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segunda-feira, 9 de março de 2020

O Número de Deus. José L. Corral. «Estamos no Solstício de Verão, quase ao meio-dia. Dentro de uns momentos o sol atingirá a sua plenitude zenital aqui, na cidade de Chartres; esse será o momento em que a luz solar brilhará…»

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O Algarismo e o Número
«(…) Na manhã seguinte, o bispo Maurício e o abade de Arlanza dirigiram-se à catedral. O dia estava luminoso e claro e nem uma só nuvem ameaçava cobrir o sol. Pouco antes do meio-dia, como Jean de la Tour tinha indicado, os dois castelhanos apresentaram-se na entrada ocidental. Ali esperava-os o cónego, acompanhado por um cavalheiro que, pela sua vestimenta, parecia um indivíduo importante. Senhor bispo, senhor abade, apresento-vos João Ruão, mestre-de-obras da catedral de Chartres. Mestre João, apresento-vos dom Maurício, bispo de Burgos, no reino de Castela, e o senhor abade de Arlanza. Os quatro homens cumprimentaram-se. Senhor cónego, o que é isso de tão extraordinário que nos espera? Haveis conseguido despertar de tal modo a minha curiosidade, que esta noite quase não consegui pregar olho.
O mestre João de Ruão explicar-vos-á; segui-nos, por favor. Entraram os quatro na catedral. Era um pouco antes do meio-dia e a luz banhava todo o templo penetrando em caudais pelos vitrais multicores. O arquitecto conduziu-os até um determinado lugar ao meio da nave central. Estamos no Solstício de Verão, quase ao meio-dia. Dentro de uns momentos o sol atingirá a sua plenitude zenital aqui, na cidade de Chartres; esse será o momento em que a luz solar brilhará com a maior intensidade de todo o ano. E então...?, perguntou o bispo Maurício, cada vez estranhando mais. Observai aquele vitral, é aquele a que chamamos Santo Apolinário, e agora aquela espiga dourada incrustada na pedra branca. No meio do lajeado cinzento do cruzeiro sul destacava-se uma pedra esbranquiçada em que havia uma espiga de metal dourado embutida. Sim, estou a ver, mas o que significa...
Um momento! Eminência, um momento.
Passou um bocado até que um raio de luz penetrou por uma abertura do vitral de Santo Apolinário em que tinha sido colocado um vidro convexo. No momento em que o Sol atingiu o zénite, precisamente ao meio-dia, o raio penetrou pela abertura do vitral para incidir precisamente sobre a espiga dourada, que pareceu iluminar-se como se estivesse dotada de luz própria. E nesse preciso momento, toda a catedral se iluminou com dezenas de feixes que ressaltaram pelas paredes criando um espaço absolutamente mágico. As paredes, os pilares, as abóbadas, tudo parecia esfumar-se entre os raios dourados e o tremular dos feixes de luz.
Santo Deus!, exclamou o bispo Maurício. Já o haveis visto, Eminência, conseguimos captar os raios de sol e que pelo menos durante uns instantes, sejam nossos. Haveis conseguido um efeito maravilhoso, mas... como? É um problema de óptica, interveio João Ruão; bem, de óptica e de teologia. Deus é a luz, a luz do universo que fecunda a terra e que nos livra da matéria escura. A pedra significa o mundo feminino, que ao receber a 1uz dá vida. Se haveis reparado, a Virgem está esculpida na entrada em pedra negra. Mas isso não é tudo, segui-me.
João levou-os até à nave central, quase aos pés do templo.
Construímos esta catedral à imagem do mundo. Este templo é o símbolo de todo o universo, estão aqui reunidas a luz e e a escuridão, a razão e a loucura. Mas, sem dúvida, é o templo do triunfo da luz sobre as trevas. Os vitrais dão forma à divina luz solar. A luz é o elemento fecundador masculino e a pedra o receptor feminino, ambos nos falam e nos recordam quem somos e de onde vimos.
Pareceu ao bispo Maurício que algumas das coisas que o arquitecto de Chartres dizia raiavam a heresia, ou pelo menos se assemelhavam a crenças pagãs condenadas pela Igreja. Deus fez a luz, disse o bispo de Burgos». In José Luís Corral, O Número de Deus, 2004, O Segredo das Catedrais Góticas, Planeta Editora, Lisboa, 2006, ISBN 972-731-185-7.

Cortesia de Planeta Editora/JDACT

domingo, 13 de janeiro de 2019

O Número de Deus. José L. Corral. «E o que vos traz por cá, senhor bispo? O cónego la Tour acompanhara Maurício e o abade de regresso à pousada, e estes tinham-no convidado a cear com eles»

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O Algarismo e o Número
«(…) A catedral de Chartres surgiu entre os campos de trigo, já amarelecidos pelo estio, como o esqueleto de uma enorme baleia varada numa praia de dunas douradas. À distância, o templo parecia completamente acabado. Os arcobotantes destacavam como as cavernas de um navio ou as gigantescas costelas de um animal fabuloso. Conforme dom Maurício e os seus acompanhantes se aproximavam, a catedral de Chartres, situada no alto de uma colina, parecia crescer para o céu, agudizando o seu perfil estriado e difuso.
Aquele era o último dia da Primavera, um dia muito assinalado, pois a nova catedral de Chartres tinha sido construída como um verdadeiro monumento à luz, e o sol alcançaria no dia seguinte o seu ponto mais alto de todo o ano. O bispo de Burgos, dizeis?, perguntou o estalajadeiro a quem dom Maurício, o abade de Arlanza e os quatro soldados da escolta pediram pousada. Sim, Burgos, em Castela. Ouvi falar dessa cidade; alguns dos meus clientes fizeram a peregrinação ao túmulo do apóstolo Santiago de Compostela. Pareceis um senhor importante, mas perdoai-me, se vos peço que me pagueis adiantado. Maurício indicou ao abade de Arlanza que assim procedesse; a cara do estalajadeiro iluminou-se quando viu o brilho prateado das moedas.
Dirigiram-se de imediato à catedral, que, tal como lhes havia parecido ao longe, estava praticamente terminada. Afinal, a catedral está quase acabada. Acreditais, Senhor Abade, que alguma vez teremos uma como esta em Burgos? Se vos propuserdes a isso, Eminência, certamente que sim. Os dois clérigos entraram na catedral. A tarde começava declinar e o sol rasante inundava o espaço com uma luz irisada. Através dos janelões, os feixes luminosos desdobravam-se por todo o interior do templo, numa catarata furta cores.
O bispo Maurício não pôde reprimir a emoção. Uniu as mãos, levantou os braços ao céu e caiu de joelhos no meio da nave central. Os seus olhos pasmados contemplavam a sinfonia de cores filtradas pelos vidros dos janelões como se estivessem a presenciar o primeiro amanhecer do universo. Uma personagem vestida com roupas talares aproximou-se dos castelhanos. Sois estrangeiros?, perguntou-lhes em latim. Somos castelhanos, respondeu o abade de Arlanza, enquanto o bispo Maurício continuava de joelhos, de braços levantados, olhos assombrados e boca aberta. Sua Eminência, o bispo de Burgos, e quem vos fala, o abade de San Pedro de Arlanza. Eu sou Jean de la Tour, cónego da catedral de Chartres. Sede bem-vindos à casa de Deus e de sua Madre Santíssima. Mas Maurício não ouvia nada, todos os seus sentidos, naquele momento, estavam absortos na luz da catedral.
                    
E o que vos traz por cá, senhor bispo? O cónego la Tour acompanhara Maurício e o abade de regresso à pousada, e estes tinham-no convidado a cear com eles. Vamos buscar a futura esposa do rei de Castela, a princesa Beatriz da Suávia. Pois haveis-vos desviado do vosso destino. Decidimos visitar antes Paris e Chartres, para contemplarmos as suas catedrais. Tenho intenção de construir uma igreja em Burgos, neste novo estilo. Essa é agora a ideia da maioria dos bispos cristãos. Desde que o abade Suger encomendara a construção da sua nova igreja em honra de São Dionísio e indicara ao seu mestre-de-obras que o templo devia ser a casa da luz, todos desejavam imitar Suger.
Vós sois clérigo, um ministro do Senhor, deveis saber bem que se Deus é a luz, a sua casa tem de ser a casa da luz. Se achardes por bem vir amanhã à catedral, comprová-lo-eis. Amanhã? Precisamente amanhã. Se o que buscáveis era luz, haveis chegado no melhor dia do ano para isso. Espero-vos um pouco antes do meio-dia na entrada ocidental. Sereis testemunhas de algo extraordinário, se o dia não amanhecer encoberto». In José Luís Corral, O Número de Deus, 2004, O Segredo das Catedrais Góticas, Planeta Editora, Lisboa, 2006, ISBN 972-731-185-7.

Cortesia de Planeta Editora/JDACT

quinta-feira, 19 de julho de 2018

O Número de Deus. José L. Corral. «Quando deixaram as bagagens em segurança, foram visitar a catedral de Notre-Dame. O templo, em pleno coração da ilha de la Cité…»

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O Algarismo e o Número
«(…) Numa manhã de princípios de Junho, debaixo de um sol ardente e amarelo divisaram o vale do Sena e, no coração da extensa planura, abraçada ao rio como uma amante adormecida, apareceu o casario cinzento e ocre da cidade de Paris. Cinco soldados tinham-se adiantado uma jornada para mostrar o documento enrolado em que ei rei Fernando de Castela nomeava o portador do salvo-conduto, Maurício, bispo de Burgos, embaixador real e lhe outorgava a sua representação em toda a terra de fiéis e infiéis. Senhor bispo, avisámos o preboste de Paris da vossa iminente chegada; mostrou-se muito amável e recomendou-nos que nos alojássemos nas dependências de um convento que uns monges italianos estão a construir nos arredores da cidade. Haveis falado com o senhor bispo? Fornos ao seu palácio, que está situado numa ilha no meio do rio, mas aí disseram-nos que está fora, visitando alguns lugares da diocese, mas regressará em breve. Pois façamos caso do preboste e vamos instalar-nos onde nos aconselhou.

