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segunda-feira, 1 de julho de 2019

Camões e a Infanta D. Maria. Ceuta. José Maria Rodrigues. «Sabei que busca só, do já cantado no tempo em que eu temia ou esperava. De quem o mal provou, que eu tanto amava, piedade, e não perdão, o meu cuidado»

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De volta de Ceuta
«(…) Pois se nem mesmo em versos que se occupam ex professo da menina dos olhos verdes, Camões deixa de se referir aos seus passados amores!

Passado já algum tempo que os amores
De Almeno, por seu mal, eram passados,
Porque nunca Amor cumpre o que promette,
Entre uns verdes ulmeiros apartado,
Regando por o campo as brancas flores.
Em lagrimas cansadas se derrete.
Quando a linda pastora, que compete

Co monte em aspereza,
Co prado em gentileza.

Por quem o pastor triste endoudecia,
Por a praia do Tejo discorria
A lavar a beatilha e o trançado.

O sol já consentia
Que saísse da sombra o manso gado.

Já acordado daquelle pensamento,
Que tão desacordado sempre o teve,
Viu por acerto o bem que incerto tinha;
E porque, donde o amor a mais se atreve,
Alli mais enfraquece o entendimento,
Não lhe soube dizer o que convinha.
(Egloga 3ª).

Pois se até ao invocar a musa inspiradora para o poema épico que vai emprehender, se presente que o som vem d’uma parte, mas que a pancada é em outra!

Em vós tenho Helicon, tenho Pégaso ;
Em vós tenho Calliope e Thalia
E as outras sete irmãs, co fero Marte.
Em vós deixou Minerva sua valia;
Em vós estão os sonhos do Parnaso;
Das Pierides em vós se encerra a arte.

Com qualquer pouca parte,
Senhora, que me deis de ajuda vossa.

Podeis fazer que eu possa
Escurecer ao sol resplandecente;

Podeis fazer que a gente
Em mi do grão poder vosso se espante
E que vossos louvores sempre cante.

Podeis fazer que cresça de hora em hora
O nome Lusitano, e faça inveja
A Esmirna, que de Homero se engrandece.
Podeis fazer também que o mundo veja
Soar na ruda frauta o que a sonora
Cithara Mantuana só merece.
(Egloga 4.ª')

NOTA: Esta egloga foi dirigida a dona Francisca de Aragão. Na egloga 5.ª, escripta na mesma occasião, e bem assim no soneto 190, allude também Camões á projectada epopea. Em Ceuta ainda não pensava nella, e se vê do soneto 267, manifestamente contemporâneo desta epistola, e dirigido pelo poeta a um seu admirador, que também fazia versos:

Se a fortuna inquieta e mal olhada,
Que a justa lei do ceu comsigo infama,
A vida quieta, que ella mais desama,
Me concedera, honesta e repousada.

Pudera ser que a Musa, alevantada
Com luz de mais ardente e viva flamma,
Fizera ao Tejo, lá na pátria cama,
Adormecer ao som da lyra amada.

Porém, pois o destino trabalhoso,
Que me escurece a Musa fraca e lassa,
Louvor de tanto preço não sustenta,

A vossa, de louvar-me pouco escassa,
Outro sogeito busque valeroso,
Tal qual em vós ao mundo se apresenta.

                                                            

Forçado a desistir dos seus altos pensamentos, não tendo podido conseguir que a menina dos olhos verdes tornasse a olhar para elle, ferido no coração e no amor próprio, o poeta viu-se, com vergonha sua, fabula da gente, começou a servir de assumpto á maledicência.

Vós, que escuitais em rimas derramado
Dos suspiros o som, que me alentava
Na juvenil idade, quando andava
Em outro em parte do que sou mudado,

Sabei que busca só, do já cantado
No tempo em que eu temia ou esperava.
De quem o mal provou, que eu tanto amava,
Piedade, e não perdão, o meu cuidado.

Pois vejo que tamanho sentimento
Só me rendeu ser fabula da gente
(Do que comigo mesmo me envergonho),

Sirva de exemplo claro meu tormento,
Com que todos conheçam claramente
Que quanto ao mundo apraz é breve sonho.
(Soneto 101)

[…]
In José Maria Rodrigues (3 1761 06184643.2), Coimbra 1910, PQ 9214 R64 1910 C1 Robarts/.

