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sexta-feira, 21 de junho de 2019

Rosa Brava. José Manuel Saraiva. «Ainda não me esqueci do caso, senhora, atalhou Briolanja ao aperceber-se do que a jovem queria dizer com a história do falso sonho. Eu sei que sim, boa amiga…»

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«(…) Palavras mais desenganadoras do que estas não podia ter ouvido. Talvez Leonor preferisse que Briolanja lhe dissesse que as estrelas tinham confirmado a conquista por parte dela de um rei e de um trono para assim poder sonhar com um mundo fantástico, improvável que fosse, impossível que se revelasse. Pena que a verdade fosse tão dolorosa e que só mesmo a mentira lhe fizesse idealizar o cume de uma alcáçova e lhe consentisse a ideia de que o discreto estatuto de senhora do morgado de Pombeiro era apenas provisório e não definitivo. Depois de alguns momentos de reflexão, com ar sério e num tom de voz indisfarçavelmente cínico, fitou a ama e disse: também tive um sonho esta noite. Vê lá tu que sonhei que o meu desalmado esposo se sentiu mal por causa de uma coisa que bebeu misturada no vinho. Durante alguns instantes fez-se um silêncio quase absoluto, deixando as duas mulheres inertes e frias como as grandes rochas da serrania defronte à casa.
Ainda não me esqueci do caso, senhora, atalhou Briolanja ao aperceber-se do que a jovem queria dizer com a história do falso sonho. Eu sei que sim, boa amiga, sei que tens boa cabeça, mas agora fecha a porta e deixa-me sozinha.
Passaram-se entretanto quatro semanas sobre este episódio sem que o dono da casa sentisse qualquer indisposição súbita ou o professor Vicente Esteves desse sinal de vida. Certa tarde, já Leonor tinha perdido a esperança de ter o lente como hóspede, apareceu ele encharcado da chuva e sem bagagens, com um braço tolhido de dor e um golpe na testa. Que aconteceu?, perguntou a dama, incrédula e assustada, quando viu o homem naquele estado à porta de casa. Entre, senhor, entre e vá à lareira enxugar-se e aquecer-se. Vicente Esteves contou que fora assaltado por quatro homens, armados de punhais, quando estava já a pouco menos de duas léguas de Pombeiro e que os ferimentos no braço e na cabeça tinham sido causados pela violência das pancadas que sofreu antes de lhe levarem o animal em que se transportava, o capeirote que o protegia do frio e até mesmo os livros para o trabalho que pretendia realizar. Impressionadas com o relato do homem, Briolanja Mendes, que assistia à conversa junto ao umbral da porta, persignou-se logo que ele deu por findo o relato, enquanto Leonor Teles se benzia e proclamava in nomine patris et filii et spritus sancti. Amen.
Visivelmente abatido, destroçado, de pé junto à lareira, Vicente Esteves olhou para Leonor e com um ar doce e cândido comentou: isto passa, senhora, o pior de tudo são os livros que me levaram e que dificilmente conseguirei reaver. Sem eles, terei de voltar para Coimbra tão depressa o tempo amaine e tenha para a viagem alguém por companhia. Leonor estremeceu. Ela, que tinha esperado mais de um mês por aquele homem de boas regras e melhores costumes, discreto, sereno, prazenteiro, estava a um pequeno passo de o perder, quem sabe se de uma vez por todas, por causa de um grupo de miseráveis plebeus endemoninhados a quem só a morte violenta, na sua opinião, serviria como castigo para tamanho crime. E o seu estimado esposo, senhor João Lourenço, onde está?, perguntou Vicente Esteves. Esse foi para a caça sem receio de que a chuva o molhe ou os criminosos o assaltem, respondeu com um sorriso, mas num tom de voz desprezível». In José Manuel Saraiva, Rosa Brava, Oficina do Livro, 2005, ISBN 978-989-555-113-2.
                                                                                                              
Cortesia de OdoLivro/JDACT

domingo, 26 de maio de 2019

Aos Olhos de Deus. José Manuel Saraiva. «Mas em vésperas da chegada da comitiva portuguesa a Roma, já as ruas da cidade começavam a ficar limpas e coloridas de flores, aconteceu o imprevisto»

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«(…) Estais na casa de Deus, benzeu-se, de imediato, e, como podeis testemunhar, aqui também trabalhamos por Ele. E depois, aos berros. Por Ele, pela Santa Madre Igreja, pelo Santo Padre, que é o nosso embaixador do Céu, e pelo vosso piíssimo e sacratíssimo rei Manuel I. Mas eu não faço falta nenhuma, senhor, disse ela, baixinho, quase atemorizada. Com a cota de uma mão o clérigo limpou a escuma dos cantos da boca, fixou os olhos da rapariga e, já então em sérias dificuldades para controlar a costumada histeria e o tradicional mau-humor, concluiu peremptório, ruborizado: só eu e Deus sabemos a falta que fazeis. Por isso, amanhã espero por vós. E saiu à pressa, batendo a porta com enorme estrondo.
As palavras assim proferidas pelo bispo, quase tão vigorosas quanto ameaçadoras, associadas ao modo rude como se despediu, deixaram os portugueses num estado de sofrido silêncio e a jovem judia em doloroso pânico. Os próprios romanos, que assistiram atónitos àquele desvario endemoninhado, encolheram-se de medo e só depois acorreram a confortar Raquel, caída entretanto em inconsolável pranto e desespero. Não quero voltar aqui!, exclamou ela, soluçando. Apanhados de surpresa, mal sabendo o que dizer, os homens rodearam a rapariga de afectos, com os seus capotes protegeram-na do frio cada vez mais cortante. Alguém exclamou Já falta pouco para isto acabar, e, juntos, acompanharam-na, temerários, à casa das Seculares Reparadoras. E prometeram que na tarde seguinte lá estariam todos, vigorosos, afoitos, talvez mesmo armados de punhais, para a levarem a Sant’Angelo e a protegerem de qualquer malfeitoria tentada pelo celerado bispo. Porém, nada de extraordinário veio a ocorrer no dia seguinte e nos que o sucederam. Mas em vésperas da chegada da comitiva portuguesa a Roma, já as ruas da cidade começavam a ficar limpas e coloridas de flores, aconteceu o imprevisto. Como de costume, o grupo de trabalho, que integrava a companhia de Raquel Aboab, desnecessária é certo, mas requerida pelo bispo, compareceu à hora marcada no anexo do palácio apostólico onde, para surpresa geral, se encontravam já à conversa Francesco Petrini, Paris de Grassis, o novo mestre-de-cerimónias da cúria romana, uns tantos diáconos e, a um canto da sala, enroladas nos seus beatíficos hábitos, meia dúzia de religiosas. Tratava-se da última reunião de trabalho e isso justificava a presença de Paris de Grassis; quanto às religiosas e aos padres, ninguém percebeu porque estavam ali, silentes, de pé, em aparente estado de abstracção e melancolia. A reunião acabou cedo e Paris de Grassis foi o primeiro a sair. Depois, e por sugestão de Francesco Petrini, abalaram os romanos que desde a primeira hora haviam trabalhado na organização; minutos mais tarde o homem dispensou os diáconos; depois juntou Raquel Aboab ao bando das religiosas e despachou os portugueses sob o argumento de que precisava das mulheres para o acompanharem à Capela Sistina onde, àquela hora, algumas monjas procediam à ornamentação e ao arranjo dos altares. Senhor, interveio o tabelião português, quando Francesco Petrini acabou de dar as ordens, a portuguesa não é monja nem nunca fez parte deste grupo. Por isso é nosso desejo vê-la a abandonar este aposento e voltar para casa. Espantado pela intervenção do estrangeiro, Petrini arregalou os olhos e, de dedo em riste, exclamou que não admitia qualquer interferência nas suas decisões. Que já falara com os secretários do Sumo Pontífice para que o autorizassem a dispor dos vedores enviados, semanas antes, pela coroa de Lisboa. A jovem não veio nessa qualidade, retorquiu o tabelião, usando de esforçada calma. Mas assumiu-a aqui, nesta casa, prosseguiu o bispo, cada vez mais irritado. Uma das religiosas, a mais velha, deu nesse momento um passo em frente e proclamou: junto a nós e a Nosso Senhor essa mulher ficará em segurança. Um silêncio de morte abateu-se na sala.
Pois então que nada lhe aconteça, advertiu o português ao fim de prolongados segundos, enquanto Raquel Aboab se encostava a uma parede chorando e soluçando. A Capela Sistina situava-se a curta distância do anexo de Sant’Angelo. E foi para lá que Petrini, as religiosas e a portuguesa se dirigiram de seguida». In José Manuel Saraiva, Aos Olhos de Deus, Oficina do Livro Editor, 2008, ISBN 978-989-555-364-8.
                                                                                                                 