Quando deixaram as bagagens em segurança, foram visitar a catedral de Notre-Dame. O templo, em pleno coração da ilha de la Cité, estava muito avançado. O plano da obra era grandioso; cinco naves escalonadas em altura estendiam-se ao largo de quatrocentos pés de comprimento, com um cruzeiro só detectado no alçado, não na planta. Quando cá estive a estudar, há dez anos, a nave ainda estava a céu aberto, pois faltava colocar quase todo o telhado. Mas agora, Santo Deus! É extraordinário. Fixai-vos nessas abóbadas, nas tribunas, nos janelões, observai a luz, que inunda tudo..., a luz, a luz...
O bispo Maurício contemplava extasiado a grande igreja Catedral de Notre-Dame, tão grande que poderia conter dentro dela três catedrais como a de Burgos. O bispo Maurício vivera em Paris alguns anos antes. Nesta cidade, destino de quantos eclesiásticos quisessem tudo o que o mundo era capaz de ensinar até então, estudara com o seu amigo e companheiro Rodrigo Ximenes Rada. Quando este foi nomeado arcebispo de Toledo, em 1209, Maurício regressou a Castela, pois Rodrigo chamou-o para seu lado, como arcediago. Quatro anos depois e devido ao seu prestígio, foi nomeado bispo de Burgos, sem que ainda tivesse cumprido os trinta anos.
Durante vários dias, e enquanto o bispo parisiense não regressava da visita pastoral pela diocese e o recebia no seu palácio, Maurício interessou-se por todos os aspectos relacionados com a construção da catedral de Notre-Dame. Preocupavam-no o custo da obra, o tempo de execução, a maneira de realizar as abóbadas, a quantidade de operários necessários para semelhante trabalho e a maneira de coordenar todos eles. Todos os dias se deslocava até à catedral, onde uma equipa de escultores estava a começar a lavrar as esculturas da fachada principal, que no seu estado final disporia de duas enormes torres demarcando um grandioso pórtico no qual as cinco naves se manifestavam para o exterior em cinco portas.
Temos que ir a Chartres. Não fica muito longe, apenas a dois dias de caminho para oeste. Quando cá estive não visitei essa cidade, mas toda a gente falava da catedral que ali estava a ser construída. Um dos oficiais desta obra aconselhou-me a visitá-la. O bispo Maurício e o abade de Arlanza partiram para Chartres com uma pequena escolta de quatro soldados comandados pelo prior do Hospital. O resto da comitiva castelhana ficou em Paris, aguardando o regresso do bispo, enquanto o abade de Rio Seco viajava para a Alemanha para preparar o encontro com a princesa Beatriz». In José Luís Corral, O Número de Deus, 2004, O Segredo das Catedrais Góticas, Planeta Editora, Lisboa, 2006, ISBN 972-731-185-7.

Cortesia de Planeta Editora/JDACT

quinta-feira, 31 de maio de 2018

No 31. O Número de Deus. José L. Corral. «O intenso azul das terras do Midi tornava-se num esvaído azul-esbranquiçado. Mas os campos de searas e a paisagem monótona e ondulada continuavam a dominar tudo»

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O Algarismo e o Número
«(…) Durante várias semanas viajaram para norte, sempre pelo Caminho Francês; quando perderam de vista os Pirenéus, a paisagem tornou-se monótona: suavíssimas colinas a meio de uma planície infinita coberta de campos de trigo, nos quais de vez em quando se destacava a torre de uma igreja ou um castelo no alto de urna suave colina. Nas encruzilhadas e nas margens dos rios agrupavam-se numerosos casarios de tamanhos muito diversos; alguns eram apenas pequenas aldeias de pouco mais de uma dúzia de casas e outros configuravam-se aglomerações tão grandes como Burgos, e até maiores. Muitas dispunham de fortalezas imponentes construídas com pedras bem talhadas, ornadas de torreões poderosíssimos lavrados em pedras tão brancas que reflectiam os raios do Sol como se de um espelho de azougue se tratasse. Essas cidades possuíam magníficas igrejas e catedrais, todas elas construídas no velho estilo românico, mas todos os bispos dessas dioceses aspiravam construir em breve novas catedrais, tal como as que estavam a ser erguidas a norte do rio Loire.
A Aquitânia tinha sido um grande Estado autónomo, rico e poderoso, onde a riqueza e o bem-estar haviam florescido por todo o lado. Muita gente ainda recordava os tempos em que Leonor, a sua excelsa duquesa, reunia na sua refinada Corte dezenas de trovadores que rivalizavam na beleza das suas composições. Havia apenas meio século que a mulher que ostentara sucessivamente as coroas reais de França e de Inglaterra tinha feito da Aquitânia a terra do amor, do luxo e do estilo de vida mais refinado que o Ocidente havia conhecido.
Os trovadores ainda poetizavam as façanhas daquela portentosa mulher que, seguindo o seu primeiro marido, o rei Frederico de França, até à Terra Santa, tinha levantado o ânimo aos abatidos cruzados mostrando o seu peito nu e a sua maravilhosa cabeleira ao vento, montando o seu cavalo à frente dos soldados de Cristo. Os últimos jograis cantavam nas esquinas das praças das cidades e nos pátios dos palácios e castelos a paixão amorosa de Leonor de Aquitânia e Henrique de Inglaterra, cujo amor venceu o mundo, e a energia que manteve, já anciã, para sustentar sobre os seus delicados e envelhecidos ombros os direitos ao trono do seu filho, o rei Ricardo Coração de Leão.
A grande dama das cortes de amor e dos cavaleiros galantes, a mulher que tinha assombrado a Europa, jazia agora, dormindo o seu sono eterno, na Abadia de Fontevrault, num sarcófago de pedra policromada ao lado dos túmulos das duas paixões da sua vida, o marido, o rei Henrique II de Inglaterra, e o seu filho Ricardo, o Coração de Leão.
A norte do Loire o céu era menos luminoso. O intenso azul das terras do Midi tornava-se num esvaído azul-esbranquiçado. Mas os campos de searas e a paisagem monótona e ondulada continuavam a dominar tudo». In José Luís Corral, O Número de Deus, 2004, O Segredo das Catedrais Góticas, Planeta Editora, Lisboa, 2006, ISBN 972-731-185-7.

Cortesia de Planeta Editora/JDACT

quinta-feira, 24 de maio de 2018

O Número de Deus. José L. Corral. «Junto às lendas de Roldão e às suas façanhas coexistiam as aventuras dos cavaleiros da Távola Redonda, os míticos companheiros do rei Artur, o soberano da Bretanha»

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O Algarismo e o Número
«(…) A comitiva castelhana seguiu o Caminho dos peregrinos, mas em direcção ao oriente, e atravessou o Reino de Pamplona, onde reinava Sancho, o Forte, um monarca belicoso e audaz, imensamente rico graças ao tesouro real do califa almóada que capturara na Batalha das Navas de Tolosa. Sancho conseguira tantas riquezas, que se dizia ser ele o principal banqueiro da Cristandade e dispor de tal quantidade de dinheiro que podia emprestar enormes quantias a todos os reis, nobres, eclesiásticos, comerciantes e camponeses da Europa, o que representava para o seu erário uma nova fonte de receitas, dado os altos juros dos empréstimos.
Conforme iam atravessando Navarra, verificaram que por todo o lado estavam a edificar novas construções: castelos, palácios, abadias, mosteiros, igrejas..., a maior parte dessas obras eram financiadas pelo tesouro real de Pamplona, acrescentado com o extraordinário espólio obtido na Batalha das Navas de Tolosa. Após passarem uns dias em Pamplona e depois na abadia de Roncesvalles, onde um mestre-de-obras francês estava a dirigir a construção de uma grande basílica para acolher os peregrinos, atravessaram os Pirenéus pelo desfiladeiro de Ibañeta, pela calçada onde, segundo se cantava em alguns poemas épicos franceses, tinha sido derrotada a rectaguarda do exército de Carlos Magro comandado por Roldão, o sobrinho do imperador da barba florida.
A Aquitânia abriu-se diante dos seus olhos coberta por um manto verde-esmeralda. As terras de Leonor estavam banhadas por uma luz que refulgia sob um céu límpido e celeste. O bispo Maurício cavalgava quase à frente da comitiva, imediatamente atrás do capitão que encabeçava a escolta, sempre com o olhar atento a todos os lados do caminho, preparado para desembainhar a espada assim que vislumbrasse a mínima situação de perigo. Todo o Caminho Francês para Compostela estava cheio de alegorias à batalha em que Roldão perdeu a vida. Os franceses consideravam-no o seu principal herói nacional, o exemplo do cavaleiro arrojado e valente de um tempo distante em que todas as terras entre os Pirenéus e o mar do Norte estavam unidas debaixo da gloriosa coroa imperial de Carlos Magno. Não havia igreja, abadia ou castelo em cujas paredes não existisse um fresco com uma representação do herói lendário, ou um capitel com a talha de uma cena de alguma das suas aventuras; por todo o lado os jograis e os trovadores entoavam canções nas quais Roldão abatia um dragão, derrotava um gigante ou saía vencedor num singular combate com terríveis inimigos.
Junto às lendas de Roldão e às suas façanhas coexistiam as aventuras dos cavaleiros da Távola Redonda, os míticos companheiros do rei Artur, o soberano da Bretanha; ambos haviam jurado dedicar toda a sua vida e energias na busca do Santo Graal.
Numa aldeia do Sul da Aquitânia, o pároco de uma igreja que se gabava de custodiar valiosas relíquias e de ser uma das mais veneradas pelos peregrinos jacobeus, contou ao bispo Maurício que o verdadeiro cálice da Última Ceia estava depositado num templo fabuloso esculpido numa enorme rocha no mais profundo dos montes Pirenéus. Assegurou-lhe que alguns peregrinos o tinham visitado e que os seus guardiães eram os membros de uma confraria de monges que custodiavam a mais apreciada relíquia da Cristandade em nome dos reis de Aragão, que se proclamavam sucessores de Artur e protectores do Santo Graal. O bispo perguntou ao pároco a que distância se encontrava dali esse fabuloso templo, e o padre indicou-lhe que a uns sete ou oito dias de viagem, mas que o templo estava oculto no meio de serras fragosas e ásperas, sempre cobertas de pesada bruma e denso nevoeiro, e que era impossível encontrar aquele recôndito lugar se não se dispusesse de um guia que conhecesse a sua localização exacta, pois estava tão escondido que passava despercebido a qualquer um». In José Luís Corral, O Número de Deus, 2004, O Segredo das Catedrais Góticas, Planeta Editora, Lisboa, 2006, ISBN 972-731-185-7.

