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segunda-feira, 5 de dezembro de 2016

Fernando Pessoa e os Mundos Esotéricos. José Manuel Anes. «Registe-se a tradição de que, em meados do século XIX, haveria uma corrente dentro da M. portuguesa que desejava que esta fosse a continuadora da Ordem de Cristo e à qual não seria estranha a figura do grão-mestre Costa Cabral»  

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Maçonaria, Rosacrucianismo e Templarismo
«(…) Para Pessoa, embora sejam vias distintas, existe uma perfeita articulação de complementaridade entre o Rosacrucianismo, o Templarismo e a Maçonaria: a Ordem Templária  da Escócia havia criado a M. (Maçonaria) como Ordem Mística. Os Rosicrúcios recrearam-na como ordem Mágica. À Ordem de Cristo competiu o fazer que houvesse nela uma Ordem Alquímica. Podemos dizer, na mesma linguagem maçónica, que a Maçonaria foi entrada pela Ordem do Templo, passada pelos rosicrúcios, erguida pela Ordem de Cristo. Desde que cumpriu a sua missão o emissário português, ficaram na Ordem Maçónica os elementos espirituais e transmutação. Quem quiser e souber buscá-los, os encontrará. A M. (doravante, Maçonaria) continuou, na sua aparência secreta, sempre a mesma; mas um novo espírito havia penetrado nela desde que Ramsay falara; um espírito ainda mais alto se despertara nela desde que ela falou o emissário do Ocidente. Está claro que esta afirmação é mais do que uma constatação histórica (pois a Ordem de Cristo existiu como sucessora da Ordem do Templo, é um verdadeiro programa iniciático no qual Pessoa parece estar empenhado e determinado a contribuir para o seu êxito. Neste sentido vale a pena referir o resto deste fragmento do espólio do Poeta: doravante referir-me-ei no termo Ordem do Templo à Ordem Templária da Escócia, para que não confunda com a ordem maçónica que tem este último nome; no termo Ordem de Cristo à Ordem Templária de Portugal, que é a parte interior da outra, hoje extinta. Fernando Pessoa refere-se aqui à tradição do templarismo esotérico, segundo a qual a Ordem do Templo teria um núcleo central, secreto, detentor de uma doutrina espiritual oculta, de natureza gnóstica. Parece ter a ver com isso a frase do Poeta; ... veio a formar-se, com certos fins místicos e secretos, dentro do seio visível da Igreja de Roma, uma Ordem que foi designada por Ordem Militar do Templo de Salomão. Os seus servos, iniciados ou não, são os que designamos pela abreviação de Templários. A esta Ordem Mística foram confiados os segredos e a tradição da Igreja Gnóstica (...) possuidora das chaves dos íntimos mistérios; foi a ela a que mais tarde se haveria de chamar, na linguagem dos Rosicrúcios, a Igreja Mística.
É interessante constatar duas notas que Pessoa dá sobre a Ordem de Cristo e ambas referentes ao século XIX: uma, do começo do século, que podemos encontrar em Miguel António Dias (1853), Anais e Código da Franco-maçonaria em Portugal, sobre um tal Nunes, português, ao que parece pouco recomendável, que foi a França vender o sonho de uma Ordem de Cristo ressurgida numa perspectiva iniciática (Nunes quis fundar uma O.C. dentro da M.. Isso estava de antemão condenado...; a outra, bastante enigmática e que levanta algumas dúvidas sobre a sua autenticidade, as provas da O.C. sob elas ficou esmagado Antero de Quental, que nunca passou de escudeiro. (A sua associação com elementos maçónicos e semelhantes, em parte contribuiu para sua derrota astral). Registe-se a tradição de que, em meados do século XIX, haveria uma corrente dentro da M. portuguesa que desejava que esta fosse a continuadora da Ordem de Cristo e à qual não seria estranha a figura do grão-mestre Costa Cabral, conde de Tomar, que comprou parte do Convento de Cristo para sua residência (e não sabemos se para outros fins...); testemunhos indirectos dessa corrente vêm pela mão dos seus críticos, como por exemplo, Borges Grainha (in História da Franco-Maçonaria em Portugal).

Rosacrucianismo
Vejamos, entretanto, a definição que Pessoa dá de Rosacruciano: podemos dizer Rosicruciano um indivíduo pertencente à chamada Fraternidade da Rósea Cruz (não da Rosa-Cuz) (...) alguém que pertença à Ordem Rosicruciana, ou, até, a qualquer das Ordens dela derivadas, o que tal pretendam, a G:, D:, A:, A:, e outras (...). A Ordem Rosicruciana, a Ordem-mãe, apareceu (ao que parece) no século XVII), não se sabe bem onde nem como, desenvolveu-se quantitativa e ritualmente, no século XVIII, em que se tornou maçónica, isto é, pôs como condição de admissão o ser-se Mestre Maçon, sob qualquer obediência regular, e subsiste hoje, com certas rectificações, e de novo (outra vez) sem a condição maçónica. Na sua primeira fase criou ou transformou a M., a Ordem Externa como estes Rosicrucianos lhe chamam». In José Manuel Anes, Fernando Pessoa e os Mundos Esotéricos, Ésquilo 2008, ISBN 978-989-8092-27-4.

Cortesia de Ésquilo/JDACT

sábado, 22 de novembro de 2014

Fernando Pessoa e os Mundos Esotéricos. José Manuel Anes. «… é fora de dúvida que Cagliostro era um charlatão; mas não é menos fora de dúvida que era também, e paralelamente, um alto iniciado; é fora de dúvida que madame Blavatsky era um espírito confuso e fraldoso»

