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sábado, 16 de abril de 2011

Fundação Robinson: O Convento de São Francisco de Portalegre. Parte V. A Igreja do convento de S. Francisco de Portalegre. História de um edifício. «...quando os edificios resistem ao passar dos anos sem serem demolidos e substituídos por outros novos ou desaparecerem, têm de ser adaptados a novas circunstâncias, novas necessidades ou ambições...»

Vista geral da igreja
Cortesia de fundacaorobinson 

Com a devida vénia a Nuno Senos.

«As intervenções, agora quase concluídas, por que tem vindo a passar a igreja do convento de São Francisco de Portalegre com vista à sua adaptação a espaço museológico da Fundação Robinson proporcionaram ao historiador da arquitectura as condições ideais de trabalhol. Antes de mais, porque obrigaram ao levantamento de uma planta rigorosa do edifício sem a qual toda a análise se torna problemática e incompleta quando não impossível. Por outro lado, porque deram lugar a intervenções de restauro e arqueológicas que revelaram dados de outra maneira desconhecidos. E finalmente porque a remoção de revestimentos das paredes, o sonho maior de qualquer historiador da arquitectura pré-contemporânea, tornou visíveis as várias fases de construção, as alterações e mudanças, assim como as hesitações e os erros de programa, enfim todas as costuras com as quais a história deste edifício se foi cosendo ao longo dos séculos.

Planta da igreja
Cortesia de fundacaorobinson 
Todos os edifícios de alguma complexidade, como sempre o são as igrejas conventuais, resultam de um processo de construção lento em que a ideia inicial quase sempre sofre alterações antes dos trabalhos serem concluídos. Além disso, quando os edificios resistem ao passar dos anos sem serem demolidos e substituídos por outros novos ou desaparecerem, invariavelmente têm de ser adaptados a novas circunstâncias, novas necessidades ou ambições de quem os encomenda ou usa quotidianamente. Uma igreja do século XIII não respondia às mesmas necessidades, nem simbólicas nem pragmáticas, de uma sua congénere de trezentos anos mais tarde. As comunidades crescem ou diminuem, os indivíduos ou as famílias que facultam os financiamentos e as suas vontades representativas sucedem-se e alteram-se, a própria liturgia sofre modificações, e as igrejas vão sendo fisicamente transformadas para responder às suas novas circunstâncias. Assim foi, naturalmente, com a igreja de São Francisco de Portalegre de que aqui me ocupo.
Para reconstituir a história de um edifício como este, o investigador socorre-se tipicamente de três tipos de fontes:
  • as escitas,
  • as iconográficas,
  • o próprio edifício.
No presente caso, não foram localizadas quaisquer representações visuais da igreja que acrescentassem algo àquilo que o próprio edifício, tal como o vemos hoje, jâ nos diz.

Restos do arco cruzeiro gótico
Cortesia de fundacaorobinson
A informação escrita também não é especialmente rica e suscita quase tantas perguntas quanto respostas. Resta, portanto, o edifício mesmo, esse sirn pleno de informação que a remoção dos rebocos, o cuidadoso restauro dos frescos agora dotados de renovado brilho, a nálise dos materiais de construção, as escavações
arqueológicas e, finalmente, o levantamento rigoroso da planta, acrescentaram exponencialmente, revelando todas as cicatrizes inevitavelmente criadas por cada nova campanha construtiva. É, portanto, essa informação patente nas próprias pedras do edifício e nas argamassas que as cobrem, brancas ou polícromas, lisas ou esculpidas, que procurarei sistematizar nos parágrafos que se seguem.

Uma última nota introdutória para advertir que, se é certo que a matéria mesma do construído responde a muitas perguntas, não é menos certo que também levanta questões que ficarão por responder. Umas e outras serão adiante explanadas, ficando as hipóteses de trabalho apontadas como tal e as dúvidas neste momento insolúveis, naturalmente, por resolver.

Arco gótico de acesso ao claustro
Cortesia de fundacaorobinson 
A igreja gótica
As fontes escritas são pouco seguras quanto à data de fundação do convento Franciscano de Portalegre, oscilando as várias sugestões que se podem colher na bibliografia entre o reinado de D. Sancho II e o de D. Dinis. Para o que aqui nos interessa, importa reter que o documento mais antigo que se conhece relativo ao convento data de 1266 e mostra que já então, isto é, no reinado de D. Afonso III, havia frades a viver na zona e, poucos anos depois, em 1271,este monarca deixou dinheiro aos frades de Portalegre no seu testamento. Estas notícias permitem estabelecer uma cronologia aproximada para o arranque das obras, e mostram ainda que o convento foi, desde o início, obra de protecção régia.

Aquilo que se pode ver no edifício aponta na mesma direcção. Na verdade, a igreja que hoje se visita resulta sobretudo de três momentos construtivos, mais do que propriamente campanhas, já que não é certo que em cada um daqueles tenha decorrido apenas uma destas, um medieval, outro no século XVI, e finalmente outro já do século XVIII. Entre outras consequências a que adiante farei referência mais detalhada, esta última campanha substituiu a capela-mor e alterou profundamente a nave da igreja. Esta reconfiguração fez-se em
parte por demolição de estruturas anteriores, mas também através da construção de novas paredes em torno das mais antigas, preservando estas últimas no seu interior. Foi isto que aconteceu no arco cruzeiro, por exemplo, como ficou patente agora, com as obras de recuperação. O arco cruzeiro é hoje de volta perfeita mas a remoção do reboco das paredes que lhe correspondem, do lado do transepto, tornou visíveis as mísulas e os segmentos de coluna com os respectivos capitéis, sobre os quais assentam os arranques do arco quebrado, também preservados, que correspondiam ao arco cruzeiro do edifício original». In Nuno Senos, A Igreja do convento de S. Francisco de Portalegre: história de um edifício, Fundação Robinson, Publicação 1o, 2009, ISSN 1646-7116.