Cortesia de Planeta Editora/JDACT

quarta-feira, 23 de maio de 2018

O Número de Deus. José L. Corral. «A rainha Berenguela tinha-lhe dito que o casamento deveria ser celebrado antes de acabar o ano de 1279…»

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O Algarismo e o Número
«(…) A récua de azémolas estava preparada para sair de Burgos. O bispo Maurício encabeçava a comitiva que a rainha Berenguela encarregara de ir buscar a princesa Beatriz, a noiva do rei Fernando. Várias mulas carregadas com fardos e dezenas de soldados bem apetrechados aguardavam o bispo à porta do palácio episcopal, mesmo ao lado da catedral. O bispo saiu do palácio trazendo um chapéu de viagem de abas largas enterrado na cabeça. Subiu para o lombo de uma mula com a ajuda de um criado e, com um sinal de cabeça, indicou ao capitão da guarda que podiam partir. O chefe da guarda levantou o braço direito e ordenou a partida com energia.
Junto ao bispo cavalgavam os abades de San Pedro de Arlanza e de Rio Seco, o camerario de San Zoilo de Carrión, o mestre da Ordem de Santiago e o prior da Ordem do Hospital em Castela. Tinham-se concentrado dezenas de burgaleses ao longo da rua dos peregrinos, que ia da porta de Santo Estêvão até à catedral e cujo traçado correspondia a uma parte do Caminho francês para Compostela. Teresa e Arnal Rendol tinham acorrido a presenciar a marcha da comitiva. A menina olhou para o pai, puxou-o pela manga e perguntou: onde vão todos estes soldados? Vão buscar uma princesa. Dentro de uns meses o nosso rei Fernando casar-se-á com ela, e será a nova rainha de Castela. As rainhas elegem-se? Sim, claro. Elegem-nas os reis, ou as mães e os pais dos reis. E como se elege uma rainha?
Pois depende, mas é preciso que a sua posição se ajuste à do futuro esposo, o rei, e, portanto, que seja de sangue real, que possua terras e riquezas, que disponha de servos e vassalos... Então, eu nunca poderei ser rainha? Claro que sim, pequena, tu és a minha princesa, a minha rainha. O bispo Maurício, da sua mula, abençoava solenemente os burgaleses, que se benziam à sua passagem. Nos seus olhos vivazes percebia-se um certo orgulho por ter sido designado para custodiar a futura rainha de Castela e a conduzir até Burgos. Tinha pela frente muitas semanas de caminho e ansiava pelo momento de regressar, mas por outro lado ardia em desejos de voltar a ver Paris, Chartres e Reims, as cidades do Norte de França que já visitara vários anos antes e em cujas escolas aprendera o valor da retórica e a utilidade da filosofia. Mas, sobretudo, ansiava contemplar as portentosas catedrais que estavam a construir os seus colegas bispos e ansiava por ser o primeiro bispo a pôr em marcha a construção de uma daquelas fabulosas construções seguindo o novo estilo do arco ogival. Ao deixar para trás a sua catedral, esta pareceu-lhe uma igreja pesada e antiga. Era um edifício grande, o maior da cidade, mas o seu aspecto resultava demasiado maciço, escuro, muito diferente das catedrais cheias de luz que tinha visto construir nas florescentes cidades do Norte de França.
A rainha Berenguela tinha-lhe dito que o casamento deveria ser celebrado antes de acabar o ano de 1279, de modo que o bispo Maurício dispunha de uma certa margem para viajar até Paris e poder entrar em contacto com algum dos grandes mestres e, inclusivamente, combinar já o início da nova catedral que tanto ansiava construir». In José Luís Corral, O Número de Deus, 2004, O Segredo das Catedrais Góticas, Planeta Editora, Lisboa, 2006, ISBN 972-731-185-7.
                                                                                           
Cortesia de Planeta Editora/JDACT

terça-feira, 24 de abril de 2018

O Número de Deus. José L. Corral. «Com efeito, mestre. E por isso devemos render-nos perante a grandeza da sua criação, e perante a luz. A luz?»

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O Algarismo e o Número
«(…) Necessitamos de uma nova catedral, um templo de luz, uma catedral em que o poder criador de Nosso Senhor se manifeste em todo o seu esplendor e com toda a sua força, pensou. Ao sair da catedral deparou com o mestre Arnal Rendol, que regressava com a sua filha Teresa da abadia de Las Huelgas. O pintor e a filhita vinham montados numa mula que caminhava estafada. Boas tardes, Arnal, saudou o bispo. Senhor bispo, o mestre Rendol inclinou a cabeça e tirou o chapéu, ouvi dizer que partia para a Alemanha para ir buscar a futura rainha. Assim é. Dona Berenguela encarregou-me da custódia da princesa Beatriz. Sois um afortunado. Arnal desceu da mula, que tinha feito parar, puxando as rédeas. Sou-o por usufruir da confiança de suas majestades, disse o bispo. Que rota ides seguir? Irei pelo Caminho Francês. Quero chegar a Paris e dali dirigir-me para leste, até ao Império. É o caminho mais seguro. A Occitânia ainda está revoltada. Apesar da cruzada que Sua Santidade pregou contra os cátaros e da energia que o nobre Simão Monfort empregou em acabar com a heresia, esses endemoninhados hereges continuam empenhados em sustentar o seu erro e em se manterem em pecado. Não merecem outra coisa que não a fogueira.
Arnal teve de se conter para não se delatar ante o bispo. Desde que saíra de Pamiers fugindo da perseguição dos cruzados de Simão Monfort, não tivera oportunidade de reviver o seu passado cátaro. Uma vez instalado com a mulher em Burgos, tivera de se comportar e actuar como um fervoroso católico, mas, no fundo do coração, os seus sentimentos cátaros conservavam-se muito arreigados. Teve de fazer um esforço para não responder ao bispo e não revelar as suas íntimas crenças. Na verdade, tenho estado a meditar no interior da catedral e reparei no vosso fresco da Visitação da Virgem. É muito bom. Obrigado, Sua Eminência, senhor bispo Maurício, agradeceu Arnal. Mas que pena ter que ser destruído. Como!? Quero construir uma nova catedral em honra de Santa Maria, e desejo que seja edificada segundo o novo estilo francês. Esta será derrubada, e com ela, mestre Arnal, os vossos frescos. Arnal Rendol mordeu a língua; passados alguns instantes de meditada pausa, considerou: bem, só as obras de Deus são eternas. Com efeito, mestre. E por isso devemos render-nos perante a grandeza da sua criação, e perante a luz. A luz?
Sim, a luz. Fixai-vos no céu. Está a entardecer e a luz debilita-se por momentos. O que há um instante era luminosidade, dentro de momentos será escuridão. Entendeis a mensagem de Deus? Vós, mestre Arnal, sois um artista, reflectis nas vossas obras parte da majestosa plenitude da criação divina: pintais homens, mulheres, animais, paisagens, e fazei-lo segundo vos dita a vossa imaginação. De certo modo, sois um imitador da criação divina das coisas. Nunca tinha pensado que o meu trabalho fosse imitar Deus. Pois é-o, é-o. Vós, os artistas, fostes dotados com um dom extraordinário, uma qualidade que vos permite reflectir, ainda que seja palidamente, a grandeza da Criação. A nossa arte é apenas urna habilidade. Não, é mais, muito mais do que isso. Deus manifesta-se através das vossas mãos, é Ele quem as dirige. Talvez, senhor bispo, talvez.
Não duvideis disso, mestre Arnal, não duvideis disso. Arnal Rendol despediu-se do bispo Maurício. Pegou nas rédeas da mula e seguiu para casa. Pai, disse-lhe Teresa, tu és como Deus? Não, filha, claro que não. Mas o senhor bispo disse que... Dom Maurício apenas disse que nós, os artistas, tentamos imitar a obra de Deus. Ao chegar a casa, Amal fechou a azémola no estábulo e ordenou a um dos aprendizes que viviam com ele que tirasse os arreios ao animal e enchesse a manjedoura de palha fresca e o bebedouro de água. O dia tinha sido muito duro. As monjas de Las Huelgas tinham-lhe encomendado uma pintura mural que representasse as bodas de Caná, e queriam tê-la pronta depressa, antes que o rei Fernando se casasse com a princesa alemã». In José Luís Corral, O Número de Deus, 2004, O Segredo das Catedrais Góticas, Planeta Editora, Lisboa, 2006, ISBN 972-731-185-7.
                                                                                           
Cortesia de Planeta Editora/JDACT

O Número de Deus. José L. Corral. «… numa oficina como aprendiz, coordenando o trabalho com os estudos, para que, quando obtivesse o grau de oficial, tivesse uma bagagem que lhe permitisse aceder quanto antes ao grau de mestre»

