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domingo, 3 de janeiro de 2016

Duas Estratégias. D. João II vs Colombo. José M. Garcia. «E anunciou ao próprio sereníssimo rei como navegara para além do já navegado 600 (sic) léguas, quer dizer,450 ao sul e 250 ao norte, até um promontório por ele chamado cabo de Boa Esperança, que supomos em Agesimba»

jdact

Sobre a negação do apoio de João II ao projecto de Colombo
«(…) De acordo com o que Colombo escreveu no seu diário no dia 9 de Março de 1493 João II recebeu-o bem mas que entendia que en la capitulaçion que havia entre los reys e el que aquella conquista le pertencia. A lo qual respondió el almirante que no avia visto la capitulaçion ni sabia outra cosa, sino que los reys le avían mandado que no fuesse a la Mina ni en toda Guinea. Fernando Colombo e Bartolomeu Las Casas souberam que Colombo não foi apoiado por João II alegando que lhe apresentara exigências excessivas, quer no pedido do financiamento da coroa para a realização da sua viagem, quer na solicitação de grandes honrarias como recompensa do esperado sucesso do seu empreendimento. Temos de reconhecer que as promessas de doacção das terras descobertas dadas por João II estavam longe de poderem corresponder às exigências feitas por Colombo aos Reis Católicos em Santa Fé em 1492. Na conjuntura em que João II recusou apoio a Colombo autorizou a realização de uma viagem para ocidente a Fernão Domingues Arco, morador na ilha da Madeira, prometendo-lhe a 30 de Junho de 1484 a doacção de uma ilha que ora vai buscar, isto é, estaria na iminência de iniciar uma viagem de descobrimento. Colombo referiu-se a essa intenção de descobrimento no seu diário da primeira viagem no dia 9 de Agosto de 1492 ao escrever que se acuerda que estando en Portugal el ano de 1484 vino uno de la madera al rey a le pedir una caravela para ir a esta tierra que via, el qual jurava que cada año la via y siempre de una manera.
Foi contra o apoio dado pelo rei a Fernão Domingues Arco que Fernando Colombo e Las Casas se referiram ao indicarem que Colombo se teria mostrado muito irritado com tal atitude, pois alegaram que ele teria mandado fazer uma exploração secreta do Atlântico para encontrar terras a ocidente que o genovês se tinha proposto encontrar. Ora, nem a realização da tal viagem está atestada como tendo sido realizada nem o está a irritação de Colombo, como o revela a circunstância de antes de 20 de Março de 1488 ter pedido a João II um salvo-conduto para regressar a Portugal, o qual lhe foi concedido nesta data com palavras de muito apreço. Depois de Colombo ter apresentado o seu projecto descobridor aos Reis Católicos, que também o recusaram, ele talvez voltasse a ter esperança em 1488 de que João II reconsiderasse a sua posição anterior e ainda pudesse alcançar êxito em Portugal no empreendimento com que sonhava, depois de ter sabido de outros malogros portugueses. Com efeito o monarca português confrontara-se em 1486 com o insucesso da segunda viagem de Diogo Cão, que não descobrira a almejada passagem para o Oceano Índico, e em Março de 1487 com a não realização da planeada viagem de Dulmo para ocidente. Por outro lado, Colombo sabia que em 1488 ainda não havia notícia dos resultados da viagem de Bartolomeu Dias iniciada em Agosto de 1487, pelo que foi neste contexto pedir autorização a João II para regressar a Portugal, acto que o rei português autorizou. A possibilidade de Colombo ter voltado a Portugal na sequência desta autorização é de aceitar tendo em conta a verosimilhança de ser da sua autoria o seguinte texto:

«Apóstila de Colombo sobre Bartolomeu Dias no seu exemplar da Imago mundi
Nota quod hoc anno de 88, in mense decembri apulit in Ulixbona Bartholomeus Didacus, capitaneus trium carauelarum, quem miserat serenissimus rex Portugalie in Guinea ad temtandum terram. […]»

Tradução portuguesa
«Nota que neste ano de 88, no mês de dezembro, atracou em Lisboa Bartolomeu Dias, capitão de três caravelas, que o sereníssimo rei de Portugal tinha mandado à Guiné a tentear a terra. E anunciou ao próprio sereníssimo rei como navegara para além do já navegado 600 (sic) léguas, quer dizer,450 ao sul e 250 ao norte, até um promontório por ele chamado cabo de Boa Esperança, que supomos em Agesimba. E achou que neste lugar distava pelo astrolábio da linha equinocial 45 graus; o lugar mais remoto dista de Lisboa 3100 léguas. Desenhou esta viagem e descreveu-a légua a légua em uma carta de marear para a apresentar diante dos olhos do sereníssimo rei. Em tudo estive presente. Isto concorda com as palavras de Marino, que Ptolomeu emenda acerca da viagem aos Garamantes, o qual disse que percorreram para além da equinocial 27500 estádios, o que Ptolomeu impugna e emenda».

In José Manuel Garcia, D. João II vs Colombo, Duas Estratégias divergentes na busca das Índias, Quidnovi, 2012, Vila do Conde, ISBN 978-989-554-912-2.