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Aos Olhos de Deus. José Manuel Saraiva. «Raquel Aboab não disse nada, nem sequer se moveu até que o cardeal, depois de fazer o sinal da cruz com a mão direita aberta e de lhe conferir a bênção, a mandou sentar»

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«(…) Pois então tentai ir ao encontro dela e dizei-lhe que venha com todos vós à próxima reunião, na santa paz de Deus, pediu o eclesiástico com um sorriso aparentemente benigno. Não quero que por minha culpa ela se sinta mais estrangeira em Roma do que já é. Tentai-a; tentai convencê-la a vir na vossa santificada companhia. E se ela não quiser vir?, perguntou, intrigado, o tabelião. Se Deus quiser, há-de querer, insistiu. Convencei-a vir com doces palavras, porque ela terá aqui o nosso apoio; e eu próprio, humilde servo de Nosso Senhor Jesus Cristo cá na Terra, saberei dar-lhe todo o meu conforto. Com ar de inexcedível bondade mas de alguma desconfiança, o tabelião menenou várias vezes a cabeça em sinal de assentimento, e proclamou em tom definitivo: pois se assim é, que Deus vos ouça. Ele já está a ouvir-nos, garantiu o clérigo, impúdico, cínico, insuportavelmente calmo.

Decorrida uma semana, numa tarde embaciada de intenso nevoeiro, Raquel Aboab deslocou-se finalmente ao castelo de Sant’Angelo na companhia dos amigos portugueses. Ao princípio ainda se recusou a voltar ao grupo de onde fora expulsa pelo clérigo, mas depois de muita insistência por parte do tabelião, na presença da própria madre abadessa das Seculares Reparadoras, a jovem acabaria por ceder à proposta do eclesiasta por interposta pessoa, na convicção plena de que se lhe faltasse o apoio divino haveria seguramente de contar com a ajuda humana. Quer a abadessa, quer os portugueses e os romanos estariam sempre a seu lado e nem a madre nem os outros a deixariam cair como vítima da desgraça ou da insídia. Disso tinha ela a certeza. Ou, pelo menos, julgava tê-la. De modo que foi com um certo alívio e algum sentimento de segurança que Raquel reintegrou o grupo e, acompanhada por todos, se dirigiu naquela tarde ao castelo de Sant’Angelo para assistir, como dantes acontecia, ao trabalho de organização das festas. Bem-vinda sejais de novo a esta pobre mas santificada casa, mulher de Deus!, clamou o bispo, logo que viu a jovem a entrar na sala. Obrigada, senhor, respondeu ela, titubeante, sem olhar de frente para ele.
Francesco Petrini tinha uma figura medonha. Era um homem de estatura média, de gestos quase sempre rudes e a voz agreste, o pescoço grosso como um tronco, o rosto coberto de pústulas, as sobrancelhas arqueadas e muito peludas, e os lábios tão finos que, entreabertos, mal escondiam a falta dos dentes incisivos. Além disso, fedia a igreja. Chamei-vos porque não quero que vos sintais mais estrangeira do que já sois nesta cidade santa, prosseguiu o eclesiasta num registo de voz invulgarmente manso. Julgo que a vossa família está aqui toda. Com o dedo e um gesto de cabeça apontou na direcção dos portugueses. E por isso não quero que a bela jovem que tenho à minha frente se sinta só, desprotegida, desamorada. Aqui, minha jovem, estais na paz do Senhor.
Raquel Aboab não disse nada, nem sequer se moveu até que o cardeal, depois de fazer o sinal da cruz com a mão direita aberta e de lhe conferir a bênção, a mandou sentar, mas em silêncio, a um canto da sala. Durante as duas horas de reunião e conversas circulares, Francesco Petrini raramente desviou os olhos da judia. Fazia-o com disfarçada cautela, aparente indiferença, mas os outros depressa se aperceberam de que o clérigo estava mais atento à beleza inquietante da rapariga do que aos assuntos ali discutidos. No final do encontro, virou-se para ela e, na frente do grupo, pediu que voltasse no dia seguinte por suspeitar que a sua presença ajudava à criação de uma espécie de clima de paz celestial. Vinde, criatura de Deus, vinde amanhã e sempre, exigiu o eclesiástico, à despedida. Porém, desconfiada do súbito interesse do homem e de tão generosas intenções, Raquel Aboab esclareceu, sem jamais olhar para o sinistro clérigo, que era seu desejo manter-se na sede da Ordem, em clausura e orações penitenciais, até à chegada da embaixada portuguesa a Roma. Não façais isso, porque desgosta a todos, gritou Petrini, tomado entretanto por um sentimento de descontrolada insatisfação pessoal». In José Manuel Saraiva, Aos Olhos de Deus, Oficina do Livro Editor, 2008, ISBN 978-989-555-364-8.
                                                                                                                 
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sábado, 25 de maio de 2019

Aos Olhos de Deus. José Manuel Saraiva. «Ide embora na santa paz de Deus Nosso Senhor, e num tom ainda mais alto, e orai pelos vossos pecados e a salvação do homem»