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O Algarismo e o Número
«(…) Os mestres de Chartres ensinavam que Deus-pai era o primeiro e o mais perfeito dos geómetras, e assim representavam-no manejando um compasso, à maneira de um arquitecto que estivesse a criar o mundo a partir dos números e das figuras geométricas. Deste modo, o mistério da Trindade representava-se com um triângulo e a relação do Pai com o Filho, uma relação entre iguais, com a figura de um quadrado. E dessa relação os arquitectos estabeleciam aquilo a que chamavam o número de Deus, a relação geométrica harmónica e perfeita cuja aplicação permitia construir as novas catedrais da luz. Na biblioteca catedralícia havia textos de Platão, Cícero, Séneca, Boécio e Macróbio, todos eles devidamente anotados e comentados pelo mestre Bernardo de Chartres, que tinha descoberto Platão lendo Séneca e os seus preciosos comentários sobre a teoria platónica das ideias. Bernardo cristianizara as propostas filosóficas de Platão, identificando as ideias com o pensamento divino e, a partir daí, explicava a criação da matéria e a concepção do mundo.
O jovem Henrique de Ruão foi educado na teoria das ideias de Platão. Aos nove anos, assim que ingressou na escola, ensinaram-no a ler e a escrever e começou a estudar Latim, necessário para ler os livros da biblioteca. Depois, aprenderia Matemática, Geometria, Álgebra, Filosofia, Gramática, Retórica e Teologia. O pai preparou-lhe um plano de estudos para fazer dele um grande mestre-de-obras. Até aos treze anos aprenderia aquelas disciplinas imprescindíveis ao conhecimento, depois trabalharia numa oficina como aprendiz, coordenando o trabalho com os estudos, para que, quando obtivesse o grau de oficial, tivesse uma bagagem que lhe permitisse aceder quanto antes ao grau de mestre.
Para isso teria de ir estudar para Paris e visitar as obras das principais catedrais que estavam a ser construídas no reino de França. Só assim poderia comparar diferentes tipos de trabalhos, oficinas, materiais e técnicas, e dominar todos os aspectos da sua complexa disciplina. Henrique aprendia depressa; algumas questões não tinham segredos para ele, pois o pai tinha-lhe ido explicando os mistérios do ofício. Nós, os mestres-de-obras das catedrais, somos um grupo especial de homens, dissera-lhe numa ocasião. Deus pôs nas nossas mãos uma habilidade que muito poucos homens são capazes de desenvolver. Foi-nos concedido o dom de criar uma casa para morada de Deus, somos nós que construímos o seu templo, e esse privilégio é extraordinário.

O pior do Inverno já tinha passado. Em fins de Fevereiro de 1219, o rei Fernando e a sua mãe, a rainha Berenguela, reuniram-se em Burgos com o bispo Maurício. O prelado ainda estava aborrecido porque semanas antes se vira obrigado a excomungar os monges do poderoso mosteiro de São Domingos de Silos, que tinham recusado a reforma do cenóbio por ele proposta. Maurício, o bispo, não estava disposto a abdicar da sua autoridade como bispo da sede burgalesa e agira com dureza contra os monges do cenóbio. Para a rainha Berenguela essas disputas entre clérigos pareciam-lhe questões de muito pouca relevância. Ela estava agora ocupada em casar o seu filho rei de Castela com a princesa alemã Beatriz e não queria deixar que as suas energias fossem desperdiçadas em assuntos que considerava menores. O bispo Maurício acabava de receber a incumbência definitiva de partir para o Norte da Europa para ir buscar Beatriz e a custodiar na sua viagem até Burgos.
O bispo passeava entre a penumbra das naves da catedral. De vez em quando levantava a vista e contemplava as espessas abóbadas e as maciças paredes de pedra lavrada. Aquele edifício sempre lhe tinha parecido denso, frio e escuro, mais próprio de um templo do Maligno do que de casa de Deus. Os escassos e estreitos vãos, fechados com finas lâminas de alabastro, apenas deixavam passar débeis feixes de luz amarelenta, que em seguida se difundiam no ar criando um mundo de penumbras. Recordava com inveja a sua estada em Chartres, quando visitou as obras da nova catedral, cujas paredes se mostravam rasgadas por enormes vãos dispostos de modo a deixar entrar a luz a jorros, para inundar o templo com a luminosidade que só Deus era capaz de criar. Vez atrás de vez, o bispo Maurício repetia na sua cabeça o que tinha lido em tantas ocasiões nas sagradas Escrituras: que Deus era a luz, a luz do mundo». In José Luís Corral, O Número de Deus, 2004, O Segredo das Catedrais Góticas, Planeta Editora, Lisboa, 2006, ISBN 972-731-185-7.
                                                                                           
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quarta-feira, 18 de abril de 2018

O Número de Deus. José L. Corral. «… o filósofo ateniense, Platão, sustentava que o mundo fora criado a partir da geometria e do poder do número, e não pela luz»

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O Algarismo e o Número
«(…) Quando o rei Fernando cumpriu dezoito anos, a rainha Berenguela considerou chegado o momento de lhe procurar esposa. Numa assembleia de conselheiros celebrada no palácio real de Burgos, a rainha anunciou os seus planos. O meu filho, o soberano de Castela, já é um homem. E todo o homem precisa de uma esposa a seu lado; assim o diz a lei de Deus. Se esse homem, além do mais, é um rei, a sua obrigação é procurar descendência para que a sua linhagem se perpetue e proporcionar ao reino um herdeiro. Vós, nobres ricos-homens de Castela, jurastes fidelidade ao meu filho Fernando e lealdade à coroa que encarna. Chegou a altura de que o rei de Castela procure uma esposa com que ter descendência e proporcionar a Castela o seu ansiado sucessor. Os ricos-homens congregados na cúria real de Burgos assistiam calados e atentos à prédica de dona Berenguela; de vez em quando, um ou outro concordava com ligeiros acenos de cabeça com as palavras da rainha-mãe. Já haveis pensado em alguma candidata para futura rainha de Castela, Senhora?, perguntou Maurício, o bispo de Burgos.
Creio ter encontrado a candidata ideal, Sua majestade deve casar com uma princesa de sangue real, mas não pode ter relações de parentesco com ela, pois, e eu sei muito bem do que falo, um casamento desse tipo poderia ser anulado pelo papa. A candidata que elegi é a princesa Beatriz da Suávia, a filha do imperador Filipe. O seu primo e custódio, o actual imperador Frederico, está de acordo com o casamento. Haverá que ir buscar a noiva, supôs o bispo Maurício. Com efeito, senhor bispo. E para tal, pensei no homem adequado. De quem se trata? De vós, bispo Maurício. Vós haveis estudado em França, viajado pela França e pela Alemanha, e conheceis o imperador. Sois um homem equâmine e um ministro de Deus. Além disso, como bispo de Burgos, corresponder-vos-á o privilégio de celebrar o casamento. Não vos parece, Senhores? Os nobres e cidadãos assistentes à cúria concordaram de imediato. Mas, Senhora, eu..., bem, farei o que ordenais. Nesse caso, preparai a vossa viagem. Quando passar este cru Inverno, partireis para a Alemanha. Entretanto, escreveremos ao imperador Frederico para que disponha o necessário e guarde a prima com a diligência que o tutor da futura rainha de Espanha o deve fazer.
Henrique de Ruão ingressou na escola catedralícia de Chartres pouco tempo antes de cumprir os nove anos. Os bispos de Chartres haviam conseguido que a sua escola tivesse tanto prestígio como o que tinham alcançado as universidades que já funcionavam em algumas cidades europeias. Acorriam à escola de Chartres estudantes ávidos de conhecer disciplinas que só ali dispunham dos mestres adequados. Na escola estavam orgulhosos dos seus mestres, sobretudo de Bernardo, um dos fundadores, que tinha criado uma frase que os alunos aprendiam de memória no primeiro dia da sua aprendizagem: nós, os homens modernos, somos apenas anões sobre os ombros de gigantes. Esta frase resumia melhor, que nenhuma outra, o espírito docente da escola. Significava que, para compreender o homem e o mundo, era necessário apoiar-se nos ensinamentos dos grandes sábios, sobretudo dos antigos. E entre eles, o mais reconhecido e estudado era o filósofo grego Platão, e o texto oficial da escola catedralícia era a sua obra Timeo. Nesse livro, o filósofo ateniense sustentava que o mundo fora criado a partir da geometria e do poder do número, e não pela luz. Os alunos de Chartres aprendiam que a última realidade, e portanto a mais perfeita, da criação eram os números matemáticos e, em consequência, as formas geométricas que estes sugeriam; o homem apenas via as sombras da verdadeira realidade. Toda a natureza derivava de combinações numéricas e tudo era, em suma, geometria». In José Luís Corral, O Número de Deus, 2004, O Segredo das Catedrais Góticas, Planeta Editora, Lisboa, 2006, ISBN 972-731-185-7.
                                                                                           
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O Número de Deus. José Corral. «Afonso IX de Leão fracassou ao tentar conquistar a cidade de Cáceres, uma fortaleza muçulmana na fronteira sul do reino, protegida por sólidas muralhas que foram cercadas inutilmente…»

