar, lixas a alisarem tábuas: deixava de ouvir o meu tio para me fixar nos sons da cidade que entravam pelas janelas e pela porta do pátio, como se chegassem de muito longe: pregões, vozes perdidas, campainhas de bicicletas. Foi o meu pai que me deixou a oficina. Em certos dias, quando vinha do mercado de mão dada com a minha mãe, pedia-lhe: vamos à minha oficina. Se alguém me ouvia e entendia, ria-se por eu ser tão pequeno e falar assim. A minha mãe não se ria porque tinha sido ela que me ensinara a utilizar essas palavras. O meu pai morreu longe da minha mãe, exausto, no mesmo dia em que eu nasci.
Durante toda a minha infância, em certos serões, a minha mãe aquecia uma chocolateira de água e pedia-me para ir ao quintal buscar uma folha de limoeiro. O nosso limoeiro tinha folhas grandes e grossas, custosas de desprender-se e que faziam barulho no momento em que as arrancava dos ramos mais baixos. A minha mãe lavava a folha e mergulhava-a dentro da água a ferver para fazer o nosso chá. Era nesse momento que trazia para o centro da mesa um embrulho de papel pardo que, lentamente, sob o meu olhar, abria. Eram dois bolos que tinha comprado na padaria e que, com a ponta da faca, cortava ao meio. Eu subia para cima de um banco e tirava duas canecas do armário. Sentávamo-nos à mesa, mãe e filho, a comer as nossas metades de bolo e a beber chá. A seguir, a minha mãe contava histórias que terminavam sempre com o riso do meu pai. A minha mãe quase se ria ao explicar o riso do meu pai.
Depois, a minha mãe dizia que o meu pai era muito valioso. Havia então uma pausa. Silêncio. E a minha mãe contava-me como, de certeza absoluta, o meu pai se orgulharia de saber que eu iria tomar conta da oficina. Era nesse momento que falava da minha oficina: a tua oficina, dizia, séria, a olhar-me nos olhos. A voz da minha mãe era frágil e segura, era suave, era firme. A oficina esteve parada até ao dia em que o meu tio se propôs tratar dela, pagando a pequena renda com que a minha mãe se governava. Havia meses em que o meu tio, por desorientação ou por causa da bebida, se atrasava a pagar. A minha mãe contava com isso e, para essas ocasiões, poupava algum dinheiro no fundo da caixa da costura. Foram poucas as vezes em que, depois de todos os prazos, determinada, teve de fazer as duas ruas que separavam a nossa casa da oficina para reclamar a renda.
Quando o meu tio a via entrar, envergonhava-se, baixava o rosto, pedia-lhe muitas desculpas sentidas e, quase sempre, lacrimejava. Comecei a trabalhar com o meu tio poucos dias depois de fazer doze anos. Nesses tempos de aprendiz, tentava compreender aquilo que me mandava fazer entre a torrente de histórias incompreensíveis que contava. Aquilo que o meu tio tinha para me ensinar era o pouco que conseguira aprender ao ver o seu pai a trabalhar e aquilo que aprendera com os seus próprios erros e tentativas. Com catorze anos, trabalhava já com mais perfeição do que ele e ensinava-lhe coisas que ele nunca soubera ou que esquecera. Tinha catorze anos quando a minha mãe ficou doente. Numa semana, conheciam-se-lhe todos os ossos e todas as veias do corpo. A sua pele tornou-se amarelada. O seu olhar ficava parado em pontos. Supliquei-lhe que não morresse. Pedi-lhe por tudo. Mas, passadas algumas semanas, morreu.
Foi como se tivesse esperado apenas por ver-me criado. Durante as semanas seguintes, o meu tio ficou em silêncio. Numa manhã, começou a contar uma história que nunca mais terminou e o tempo continuou a passar. Influído com as histórias que contava para si próprio, raramente o meu tio ouvia as pessoas que chegavam, com passos pesados na terra da entrada, e que, a qualquer hora, vinham encomendar trabalhos ou ver se estavam prontos os trabalhos que tinham encomendado. Por isso, surpreendia-se muito quando as via surgir na porta da carpintaria. Eufórico, rodeava-as a falar alto e a sorrir. Essas pessoas, mesmo que não o conhecessem já, ignoravam-no e dirigiam-se a mim. Foi exactamente isso que aconteceu na manhã em que chegou o italiano. O bigode fino dançava-lhe sobre os lábios ao ritmo das palavras que dizia. Enquanto falava, o bigode, fino, engraxado, assumia as formas mais diversas: um til, uma linha, um ângulo recto, um arco.
Ao mesmo tempo, usava as mãos limpas, lisas, brancas, e os dedos esguios, bem tratados, as unhas ligeiramente compridas, para fazer gestos e, assim, esculpir no ar diante de si toda a espécie de formas: um cavalo nobre com arreios de prata, salões com gravuras no tecto, um piano. Em momentos repentinos, parava-se a investigar se o tínhamos entendido e acertava os botões de punho com a ponta dos dedos ou depenicava as golas brilhantes do fraque. Decidia então que não o tínhamos entendido e continuava. Mas tínhamos entendido tudo. Talvez tudo. Desde que o italiano começara a falar que a voz do meu tio foi esmorecendo, mais fraca, mais fraca, como se descesse escadas, até que se calou completamente e, com o olho esquerdo arregalado, ficou apenas a ouvir com interesse vivo e sincero». In José Luís Peixoto, Cemitério de Pianos, 2006, Bertrand Editora, Quetzal Editores, 2009, ISBN 978-972-564-823-0.

Cortesia de QuetzalE/JDACT

Cemitério de Pianos. José Luís Peixoto. «Era a nossa casa. A minha mulher sentava-se nos degraus das escadas do quintal, passavam fins de tarde amenos do início de Agosto, e ficava compenetrada a fazer malha»