Cortesia de Publicações da Fundação Robinson/JDACT

quinta-feira, 10 de março de 2011

Fundação Robinson: O Convento de São Francisco de Portalegre. Parte IV. A Igreja de S. Francisco de Portalegre. Notas em torno de um programa de musealização. «...âncora e testemunho dessa confluência dinâmica entre memória, herança e criação a que a nova Convenção-Quadro do Conselho da Europa sobre Património Cultural...»

Detalhe do altar-mor da igreja do convento
Cortesia de publicacoesdafundacaorobinson 

Com a devida vénia a António Filipe Pimentel.

«... Porém, reduzir  a uma dimensão local um projecto que tem, inquestionavelmente, na igreja de São Francisco a sua pedra fundacional, seria comprometer as potencialidades que detém do ponto de vista do aludido imperativo de conservação integrada dos bens culturais e da sua indeclinável relevância para as noções (que lhe subjazem) de cidadania aberta e de património comum. De facto, o intrincado (e fascinante) processo de reelaboração perpétua da sua estrutura morfológica, que a presente reabilitação patenteia com notável nitidez, impõe que se colham todas as possibilidades que fornece, porquanto deixa agora o caminho aberto aos historiadores da arte, a quem devolve um elo de particular significado na reconstituição de cadeias formais (não apenas no plano arquitectónico, mas no das artes aplicadas: da retabulária à azulejaria e à pintura a fresco) que podem e devem promover uma mais eficaz compreensão de caminhos que são vias de comunicação em rede, do ponto de vista do património comum: desde logo da arquitectura religiosa e particularmente franciscana (ela mesma uma imensa rede, não só no espaço metropolitano, como no nacional e ultramarino e com elos que se afirmam em claras inter-relações transfronteiriças), mas igualmente das artes em sentido lato (v.g. no trabalho do estuque, que afirma claramente a singularidade de Portalegre e que muito importa, de igual modo, não encarar apenas de uma perspectiva local, mas claramente numa  relação supranacional, único modo de compreender o fenómeno em toda a sua extensão e riqueza: estética, desde logo, mas igualmente social e económica).

Aspecto de uma das capelas colaterais
Cortesia de publicacoesdafundacaorobinson

A igreja de São Francisco de Portalegre contém, assim, em escala não comum, a um tempo pela sua dimensão original  de sede de um paradigmático cenóbio menorita, pelo destino (que comunga com outros) de reafectação ao uso fabril que lhe seria outorgado pelas circunstâncias históricas que lhe coube viver e, finalmente, pelo presente programa de reabilitação (ao convertê-la em núcleo museológico, no quadro do alojamento da Colecção Sequeira e no âmbito, mais vasto, do Espaço Robinson que em seu redor se desenvolve e articula), uma capacidade de trabalhar em rede que seria grave erro negligenciar, ou subvalorizar ao firmar as linhas do seu programa de musealização.
Programa que, naturalmente, deverá desde logo assentar a sua base mobilizadora entre os equipamentos culturais e museológicos sedimentados no próprio município: o Museu Municipal, onde se recolhe um importante acervo, a um tempo de valor histórico, artístico e antropológico, que associa o legado
do Estado Novo, nas suas dimensões eclesiástica e senhorial, ao da sociedade nova sete e oitocentista e mesmo à criação contemporânea; o Museu das Tapeçarias, em associação à respectiva fábrica, onde, pela reconversão operada por Guy Fino, em meados do século XX, se recolhe uma tradição artesanal e fabril que se inscreve entre a velha Fábrica Real, instalada no antigo Colégio de São Sebastião (cuja libertação, por força da expulsão dos Jesuítas, em 1759, constitui vanguarda do processo de extinção geral dos institutos regulares consumado com a legislação de 1834) e a Fábrica Robinson, que haveria de brotar, no século XIX, na cerca do convento Franciscano; a Casa-Museu José Régio, enfim, cuja personalidade e obra literária constituem, elas mesmas, âncora e testemunho dessa confluência dinâmica entre memória, herança e criação a que a nova Convenção-Quadro do Conselho da Europa sobre Património Cultural dá força jurídica e que, de forma pioneira, ilustraria, no coleccionismo cristocêntrico a que se dedicou, a força central e antropológica dessas imagens a cuja recolecção, por sua vez, Rui Sequeira iria dedicar vida, recursos e energia.

Colunas de retábulo, finais século XVIII
Cortesia de publicacoesdafundacaorobinson

Nesse sentido, o desafio que ora se coloca é o de entender a reabilitação da igreja de São Francisco de Portalegre e a própria musealização da Colecção Sequeira, não como um museu, estável e finito, mas como um pólo dinâmico de confluência entre memória, herança e criação, promovendo, por meio do património (e do seu estudo, preservação e divulgação) e do direito dos cidadãos de participarem na vida cultural, o desenvolvimento económico e social da comunidade em que se inscreve. E divulgando, por esse modo, as noções de cidadania aberta e de cultura da paz que só ele pode gerar:
  • por isso mesmo que o património,
  • por natureza,
  • constitui lição, a um tempo material e imaterial,
  • de compreensão, integração e diálogo.

In António Filipe Pimentel, A Igreja de S. Francisco de Portalegre. Notas em torno de um programa de musealização, Fundação Robinson, Publicação 10, 2009, ISSN 1646-7116.