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O Algarismo e o Número
«(…) Ora, ora, com que então querias escapar-te? Arnal Rendol tinha surpreendido Teresa. Pai, pai, a menina abraçou-se ao seu progenitor. Viste a quantidade de luz? Sim, claro que vejo, minha pequena. Mas para além de muita luz, hoje também há muito frio. Vamos para casa, não quero que adoeças. Arnal pôs a filha no chão e regressaram ambos a casa enquanto a criada continuava a expirar baforadas de alento que desenhavam nuvens de vapor quente na gélida manhã burgalesa. A cor azul do céu é como a que tu pintas nas abóbadas das igrejas. Porque é que o céu é azul, pai?, perguntou Teresa, enquanto Arnal avivava o lume na lareira da cozinha, acrescentando umas achas às brasas do borralho. Porque é a cor mais bonita, minha filha, por isso é também a mais difícil de conseguir. Então, Deus é azul?, perguntou Teresa. Não, Deus é como o homem. Ele quis que fôssemos perfeitos e deu-nos a liberdade de construir, esse livre-arbítrio proporcionou que alguns homens se tenham extraviado do bom caminho.
E as mulheres também são como Deus? O sábio Aristóteles, um filósofo que viveu no país da Grécia há muitos anos, dizia que a mulher é um homem imperfeito... Bem, eu não acredito nisso, mas há muitos homens que dizem que é assim. Na terra de onde a tua mãe e eu viemos, homens e mulheres acreditávamos que éramos bons e iguais, chamávamo-nos os perfeitos, mas outros homens consideraram que estava mal e perseguiram-nos por isso. Eram homens maus? Sim., muito maus. Diziam que a morte era a única coisa que merecíamos, por isso tivemos que sair de lá. Mas Deus não vos defendeu? Sim, fê-lo; protegeu-nos e conseguiu que a tua mãe e eu fugíssemos de lá. Depois nasceste tu... E a minha mãe? Morreu para te dar a vida, por isso deves gostar sempre dela. A mãe era azul? Sim, meu amor, a mãe era azul.
Afonso IX de Leão fracassou ao tentar conquistar a cidade de Cáceres, uma fortaleza muçulmana na fronteira sul do reino, protegida por sólidas muralhas que foram cercadas inutilmente durante vários meses. Ferido no seu orgulho, o aguerrido monarca leonês voltou a sua ira contra Castela e, aproveitando o fim da trégua acordada em finais do ano anterior, atacou o reino do filho. Mas de novo os castelhanos responderam com a mesma contundência que na última ocasião e não coube outro remédio ao rei de Leão do que acordar uma nova paz honrosa.
Durante o Inverno, dona Berenguela tramara toda uma rede de adesões em torno da figura do filho. O jovem mas decidido rei Fernando era um soberano simpático, de carácter enérgico e valente, temente a Deus e de vontade firme. Herdara a coragem e a resolução de ânimo do pai, o rei Afonso de Leão, com quem vivera até pouco antes de ser coroado rei de Castela, e o ânimo e a inteligência da mãe, Berenguela, e, através dela, a energia transbordante de Henrique II de Inglaterra e de Leonor de Aquitânia, os seus afamados bisavós.
Consciente de que Castela não claudicaria ante o exército leonês, de que Fernando se tinha sentado como soberano de Castela e contava com o apoio da grande maioria dos concelhos, universidades e nobres do reino, Afonso de Leão optou por acordar uma paz definitiva com o filho e a antiga esposa. O tratado de paz foi assinado na vila de Toro na colegiada construída segundo o velho estilo ao romano, no dia 26 de Agosto de 1218. Berenguela e Fernando tiveram de entregar ao leonês onze mil maravedis. A paz estava a sair cara, mas a bonança económica do reino permitia aos castelhanos comprar a estabilidade necessária para crescer como nação naqueles tempos tão incertos.
Dona Berenguela não se separara um único instante do seu filho Fernando desde que conseguira convertê-lo em soberano de Castela. A rainha-mãe tinha o firme carácter da sua avó, Leonor de Aquitânia, e tinha-se tornado tão necessária ao filho que participava em todas as cúrias, para as quais o rei convidava os mais notáveis homens do reino para o assessorarem nos assuntos relativos ao governo dos seus Estados. Berenguela ocupava um dos lugares principais na cúria régia e as suas opiniões eram sempre respeitadas e tidas em conta por todos». In José Luís Corral, O Número de Deus, 2004, O Segredo das Catedrais Góticas, Planeta Editora, Lisboa, 2006, ISBN 972-731-185-7.
                                                                                           
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sexta-feira, 31 de março de 2017

O Número de Deus no 31. José Corral. «Vamos, Teresa, entra para casa. Está muito frio, ordenou-lhe a criada. Não; quero ficar aqui a brincar com a neve»

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O Algarismo e o Número
«(…) O primeiro nevão de Inverno cobriu Burgos com um manto branco de mais de um palmo de altura. A pequena Teresa saiu para a rua, excitada pelo aviso da criada. Ao abrir a porta, um brilho de luminosa claridade inundou-lhe os olhos. O Sol brilhava, amarelo, no meio de um céu límpido de um azul intenso e puro, enquanto a neve branquíssima reflectia os seus raios com tanta força e fulgor que feria a vista. Entre o azul-celeste e o branco da neve, as casas ocres da cidade pareciam como que desenhadas pela mão especializada de um delicado miniaturista.
Teresa tinha agarrado entre as suas mãozinhas de criança um bom punhado de neve quando ouviu o som inconfundível da trombeta do saião (na Idade Média, o funcionário da justiça que fazia as citações e executava os embargos) a anunciar um pregão. À esquina da rua, o pregoeiro avisou aos gritos que os reis de Espanha e de Leão Fernando e Afonso, tinham acordado uma trégua que duraria até à Páscoa da Primavera seguinte. A criada, que saíra atrás de Teresa, suspirou aliviada. Graças à Virgem e ao seu filho Jesus Cristo, o nosso rei Fernando assinou a paz com o pai, o rei de Leão. Este Inverno será menos cruel. Dona Berenguela conseguira. Após várias semanas de intensas conversações, a mãe do rei Fernando obtivera uma trégua do seu antigo marido, o rei Afonso de Leão. Em troca tivera de ceder ao leonês a possessão de várias praças fronteiriças, garantira-lhe que não agiria contra as propriedades e direitos dos Lara e entregara-lhe uma quantia considerável em dinheiro. Mas, em contrapartida, assegurara a tranquilidade e a paz necessárias para sentar definitivamente o seu filho Fernando no trono de Castela e ganhar tempo para atrair alguns grandes do reino, ainda receosos de que fosse o filho do rei de Leão, nascido de um casamento anulado pela Igreja, a reinar em Castela.
O reino de Castela, após a euforia que tudo contagiou pela decisiva vitória conseguida em 1212 na Batalha das Navas de Tolosa contra o império almóada, atravessava momentos muito delicados devido à ambição de Afonso de Leão. Aquela vitória, conseguida graças à coligação de castelhanos, aragoneses e navarros, surpreendera o rei de Leão na comarca de Babia, para onde se costumava retirar para praticar a caça com falcão. Cinco anos depois da vitória, ainda havia nobres leoneses que recriminavam o seu monarca por não ter estado presente com as suas tropas naquela crucial batalha, cuja campanha prévia fora predicada pelo papa Inocêncio III como uma cruzada.
Vamos, Teresa, entra para casa. Está muito frio, ordenou-lhe a criada. Não; quero ficar aqui a brincar com a neve. Vamos para dentro, o teu pai vai ficar muito zangado se te constipares e adoeceres. Não tenho frio. Vamos, para dentro, já disse. Teresa desatou a correr pela rua cheia de neve perseguida pela criada. A filha do mestre Arnal Rendol ria e tornava a rir ante a lentidão da criada, incapaz de a alcançar por entre a neve. Umas mãos poderosas agarraram Teresa e levantaram-na no ar». In José Luís Corral, El Número de Deus, 2004, O Número de Deus, O Segredo das Catedrais Góticas, tradução de Carlos Romão, Planeta Editora, Lisboa, 2006, ISBN 972-731-185-7.

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quinta-feira, 16 de março de 2017

O Número de Deus. José Corral. «Construímos a representação do universo, não um universo opaco, mas sim transparente, cheio de luz, e Deus faz-se presente neste templo a partir dessa mesma luz»

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O Algarismo e o Número
«(…) O bispo de Chartres estava furioso. Entrou na catedral, em cujas abóbadas continuavam a trabalhar vários operários que estavam a cobri-las com o telhado, gritando como um possesso. Chamava em altos gritos o mestre João Ruão, que subira ao alto dos andaimes para dirigir a colocação de algumas peças do telhado. Daquela altura quase não se conseguiam ouvir os gritos do prelado, mas um operário trepou lá a cima à procura do mestre. Mestre João, o bispo está lá em baixo. Entrou na catedral exigindo a vossa presença imediata. Sabes o que quer? Não, mestre; apenas me ordenou que subisse para vos vir buscar de imediato; parece muito zangado. Quer falar convosco sem demora. João disse ao irmão Luís para continuar a dirigir o trabalho e desceu até ao chão pelos andaimes. No meio da catedral, precisamente debaixo da chave da abóbada do cruzeiro, o bispo de Chartres esperava por João. Eminência! João aproximou-se do prelado, inclinou-se ante a sua presença e pegou na mão para lhe beijar o anel episcopal, um enorme aro de ouro em que brilhava, cravado, um fabuloso rubi escarlate. Disseram-me que me procurais. Assim é. Imagino que estais inteirado da notícia, disse o bispo, dando como assente que João devia saber. A que notícia vos referis, Eminência? A qual há-de ser, mestre, a que toda a gente comenta: que o bispo de Reims ordenou que a sua catedral seja a maior do mundo.
Havia sete anos que tinham começado as obras daquele templo e o bispo dera instruções ao mestre director para que a catedral de Reims fosse a maior de França. Não era em vão, ali eram coroados os seus reis. Bem, Eminência, a vossa está quase acabada, já não a podemos fazer maior, lamentou-se João. Primeiro, Paris, a seguir Amiens, agora Reims. Superar-nos-ão todos, todos. Qualquer bispo vai querer construir uma catedral maior do que a nossa... Mas, acredite-me, Eminência, que nenhuma será tão bela; trabalharam aqui os melhores artistas de França. E garanto-vos que não é apenas uma questão de tamanho, como também de proporção e harmonia. Reparai, Eminência. A vossa catedral está construída seguindo os mais belos modelos das relações matemáticas. Esta catedral cresceu conforme a proporção das medidas humanas e vossa Eminência já sabe que o homem foi criado por Deus à sua imagem e semelhança.
Olhai para a abside, disse João apontando para a cabeceira. Ali está a cabeça do homem, aqui, no centro do cruzeiro, está o coração, no transepto os braços e na nave as pernas. O homem como medida de todas as coisas à imagem e semelhança de Deus. Além disso, Eminência, está a luz. Construímos a representação do universo, não um universo opaco, mas sim transparente, cheio de luz, e Deus faz-se presente neste templo a partir dessa mesma luz. Esta igreja torna patente o esplendor de Deus, a sua verdade, com tudo aquilo que faz formosa a natureza, mas que dá firmeza à razão. Esta catedral representa a fé na natureza e no homem, uma fé em Deus, a quem coloca no centro do universo, enquanto o homem ocupa o centro da natureza, o lugar que lhe corresponde por vontade divina. Tudo isso já eu sei, mestre João, mas as catedrais dos nossos rivais serão maiores, mais altas...
Nesse caso, também essa será a vontade de Deus, Eminência. O bispo foi-se embora mais calmo. O que queria esse fátuo presunçoso?, pergunto Luís, que acabava de descer do telhado, ao irmão João. Está aborrecido porque noutras dioceses estão a construir-se catedrais maiores do que esta. Bom, isso é inevitável. Haverá sempre alguém disposto a superar o que já foi feito; as coisas costumam suceder assim. É verdade, irmão, ontem recebi uma visita. Era um enviado do bispo de Bourges. Ali também estão a construir uma catedral. Um dos mestres do tribunal que me examinou deu-lhe o meu nome. Ao que parece, agradou-lhe muito a ideia de uma cabeceira com capelas destacadas para o exterior, de planta semi-circular, e quer que para lá vá como primeiro-ajudante do mestre da obra. Não te importas? Claro que não, irmão. És mestre arquitecto, um dos melhores que conheço. De mim já não podes aprender nada. Agora és tu quem deve ensinar, se bem que sem nunca deixares de aprender». In José Luís Corral, El Número de Deus, 2004, O Número de Deus, O Segredo das Catedrais Góticas, tradução de Carlos Romão, Planeta Editora, Lisboa, 2006, ISBN 972-731-185-7.