Cortesia de Quidnovi/JDACT

sexta-feira, 17 de julho de 2015

Duas Estratégias Divergentes na Busca das Índias. D. João II vs Colombo. José M. Garcia. «,,, as quais não tiveram sucesso até 1483, tal como nos anos seguintes até 1492, sobretudo porque a maior parte delas havia sido realizada a partir dos Açores em latitudes que não eram as adequadas»

jdact

Sobre a negação do apoio de João II ao projecto de Colombo
«(…) Também se tem alegado que em Portugal haveria a percepção de que o valor do grau terrestre era superior ao que era defendido pelo genovês, pelo que ali seria considerada a distância até à Ásia rumando para ocidente muito superior à que este admitia na sequência da teoria de Toscanelli. Com efeito Colombo pensava que a circunferência da Terra mediria 20 400 milhas, 30 000 km, isto é, menos l0 000 km do que na realidade. Perante esta questão temos de apontar que Colombo referiu em 1485 serem as medidas de um módulo de 14 2/3 léguas por grau que ele defendia corroboradas por mestre José Vizinho, pois escreveu o mesmo achou mestre José, físico e astrólogo e outros muitos, enviados com este fim só pelo sereníssimo rei de Portugal. Esta afirmação não é segura, pois sabemos que pela mesma altura Bartolomeu Dias avaliava o valor do grau pelo módulo de 16 2/3 léguas.
O rei português, ainda que pudesse aceitar a possibilidade de haver terras a ocidente das ilhas dos Açores ou de Cabo Verde, encarava tal assunto com reserva, sendo de admitir que o fundamento essencial da sua recusa residisse no facto de não estar interessado em investir em viagens para ocidente, as quais deixava ao cuidado de investidores particulares, visto o seu empenhamento estar virado para a exploração do litoral africano para sul e oriente, de forma a chegar à Índia. É elucidativo relembrar que João II autorizou a 3 de Março de 1486 a iniciativa privada proposta pelo flamengo Fernão Dulmo (Ferdinand van Olmen), capitão da ilha Terceira na parte das Quatro Ribeiras, e João Afonso Estreito, madeirense, com a colaboração de Martin Behaim, que queriam fazer ambiciosas explorações para ocidente, cujas despesas seriam arcadas pelos próprios.
João II tinha consciência das dificuldades com que os portugueses se deparavam durante a realização das explorações atlânticas para ocidente, as quais não tiveram sucesso até 1483, tal como nos anos seguintes até 1492, sobretudo porque a maior parte delas havia sido realizada a partir dos Açores em latitudes que não eram as adequadas para realizar viagens a terras que depois se saberiam ser da América e eram por então denominadas geralmente por Ilha das Sete Cidades e Antilia.
Colombo ao considerar as experiências negativas que os portugueses da Madeira e dos Açores ou mesmo de Cabo Verde teriam em chegar a uma ilha ocidental e analisando eventualmente o mapa de Toscanelli, que teria semelhanças com o registo cartográfico expresso no globo de Martin Behaim, constataria que a forma de poder chegar ao seu objectivo passava por ir em busca dessas terras sempre para ocidente a partir da latitude das Canárias. Durante as suas viagens com os portugueses o nosso genovês terá observado ser tal rumo o mais propício e por isso em 1492 navegou ao longo da orla norte da zona de ventos alísios, rota tanto mais aconselhável quanto não podia ser seguida pelos portugueses desde 1479, de acordo com o teor do Tratado de Alcáçovas então assinado, pois através deste acordo o exclusivo das navegações e dos domínios dos portugueses situavam-se a sul de um paralelo a sul do cabo Bojador. Foi desta forma que Colombo seguiu por uma linha a norte desse cabo e de um paralelo às Canárias para fazer o seu descobrimento, que assim estaria fora da alçada dos portugueses como veio a defender. Ainda assim João II pretendeu que tais terras ficariam nos seus domínios, como o afirmaram Rui de Pina e João de Barros. O primeiro destes autores escreveu que João II em 1493 mandou vir Colombo ante si e mostrou por isso receber nojo e sentimento, assim por crer que o dito descobrimento era feito dentro dos mares e termos de seu senhorio de Guiné, em que se oferecia dissenção.
Quanto a João de Barros declarou que João II com a nova do sítio e lugar que lhe Colom disse da terra deste seu descobrimento ficou mui confuso e creo verdadeiramente que esta terra descoberta lhe pertencia, e assim lho davam a entender as pessoas do seu conselho». In José Manuel Garcia, D. João II vs Colombo, Duas Estratégias divergentes na busca das Índias, Quidnovi, 2012, Vila do Conde, ISBN 978-989-554-912-2.

Cortesia de Quidnovi/JDACT

terça-feira, 29 de abril de 2014

Duas Estratégias Divergentes na Busca das Índias. D. João II vs Colombo. José M. Garcia. «… que este vinha do descobrimento das ilhas de Cipango e de Antilha, e que tendo-o João II mandado vir ante si, ele especialmente acusava-se el-rei de negligente, por se escusar dele por míngua de crédito e autoridade…»