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«(…) E foi decerto pela sua irreprimível entrega à Igreja e às populações mais miseráveis de Roma que o Sumo Pontífice, reconhecendo ao homem razoáveis capacidades de esperteza e um teatral afecto na relação com os desgraçados, o designou para dirigir o grupo organizador da recepção à embaixada portuguesa. Nesse dia, o dia da nomeação papal, Francesco Petrini ficou radiante. E logo tomou a decisão de ir na mesma tarde ao anexo das traseiras do castelo de Sant’Angelo, onde, sabia-se, por costume se reuniam uns tantos profanos e alguns clérigos da cúria para discutir e proceder ao arranjo das festas de acolhimento às comitivas estrangeiras. No entanto, ao chegar ao anexo, não encontrou ninguém. Voltou no dia seguinte, e no outro, e no outro ainda, até que à quarta tentativa sem resultados foi ter com um subdiácono da Santa Sé, ordenando-lhe que mandasse convocar os elementos, já antes escolhidos pelo secretariado da chancelaria, para uma reunião de trabalho. Estava com pressa de mostrar serviço e de zelar pelo sucesso da obra. E para quando quereis que os convoque?, perguntou o padre. Quero-os amanhã lá, às três horas da tarde, respondeu o outro, sem hesitar. Todos: romanos e portugueses.
Raquel Aboab, a judia que em Dezembro partira de Lisboa por decisão e vontade de Diogo Pacheco, não fazia parte do grupo, mas, como se tornara amiga e protegida dos portugueses enviados a Roma pelo rei Manuel, com vista a ajudarem os romanos na preparação dos festejos, criou o hábito de os acompanhar para toda a parte. Por isso, foi sem cuidados nem reservas que a jovem compareceu ao encontro do dia seguinte, solicitado por Francesco Petrini. Quem vos convocou, mulher de Deus?, berrou o homem, estupefacto, quando viu a jovem a entrar na sala. Quem sois vós? Porque estais aqui? Apanhada de surpresa pela infeliz e agreste intervenção do eclesiasta, Raquel Aboab corou ligeiramente, e tentando a custo dominar a raiva e o medo, respondeu que era portuguesa, amiga dos portugueses enviados pela coroa de Lisboa para auxiliarem os romanos nos trabalhos de acolhimento à embaixada que dentro de poucas semanas haveria de chegar à Cidade Santa. E qual é a vossa graça?, perguntou ele, no mesmo tom boçal. Raquel. E que mais? Chamo-me apenas Raquel, mentiu. Tendes nome de judia...
Num completo estado de desassossego, já quase a chorar, a jovem negou a origem e propôs-se imediatamente sair do compartimento e regressar sozinha à casa que lhe dava abrigo desde a chegada a Roma. Esperai, esperai um pouco, ordenou D. Petrini, impositivo. E aproximando-se lentamente da mulher, quis saber onde ela morava e o que fazia. Moro perto daqui, num pobre casebre das Seculares Reparadoras da Virgem das Dores. E aí não fazeis trabalho de oração? Não devíeis estar lá numa atitude de constante penitência, de vigília consagrada a Deus e à Virgem? Estou de passagem por Roma, sou estrangeira, esclareceu a jovem, e só por isso as outras religiosas me concedem o favor de uma liberdade diferente da delas. Mas não deviam..., gritou o clérigo, reprovativo. Ide embora na santa paz de Deus Nosso Senhor, e num tom ainda mais alto, e orai pelos vossos pecados e a salvação do homem.
Uma chuva miudinha começava a cair sobre a cidade, a cidade de todos os vícios, como era conhecida na Europa cristã. Raquel Aboab assomou à porta, cobriu a cabeça com um véu oferecido por Diogo Pacheco e desatou a correr, chorando e soluçando em direcção à casa onde morava. A residência destinada à sua estada e segurança fora escolhida, a pedido de Diogo Pacheco, por João Faria, que, dizia-se em segredo, mantinha há vários meses uma relação íntima e secreta com a madre abadessa daquela Ordem religiosa. E era decerto por causa desta cumplicidade pecaminosa que Raquel, protegida de João Faria, dispunha de uma liberdade de movimentos jamais consentida a qualquer outra residente. A partir desse dia, o da expulsão da estrangeira, nunca mais as reuniões, mesmo as impontuais, decorreram como até aí. Os romanos já se haviam habituado a gostar da jovem e os portugueses adoravam-na. Além disso, pouco ou nada havia já para discutir ou organizar, e, no entanto, às três horas da cada tarde lá estava  Petrini a dar instruções e a tecer ideias mais do que gastas sobre a importância do acontecimento de alto relevo para a Igreja e Sua Santidade. Mas certo dia, tomado por um invulgar estado de boa disposição, ou talvez possuído por um retábulo de intenções poucos claras, o bispo quis saber pelos portugueses o que era feito da jovem das Seculares Reparadoras. E até se manifestou vagamente arrependido pelo tom agreste como a excluíra da assistência deles. Nunca mais a vi e julgo que nenhum de nós voltou a ter contacto com ela, respondeu o mais velho e responsável do grupo, tabelião de ofício e homem de extrema confiança da corte do rei português». In José Manuel Saraiva, Aos Olhos de Deus, Oficina do Livro Editor, 2008, ISBN 978-989-555-364-8.
                                                                                                                 
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Rosa Brava. José Manuel Saraiva. «O que eu quero e aprecio é ter um homem perto de mim, mesmo que esse homem me não pertença, conforme o caso, que me dê atenção e me trate como uma rainha»

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«(…) Não lhe saía da cabeça o olhar elangues cente do professor, o modo como sempre lhe falou e se lhe dirigiu num tom de respeito quase idêntico ao que o próprio manifestara por el-rei Fernando, quando ele e os comensais discutiam as qualidades e os defeitos do monarca. Sentia-se impressionada com o saber e os bons costumes do homem, cuja discrição o tornava diferente dos demais. A tamanho sentimento correspondia a felicidade de vir a tê-lo como hóspede a breve prazo, na suave suspeita de que entre ambos haveria de florescer, se Deus quisesse, uma relação harmoniosa e saudável. O único temor que ainda assim a perturbava naquela hora era a hipótese de o marido, ao despertar na manhã seguinte do estado de bebedeira em que se deixou adormecer, questioná-la acerca do significado que ela atribuíra à história da terra e da estaca na discussão ao jantar. Mas se porventura ele voltasse no assunto, pensou, haveria de lhe dizer então que reflectisse melhor sobre o episódio e que o tomasse como exemplo para a vida inteira, porque depois do acontecido jamais lhe admitiria novas faltas de respeito à honra própria e à da família donde provinha. De nada, porém, terá valido a Leonor tanta preocupação: por medo ou esquecimento, João Lourenço nunca mais se referiu ao caso.
Quem se referiu a ele, isso sim, foi ela mesma em conversa com Briolanja Mendes na manhã do dia seguinte. Contou tudo. Descreveu os convidados um por um, exceptuando naturalmente o tio e o irmão que a ama já conhecia; relatou o teor das conversas que ouviu, excluindo, porém, as de natureza política ou as que envolviam a apreciação de alguns convidados a certas atitudes do rei; confidenciou, enfim, que um professor de Coimbra, que dentro de alguns dias voltaria a Pombeiro para se instalar lá em casa, tinha passado o tempo a olhar para ela num doce e sedutor enlevo.
Não é perigosa a vinda do professor para aqui, senhora?, perguntou Briolanja, desconfiada com o entusiasmo da jovem. Por que é que há-de ser perigoso?, respondeu Leonor com outra interrogação, como se não tivesse compreendido a extensão das palavras da velha ama. Pode haver problemas... Não há problemas nenhuns. E não os há por duas razões: primeira, porque sou casada e porque a fidelidade que devo ao meu esposo vem do voto de princípio que fiz no dia do meu desgraçado matrimónio; segunda, porque estou a caminho de ser mãe e, embora ninguém o saiba nem se dê por isso ainda, não me sentiria em paz comigo mesma se me per desse nos braços de outro homem. Mas eu não disse que a senhora pode vir a correr o perigo de se ocupar do homem que aí vem; o homem é que pode vir a ficar encantado com a senhora, prosseguiu Briolanja, tentando disfarçar o sentido da sua primeira observação.
Leonor ficou pensativa por alguns instantes, passeou a mão pelo rosto, e acrescentou: isso seria problema dele. O que eu quero e aprecio é ter um homem perto de mim, mesmo que esse homem me não pertença, conforme o caso, que me dê atenção e me trate como uma rainha. Briolanja Mendes sorriu com afecto, aproximou-se da dama, acariciou-lhe os cabelos e, a propósito da última expressão, confidenciou: por acaso sonhei esta noite que a senhora ia ser rainha de um rico trono... A jovem, que até aí mantivera o acostumado ar entristecido, abriu-se de repente num largo sorriso e interrompeu. Ai sim? E como era o meu rei? Um belo homem, respondeu a aia, voltando a alisar-lhe as tranças com os dedos. Um rei de bom porte e de melhores costumes, generoso e destemido. Já falaste com as estrelas por causa disso? Não, senhora, apenas tive um sonho e sobre os sonhos as estrelas nada dizem. Elas só nos sabem dar conselhos». In José Manuel Saraiva, Rosa Brava, Oficina do Livro, 2005, ISBN 978-989-555-113-2.
                                                                                                              
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Rosa Brava. José Manuel Saraiva. «O próprio achacadiço, depois de ingerir dois vasos de chá quente de carqueja, levantou-se aliviado e, com os outros já prontos a partir, gracejou: ainda não foi desta que me fui!»