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sábado, 17 de dezembro de 2016

O Número de Deus. José Corral. «O bispo Maurício era um homem de grande influência no reino. Amigo e assessor da rainha Berenguela, viajara até França e, em Paris, onde estudara Filosofia, Teologia…»

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O Algarismo e o Número
«(…) Tão difícil como esperava. Interrogaram-me sobre as teorias de Roberto Grosseteste, e creio que os deixei impressionados. Há uns meses pude estudar o seu tratado sobre a expressão matemática do pensamento e os seus comentários e correcções ao sistema de observação e experimentação de Aristóteles. Durante mais de uma hora dissertei sobre a relação entre a matemática e a razão e a necessidade de conjugar ambas, na altura de planificar um edifício. E as provas práticas? Bem, essas foram, pelo menos para mim, as mais fáceis, já sabes que sou muito hábil a manejar o martelo e o escopro. Tive que talhar uma imagem de São Pedro, e para tornar as coisas mais difíceis disseram-me que tinha que ser de vulto redondo, totalmente isolada. Depois encarregaram-me de desenhar a planta de uma catedral nova. Tracei-a com uma girola simples, com cinco capelas semicirculares, um cruzeiro de uma só nave e três naves no tramo dos pés. Bom, simples mas eficaz. Não o penses, irmão. Tive de resolver alguns problemas da estrutura do cruzeiro, pois aumentei a nave do transepto destacando-o muito na planta, o que me obrigou a introduzir uma inovação técnica nessa zona do templo. E sobre a luz, perguntaram-te sobre a luz? Nem uma única palavra; mas, tal como me tinhas aconselhado, falei-lhes do que ensinaste sobre a importância da luz e ficaram muito surpreendidos. A luz é um sinal de Deus, disse o mestre João. E Deus está presente no mundo através da luz. Nós construímos catedrais, mas Deus é o único que pode criar a luz. A luz torna possível a beleza do mundo, a harmonia da natureza. Nós, os arquitectos, recebemos um dom extraordinário de Deus: podemos fazer com que a luz ilumine a pedra, que a ressalte; somos os únicos capazes de captar a luz no interior de uma catedral e dar-lhe vida. Entendes, filho? Henrique olhou entusiasmado para o pai. Não, pai. Não tem importância. Cada coisa a seu tempo, a seu tempo.
Um manto de pérolas de orvalho tinha matizado os campos de Burgos. Arnal Rendol madrugara para ir ao velório do mestre Ricardo, o construtor da igreja abacial do mosteiro feminino de Las Huelgas, um dos principais do reino de Castela. O mestre Ricardo chegara de Paris havia quinze anos e tinha trabalhado durante todo esse tempo na igreja abacial, segundo os cânones do novo estilo. Fundado em 1180 pelos reis Afonso VIII e sua esposa Leonor de Inglaterra, filha de Henrique II e de Leonor de Aquitânia, o mosteiro de Las Huelgas só admitia noviças de sangue real ou filhas da mais alta nobreza; fora construído com o propósito de o converter em panteão dos reis de Castela. A abadessa era tão poderosa que apenas dependia hierarquicamente do papa e do abade de Cîteaux. O mestre Ricardo tinha contratado o mestre Arnal para pintar uns frescos em Las Huelgas, e graças a esse trabalho tinham-lhe surgido muitos outros por toda a comarca de Burgos. O bispo Maurício também se deslocara a Las Huelgas, pois havia já alguns anos que acalentava a ideia de construir uma nova catedral em Burgos, que substituísse a que o rei Afonso VI fundara havia mais de um século. O bispo Maurício era um homem de grande influência no reino. Amigo e assessor da rainha Berenguela, viajara até França e, em Paris, onde estudara Filosofia, Teologia e Leis, entusiasmara-se com as obras da Catedral de Notre-Dame. Desde que fora nomeado bispo de Burgos no ano de 1213, ansiava construir na sua cidade uma catedral como aquela, que crescia até ao céu na ilha chamada La Cité, no coração de Paris, que o Sena rodeava como os braços de um amante. O bispo Maurício tinha pensado que o mestre Ricardo poderia ser o arquitecto adequado para construir a sua nova catedral, mas a morte repentina do mestre francês estragara-lhe os planos.
Bom-dia, mestre Arnal. Foi uma grande perda, disse o bispo Maurício cumprimentando o pintor de frescos. Assim é, senhor Bispo. O mestre Ricardo era um bom homem. Eu tinha pensado nele para dirigir as obras da nova catedral que tenho em mente construir, se Deus quiser, para maior glória do Redentor e na nossa mãe, a Virgem Maria. Vós trabalháveis com ele, acaso seríeis capaz de...? Não, senhor bispo Maurício, não. Eu só sei pintar; não tenho capacidade nem preparação para dirigir uma obra de tal envergadura, apressou-se a responder Arnal. Bem, nesse caso não restará outro remédio senão procurar um arquitecto em França; ali há muitos e muito bons. Ponderais na verdade uma nova catedral? Há tempo que dou voltas à ideia. Até agora não foi possível por príncipe Henrique ser menor de idade e pelos problemas sucessórios, mas com Fernando sentado no trono e a sua mãe, Berenguela, a seu lado, creio que chegou o momento de pensar nisso a sério. Isso seria uma consecução extraordinária, Eminência. Uma nova catedral, mestre Arnal. Uma igreja que glorifique o nome de Deus e o de sua mãe, que seja o orgulho do reino de Castela e da vila de Burgos. Ah, quantas noites sonhei com ela! Uma catedral à semelhança das que estão a construir em Paris ou em Chartres. Há já quatro anos que lá estive e ainda recordo impressionado como ascendiam até ao céu os seus muros, as suas abóbadas e os seus arcos ligeiros e graciosos que, construídos com pedras, pareciam sustentados pelo vento. Eu limito-me a pintar paredes, dom Maurício». In José Luís Corral, El Número de Deus, 2004, O Número de Deus, O Segredo das Catedrais Góticas, tradução de Carlos Romão, Planeta Editora, Lisboa, 2006, ISBN 972-731-185-7.

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sexta-feira, 4 de março de 2016

O Número de Deus. José Corral. «O bispo disse-me que te reservará um lugar na escola. Aí aprenderás Matemática, Geometria, Filosofia e Latim. Vou fazer de ti um grande arquitecto»

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O Algarismo e o Número
«(…) A nova arquitectura introduziu o arco ogival de dois centros, de forma pontiaguda, e o arcobotante. Graças a estas duas soluções técnicas, foi possível abrir aqueles grandes vãos e que o empuxo das abóbadas de pedra já não fosse suportado directamente pelos muros, mas sim pelos contrafortes, nos quais os arbotantes descarregavam a pressão, até então sustentada pelas paredes. O novo estilo garantiu o triunfo da luz, ganhou a claridade para o interior das igrejas e possibilitou a construção de naves tão altas como nunca até então se tinha conseguido no ocidente cristão.
Henrique brincava com outros rapazes da sua idade no ribeiro que corria no sopé da colina onde se apinhava o casario de Chartres. Os rapazitos costumavam passar as últimas horas da tarde perto do moinho, aproveitando os momentos prévios ao pôr do Sol, momento em que, com a chegada da noite, corriam para se refugiarem nas suas casas. O jovem Henrique era filho do mestre João Ruão, que havia vários anos dirigia a obra da nova catedral de Chartres. Após o incêndio de 1194 e a destruição da velha catedral estilo românico, o bispo e o cabido de Chartres tinham decidido construir uma nova, no triunfante estilo da luz. Aqueles anos de fins do século XII eram na verdade muito prósperos; havia várias décadas que não se tinha uma má colheita e, Verão após Verão, as rendas das dioceses aumentavam sem parar. Consequentemente, que melhor destino para as riquezas obtidas em beneficio de Deus do que dedicá-las à construção de um templo à sua mãe? Henrique chegou a casa justamente quando o Sol acabava de se ocultar por detrás da linha crepuscular do horizonte. O pai estava a lavar as mãos num pequeno alguidar de barro cinzento enquanto a mãe e uma criada faziam o jantar: talhadas de toucinho guisado acompanhadas com creme de cebola e nabos, pão de nozes, cerveja e queijo. Amanhã vamos começar a colocar as chaves das abóbadas do cruzeiro, comentou o mestre João. A construção da catedral está a ir depressa, disse-lhe a mulher. Sim, muito mais rápido do que tínhamos pensado. As rendas do cabido são em grande quantidade e o bispo está empenhado em rezar a primeira missa quanto antes. Ainda esta manhã me disse que, se precisar de mais operários, os contrate. Mas não são precisamente operários o que faz falta, mas sim artistas. Há tantas obras por todo o lado que se torna difícil encontrar escultores, canteiros e vidraceiros cujo trabalho seja de qualidade. Paris oferece muito dinheiro aos melhores, e Reims e Amiens não lhe ficam atrás. E depois está a Inglaterra, cujos bispos se empenharam em construir nas principais sedes episcopais desse reino catedrais que rivalizem com as de França e até as superem.
O mestre João sentou-se à mesa. Henrique olhou para ele com admiração e esperou que benzesse o jantar. Enquanto o pai o fez, o miúdo pegou na colher de madeira e começou a comer a carne guisada. Amanhã vais comigo à obra. Eu, pai?, estranhou Henrique. Claro que tu. Tens sete anos e já vai estando na altura de começares a trabalhar no ofício. Durante o próximo ano aprenderás os rudimentos que qualquer aprendiz deve conhecer. A maioria dos meus aprendizes começa a trabalhar aos doze ou treze anos, mas tu és filho do mestre e vais fazê-lo muito antes. Dentro de um par de anos irás para a escola da catedral. O bispo disse-me que te reservará um lugar na escola. Aí aprenderás Matemática, Geometria, Filosofia e Latim. Vou fazer de ti um grande arquitecto; espero que não me desiludas. Ainda não tinham acabado de jantar quando bateram à porta. O mestre João indicou à mulher que abrisse a porta; era o irmão dele que acabara de chegar de Paris. Irmão, irmão, consegui, consegui! O exame foi muito duro e difícil, mas aqui está, aqui o tenho. Luís, o irmão mais novo do mestre João Ruão, acabava de conseguir o título de mestre-de-obras num exame efectuado perante um tribunal de mestres em Paris. Logo que recebera o diploma, partira a galope para Chartres para comunicar a boa notícia ao irmão mais velho, sob cujos ensinamentos se tinha formado como arquitecto. Parabéns, irmão, nunca duvidei que o conseguirias, replicou João. Aqui o tenho!, reiterou Luís mostrando orgulhoso o pergaminho em que o tribunal de cinco mestres lhe havia concedido a capacidade para dirigir a construção de edifícios. Olha, sobrinho, olha. Um dia também tu terás um parecido a este. Ainda sobra alguma coisa para jantar, cunhada? Com a pressa, até me esqueci de comer. Claro; vamos, senta-te, vou arranjar-te carne e queijo. E cerveja; há que celebrar. É melhor que seja vinho, disse João. Como foi o exame?» In José Luís Corral, El Número de Deus, 2004, O Número de Deus, O Segredo das Catedrais Góticas, tradução de Carlos Romão, Planeta Editora, Lisboa, 2006, ISBN 972-731-185-7.

