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quarta-feira, 21 de março de 2018

Poesia. José Régio. «Ide! Tendes estradas, tendes jardins, tendes canteiros, tendes pátria, tendes tectos, e tendes regras, e tratados, e filósofos, e sábios…»

Cortesia de wikipedia e jdact

Cântico Negro
«Vem por aqui, dizem-me alguns com os olhos doces
Estendendo-me os braços, e seguros
De que seria bom que eu os ouvisse
Quando me dizem: vem por aqui!
Eu olho-os com olhos lassos,
(Há, nos olhos meus ironias e cansaços)
E cruzo os braços,
E nunca vou por ali…

A minha glória é esta:
Criar desumanidade!
Não acompanhar ninguém.
Que eu vivo com o mesmo sem-vontade
Com que rasguei o ventre à minha mãe

Não, não vou por aí! Só vou por onde
Me levam meus próprios passos…

Se ao que busco saber nenhum de vós responde
Por que me repetis: vem por aqui?

Prefiro escorregar nos becos lamacentos,
Redemoinhar aos ventos,
Como farrapos, arrastar os pés sangrentos,
A ir por aí…

Se vim ao mundo, foi
Só para desflorar florestas virgens,
E desenhar meus próprios pés na areia inexplorada!
O mais que faço não vale nada.

Como, pois sereis vós
Que me dareis impulsos, ferramentas e coragem
Para eu derrubar os meus obstáculos?...
Corre, nas vossas veias, sangue velho dos avós,
E vós amais o que é fácil!
Eu amo o Longe e a Miragem,
Amo os abismos, as torrentes, os desertos…

Ide! Tendes estradas,
Tendes jardins, tendes canteiros,
Tendes pátria, tendes tectos,
E tendes regras, e tratados, e filósofos, e sábios…
Eu tenho a minha Loucura!
Levanto-a, como um facho, a arder na noite escura,
E sinto espuma, e sangue, e cânticos nos lábios…

Deus e o Diabo é que guiam, mais ninguém.
Todos tiveram pai, todos tiveram mãe;
Mas eu, que nunca principio nem acabo,
Nasci do amor que há entre Deus e o Diabo.

Ah, que ninguém me dê piedosas intenções!
Ninguém me peça definições!
Ninguém me diga: vem por aqui!
Aminha vida é um vendaval que se soltou.
É uma onda que se alevantou
É um átomo a mais que se animou…
Não sei por onde vou,
Não sei para onde vou
Sei que não vou por aí!»

Poema de José Régio, in “Poemas de Deus e do Diabo

Cortesia de PortaldaLiteratura/JDACT

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2015

O Príncipe com Orelhas de Burro José Régio. «Por essas razões os pobres reis estéreis sentiam-se responsáveis, perante o seu povo, tanto do temível choque de interesses entre quais seria um dia baldeado, como da escravidão final a que o povo poderia ser reduzido»