jdact e wikipedia

Sobre a negação do apoio de João II ao projecto de Colombo
«(…) É de realçar aqui o ênfase colocado na ideia de se estar prestes a entrar no oceano Índico e a ultrapassar um ponto geográfico denominado Promontório Prasso, que seria então situável nos confins meridionais da África. O rei João II tinha a esperança de que este obstáculo pudesse ser finalmente ultrapassado por Diogo Cão no decorrer da sua segunda viagem de descobrimento, que se iniciou no Outono de 1485, altura em que Colombo já deixara Portugal visto ter partido para Castela depois de ter estado com José Vizinho ainda nesse ano.
Nos primeiros tempos que passou em Castela o genovês foi considerado como português, na medida em que, não sendo ali conhecido e tendo vindo de Portugal, esta proveniência facultava-lhe uma espécie de identidade que para os seus projectos lhe poderia ser vantajosa por lhe dar credibilidade, tendo em conta que os Portugueses estavam então bem cotados nos meios marítimos. Note-se que a origem portuguesa de Fernão de Magalhães e a sua experiência nos meios náuticos e orientais dos portugueses lhe deram a credibilidade necessária para que Carlos V tivesse aprovado a sua intenção de ir às Molucas por ocidente.
Os fundamentos que levaram Colombo a deixar Portugal em 1485 terão certamente resultado do facto de ter perdido a esperança de aí poder alcançar o apoio para a realização do seu projecto de atingir Cipango, as Índias ou outras ilhas como a Antilia, sendo ainda possível que tivesse problemas de dívidas, esperando que a ida para Espanha lhe viabilizasse a concretização dos seus anseios descobridores e a resolução de eventuais dificuldades económicas.
Rui de Pina, que foi secretário do rei João II e terá conhecido Colombo, além de ter participado logo em 1493 na primeira fase das negociações que iriam conduzir no ano seguinte à assinatura do Tratado de Tordesilhas, afirmou em 1504 a propósito da chegada de Colombo a Lisboa, por ele situada a 6 de Março de 1493, que este vinha do descobrimento das ilhas de Cipango e de Antilha, e que tendo-o João II mandado vir ante si, ele especialmente acusava-se el-rei de negligente, por se escusar dele por míngua de crédito e autoridade, acerca deste descobrimento para que primeiro o viera requerer. Na sua sequência Garcia de Resende, que também foi contemporâneo de Colombo, mas copiou em grande parte o que Rui de Pina escreveu, referiu cerca de 1533 que ele acusava el-rei por se escusar deste descobrimento e não no querer mandar a isso, pois primeiro se lhe viera oferecer que aos reis de Castela, e que fora por lhe não dar crédito.
João de Barros ao escrever sobre Colombo seguiu em parte o que referiu Rui de Pina mas alargou o teor das informações que possuía ao publicar em 1552 que primeiro que fosse a Castela andou com ele mesmo rei João, que o armasse pêra este negócio, o que ele não quis fazer (...), registando ainda que veio requerer a el-rei Dom João que lhe desse alguns navios pêra ir descobrir a ilha Cipango per este mar ocidental, e explicou que o fundamento desse pedido estaria mais nas influências suscitadas pela leitura do livro de Marco Polo do que nas informações que ele teria sabido de algumas ilhas ocidentais, como haviam referido outros autores, adiantando que o genovês, mesmo que não chegasse à terra pretendida, poderia pelo menos descobrir alguma ilha que desse para pagar as despesas do empreendimento que se propunha levar a cabo.
Damião de Góis, que em 1540 foi o primeiro português a publicar uma informação sobre Colombo, aludiu ao facto de que: Em sua vida, o genovês Colombo, muito perito na arte de navegar, ofereceu-lhe seu serviços e prometia viajar para a Índia, seguindo a rota do Ocidente. Não o atendeu o monarca, ordenando-lhe que se retirasse, pelo que ele se acolheu à proteção e serviço dos reis de Castela, Fernando e Isabel. O parecer negativo dado a Colombo resultaria fundamentalmente da sua míngua de crédito e autoridade, como dissera Rui de Pina, e porque certamente a tese de Toscanelli continuava a não ser aceite em Portugal». In José Manuel Garcia, D. João II vs Colombo, Duas Estratégias divergentes na busca das Índias, Quidnovi, 2012, Vila do Conde, ISBN 978-989-554-912-2.

Cortesia de Quidnovi/JDACT

sexta-feira, 27 de dezembro de 2013

Duas Estratégias Divergentes na Busca das Índias. D. João II vs Colombo. José M. Garcia. «El-rei porque via ser este Christouã Colom homem falador e glorioso em mostrar suas habilidades, e mais fantástico e de imaginações com sua ilha Cipango, que certo no que dizia; dava-lhe pouco crédito. E com este desengano espedido ele del-rei se foi pêra Castela, onde também andou ladrando este requerimento (...)»

Cortesia de wikipedia e jdact

O rei João II em Carnide em 1483
«(…) O assunto da proposta de descobrimento por Colombo poderá ter sido suficientemente importante para que João II tenha feito expressamente essa deslocação de muito curta duração, pois não teria havido outra motivação para então ir precisamente a Carnide. Conjugando todos estes dados podemos deduzir estar bem fundamentada a possibilidade de ter ocorrido em Carnide em Junho de 1483 o encontro entre Colombo e João II durante o qual o primeiro se propôs realizar uma viagem para ocidente visando chegar a terras da Ásia, de que se haviam localizado alegados indícios no mar que ali se encontravam. Terá, sido neste contexto que surgiu a oportunidade do rei permitir que Colombo visse as canas de que já ouvira falar e se guardavam no famoso santuário daquela povoação.

Sobre a negação do apoio de João II ao projecto de Colombo
El-rei porque via ser este Christouã Colom homem falador e glorioso em mostrar suas habilidades, e mais fantástico e de imaginações com sua ilha Cipango, que certo no que dizia; dava-lhe pouco crédito. Contudo à força de suas importunações mandou que estivesse com Dom Diogo Ortiz, bispo de Ceuta, e com mestre Rodrigo e mestre Josope (= José), a quem ele cometia estas cousas da cosmografia e seus descobrimentos; e todos houveram por vaidade as palavras de Christouam Colom, por tudo ser fundado em imaginações e cousas da ilha Cipango de Marco Polo (...). E com este desengano espedido ele del-rei se foi pêra Castela, onde também andou ladrando este requerimento (...).

Esta informação de João de Barros sobre a negação do apoio ao projecto de Colombo é a mais completa que possuímos sobre este assunto e permite-nos sugerir a circunstância de o principal responsável para a negação de apoio a Colombo ter sido Diogo Ortiz Vilhegas, também na altura referenciado por licenciado Calçadilha visto ter nascido nessa povoação castelhana, já que o genovês parece ter mantido boas relações com José Vizinho, pois a ele alude por duas vezes nas suas notas relativamente ao ano de 1485. Diogo Ortiz viera para Portugal em 1475 como confessor de D. Joana, a Excelente Senhora, depois de ter sido regente da cadeira de Astrologia na Universidade de Salamanca entre 1469 e 1475.
O desfecho do caso do pedido de apoio de Colombo a João II poderá ter-se arrastado até 1484, pois o rei teria querido aguardar pelo regresso de Diogo Cão, que acabou por chegar a Portugal pouco antes de 8 de Abril de 1484, data em que recebeu a generosa tença anual de 10 000 reais brancos, a que se seguiu a 14 de Abril de l484 a concessão de uma carta de brasão com as honras de fidalgo. Todas estas recompensas revelam o regozijo do rei perante as notícias dos progressos então alcançados, tendo-o levado à convicção de que as suas caravelas tinham estado próximo do extremo sul da África e da almejada passagem para o oceano Índico. Esta atitude é revelada através da oração de obediência de João II ao papa Inocêncio VIII que foi pronunciada a 11 de Dezembro de 1485 por Vasco Fernandes Lucena, na qual se reflectem as expectativas abertas pela viagem de Diogo Cão, pois nesse documento' então impresso em Roma, pode ler-se em tradução portuguesa recente:

A tudo isto acresce, enfim, a segura esperança de explorar o Golfo Arábico, onde os reinos e nações dos que habitam a Asia, apenas de nós conhecidos por obscuríssima fama cultivaram com a maior devoção a fé santíssima do Salvador, e em relação aos quais, se é verdade o que ensinam os mais autorizados geógrafos, a navegação dos portugueses já está a poucos dias de viagem. De facto, percorrido já na sua maior parte o périplo de África, os nossos homens aportaram o ano passado perto do Promontório Prasso, onde começa o Golfo Arábico; tendo esquadrinhado todos os rios, litorais e portos numa distância de mais de 4500 milhas a contar de Lisboa, segundo a mais rigorosa observação do mar, das terras e das estrelas. Uma vez explorada esta região, já me parece que estou a ver quanto e quão grandes cúmulos de fortuna, honra advirão para todo o povo cristão e especialmente para vós, Santíssimo Padre, para os vossos sucessores e para esta Sé sacratíssima de Pedro.

In José Manuel Garcia, D. João II vs Colombo, Duas Estratégias divergentes na busca das Índias, Quidnovi, 2012, Vila do Conde, ISBN 978-989-554-912-2.

Cortesia de Quidnovi/JDACT

quarta-feira, 20 de novembro de 2013

Duas Estratégias Divergentes na Busca das Índias. D. João II vs Colombo. José M. Garcia. «… até datar o encontro de Colombo e João II em Carnide resulta de ter sido aí que se encontra atestada a única presença próximo de Lisboa de João II, no seu reinado, em que Colombo esteve em Portugal»

Cortesia de wikipedia e jdact

O rei João II em Carnide em 1483
«(…) A possibilidade que defendemos de localizar e até datar o encontro de Colombo e João II em Carnide resulta de ter sido precisamente aí que se encontra atestada a única presença próximo de Lisboa de João II durante a parte do seu reinado em que Colombo esteve em Portugal. Tal facto é possível de determinar através da análise do itinerário de João II entre 1481 e 1485, tal como este foi estabelecido por Joaquim Veríssimo Serrão. Graças a este trabalho verificamos que durante aqueles anos e mais precisamente entre 1483 e 1484, anos durante os quais se tem situado tal encontro, o rei esteve quase sempre longe de Lisboa, com receio da peste, tendo começado em 1483 por estar em Santarém / Almeirim / Torres Novas (Janeiro / Maio), andando depois por Avis / Évora (Maio / Junho). O rei João II ficou em Évora até 13 de Julho com a única excepção de ter atestado a sua presença em Carnide a 12 de Junho de 1483. Foi neste dia que aí assinou uma carta enviada a Garcia de Meneses, bispo de Évora, acusando-o de abusos de jurisdição que punham em causa a autoridade régia. Por estes dias decorria em Évora  o processo contra o duque de Bragança, que a 30 de Maio fora preso sob a acusação de conspiração, tendo sido executado a 20 de Junho, depois do libelo acusatório ter sido preparado durante vinte e dois dias.
Continuando a seguir o itinerário de João II verificamos que este esteve em Évora até a deixar a 13 de Julho indo depois para Abrantes, onde estava a 15 de Julho, iniciando a 12 de Outubro uma extensa volta pelo Norte do país que o levou a Lamego, Vila Real, Chaves, Bragança, Guimarães, Braga, Barcelos, Porto, Aveiro e Coimbra até chegar a Santarém cerca de 24 de Março de 1484. Assinalamos ter sido nesta última povoação que se verificou um conjunto de factos relacionáveis com a recusa do apoio ao projecto de Colombo, de entre os quais realçamos os seguintes ocorridos a:
  • 8 e 14 de Abril, o rei recompensou generosamente Diogo Cão, recém chegado dos seus descobrimentos do Congo e Angola;
  • 15 de Maio, atestou-se a presença do licenciado Calcedilha;
  • a 30 de Junho de 1484 prometeu-se a Fernão Domingues Arco a doação da capitania de uma ilha que há de ir buscar.
A7 de Julho de 1484, João II foi até Alcochete e depois Setúbal, de onde a 12 de Setembro foi para Évora e de seguida para Castelo Branco, até voltar para Santarém/Almeirim entre Outubro/Novembro e ir até Coruche e Montemor-o-Novo em Dezembro. Face a este panorama das deslocações de João II podemo-nos perguntar porque é que João II estando em Évora em Junho de 1483 se decidiu a sair daí para fazer uma rápida incursão a Carnide por volta do dia 12 de Junho, tanto mais que durante o seu reinado não atestou qualquer outra presença nesta residência. A resposta que sugerimos é a de que esta súbita e rápida deslocação de João II a este local se possa relacionar com o encontro com Colombo, por ser precisamente nesse sítio que se encontravam as canas que tanto interessavam o genovês, como depois interessaram Behaim e Münzer. Além desta perspectiva há a considerar, na sequência de uma observação de Joaquim Veríssimo Serrão, que o monarca queria deixar a justiça agir livremente no respeitante à condenação do duque de Bragança. Manuela Mendonça chamou-nos ainda a atenção no sentido de que João II nomeou um monteiro para Carnide a 30 de Maio, Álvaro Gonçalves. O facto de haver documentos de chancelaria para este dia, com registos de Évora, nada significa, pois a dita pode ter ficado a trabalhar e ele ter ido só com um escrivão.
O rei teria muitos outros sítios para se deslocar mas quanto a nós a sua opção de ir a Carnide recaiu nesse lugar secundário e tão afastado de Évora por causa da coincidência de ser aquele onde se encontravam as canas que se alegava virem do Oriente e tanto interessavam Colombo». ». In José Manuel Garcia, D. João II vs Colombo, Duas Estratégias divergentes na busca das Índias, Quidnovi, 2012, Vila do Conde, ISBN 978-989-554-912-2.