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sexta-feira, 15 de janeiro de 2016

O Algarismo e o Número. O Número de Deus. José Corral. «A velha catedral de Chartres tinha ardido na quente noite de 10 para 11 de Junho de 1794. Do terrível incêndio só se salvara a cripta, respeitada na nova obra, na qual se encontrava uma das mais preciosas relíquias daquele tempo…»

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O Algarismo e o Número
«(…) O Outono tingira de ocre-amarelento os dourados campos de trigo de Chartres. Empoleirado sobre o andaime, o mestre João de Ruão apontava a um dos oficiais da obra certos detalhes que deviam, ser corrigidos numa das abóbadas da nave maior da catedral. A velha catedral de Chartres tinha ardido na quente noite de 10 para 11 de Junho de 1794. Do terrível incêndio só se salvara a cripta, respeitada na nova obra, na qual se encontrava uma das mais preciosas relíquias daquele tempo: a camisa que a virgem Maria usava sobre o seu sagrado corpo imaculado no dia em que deu à luz o seu filho Jesus Cristo. Quando as chamas se apagaram e as brasas do incêndio diminuíram de intensidade, os consternados habitantes de Chartres puderam entrar nas ruínas da sua catedral e descobriram o feito milagroso da conservação intacta da sua mais venerada relíquia. Em seguida correu por toda a cidade o rumor de que aquele era um claro sinal que a virgem enviava a Charles. sem dúvida, com aquele indício, a mãe do Redentor queria dizer que era necessário construir uma nova catedral em sua honra, um grande templo que estivesse à altura da mulher que tinha dado à luz o filho de Deus; o novo templo teria de ser o da luz, da claridade e do calor. Chartres não era uma cidade demasiado povoada, nem demasiado importante, nem sequer era demasiado rica. Não podia competir com a grandiosidade da populosa Paris, nem com a magnificência da orgulhosa Reims, onde eram coroados os reis de França, nem com a riqueza estratégica de Amiens, mas estava rodeada por uma imensa planície pela qual se estendiam fertilíssimos campos até para lá do que a vista alcançava, e os seus cereais aprovisionavam meia França de pão e rações. Na Primavera, os campos semeados de trigo, cevada e aveia reverdeciam como um interminável tapete verde que, em princípios de Junho, começavam a mudar para tons de dourados e amarelos.
A cidade de Chartres não tinha o prestígio nem a fama das primeiras cidades de França, mas, no alto da colina onde estava assente, guardava um mistério como nenhuma outra cidade podia ostentar: existia a crença de que em todo o terreno em que se erguia a catedral houvera desde antes que existisse memória no género humano um santuário sagrado em que os homens e as mulheres daquela região adoravam um deus peculiar. Não se tratava de um deus qualquer; não era mais um dessa longa centena de divindades pagãs que o cristianismo havia já séculos conseguira arrincoar e converter em vagas recordações ou em demónios; mas sim o rutilante deus da luz, a divindade representada pelo mesmíssimo sol glorioso que todos os amanheceres se inundava de luminosidade e triunfava, dia após dia, sobre a escuridão e as trevas. Uma antiquíssima tradição sustentava que o próprio lugar onde se erguia a catedral era o mais sagrado da terra, uma espécie de coração palpitante em pleno centro do mundo, um ónfalos onde confluíam poderosíssimas forças telúricas e assombrosas correntes mistagógicas. Na altura em que ardeu a velha catedral de Chartres, havia várias décadas que em França se estava a impor uma nova forma de construir os grandiosos templos catedralícios, as imponentes basílicas e as faustosas igrejas abaciais. Foi Suger, o influente abade do mosteiro de São Dionísio, quem, em meados do século XII, proclamou a nova doutrina do triunfo da luz e a necessidade de construir os templos cristãos tendo em conta o valor da claridade face à penumbra. Numa das suas obras deixou escrita uma mensagem cifrada que só alguns iniciados eram capazes de interpretar; o abade Suger dizia que brilhantemente reluzia aquilo que multiplicava o esplendor e que brilhante era o trabalho nobre através do qual resplandecia a nova luz.
Para Suger, Cristo era a nova luz que iluminara o mundo após uma longa época de trevas, o sol triunfante e revivido que alumiava a alma dos seres humanos e guiava os seus corações até à verdade. E como as igrejas eram a casa de Deus, cada templo devia ser a moradia da luz. O abade de São Dionísio ansiava poder captar a luz, ou pelo menos construir um templo em que a luz fosse a protagonista e tudo banhasse. Com as velhas técnicas da arquitectura isso não era possível. Para poder suportar as pesadas abóbadas de pedra sem que viessem estrepitosamente abaixo, primeiro era necessário levantar paredes grossas e maciças nas quais se podiam abrir grandes vãos por onde a luz penetrasse em caudais e iluminasse o interior do templo como Suger ansiava. Para o abade de São Dionísio era necessário, imprescindível, abrir as paredes e rasgá-las de cima a baixo com grandes janelas para através delas captar a luz do Sol e deixar que esta inundasse os santuários cristãos. Suger indicou aos seus mestres de obra que procurassem as soluções técnicas necessárias à sua demanda de luz, e os mestres responderam ao repto com eficácia». In José Luís Corral, El Número de Deus, 2004, O Número de Deus, O Segredo das Catedrais Góticas, tradução de Carlos Romão, Planeta Editora, Lisboa, 2006, ISBN 972-731-185-7.

Cortesia de Planeta Editora/JDACT

sexta-feira, 30 de outubro de 2015

O Algarismo e o Número. O Número de Deus. José Corral. «Claro que és mais um dos meus aprendizes, mas ainda és demasiado pequena para algumas coisas. Vá, obedece. Ricardo agarrou Teresa pela mão, que saiu da catedral a resmungar»

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O Algarismo e o Número
«(…) No entanto, a ameaça do leonês não era o único problema de Castela. Desde que Fernando fora coroado rei em Valladolid, Álvaro Nuñes Vara, que durante a menoridade do rei Henrique detivera o poder, não tinha parado de conspirar contra o novo rei. Encorajado, Álvaro tinha desafiado a combater com ele numa justa todos os nobres castelhanos que tinham jurado obedecer a Fernando. A sua tentativa foi vã e acabou derrotado e aprisionado. Fernando deveria ganhar a nobreza. Em finais de 1217, Berenguela podia sentir-se satisfeita. O seu filho Fernando era rei de Castela, as famílias mais poderosas, como os Girón, os Haro ou os Telles, e os grandes concelhos urbanos do reino, como Burgos, Palência, Valladolid, Toledo, Ávila ou Segóvia, tinham-no aceitado unanimemente, e o único dissidente, o senhor de Lara, estava em bom recato. O caminho de Fernando para construir a grande Castela que dona Berenguela sonhara para o filho estava livre de obstáculos.
A pequena Teresa tinha sentido medo, um dos cónegos da catedral burgalesa irrompera no templo anunciando aos-gritos que o rei de Leão se aproximava com um poderosíssimo exército disposto a arrasar a cidade e a degolar todos quantos nela moravam se não se submetessem ao seu domínio. Entre os aprendizes da oficina de pintura de Arnal Rendol levantara-se uma agitação ao ouvirem o exaltado cónego que ameaçava com as mais terríveis calamidades se Afonso de Leão entrasse em Burgos. Arnal falou com o pessoal da oficina, que estava afadigado em ultimar o grande fresco da Visitação da Virgem. Se o que este cónego disse é verdade, o nosso trabalho pode estar a chegar ao fim. Em qualquer caso, fomos encarregados de realizar este fresco e eu, pelo menos, penso acabá-lo caso seja possível. Mas no que vos respeita, aquele que deseje ir para casa pode fazê-lo. Os que quiserem ficar comigo a terminar o espaço caiado hoje... Ficamos todos, interveio Ricardo, o primeiro-oficial da oficina. Não é assim?
O resto dos oficiais e aprendizes assentiram com a cabeça. Agradeço-vos a todos. Tu, Ricardo, disse ao oficial, pega em Teresa e leva-a para a minha casa. Diz à criada que feche bem a porta e que não saiam de lá enquanto eu não voltar. Eu quero ficar contigo, pai, protestou a menina. Disseste que seria mais um dos teus aprendizes. Já ouviste o que eu disse, Teresa. Claro que és mais um dos meus aprendizes, mas ainda és demasiado pequena para algumas coisas. Vá, obedece. Ricardo agarrou Teresa pela mão, que saiu da catedral a resmungar. Quando regressou, o primeiro-oficial informou que os leoneses tinham acampado muito perto de Burgos, mas que toda a cidade estava do lado de Fernando e de dona Berenguela, e que os defensores tinham jurado não se render. É curioso, esta cidade foi povoada por franceses e pelos seus descendentes, por bascos e judeus e ainda restam mesmo alguns sarracenos, mas nos momentos mais perigosos todos se sentem, antes de tudo, castelhanos. Bom, reflectiu Arnal, nós nada podemos fazer. Voltemos ao trabalho, esta cal não se vai manter eternamente húmida. Quando o rei de Leão se retirou para os seus domínios, todos respiraram aliviados. Fernando conseguiu ganhar a estima e respeito dos burgaleses». In José Luís Corral, El Número de Deus, 2004, O Número de Deus, O Segredo das Catedrais Góticas, tradução de Carlos Romão, Planeta Editora, Lisboa, 2006, ISBN 972-731-185-7.