Continua.
Cortesia de Publicações da Fundação Robinson/JDACT

terça-feira, 28 de dezembro de 2010

Fundação Robinson: O Convento de São Francisco de Portalegre. Parte III. A Igreja de S. Francisco de Portalegre. Notas em torno de um programa de musealização. A personagem Rui Sequeira e o seu invulgar desígnio missionário não poderão ser escamoteados, por essa via proporcionando um elo transversal a todo o Espaço Robinson e à cultura da comunidade operária que o gerou e habitou

Foto de Fernando Guerra
Cortesia de publicaçõesdafundaçãorobinson

Com a devida vénia a António Filipe Pimentel, Fundação Robinson, Publicação 10, 2009, p. 26-37, ISSN 1646-7116

«Encontra-se já em fase final o lento e complexo processo de reabilitação da antiga igreja do Convento de São Francisco de Portalegre, que as consequências decorrentes das vicissitudes da extinção das ordens religiosas, em 1834, conduziriam, sucessivamente, à expoliação, desafectação e quase ruína: enquanto, na zona residencial do antigo cenóbio, vingava (entre outras) a semente do que viria a ser a Fábrica Robinson, que nos seus anos de ouro promoveria a transfiguração quase integral do complexo monástico, com a sua fachada funcional e a erecção das altaneiras chaminés que iriam modelar a própria imagem da cidade. Numa clara inversão de valores do que fora a hierarquia original das construções, até que, pesando, por seu turno, sobre a unidade industrial, a usura do tempo, possibilitasse a circunstância azada da devolução à cidade do conjunto edificado assim sedimentado, harmonicamente integrado num Espaço Robinson que promoveria a remissão, por seu intermédio (e em clara leitura de contemporaneidade), desse passado total, monástico e industrial, projectado no futuro de uma nova vocação cultural - onde interagem a arqueologia (medieval e industrial), a museografia, o turismo e a nova criação -, (re)outorgando, por essa via, ao velho núcleo franciscano, a relevância a um tempo afectiva e simbólica que por séculos detivera na vida da cidade.

Século XVIII, finais
Cortesia de publicaçõesdafundaçãorobinson

 Do acerto da decisão política que alicerça e sustenta a recuperação deste património singular testemunha eloquentemente a recente ratificação, pelo próprio Estado Português (em sede parlamentar), da Convenção-Quadro do Conselho da Europa sobre Património Cultural, assinada em Faro em Outubro de 2005. Documento esse que - na senda das convenções entretanto firmadas em Granada (1985, sobre património arquitectónico), La Valetta (1992, sobre património arqueológico) e Florença (2000, sobre a paisagem) - lança as bases de um processo novo de cooperação entre Estados, nesse domínio particular, ao mesmo tempo que estabiliza a noção de que o património cultural é uma realidade dinâmica, na qual se inter-relacionam, não apenas o património histórico e artístico dito material, mas as tradições e a própria criação contemporânea: nessa dimensão assentando as suas bases a própria ideia de património comum europeu, justamente alicerçado na assunção da sua diversidade cultural e na própria noção de pluralismo. E é neste pressuposto teórico - em redor do qual gravita a própria produção conceptual da UNESCO em torno da noção de património imaterial - que assenta, não somente a consciencialização da necessidade de uma conservação integrada dos bens culturais, mas da sua relevância para a própria ideia de cidadania aberta, escorada na crença de que o património comum é o resultante de uma confluência dinâmica entre memória, herança e criação. Postulado esse por sua vez estribado no reconhecimento do direito dos cidadãos de participarem na vida cultural e na convicção de ser o património uma matriz indispensável, seja ao desenvolvimento humano (no plano geral), seja (mais particularmente) a um modelo de desenvolvimento económico e social assente no uso durável dos recursos e na dignidade da pessoa: por sua vez reputados fundamentais para a dinamização de uma cultura de paz, assente no respeito das diferenças e em factores de aproximação, compreensão e dialogo, que o património e a sua preservação (pela própria multidisciplinaridade que requer e pelas pontes transnacionais que por natureza fomenta) têm, justamente, particulares condições para favorecer.

Século XVIII, segunda metade
Cortesia de publicaçõesdafundaçãorobinson

É neste contexto que a decomposição do Espaço Robinson entre núcleos expositivos, criativos e escolares e a correlativa recuperação das estruturas monásticas (protagonizadas pela Igreja de São Francisco, mas também pelo claustro e áreas residenciais adjacentes) e industriais adquire o seu sentido pleno: na própria complementaridade arqueológica que promove entre o tempo longo da sua vocação religiosa e espiritual - que acompanha a sedimentação de Portalegre como vila e depois cidade, entre a Baixa Idade Média e o Barroco - e o tempo novo da Revolução Industrial e da afirmação da urbe como centro fabril. O qual, antes de alimentar-se, no século XIX, dos despojos gerados pela legislação desamortizadora (e de as altivas chaminés da corticeira Robinson rasgarem o céu sobre o perfil da urbe) se plasmara já numa ampla metamorfose da imagem da cidade velha (marcada ainda pela Sé e pelos grandes casarões conventuais), agora modernizada pela presença - em escala singular - de um conceito novo de palácio, assumido como imagem de marca de uma nova classe possidente de aspirações (ou ligações) aristocráticas, com claras relações trasfronteiriças (ao Barroco e Rococó extremenhos) e a novas actividades económicas (com a consequente alteração mental e cultural) em que importa sobremodo atentar.

Popular, séculos XIX-XX
Cortesia de publicaçõesdafundaçãorobinson

A história e as vicissitudes do Convento de São Francisco são, pois, a ponte necessária na ligação deste tempo ao que o antecede, balizado pelas estruturas fortificadas da povoação medieval (também elas ponto de chegada de um passado mais longo, que narra os avatares do estabelecimento aqui de uma comunidade humana), enquanto as da Fábrica Robinson (pela mediação do Espaço Robinson) projectam ambos no presente e no futuro: numa rara e feliz ilustração da confluência dinâmica entre memória, herança e criação atrás referida. Esta a razão porque muito importa não perder de vista o conjunto de intersecções que se consubstanciam em São Francisco de Portalegre, a um tempo no plano histórico e cultural como no artístico e patrimonial, na hora de promover a sua musealização.