Cortesia de Quidnovi/JDACT

sexta-feira, 1 de novembro de 2013

Duas Estratégias Divergentes na Busca das Índias. D. João II vs Colombo. José M. Garcia. «Vimos também pequenas lanças feitas de canas, com pontas agudíssimas, que os etíopes chamam azagaias, arcos, bestas (?), e dardos, com agudíssimas pontas de ferro»

Cortesia de wikipedia e jdact

As canas nos testemunhos de Martin Behaim e Jerónimo Münzer
«(…) O registo deste episódio encontra-se no seguinte trecho do seu Itinerário com a descrição da viagem a Espanha e Portugal, que transcrevemos com a sua tradução portuguesa.

Texto do Itinerário de Jerónimo Münzer sobre a sua visita ao Santuário de Nossa Senhora da Luz a 30 de Novembro de 1494. Tradução portuguesa:
Domingo, que era o ultimo dia de Novembro, fomos a Santa Maria da Luz, que fica a uma milha de Lisboa, que é ali muito conhecida pelos seus milagres. Aí vimos um bico de pelicano, que é semelhante ao do onocratalo, embora não tão largo; tem uma grande bolsa à altura do orifício do estômago; é menor que o cisne e maior que o ganso e todas as suas plumas são cinzentas. Abunda na Guiné. Vimos também cenas das que as tempestades do mar lançam do Oriente para as ilhas da Madeira e do Faial. Vimos duas, uma das quais media 16 palmos e tinha e grossura do meu pulso, tendo os internódios o comprimento de uma braça. Por isto acredito no que diz Plínio no livro VI sobre a grandeza das canas. Vimos também pequenas lanças feitas de canas, com pontas agudíssimas, que os etíopes chamam azagaias, arcos, bestas (?), e dardos, com agudíssimas pontas de ferro, tudo feito com canas. Vimos ainda um pequeno crocodilo. Vimos igualmente umas serras, que são os bicos de uns peixes enormes, à maneira de uma serra feita de osso duríssimo, com a qual aqueles peixes cortam as madeiras dos navios como com uma serra. Vimos tais serras que são duríssimas e mediam um palmo de largura por duas braças de comprimento.

Neste texto é de realçar a referências às canas das que as tempestades do mar lançam do Oriente para as ilhas da Madeira e do Faial, de que Münzer viu duas, uma das quais tinha cerca de 3,5 metros, tendo entre os nós cerca de 1,76 metros, com a grossura de um pulso, descrição mais completa do que a de Colombo, pois na versão transmitida pelo seu filho Fernando Colombo limita-se a dizer serem as canas muito grossas, calculando que entre um nó e outro caberiam nove garrafas de vinho. Estas canas foram consideradas pelos portugueses como objectos dignos de admiração por isso as guardaram na igreja de Nossa Senhora da Luz, onde entre cerca de 1483 e 1494 despertaram a atenção de pessoas interessadas por assuntos de geografia, com destaque para os defensores da tese da existência de terras orientais a que se poderia chegar navegando rumo a ocidente.
A igreja de Nossa Senhora da Luz é um local de culto inaugurado a 8 de Setembro de 1464 por Afonso V na sequência de um alegado milagre ali ocorrido junto da Fonte da Machada. Foi neste local que desde então se formou uma espécie de museu de objectos curiosos ligados ao mar e terras exóticas que foram oferecidos por mareantes devotos (sobre a igreja de Santa Maria da Luz a obra mais importante é a do padre frei Roque do Soveral). A igreja em causa ficava em Carnide, uma aldeia situada a uns seis quilómetros da actual Praça do Comércio, onde havia uma residência por onde passaram ocasionalmente alguns reis portugueses, dos monarcas Duarte a Manuel I, da qual não restam vestígios.
Foi nesta igreja de Nossa Senhora da Luz que João II mandou mostrar a Colombo as canas que tanto o entusiasmavam, pois alguém as mandara ali guardar ao lado de outros objectos estranhos como eram aqueles que chamaram a atenção de Münzer. As canas vistas por Colombo em 1483 foram as mesmas que Münzer viu em 1494, pois se elas estivessem noutro lugar de Lisboa este último tê-lo-ia mencionado e não se teria deslocado expressamente a Carnide para as ver, não sendo provável que numa década tivessem mudado de sítio.

O rei João II em Carnide em 1483
Tendo em conta o texto escrito por Fernando Colombo e as restantes observações que alinhámos sobre as canas fomos levados à formulação da hipótese de que Colombo as terá visto em Carnide, por ser aí que elas se guardavam, e de ter sido também aí que falou com João II a propósito da possibilidade de se poder chegar ao Oriente por um rumo ocidental». In José Manuel Garcia, D. João II vs Colombo, Duas Estratégias divergentes na busca das Índias, Quidnovi, 2012, Vila do Conde, ISBN 978-989-554-912-2.

Cortesia de Quidnovi/JDACT

sexta-feira, 11 de outubro de 2013

Duas Estratégias Divergentes na Busca das Índias. D. João II vs Colombo. José M. Garcia. «A 30 de Novembro de 1494, Münzer deslocou-se à igreja de N. Srª da Luz para ver as famosas canas que tanto o interessavam…»

Túmulo de João II
jdact

As canas nos testemunhos de Martin Behaim e Jerónimo Münzer
«(…) Não deixa de ser estranho o atraso da propagação desta notícia fantástica, considerando a sua larga difusão pela impressa, nomeadamente através do folheto intitulado De insulis Indie supra Gangem, mas assim parece ter acontecido, pois de outra forma a elaboração da carta de Münzer não teria sentido. Os argumentos em prol da tese apresentada por Münzer na carta de 1493 foram-lhe em grande parte fornecidos por Behaim no sentido de fundamentar a existência das terras orientais aonde seria fácil de chegar por uma via ocidental e entre os indícios que a sustentam indicava-se a existência das canas que eram arrastadas pelo mar, como se verifica na transcrição do seguinte trecho da referida carta, em que confrontamos a versão latina com a portuguesa