Cortesia do Arquivo Histórico/Universidade de Coimbra/JDACT

Camões e a Infanta D. Maria. Ceuta. José Maria Rodrigues. «Vejo-vos, pensamentos, alterados e não quereis, de esquivos, declarar-me que é isto, que vos traz tão enleados?»

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De volta de Ceuta
«(…) Olvidada e aborrecida por causa da infanta, exposta á irrisão com expressões equivocas para a sua honra delicada, a menina dos olhos verdes tinha o coração morto para o falso cavalheiro ingrato, que ella tanto havia amado. Para

Falsos amores,
Falsos, maus, enganadores,

bastara uma vez.

Ao desolado poeta não restava senão lastimar a sua sorte e explicar por outros amores a invencível pertinácia da gentil menina.

E pois fé verdadeira, amor perfeito,
Tormento desigual e vida triste,
Junta com um continuo soffrimento
E um mal, em que o mal todo, emfim, consiste.
Não puderam mover teu duro peito
A mostrares sequer contentamento

De ver o meu tormento.
Antes tudo, soberba, desprezaste,

E a outrem te entregaste,
Por nada me ficar em que esperasse.

Senão quando acabasse
A vida, a pesar meu, já tão cumprida.
Perca quem te perdeu também a vida.
(Egloga 4ª).

E a infanta? A infanta continuava a ser a obsessão constante do poeta, apesar dos esforços que elle empregava para afastar do seu espirito as doces lembranças da passada gloria.

Doces lembranças da passada gloria.
Que -me tirou fortuna roubadora,
Deixai-me descansar em paz uma hora.
Que comigo ganhais pouca victoria.

Impressa tenho na alma larga historia
Deste passado bem, que nunca fora,
Ou fora e não passara; mas já agora
Em mi não póde haver mais que a memoria.

Vivo em lembranças, morro de esquecido
De quem sempre devera ser lembrado.
Se lhe lembrara estado tão contente.

Oh quem tornar pudera a ser nascido!
Soubera-me lograr do bem passado,
Se conhecer soubera o mal presente !
(Soneto 18).

Amor, com a esperança já perdida,
Teu soberano templo visitei;
Por sinal do naufrágio que passei,
Em lugar dos vestidos, pus a vida.

Que mais queres de mi, pois destruida
Me tens a gloria toda que alcancei?
Não cuides de render-me, que não sei
Tornar a entrar-me onde não ha saída.

Vês aqui a vida e a alma e a esperança,
Doces despojos de meu bem passado,
Em quanto o quis aquella que eu adoro.

Nelles podes tomar de mi vingança;
E, se te queres inda mais vingado,
Contenta-te co as lagrimas que choro.
(Soneto 50).

Pensamentos, que agora novamente
Cuidados vãos em mim resuscitais,
Dizei-me: E ainda vos não contentais
De ter, a quem vos tem, tão descontente?

Que phantasia é esta, que presente
Cada hora ante os olhos me mostrais?
Com uns sonhos tão vãos inda tentais
Quem, nem por sonhos, póde ser contente?

Vejo-vos, pensamentos, alterados
E não quereis, de esquivos, declarar-me
Que é isto, que vos traz tão enleados?

Não me negueis, se andais para negar-me,
Porque, se contra mi 'stais levantados,
Eu vos ajudarei mesmo a matar-me.
(Soneto 93).
[…]
In José Maria Rodrigues (3 1761 06184643.2), Coimbra 1910, PQ 9214 R64 1910 C1 Robarts/.

Cortesia do Arquivo Histórico/Universidade de Coimbra/JDACT

segunda-feira, 15 de abril de 2019

Camões e a Infanta D. Maria. Ceuta. José Maria Rodrigues. «Vossa muita formosura com a sua tanto vai. Que me rio de meu mal. Quando cuido em quem me cura»

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De volta de Ceuta
«(…)
Cantando por um valle docemente
Desciam dous pastores, quando Phebo
No reino Neptunino se escondia.

De idade cada qual era mancebo,
Mas velho no cuidado, e descontente
Do que lhe elle causava parecia.
O que cada um dizia,
Lamentando seu mal, seu duro fado,
Não sou eu tão ousado.
Que o pretenda cantar sem vossa ajuda;
Porque, se a minha ruda
Frauta deste favor vosso for dina,
Posso escusar a fonte Caballina.