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«(…) E ainda que o conde de Barcelos e os amigos considerassem o jovem rei muito voluntarioso, nenhum, porém, deixou de fazer veladas críticas ao facto de ele nunca ouvir conselhos de quem quer que fosse, sendo até regra pessoal proceder ao contrário do que lhe era sugerido. Um exemplo desse péssimo hábito foi dado pelo alcaide de Castelo Branco, com o aval de todos, ao lembrar a simpatia com que o rei Fernando observava a entrada diária em Portugal de numerosos estrangeiros, rebeldes e tresloucados, mercadores e criminosos, sem atender ao protesto dos portugueses em geral, e à advertência dos conselheiros em particular, receando que a desajustada transmigração que se verificava viesse a constituir, mais cedo ou mais tarde, um sério perigo para a segurança de vilas e de cidades, de pessoas e de bens. Outro assunto igualmente discutido respeitou à ideia que todos tinham sobre a tentação mal disfarçada de o monarca se intrometer nos negócios políticos de Castela. Era um capricho antigo, um desejo obsessivo que o rei nunca escondeu desde que subira ao trono. Sobre este complexo problema, debatido com extraordinária paixão, a maioria considerava que, a materializar-se tal desígnio, Portugal e os portugueses poderiam vir um dia a pagar caro o preço da aventura. Opinião contrária foi no entanto defendida com fervor por João Afonso Telo e Gonçalo Teles. Até o lente Vicente Esteves, apesar de se mostrar mais interessado nos movimentos de Leonor do que nas discussões ali travadas, se manifestou de acordo com a tese de que o rei devia intervir nas lutas internas do país vizinho antes que alguém, designadamente o bastardo Henrique de Trastâmara, usurpasse o legítimo trono a Pedro de Castela. Só Leonor Teles, que passou o jantar a insinuar-se, a entrar e a sair da sala, passeando-se pela frente e por trás do professor, não participou na conversa. Nem o tio, de resto, lhe consentiria isso, porque o estatuto de uma mulher entre homens, mesmo que fosse nobre e bela, não chegava a tanto.

Ao queixar-se de que não dispunha em Coimbra de um espaço ideal de concentração para escrever um comentário jurídico aos nove primeiros livros do Corpus Juris Civilis e ao Digesto Velho, que lhe fora pedido pelo cónego Gonçalo Migueis, bacharel da Universidade, Vicente Esteves acabaria por ver realizado na mesma hora o desejo de ser convidado a regressar a Pombeiro e lá permanecer por tempo indeterminado. Foi o próprio João Lourenço Cunha que o desafiou a instalar-se em sua casa, considerando que o sossego e os ares da Beira o ajudariam no trabalho e na inspiração. A conversa sobre o assunto decorreu já ao fim do jantar na presença da mulher, que nada disse, e do conde, que de imediato apoiou a ideia sob o argumento de que melhor local do que aquele não havia para o fim pretendido pelo lente. Sensibilizado com o convite, Vicente Esteves curvou-se respeitosamente e, levando a mão ao peito, disse: se a minha presença não for desonrosa para o senhor João Lourenço e sua dilecta esposa, senhora Leonor Teles Menezes, aceitarei com todo o prazer o convite que me fazeis. Só terei de ir a Coimbra buscar o material de trabalho e regressar depois.
Para mim é que é uma honra a presença de tão ilustre lente de Coimbra em minha casa, respondeu o morgado numa linguagem desacertada, sem conseguir disfarçar o excesso de álcool que havia consumido. Leonor Teles, essa, lúcida e serena, apenas acrescentou: por quem sois, senhor.
Nesse momento, e quando já estavam todos prontos a regressar, João Afonso Telo foi vítima de um súbito achaque que só não o fez cair desamparado no lajedo da cozinha por que o sobrinho e o arcebispo de Viseu conseguiram segurar-lhe a tempo o pesado corpo. Arrastado para a sala e observado no mesmo instante pelo médico, concluiu-se que a indisposição terá sido causada pelos excessos do jantar. Nada de cuidados, portanto. O próprio achacadiço, depois de ingerir dois vasos de chá quente de carqueja, levantou-se aliviado e, com os outros já prontos a partir, gracejou: ainda não foi desta que me fui!
Nessa noite, na sua câmara solitária, Leonor Teles demorou a adormecer». In José Manuel Saraiva, Rosa Brava, Oficina do Livro, 2005, ISBN 978-989-555-113-2.
                                                                                                              
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segunda-feira, 1 de abril de 2019

Rosa Brava. José Manuel Saraiva. «… saudemos com a respeitável vénia, todos de pé e de vasos de vinho na mão, o aniversário de sua alteza real, o senhor Fernando, que completou vinte e quatro anos, faz hoje precisamente um mês»

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«(…) Ao ouvir a frase, João Lourenço Cunha ergueu a cabeça, arregalou os olhos de gozo e, apesar de ter a boca ocupada por um naco de carne, interveio de imediato: a estaca já entrou na terra..., só que ainda não pegou. Todos riram com o dichote, excepto a própria mulher, o irmão dela e o lente de Coimbra, Vicente Esteves, que não tinha tirado os olhos de cima da dama desde que ali chegara. Corada de vergonha, ofendida pela deselegância e pelo tom pífio das palavras do marido, Leonor não perdeu tempo a vingar-se, comentando num tom de voz suave mas determinado: a terra é boa e de bom amanho, mas a estaca, infelizmente, é que não é da melhor qualidade. Se o alarido tinha sido imenso quando João Lourenço proferiu a grosseria, maior o foi à ironia do comentário de Leonor Teles. Até o médico, de todos o mais seráfico, poisou na mesa o vaso de vinho que naquele momento ia levar à boca para bater palmas. O próprio conde de Barcelos, rindo como um bruto, não resistiu à tentação de felicitar a sobrinha pelo sentido de oportunidade e rapidez de raciocínio. Tens uma boa cabeça, estimada sobrinha, e só por aí se vê que descendes da ilustre linha dos Menezes...
João Lourenço Cunha tinha assistido calado e sério ao alvoroço que se gerara com a resposta da mulher à sua bestice, mas quando o conde enalteceu a qualidade superior da parentela dos Menezes levantou-se de cabeça perdida e, com toda a força, espetou no tampo da mesa o punhal com que se estava a servir. Bem ou mal, certo ou errado, ele interpretara as palavras de João Afonso Telo como um insulto à família dos Sousas, de que ele próprio descendia. A linhagem dos Sousas é tão honrada na Beira quanto o tronco dos Menezes..., gritou cheio de rancor e álcool. Nessa altura, Leonor Teles e o irmão levantaram-se quase ao mesmo tempo para se dirigirem a ele de faca na mão, mas o tio, impondo respeito e ordem, mandou-os sentar imediatamente para dizer umas palavras. Eu e os meus estimados amigos viemos aqui para celebrar as primeiras semanas de casamento da minha sobrinha com o senhor do morgado de Pombeiro, João Lourenço Cunha, começou por dizer com voz calma mas categórica, continuando após uma pequena pausa, sempre de olhos no casal: foi com algum sacrifício que fizemos a viagem debaixo de intenso frio. Por isso, nem eu nem nenhum dos meus honrados amigos e o meu sobrinho Gonçalo estamos dispostos a ouvir desconsiderações e tentativas de confronto entre duas famílias que, apesar de linhagens diferentes, e ainda que uma delas seja mais nobre do que a outra, são ambas respeitáveis na Beira, em Trás-os-Montes, e até mesmo no país inteiro. Proponho pois que esqueçamos este conflito, que dona Leonor Teles e João Lourenço dêem as mãos, que regressemos ao jantar e, já agora, saudemos com a respeitável vénia, todos de pé e de vasos de vinho na mão, o aniversário de sua alteza real, o senhor Fernando, que completou vinte e quatro anos, faz hoje precisamente um mês.
Todos se levantaram de uma assentada, todos se curvaram respeitosamente, todos aplaudiram o discurso e todos regressaram à comida e ao vinho. Só Leonor Teles e João Lourenço, no meio de tantos ritos propostos pelo conde, se esqueceram ou não quiseram dar as mãos conforme a sugestão do conde. Mas nisso ninguém reparou. Uma vez ultrapassado o incidente, não demorou que os convivas se enredassem nas habituais conversas e intrigas políticas que tanto apreciavam, sobretudo quando se reuniam nos festins ou lhes era dado participar em manifestações de idêntica natureza. A propósito do aniversário do rei, recordado por João Afonso Telo e saudado por todos, começou por se falar, embora com muito cuidado, respeito e bastas cautelas, da estouvada prodigalidade do monarca, da sua desídia pelo trabalho, da inconsistência nas suas atitudes, do tempo que dedicava à caça e à montaria em prejuízo da atenção que devia prestar aos negócios do reino». In José Manuel Saraiva, Rosa Brava, Oficina do Livro, 2005, ISBN 978-989-555-113-2.
                                                                                                              