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«(…) Como se pudesse falar em silêncio com o Francisco, baixa o olhar sobre a rua, sobre o passeio onde faltam pedras: figuras irregulares de terra com a forma das pedras que faltam: e levanta o olhar. No outro lado da rua, dois prédios separados por terrenos onde crescem pedaços de tijolos, gargalos de garrafas partidas e rodas enferrujadas de carros de passear bebés. Um pouco mais longe, hortas de couves, cercadas por vedações feitas de latas enferrujadas. Um pouco mais longe, a estrada onde, dia e noite, passam automóveis nas duas direcções. E depois dessa estrada, Lisboa inteira. E depois de Lisboa, o mundo e o nosso filho, o nosso menino. E, sobre tudo, em tudo, a manhã. Baixa-se no chão da cozinha para apanhar uma blusa da Ana: golas redondas, bordadas: e duas molas. A música de piano continua contínua a partir da telefonia. Começa a inclinar-se sobre o parapeito e, de repente, ouve-se um estrondo na sala, uma derrocada, a explosão de qualquer peso que se esmaga contra chão: vidros, madeira, ferro. Ainda dentro desse momento, os gritos súbitos da íris. A minha mulher larga a blusa da Ana e não fica a vê-la planar até ao passeio, porque vai a correr na direcção da sala. A minha mulher conhece bem as diferenças entre os vários tipos de choro da íris: quando faz uma birra, quando está apenas assustada ou quando está mesmo aflita: por isso, corre o mais depressa que é capaz. Por baixo dos gritos estridentes da íris, as batidas rápidas do coração da minha mulher a aproximar-se. O seu corpo atravessa o corredor com os mesmos movimentos de quando vai a andar, mas muito mais depressa, porque essa é a sua maneira de correr. Era a nossa casa. A minha mulher sentava-se nos degraus das escadas do quintal, passavam fins de tarde amenos do início de Agosto, e ficava compenetrada a fazer malha. Fazia casaquinhos ou botinhas de lã para o nosso filho. Faltava um mês para que nascesse e ela já lhe imaginava o tamanho dos braços e o tamanho dos pézinhos. Às vezes, estendia as peças, meio tricotadas, nas palmas das mãos e, nesses momentos, era como se visse os braços ou os pés do nosso filho ainda por nascer.
Eu segurava a ponta da mangueira, a água grossa, fresca, e acertava nos pés das árvores e das plantas. Havia o cheiro fresco da terra a embeber a água. Havia uma aragem que nos serenava a pele do rosto. Em instantes, lembrava-me de lhe contar alguma coisa. Ela parava-se a ouvir-me. Pousava as agulhas e a malha sobre a barriga, ficava a ouvir-me e, às vezes, a malha começava a mexer-se sozinha. Era o nosso Francisco a dar pontapés dentro da barriga. Eu dizia: quando for grande, há-de ser jogador de futebol. Mal eu sabia. Anos mais tarde, recordando-se dos pontapés que, à noite, lhe desenhavam ângulos na pele da barriga redonda, a minha mulher repetiu muitas vezes: o meu Francisco começou a treinar-se para corredor ainda antes de nascer. Era de manhã que eu chegava à oficina. Abria o portão e o eco das voltas da fechadura era natural nas paredes cobertas de serradura e de pó. Com os primeiros passos das botas na terra da entrada, havia dois ou três pardais que voavam entre as vigas do tecto e se escondiam nas sombras das telhas. Quando estava bom tempo, abria as janelas sobre o pátio. No meu banco de carpinteiro, as ferramentas estavam onde as tinha arrumado. O trabalho esperava-me no ponto exacto onde, no dia anterior, tinha decidido parar. Era de manhã e, quando segurava cada ferramenta pela primeira vez: o martelo, o formão, o serrote: sentia na palma da mão o início ameno de mais um dia.
O meu tio chegava a meio da manhã. Trazia as mesmas roupas da véspera: metade da camisa fora das calças, a fivela do cinto desacertada com o botão. O olho esquerdo brilhava-lhe na cara por lavar. Quando era criança, numa brincadeira, o meu tio tinha ficado cego do olho direito. Ao chegar à oficina, o seu olho direito era a pálpebra mais lisa, mais branca do que o resto da pele, assente sobre a órbita vazia. Tinha os lábios secos e gretados. Os dentes sustinham uma película pastosa de vinho tinto. Tinha sempre um sorriso infantil, sincero. Dizia-me bom dia. Eu não lhe dizia nada. Ele esquecia-se e dizia-me bom dia outra vez. Então, tirava talvez um lenço enrodilhado do bolso e assoava-se. Depois, saía para o pátio. Se eu estava a medir ou a marcar alguma peça, ouvia o arco da sua urina cair sobre o chão de cascas de pinheiro. Depois de tempo e passos que se aproximavam, voltava e lavava talvez a cara sob a água fria da torneira aberta. A água misturava-se com a serradura do chão. Com as sobrancelhas despenteadas, sorria e, finalmente, aproximava-se do banco onde o aguardavam as ferramentas desarrumadas num monte». In José Luís Peixoto, Cemitério de Pianos, 2006, Bertrand Editora, Quetzal Editores, 2009, ISBN 978-972-564-823-0.

Cortesia de QuetzalE/JDACT

sábado, 3 de junho de 2017

Em Teu Ventre. José Luís Peixoto. «A chuva nas telhas é uma sombra que assenta sobre outra sombra, pontos que pousam em toda a superfície do telhado»

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«(…) Com os olhos abertos, os braços sobre a roupa da cama, estendidos ao longo do corpo, Lúcia vê pensamentos nos barrotes do tecto. A presença de Carolina sente-se na mossa que deforma o colchão de palha. Às vezes, picada por dentro, nos sonhos, dá estremeções. Regressa depois ao seu fôlego santo, justo. Lúcia tem pena que a irmã não chegue com mais ganas de brincar; mesmo assim, escolhem sempre algum jogo silencioso durante o serão, no canto do lume, ou já na cama, num silêncio ainda mais exigente, até a respiração de Carolina se alongar, como um elástico da costura, que se estica até lá longe e que regressa também devagar. Então, ficam dispostas ao lado uma da outra, respeitando a geometria da cama. Glória dorme no seu próprio colchão, encostada a outra parede, muito bem-comportada. Noutro quarto, Manuel ressona com delicadeza. A chuva nas telhas é uma sombra que assenta sobre outra sombra, pontos que pousam em toda a superfície do telhado. Há um mundo lá fora que se lança de encontro a este mundo, a esta casa. Como uma corrente, de aço ou de rio, a voz da mãe atravessa paredes. Não se distinguem essas palavras encadeadas, mas Lúcia conhece-as pela música, habituou-se ao terço desde que nasceu, ainda antes de nascer. A mãe não costuma rezar as contas a esta hora, mas esses costumes andam alterados, há muita necessidade de oração. A mãe a fazer o sinal da cruz, ajoelhada a um canto do quarto, e o pai, acabado de chegar da rua, sentado na cama, a descalçar as botas, a descalçar as meias e a passar os dedos das mãos entre os dedos dos pés para caçar torcidas de surro. Lúcia nunca viu essa imagem, mas é capaz de lhe distinguir até os detalhes mínimos, a pequena volta que o pai faz com a ponta da sobrancelha, as pálpebras da mãe convictas e opacas. E, por detrás de cada pensamento, a chuva não pára, como o tempo não pára. Lúcia sabe que o tempo não pára. Cada gota de chuva é uma palavra de Deus, resposta às orações permanentes. Ou talvez as gotas sejam olhos de Deus, multidão atenta, empurrada pelo vento e pela noite. Ou então está um Deus dentro de cada gota de chuva, e todos são o mesmo, e todos juntos têm o tamanho de um só, pousam no telhado e acomodam-se, escorrem pelas paredes, cobrem a casa inteira ou afundam-se directamente na terra porque têm pressa de voltar ao céu». In José Luís Peixoto, Em Teu Ventre, Quetzal Editores, Lisboa, 2015, ISBN 978-989-722-257-3.