Com efeito, primeiro cenóbio a estabelecer-se na povoação medieval, logo na fase inicial da vertiginosa difusão pelo espaço europeu que conheceria a nova congregação fundada, em inícios do século XIII, pelo poverello de Assis (e um dos primeiros dessa observância em todo o Reino); implantado, como de regra, na periferia do agregado urbano e, por essa via, funcionando como pólo dinamizador da sua expansão, o convento, aqui como em toda a parte, converter-se-ia em centro irradiador de uma espiritualidade nova (assente na imitação de Cristo e na imagem da vida cristã que configuram a sua peculiar Regra de Vida) que, seja por intermédio da pregação, seja da sociabilidade própria de mendicantes, seja ainda da difusão do próprio conceito (e modo de vida) das Ordens Terceiras, constitui um poderoso factor de aglutinação social (e, por conseguinte, de coesão da comunidade humana), de particular importância face à grave crise da piedade e da vivência religiosa (de evidentes repercussões sociais e políticas) que assinala a transição entre a Idade Média e a Moderna. E nisso radicará (também por força dos institutos escolares de que foi proprietária) a importância que a piedade e a parenética franciscanas (de teor terrorista e ressonâncias escatológicas, e fortemente centrada na devoção a Cristo e à Sua Paixão) virá a conhecer no período barroco: justamente aquele em que Portalegre se afirma na sua dimensão nova de cidade.

Colunas de retábulo, século XVIII, finais
Cortesia de publicaçõesdafundaçãorobinson

A peculiar modelação plástica de urbe, alcandorada na sua vertente como um sacro monte ou um deserto (onde à cidade de Deus caberia ordenar e remir a cidade dos homens) e de cuja morfologia o complexo cenobita participaria em lugar de relevo, muito particularmente favorece, aliás, uma dimensão semiótica à implantação franciscana na cidade (que é também uma dimensão de poder), que o decurso da História se encarregará de preservar. Antes que uma nova imagem, mais urbana e secular, venha, pouco a pouco, no declinar do século XVIII, estabelecer no desenho um foco de conflito: mas que a Fábrica Robinson (com as suas chaminés, mas também com a sua acção social, não isenta de proselitismo) procurará preservar, em seu beneficio e em alteridade mais ou menos explícita à cidade antiga, enroscada em torno à, e às suas ancestrais cultura, sociabilidade e economia e a um paradigma de unicidade (também religiosa) de natureza pré-capitalista. Por seu turno, a complexa evolução física da Igreja de São Francisco de Portalegre, cuja leitura os actuais trabalhos arqueológicos e de reabilitação devolvem na sua rica integridade, espelha fielmente esta história longa e rica, indispensável à boa compreensão da urbe, na sua afirmação e desenvolvimento.
Fá-lo, com efeito, desde logo na sua oscilante ambiguidade entre os ditames (plásticos) de pobreza originais e a necessidade de propagar' o seu discurso de exaltação divina num contexto cultural mutante, do ponto de vista da sociedade em que se inscreve e no qual, especialmente entre os séculos XVII e XVIII, a cultura do Barroco impõe o teatro e a teatralidade das formas e estruturas como veículo central de comunicação.

Colecção Rui Sequeira (JC)
Cortesia de publicaçõesdafundaçãorobinson

E é  justamente aqui que a musealização da Colecção Rui Sequeira proporciona a ocasião feliz e rara de preencher (cénica e cientificamente) o vazio gerado pela dramática dispersão do património integrado que outrora preencheu esse recinto. Exactamente pela preocupação a um tempo escatológica e redentora que presidiu à tenaz reunião desse impressionante espólio;
  • pelo protagonismo rigorosamente central que o tema da Paixão de Cristo detém sobre a totalidade do acervo;
  • pela possibilidade de, por seu intermédio, ilustrar a ligação dos Franciscanos à vivência peculiar das Ordens Terceiras;
  • de complementar a presença depauperada das estruturas retabulares e (em não menor sentido) de ilustrar a implantação socialmente transversal de uma espiritualidade que, na comunidade humana como no plano puramente estético, se estende dos paradigmas eruditos, às interpretações regionais e mesmo populares e, no plano cronológico, se alonga do declinar da Idade Média aos inícios da centúria finda.
Num quadro onde a personagem Rui Sequeira e o seu invulgar desígnio missionário não poderão ser escamoteados, por essa via (e pela da própria criação contemporânea do programa de musealização) proporcionando um elo transversal a todo o Espaço Robinson e à cultura da comunidade operária que o gerou e habitou». In António Filipe Pimentel A Igreja de S. Francisco de Portalegre. Notas em torno de um programa de musealização.

Continua, numa próxima oportunidade.

Cortesia de Publicações da Fundação Robinson/JDACT

segunda-feira, 22 de novembro de 2010

Fundação Robinson: O Convento de São Francisco de Portalegre. Parte II. «Face a esta situação, em 1568 e em conformidade com um Breve de Pio V os Claustrais são expulsos definitivamente de Portugal, mas já em 1542, D. João III consegue que o convento portalegrense passe para os Observantes, numa tentativa de acabar com esta paisagem pouco edificante da vida conventual»

Fotografia de Fernando Guerra
Cortesia da

«Entretanto, desde o Concílio Ecuménico de Vienne (1311-1372) que as reformas no seio da Ordem tinham permitido o surgimento de duas correntes, o Conventualismo (Claustrais) e a Observância, muito mais fiel que a anterior aos ideais de pobreza e humildade definidos por São Francisco de Assis na sua regra. Sob o pontificado de Leão X, em 1517, a separação jurídica dos movimentos torna-se efectiva e cada um deles passa a ter uma organização própria. Poucos anos depois (1525), a Ordem dos Frades Menores da Regular Observância também se subdivide com o surgimento dos Frades Menores Capuchinhos.