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Alquimia e Magia e Hermetismo
«(…) Penso, de facto, euo a dimensão mágica em Pessoa assenta, mais estruturadamente, em reflexões baseadas no esquema iniciático da Golden Dawn, em nossa opinião, na versão ocrowleyana do A. A., Argenteum Astrum e atinge a sua máxima dimensão nesse Livro que não o é, O Caminho da S. (Serpente), (Yvette Centeno, Fernando Pessoa e a Filosofia Hermética). Durante a sua vinda a Portugal, em Setembro de 1930, Crowley e a sua companheira chegaram a Portugal a 2 desse mês, para além de dois almoços a 7 e a 8, com a Besta 666 e a sua Mulher Escarlate, Pessoa teria tido, segundo as suas declarações à Polícia, encontros mais frequentes com Crowley a partir de l7 de Setembro, data em que Hanni Jaeger terá fugido para a Alemanha. Sobretudo, participou, juntamente com o seu companheiro iniciático Ferreira Gomes, que aliás tem palavras muito elogiosas para Crowley na notícia que sai em 5 de Outubro do mesmo ano [é um erudito e um gentlemen, poeta, místico, caçador de feras, prático de rituais mágicos, químico e jogador de xadrez; alpinista..., coisas que não são bem características de um degenerado. (...) viveu como yogi numa aldeia da Índia, como castelão na Escócia, como boémio em Londres, Paris e Nova York..., fundou em (...) Itália, Cefalu, Sicília, uma fraternidade mística], embora também tenha palavras de reserva, ao que tudo indica para com Crowley [é fora de dúvida que Cagliostro era um charlatão; mas não é menos fora de dúvida que era também, e paralelamente, um alto iniciado; é fora de dúvida que madame Blavatsky era um espírito confuso e fraudoso; mas também é fora de dúvida que recebera uma mensagem e uma missão de superiores incógnitos; nos nossos dias há um exemplo estrondoso da mesma mistura], na simulação do suicídio de Crowley em relação ao qual é interessante referir, para além dos detalhes da história já bem conhecida, o que Crowley escreveu no seu diário: Sept 21. I decide to do a suicide stunt to annoy Hanni. Arrange details with Pessoa (21 de Setembro. Decidi fazer um suicídio acrobático para aborrecer a Hanni. Arranjar detalhes com Pessoa). E o seu biógrafo John Symonds comenta, a propósito: Fernando Pessoa did his part of the job well (Fernando Pessoa fez bem a sua parte do trabalho). Tratou-se, na verdade de uma cumplicidade solidária que se expressa no triângulo Crowley-Pessoa-Gomes.
É importante referir que Pessoa tinha na sua biblioteca três livros de Crowley, não só o The Confessions of Aleister Crowley (As Confissões de Aleister Crowley), como quase todos os pessoanos indicam e que já por si só revelaria um interesse pela vida e pela obra do mago Crowley, mas também outros dois, que ninguém pôs em evidência, os quais vêm, no entanto, mencionados na mesma lista de livros pertencentes à biblioteca pessoal de Fernando Pessoa e que são: Magick in theory and practice, being part III of Book 4 (Magia em Teoria e em Prática, sendo a parte III do Livro 4), de Master Therion, um pseudónimo iniciático de A. Crowley, numa edição de Paris (Lecram) que só pode ter sido ou a de 1929 ou a de 1930, referido com a cota 1-151 e incluído na rubrica Filosofia; 777, Vel Prolegomena symbolica ad systemam sceptico-mysticae viae explicandae, fundamentum hieroglyphicum sanctissimorum scientiae summae, London: The Walter Scoff Publishing Co., 1910, referido com a cota 2-1 e incluído na rubrica Religião, Teologia.
Trata-se de dois livros importantes da doutrina e da prática telemita de Crowley, revelando um interesse ainda mais profundo, da parte de Pessoa, quanto mais não fosse para se informar mais detalhadamente sobre o tema em questão, pois o primeiro aborda os aspectos práticos da Magia do novo aeon, incluindo a sexual, vermelha, no seu capítulo XX, On the Eucharist, on the Art of Alchemy (Sobre o Eucaristia, sobre o Arte da Alquimia), e o segundo é uma exposição da doutrina cabalística de Crowley, adaptada a partir da que ele aprendeu na Golden Dawn, e onde estão referidas, sob a forma de um dicionário mágico e filosófico as diversas correspondências simbólicas (entre as quais as sefiróticas) e iniciáticas dos graus desta organização rosacruciana, que Crowley transpôs para a sua Ordem, criada em 1907, a A:.A: (Argenteum Astrum, Estrela de Prata, em inglês, Silver Star, S.S).
Até que ponto Pessoa aderiu a estas doutrinas e a estas práticas do mago Therion é a pergunta que se impõe fazer. Que havia interesse, não há dúvida, primeiro porque adquiriu três livros de Crowley (um dos quais, pelo menos, antes de o conhecer, o Confessions), em segundo lugar porque resolveu corrigir o seu horóscopo dando-lhe conta do facto (através da Mandrake Press, editora de Confessions) e depois porque começou a corresponder-se com ele, they had been corresponding for a year (eles corresponderam-se durante um ano, escreve J. Symonds), a partir do momento em que Crowley lhe respondeu a agradecer-lhe». In José Manuel Anes, Fernando Pessoa e os Mundos Esotéricos, Ésquilo 2008, ISBN 978-989-8092-27-4.


segunda-feira, 3 de março de 2014

Fernando Pessoa e os Mundos Esotéricos. José Manuel Anes. «Qual será a identidade desse amigo que ele parece ter ido visitar várias vezes a Sintra (cf. A. Quadros, Obras de Fernando Pessoa e Vítor Belém, O Mistério da Boca do Inferno)? Terá ele a ver com a Quinta da Regaleira e com o seu proprietário….»

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Alquimia e Magia e Hermetismo
«(…) Ao mesmo tempo reflecte criticamente (e quem sabe com que dor) sobre o caminho de Mathers que não conseguiu controlar os seus demónios ... a luxúria, a bebida... No entanto, numa página solta, sem data, citada por António Quadros, revela uma reflexão complementar, um esclarecimento a posteriori ou a priori, não sabemos, a esta compreensão de uma Magia integradora do plano material: Tudo é um. O satânico é tão-somente a materialização do divino. A magia é uma só; a magia negra não é mais que a magia branca feita materialmente. O culto fálico, quando entendido como símbolo, é divino; quando tomado literalmente é orgíaco, e portanto satânico. Se conhecermos os processos da magia negra e os interpretarmos como símbolo, chegaremos ao conhecimento dos processos da magia branca. Deus é um espírito, diz a Bíblia: e o divino é  espiritual. O Diabo e a matéria (corpo) e a Trindade Satânica: o Mundo, a Carne e o Diabo. O Diabo (Saturno) é a Limitação. (Note-se que na biblioteca de Pessoa existia um livro de Franz Hattman, intitulado Magic, white and black. Então, para Pessoa, a Magia material, satânica, é apenas a materialização da Magia divina. Ela e satânica, apenas porque material.
Escreveu Pessoa, num dos fragmentos para o Ensaio sobre a Iniciação, que O Misticismo busca transcender o intelecto (por intuição). A Magia a transcender o intelecto pelo poder; o Gnose, a transcender o intelecto por um intelecto superior. Quem se distinguiu, na época de Pessoa, pelo poder mágico que possuía e desenvolvia, foi Aleister Crowley, o Mago Therion, a Besta 666, como se denominava a si próprio, que, vindo da Golden Dawn (para onde entrou em 1898), fundou a Astrum Argentum (ou Stella Matutina) em 1903 e foi o máximo responsável pela O.T.O., Ordo Templi Orientis, organização pseudo-templária, criada por Carl Kellner em 1901 que, na realidade praticava uma magia sexual, particularmente desenvolvida por Theodor Reuss e depois por A. Crowley. Pessoa conheceu Crowley, através da sua obra, tendo traduzido o seu poema O Hino a Pan e citando o lema crowleyiano Faz o que quizeres, é a única Lei o que o levou a dissertar, a propósito: Descobre aquilo que és; descobre o que aquilo que és deseja; faz o que desejas enquanto aquilo que és. . Além disso, veio a conhecê-lo pessoalmente pois Crowley visitou Lisboa, em 1930, acompanhado da sua Mulher Escarlate (a sua parceira tântrica, na época, Hanni Jaegger). Quem descreve todo este enredo à volta da visita do Mago a Lisboa é Vítor Belém na sua obra O Mistério da Boca do Inferno - o encontro entre o poeta Fernando Pessoa e o Mago Aleister Crowley (publicada pela Casa Fernando Pessoa, em Lisboa, em 1995) onde faz uma síntese das informações disponíveis até ao momento. Muito importante é também o trabalho de Luísa Alves Um excêntrico encontro anglo-português: Aleister Crowley e Fernando Pessoa.
De facto, terá sido uma correcção do horóscopo de Crowley, feita por Pessoa e a ele comunicada por carta, que parece ter motivado a curiosidade do Mago de conhecer o poeta-astrólogo (talvez também, uma mensagem - a Mensagem? - que Crowley refere numa das suas cartas a Pessoa in Vítor Belém). Crowley esteve em Lisboa, presumivelmente 23 dias, de 2 a 25 de Setembro de 1930, durante os quais se encontra com Pessoa (parece que com alguma incomodidade deste), eventualmente com Augusto Ferreira Gomes, jornalista, amigo e companheiro do poeta no mundo do ocultismo, e com um amigo que Crowley tinha em Sintra. Qual será a identidade desse amigo que ele parece ter ido visitar várias vezes a Sintra (cf. A. Quadros, Obras de Fernando Pessoa e Vítor Belém, O Mistério da Boca do Inferno)? Terá ele a ver com a Quinta da Regaleira e com o seu proprietário (de 1920 a 1945), Pedro Carvalho Monteiro, filho de António Augusto Carvalho Monteiro?
De qualquer forma, o acontecimento mais mediatizado (em Portugal, em Inglaterra e em França) dessa visita, foi o desaparecimento do Mago, ocorrido simultaneamente com uma simulação do suicídio de Crowley na Boca do Inferno, em Cascais e no qual parecem ter desempenhado um papel de alguma cumplicidade, Fernando Pessoa e Augusto Ferreira Gomes, o qual, por acaso, encontra um bilhete de Crowley dirigido à mulher escarlate, no local do suposto suicídio: Não posso viver sem ti. A outra Boca do Inferno apanhar-me-á, não será tão quente como a tua (in Vitor Belém, O Mistério da Boca do Inferno e que, também parece ter preparado a notícia sobre este caso, no Notícias Ilustrado, de 5 de Outubro de 1930». In José Manuel Anes, Fernando Pessoa e os Mundos Esotéricos, Ésquilo 2008, ISBN 978-989-8092-27-4.