Cortesia de QuetzalE/JDACT

segunda-feira, 5 de setembro de 2016

Em Teu Ventre. José Luís Peixoto. «O medo é a lembrança de uma dor do passado. A vontade é a crença num sonho do futuro»

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«(…) Não são as palavras que distorcem o mundo, é o medo e a vontade. As palavras são corpos transparentes, à espera de uma cor. O medo é a lembrança de uma dor do passado. A vontade é a crença num sonho do futuro. Não são as palavras que distorcem o mundo, é a maneira como entendemos o tempo, somos nós».

«Eu também passava horas nesse jogo das pedrinhas. Procurava meia dúzia de pedras de bom tamanho, não muito grandes, mais ou menos polidas. Eu gostava de fazer esse jogo na rua, à porta da casa da minha mãe, da tua avó. Teria a mesma idade dessa menina, uns nove ou dez anos. Juntava as pedras na mão e lançava-as com a força certa para rebolarem pouco; a seguir, escolhia uma, atirava-a ao ar e, nesse arco, olhando para dois lados, apanhava uma das pedras espalhadas e ainda tinha tempo de receber a que caía. A tua tia era mestra, não faltavam vezes em que, com cinco pedras na mão, recolhia a última. Eu não tinha esse jeito, sempre fui de mãos pequenas. Mas deixa, sei que isso não te interessa, tens outras preferências. Se quisesses saber, há muito que podias ter reparado nas minhas mãos; afinal, foi com elas que te dei tudo desde que nasceste.
Neste tempo, esta 1uz. Só falta uma pedrinha. Lúcia tem as sobrancelhas compenetradas, aperta. os lábios, ajeita as pedras que tem na palma da mão, os dedos a rodearem-nas, enche o peito e atira uma a boa altura. Há o momento em que esgravata a terra com a ponta das unhas para recolher a última pedra. Mas a outra caiu demasiado depressa, tropeçou no caminho. Lúcia não conseguiu apanhá-la. Tem de começar de novo.
Duvido que sejas capaz de me imaginar com dez anos. Já fui nova, sabias? Quando nasceste, em Setembro, eu tinha trinta e dois anos feitos em Junho. Talvez consigas suspeitar o que foi para mim ter-te com trinta e dois anos, até acredito nisso. Lembro-me de estares na minha barriga, nos últimos meses era um barrigão, mas tu não és capaz de me imaginar com dez anos, duvido. Não sou essa menina que imaginas quando tentas imaginar-me com dez anos. Fui uma menina que nunca conhecerás.
É agora. Lúcia apanhou uma pedra, duas, três, quatro, cinco. Falta só a última. Atira-a ao ar. Onde está a pedrinha que falta? Por um instante, desaparece na terra. Volta a aparecer logo a seguir, mas é demasiado tarde, já a outra está muito perto, transportando as suas arestas, fechando a sua queda: um golpe seco na terra, e rebola para onde fica esquecida. Com paciência, gestos demorados, Lúcia pousa as pedras que tem na mão e, entre o indicador e o polegar, segura na última, ergue-a da terra, levanta-a à altura dos olhos. O rosto da menina contempla um mistério. És muito malandra, pedra. Porque não deixas que ganhe? Desculpa, foi sem querer. Preferes que escolha outra pedra e te deixe descansada? Não é isso.
O que estás tu a fazer, rapariga? Quando a mãe assoma assim à porta do quintal e larga esse grito, não é porque se interesse pela resposta. Lúcia põe-se de pé, dá um salto que assusta as galinhas e perturba a luz. As pedras ficam sozinhas na terra lisa. Lúcia tem a impressão de que atravessa o quintal durante as palavras da mãe, dentro delas. Ainda as escuta. O que estás tu a fazer, rapariga? E já está parada diante da mãe, o lenço desacertado pela corrida, três fiadas de cabelo coladas à testa com pó, o olhar baixo, as mãos juntas sobre a saia. Pensas que a vida é só brincadeira? Tu pensas que a vida é só brincadeira? Voz áspera, e apesar de se baixar para lhe procurar os olhos, apesar de repetir a pergunta, não quer saber da resposta. Desinteressa-se, vira-lhe as costas. Vai lá ver se as galinhas puseram algum ovo.
Todos os momentos existem. Lúcia, dez anos, menina que caminha pelo quintal escuro. São os seus olhos que iluminam o presságio de cada passo. Lúcia sabe exactamente onde as galinhas se abaixam. Encontra-as recolhidas nos seus ninhos, enfia-lhes a mão delgada entre a palha e aquele morno onde as penas são mais maviosas. Encontra o único ovo na última galinha. Perdoa-me. Porque demoraste tanto tempo? A mãe recebe o ovo para o escalfar na sopa e não quer mais conversa ou pensamentos. Mas Carolina já chegou». In José Luís Peixoto, Em Teu Ventre, Quetzal Editores, Lisboa, 2015, ISBN 978-989-722-257-3.

Cortesia de QuetzalE/JDACT

Em Teu Ventre. José Luís Peixoto. «Tão fresca é esta brisa depois de um dia inteiro, tão leve é o seu toque nas cores por fim brandas, desnecessária a urgência por fim. Esta brisa atravessa o ar limpo»

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«Não são as palavras que distorcem o mundo, é o medo e a vontade. As palavras são corpos transparentes, à espera de uma cor. O medo é a lembrança de uma dor do passado. A vontade é a crença num sonho do futuro. Não são as palavras que distorcem o mundo, é a maneira como entendemos o tempo, somos nós».