Nota: Esta egloga, segundo creio, é dirigida a dona Francisca de Aragão, a tão formosa, como ajuizada dama da rainha dona Catharina. Della diz o J. Priebsch: Raras vezes uma dama da corte portuguesa foi alvo de tantas e tão enthusiasticas manifestações de admiração... Os poetas mais ilustres do seu tempo tributaram-lhe homenagem, cantando o esplendor da sua belleza e lamentando a altivez do seu desdém. Namorador incorrigível, Camões, ao voltar do Oriente, enfileirou também entre os apaixonados adoradores da que annos depois era nora de S. Francisco de Borja.
Este amor que vos tenho, limpo e puro.
De pensamento vil nunca tocado.
Em minha tenra idade começado.
Tê-lo dentro nesta alma só procuro.
De haver nelle mudança estou seguro.
Sem temer nenhum caso ou duro fado.
Nem o supremo bem ou baixo estado,
Nem o tempo presente nem futuro.
A bonina e a flor asinha passa;
Tudo por terra o inverno e estio deita;
Só para meu amor é sempre maio.
Mas ver-vos para mim, Senhora, escassa,
E que essa ingratidão tudo me enjeita,
Traz este meu amor sempre em desmaio.

Já agora também o soneto de despedida, quando a formosa senhora, em seguida ao seu casamento, acompanhou o marido para a corte do imperador Rodolpho II:
Ai imiga cruel! Que apartamento
É este que fazeis da pátria terra?
Ai! Quem do amado ninho vos desterra.
Gloria dos olhos, bem do pensamento?

Is tentar da fortuna o movimento
E dos ventos cruéis a dura guerra?
Ver brenhas d’ondas? feito o mar em serra,
Levantado de um vento e de outro vento?

Mas já que vos partis, sem vos partirdes,
Parta comvosco o ceu tanta ventura,
Que se avantaje áquella que esperardes.

E só desta verdade ide segura,
Que fazeis mais saudades com vos irdes.
Do que levais desejos por chegardes.

Servem de commentario a alguns versos deste soneto as seguintes palavras de Sánchez Moguel {Reparaciones historicaSy Madrid, 1894: En el ano siguiente (1576) debió verilicarse el matrimonio de Juan (de Borja, que era embaixador de Philippe II na corte de Lisboa desde 1569, e tinha enviuvado em 1575) y dona Francisca, pues de las pruebas para el hábito de Santiago del hijo mayor de ambos, Francisco Borja, resulta que este nació em 1577, según unos testigos en el mar, según otros en Génova… Caminaban entonces Juan y dona Francisca para Alemanía, adonde iba Juan de Embajador, á pesar de los ruegos de dona  Catalina á Felipe II para que le hubiessc dado otro puesto, á causa de lo mal que probaba á dona Francisca el passaje de la mar. A futura condessa de Ficalho, que ia ser mãe de mais de um vice-rei espanhol, partia-se, sem se partir, sem deixar uma parcela do coração ao seu desconsolado adorador.

Nada conseguiram também as senhoras que se prestaram a ser intermediarias, terceiras, no assumpto, e ás quais o poeta se dirige nestas redondilhas:
Pois a tantas perdições,
Senhoras, quereis dar vida.
Ditosa seja a ferida,
Que tem tais cirurgiões.

Pois ventura
Me subiu a tanta altura,
Que me sejais valedoras,
Ditosa seja a tristura,
Que se cura
Por vossos rogos. Senhoras.

Ser minha pena mortal.
Já que intendeis que é assi,
Não quero fallar por mi.
Que por mi falia meu mal.

Sois formosas,
Haveis de ser piedosas.
Por ser tudo de uma côr;
Que pois Amor vos fez rosas
Milagrosas,
Fazei milagres d'amor.

Pedi a quem vós sabeis
Que saiba de meu trabalho,
Não pelo que eu nisso valho,
Mas pelo que vós valeis.

Que o valer
De vosso alto merecer,
Com lh'o pedir de giolhos.
Fará que em meu padecer
Possa ver
O poder que tem seus olhos.

Vossa muita formosura
Com a sua tanto vai.
Que me rio de meu mal.
Quando cuido em quem me cura.

A meus ais
Peço-vos que lhe valhais,
Damas, de Amor tão validas,
Que nunca tal dór sintais,
Que queirais,
Onde não sejais queridas.

[…]

In José Maria Rodrigues (3 1761 06184643.2), Coimbra 1910, PQ 9214 R64 1910 C1 Robarts/.