São Francisco de Portalegre era um convento de frades Claustrais, a reformação da Ordem Franciscana que D. João III (1527-1557) tudo fez para expulsar de Portugal. Em tempos de Reforma e Contra-Reforma, o Rei «piedoso»? mostrou, desde o início do seu reinado, um enorme esforço para devolver às ordens religiosas o anterior zelo pelas regras que as inspiravam de forma a terminar com o relaxamento e laxismo em que muitos religiosos viviam nesta época.

Cortesia de cratoeuroconsult
Era uma «realidade alarmante, vivem mais como seculares que como religiosos», escreveu D. João III para o ministro da Cúria em 1546, tendo certamente em conta as informações que lhe eram enviadas pelos seus Corregedores. O da comarca de Portalegre, Diogo Lourenço, tinha precisamente enviado ao Rei duas cartas em 1541 informando-o da murmuração que corria entre o povo acerca das demasiado frequentes visitas dos frades de São Francisco às Clarissas, fosse a que horas fosse e com e desculpa de que iam fazer confissão e dizer missa. Como se não bastasse, também os frades do Convento de Nossa Senhora da Estrela de Marvão e de outros lugares, eram frequentadores do Convento de Santa Clara. O Corregedor sugere então, entre outras medidas, que a portaria do convento das freiras fosse mudada para uma rua de maior movimento e visibilidade em vez de estar «em huns bequos e travessas escusas e ocultas», o que facilitava com certeza as visitas nocturnas e clandestinas às monjas. Meses mais tarde a situação não estava resolvida e o Corregedor informa de novo D. João III, descrevendo os frades do convento: são todos mancebos e «perdem a vergonha e obediencia ao guoardiam, que non dam por elle». Estes 30 frades, que «todos sam moços [...] de xxx annos para baixo», são «res mal avezada», «gado bravo», «sempre viveram à sua vontade e seu modo» e «non se podem sojugar nem domar por hum soo Homem».

Cortesia de porabrantes
Face a esta situação, em 1568 e em conformidade com um Breve de Pio V os Claustrais são expulsos definitivamente de Portugal, mas já em 1542, D. João III consegue que o convento portalegrense passe para os Observantes, numa tentativa de acabar com esta paisagem pouco edificante da vida conventual.
Assim, em 1550, é estipulado por Patente do Padre Frei Francisco da Conceição, Provincial da Província dos Algarves, que todos os bens de raiz dos frades Claustrais - capelas, bens e propriedades - fossem administrados pelas freiras do Convento de Santa Clara da cidade, devido ao regime de pobreza praticada pelos Observantes e que não se coadunava com a posse de qualquer tipo de bem material. Ficaram assim as Clarissas daquele convento encarregues de olhar pelos frades, seus irmãos provinciais e de regra, com a obrigação de pagarem as missas das capelas aos religiosos.
Na passagem para a Observância e em cumprimento do que tinha sido definido, os frades cederam a água da Cerca do convento à cidade e o povo, agradecido, mantém-nos como possuidores da chave da arca da água. Esta situação desagradou à Câmara, que recorreu ao Rei, mas este interveio a favor dos religiosos, donos da água desde 1266.

D. Dinis, acabou esta obra em 1354 em honra de S. Francisco
Museu Municipal de Portalegre, 4021/0004 Ep
Fotografia de Glória Aguiam
Cortesia da Fundação Robinson

São desta época algumas capelas e sepulturas da igreja, com destaque para a de Gaspar Fragoso (1571).
Entre os séculos XVI e XIX, havia em Portugal dois grupos de Províncias e Custódias dos Observantes:
  • As dos Frades Menores da Regular Observância;
  • As da Estreita Observância (frades descalços ou capuchos).
Da primeira faziam parte, além da Província de Portugal e da Província dos Algarves, a Província de São João Evangelista dos Açores (criada em 1639) e as Custódias de Santiago Menor na Madeira (1683) e da Conceição dos Açores (1715). Na Estreita Observância, com um regime de vida ainda mais austero, enquadravam-se as Províncias da Piedade (1517), da Arrábida (1560), de Santo António (1568), da Soledade (1673) e da Conceição (1705). Era da Província da Piedade que fazia parte o outro convento Franciscano de Portalegre - o de Santo António (cuja segunda e definitiva fundação ocorreu em1572).

Também no século XVII houve reformas no edifício, possivelmente pelo aumento do número de frades, pelas necessidades da casa e fruto do espírito profundamente religioso dos monarcas. A 10 de Agosto de 1602, D. Filipe III (1598-1627) manda que os oficiais da Câmara dêem 40 mil reis ao convento acrescidos de outros 150 mil para reparo do Refeitório, «que estava caindo». Como este Alvará não foi cumprido, o Guardião do convento pede ao rei que o volte a mandar executar, o que se verifica através de uma carta de 26 de Junho de 1613. Em 1611, o mesmo Rei ordena que se dêem ao Convento de São Francisco 200 cruzados para reparos, especialmente do Coro «que se achava, por antigo, muito arruinado».