«Tudo começa pela esperança. Antes dos objectos estão os gestos que lhes dão forma, antes dos gestos estão as ideias, a antes das ideias estão as emoções, antes das emoções estão os sentidos, antes dos sentidos está a existência nua, contemplação cega, memória cega, antes da existência está a esperança. Sou eu quem o diz. Se há proposta de vida, essa certeza contém esperança. Sem esperança, há apenas morte: no presente e no futuro. Quando criei a natureza, a primeira regra que determinei foi: negar esperança é uma acção contra a natureza. Todos os seres, principalmente os que possuem pele, têm o direito inequívoco a alguma esperança. O uso que lhe dão é a sua individualidade. Falo de quando criei a natureza, como se esse trabalho estivesse acabado. As palavras são imperfeitas quando tentam dizer aquilo que é maior do que elas. São imperfeitas também quando tentam dizer aquilo que parece ínfimo, dependendo da proporção. Nesse caso, as palavras são dedos que tentam apanhar uma migalha, fazem a forma de beliscá-la, mas deixam-na lá, como se fossem inúteis.
Deus continua a falar, mas não faz questão de que o escutemos, prefere que reparemos numa casa de paredes mal pintadas. E, mesmo através da neblina, talvez a madrugada esteja a ponto de nascer, consegue distinguir-se a cal a escamar. São as noites, Invernos e Verões, que arrancam aquelas lascas de cal; é o pó da rua que se levanta com aragens, carroças, desinquietação de crianças, e se cola às paredes conforme se cola ao interior dos pulmões. Não se vê ninguém, as pessoas e os animais foram subtraídos a esta imagem. A fachada da casa tem uma barra pintada, nivela o chão, tem duas janelas bambas e, ao centro, uma porta de madeira velha, com um postigo à altura do rosto dos donos; é uma porta cansada, a desfazer-se por baixo. É preciso subir quatro degraus de pedra para chegar a essa porta que nunca está fechada ao trinco. A casa tem um telhado, sozinho contra o tempo, tem uma chaminé quase torta e mais nada. No entanto, é uma casa que os olhos podem ver de muitos modos. À frente, sem pertencer à casa, mas pertencendo, há uma eira, limpa e lisa, pronta a malhar, disposta a todos os usos. Por detrás, está um quintal extremado por um muro de pedras empilhadas, sebe que não passa a altura do joelho, linha que não exclui, tudo é terra que os vizinhos aproveitam com adequação. Lá ao fundo, depois de uma ribanceira que desce, está o poço, tapado por uma superfície de lajes, remendos sobre terra ferida. As oliveiras inclinam-se para o poço como corcundas, como a desgraça, os anos castigaram-nas e até os ramos novos, coitados, nasceram com os nós torcidos por artroses, vítimas. Ainda assim, são árvores, pertencem à natureza, recebem notícias das outras oliveiras que se estendem na lonjura daqueles campos, onde também há muitas ervas secas, cardos e calhaus.
A criação da natureza é um trabalho de todos os instantes. Só a perfeição está concluída e, mesmo essa, tem de aceitar a imperfeição inacabada quando lida com aquilo que é incompleto, com palavras ou sombras, com natureza, instinto, gente, a com a emanação invisível de um passado mais remoto do que o próprio começo de tudo: a esperança. Tudo começa pela esperança. Fui eu que escolhi esta palavra: tudo. Sou eu que estou a dizê-la. Tudo termina pela esperança. 
Tão fresca é esta brisa depois de um dia inteiro, tão leve é o seu toque nas cores por fim brandas, desnecessária a urgência por fim. Esta brisa atravessa o ar limpo, faz tremer as folhas prateadas das oliveiras, acende pontos de brilho no granito e passa pelas faces suaves de Lúcia. Está agachada perante uma sombra de terra limpa, quase arrumada ao muro breve do quintal. Há galinhas que se habituaram à presença da menina, aos seus movimentos repetidos. Lúcia joga com pedras. Esses gestos súbitos não perturbam as galinhas, que debicam torrões de terra e se queixam umas às outras com vogais que arredondam na garganta». In José Luís Peixoto, Em Teu Ventre, Quetzal Editores, Lisboa, 2015, ISBN 978-989-722-257-3.

Cortesia de QuetzalE/JDACT

terça-feira, 14 de junho de 2016

Galveias. José Luís Peixoto. «A coisa sem nome permaneceu sozinha na herdade do Cortiço, no centro da cratera. Ao longo desse dia, sexta-feira, não recebeu vistorias. O toque de finados, repetido durante a tarde, tirou essa ideia àqueles que, por insensibilidade momentânea…»

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«Escuta lá, de quem é que tu és filho? Sou o filho do Peixoto da serração e da Alzira Pulguinhas»