quinta-feira, 3 de outubro de 2013

Fernando Pessoa e os Mundos Esotéricos. José Manuel Anes. «… o Misticismo busca transcender o intelecto (por intuição). A Magia a transcender o intelecto pelo poder; a Gnose a transcender o intelecto por um intelecto superior…»

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Alquimia e Magia e Hermetismo
«(…) Essa interpretação da Alquimia é já diferente da anteriormente exposta e pode ver-se, por exemplo, neste trecho, que apresenta uma maior conotação sexual, tântrica (quer da mão direita, imaginariamente, quer da mão esquerda, fisicamente: a Matéria Prima é a Vida (a Vida Corporal). O Homem e a Mulher necessários para a produzir têm de ser obtidos pelo adepto dentro de si mesmos, ou satanicamente, unindo a homo com a heterosexualidade, ou divinamente, com a castidade (...).

Magia, cabala e vias tântricas ocidentais
São diversos os livros sobre estes assuntos, que Pessoa possuía na sua biblioteca dos quais citaremos, a título de exemplo, os seguintes: (The) Kabbalah unveiled, de Rosenroth, traduzido por Mathers (um dos cisionistas da Golden Dawn, contra o poeta e Prémio Nobel, Yeats, tendo sido acompanhado na sua rebelião por Crowley), Magic white and black, Hartman (teósofo e rosacruciano alemão, fundador em 1888, da Rosa-Cruz Esotérica) e Le Kama Soutra, de Vatsyayana (o popular tratado de divulgação de técnicas tântricas, que pode levar, no entanto, muitos ocidentais a ficarem com uma imagem limitada ou mesmo deformada do Tantrismo, já que este não se limita a uma ginástica sexual, é muito mais do que isso). No nosso artigo de 1998, referimos muito rapidamente a reflexão pessoana sobre a Magia, sobretudo através dos textos publicados por Yvette Centeno, para o Ensaio sobre a iniciação, dos quais destacámos o seguinte: o Misticismo busca transcender o intelecto (por intuição). A Magia a transcender o intelecto pelo poder; a Gnose a transcender o intelecto por um intelecto superior mas, continua Pessoa, para transcender uma coisa devidamente, é preciso primeiro passar por essa coisa. No mesmo Essay on the Initiation, podemos ler: há três tipos distintos de iniciação, simbólica ou exterior intelectual (exterior à interior) e vital (interior...). Nas iniciações vitais, que reforçam a emoção e, portanto, conduzem à Alquimia como realização, o candidato vive aquilo que sente e sabe.
Temos aqui que Fernando Pessoa considera uma Magia vital, que passa pela sensação, e além disso, reconhece que para se transcender uma coisa devidamente, é preciso primeiro passar por essa coisa, estes são princípios básicos do Tantrismo (oriental ou ocidental, gnóstico ou hermético). No entanto, no mesmo Ensaio, mas noutro fragmento, o Poeta escreve: a primeira tentação a ser vencida, para que sejam evitados os Erros do Caminho, é o Mundo. A segunda tentação a ser vencida, para que sejam evitados os Erros da Pousada, é a Carne. A terceira tentação a ser vencida, para que sejam evitados os Erros da Cripta, é o Diabo. As tentações são comuns a todos os caminhos, mas o místico está mais sujeito à tentação do Mundo, o mágico à tentação da Carne, o gnóstico à tentação do Diabo. O dizer-se que o mágico está mais sujeito à tentação da carne, implica seguramente que ele utilize pelo menos um tantrismo da mão direita. E, no mesmo fragmento, revelando um bom conhecimento da história de uma das personalidades fundadoras da Golden Dawn, refere Pessoa: dificilmente haverá um mágico que não sucumba a coisas que revelam a fraqueza da vontade. O fim terrível de Mac Gregor Mathers embrutecido pelo álcool é um caso pungente. Ele poderia talvez controlar os diabos de Abremalin; não foi capaz de controlar os seus (fossem eles a luxúria, a bebida ou a desonestidade).
Portanto, Fernando Pessoa reconhece a Carne como uma tentação a ser vencida pelo Mago (a carne está perto do mago...), mas, segundo ele próprio afirma no mesmo Essay, não a evitando, mas passando por ela, vencendo-a, de modo a transcendê-la, pois, como ele diz, quem sabe, por exemplo, o significado místico e transcendente da cópula? (...) isto é mais sério que quanto de sério há na vida aparente.

In José Manuel Anes, Fernando Pessoa e os Mundos Esotéricos, Ésquilo 2008, ISBN 978-989-8092-27-4.

terça-feira, 1 de outubro de 2013

A Alma Secreta de Portugal. Portugal Imaginal. A ‘Fonte’ da Alma Secreta. «Como hermeneuta da literatura, aprofunda os grande temas enunciados pelo génio de Amarante, com destaque para o aprofundamento relativo à temática que gira à volta da ‘saudade’»

Cortesia de wikipedia e jdact

A Quinta da Regaleira e o Portugal Imaginal. Entrevista com José Manuel Anes 2ª Parte. Da evidência da Identidade Imaginal Portuguesa à necessária Re-criação da tradição

(…)
José: É imaginativo e corresponde a uma característica desse ar criador grandioso do Carvalho Monteiro e do Luigi Manini, que vão dar uma expressão cristã a um mito pagão numa continuidade absoluta. Não há descontinuidade nenhuma. Ele vai cristianizar, com essa fecundação de Leda por Zets, fecundação por obra e graça do Espírito Santo. Espírito Santo que está representado pela pomba.
Paulo: A pomba do Espírito Santo aqui poderá significar, no pensamento dos seus autores, o advento da era do Espírito Santo...
José: Repare, o Espírito Santo é causa e efeito. Eu penso que eles aqui dão uma grande piscadela de olho ao leitor destes símbolos e deste conjunto do imaginário da Regaleira dizendo: aqui está a concepção da imaculada Leda, concepção divina, por Zeus, por obra e graça do Espírito Santo. Há uma piscadela de olho dizendo: atenção, estas linguagens são universais e, quer o paganismo quer o cristianismo, embora em registos diferentes, dizem a mesma coisa, que é: a fecundação de uma matéria virgem, sempre virgem por mais fecundada que seja, da qual nascem, naturalmente, Pólux ou Cristo. Portanto, o Espírito Santo está na raiz deste processo, mas também pode ser efeito. O Espírito Santo é o mediador e propicia essa união, a fusão do masculino e do feminino, do espírito e da matéria, mas, por outro lado, é também o resultado dessa união. Essa ambiguidade do Espírito Santo tem uma dimensão activa e masculina, mas também tem essa dimensão feminina. É, digamos, a Sekina, é a presença de Deus, como aparece na tradição judaica.
Paulo: O Espírito Santo era feminino segundo o Evangelho dos Hebreus, e para os gnósticos era a Sophia...
José: Mas a Sophia é o equivalente à alma do mundo, a Anima Mundhi. E quando se quer valorizar o imaginário, temos de nos recordar de que o objectivo desses grandes nomes desta espiritualidade, como Corbin, Jung, Durand, etc., era exactamente a valorização da alma do mundo, a recuperação, a reconquista da alma do mundo. Esse é o grande desafio». In Quinta da Regaleira, Sintra, 2002.