Texto do extrato da cópia em latim da carta de Jerónimo Münzer tal como foi copiada por Hartmann Schedel
Considerans h[a]ec invictissimus Romanorum Rex Maximilianus matre Portugalensis voluit epistola mea quamavis rudi maiestatem tuam invitari ad qu[a]erendum orientalem Cathaii ditissimam plagam. […]


Quando Münzer escreveu esta carta ainda não tinha vindo a Portugal e por isso não podia ter feito a referência às canas e ao contexto em que lhes alude sem ser por via das informações que Behaim lhe fornecera. Behaim ao chegar a Lisboa verificou que o seu projecto tinha sido ultrapassado pela realização de Colombo em 1492-1493 e que pela assinatura do Tratado de Tordesilhas a7 de Junho de 1494 Portugal ficou afastado da exploração das rerras ocidentais recém descobertas. Terá sido por estes factores que o alemão acabou por cair no esquecimento e foi silenciado pela cronística portuguesa, com a notável excepção de João de Barros. Este autor acabou por destacar a sua acção científica reflectindo um eco que teria sido empolado e adulterado pela memória quando alegou que em tempo del-rei João segundo foi por ele encomendado este negócio [da navegaçáo astronómica] a mestre Rodrigo e a mestre Josepe judeu, ambos seus médicos, e a Martinho da Boémia, natural daquelas parte, o qual se gloreava de ser discípulo de Joane de Monte Régio, afamado astrónomo entre os professores desta ciência, os quais acharam esta maneira de navegar pela altura do sol, de que fizeram suas tavuadas pêra declinação dele, como se ora usa entre os navegantes, já mais apuradamente do que começou, em que se serviam estes grandes astrolábios de pau.
Em 1494, Münzer saiu de Nuremberga e veio a Portugal, onde a 16 de Novembro se encontrou em Évora com o rei João II, que o recebeu muito bem, tendo falado com ele longamente sobre vários assuntos relacionados com os Descobrimentos, pelos quais o alemão tinha particular interesse. No decorrer de tais conversações as canas mencionadas na sua carta de 1493 terão sido evocadas e seria na sequência da curiosidade então revelada por esses materiais que o alemão foi autorizado a vê-las quando se deslocou a Lisboa. Münzer partiu de Évora a 26 de Novembro de 1494 e depois de ter chegado a Lisboa ficou hospedado na casa do Rossio que pertencia ao sogro de Behaim. De entre as coisas de que muito se admirou nesta cidade o alemão realçou no Castelo de São Jorge um grande mapa redondo com cerca de três metros de diâmetro, que como atrás assinalámos será admissível tratar-se do mapa-mundo de Fra Mauro. A 30 de Novembro de 1494, Münzer deslocou-se expressamente à igreja de Nossa Senhora da Luz para ver entre os objectos exóticos que aí se guardavam as famosas canas que tanto o interessavam desde que no ano anterior escrevera a carta a João II». In José Manuel Garcia, D. João II vs Colombo, Duas Estratégias divergentes na busca das Índias, Quidnovi, 2012, Vila do Conde, ISBN 978-989-554-912-2.

Cortesia de Quidnovi/JDACT

Duas Estratégias Divergentes na Busca das Índias. D. João II vs Colombo. José M. Garcia. «Para fazer o seu globo Behaim recorreu a várias fontes, de entre as quais a principal foi por certo uma cópia do mapa de Toscanelli, […], aproximam-se das que estão expressas no globo»