Janeiro de 1984
«(…) Está claro que não era. As palavras saíam-lhe da boca e ele sabia que não era. Lançou esse palpite sobretudo como expressão do espanto extraterrestre que ali se sentia. Poucas pessoas arriscavam sugestões. O doutor Matta Figueira, de fato, colete e gravata, acompanhado pelo Edmundo, em traje de tratar do jardim, botas de borracha, partilhava dessa cautela silenciosa. A coisa sem nome tinha caído no Cortiço. Os mais velhos lembravam-se dessa herdade já ter dado toda a espécie de cultivo. Naquela hora, estava coberta por um pasto verde, viçoso, próprio para ser apreciado. O caminho não custa: quem vá da vila ao monte da Torre, passa pelo campo da bola e encontra o Cortiço à esquerda, depois de passar pela Assomada e antes de chegar à Torre. Do outro lado da estrada, está a courela do Caeiro.
Era na courela que os perdais se refugiavam. Levantavam-se às vezes, aqui e mais além, num restolhar de penas. Como se quisessem desembaraçar-se de si próprios, aguentavam-se por dois ou três segundos errantes e voltavam logo a cair, vencidos pelo medo. Eram pardais que nunca tinham visto um ajuntamento daqueles. Os galveenses iam chegando em levas. Acercavam-se da cratera, avaliavam a forma da coisa sem nome, sentiam-lhe o calor e o cheiro, mas ignoravam-lhe o mistério. Muitos atravessavam os campos, iam de algum lado a algum lado. Outros juntavam-se em assembleia debaixo dos sobreiros. Às vezes, em ocasiões que passaram despercebidas, havia alguém a querer obrigar um cão a aproximar-se, a empurrá-lo ou a puxá-lo. Nunca conseguiam e acabavam por desistir. Os cães guardavam sempre mais força de vontade. Teriam sido capazes de virar-se contra os donos, não chegou a ser preciso. Ao longo do dia, entre a vila e a herdade do Cortiço, houve viúvas de todas as idades em ritmo de procissão e houve rapazes sem travões a acelerarem a fundo nas motas; houve carroças de mulas, onde os cachopos apanhavam boleias clandestinas, e houve burros arreados a levarem velhotes de pernas fracas e de ancas a dançar.
Nesse serão, os galveenses jantaram sopa de feijão com couve. A seguir, limparam a boca com uma peça de fruta e ficaram pensativos. Isto, claro, com a excepção daqueles que jantaram outra coisa, daqueles que não tinham fruta em casa e daqueles que estavam demasiado compenetrados em alguma tarefa para se distraírem com pensamentos. Uns deitaram-se mais cedo, outros deitaram-se mais tarde. A noite passou. Chegou a madrugada e, logo depois, chegou a manhã. Para muitos, despertar foi um alívio. Esse não foi o caso do ti Ramiro Chapa, que faleceu no posto de socorros ao toque da aurora.
A coisa sem nome permaneceu sozinha na herdade do Cortiço, no centro da cratera. Ao longo desse dia, sexta-feira, não recebeu vistorias. O toque de finados, repetido durante a tarde, tirou essa ideia àqueles que, por insensibilidade momentânea, colocaram a hipótese. Mas esteve também nas conversas na capela de São Pedro. Os homens do lado de fora, a aguentarem um frio que atravessava samarras; as mulheres lá dentro, em redor da presença deitada do defunto, embrulhadas em mantas que não as aqueciam, intoxicadas pelo cheiro a enxofre que, ali, se condensava com uma força que dava tonturas. Era como se o próprio homem, coitado, internado havia tanto tempo no posto de socorros, se tivesse transformado numa barra de enxofre. Foi só na manhã seguinte, depois do enterro, que chegaram novas visitas. Sem saberem como lidar com a coisa sem nome, sem compreendê-la, os mais desocupados e menos sensíveis de nariz regalaram-se a olhá-la. Então, exploradores, perceberam que podiam aproximar-se. O cheiro a enxofre lançava-se pelas narinas como pregos, mas o quente temperava a frieza daquela hora. Era uma dezena de homens com as palmas das mãos assentes sobre uma pedra. Nesse momento preciso, caiu a primeira gota. Logo a seguir, uma chuva mundial. Era o céu inteiro que chovia. Sem descanso, sem uma interrupção, noite e dia, exactamente com a mesma avidez, à bruta, choveu durante uma semana, sete dias seguidos. E todos se esqueceram da coisa sem nome, menos os cães». In José Luís Peixoto, Galveias, Quetzal Editores, Lisboa, 2014, ISBN 978-989-722-179-8.

Cortesia de Quetzal/JDACT

segunda-feira, 28 de março de 2016

Morreste-me. José Luís Peixoto. «Quanto é que falta?, ouço ainda. Viro-me de repente e só o lugar vazio, o silêncio mais intenso, o sítio das palavras vago em cada linha de claridade, em toda esta luz»

jdact e wikipedia

«(…) E falta justiça à insistência desta manhã, falta justiça ao artificial desta primavera, a esta luz fina. O ar finge-se respirável, a lezíria finge-se infinita na asfixia deste lugar pequeno e emparedado. E este lugar que era mundo, agora, vazio oco quer ser mundo ainda. E, realmente, tudo se mantém suspenso. Tudo quer e tenta ser igual. Todos parecem acreditar. Sem ti, as pessoas ainda vão para onde iam, ainda seguem as mesmas linhas invisíveis. Mas eu sei, pai. Perderam-se as leis contigo. Perdeu-se a ordem que trazias. Pai. O céu arrasta nuvens transparentes num êxodo lento. A estrada corta este mundo, divide, directa ao horizonte que não há, directa ao céu. Ao nosso lado, passam a correr, a fugir, a deslizar oliveiras, passam troncos verticais direitos, momento a momento, passam, alternam-se, sobrepõem-se copas emaranhadas de oliveiras. Cresce a manhã, cresce o cansaço. E a luz insiste. E a primavera. E o motor insiste uma entoação constante de insecto, uma constante voz subterrânea que a pouco e pouco se me infiltra entre as costelas e, na prisão do meu peito, se torna grito. Seguro o volante. Cresce a manhã, cresce o cansaço. Vou. Avanço, avanço e regresso. E cada quilómetro, um mês; e cada metro, um dia. Avanço para o que fomos. Encontrei nas pedras deste caminho, no luminescente desta viagem, um espaço por onde entrei e acelero, onde cada quilómetro em frente é um mês que recuo. E avanço neste caminho que fizemos mil vezes juntos e avançam as estações do ano: primavera inverno outono verão primavera inverno... E avançam os quilómetros neste sítio onde entro como se caísse. Vertiginosamente. Atiro-me neste poço, no fundo que não se vê deste poço. E há tanta luz. Há os instantes que vivemos mil vezes juntos e que agora nascem sem nós e nos ultrapassam. Há o sol que partilhámos mil vezes e que agora não te aquece, que agora não me aquece. Pai. Passo por tudo e tudo me deixa e passa por mim. Caio. Avanço. Regresso. Na berma da estrada, entre extensões amarelecidas de mato e cardos secos, entre searas gigantes de trigo, rompem ervas corajosas poucas, rompem papoilas que do fogo sangue das suas chamas ateiam o louro, o áureo. Marés fulvas ardem. Mantas amarelas que sobem ao céu e ao sol, que o trespassam e jorram dele. E na manhã, quase tarde, desta primavera tórrida, tanto brilho encandeia. Cego, olho para o lado e vejo-me pequeno, há muitos anos, sentado sob a faixa importante do cinto de segurança, vejo-me sem paciência a perguntar quanto é que falta? Volto com o olhar à estrada. Respiro. Encontro em mim a serenidade para dizer falta pouco, falta pouco. Fixo o traço contínuo ou intermitente, branco e fito-me, pequeno de uns dez ou onze anos, fito-me tornado mancha e vulto no canto do olho. Quanto é que falta? Na terra, o pó eleva a idade e a combustão desta hora. Falta pouco, falta pouco. Atravessamos uma vila branca e tão deserta como esta estrada vazia, esta estrada sem ninguém. Atravessamos uma vila, já perto da nossa, esta vila de casas brancas, esta vila que conhecias e onde te conheciam. Atravessamos esta vila deserta onde todos te esqueceram. Dos meus lábios, as tuas palavras, os teus lábios, o teu conto pequeno e igual que contavas e sabias de cor, e sabíamos de cor. O conto. E perguntava-te se era verdade, se tinha mesmo acontecido; tu, simples, escondendo detalhes no olhar abstracto e no veludo liso vivo da face e da testa, como se respondesses, dizias é um conto. E selavas a conversa, e não falávamos mais sobre isso. Olho-me, vejo-me no banco, atento ao que pensava, pequeno e grandinho para os poucos anos, alimentado, a crescer, a faltar-me nada. E sinto uma alegria, a satisfação de ter conseguido dar o que não pude ter; contente, a satisfação imensa de ter conseguido. Sim, pai, conseguiste. Conseguiste tudo. Deste-me o que tenho. Construíste-me e construíste esperança no que tocaste. E olho-me pela última vez, vejo-me. A carne, o querer de criança. E sigo a febre, o fervente do que se aproxima e afasta. Quanto é que falta?, ouço ainda. Viro-me de repente e só o lugar vazio, o silêncio mais intenso, o sítio das palavras vago em cada linha de claridade, em toda esta luz. Invento, e digo falta pouco, falta pouco». In José Luís Peixoto, Morreste-me, Temas e Debates, 2000/2001, ISBN 972-759-370-4.