As três colunas da Cultura Portuguesa. Entrevista com António Cândido Franco
«António Cândido Franco nasceu em Lisboa. Tem consagrado grande parte da sua investigação ao estudo da obra de Teixeira de Pascoaes. Para além de lhe dedicar o doutoramento, tem dez obras publicadas sobre o grande vate de Amarante. Cândido Franco percorre a obra do génio saudosista, com a mesma intensidade de alma e coração que o bardo da Renascença peregrinava pelas alturas do Marão, em plena comunhão com o espírito da serra, esse mesmo espírito que dois milénios antes foi cultuado pelos povos galaicos com o nome de Reve Marândico. Mas o trabalho hermenêutico de Cândido Franco ultrapassa a obra de Pascoaes no seu sentido estrito. Como hermeneuta da literatura, aprofunda os grande temas enunciados pelo génio de Amarante, com destaque para o aprofundamento relativo à temática que gira à volta da saudade.
António Cândido Franco tem tido, também, ampla actividade no âmbito da crítica literária, com largas dezenas de artigos publicados, nomeadamente no Jornal de Letras. A musa inspiradora da literatura paira sobre a sua escrita, seja na prosa ensaística ou ficcional. As suas palavras cruzam-se harmoniosamente, transportando o sentido do seu pensamento com a mesma naturalidade que o rio encontra as águas profundas do oceano. O seu estilo recorda-nos, inevitavelmente, o padre António Vieira; a sua abordagem filosófica, o pensamento de António Telmo.
Por coincidência, publicamos esta entrevista no cinquentenário da morte física de Teixeira de Pascoaes (1877-1952), razão pela qual não podemos deixar de prestar sentida homenagem ao grande bardo lusitano, autêntico Midas da literatura, pois tudo o que tocava com a sua escrita transformava na harmonia dourada da beleza poética. De tal modo por ele fluía a água cristalina das Musas que, por vezes, nas suas poesias, ele próprio parecia transformar-se nessa água abençoada pelos espíritos da natureza. Para ti, Teixeira, que hoje vives livre no teu Marão imaginal, um forte abraço em espírito... Sabemos que estás aí, sabemos que o teu Marão é mais verdadeiro do que todas as luzes fugazes e efémeras, nascidas no seio de Maya para alimentar as ilusões dos humanos.

In Paulo Loução, A Alma Secreta de Portugal, Ésquilo Edições & Multimédia, 2004, ISBN 972-8605-15-3.

Cortesia de Ésquilo/JDACT

A Alma Secreta de Portugal. Portugal Imaginal. A ‘Fonte’ da Alma Secreta. «… mas só se lembram da vertente maçónica quando falam deles. As componentes do imaginário nacional, aqui estão elas, pu-las todas em evidência. Identifiquei também componentes rosa-crucianas…»

Cortesia de wikipedia e jdact

A Quinta da Regaleira e o Portugal Imaginal. Entrevista com José Manuel Anes 2ª Parte. Da evidência da Identidade Imaginal Portuguesa à necessária Re-criação da tradição

(…)
Paulo: António Cândido Franco disse que era a Renascença, o tronco central da cultura portuguesa...
José: É isso que nos falta, esse caminho mediador que faça as mediações, as hermenêuticas, as interpretações: a terceira via, o terceiro incluído. Ora bem, esse é que é o problema. Nós passámos quase todos estes últimos séculos, de uma maneira mais dramática do que noutros sítios da Europa, entre um positivismo estreito e uma mística beata, de um certo dogmatismo, e, portanto, esse caminho está aí para reinventar, para refazer, está aí todo à nossa frente, à nossa espera.
Paulo: Não acha fabuloso que, apesar dos anátemas constantes lançados pela Igreja, por exemplo, Gilbert Durand menciona terem existido 15 ou 17 interdições referentes ao Culto do Espírito Santo, ao longo dos séculos, e do racionalismo dessacralizador o povo tivesse preservado, nesses últimos séculos, tantas tradições?
José: Não quero mistificar o povo, mas a verdade é que o povo tem sabedoria.
Paulo: A festa do Espírito Santo que ainda existe nos Açores é disso um exemplo paradigmático...
José: Também ainda existe aqui na Peneda, na Serra de Sintra, e está retratada aqui na Regaleira. Desde há dez anos, nos meus trabalhos publicados, identifiquei várias componentes simbólicas existentes na Regaleira, mas só se lembram da vertente maçónica quando falam deles. As componentes do imaginário nacional, aqui estão elas, pu-las todas em evidência. Identifiquei também componentes rosa-crucianas, alquímicas, templárias e estão aqui pelo menos duas indicações maçónicas. Bom, a verdade é que a própria biblioteca do Carvalho Monteiro revelava um interesse pelo Quinto Império, pelo Culto do Espírito Santo, pelo sebastianismo, etc.,etc. Ora bem, o Culto do Espírito Santo é um património mítico nacional de um humanismo profundíssimo. Nós, que às vezes ficamos muito assustados com os mitos nórdicos e outros, podemos estar tranquilos e orgulhosos desta tradição. É mais outro motivo para termos orgulho nacional. Esta mitologia do Espírito Santo é de uma fraternidade espantosa. É a coroação do menino, como símbolo da coroação da inocência e da simplicidade de espírito. Depois o gozo colectivo, esse símbolo da fraternidade entre os homens. Por último a libertação dos presos, que simboliza a libertação da humanidade e da alma prisioneira. Tudo isso é de uma sabedoria profunda. E lá está, quem é que o guardou? Não foram os intelectuais. Foi o povo que guardou, apesar das perseguições, assinale-se.
Paulo: E, pelo que tenho testemunhado no resto do país, existem muitas outras tradições com uma riqueza simbólica impressionante...
José: Claramente. Outra grande iniciação que encontramos no povo são as festas cíclicas, em datas fixas ou móveis. Há um ritmo cósmico na natureza. Se nós nos colocarmos em sintonia com esse ritmo natural, efectuamos uma iniciação ao longo do ano. A cristianização das festas não perdeu esse ciclo, essa dimensão, porque, inteligentemente, o cristianismo utilizou o mesmo ciclo anual através da vida de Cristo, que se identifica com o Sol em certos aspectos. Desta forma, essas festas cristãs realizadas ao longo do ciclo anual baseiam-se no pressuposto de que Cristo é o Sol. No Natal é o Sol que está quase a morrer, mas que vai renascer. É o Sol Invictus que chega ao ponto mais baixo da sua queda no solstício de Inverno mas vai recomeçar. Vai ressurgir. Há uma sintonia perfeita com este ciclo natural. E tudo indica, dizemos exegetas bíblicos, que Cristo, ou Jesus, terá nascido por volta da Primavera. Pela descrição evangélica parece que, na realidade, terá sido nessa altura. Santo Agostinho disse que a religião cristã não vinha abolir as antigas, mas sim que lhes veio dar cumprimento. E quando o cristianismo fez isso foi fabuloso, porque integrou toda uma sabedoria milenar, integrou-se nos ritmos cósmicos e deu uma expressão a todo esse património arcaico que nós temos.
Paulo: Na época, os cultos de Mithra tinham uma grande força e há notícia de que os sacerdotes dessa divindade tenham chegado a perguntar aos cristãos: Mas o vosso Deus não é o mesmo que o nosso?
José: Exactamente. O Natal cristão foi colocado a 25 de Dezembro porque era exactamente esse o dia dos festejos do nascimento de Mithra, que constituía uma religião concorrente do cristianismo. Mithra, na altura, era o deus exportado para todo o Império Romano. Mas, de facto, o mais importante é o 25 de Dezembro simbolizar o solstício de Inverno, arcaico. Agora, em rigor, situa-se entre 21 e 22 de Dezembro.
Paulo: Temos aqui a Gruta de Leda. A sua arquitectura interior recorda-me os cairns pré-micénicos da Grécia arcaica. Nesta estátua central temos Zeus em forma de cisne a picar Leda, a matéria imaculada da qual desta vez não vão nascer Castor e Pólux, mas sim uma pomba do Espírito Santo. Isto é altamente imaginativo...»