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domingo, 31 de março de 2019

No 31. Rosa Brava. José Manuel Saraiva. «Foi, portanto, com um sentimento de enorme alegria que Leonor recebeu aquele bendito anúncio, sobretudo pela perspectiva de uma alteração, embora breve, do curso regular do seu calendário, monótono e triste»

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«(…) Num frémito de emoção e de descontrolo, a velha ajoelhou-se de seguida no chão, ergueu os olhos e as mãos aos céus e bradou: perdoai-lhe, meu Deus Nosso Senhor que estais no Céu, e não queirais ouvir o que esta minha adorada dama Vos disse agora, levada com toda a certeza por algum espírito maligno trazido para aqui pelo seu danado esposo. Perdoai-lhe, Deus Nosso Senhor, e não a deixeis cair em tentações satânicas... De bruços sobre a cama e com o rosto escondido na palma das mãos, a dama começou a chorar já então arrependida, não só de ultrajar a Deus mas também com o receio de vir a sofrer pesados castigos por tanto ter pecado naquela hora exasperante. Emocionalmente devastada, exausta de dor e de pranto, a senhora do morgado acabou por adormecer sob a cuidada vigilância de Briolanja Mendes.
Nas duas semanas seguintes Leonor Teles e João Lourenço raramente se viram e se relacionaram. Ela passava a maior parte do tempo nos aposentos e no leito; ele consumia-o nas caçadas e diversões. Numa manhã, estava a jovem sentada na cozinha em frente à lareira, chegou o marido com a notícia de que João Afonso Telo mandara dizer que era sua intenção deslocar-se a Pombeiro para uma visita de cortesia, no último dia do mês. E que levaria consigo um grupo de amigos. Radiante com a novidade, quanto mais não fosse pela circunstância de rever o tio e de conhecer pessoas diferentes das habituais, Leonor prontificou-se imediatamente a organizar a ementa e a dirigir a recepção. Porém, até ao dia aprazado, o último de Novembro, o quotidiano de ambos não se alterou, como também nunca se recompôs a relação entre o casal. O matrimónio era recente, sem dúvida, mas as suas vidas já se tinham autonomizado. Ela continuava a dormir, a chorar e a rezar; ele persistia na caça, nas diversões e na ida às put… Foi, portanto, com um sentimento de enorme alegria que Leonor recebeu aquele bendito anúncio, sobretudo pela perspectiva de uma alteração, embora breve, do curso regular do seu calendário, monótono e triste.
Tamanho o entusiasmo dela que logo ali e naquele momento se manifestou empenhada na concepção de uma farta ementa, destinando para o jantar desse dia carne de vaca picada com cebola, cravo, açafrão, pimenta e gengibre, regada abundantemente com azeite e vinagre; fatias de galinha temperadas com salsa, coentros, hortelã, canela e um número considerável de ovos cozidos e escalfados; coelho assado com cebola pisada, vinagre, cravo, pimenta e muita gordura; e lampreia cozida, temperada com quase todos os condimentos utilizados nas anteriores iguarias. E porque ninguém melhor do que ela sabia dos gostos do tio, mandaria confeccionar, para o fim de tudo, a guloseima que ele mais apreciava: tigelada de arroz cozido com muitas gemas de ovos e queijo fresco. Vinho palhete de Azóia, que os apreciadores comparavam aos vinhos gregos de malvasia e que já era conhecido em Inglaterra, nos Países Baixos e em todo o mundo hanseático, haveria de servir de rega à poderosa ementa.
Como estava previsto, a meio da manhã de 30 de Novembro chegava ao morgado de Pombeiro João Afonso Telo com um familiar e oito amigos: o sobrinho Gonçalo Teles Menezes, irmão de Leonor, o arcebispo de Viseu, os alcaides de Castelo Rodrigo e da Covilhã, um fidalgo de São Pedro do Sul, um infanção de Montemor-o-Velho, um médico do Porto, um juiz e um lente da Faculdade de Direito Civil, de Coimbra. Cumprida a recepção de boas-vindas, sem quaisquer formalidades, os convidados passaram imediatamente à sala comum para descansar um pouco e, de seguida, se servirem das viandas postas à disposição de todos sobre a mesa de pinho que em espaço ocupava um quinto da divisão. O conde de Barcelos foi o primeiro a servir-se, como haveria de ser o último a acabar já o sol se tinha posto. A dado instante da conversa e ao correr do prândio, João Afonso Telo virou-se para a sobrinha e perguntou: então quando é que vamos ter a alegria de nos dares um descendente? A jovem passou disfarçadamente a ponta dos dedos pelos lábios, sorriu com indisfarçável nervosismo e mentiu: não sei para quando será, estimado tio, para já nada indica que venha a caminho...» In José Manuel Saraiva, Rosa Brava, Oficina do Livro, 2005, ISBN 978-989-555-113-2.
                                                                                                              
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Rosa Brava no 31. José Manuel Saraiva. «Como sabes, preciso apenas de mais algum tempo para me certificar se estou ou não repleta. Se estiver, Briolanja, não tenho outro remédio…»


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«(…) Durante alguns minutos uma e outra ficaram em silêncio. A ama manteve-se na mesma posição, estática, de pé, encostada à parede do quarto; por seu lado, Leonor Teles deixou-se cair de costas para trás e, já deitada sobre a cama, confessou: o pior de tudo é que julgo estar de barriga, porque me faltou a regra já lá vão cinco dias. Como sabes, preciso apenas de mais algum tempo para me certificar se estou ou não repleta. Se estiver, Briolanja, não tenho outro remédio senão parir a criança que vier aí. Ao acabar a confissão com lágrimas no rosto, a nova senhora de Pombeiro ordenou à ama que se fosse embora e a deixasse sozinha. Mas, quando Briolanja transpunha já a porta, Leonor pediu: vê o que podes fazer por mim, boa amiga. Passou-se uma semana, mas um dia, na intimidade de mais uma conversa, a bela esposa de João Lourenço Cunha revelou à ama que tinha entrado num período de excepção. A menorreia nunca mais tinha aparecido. O caso fora confidenciado a Briolanja poucas horas antes da chegada intempestiva ao solar de um mensageiro de Barcelos com uma carta de Maria Teles para a sua irmã Leonor Teles. Era uma carta simples, breve, uma mensagem por via da qual Maria, já então viúva de Álvaro Dias Souza, senhor de Mafra e da Ericeira, lhe anunciava que ia partir para Lisboa. Logo que recebeu a carta, a destinatária abriu-a à pressa e leu:

Minha dilecta irmã,
Senhora dona Leonor Teles Menezes e Senhora do Morgado de Pombeiro, Quero apenas informar-te de que a rogo do nosso muitoestimado tio, senhor João Afonso Telo, junto de Sua Alteza Real El-Rei Fernando I, partirei já no próximo domingo para Lisboa, a fim de me instalar no Paço de São Martinho, como açafata da Infanta dona Beatriz, irmã de Sua Alteza Real. Talvez a minha ida para Lisboa, ainda por cima com o fim de servir na corte, ajude a superar a tristeza da minha amarga viuvez. Espero que sejas feliz com o teu admirável e benquisto esposo, que para isso muito pedirei a Deus Nosso Senhor e aos Santos milagreiros. Aceita, minha adorada irmã, a estima e o amor da Maria Teles.