Cortesia de TDebates/JDACT

Uma pequena vila. Galveias. José Luís Peixoto. «Quando voltou para o campo, aturando os caprichos da motorizada, o Cebolo passou por grupos que avançavam a pé e de bicicleta. Foi ultrapassado por motas mais adolescentes e, mesmo à beira de chegar…»

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«Escuta lá, de quem é que tu és filho? Sou o filho do Peixoto da serração e da Alzira Pulguinhas»

Janeiro de 1984
«(…) A caminho da escola, os cachopos iam todos a coçar as ramelas e a torcer o nariz. Estavam ensonados e rabugentos com aquela manhã tão cinzenta, tão sem consideração pelas suas arrelias. Já na sala, arrumaram-se ao aquecedor de gás, a professora deu licença, e deram soltura às suas teorias. Forasteira, a professora ficou banzada com as cabeças dos cachopos e, nessa manhã, mandou-os para o recreio mais cedo. Achou que precisavam de correr. De madrugada, no alto da rua de São João, os homens e as mulheres firmaram-se e subiram com desenvoltura para os reboques dos tractores. E 1á seguiram para o campo sem grande paleio, sisudos, sentados em fardos de palha, a agitarem-se conforme os buracos da estrada e, se não fosse pelo cheiro cinzento a enxofre, quase a duvidarem que a noite anterior tivesse acontecido. As velhas, viúvas ou não, vinham para a porta de casa com a sua vassoura de mato. De rabo para o ar, começavam a varrer. Passava um instante e levantavam a cabeça para olhar em redor. Queriam dar fé e perceber se havia novidades. Esta incerteza demorou até meio da manhã.
Na torre da igreja, os sinos deram as dez. Estava a rodar essa música de sinos em perfeita afinação quando o Cebolo entrou de motorizada na vila. Era um motor preguiçoso, a gemer uma surdina de besouro, a falhar nas subidas, incerto, espécie de motor bêbado. Trazia o capacete enfiado na cabeça, mas levava a correia desapertada. Passava de olhos muito abertos, um mais aberto do que o outro. Quem o via, tão compenetrado, suspeitava. Quando parou no terreiro e pôs â motorizada na espera, os homens que estavam à porta do café do Chico Francisco ficaram só a olhar para ele. Com vagar, aproximou-se, deixou que passasse um momento e deu-lhes a notícia. Tresandava a uma mistura de enxofre e borregum. Ficaram doidos. Dois deles pegaram logo nas motas e seguiram juntos. Os outros espalharam-se: um desceu pela rua da sociedade, outro desceu pela rua da Fonte Velha, outro subiu em direcção ao Alto da Praça, outro foi para o lado do São Pedro. O Cebolo pouco se mexeu. A vitrina do café do Chico Francisco estava coberta por um tapume velho de contraplacado. Esse fundo deu ainda mais gravidade ao olhar do Cebolo. A notícia foi alastrando a partir do terreiro, como um incêndio, ou como água da chuva nas regadeiras, ou como a notícia de uma morte, ou como uma lata de tinta entornada.
Quando voltou para o campo, aturando os caprichos da motorizada, o Cebolo passou por grupos que avançavam a pé e de bicicleta. Foi ultrapassado por motas mais adolescentes e, mesmo à beira de chegar, foi ultrapassado pelo automóvel do doutor Matta Figueira. Quando essa nuvem de pó se desfez, o Cebolo teve de parar a motorizada para acreditar no que estava a ver. Dezenas de pessoas, centenas talvez, enchiam a herdade do Cortiço, atravessavam-na a passos largos. Contra o ligeiro abrandamento das ervas altas, dirigiam-se à cratera. Muitos rodeavam-na já. Julgando-se abandonadas, as cabras do Cebolo admiravam-se com aquele movimento de gente, levantavam um olhar de medo, coitadinhas, podiam mesmo ensaiar uma fuga espantada se alguém fizesse um gesto mais brusco, mas não chegavam a sair do lugar.
O terreno apresentava uma cratera redonda e inédita: um círculo com um diâmetro de uma dúzia de metros, mais ou menos, abatido a cerca de um metro abaixo do resto da terra. Era como se um martelo gigante tivesse afundado aquele disco. No centro, a coisa sem nome, imóvel, vaidosa, a exibir-se. Aqueles que tinham descido o degrau e feito menção de se aproximar, não aguentaram o calor. Mesmo à distância, a coisa sem nome difundia um calor ardente, que corava as faces e secava a boca. O cheiro a enxofre era quase irrespirável. Muitos tapavam a boca com lenços de assoar ou com a palma da mão. Ali, nunca ninguém tinha visto nada que pudesse comparar com aquilo. Rodeado por alguns dos seus filhos, o Cabeça estava lá, embasbacado. Se calhar, é um bocado de sol, disse». In José Luís Peixoto, Galveias, Quetzal Editores, Lisboa, 2014, ISBN 978-989-722-179-8.