Placa de instituição de um hospital no Convento de S. Francisco por pedro Domingos da Porta.
Museu Municipal de Portalegre, 4022/0005 Ep
Fotografia de Glória Aguiam
Cortesia da Fundação Robinson

Em meados do século XVIII, os Franciscanos não viviam o dinamismo de outrora mas ainda assim tinham em Portugal cerca de 180 casas e aproximadamente 4000 religiosos. Em 1755, estavam sob administração do Convento de São Francisco de Portalegre 64 capelas, o que prova que as doações dos fiéis se mantinham, dando alguma prosperidade à casa.
Nesta época, se em termos de regra não houve mudanças substanciais rio convento, houve contudo grandes reformas no edificado que deixaram a sua marca e que, se por um lado apagaram vestígios anteriores, por outro lado nos mostram como a sua conservação e adaptação eram ainda importantes e necessárias. Em 1711, parece ter havido melhoramentos, embora as maiores obras sejam provavelmente de 1720, quando era Provincial da Ordem o Padre Frei Francisco do Rosário. Nesse ano começou a ser refeito o Dormitório, que era antigo e estava «arruinado». Esta construção veio levantar de novo a questão da posse da água do convento. Foi feito um novo registo da mesma água, o que fez com que o povo, esquecido já de que os frades eram os seus verdadeiros proprietários, se revoltasse e exigisse a intervenção régia. De novo o Rei decidiu a favor dos Franciscanos, mas anos mais tarde - em 1733 - o monarca alterou a sua decisão em favor da Câmara de Portalegre, que lhe tinha pedido que todo o anel de água do convento fosse entregue ao povo.
No século XIX, após a Guerra Civil (1832-1834) e na senda da legislação que Mouzinho da Silveira (l780-1849) começara a delinear enquanto ministro da Fazenda e da Justiça do governo liberal da regência de D. Pedro (1798-1834) nos Açores e no Porto, são nacionalizados todos os bens das Ordens Religiosas e extintas as suas casas por decreto de 30 de Maio de 1834. Para os liberais, além da decadência a que as Ordens religiosas tinham chegado, os frades formavam uma sociedade separada do resto da sociedade civil, um Estado dentro do Estado que importava incorporar para que, com todos os cidadãos em igualdade de circunstâncias e comunhão de interesses, se alcançasse o bem-comum.

Cortesia da Fundação Robinson

É nesta perspectiva que se deve compreender as suas medidas para encerrar os conventos e a nacionalização dos seus bens. Deste modo, esses bens acabavam também por contribuir para o pagamento da dívida pública e para o equilíbrio da economia ao serem vendidos.

Nesta conjuntura, ao fim de aproximadamente seis séculos de funcionamento, o Convento de São Francisco de Portalegre foi extinto. Como exigia a lei, para esse propósito, foi elaborado um inventário mais ou menos exaustivo dos bens do convento e do seu valor área por área: Igreja, Capela-mor, Capela dos Paços, Capela de Santa Helena, Capela do Senhor Ecce Homo, Capela de Santo António, Capela da Senhora do Rosário, Capela de São Diogo, Capela da Senhora da Conceição, capelinha, Sacristia, Dormitório, Celas (23 no total), Procuração, Livraria, Cárcere, Adega, Celeiro, Cozinha e Refeitório. Foram inventariantes José Januário Teixeira Leite e Castro (Juiz de Fora), Joaquim Caetano Guapo (Tabelião do Judicial), Frei Joaquim da Puríssima Conceição de Maria Guerreiro (Guardião do Convento de São Francisco) e um grupo de sete avaliadores especialistas em diferentes áreas (por exemplo ourivesaria, tecidos ou mobiliário). A parte imóvel - compreendendo o edifício do convento, as Celas e a Igreja com nove altares - foi avaliada em três contos e trezentos mil reis; a Cerca - «com seu ramo de olival e hortinha anexa à dita Cerca, que parte com o mesmo Convento, com rua do Pinheiro, com o outeiro e o Corro público (actual Praça da República) desta cidade» - avaliada em quatrocentos mil reis acrescidos de uma renda anual de vinte mil.

Os 19 frades que residiam ou pertenciam ao convento em 1834 tiveram de o abandonar, ingressando na vida eclesiástica ou seguindo a vida secular, e o imóvel ficou disponível para o Estado o poder vender, arrendar ou instalar serviços públicos, como sucedeu por todo o país. Apesar da Igreja ter ficado aberta ao culto até 1910, em parte do extinto convento e da sua Cerca foi instalado um quartel e anos depois, uma pequena oficina de tratamento de cortiça, propriedade de Thomas Reynolds. Em 1848, George William Robinson (1813-1895) compra essa oficina e transforma-a na Fábrica Robinson, arrematando ao Estado parte das instalações do convento - seis casas e quintal, Refeitório e parte do Dormitório da direita (por cerca de doze mil, cento e cinquenta reis anuais) - e da sua Cerca (trinta e um mil cento e cinquenta reis) até as adquirir definitivamente em hasta pública à Fazenda Nacional em 1868.

Cortesia da Fundação Robinson

Para além de quartel (o claustro ainda hoje está afecto ao Ministério da Defesa) e fábrica de cortiça, os espaços pertencentes ao antigo Convento de São Francisco tiveram usos muito variados. Serviram como anexo do Liceu Nacional de Portalegre, instalações do Arquivo Distrital de Portalegre nos anos 80 e 90, da CERCI (até à actualidade), do grupo de teatro «O Semeador» de casa de arrumação e despejo municipal, zona de habitação (até à actualidade) e outros fins. Apesar de ter sido considerado «Imóvel de interesse público» em 1967, o seu estado geral foi-se degradando sem que o Estado, seu proprietário, se preocupasse grandemente com a sua preservação.

Actualmente, no âmbito do protocolo celebrado a 19 de Julho de 2005 entre Fundação Robinson e o IPPAR - Instituto Português do Património Arquitectónico (agora designado IGESPAR - Instituto de Gestão do Património Arquitectónico e Arqueológico) - assiste-se à sua recuperação, restauro, requalificação e reconversão como espaço cultural, integrado numa nova visão da cidade que assim recupera a memória e a dignidade de um dos elementos arquitectónicos que há mais tempo marcam a paisagem portalegrense e a sua história». In Jorge Maroco Alberto, Publicações da Fundação Robinson, nº 10, 2009, ISSN 1646-7116. Ver Bibliografia, páginas 21 a 25.