In Paulo Loução, A Alma Secreta de Portugal, Ésquilo Edições & Multimédia, 2004, ISBN 972-8605-15-3.

Cortesia de Ésquilo/JDACT

domingo, 9 de junho de 2013

A Alma Secreta de Portugal. Portugal Imaginal. A ‘Fonte’ da Alma Secreta. «… nós, por exemplo, na Páscoa temos os folares. Ora já no Antigo Egipto, quando se oferecia um ovo a alguém, significava, simbolicamente, desejar o renascimento espiritual a essa pessoa»

Cortesia de wikipedia e jdact

A Quinta da Regaleira e o Portugal Imaginal. Entrevista com José Manuel Anes 2ª Parte. Da evidência da Identidade Imaginal Portuguesa à necessária Re-criação da tradição
(…)
Paulo: E é interessante constatar que essa inquietação esotérica se cruza com o Portugal Mítico.
José: É verdade. Há bocado dizia que, de facto, se há algumas pessoas que têm vergonha de ser portuguesas, a mim, felizmente, isso irrita-me um pouco. Eu vivi um ano e tal em Espanha, estive com uma bolsa de pós-graduação nos anos setenta em Madrid, e via o orgulho daquela gente em ser espanhola, com todos os defeitos de serem espanhóis. Não são super-homens, mas têm orgulho da sua nacionalidade. Ora nós devemos ter orgulho em ser portugueses. Isso terá de ser uma coisa natural e, felizmente, vê-se o retorno às raízes, e às raízes da nossa identidade, da identidade etnográfica, histórica, cultural. Tudo isso são componentes fundamentais que nós temos de preservar. Isto não quer dizer que sejamos contra os outros, nem nacionalistas estreitos. Pessoa falava desse paradoxo enorme que é o nacionalismo cosmopolita e é, isso que nós devemos ser: atingirmos o universal através das raízes particulares da nossa identidade. Porque, de facto, depois, todas as tradições vão ter ao mesmo, mas vão através do nosso caminho.
Paulo: Mas isso corresponde ao diálogo simbólico. Cada cultura, se conhecer os seus símbolos, quer dizer através do conhecimento das suas raízes, pode estabelecer uma comunicação espiritual com os outros povos.
José: Exacto. E os nossos símbolos, a nossa identidade, estão ainda vivos, apesar de tudo. Apesar, enfim, de uma certa uniformização, apesar de algum mau gosto que nos é próprio, que acrescenta coisas horrendas à nossa paisagem geográfica e cultural. Mas a verdade é que ainda temos acesso às nossas raízes através das lendas, dos contos, das festas populares, do património construído, do património literário. Tudo isso está aí bem vivo, no sentido amplo da palavra. É interessante verificar que há o regresso a essa dimensão, inclusive à dimensão folclórica etnográfica, no sentido nobre da palavra. Há uma valorização das festas, de locais, etc. Às vezes há uns acrescentos, um pouco pimbas, mas aí estão elas, acessíveis, e encontra-se já em algumas autarquias e em alguns grupos de cidadãos o bom gosto e a cultura pelas verdadeiras raízes da nossa identidade. E estão a valorizá-las.
Paulo: Eu tenho a sensação, quando leio o Leite de Vasconcelos, o Abade Baçal, etc., que nos anos talvez cinquenta, sessenta, tudo ficou parado. Eles fizeram um trabalho, digamos, de base, e parece que tudo agora está à espera de um trabalho hermenêutico, de um trabalho interpretativo. Tenho a ideia de que os jovens de agora, no futuro, já não vão protagonizar o rito só por mimetismo, ou só por fé. Precisam de compreender, e tenho a impressão de que ainda falta transpor esses novos conhecimentos antropológicos para as nossas tradições. Esse trabalho está por realizar…
José: Fernando Pessoa abriu portas. Mais tarde, também o fizeram Agostinho da Silva, com o Culto do Espírito Santo, António Quadros com os estudos sobre o Sebastianismo e o Quinto Império, Lima de Freitas, etc. Mas, com efeito, ainda há muito que fazer nessa dimensão. Muito, muito...
Paulo: Tenho a ideia de que, do mesmo modo que há grupos ecológicos, talvez, no futuro, tenha de haver grupos de defesa dos valores antropológicos. Não é só necessária a defesa da pedra, das árvores, dos rios, ou dos animais, mas também a defesa da tradição e daqueles valores tradicionais como a vivência do Tempo Mítico e do Espaço Sagrado. Valores que não se perderam ao fim de dois mil anos, mas que agora a sociedade de consumo e a absorção mediática da vida os está a colocar em nítido perigo de extinção...
José: De qualquer maneira, a melhor defesa não é, digamos, uma preservação de tipo policial. A melhor defesa é torná-los vivos, fazer a recriação. A recriação em cada época é a actulização desses valores perenes e desse património. Disse há pouco que os jovens não querem fazer o ritual tal e qual, eles querem sempre recriar e acrescentar alguma coisa. Isso, de facto, essa reactualização, estou de acordo que falta fazer.
Paulo: Falta sentir e compreender os símbolos...
José: Mas estão aí as pistas. Os grandes focos destas nossas correntes já nos deram pistas, lançaram-nos bons desafios. Infelizmente, António Quadros não completou o terceiro volume da sua trilogia. O mestre Lima de Freitas também tinha ainda muito por realizar e escrever...
Paulo: Vou exemplificar um caso muito simples: nós, por exemplo, na Páscoa temos os folares. Ora já no Antigo Egipto, quando se oferecia um ovo a alguém, significava, simbolicamente, desejar o renascimento espiritual a essa pessoa. Portanto, quer dizer, havendo o folar, falta a forma mental, falta criar essa nova atitude de núpcias entre o sentimento e o significado simbólico, incluir o tal terceiro incluído, passe a redundância, nas nossas tradições...
José: Completamente. O que se passa talvez em Portugal... não sou um especialista de filosofia, nem da história das ideias, seja em Portugal ou no estrangeiro, mas dá-me a ideia de que em Portugal houve sempre dois caminhos antagónicos e que não houve o terceiro, o tal mediador. Houve sempre o caminho do positivismo, sempre, enfim, desde que ele existiu, o positivismo; depois o caminho de uma mística completamente beata, e faltou-nos o terceiro caminho».