Cortesia de vitorsantos e jdact

As canas nos testemunhos de Martin Behaim e Jerónimo Münzer
«(…) De realçar que esta ambiciosa iniciativa privada de exploração ocidental na prática tinha subjacente as ideias de Toscanelli, ainda que nela não se fale nas Índias, sendo financiada e efectuada pelos proponentes com autorização de João II. Este tinha no mesmo ano de 1487 enviado a7 de Maio Pêro Covilhã e Afonso Paiva para o Levante, em busca do Preste João e das Índias, e em Agosto de 1487 Bartolomeu Dias por mar, para encontrar a passagem que pelo sul de África permitisse aos navios Portugueses a tão desejada entrada no Índico. O monarca português apostou assim em l487 numa exploração multidirecional, de que só logrou resultados na viagem de Bartolomeu Dias. É admissível a hipótese de Behaim ainda se ter podido encontrar com Colombo em Portugal antes deste ter deixado o nosso país em 1485 e de com ele ter trocado opiniões sobre a tese de Toscanelli, pois ambos a defenderam, apesar de tal encontro não ter ficado documentado. O que sabemos ao certo é que Behaim viu as mesmas canas que tanto interessaram Colombo pois sobre elas falou na Alemanha, para onde foi na primavera de 1490 tratar de assuntos familiares e onde ficou até pouco depois de 14 de Julho de 1493, data da cartta de Jerónimo Münzer que trouxe consigo para João II, na qual contava com o apoio do imperador Maximiliano para a realização do seu projecto de ir ao Catai pelo ocidente.
Enquanto permaneceu em Nuremberga Behaim dirigiu em 1492 a construção de um famoso globo (Erdapfel) montado por Ruprecht Kolberger, para o qual forneceu informações e um mapa mundo destinado a melhor visualizar a forma da Terra de acordo com a teoria de Toscanelli. O conselho da cidade de Munique pagou a Behaim um florim de ouro e três libras pelo referido mapa, sendo legítimo supor que Behaim tenha preparado esse mapa e o globo tendo em conta as palavras de Toscanelli ao referir que ego autem quamvis cognoscam psse hoc ostendi per formam spericam…[…], isto é, eu, ainda que saiba que isso se pode mostrar por uma representação esférica, tal como é o mundo, contudo, para facilitar a compreensão e também para aliviar o trabalho de ensinar esse caminho, decidi-me a declará-lo da forma como se fazem as cartas de marear. Behaim recorreu à estratégia de fazer um globo para assim facilitar a compreensão das suas noções geográficas junto dos alemães de forma a poder receber apoio para realizar a sua desejada viagem para ocidente, a qual não lhe fora viabilizada por João II. Behaim acabou por receber o apoio e a influência do poder político expresso por Maximiliano, que em breve seria imperador alemão, pois sabemos que este governante, além de em 1493 ter apoiado a iniciativa de Behaim junto de João II, no mesmo ano e por sua mediação conseguiu que o enviado português Diogo Fernandes Correia se dirigisse aos Fugger e aos Gossembrot para que estes subsidiassem uma viagem ao Catai. As duas casas comerciais de Augsburgo estiveram dispostas a contribuir para essa missão com uma soma de 100 florins (gulden), apoio que não teria sequência devido à viagem para ocidente ter entretanto sido realizada com sucesso por Colombo.
Para fazer o seu globo Behaim recorreu a várias fontes, de entre as quais a principal foi por certo uma cópia do mapa de Toscanelli, pois as medidas nele adoptadas, tal como foram registadas na carta que o acompanhava, aproximam-se das que estão expressas no globo.
Enquanto Behaim procedia em Nuremberga entre 1490 e 1493 a diligências no sentido de obter apoios para fazer uma viagem para ocidente, Colombo diligenciou no mesmo sentido em Castela junto dos Reis Católicos. Entretanto João II entre 1489 e 1492 não realizou qualquer iniciativa para fazer avançar os Descobrimentos, nem para Oriente nem para Ocidente. Behaim voltou a Portugal com a citada carta datada de Nuremberga a 14 de Julho de 1493 que havia sido dirigida a João II por Jerónimo Münzer (cerca 1460-1508), também chamado Jerónimo Monetario, pois assinava Hironymus Monetarius. Este documento é conhecido através de uma cópia latina parcial do original que foi copiada por Hartmann Schedel na Alemanha, tendo ficado manuscrita, enquanto a sua versão portuguesa integral foi feita por mestre Álvaro da Torre, pregador de João II, e impressa em data incerta no chamado Guia náutico de Munique. No texto da carta manifesta-se o apoio de Maximiliano a uma expedição dirigida por Behaim tendo em vista a ida ao Oriente por via ocidental e não revelando qualquer elemento que indiciasse que em Nuremberga houvesse conhecimento de o projecto em causa ter acabado de ser concretizado por Colombo e por ele anunciado em Lisboa quando aí chegou a 4 de Março de 1493». In José Manuel Garcia, D. João II vs Colombo, Duas Estratégias divergentes na busca das Índias, Quidnovi, 2012, Vila do Conde, ISBN 978-989-554-912-2.

Cortesia de Quidnovi/JDACT

quinta-feira, 8 de agosto de 2013

Duas Estratégias Divergentes na Busca das Índias. D. João II vs Colombo. José M. Garcia. «Um desses indícios que lhe mereceu maior atenção foi o da existência de canas de grandes proporções que foram arrastadas pelos ventos do poente (na verdade correntes marítimas) para a ilha de Porto Santo»

jdact

Colombo e as canas vindas do Ocidente
«(…) Estas expressões constituem declarações perentórias sobre o teor dos contactos estabelecidos entre o genovês e o rei português que estivera falando com ele sobre estas coisas relacionadas com a via ocidental de chegar às Índias. Elas surgem no contexto em que se equacionou a importância dos indícios reunidos sobre terras orientais que se situavam a ocidente das ilhas atlânticas portuguesas, entre os quais se destacavam a descoberta de canas grossas em que de um nó a outro cabiam nove garrafas de vinho, que vinham do Ocidente e foram detectadas pelos portugueses.
A consistência das informações obtidas por Colombo dos indícios de terras situadas a ocidente das ilhas portuguesas do Atlântico no sentido de levar avante a teoria de Toscanelli são completadas por indicações de outros autores que seguiam também as ideias do sábio florentino.

As canas nos testemunhos de Martin Behaim e Jerónimo Münzer
O encontro de grandes bambus vindos do Ocidente constituiu um dos indícios mais consistentes entre os que foram recolhidos por Colombo com vista a fundamentar a pertinência da tese de Toscanelli sobre a acessibilidade a terras asiáticas por uma via ocidental. Por tal motivo essas plantas foram alvo da atenção não apenas do famoso genovês mas também de outros contemporâneos que como ele partilhavam da mesma convicção ser essa perspectiva preferível à seguida por João II. Esta realidade vem não apenas corroborar mas também reforçar a credibilidade do conteúdo das fontes colombinas, estando atestada por Martin Behaim e Jerónimo Münzer, dois dos homens desse tempo que revelaram grande interesse por estas matérias.
Martin Behaim, também conhecido por Martinho da Boémia, nasceu em Nuremberga a 6 de Outubro de 1459 e morreu em Lisboa a 29 de Julho de 1509. Este alemão depois de ter feito comércio na Alemanha e nos Países Baixos veio para Portugal depois de Maio de 1484, tendo a 18 de Fevereiro de 1485 sido armado cavaleiro por João II e casado antes de 1488 com Joana de Macedo, de quem teve um filho a 6 de Abril de 1489. Esta fidalga era filha do flamengo Joss vas Hurrere, conhecido como Jos Dutra, que foi capitão das ilhas do Faial e do Pico.
Behaim interessou-se pelos descobrimentos portugueses sobre os quais terá registado a sua história de acordo com o testemunho que recolheu junto de Diogo Gomes talvez entre 1485 e l490. O nosso alemão alegou ainda que participou numa viagem à costa africana com Diogo Cão, mas como não o pode ter feito na sua primeira viagem (1482-1484), resta a hipótese de ter participado na segunda (1495-1486) ou de ter viajado até à costa do Benim com João Afonso de Aveiro cerca de 1485. Note-se que foi neste ano que segundo registo de Colombo numa nota à margem do f. V da Historia rerum gestarum de Eneas Silvio Piccolomini que traduzimos:
  • El-rei de Portugal enviou à Guiné, no ano do senhor de 1485, mestre José, seu físico e astrólogo, para reconhecer a altura do sol em toda a Guiné. Este cumpriu com tudo e anunciou ao dito sereníssimo rei, estando eu presente, que (...) no dia 11 de Março achou que distava da equinocial um grau e cinco minutos na ilha chamada dos Ídolos, que está perto da Serra Leoa; e procurou isto com o máximo cuidado.
João II aludiu de forma indireta a Behaim na carta de confirmação passada a Fernão Dulmo e a João Afonso do Estreito a 24 de Julho de 1486 ao referir-se ao cavaleiro alemão que em companhia deles há de ir, que ele, alemão escolha ir em qualquer caravela que quiser, depois de a 3 de Março de 1486 ter já aprovado o projecto de Fernão Dulmo, que nos queria dar achada uma grande ilha ou ilhas ou terra firme per costa que se presume ilha das Sete Cidades e isto tudo à sua própria custa e despesa. Esta projectada viagem, que também foi do conhecimento de Colombo, deveria iniciar-se na ilha Terceira em Março de 1487 mas acabou por não se realizar». In José Manuel Garcia, D. João II vs Colombo, Duas Estratégias divergentes na busca das Índias, Quidnovi, 2012, Vila do Conde, ISBN 978-989-554-912-2.