Continua, numa próxima oportunidade.

Cortesia de Publicações da Fundação Robinson/JDACT

quarta-feira, 27 de outubro de 2010

Fundação Robinson: O Convento de São Francisco de Portalegre. Parte I. «Como com o tempo tudo se muda, assim sucedeu nesta Igreja, porque além da renovação que nela se fez, tem tido suas mudanças»

Cortesia de publicaçõesfundaçãorobinson
«Todas as cidades têm tesouros escondidos atrás de portas fechadas durante demasiado tempo. Em Portalegre, descobrimos recentemente a Igreja de São Francisco. Depois de anos de utilizações várias e de ter sido votada ao abandono, foi redescoberta e, pela mão da Fundação Robinson, ganhou novo brilho, com um projecto de requalificação e adaptação a Espaço Cultural.
Descobriu-se uma Igreja que pode ser um dos monumentos mais antigos de Portalegre. Descobriu-se que passou por sucessivos processos construtivos do século XIII ao século XVIII e que indícios destas obras permanecem gravados nas paredes, como assinaturas ou marcas de uma época determinada. Descobriu-se a cerca da cidade. Descobriu-se um espaço rico de conteúdo e de significados.
Aprendeu-se a olhar o edifício, a lê-1o sob a orientação de quem sabe desvendar vestígios e as memórias perdidas nas sucessivas mudanças por que foi passando. «Destapou-se» o que estava escondido, refez-se uma história há muito perdida e abriram-se as portas. No que ficou podemos adivinhar toda a diversidade de estilos e de intervenções que fazem de São Francisco um espaço cultural privilegiado por congregar diferentes vertentes:
  • de investigação;
  • expositiva;
  • pedagógica;
  • formativa;
  • lúdica;
  • turística;
  • cultural...
num trabalho vivo, aberto e continuado. Em todo este processo, é natural que surjam dúvidas e questões: como se descobre o encanto num edifício abandonado ou em risco de ruína? É preciso ver para além do óbvio e adivinhar a beleza escondida no meio dos escombros e de anos de lixo acumulado.
Passados períodos difíceis de obra, de descoberta, de desgaste, de discussões e decisões algo questionáveis, o resultado está à vista! Em São Francisco é possível viajar no tempo e encontrar ali uma diversidade de estilos arquitectónicos e artísticos, valorizados por esta intervenção. A riqueza do edifício esteve sempre lá, só foi preciso que alguém a quisesse ver...
Neste espaço cultural que hoje é a Igreja de São Francisco, peças isoladas da Colecção Sequeira ganham dimensão porque são inseridas num conjunto pensado e desenhado para as fazer brilhar.
Entretanto, existe um trabalho moroso e delicado de estudo, inventariação, recuperação, conservação e restauro do existente. Só assim se concebe mostrar, expor e disponibilizar ao público. Só assim se justifica a nossa preocupação em preservar o nosso legado histórico-cultural, pois é este o caminho que nos permite assegurar o futuro do património». In José Mata Cáceres, Publicações da Fundação Robinson, nº 10, 2009, ISSN 1646-7116.

Cortesia delocalentejo
«Como com o tempo tudo se muda, assim sucedeu nesta Igreja, porque além da renovação que nela se fez, tem tido suas mudanças»
Situado na meia encosta de Portalegre, junto à actual Praça da República, o Convento de São Francisco é uma das construções mais antigas da cidade e foi uma das primeiras casas da Ordem dos Frades Menores a ser fundada em Portugal.
Apesar de constituir uma importantíssima herança do passado de Portalegre, pouco se tem sabido acerca da sua história, tendo sido votado durante décadas ao esquecimento e ao abandono. Procuramos aqui sistematizar alguns dados relativos a este espaço edificado e contribuir, de alguma forma, para a recuperação da memória da cidade, utilizando como guia o cronista da Ordem, Frei Jerónimo de Belém (1692-1760?). Os Franciscanos - que seguiam a regra de São Francisco - tinham como ideal a vida sem comodidades, em pobreza, casta, simples e contemplativa, procurando o isolamento como forma de a conseguir e de imitar a vida de Cristo e de São Francisco de Assis, fundador da Ordem. O Convento que edificaram em Portalegre foi a primeira residência religiosa colectiva a instalar-se aqui. Pelo apoio que davam a pobres e enfermos, os conventos franciscanos tornavam-se centros de atracção desses grupos e eram, por esse motivo, mal vistos pelas comunidades, sendo relegados para fora das cercas urbanas, embora surgissem nas suas imediações.