Cortesia de Planeta Editora/JDACT

sexta-feira, 18 de setembro de 2015

O Algarismo e o Número. O Número de Deus. José Corral. «O rei de Leão instalou o acampamento a duas horas de caminho de Burgos. Sobre urna colina que se podia contemplar desde a várzea do rio Arlanzón e das torres do castelo burgalês, Afonso implantou os seus estandartes»

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O Algarismo e o Número
«(…) Sou eu o legítimo herdeiro de Casteia, senhores bispos, disse-lhes. Morto o jovem rei Henrique, meu primo, a coroa castelhana corresponde sem dúvida a mim. Haveis coroado como rei um rapazote nascido de um matrimónio que Sua Santidade Inocêncio III convenientemente anulou. O rapaz a quem agora chamais rei não tem legitimidade para o ser. Eu sou o herdeiro do meu avô, o imperador Afonso, rei de Castela e de Leão. Mas, Majestade, interveio Maurício, Fernando é vosso filho. Vós, senhor bispo de Burgos, sois ministro da Igreja, e o vosso sumo pontífice, a seu momento, disse, há já treze anos, que o meu casamento com a minha prima Berenguela era nulo de pleno direito e, portanto, são nulas todas as suas consequências; o infante Fernando, o rei de Leão pôs especial ênfase na palavra infante, é mais uma delas. Pedimo-vos que reflictais, senhor. Nós, os castelhanos, aclamámos a proclamação de Fernando, aceitámo-lo como legítimo soberano e os nossos ricos-homens juraram defender o seu rei com a própria vida. Em nome de Deus e da sua santa mãe, a Virgem Maria, vos pedimos que não provoqueis um confronto entre os nossos reinos, que só acarretaria morte e destruição mútua.
Enquanto os dois prelados entretinham Afonso de Leão, Fernando e Berenguela cavalgavam a todo a pressa para Burgos, no coração de Castela, onde tinham planeado fazer frente ao pai e antigo esposo. Burgos era uma florescente cidade em plena expansão urbana, reclinada sobre a encosta de um monte dominado por um poderoso castelo, à sombra do qual crescia. Havia pouco mais de um século, e graças ao Caminho Francês de Compostela, que atravessava a cidade, tinham-se ali instalado dezenas de comerciantes e artesãos que haviam contribuído para o seu desenvolvimento. Instalados na fortaleza, Fernando e Berenguela foram informados por um correio de que os bispos não tinham logrado convencer Afonso a desistir da ideia de atacar Castela, e avançava para Burgos à frente das suas forças.
O rei de Leão instalou o acampamento a duas horas de caminho de Burgos. Sobre urna colina que se podia contemplar desde a várzea do rio Arlanzón e das torres do castelo burgalês, Afonso implantou os seus estandartes. O Leão rampante, símbolo imemorial do velho reino, tremulava, desafiante, com o vento de oeste que arrastava etéreos odores de humidade atlântica. Alguns legados do rei leonês cavalgaram até Burgos demandando a rendição da cidade e a submissão à sua soberania. Afonso julgara que os castelhanos claudicariam de seguida ante a simples presença do seu exército e que não moveriam um dedo nem arriscariam a vida para defender os direitos de uma mulher e de um rapazote de dezassete anos.
Não obstante, a resposta dos castelhanos foi tão contundente como inesperada. A inteligente Berenguela não se limitara a retirar para Burgos; na sua retirada tinha ido obtendo apoios de nobres, vilas e cidades de Castela, e lograra pôr do seu lado a maior parte deles. Ninguém em Castela desejava ver-se submetido ao poder do rei de Leão, pois estavam convencidos que entregaria o governo do reino aos seus ambiciosos nobres. O alcaide de Burgos respondeu à demanda de capitulação do rei leonês asseverando que toda a Castela tinha jurado defender a causa do rei Fernando e que esse juramento sagrado os obrigava a resistir até ao fim. Quando leu a missiva, Afonso de Leão contemplou ao longe as muralhas brancas de Burgos. Sabia que, sem apoio interno, os seus desejos de submeter Castela eram inúteis. Muito a seu pesar e engolindo boa parte do seu orgulho, ordenou aos seus homens que levantassem o acampamento e dessem meia volta em direcção a Leão. Pelo momento, Castela lograra salvaguardar a sua independência». In José Luís Corral, El Número de Deus, 2004, O Número de Deus, O Segredo das Catedrais Góticas, tradução de Carlos Romão, Planeta Editora, Lisboa, 2006, ISBN 972-731-185-7.

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quarta-feira, 9 de setembro de 2015

O Algarismo e o Número. O Número de Deus. José Corral. «A multidão desatou em aclamações que eram incitadas por alguns agentes de Berenguela, convenientemente distribuídos por entre aquela multidão. Fernando era um jovem atractivo e ajuizado»

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O Algarismo e o Número
«(…) Afonso de Leão, que nada sabia acerca da morte do primo, o rei de Castela, não suspeitou das intenções de Berenguela e permitiu que Fernando, de dezasseis anos, viajasse para Castela para se juntar à mãe. Por aquela ocasião, Berenguela já havia urdido todo o seu plano. Apoiada por vários nobres, a neta de Leonor de Aquitânia foi proclamada rainha de Castela em Valladolid, alegando para tal os seus direitos como filha primogénita do rei Afonso VIII, o vencedor das Navas. A cerimónia teve lugar em Valladolid, no dia 2 de Julho. Nessa mesma cerimónia, Berenguela renunciou à coroa de Castela e ante a multidão congregada numa esplanada junto a uma das portas da vila de Pisuerga cedeu os direitos ao trono ao seu filho Fernando, após um discurso em que assegurou que uma mulher podia transmitir o poder régio, mas não podia defender o reino das graves ameaças que sobre ele pairavam, e acrescentou que graças ao prudente conselho dos ricos homens considerava que o rei legítimo não era outro que não o seu filho Fernando. Nem sequer havia transcorrido um mês desde a morte do jovem Henrique.
A multidão desatou em aclamações que eram incitadas por alguns agentes de Berenguela, convenientemente distribuídos por entre aquela multidão. Fernando era um jovem atractivo e ajuizado. Quando o casamento dos pais foi anulado, o jovem infante permaneceu em Leão, ao lado do pai, se bem que de vez em quando viajasse até Castela para passar uma temporada com a mãe, a rainha Berenguela. Morto Henrique, Fernando era a única esperança de Castela em se manter independente de Leão. Os castelhanos viram no jovem Fernando o soberano capaz de fazer frente às ânsias anexionistas do ambicioso rei leonês. Aclamado por vários milhares de pessoas, o novo monarca entrou em Valladolid encabeçando um desfile de cavaleiros e escoltado por todos os ricos-homens de Castela. Na igreja de Santa Maria, os bispos de Burgos e Ávila rezaram um solene tedeum e Fernando, ajoelhado diante do altar da Virgem, deu graças a Deus e aceitou defender Castela e a fé cristã de todos os seus inimigos.
Quando se inteirou do engano urdido por Berenguela, Afonso de Leão sentiu-se burlado e ofendido, e convocou os nobres leoneses para o exército. Sem perda de tempo, penetrou em Castela e dirigiu-se pelo Douro até Valladolid. Inteirada de que o rei leonês se acercava, furioso, à frente do seu poderoso exército, Berenguela ordenou aos bispos Maurício de Burgos e Domingo de Ávila que saíssem ao seu encontro arvorando as cruzes episcopais e procurassem entretê-lo para ganhar tempo, poder fugir para Burgos e, a partir daí, organizar a defesa.
Os dois bispos encontraram-se com Afonso apenas a uma hora de caminho de Valladolid. O monarca leonês bramava como um touro furioso e não parava de clamar contra a sua antiga esposa Berenguela, a que chamava harpia e bruxa. Os prelados Maurício e Domingo tentaram acalmá-lo alegando que a sucessão ao trono se tinha realizado conforme o direito castelhano, e que era necessário evitar por todos os meios um confronto entre cristãos. Recordaram-lhe que o verdadeiro inimigo estava no Sul e não havia que desperdiçar forças em lutas estéreis entre castelhanos e leoneses, mas sim aproveitar a vitória sobre os muçulmanos almóadas, conseguida cinco anos antes nas Navas de Tolosa, para engrandecer os reinos de Castela e de Leão e com eles toda a cristandade. Mas Afonso de Leão não estava disposto a ouvir discursos de irmandade entre cristãos. Não era muito inteligente, mas o seu orgulho não tinha limites e sentia-se humilhado pela farsa que Berenguela havia tramado para elevar o filho de ambos ao trono de Castela». In José Luís Corral, El Número de Deus, 2004, O Número de Deus, O Segredo das Catedrais Góticas, tradução de Carlos Romão, Planeta Editora, Lisboa, 2006, ISBN 972-731-185-7.

Cortesia de PlanetaEditora/JDACT