In Paulo Loução, A Alma Secreta de Portugal, Ésquilo Edições & Multimédia, 2004, ISBN 972-8605-15-3.

O milagre das rosas, mas do regaço não saem rosas, mas sim pombas do Espírito Santo


Cortesia de Ésquilo/JDACT

sábado, 1 de junho de 2013

A Alma Secreta de Portugal. Portugal Imaginal. A ‘Fonte’ da Alma Secreta. «O esoterismo, de facto, faz parte da estruturada sua obra, da sua vida, não é um interesse marginal, não é uma brincadeira, não é, um adorno. Faz parte das suas inquietações profundas»

Cortesia de wikipedia e jdact

«Talvez caiba a nós, portugueses, por tradição histórica realizadores das tarefas impossíveis para os homens do seu tempo, exercer no Atlântico, lago da civilização do terceiro milénio, a função da Grécia (…) no primeiro milénio a. C., descobrir a síntese civilizacional que nos encaminhe para a fraternidade (…) na paz e na prosperidade dos homens de boa vontade». In Paulo Vallada.

A Quinta da Regaleira e o Portugal Imaginal. Entrevista com José Manuel Anes 2ª Parte. Da evidência da Identidade Imaginal Portuguesa à necessária Re-criação da tradição

(...) a perenidade dessas lendas e desses mitos, em Portugal, como nos outros países da Europa, é o garante da sua energia, da sua vitalidade. Direi mesmo mais: essa quina imaginal que acabamos de definir, constitui, na verdade, a base dos valores sobre os quais assenta, sob pena de desaparecimento,a Europa inteira». In Gilbert Durand


Paulo: Encontrámos esta ideia de um Portugal Imaginal num dos seus trabalhos, no qual aplicou a estrutura do imaginário, proposta por Durand, aos grandes temas da tradição mítica portuguesa. Estou convicto de que há uma relação muito grande entre temas fundamentais do Portugal Imaginal e a Quinta da Regaleira. Recordando a máxima de Hermes Trismegisto como é em cima, é em baixo; como é em baixo, é em cima, parece-me, de certo modo, ver na Quinta da Regaleira uma manifestação física do Portugal Imaginal. Na actualidade, Portugal é evidentemente um país com uma mítica muito forte, embora, paradoxalmente, ela seja hoje quase negada. Encontro até muita gente com vergonha de se afirmar português. Nega-se que exista quase uma particularidade do ser português, mas penso ser evidente que esta mítica existe. Não sei qual é a sua opinião.
José: Evidentemente que existe.
Paulo: Na sua tese sobre o Portugal Imaginal, e na sua relação com os regimes diurno e nocturno, coloca a saudade e o sebastianismo no nocturno e, no diurno, o Culto do Espírito Santo e o Quinto Império.
José: Ora bem, isto é um tema que foi uma proposta que eu fiz, e pus em analogia esse esquema da alquimia nacional com o esquema da alquimia laboratorial.
Paulo: Tanto a saudade como o sebastianismo são passivos. O sebastianismo espera o rei Sebastião e a saudade sente a ausência do futuro ou do passado, mas é passiva, Yin No entanto, o Culto do Espírito Santo é activo, convida todos à participação. A ideia do Quinto Império, vista como uma ideia de o construir, é activa.
José: A saudade não está explicitada, é uma ausência, é uma dimensão de ausência, uma coincidência de ausência que ainda não está explicitada. Portanto, é o feminino absoluto, é o nocturno absoluto. Depois, o sebastianismo, já é ausência de algo explicitado. Mas vamos mais longe, vamos transcender o rei Sebastião e ascender ao Encoberto, que é essa dimensão do algo que está em vias de chegar, ou que é preciso que chegue. Nesse sentido, o sebastianismo estabelece a ponte entre o nocturno absoluto e algo de diurno que está para surgir. Depois, certamente nessa matriz, desce o Espírito Santo, o Espírito Universal dos alquimistas. Aí está ele a descer, essa matéria aberta, essas saudades do futuro, essa matéria interior, essa alma nacional e, de seguida, uma vez descido esse Espírito Santo, caminha-se para a idade do ouro simbolizada pelo Quinto Império. Não é apenas um mito nacional português, mas nós valorizamo-lo muito bem e faz parte de todo o nosso imaginário. Nesse sentido, eu penso que há aqui um processo dinâmico deste imaginário português, nas suas diversas componentes complementares, que tem de facto uma dinâmica própria e que, uma vez posto em marcha, tal como o processo alquímico, conduz a essa abertura, pelo menos imaginal, interior... Mas, em relação à questão do Portugal Imaginal, volto a evocar o Lima de Freitas e a sua memória, o meu querido amigo que muito me instruiu e muito me motivou para este tipo de estudos. Era um homem de grande dimensão. Não é por acaso que tem um livro publicado intitulado Lisboa Imaginal.
Paulo: Um dos seus últimos trabalhos devem ter sido os azulejos da Estação do terminal do Rossio...
José: Exactamente. Esse testamento em azulejos, magnífico. De facto, assim como é importante valorizar o imaginário, é importante valorizar o mítico. Não é a mistificação, mas sim a mitificação. A mitificação, se não somos nós que a fazemos, podem ser outros com intenções mais malévolas de poder e de domínio, que a vão fazer. Porque o homem é um terreno propício à mitificação. Fernando Pessoa confessava e afirmava a sua condição de estimulador de almas. Ele era de facto um mitificador, não era um mistificador.
Paulo: Aliás, Fernando Pessoa afirmou mesmo. Desejo ser um criador de mitos, que é o mistério maior que pode obrar alguém da humanidade.
José: Exactamente. A criação do espírito humano. Aqui estamos na Regaleira, num espaço que está feito de tal maneira que é um convite à mitificação. Eu respondi a esse convite através dos meus estudos, fornecendo elementos que me parecem plausíveis e que na vertente esotérica foram caucionados pelo professor Antoine Faivre, aqui mesmo, neste lugar, aquando desse colóquio de 1999, na Faculdade de Letras. Mas, de facto, são propostas e não tenho garantias, não há documentos. São propostas! Mas são propostas que existem, que me parecem correctas. Não nos esqueçamos de que os símbolos são factos, como o é o seu enquadramento cultural. Tudo isso são factos. Nesse sentido, penso que temos em Fernando Pessoa um grande mitificador, um dos mais interessantes...
Paulo: Consegue reactualizar a mítica portuguesa...
José: Claramente. E integrá-la numa modernidade, ou mesmo numa pós-modernidade, avant la lettre. Fernando Pessoa é, de uma modernidade extraordinária, precisamente nesse campo imaginário e do mítico.
Paulo: Mas é só agora que leio um texto da Paula Costa a dizer: Não, não, o Pessoa não estava interessado em assuntos esotéricos. O centro dele mesmo é o esoterismo
José: O esoterismo, de facto, faz parte da estruturada sua obra, da sua vida, não é um interesse marginal, não é uma brincadeira, não é, um adorno. Faz parte das suas inquietações profundas. Não é um pretexto para a literatura, está no fundamento da sua literatura».

In Paulo Loução, A Alma Secreta de Portugal, Ésquilo Edições & Multimédia, 2004, ISBN 972-8605-15-3.