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sábado, 13 de julho de 2013

Duas Estratégias Divergentes na Busca das Índias. D. João II vs Colombo. José M. Garcia. «Um desses indícios que lhe mereceu maior atenção foi o da existência de canas de grandes proporções que foram arrastadas pelos ventos do poente (na verdade correntes marítimas) para a ilha de Porto Santo»

Toscanelli
jdact

(…)
Colombo e as canas vindas do Ocidente
«A problematização da forma de atingir as Índias equacionada em 1474 pelo príncipe João não suscitou resultados nos tempos que se lhe seguiram por corresponderem a uma conjuntura adversa que impediu a realização de viagens de exploração, visto em 1475 ter sido necessário mobilizar em Portugal todos os meios navais, humanos e financeiros para as campanhas militares contra Castela resultantes da guerra que desde então Afonso V moveu para reivindicar a coroa deste reino, na sequência da morte de Henrique IV, ocorrida a 12 de Dezembro de 1474.
Só após a subida ao trono de João II em 1481 é que o processo dos Descobrimentos foi retomado, tendo sido então que o novo rei decidiu dar continuidade à opção henriquina de proceder a pesquisas junto da costa africana, deixando de lado a proposta sugerida em 1474 por Toscanelli. Foi neste enquadramento que antes de 31 de Agosto de 1482 João II deu ordens a Diogo Cão para navegar até onde pudesse ir ao longo do litoral africano no sentido de ver se conseguia encontrar as Índias.
Quando em l482 os descobrimentos portugueses recomeçaram Colombo continuaria a dedicar-se aos negócios do açúcar da Madeira, depois de se ter casado cerca de 1479 com Filipa Moniz, filha de Bartolomeu Perestrelo (falecido em 1458), que era filho de Fillipo Pallastrelli, um comerciante natural de Piacencia que no final do século XIV viera para Portugal. Por esse tempo Colombo ia aprendendo a arte da navegação atlântica que os portugueses então desenvolviam nas suas rotas oceânicas, tendo ido nomeadamente até à Guiné e à Mina nos primeiros anos da década de 80 do século XV. Foram os conhecimentos de navegação então adquiridos por Colombo que lhe permitiram realizar a viagem que em 1492 o iria imortalizar, mas a concepção que levou à realização de tal feito ter-lhe-á surgido quando nesse tempo teve acesso à carta e ao mapa de Toscanelli, de cuja tese passou o ser um ardente defensor.
Como Colombo não tivesse recursos financeiros para poder materializar a proposta de Toscanelli tentou obter junto de João II os meios que lhe permitissem fazer a viagem para encontrar terras do Oriente rumando a ocidente. O encontro entre estes dois homens em que esse pedido foi formulado constitui um dos episódios mais importantes da vida do famoso genovês no período da sua permanência em Portugal, o que nos leva a considerar quão importante é aprofundar este tema para tentar apurar as circunstâncias em que terá ocorrido.
Através dos testemunhos registados por Fernando Colombo e Las Casas é possível verificar que Colombo consolidou a convicção da vantagem de seguir a proposta de Toscanelli a partir da recolha de vários indícios práticos que lhe dariam consistência. Um desses indícios que lhe mereceu maior atenção foi o da existência de canas de grandes proporções que foram arrastadas pelos ventos do poente (na verdade correntes marítimas) para a ilha de Porto Santo, as quais tinham sido vistas pelos seu cunhado Pêro Correia, que disso o informou. Colombo mostrou-se convencido de que essas canas deviam vir de alguma terra asiática situada a poente, pois era dessa direcção que lhe diziam soprar o vento que trazia tais materiais, que não se encontravam na Europa nem na África. Estas canas existiam e eram do conhecimento de João II, que sobre elas falou com Colombo tendo-lhas mesmo mandado mostrar, pois sabia onde estavam guardadas e permitindo que ele as visse, quando sobre elas falaram. Estas indicações foram escritas pelos mencionados autores, pelo que de seguida as transcrevemos, pois constituem um dos temas centrais do episódio relativo à proposta do descobrimento apresentada por Colombo a João II:

Texto de Fernando Colombo

Texto de Bartolomeu Las Casas


Como acabámos de verificar por estas considerações sobre a apresentação do projecto de Colombo a João II e tal como o primeiro o deixou mencionado nos seus apontamentos, ou livros de memórias, como lhes chama Las Casas, as canas estão associadas ao teor da conversação havida, pois de acordo com Fernando Colombo».

In José Manuel Garcia, D. João II vs Colombo, Duas Estratégias divergentes na busca das Índias, Quidnovi, 2012, Vila do Conde, ISBN 978-989-554-912-2.

Cortesia de Quidnovi/JDACT