Quando acabou de ler em voz alta a mensagem na presença da aia, Leonor, que se encontrava sentada numa cadeira junto à janela dos seus aposentos, levantou-se de súbito, esmagou a carta entre os dedos com toda a força e gritou descontrolada: ela vai para Lisboa rezar a Deus e aos santos milagreiros pela minha felicidade e a do meu admirável e benquisto esposo? Não acredito nisto, Briolanja, não acredito que a minha estimada irmã, conhecendo a natureza do canalha com quem me casei, rogue por mim a Deus e peça aos santos o favor de me salvarem. Não preciso disso, mulher, dispenso rezas e favores de quem quer que seja, a quem quer que seja... Senhora, acudiu a ama num grito sinistro, crispada de horror e medo ao ouvir tanta blasfémia. A intenção de sua amada irmã é estimável. Ela diz isso apenas porque lhe quer bem, e como a senhora sabe ninguém pede ajuda a Deus Nosso Senhor se não estiver em conformidade com as suas divinas leis». In José Manuel Saraiva, Rosa Brava, Oficina do Livro, 2005, ISBN 978-989-555-113-2.
                                                                                                              
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quinta-feira, 14 de fevereiro de 2019

Aos Olhos de Deus. José Manuel Saraiva. «… finalmente, exclamou triunfante: são oitenta e quatro libras e vinte e sete soldos! É este o valor que tendes de pagar à chancelaria…»

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«(…) O cardeal Sadoleto sorriu de escárnio, fez uma curta pausa, meneou a cabeça várias vezes e questionou-o sobre o sentido exacto daquela frase. Foi isso mesmo, monsenhor, estive com ela sim, mas por pouco tempo. Mas introduzistes o membro erecto no corpo dela, não foi? Foi, respondeu, quase a chorar. Até vos satisfazerdes... Sim, confessou ainda, num tom sussurrado, após demorados instantes. O velho cardeal levantou-se da cadeira, benzeu-se, Em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo, rodopiou sobre si mesmo com os olhos virados ao Céu, e de seguida, com o dedo apontado na direcção de Petrini, que entretanto se ajoelhara a seus pés, de mãos postas, proclamou: pecastes, meu filho, pecastes! Pequei sim, monsenhor, e por isso estou aqui a rogar a salvação da minha alma. E tendes dinheiro? Tenho, respondeu ele de imediato, já com a voz mais firme. Sem mais palavras, o confessor voltou-se para o confesso, fez-lhe um gesto com a mão anelada para que se mantivesse de joelhos e, sempre em silêncio, saiu da sala. Mas não demorou. Trago aqui a tarifa da chancelaria apostólica da nossa cúria, proclamou o cardeal secretário, elevando ao alto, e antes de regressar à cadeira, três folhas de pergaminho que fora buscar à antecâmara do Papa. É a lista com a venda de indulgências concebida pelo Santo Padre e aprovada pelo consistório. Abanando várias vezes a cabeça, Petrini foi concordando. Como sabeis, a lista ainda não entrou oficialmente em vigor e, quando entrar, competirá ao bondoso monge dominicano Johannes Tietzel fazer uso dela, pô-la em prática...
Eu sei, garantiu o outro. Pois bem, meu filho, dado que os delitos que cometestes são muitos e muito graves, deveis desde já dar o exemplo, comprando à chancelaria o perdão pelos vossos crimes. E quanto me custa isso? O clérigo confessor olhou em silêncio para a lista, acompanhou a leitura com a ponta de um dedo até se deter no artigo correspondente a um dos pecados cometidos por Petrini. E então leu em voz alta:

Todo o eclesiástico que incorrer em pecado carnal, quer seja com freiras, com primas, sobrinhas ou afilhadas, ou enfim com qualquer outra mulher, será absolvido mediante o preço de sessenta e sete libras e doze soldos.

Aqui tendes o primeiro!, proclamou Sadoleto, antes de continuar a pesquisa, sempre sorridente. E aqui está o outro, quase gritou, de tanto entusiasmo.

Pelo assassinato de um irmão, de uma irmã, do pai ou da mãe o praticante pagará dezassete libras e quinze soldos.

De seguida, o confessor semicerrou os olhos, fixou-os no tecto do aposento em estado de pura abstracção, fez as contas de cabeça, enganou-se várias vezes e, finalmente, exclamou triunfante: são oitenta e quatro libras e vinte e sete soldos! É este o valor que tendes de pagar à chancelaria apostólica de Sua Santidade. Sim, monsenhor, concordou o bispo, levando de imediato a mão à bolsa escondida sob as suas vestes. Uma vez liquidada a dívida, que resgatou o eclesiasta dos pecados cometidos, Francesco soergueu-se, esfregou os joelhos para os aliviar da dor, abraçou emocionado o velho cardeal, deu-lhe um beijo na face e prometeu, num tom de voz esforçadamente perturbado, que jamais voltaria a ofender a Deus ou a desprezar os mandamentos da Santa Madre Igreja. E juntos, enfim, como dois irmãos do pecado à descoberta dos caminhos da redenção, oraram em coro um Pater noster.
Agora ide em sossego, meu filho. Ide na santa paz de Deus, já limpo de espírito e das impurezas demoníacas. Que o Senhor vos ilumine, pois. Aménela de Sant’Angelo a ler as Escrituras e a rezar a Deus, e quando não lia nem rezava deslocava-se às vielas imundas e fétidas da cidade ao encont, respondeu o outro. E benzeu-se. No mês que se seguiu, Francesco Petrini revelou-se um bispo exemplar, um eclesiasta devotado apenas à Igreja, ao Altíssimo e ao Papa. Passava horas numa capro dos pobres e dos mendigos para os confortar ou lhes fornecer alimentos. A tamanho fervor a Deus Pai Todo-Poderoso e a tanta devoção aos outros, sobretudo aos mais desfavorecidos, ninguém ficava indiferente». In José Manuel Saraiva, Aos Olhos de Deus, Oficina do Livro Editor, 2008, ISBN 978-989-555-364-8.
                                                                                                                 
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Aos Olhos de Deus. José Manuel Saraiva. «Não a violastes? Quereis dizer que o vosso pai vos acusou de um crime que não cometestes?, prosseguiu Sadoleto, antes de lhe transmitir um avisado conselho…»

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«(…) Desejava que nada faltasse aos visitantes, que fossem atendidos com alardo, glória e emoção; mas também queria que os organizadores do préstito soubessem gerir os respectivos gastos com parcimónia, alguma inteligência e muita imaginação. Chegada pois a hora, não esqueceu o conselho que lhe fora dado anos antes pelo pai quando, ainda muito jovem, subiu ao cardinalato: gasta mais dinheiro na manutenção de um estábulo bem montado e criados de classe superior do que em pompa e circunstância. Ora, talvez por isso, no dia catorze de Fevereiro, durante uma reunião do consistório, constituído por vinte e cinco cardeais, alguns muito jovens, o chefe da cristandade foi claro nos seus objectivos:

Cabe-nos receber a comitiva do bondoso Manuel, piíssimo rei de Portugal, com o testemunho da nossa infinita gratidão, a nossa fé em Cristo e em Deus Pai Todo-Poderoso, mas devemos ser contidos nas despesas do programa. As libras estão muito caras e a cúria precisa delas.