Cortesia do Arquivo Histórico/Universidade de Coimbra/JDACT

Camões e a Infanta D. Maria. Ceuta. José Maria Rodrigues. «A vós se dem, a quem junto se ha dado brandura, mansidão, engenho e arte, de um esprito divino acompanhado, dos sobr’humanos um em toda a parte»

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De volta de Ceuta
«(…)

Vem, como quando o raio transparente
Deste nosso horizonte, que, escondido.
Deixa um certo temor á mortal gente,
Causado de ver o orbe escurecido;
E quando torna a vir, claro e luzente,
Alegra o mundo todo entristecido:
Que assí é para mi tua luz pura
Claro sol, como a ausência noite escura.

Mas tu, 'squecida já do bem passado
E do primeiro amor que me mostraste,
Teu coração de mi tens apartado,
Não menos que do valle te apartaste.
Não te quero eu a ti mais que a meu gado?
Não sou eu mesmo aquelle que tu amaste?
Onde o meu erro viste ou desvario,
Que pôde merecer-te um tal desvio?

                                                          
Se te apartas, por não ouvir meu rogo,
Onde estiveres te hei de importunar;
Posto que vás por agua, ferro ou fogo,
Comtigo em toda a parte me has de achar;
Que o fogo em que ardo e a agua em que me afogo,
Emquanto eu vivo fôr, hão de durar.
Pois o nó que me enlaça é de tal sorte.
Que não se ha de soltar em vida ou morte.

Neste meu coração sempre estarás;
Emquanto a alma estiver com elle unida,
Também o meu esprito possuirás,
Despois que a alma do corpo fôr partida.
Por mais e mais que faças, não farás
Que deixe o amar-te nesta e ess’outra vida.
Impossivel será que eternamente
Ausente estês  de mi, estando ausente.
(Apesar de ausente, estarás sempre presente)

Foi improfícuo o recurso a pessoas de elevada posição social, que, condoídas do pobre sonhador, despenhado da altura das suas illusões, e receosas, por certo, de uma funesta recaída, se prestavam a ouvir-lhe os queixumes e suspiros magoados.

A quem darei queixumes namorados
Do meu pastor queixoso e namorado?
A branda voz, suspiros maguados,
A causa porque na alma é maguado?
De quem serão seus males consolados?
Quem lhe fará devido gasalhado?
Só vós, Senhor famoso e excelente,
Especial em graças entre a gente.

Por partes mil lançando a phantasia.
Busquei na terra estrella que guiasse
Meu rudo verso, em cuja companhia
A santa piedade sempre andasse,
Luzente e clara, como a luz do dia,
Que o rudo engenho meu me allumiasse;
E em vossas perfeições, grão Senhor, vejo
Ainda além cumprido o meu desejo.

A vós se dem, a quem junto se ha dado
Brandura, mansidão, engenho e arte,
De um esprito divino acompanhado,
Dos sobr’humanos um em toda a parte.
Em vós as graças todas se hão juntado;
De vós em outras partes se reparte.
Sois claro raio, sois ardente chamma,
Gloria e louvor do tempo, asas da fama.

Nota: Segundo W. Storck (Vida de Camões, esta égloga foi dirigida ao 2.º conde de Linhares, Francisco Noronha, havendo no principio da 2.ª estancia uma referencia á condessa dona Violante. (Diga-se de passagem que neste tempo ainda lhes não tinha sido dado o titulo. Só depois da renuncia do irmão mais velho, Ignacio Noronha, o braguilha, é que  João III, em 1556, declarou 2.º conde de Linhares o seu antigo embaixador na corte de França). É porém hoje convicção minha : 1º) que a egloga se refere a uma pessoa só; 2.º) que essa pessoa era um prelado. Relêam-se as três estancias e repare-se nas qualidades que o poeta attribue ao senhor famoso e excellente. Sobre o assumpto já a dona Carolina Michaelis escreveu em nota a Storck, Vida de Camões: A engenhosa interpretação de Storck será mais plausível para os que lerem a bella versão germânica, do que para os portugueses que recorrem ao original, porque, emquanto aquella já vem esclarecida, está este mal ponctuado e bastante obscuro. Os versos 11 e 12, por exemplo, em cuja companhia a santa piedade sempre andasse e principalmente o 20 dos sobrehumanos um em toda a parte ficam, ainda assim, um pouco enygmaticos, para mim pelo menos. Quem seria esse prelado? Presumo que é o ditoso Pinheiro do soneto 190, isto é, talvez o barcellense Rodrigo Pinheiro, que era bispo de Angra desde 1548 e esteve á frente da diocese do Porto desde 1552 até 1572. (Sobre a importância que na corte possuía este prelado, que era governador da casa do civel na occasião em que foi escripta a egloga 5.ª veja-se, por exemplo, Barbosa Machado, Bibliotheca Lusitana). Em António Pinheiro, bispo de Miranda e depois de Leiria e ao tempo mestre do mallogrado príncipe herdeiro João, é escusado pensar, me parece, pois esse só foi elevado á dignidade episcopal no reinado de Sebastião, quando Julião d’Alva deixou o bispado de Miranda em 1565. Segundo alguns camonistas, o soneto 190 refere-se a Gonçalo Pinheiro, então bispo de Tanger e desembargador do paço.