Cortesia de Ésquilo/JDACT

quinta-feira, 17 de janeiro de 2013

A Alma Secreta de Portugal. A Reabilitação Científica do Esoterismo. «Aliás, afirma claramente que o homem tem corpo, alma e espírito, ou seja, o ternário, sem expurgar o mundo do meio, da alma»

Painel que se encontra por cima do altar da Capela Templária da Quinta da Regaleira. Maria com os seus braços cruzados simboliza a alma harmonizada pronta a receber a luz do Eu-espiritual.
jdact e cortesia de wikipedia

(continuação)

Entrevista com José Manuel Anes
O Cristianismo Esotérico e a Dimensão Divina do Homem
José: Jean-Pierre Laurant, num livro recente, propõe que, em vez de doutrina interna ou oculta, o esoterismo é a doutrina da constituição oculta divina do homem.
Paulo: Que interessante.
José: É uma hipótese interessante. De facto é um tema recorrente de grande parte do esoterismo. Não posso dizer que é a totalidade, mas de facto essa ideia existe em São Paulo. Ele fala nesse Cristo interior, no Cristo em nós. Essa é a sua questão fundamental.
Paulo: O Cristo e o Pai. Quer dizer só através do Cristo interior se chega à célula de Deus, que habita todo o ser humano, a Centelha Divina, para utilizar um termo da Voz do Silêncio da tradição tibetana, divulgada por H. P Blavatsky e traduzida para português por Fernando Pessoa.
José: A Chispa Divina, ou a Centelha Divina, é um tema dos gnósticos de há dois mil anos, que Blavatsky utilizou como o fez com outros temas do Oriente. A Chispa Divina, o Germe de Luz, a Centelha Divina, são termos dos textos gnósticos referenciados na linha do que estamos agora a falar, na qual São Paulo se inscreve claramente. Para ele, a tarefa principal do cristão é, fazer nascer esse Cristo em nós: Meus filhos, sofro novamente como que dores de parto, até que Cristo esteja formado em vós.
Paulo: Aliás, afirma claramente que o homem tem corpo, alma e espírito, ou seja, o ternário, sem expurgar o mundo do meio, da alma.
José: Há um místico do século XVI, Angelo Silesius, que tem uma frase muito interessante: E a ti que te importa que o Cristo nasça mil vezes em Belém, se ele não nascer uma única vez dentro de ti. Integra um texto muito interessante que está traduzido em português com o título A Rosa sem Porquê - um dos tradutores é José Augusto Mourão. É um texto fundamental de esoterismo e mística cristãos e aponta para tudo aquilo de que temos vindo a falar, para essa dimensão sem a qual, mesmo que praticando os ritos exteriores mais piedosos, nada se passa na verdadeira estrutura do homem. Essa é a questão fundamental.
Paulo: É uma questão atemporal...
José: É o tema recorrente do esoterismo. O homem encerra dentro de si uma dimensão espiritual, divina. Repare: quando há pouco dizia que o esoterismo se constituía no Ocidente por expulsão de alguns temas... Um dos temas que foi expulso da teologia é essa divinização do homem.
Paulo: Com o advento do cristianismo opõem-se dois tipos de homens. Um, o homem clássico, e até o homem oriental e o celta, que é um homem-protagonista, que chegava a Deus pelo seu caminho, pela sua vontade, que acreditava no seu esforço individual para chegar a essa divindade, reconhecendo-a dentro e fora de si. O outro, o homem da Cristandade Ocidental, que está à espera da Graça como algo de exterior e isso, como disse Jung, paralisa-o.
José: Sem pôr em causa a Graça, os gnósticos sempre disseram que se não houver trabalho interior, trabalho sobre nós próprios, não se chega lá. Os gnósticos, os valentinianos, por exemplo, até faziam uma tipologia do homem que é muito chocante para as nossas mentalidades do Ocidente moderno e democrático, segundo a qual havia os pneumáticos, que eram os espirituais, os psíquicos e os hílicos. Os hílicos eram os materialistas, que nem sequer tinham alma, morriam e tudo acabava. Os psíquicos tinham um germe e ainda podiam lá chegar através do seu esforço. Os espirituais, os pneumáticos, tinham esse germe, decididamente. Encontramos esta doutrina também no Oriente, esta tipologia dos três níveis: o taoísmo fala do homem perfeito, etc. Mas, atenção, em relação aos gnósticos, o seu conhecimento não era um conhecimento meramente intelectual, mas sim um conhecimento espiritual. E, para chegar aí, não interessa propriamente se a pessoa tem ou não um curso universitário, mas é necessário, isso sim, chegar à simplicidade, conquistar um espaço interior onde o ser possa desabrochar.
Paulo: Observa-se que as diversas igrejas cristãs do Ocidente perderam, simultaneamente, o conceito ternário, corpo, alma e espírito, e a ideia da estrutura iniciática, desse conhecimento espiritual que emerge através do esforço individual, havendo, naturalmente, vários níveis de espiritualidade. Mas não, foi tudo nivelado, criando-se assim uma forma de comunismo espiritual...
José: Sim. É uma forma de se ser simpático para as pessoas, de não as assustar, mas também é uma forma de as enganar. Na realidade, a pessoa é extremamente responsável pela sua demanda espiritual, e convencê-la de que, à partida, ela já assegurou o acesso à dimensão transcendente é muito mau. Se forem bonzinhos, se cumprirem os rituais está tudo assegurado... Não, é preciso mais qualquer coisa, muito mais, mesmo. Mas esse muito mais está acessível aos simples, até, estar mais acessível a esses simples que conseguem fazer a simplicidade depois da complexidade . Aí é que está a questão.

Representação dos jacarés míticos segurando um búzio que, invertido, recorda os sons dos mares celestiais. Simbolizam os guardiões do umbral
Quinta da Regaleira. 
jdact

In Paulo Loução, A Alma Secreta de Portugal, Ésquilo Edições & Multimédia, 2004, ISBN 972-8605-15-3.

continua
Cortesia de Ésquilo/JDACT

quarta-feira, 16 de janeiro de 2013

Fernando Pessoa e os Mundos Esotéricos. José Manuel Anes. «… assim o alchimico, ao operar, materialmente quanto aos processos, mas transcendentemente quanto às operações, sobre a matéria, visa transformar o que a matéria symboliza, e a dominar o que a matéria symboliza para fins que não são materiais»

Bodas alquímicas, Donum Dei, séc. XVII
Cortesia de wikipedia

«Ora, este último parágrafo, que refere o contacto com os símbolos magicamente carregados e, com os mitos, quer sejam verdadeiros, ou verdade, vai estabelecer a ponte para a interpretação, por parte de pessoa, da alquimia laboratorial, que ele conhecia, pelo menos, através do Tratado português do século XVIII, Ennoea, ou a Aplicação do Entendimento sobre a Pedra Filosofal, de Anselmo Caetano Munhoz e Castelo Branco, livro que pertencia à sua biblioteca. Yvette Centeno, que patrocinou e apresentou a reedição do Ennoea na Gulbenkian, em 1987, ano em que sai, em Mafra, uma outra reedição, com prefácio de Manuel Gandra, é responsável pela publicação (entre muitas outras valiosas peças) de um interessantíssimo fragmento do espólio pessoano, justificativo da alquimia laboratorial:

os elementos que compõem a matéria têm um outro sentido; existem não só como matéria, mas também como símbolo. Há, por exemplo um ferro-matéria; há porém, e ao mesmo tempo, e o mesmo ferro, um ferro-símbolo. Cada elemento simboliza determinada linha de força supermaterial e pode, portanto, ser realizada sobre ele uma operação ou acção, que o atinja e o altere, não só no que elemento, mas também no que símbolo (...) assim o alchimico, ao operar, materialmente quanto aos processos, mas transcendentemente quanto às operações, sobre a matéria, visa transformar o que a matéria symboliza, e a dominar o que a matéria symboliza para fins que não são materiais.