Nesse conclave, destinado praticamente à discussão dos principais aspectos relativos aos festejos, o Papa decidiu nomear um bispo de sua confiança, Francesco Petrini, para dirigir o grupo, entretanto já formado, de acompanhamento da realização das cerimónias protocolares, nas suas vertentes religiosa e profana. Francesco Petrini, de vinte e nove anos, era reconhecido como um dos clérigos mais espertos e crentes do governo da Santa Sé; mas era igualmente tido como um dos maiores pecadores daquele conselho de ministros do culto. Além de libertino, corrupto, e malfeitor, o bispo era ainda assassino. Dois meses antes de o Papa o escolher para orientar o grupo de trabalho, que incluía mais de duas dezenas de romanos e cinco portugueses, Petrini matou o pai a golpes de machado só por ele o ter visto a espancar e a roubar um comerciante do bairro onde morava, depois de lhe violar a filha. O assassínio causou na altura um enorme alvoroço entre a vizinhança e o autor, temendo o castigo de Deus, ou, pior ainda, qualquer acto de vindicta por parte de familiares das vítimas, correu à pressa a refugiar-se no castelo de Sant’Angelo, para aí, a coberto do poder imune dos hábitos talares, pedir o perdão ao Sumo Pontífice por interposto eclesiástico da cúria romana.
Que fizestes, meu filho!?, perguntou-lhe o cardeal Sadoleto, um dos mais fiéis secretários do Papa, depois de Petrini falar da perseguição a que estava sujeito por parte dos moradores do bairro. Matei sem querer o meu extremoso pai por me ter acusado injustamente, à frente de populares, de violar a filha de um comerciante, amigo dele. Sentado na poltrona do aposento, desconfortável e frio, o cardeal Sadoleto ia rodando com a ponta dos dedos o anel de sinete da mão direita, ao mesmo tempo que ouvia com aparente atenção os queixumes de Petrini. E foi só isso, meu filho?, voltou a perguntar o outro, com um sorriso cínico no rosto. Matastes o vosso pai sem querer, apenas por ele ter visto e criticado o cometimento de um grave pecado que, bem sabeis, merece o castigo do Altíssimo?
Também me acusou, e de igual maneira sem motivo, de roubar o comerciante, acrescentou o confesso, com os olhos presos ao chão. Oh, Santo Deus!, exclamou o cardeal Sadoleto. Fez o sinal da cruz sobre o rosto, com a cabeça curvada rezou em silêncio uma avé-maria, e só então voltou a fazer outra pergunta. Que quereis agora, meu filho? O perdão de Deus e a absolvição de Sua Santidade, monsenhor, respondeu sem pestanejar o jovem bispo. Salodeto colocou a mão direita no peito, sobre o coração, e sempre com a voz calma e pausada continuou interrogativo: matastes o vosso pai, espancastes e roubastes o comerciante, violastes-lhe a filha e ainda assim vos quereis livrar desses pecados de inspiração demoníaca? Não violei a mulher, defendeu-se o bispo atabalhoadamente, alarmado com tantas acusações.
Não a violastes? Quereis dizer que o vosso pai vos acusou de um crime que não cometestes?, prosseguiu Sadoleto, antes de lhe transmitir um avisado conselho: peço que não vos esqueçais de que o perjúrio é também um delito grave e condenável, que ofende a Deus Nosso Senhor e à Santa Madre Igreja. Nesse momento Francesco Petrini voltou a baixar os olhos, tentou a custo emocionar-se e, em tom sumido, concedeu: sim. Estive com a mulher. E então? Foi só por pouco tempo, desculpou-se». In José Manuel Saraiva, Aos Olhos de Deus, Oficina do Livro Editor, 2008, ISBN 978-989-555-364-8.
                                                                                                                 
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quarta-feira, 13 de fevereiro de 2019

Aos Olhos de Deus. José Manuel Saraiva. «Filho de Lorenzo de Medici, o Magnífico, Giovanni di Lorenzo de Medici recebeu a tonsura aos sete anos, e aos oito foi transformado em abade de Font Douce, em França. Aos nove alcançou a abadia de Passigano…»

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«(…) Ao mesmo tempo que decorriam em Lisboa os preparativos para a largada das naus com os presentes destinados ao Sumo Pontífice, procedia-se em Roma aos trabalhos de recepção à comitiva do rei de Portugal. Segundo ordem do Papa, nenhum cardeal do consistório, nenhum bispo do governo da Santa Sé, sequer o mais desprezível sacerdote da cúria romana, estava autorizado a permanecer à margem da preparação da festa de acolhimento à embaixada portuguesa. Para o chefe da cristandade, todos tinham o dever e a obrigação de trabalhar na causa e, chegada a hora, de receber os portugueses com a dignidade devida a quem, ido de longa distância, se propunha contribuir para a expansão territorial da Igreja e o reforço da sua extraordinária fortuna e o da respectiva família. E ameaçou com severa punição pelo cometimento de pecado de ofensa, a si e a Deus, todo aquele que incorresse no delito de desobediência.
Embora nunca se houvessem visto ou contactado, a verdade é que Leão X sabia como poucos que Manuel I, tal como ele próprio, tinha tanta devoção à Igreja e ao Altíssimo, quanto amor ao poder e à luxúria. Para ambos, a fartura e os prazeres da vida sobrepunham-se em qualquer circunstância às exigências do ascético rigor moral, divino e humano. E se, de igual modo o monarca português estava convencido de que viera ao mundo para servir a Deus, e por vontade de Deus governar um reino, também o Sumo Pontífice de Roma não duvidava da intervenção do Espírito Santo na escolha da sua pessoa para assistir a Igreja e dela se prover. Aliás, não terá sido por acaso que o homem, logo após ter ocupado a cátedra de S. Pedro e recebido do consistório a poderosa tiara, anunciou ao mundo cristão o lema que lhe serviria de base à sua vida de pastor de almas: uma vez que Deus nos confiou o pontificado, vamos aproveitá-lo!
A frase, proferida sob o sintoma de incontrolável estado de ebriedade mental, chocou profundamente os que naquela altura, embora poucos mas corajosos, como Erasmo ou Lutero, consideravam a cúria de Roma uma repulsiva estrumeira sobre a qual se alimentavam e se governavam bispos e cardeais simoníacos, sacerdotes arruaceiros, sacerdotes rapaces, sacerdotes homossexuais, sacerdotes corruptos, todos eles promotores da ofensa; todos eles fomentadores do vício e da intriga. Críticos, acríticos e partidários perceberam também e de imediato, como sinais divinos na clareza dos céus, que o Papa recém-eleito iria empenhar-se mais no auxílio ao esplendor obsceno da Igreja e ao abono da sua enorme fortuna do que desviar a Igreja da desordem dos séculos ou fornecer aos fiéis um novo e purificador alimento espiritual, em ordem a evitar o desencanto e o tresmalho de muitas ovelhas do rebanho.
Filho de Lorenzo de Medici, o Magnífico, Giovanni di Lorenzo de Medici recebeu a tonsura aos sete anos, e aos oito foi transformado em abade de Font Douce, em França. Aos nove alcançou a abadia de Passigano; aos onze entregaram-lhe a lendária abadia de Monte Cassino; aos catorze, em segredo, foi elevado à condição de bispo, pelo Papa Inocêncio VIII. Além de tantos e tão sagrados benefícios que lhe couberam em sorte, Giovanni soube ainda colher da sua família o gosto pelo fausto. Foi de resto pelo dinheiro que os Medici ascenderam ao mais alto patamar da nobreza florentina; foi pela condição económica que se sentaram algumas das suas mulheres em tronos reais; foi enfim pela riqueza que instalaram na cátedra pontifícia, a nove de Março de mil quinhentos e treze, o jovem Giovanni Medici, com apenas trinta e sete anos de idade...
Por tudo isto não constituiu espanto que o Sumo Sacerdote começasse por anunciar a intenção, embora implícita, de sobrepor o seu interesse material e o do grémio da cristandade ao valor da fé, da exaltação da glória a Cristo e de honra a Deus. E por tudo isto também não causou surpresa que tivesse exigido à cúria romana, a todos quantos dela faziam parte, a entrega sem limites ao acolhimento da comitiva portuguesa. Leão X podia desconhecer o que Manuel I lhe ia enviar pelos seus representantes; mas não lhe restavam dúvidas de que a monta dos presentes do monarca português ultrapassaria, e muito, o das ofertas que os reis da Europa costumavam mandar-lhe por intermédio de comitivas menores e de embaixadores medíocres. Sabendo pois da generosidade do ocupante do trono de Lisboa e da intenção de esse soberano em assombrar a Igreja, em particular, e a Europa, em geral, com o ofertamento de bens raros e preciosos, como se os tivesse em excesso ou não fizessem falta ao reino de Portugal, Leão X tomou-se de cuidados e, com a soberba frialdade que o caracterizava, deu instruções ao clero para que se unisse e preparasse uma recepção aos estrangeiros jamais vista na Cidade Santa». In José Manuel Saraiva, Aos Olhos de Deus, Oficina do Livro Editor, 2008, ISBN 978-989-555-364-8.
                                                                                                                 
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Aos Olhos de Deus. José Manuel Saraiva. «Ao dito duque meu primo, encomendo e rogo que honre e trate bem a Excelente Senhora minha prima, e que sempre a tenha bem e honradamente como pertence a pessoa que é, e que foi»