jdact e lusolivros

De Algumas Circunstâncias que Precederam o Nascimento do Príncipe Leonel, Presumível Herói desta Verídica História
«Era uma vez, no reino de Traslândia, um casal que não tinha filhos. Grande mágoa, suponho, deve ser não ter filhos um casal que se entende bem e assim era com esse casal. O marido começara precocemente a envelhecer, entretendo o ócio a aprender jogos chineses, a coleccionar pássaros e armas brancas, a estudar dialectos ou outras futilidades idênticas…, e a mulher tornara-se rabugenta, caprichosa, avarenta, fanática, (tendo sido noutra época a própria imagem da alegria!) como se não tivesse casado e antes do devido tempo, começara a envelhecer de inutilidade e amargura. Esse casal que antes se adorava começava agora até a não poder tolerar-se, como quase todos os infelizes ligados a uma desgraça comum e odiada, em que cada um via no outro o espelho do seu infortúnio. Acrescentemos que, no presente caso, cada um tendia a ver no outro o próprio causador desse infortúnio. Este mútuo ressentimento ia a ponto de já nem poder o triste casal escondê-lo da corte. Ora, dito isto, ia-me esquecendo um pormenor importante: Ele era o próprio rei, ela a própria rainha de Traslândia e a ausência de filhos nesse matrimónio representava uma desgraça pública. Assim a mágoa dos dois míseros esposos acrescentava-se com a inquietação dos reinantes. A cupidez dos povos vizinhos também espreitava o seu trono sem herdeiros. Tanto mais sendo alguns desses povos governados por parentes seus que, embora vagos, reivindicavam direitos ao trono. Mas não eram só parentes. Muitos havia que forjavam teorias, invocavam necessidades, inventavam doutrinas, alegavam conveniências, chegavam a idear questões de ordem metafísica ou religiosa que lhes permitissem, depois de mortos os pobres reis estéreis, cair sobre o reino sem leme. Quem não sabe como sempre se arrearam de razões a ambição e a violência?
Por essas razões os pobres reis estéreis sentiam-se responsáveis, perante o seu povo, tanto do temível choque de interesses entre quais seria um dia baldeado, como da escravidão final a que o povo poderia ser reduzido. E parecia-lhes a esterilidade uma grande injustiça para com eles próprios, uma praga dos deuses, se não mesmo dos demónios. Uma anomalia, essa, de não dar fruto um casal que fora belo, jovem, e possuíra-se, primeiro com apaixonado e total abandono, depois com esperança e violência, mais tarde com ciência ou cálculo, por fim com desesperada insistência e um misto de compaixão e raiva na infelicidade comum... É inútil dizer que tudo mais se tentara para arredar tal maldição das pobres cabeças régias: os conselhos dos médicos e as malas-artes das bruxas; os palpites pessoais e os segredinhos das comadres; as influições da hora ou da estação; as preces públicas e a própria interferência, aos pés de Deus e do santo papa. Só um conselho chegara a ser insinuado, que o bom rei Rodrigo repelira com indignação: o repúdio da esposa infecunda. Chegara-se a aventar-se que o rei tomasse outra mulher legítima. A primeira resignar-se-ia a um convento com todas as honras da sua condição, e todo o azedume do seu destino, caso fosse mais bem sucedido o segundo ensaio matrimonial da sua majestade. Mas nem tão alta razão de estado conseguira demover El-Rei! Tão-pouco demovera a rainha, se é que aos ouvidos da infeliz rainha viera ter este alvitre que a punha de lado como uma árvore seca...
Se viera ter?... Mas viera! Alguém tivera a crueldade ou o heroísmo de lhe dizer (como, não sei) que o povo ameaçado acusava de egoísta esse amor que não cumpria o seu dever. Pois o amor dos reis tem deveres a cumprir..., e a rainha sabia-o! A rainha sabia qual o seu dever, se fosse provada a sua esterilidade. Mas sabendo-o, escasseavam-lhe forças para o cumprir e por isso tornara-se rabugenta e caprichosa, avarenta e fanática, histérica e até invejosa... Invejosa, em especial, da vulgar felicidade que Deus dava a tantas, para lha recusar a ela. A pobre mulher já não podia ver um baptizado! Nem nenhuma que andasse de esperanças ousaria apresentar-se aos seus olhos o ventre abençoado por Deus. Certa manhã, a rainha ergueu-se muito cedo e meteu-se a caminho em direcção ao imenso