[…]

In José Maria Rodrigues (3 1761 06184643.2), Coimbra 1910, PQ 9214 R64 1910 C1 Robarts/.

Cortesia do Arquivo Histórico/Universidade de Coimbra/JDACT

Camões e a Infanta D. Maria. Ceuta. José Maria Rodrigues. «De ouvir meu dano, as rosas matutinas condoídas se cerram, se emmurchecem; com meu suspiro ardente as cores finas perdem o cravo, o lirio, e não florecem»

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De volta de Ceuta
«(…) Um dos artigos fundamentais do programma de vida nova, traçado em Ceuta por Camões, era, segundo vimos, a sua reconciliação com aquella

Cuja lembrança e cujo claro gesto

lhe reappareciam agora na ulcerada alma, como que a encobrir o incommensuravel vácuo que nella se fizera. Foram, porém, baldados todos os esforços empregados por parte do poeta para realizar este intento. Não lhe valeram satisfações, rogos nem queixumes, expressos com toda a eloquência em admiráveis versos (églogas 3.ª, 4.ª e 5.ª).

Caminha o dia todo o caminhante
E, emfim, lhe chega a noite em que descansa;
Trabalha na tormenta o navegante,
Traz-lhe a clara manhã feliz bonança;
Recobra o fruto fértil e abundante
Da terra o lavrador, se nella cansa:
Mas eu de meu cuidado e mal tão forte
Tormento espero só, só crua morte.

De ouvir meu dano, as rosas matutinas
Condoídas se cerram, se emmurchecem;
Com meu suspiro ardente as cores finas
Perdem o cravo, o lirio, e não florecem.
Co’a roxa aurora as pallidas boninas,
Em vez de se alegrarem, se entristecem.
Deixam seu canto Progne e Philomena (i),
Que mais lhes doe, que a sua, a minha pena.

Responde o monte concavo a meus ais,
E tu, como aspid, cerras-lhe o ouvido;
Os indómitos, feros animais,
Sem humano sentir, mostram sentido;
Mas em ti minhas dores desiguais
Nunca movem o peito endurecido.
Por muito que te chame, não respondes,
E, quanto mais te busco, mais te escondes.

Naquella parte donde costumavas
Apascentar meus olhos e teu gado,
Alli donde mil vezes me mostravas
Que era o pastor de ti mais desejado.

Nota: Escrevendo Philomena por Philomela (o rouxinol), o poeta tinha presentes, além d’outros, estes versos da egloga do brando e doce Garcilasso Al visorey de Nápoles:

Con la pesada voz retumba y suena
la blanda Philomena.

Vezes mil te busquei, por ver se davas
Algum breve descanso a meu cuidado,
Busco-te em vão no valle, em vão no monte,
Qual o ferido cervo busca a fonte.

Este lugar, de ti desamparado,
Em cujas sombras frias já folgaste.
Agora triste, escuro, é já tornado,
Que todo o bem comtigo nos levaste.
Eras tu nosso sol mais desejado;
Não temos luz, despois que nos deixaste.
Torna, meu claro sol, torna meu bem;
Qual é o Josué que te detém?

Despois que deste valle te apartaste.
Não pára já algum gado, com secura;
Secou-se o campo, desque lhe negaste
Dos teus formosos olhos a luz pura;
Secou-se a fonte donde já te olhaste,
Quando menos, que agora, áspera e dura.
Nega sem ti a terra, ouvindo gritos,
Ás cabras pasto, e leite aos cabritos.

Sem ti, doce cruel minha inimiga,
A clara luz escura me parece;
Este ribeiro, quando a dor me obriga.
Com meu chorar por ti contino crece;
Não ha fera, a que a fome não persiga;
Algum prado sem ti já não florece.
Cegos estão meus olhos, nada vem.
Porque não podem ver seu claro bem.