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«(…) A poucos dias de morrer, quando o rei João II, já totalmente debilitado, chamou aos aposentos Aires Silva e Antão Faria, dois fiéis servidores, e o moço de escrivaninha, Garcia Resende, para lhes ditar o testamento, a rainha, apercebendo-se da situação, pediu a outro amigo, também ele seu indefectível apoiante, frei João Póvoa, que se introduzisse na antecâmara e tentasse perceber se o moribundo cumpria a promessa de nomear o cunhado duque Manuel seu sucessor, conforme lhe jurara dias antes, ou se alguém por ele codificava o documento. Honrando, porém, a palavra, destroçado pela chantagem da mulher e convencido da teoria de uns tantos conselheiros, segundo a qual Jorge era novo demais para se defender dos poderosos inimigos que o próprio rei, enquanto homem saudável, só pôde vencer com o recurso aos mais violentos processos, João II pediu enfim para lhe escreverem as disposições testamentárias que, muito a custo e com enorme sofrimento físicos e emocional, ele menos desejava:

Conhecendo eu como a serviço de Deus e ao bem destes meus reinos e senhorios, cumpre, se eu falecer da vida deste mundo antes de passar um ano da feitura deste testamento, que o duque Manuel, meu muito amado e prezado primo e cunhado, os haja e possua. Não tendo eu filho ou filha legítimos e, portanto, de meu moto próprio certa ciência de livre vontade, ao dito duque meu primo e cunhado deixo todos os reinos e senhorios de que Deus me fez Rei e Senhor. Com a bênção Dele, a minha e de todos os nossos avós, encomendo-lhe a justiça e o bom regimento deles.

Assim estava feita a vontade a dona Leonor; assim chegava Manuel ao cobiçado trono.
Mas apesar de vencido pelas circunstâncias, João II não deixou de acrescentar ao testamento uma série de cláusulas que de algum modo lhe atenuavam os sentimentos de culpa por não ter sido capaz de se impor à mulher nos derradeiros momentos da sua vida. Nesse sentido, doava a Jorge o ducado de Coimbra que pertencera ao avô, infante Pedro, e rogava ao futuro rei que cedesse ao jovem o mestrado da Ordem de Cristo, de modo a acrescentá-lo aos de Sant’Iago e de Aviz de que era detentor há muito tempo. Além disso, pedia a Manuel, mui amado e prezado primo e cunhado, que adoptasse Jorge e o nomeasse herdeiro do trono, no caso de Deus não lhe consentir filhos legítimos. E mais: se em vez de filhos o Altíssimo entendesse dar-lhe apenas filhas, que uma delas casasse com Jorge.
Quanto aos traidores do reino que tinham fugido de Portugal e se haviam homiziado no estrangeiro, recomendava que os mantivesse proscritos, bem como os seus familiares directos. Finalmente, apelava à benevolência de Manuel para com a desventurada princesa dona Joana, antiga noiva de Afonso V, efémera rainha de Portugal, antiga regente do reino, tutora de Jorge, e, naquela altura, já dada ao hábito por amor a Deus no mosteiro de Jesus de Aveiro. Este fora, aliás, o último pedido de João II passado a testamento:

Ao dito duque meu primo, encomendo e rogo que honre e trate bem a Excelente Senhora minha prima, e que sempre a tenha bem e honradamente como pertence a pessoa que é, e que foi.

Dias mais tarde, a vinte e cinco de Outubro de mil quatrocentos e noventa e cinco, o rei João II, assistido pelo bispo de Lisboa, Diogo Ortiz Vilhegas, morria em Alvor, para onde fora conduzido uma semana antes em estado de profunda debilidade física. Tinha quarenta anos». In José Manuel Saraiva, Aos Olhos de Deus, Oficina do Livro Editor, 2008, ISBN 978-989-555-364-8.
                                                                                                                 
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terça-feira, 12 de fevereiro de 2019

Rosa Brava. José Manuel Saraiva. «Ainda só se passaram dois meses e já estou farta disto, desta casa, desta gente, de Pombeiro, do miserável traste que o meu estimado tio me destinou»

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«(…) Era lá, enfim, que morava João Lourenço Cunha, descendente dos fundadores, e aí passou também a morar Leonor Teles, depois do casamento. Os primeiros dias em Pombeiro foram tumultuosos para ela. Passava o tempo na câmara, estendida no leito, debaixo dos cobertores, ora chorando de infelicidade, ora rezando pela sua própria salvação. Não havia maneira de esquecer o passado, a infância, os primeiros anos da adolescência, muito menos a dolorosa viagem entre Barcelos e Pombeiro. Com um sentimento misto de horror e nojo, não conseguia esquecer igualmente o instante em que se prometeu ao marido para toda a vida, sequer o momento em que João Lourenço Cunha entrou na liteira a ajeitar grosso pénis com a mão esquerda, para depois, já sentado no banco a seu lado, colocar a mão direita nas coxas dela, cobertas, entretanto, por um manto que as resguardava do intenso frio. Fora a noite mais sofrida da sua vida; fora a mais longa e demorada viagem que até então fizera. Vinte pessoas, entre as quais se incluíam criados, pajens, um sacerdote, um curandeiro, duas amas e dois feiticeiros, além de Briolanja Mendes, acompanharam o casal nessa aventura em carroças puxadas por duas bestas ou no dorso de imponentes mulas, nalguns casos de porte quase idêntico às que aparelhavam a liteira.
Pior, no entanto, que a primeira zanga do matrimónio, foi a segunda. E ela ocorreu duas noites após o casamento, justamente quando João Lourenço se apercebeu de que a mulher já não era virgem. O morgado ficou louco de raiva e quis saber na mesma hora quem fora o homem que a desvirgindou, e quem para além do primeiro, se outros houve, se deitou com ela. Humilhada e ofendida com o que acabara de ouvir, Leonor Teles ameaçou João Lourenço de que regressaria a Barcelos no dia seguinte se ele prosseguisse nas ofensas à sua honra, à honra do seu estimado tio, à honrosa memória dos seus dignos antepassados. Mas, cobarde como era, o senhor de Pombeiro deu logo o assunto por encerrado, com um pedido de desculpas, para realizar, então, atabalhoadamente e sem demora, a função da primeira noite com a jovem dama, sua esposa.
Certa manhã, depois de João Lourenço sair para uma caçada de dois dias na região de Cantanhede, a senhora mandou chamar Briolanja Mendes aos seus aposentos para mais uma conversa e umas tantas revelações. Não sei o que fazer, desabafou, logo que a velha entrou no quarto. Ainda só se passaram dois meses e já estou farta disto, desta casa, desta gente, de Pombeiro, do miserável traste que o meu estimado tio me destinou. Tenho vontade de fugir para longe, às vezes apetece-me morrer para não enfrentar esta supliciada vida em que apenas me vou cumprindo nos espaços que competem ao ódio e desamor... Encostada à parede, de mãos cruzadas sobre o peito, Briolanja Mendes ia ouvindo os queixumes de Leonor com a costumada atenção.
Vê lá tu que, logo no primeiro dia de chegarmos aqui, me vi obrigada a dizer ao meu desalmado esposo que iria embora se ofendesse a minha honra como chegou a tentar. Já não sei porquê mas quis discutir comigo, tentou humilhar-me e, através de mim, atingir a digna memória dos meus antepassados. Eu sei, senhora. Ouviste a discussão? Foram as estrelas que mo disseram, respondeu a velha com indisfarçável cinismo. Leonor Teles percebeu que a ama lhe estava a mentir e por isso sorriu com ternura. Sem, no entanto, levar o caso a consideração, aconselhou num tom de voz baixinho, sussurrado: é tempo de começares a pensar nos filtros de amor de que um dia me falaste em Barcelos. Briolanja cerrou os olhos, benzeu-se e, quase num murmúrio, disse: estou já a pensar nisso...» In José Manuel Saraiva, Rosa Brava, Oficina do Livro, 2005, ISBN 978-989-555-113-2.
                                                                                                              
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