Cortesia de Quetzal/JDACT

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2016

Cemitérios de Pianos. José Luís Peixoto. «Agora, está quieta e brinca com as bonecas. Como em todas as manhãs, acordou quando a mãe foi acordar a irmã para ir para a escola. À mesa da cozinha, a Ana, meio a dormir, não respondia às perguntas…»

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«(…) O Hermes tinha acabado de nascer. As palavras foram: … nasceu o menino da Marta. O Hermes tinha acabado de nascer. No hospital, a Marta estava a descansar. E ninguém sabia como ficar feliz, mas a felicidade era tão forte e crescia de dentro deles. Era como se tivessem uma nascente de água no peito e a felicidade fosse essa água. Houve um milagre que fez lágrimas transformarem-se em lágrimas. E tinham as mãos pousadas sobre o peito. Tinham as pálpebras fechadas muito devagar sobre os olhos para sentirem a chuva branda dessa felicidade que os cobria, inundava. Passou uma hora. O telefone tocou de novo. Eu tinha acabado de morrer. A luz da manhã não sente os vidros limpos da janela no momento em que os atravessa, pousando depois nas notas de piano que saem da telefonia e flutuam por todo o ar da cozinha. A luz da manhã, pousada nas notas de piano, detém-se, pontilhada, nos reflexos dos azulejos brancos da parede, nos cantos da mesa revestidos por fórmica, nas gotas de água que se suspendem no rebordo das panelas lavadas e viradas sobre o lava-loiças. A minha mulher passa. Não repara na agitação invisível e luminosa de notas de piano que deixa à sua passagem. Leve, passa com as mangas arregaçadas até aos cotovelos. Sem reparar, leva a claridade da manhã no rosto. Entra no corredor. A sua pele brilha debaixo das sombras. Os seus passos abafados pela alcatifa não se distinguem do silêncio. Aproxima-se da porta aberta da sala para sorrir, olhando para o corpo pequeno da íris, sentada no tapete, rodeada por brinquedos e pedaços partidos de brinquedos de plástico: pernas de bonecas. A minha mulher fica assim durante um momento. A íris tem quase três anos e não sente o olhar que a cobre e protege. Durante esse momento, a minha mulher não tem idade e não sente o tamanho da casa da Maria, marcado por estalidos de móveis na distância: o armário cheio de vestidos fora de moda, no quarto da Maria e do marido, ao fundo do corredor; o divã de ferro e de molas que a minha mulher arma todas as noites antes de dormir e que desarma ao acordar, na sala de jantar, a meio do corredor; o frigorífico a esmarrir-se sob as notas que saem da telefonia, na outra ponta do corredor. A íris nasceu quando, de mim, só já restavam as conversas e as fotografias. A íris ainda não percebe todas as conversas e não repara em fotografias de pessoas que não conhece. Tem os olhos azuis como o mar dos postais de férias e tem os cabelos compridos a acabarem em canudos que lhe escorrem sobre os ombros e sobre as costas. É uma linda criança selvagem. Em certos dias, embala-se a correr com as suas pernas pequenas, lança-se despedida para cima do sofá e ri-se. Agora, está quieta e brinca com as bonecas. Como em todas as manhãs, acordou quando a mãe foi acordar a irmã para ir para a escola. À mesa da cozinha, a Ana, meio a dormir, não respondia às perguntas que a íris insistia em fazer. A Maria andava de um lado para o outro a procurar pequenas coisas: lenços, chaves: e a colocá-las dentro da mala. A minha mulher apressava a Ana, que não terminava de comer a papa. Em Julho, já não há escola, mas a Maria continua a levá-la porque há uma professora que, por pouco dinheiro, continua a tomar conta das crianças, a ensinar-lhes contas e a dar-lhes trabalhos de casa. Como em todas as manhãs, a minha mulher pegou na íris ao colo e aproximaram-se da janela para verem a Ana, de bata às riscas, a afastar-se lá em baixo, na rua, a correr para acompanhar a mãe, e a deixar-se ficar para trás, e a correr de novo, e a deixar-se ficar para trás, a correr e a desaparecer com a mãe na curva do passeio. Agora, a íris está quieta e brinca com as bonecas: … não queres papar? Porque é que não queres papar?, pergunta à boneca, enquanto lhe encosta uma colher pequena na boca de borracha. Depois, penteia-a. Depois, deita-a a dormir. Vê-a dormir durante um instante, e acorda-a. Troca-lhe a roupa e tenta de novo dar-lhe de comer. A minha mulher volta à cozinha. Nas chávenas penduradas dentro do armário, na fruteira, nos talheres lavados, no cabo da vassoura, nos panos suspensos na parede do lava-loiças, na caixa de fósforos com nódoas de gordura, na chaleira pousada sobre o fogão apagado, os seus olhos reconhecem a paz da manhã. Abre a janela e, depois de escolher algumas molas e uma peça de roupa do alguidar cheio, inclina-se sobre o parapeito para estendê-la. E repete esses gestos. E, de cada vez que se baixa para segurar umas calças do marido da Maria, ou uma blusa da Maria, ou uma camisola interior das netas, é submersa por um pedaço da música de piano que, com a força de uma brisa, enche a cozinha. E, de cada vez que se inclina sobre o parapeito e puxa a corda para acertar uma mola, pensa que Lisboa e o mundo são enormes. O seu tronco, lançado a partir da janela do terceiro andar de um prédio de Benfica, sente um pouco daquilo que poderá ser a experiência de voar. É neste instante que pensa no nosso filho Francisco, que partiu ontem de madrugada para a maratona, para os Jogos Olímpicos, como se partisse para uma ilusão. Esse pensamento esteve sempre por baixo de todos os outros, como um lume de brasas que, por vezes, desperta numa chama. E, primeiro, o orgulho: o nosso filho, o nosso menino: o peso de todas as lembranças da ternura: e o nome impresso em jornais, importante. O nome. Demos-lhe o meu nome para que o tornasse seu. Esse nome que foi meu e que agora lhe pertence completamente. O nome e todas as pessoas que o pronunciam: Francisco Lázaro. Depois, depois, o orgulho». In José Luís Peixoto, Cemitérios de Pianos, 2006, Bertrand Editora, Quetzal Editores, 2009, ISBN 978-972-564-823-0. 
Cortesia de Quetzal/JDACT

quinta-feira, 28 de janeiro de 2016

Cemitérios de Pianos. José Luís Peixoto. «Olharam para mim, e choraram mais, e sentiram no peito todo o vazio terrível, negro: profundo, profundo: que eu também teria sentido se algum dia tivesse perdido um deles»