bosque para lá do parque do palácio. Apesar de a guarda a ter querido acompanhar, desistiram perante as ameaças de um desses ataques em que a espuma lhe borbulhava na boca, os olhos lhe pasmavam em branco, as palavras e os gestos se descompunham, e ela jazia depois, aniquilada, como uma coisa inerte, durante vários dias. Para além disso, sua majestade el-rei partira ao lusco-fusco de madrugada, para caçar na tapada de um dos seus mais nobres vassalos. Só pela tarde voltaria. Quem se atreveria a contrariar a vontade da rainha sem o rei presente? O perigo de algum encontro com um caçador furtivo, qualquer bandido, algum mendigo perverso ou guarda florestal rebelde (pois já dentro dos próprios domínios reais existiam rebeldes), nem de raspão tocara o seu ânimo decidido. De igual modo a deixara impávida a lenda de monstros e fantasmas que habitavam essas matas virgens, ou a certeza de as povoarem bestas e feras. Dir-se-ia que um Arcanjo lhe aparecera, em sonhos, a mandá-la ir, prometendo-lhe guardá-la, portanto foi.
Lá, andou toda a manhã, toda a tarde, todo o dia, embrenhando-se por cavernas de verdura e sombra, passando curvada sob rendilhados tectos oscilantes de trepadeiras, deslizando entre penhascos e velhos troncos gigantes, mais grossos que pilares dos antigos templos lendários... Os homens que, da torre maior do palácio, ainda pretenderam segui-la com os seus óculos de grande alcance, rapidamente desistiram. Mais tarde se veio a saber, por conversa das mulheres dos guardas florestais, que ela entrara nas suas modestas choupanas, sentara-se nos seus bancos, beijara os louros cabelos sujos ou as caras lambuzadas, bochechudas, dos seus filhos, e quisera saber das suas vidas com tão insinuante insistência, tanta simplicidade nos modos e palavras que as pobres mulheres, por momento esquecidas da imensa distância das suas condições, tinham chegado, talvez, a falar de mais... Até onde entrara na parte verdadeiramente selvática da floresta, nunca ninguém soube. Um ou outro guarda que a vira voltar, já pelo arrefecer da tarde, e, atrapalhado, se perfilara mal fiado nos seus próprios olhos, também disse depois que ela vinha a trejeitar e a falar alto, com os olhos postos nos galhos extremos das árvores, como se tivesse a conversar elevadamente com elas e os pássaros; talvez com os angélicos espíritos que nenhum guarda via, mas que por certo a guiaram nesse passeio inspirado, sugeriu mais tarde um poeta palaciano.
O facto é que já se espraiava o luar quando a rainha voltou. Já do palácio alvoroçado se preparavam para sair em sua busca bandos de guardas com lampiões e archotes e já El-Rei, seu marido e senhor, a esperava, dando grandes passadas frenéticas no salão dos lustres, com o sobrolho carregado e as mãos torcidas atrás das costas, como nos dias de muitíssimo mau humor. A rainha vinha cheia de pó, rotos os seus sapatinhos verdes e amarrotada toda a seda da saia. Até trazia rubis de sangue na cara. No seu sorriso e nos seus olhos, porém, raiava um clarão que poucos viram porque a grande maioria dos homens são cegos, porém, depois, todos asseguraram tê-lo visto. Viu-o, de verdade, El-Rei, que não era cego de todo e as palavras de exprobração que se iam soltar dos seus lábios, gelaram-se num misterioso respeito. A rainha arrastou o seu marido para a câmara régia e aninhando-se aos seus pés, disse-lhe: Pensei muito durante este passeio... Não mo censureis, porque decidiu a nossa vida. Estou resolvida a afastar-me para que outra vos dê o filho que eu vos não posso dar... Nunca!, interrompeu o rei com violência. Ainda não acabei, meu senhor. Também eu vos quero muito, apesar da nossa desgraça quase nos ter tornado inimigos!... Estou resolvida a afastar-me, e nem vós me podereis deter, se, dentro de meses, não se cumprir o nosso grande desejo... Quantas vezes já temos esperado em vão, querida! O melhor será conformarmo-nos com a determinação de Deus.  Nunca tive tanta fé, meu senhor. Por amor de vós, ousei consultar o Espírito da Floresta. Ir até onde me não julgara capaz... Sois louca!, disse ele passando-lhe amorosamente os braços por cima dos ombros». In José Régio, O Príncipe com Orelhas de Burro, 1942, Luso Livros, Nova Forma de Ler, ISBN 978-972-271-090-9.