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Assim sendo, se olharmos para uma planta da outrora vila nos finais do século XIII e princípio do século XIV, podemos notar como este edifício era das poucas construções exteriores à cerca amuralhada de D. Dinis (1279-1325). Foi estabelecido a algumas centenas de metros da cerca urbana - em frente à Porta de Alegrete - junto ao caminho que se dirigia para a serra ou para o lugar que deu nome à porta. A partir de então, o Convento de São Francisco passou a marcar a malha urbana, requalificando o espaço e promovendo linhas de expansão da cidade que ainda hoje se percebem.
Apesar de não haver dúvidas de sua antiguidade, não há, contudo, certezas quanto ao ano da sua fundação e os autores que sobre ele escrevem não são consensuais. Nas palavras de Frei Jerónimo de Belém, que escreve em 1750 sobre este conventos, «não seria pequeno [o milagre] se pudéssemos descobrir o anno certo da fundação do nosso [convento], mas he tal a variedade com que delle escrevem os Chronistas da Ordem, que, fazendo-o todos muito antigo, nisto somente lhe dão o seu princípio».
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Diogo Pereira de Sotto Maior, no seu Tratado da Cidade de Portalegre (1619), remonta a fundação desta casa de religiosos ao reinado de D. Dinis, acrescentando que o Rei o terá feito à sua custa. Segundo um estudo não publicado de Leonel Cardoso Martins, aproximadamente um século mais tarde, Frei João da Encarnação, Guardião do convento em 1721 e autor de uma memória descritiva a que não conseguimos ter acesso durante a nossa pesquisa, situa a sua fundação nos princípios do século XIII. Para Frei Jerónimo de Belém terá sido cerca de 1240 que o convento foi fundado. Tendo em conta que a Ordem dos Frades Menores tinha sido estabelecida por São Francisco de Assis em 1209 e que os primeiros conventos Franciscanos em Portugal foram fundados por volta de 1217, notamos que terá sido com relativa rapidez que chegaram a Portalegre, o que demonstra o dinamismo da Ordem nesses tempos iniciais.
O mesmo frade refuta a opinião dos autores que situam a fundação deste convento no reinado de D. Dinis e que se baseiam no facto de existir uma inscrição em pedra no frontispício da igreja que lhe atribuía a edificação. Crê que a confusão é justificável pelo prolongamento das obras de construção do convento no tempo e por ter sido D. Dinis o Rei que mais terá contribuído para essas obras, «pois em seu tempo se melhoraram os edifícios dele e muita parte da igreja». De igual modo, desvaloriza o argumento dos que datam a edificação de São Francisco do reinado de D. Afonso III (1248-1279), fundamentando-se numa epígrafe que se encontrava debaixo do alpendre da igreja. Esta pedra foi gravada em caracteres góticos e está datada da era de César de 1312, correspondendo ao ano de 1274 da nossa era. A inscrição refere-se ao hospital que naquele convento devia funcionar sob zelo do Guardião e dos frades e que foi instituído por Pedro João Domingos da Porta e sua mulher, Maria Domingues. De facto, esta acaba por ser mais uma prova de que por essa altura o convento não só estava instalado como tinha estabilidade. Frei Jerónimo acrescenta que em 1266 aliás, já tinha sido feita uma doação de água aos franciscanos, o que vem precisamente confirmar a fundação anterior da casa dos religiosos.

Cortesia de publicaçõesfundaçãorobinson

O que Frei Jerónimo não descarta é que a igreja, talvez a segunda que o convento tenha tido, possa ser da época de D. Afonso III. A existência das armas deste monarca na igreja e uma carta de 1272 através da qual o Bispo de Cória, D. Gonçalo (1272-1277), concede indulgência por quarenta dias a todos aqueles que dessem esmola ao novo edifício do convento, fundamentam a sua opinião.
Pinho Leal e, mais tarde, Raul Proença, estão de acordo quanto à fundação do convento no reinado de D. Sancho II (1223-1248). O primeiro defende que foi entre 1230 e 1240 e fundamenta a sua opinião nas armas do Rei, que podem ser vistas na Capela-mor da igreja. Luís Keil é da mesma opinião e os autores do livro sobre Portalegre da colecção «Cidades e Vilas de Portugal», apesar de atribuírem a fundação a D. Sancho II, apresentam, contudo, a data de1275 (reinado de D. Afonso III). Victor Joaquim Fialho Medinas faz avançar a data de fundação do Convento de São Francisco a 1265.

Praça da República
Cortesia de igogo
Como concluiu Américo Costa, não se conhece a data da fundação do convento e apenas podemos estar certos de remontar ao século XIII. Quanto à autoria da edificação também não há, como vimos, certezas. Seguramente que o Rei à data da fundação do convento colaborou com algum financiamento, mas terá sido o povo de Portalegre e dos arredores, sentindo necessidade de uma maior presença espiritual na vila e de uma estrutura de apoio aos mais desfavorecidos, quem mais terá contribuído com esmolas para a construção.

D. Afonso III, contudo, deixa no seu testamento, em 1279, 50 libras ao convento mas há notícia de outras doações por parte dos Reis portugueses, cujos exemplos veremos, que estimaram tanto o convento que ele se tornou Padroado Real desde os primórdios da sua fundação. Apesar disso, a Capela-mor da igreja estaria em meados do século XIII à mercê de Tomás Fernandes, «cujas armas se viam antigamente no seu retábulo e sobre a sepultura que ele mandou pôr no pavimento da mesma Capela».
Poucos anos depois da sua fundação, o convento começou a sofrer as primeiras remodelações, acabando por se tornar uma «amálgama resultante dos diversos períodos em que foi sendo objecto de sucessivas campanhas de obras". Assim sendo, desta época fundacional pouco resta.
O século XVI é marcado pelas reformas feitas na construção mas também na ascese e na regra seguida pelos religiosos do convento Aquando da sua fundação, esta casa estava na jurisdição da Custódia de Portugal da Ordem dos Frades Menores de São Francisco, criada em 1233. Com o aumento do número de casas religiosas da Custódia, esta acabou por ser dividida em 1272, passando o Convento de São Francisco a integrar a Custódia de Lisboa e, mais tarde, desde 1330, a de Évora.

Tanto uma como outra estiveram subordinadas à Província de Santiago até à criação da Província de Portugal, em 1517. Em 1532 também esta última é dividida e o convento de Portalegre integra-se na nova Província dos Algarves, criada pela congregação geral reunida nesse ano em Tolosa e confirmada no ano seguinte pelo geral da Ordem. A sua sede era o Convento de Santa Maria de Jesus de Xabregas, em Lisboa». In Jorge Maroco Alberto, Publicações da Fundação Robinson, nº 10, 2009, ISSN 1646-7116.
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Continua, numa próxima oportunidade.
Cortesia de Publicações da Fundação Robinson/JDACT