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«Quando comecei a ficar doente, soube logo que ia morrer. Nos últimos meses da minha vida, quando ainda conseguia fazer a pé o caminho entre a nossa casa e a oficina, sentava-me numa pilha de tábuas e, sem ser capaz de ajudar nas coisas mais simples: aplainar o aro de uma porta, pregar um prego: ficava a ver o Francisco a trabalhar compenetrado, dentro de uma névoa de pontos de serradura. Em novo, também eu tinha sido assim. Nessas tardes, tanto tempo impossível depois de ter sido novo, certificava-me de que não estava a ver-me e, quando não aguentava mais, pousava a cabeça dentro das mãos. Segurava o peso imenso da minha cabeça: mundo: tapava os olhos com as mãos para sofrer dentro da escuridão, dentro de um silêncio que fingia. Depois, nas últimas semanas da minha vida, fui para o hospital. A Marta nunca me foi visitar ao hospital. Estava grávida do Hermes. Estava nos últimos meses, e a Marta, com a natureza que tem, precisou de muitos cuidados durante o tempo da gravidez. De repente, lembro-me de quando era pequena e tão feliz na trotinete que lhe comprei em segunda mão, lembro-me de quando ia para a escola, lembro-me de tanto. Enquanto eu estava no hospital à espera de morrer, a Marta estava noutro hospital, não demasiado longe, à espera que o Hermes nascesse. Como é que está o meu pai?, perguntava a Marta, deitada, mal penteada, com os lençóis da cama de hospital a taparem-lhe a barriga. Lá está na mesma, respondia alguém mentindo. Alguém que não era nem a minha mulher, nem a Maria, nem o Francisco, porque nenhum deles tinha forças para lhe mentir. Na última tarde em que estive vivo, a minha mulher, a Maria e o Francisco foram ver-me. Durante toda a doença, o Simão nunca me quis visitar. Era domingo. Eu estava apartado dos outros doentes, porque ia morrer. Tentava respirar e a minha respiração era um zumbido grosso, rouco, que enchia o quarto. Ao fundo da cama, a minha mulher chorava, engasgada pelas lágrimas, pelo rosto contorcido e pela dor: o sofrimento. Sem escolher as palavras, dizia-as dentro de uivos estendidos, esticados, longos, interrompidos apenas por tomadas sôfregas de fôlego. Eram palavras que ardiam dentro do seu corpo emagrecido, vestido com um casaco de malha, uma saia estimada, sapatos engraxados: … ai meu rico homem meu amigo que és o meu maior amigo e eu fico sem ti meu rico homem meu companheiro meu amigo tão grande tão grande. A Maria chorava e tentava abraçar a mãe, consolá-la, porque, no peito, sentiam as duas o mesmo vazio definitivo e terrível que eu também teria sentido se algum dia tivesse perdido uma delas. O Francisco olhava pela janela. Tentava não ver. Tentava não saber aquilo que sabia. Tentava ser um homem. Depois, sério, aproximou-se de mim. No tempo eterno e concreto, pousou-me festas no rosto e pousou a mão sobre a minha mão. Na mesinha-de-cabeceira, sobre o tampo de ferro cinzento, descobriu um copo de água e um pau que tinha um pedaço de algodão na ponta. Molhou o algodão na água e assentou-mo na boca seca e aberta. Mordi-o com toda a força que tinha, e o Francisco surpreendeu-se por sentir pela última vez a minha força. Retirou o algodão. Olhou-me, e chorou também, porque já não conseguia aguentar. A Maria abraçou-o e tratou-o como quando era pequeno: … não tenhas medo, menino, que a gente não te vai deixar sozinho. A gente vai tratar de ti. Toda a minha força. Usei toda a minha força e só consegui fazer um som horrível de moribundo. Queria dizer ao Francisco e à Maria que eu também nunca os deixaria sozinhos, queria dizer-lhes que eu era o maior amigo que tinham na vida, que nunca os deixaria sozinhos e que nunca deixaria de ser o seu pai, e de tratar deles, e de protegê-los. Em vez disso, usei toda a minha força e só consegui fazer um som horrível de moribundo. O som de uma voz que já não conseguia falar, o som de uma voz que, usando toda a sua força, só conseguia fazer um barulho rouco com a garganta, um som horrível, um som de moribundo. Olharam para mim, e choraram mais, e sentiram no peito todo o vazio terrível, negro: profundo, profundo: que eu também teria sentido se algum dia tivesse perdido um deles. Foram para casa da Maria e cada um ficou abandonado num canto dentro do sofrimento. Longe, protegida, a Ana tinha dois anos e estava na casa dos avós do lado do pai. Desprotegidos, a minha mulher, a Maria e o Francisco esperavam que o telefone tocasse. Esperavam que telefonassem do hospital com a notícia de que eu tinha morrido. Foi assim que a enfermeira disse: … em princípio, telefonamos ainda hoje. Telefonamos logo que o seu marido falecer. Foi assim que a enfermeira disse. Sem reparar talvez que a minha mulher já não era ninguém. Sem reparar que as palavras que lhe dizia se perdiam sem eco dentro da sua escuridão. Vagarosa, a noite. Com o vagar desmedido das coisas mundiais, a noite cobriu todos os lugares do mundo que eram todos só ali: a casa da Maria: os bonecos a imitarem porcelana sobre as prateleiras dos armários, as cobertas sobre os sofás, os cantos dobrados dos tapetes, os candeeiros a imitarem cristal, as pinturas estampadas nos quadros: e a casa de festas de anos em que, desafinados, cantávamos os parabéns, batíamos palmas desencontradas e nos ríamos: e a casa de festas de Natal em que me sentava no sofá, e se punha a toalha de mesa com desenhos de pinheiros e sinos, e se usavam os copos de pé alto. Nessa casa, cada um ficou abandonado num canto dentro do sofrimento. Às nove horas da noite, o telefone tocou. O telefone tocou durante um momento que foi muito longo, porque ninguém o queria atender, porque todos tinham medo de o atender, porque todos sabiam com uma certeza muito grande que, ao atendê-lo, iria acabar definitivamente a esperança até ao último instante, iriam acabar os quase três anos da minha doença que, sempre se soube, me ia levar à morte, me ia levar até àquele telefone que tocava e que ninguém queria atender. O telefone tocou. O som atravessou a casa e o peito da minha mulher, da Maria e do Francisco. Quem atendeu foi o marido da Maria. As suas palavras dentro de uma suspensão negra do tempo, como dentro de uma sombra do tempo: … Sim, sim. Está bem. Eu digo. Aproximou-se dos meus filhos e da minha mulher e disse-lhes. Um muro invisível entre o seu rosto e as palavras que dizia. Um muro invisível entre o mundo e as palavras que dizia. Um muro que não permitia a compreensão imediata de palavras tão simples. O Hermes tinha acabado de nascer». In José Luís Peixoto, Cemitérios de Pianos, 2006, Bertrand Editora, Quetzal Editores, 2009, ISBN 978-972-564-823-0.

Cortesia de Quetzal/JDACT