René Alleau, no seu livro Aspects de L'Alchimie Traditionelle (1953), afirmará mais tarde,  em notável acordo com a tese pessoana, que a alquimia, ao constatar que tudo o que é observável é simbólico, afirma que tudo o que é simbólico é observável.
Alguns textos de Pessoa parecem estar de acordo com a afirmação dos rosa-crucianos de que a Alquimia espiritual e a alquimia material são respectivamente, o Ergon e o Parergon. Por exemplo, aquele excerto que tem a ver com as proximidades divina e satânica das duas alquimias:
  • a alquimiu material é satânica, o espiritual é divina.
Neste contexto, cite-se Álvaro de Campos que, na Ode Marítima, irá evocar o

Deus dum culto ao contrário,
um Deus monstruoso e satânico,
um Deus dum panteísmo de sangue.
Álvaro de Campos - Livro de versos.

Mas ao mesmo tempo Pessoa escreve que:
  • Tudo é um. O satânico é tamsómente a materialização do divino.
Esta perspectiva global e integradora dos diversos planos da realidade, bem característica da alquimia, está bem clara no poema que Dalila Pereira da Costa cita no seu livro pioneiro:

Sursum Corda. Erguei as almas!
Toda a matéria é espírito,
porque Matéria e Espírito são apenas nomes confusos,
dados à grande sombra que ensopa o Exterior em sonho
e funde em Noite e Mistério o Universo excessivo!



Como o está no texto anteriormente citado e que atribui como verdadeira criação da Pedra Filosofal, o fazer dentro de si mesmo a união dos dois princípios, o material e o espiritual, o masculino e o feminino, o racional e o emocional, etc. Esta unidade da Realidade e também, portanto, das técnicas adequadas para se progredir nela, é referida em textos do Poeta/Mago e Alquimista, que estabelecem uma ponte entre este parágrafo (Alquimia) e o seguinte (Magia)». In José Manuel Anes, Fernando Pessoa e os Mundos Esotéricos, Ésquilo 2008, ISBN 978-989-8092-27-4.

domingo, 23 de dezembro de 2012

A Alma Secreta de Portugal. A Reabilitação Científica do Esoterismo. «Uma tolerância activa não é uma tolerância passiva. É necessário abrir-se ao desconhecido. O desconhecido é o outro. E isso é o que nos assusta; “o outro”. Por isso é que há fenómenos de racismo, porque o outro é misterioso, estranho, diferente»


Painel que se encontra por cima do altar da Capela Templária da Quinta da Regaleira. 
É uma imagem muito peculiar e de grande beleza. Sob a égide do Espírito Santo, 
Cristo Ressuscitado, o iniciador coroa Maria. 
Maria com os seus braços cruzados simboliza a alma harmonizada pronta a receber a luz do Eu-espiritual.
jdact e cortesia de wikipedia

(continuação)

Entrevista com José Manuel Anes
O Mundo Imaginal e a Catástrofe Metafísica do Ocidente

Paulo: Depois de todos estes estudos relacionados com a antropologia da religião e o pensamento simbólico, não haveria a possibilidade, digamos, de efectuar uma síntese com o escopo de os divurgar não só no ensino universitário, como já acontece, mas também no ensino secundário? O obiectivo seria que um aluno do ensino secundário soubesse o que era o Rito, o que ere o Mito, em que consiste a linguagem dos símbolos, qual o conceito de sagrado como elemento estruturante da consciência humana. Qual é o seu ponto de vista sobre esta proposta?
José: Eu penso que sim. E, digamos, não apenas a antropologia da religião e do simbólico mas, mais geral, a antropologia cultural. Penso que a antropologia cultural moderna poderia proporcionar uma grande educação cívica aos nossos jovens, isto é, substituir deste modo aquelas disciplinas que no nosso tempo se chamavam, por exemplo, religião e moral, abrindo espaço e respeitando o espaço daqueles que quiserem uma formação moral e religiosa. Eu penso que o Estado deveria fornecer um tipo de formação cívica com base numa antropologia esclarecida. Abertura ao outro lado da antropologia, ao estudo do outro. E, para estudar o outro, temos que nos abrir ao outro, não com arrogância, não com etnocentrismo, mas com compreensão, com aquilo que muitos não gostam que se chame assim, mas que é a tolerância. Uma tolerância activa não é uma tolerância passiva. É necessário abrir-se ao desconhecido. O desconhecido é o outro. E isso é o que nos assusta: o outro. Por isso é que há fenómenos de racismo, porque o outro é misterioso, estranho, diferente. Mas temos de compreender o que é diferente. A antropologia tinha um papel muito importante. Lamento que ela tenha sido escorraçada também dos currículos do secundário.
Paulo: Os jovens hoje em dia têm uma carga horária brutal, ocupada, na sua maioria, por disciplinas de ordem teórico-racional, o que para os mais sensíveis tem um impacto muito negativo. Deveria haver disciplinas que estimulassem a imaginação criadora e o pensamento simbólico. Neste caso a antropologia pode vir a ter uma função importante.
José: Exactamente. Creio até que uma antropologia bem leccionada, e também é possível ministrar uma antropologia expressiva, actualizada e aberta, sem deixar de ser científica, podia realmente preparar-nos para sermos mais tolerantes, mais fraternos com os outros e também abertos a outras dimensões do espírito humano que não fosse apenas a dimensão racional.

O Cristianismo Esotérico e a Dimensão Divina do Homem
"Não sabeis que sois o templo de Deus e que o Espírito de Deus habita em vós? In São Paulo

Paulo: Outra área que também tem merecido a atenção do mundo académico, nomeadamente no seguimento das descobertas dos Manuscritos do Mar Morto e da Biblioteca de Nag Hammadi, é o estudo histórico, e até hermenêutico, neste caso, dou como exemplo a professora Elaine Pagels, das origens do cristianismo. Qual é o seu olhar sobre o período inicial da religião cristã?
José: No começo do cristianismo, durante os três primeiros séculos, havia várias correntes, várias interpretações, não havia norma. A primeira corrente que surge é, a Igreja de Jerusalém, que nunca aceita a divindade de Cristo, a Igreja de Tiago. O grande construtor dessa dimensão divina de Cristo é São Paulo. Não vamos dizer que ela não existisse já, ela existe ab initio, mas é realmente São Paulo que dá essa dimensão divina a Cristo.
Paulo: Mas em São Paulo, segundo muitos hermeneutas, o seu Cristo é um Cristo interno, que deve ser despertado no interior do ser humano. S. Paulo, com todo o seu esoterismo cristão, parece professar aquilo a que Gilbert Durand chamou o monoteísmo do eu. No fundo é aquele conceito de Atma do Oriente, a Célula de Deus no homem, conforme a expressão utilizada por António Cândido Franco. Conceito, segundo o qual, só através da alma espiritual o homem chega ao Pai.
José: Jean-Pierre Laurant, num livro recente, propõe que, em vez de doutrina interna ou oculta, o esoterismo é a doutrina da constituição oculta divina do homem.
Paulo: Que interessante.

In Paulo Loução, A Alma Secreta de Portugal, Ésquilo Edições & Multimédia, 2004, ISBN 972-8605-15-3.

continua
Cortesia de Ésquilo/JDACT