                                                             
Torna, pois, já, pastora, ao nosso prado.
Se restituir-lhe queres a alegria;
Alegrarás o valle, o campo, o gado,
E aquelle espelho teu da fonte fria.
Torna, torna, meu sol tão desejado;
Farás a noite escura claro dia;
E alegra já esta vida magoada,
Em que só tua ausência é parca irada.

[…]

In José Maria Rodrigues (3 1761 06184643.2), Coimbra 1910, PQ 9214 R64 1910 C1 Robarts/.

Cortesia do Arquivo Histórico/Universidade de Coimbra/JDACT

sábado, 18 de novembro de 2017

Camões. A Infanta dona Maria. José Maria Rodrigues. «Ondas, dizia, antes que Amor me mate, tornai-me a minha nympha, que tão cedo me fizestes á morte estar sujeita!»

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«(…) Comecemos por estas redondilhas, escriptas naturalmente antes do mando injusto, que o forçou a embarcar.

Mote
Se me desta terra fôr,
Eu vos levarei, amor.

Voltas

Se me fôr e vos deixar
(Ponho por caso que possa),
Esta alma minha, que é vossa,
Comvosco me ha de ficar.
Assi que, só por levar
A minha alma, se me fôr,
Vos levarei, meu amor.

Que mal pode maltratar-me,
Que comvosco seja mal?
Ou que bem póde ser tal,
Que sem vós possa alegrar-me?
O mal não pode enojar-me,
O bem me será maior,
Se vos levar, meu amor.

Vejamos agora como, alludindo a uma predicção, o poeta nos dá noticia das duas desgraças que lhe aconteceram em um só dia, a perda dos haveres que tinha agenciado no Oriente e com que contava para a velhice, e a morte da sua alegre e doce companheira:

Cantando estava um dia, bem seguro,
Quando passava Sylvio e me dizia
(Sylvio, pastor antigo, que sabia
Por o canto das aves o futuro):

Liso, quando quiser o fado escuro,
A opprimir-te virão em um só dia
Dous lobos; logo a voz e melodia
Te fugirão, e o som suave e puro.

Bem foi assi, porque um me degolou
Quanto gado vaccum pastava e tinha,
De que grandes soldadas esperava;

E, por mais dano, o outro me matou
A cordeira gentil, que eu tanto amava,
Perpetua saudade da alma minha.
(Soneto 172).

E, vagueando pelos logares próximos da terrível catastrophe, de que a custo salvara a vida e o Canto, em que celebrava os feitos dos portugueses, o poeta exprime a sua dor pela morte da cordeira gentil, em versos de incomparável belleza.

O ceu, a terra, o vento sossegado…
As ondas, que se estendem por a area...
Os peixes, que no mar o somno enfreia...
O nocturno silencio repousado...

O pescador Aonio, que, deitado
Onde co vento a agua se meneia,
Chorando, o nome amado em vão nomeia,
Que não póde ser mais que nomeado:

Ondas, dizia, antes que Amor me mate,
Tornai-me a minha nympha, que tão cedo
Me fizestes á morte estar sujeita!

Ninguém responde. O mar de longe bate.
Move-se brandamente o arvoredo.
Leva-lhe o vento a voz, que ao vento deita…
(Soneto 173).

Ah minha Dynamene! Assi deixaste
Quem nunca deixar pôde de querer-te?
Que já, nympha gentil, não possa ver-te!
Que tão veloz a vida desprezaste!

Como por tanto tempo te apartaste
De quem tão longe andava de perder-te?
Puderam essas aguas defender-te
Que não visses quem tanto magoaste?

Nem somente fallar-te a dura morte
Me deixou, que, apressada, o negro manto
Lançar sobre os teus olhos consentiste.

Oh mar! ó ceu! ó minha escura sorte!
Qual vida perderei que valha tanto,
Se inda tenho por pouco o viver triste?
(Soneto 170).

In José Maria Rodrigues, Camões e a Infanta Dona Maria, Separata do Instituto, Imprensa da Universidade de Coimbra, Coimbra, 1910, há memória do Mal-Aventurado Principe Real Luis Philippe (3 1761 06184643.2, PQ 9214.R64 1910.C1.Robarts/.

Cortesia doAHistórico/UCoimbra/JDACT