Cortesia de LLivros/JDACT

sábado, 1 de novembro de 2014

A Hora Universal dos Portugueses. Pedro Veiga. «Foi ela a vítima dessa epopeia ingente que assombra pela desproporção entre as forças da nação empreendedora e os resultados alcançados. Ganha assim universal significação o simbolismo lusista ‘do pelicano’»

jdact

«(…) Terminou por triunfar a política da expansão e a terra viu-se despovoada de gente, abandonada e bravia. As empresas marítimas absorviam todos os braços que o interior precipitava nos boqueirões dos portos. Os viajantes que na era de Quinhentos peregrinavam por Portugal são unânimes em reconhecer que a nossa economia natural deperecia, para concentrarmos toda a actividade nos misteres lucrativos mas parasitários da troca e exploração das produções orientais. E este geral sintoma observado na terra portuguesa de novo se observa em Espanha, pelo século XVI, quando o Novo Mundo, oficialmente descoberto por Colombo, possível agente secreto português (Pestana Júnior), atraiu para o torvelinho das naus os homens novos em quem chamejavam as ambições do El-Dourado. Mui a propósito invoco o testemunho do frei beneditino Benito Peñalosa Mondragon que no seu famoso e original escrito: Cinco excelencias del Español que despueblan a España para su mayor potencia y dilatación nos deixa uma pintura viva e dolorosa do estado de miséria e decadência da lavoura naquela época. Nele diz textualmente: El estado de los labradores de España en estos tiempos está el más pobre y acabado, miserable y abatido de todos los demás estados, que parece que todos ellos juntos se han aunado y conjurado a destruyrlo y a arruynarlo: y a tanto há Ilegado que suena tan mal el nombre de labrador, que es lo mismo que pechero, vlllano, grossero, malicioso y de ay baxo a quien solo adjudican las comidas grosseras, los ajos y cebollas, las migas y cecina dura, la carne morticina, el pan de cebada y centeno, las abarcas, los sayos gyronados y caperuças de bobo, los bastos cuellos y camisas de ortopa, los çurrones y toscos pellicos y çamarros […] e estas comedias y entremeses de agora los pintan y remedan haciéndolos aun más incapaces, contrahaciendo sus toscas acciones por más risa del pueblo (Pamplona, 1629).
Na glória fulva que doira de imortalidade essa hora de Quinhentos, em que as caravelas portuguesas cumprindo um destino superior à própria inteligência dos homens que as dirigiam, serviam a Civilização europeia, a terra que foi berço aos nautas comprometia na empresa a sua economia. Foi ela a vítima dessa epopeia ingente que assombra pela desproporção entre as forças da nação empreendedora e os resultados alcançados. Ganha assim universal significação o simbolismo lusista do pelicano. Os maiores, senão todos os problemas que a Europa tinha para resolver no final da Idade Média, Portugal os resolveu com as suas expedições marítimas. Descobrindo a rota oceânica das Índias, contornou o obstáculo turco e espalhou no Ocidente os produtos orientais. Ainda que de forma insuficiente para as necessidades europeias, animou o mercado dos capitais com o numerário fabricado com o oiro da Guiné e do Sudão. Introduziu novas culturas e novos produtos. Iniciou o período da navegação astronómica. Reforma o tipo de navios e tem parte essencial nos progressos da cartografia. Descobre, finalmente, os grandes itinerários marítimos para a África, Oriente e América». In Pedro Veiga, A Hora Universal dos Portugueses, Tipografia Sequeira, Prometeu, Porto, 1948.

Cortesia de T.Sequeira/JDACT

terça-feira, 14 de outubro de 2014

O Segundo Modernismo em Portugal. Eugénio Lisboa. «… mandato de despejo aos mandarins da Europa! Fora. Fora tu, Anatole France, Epicuro de farmacopeia homeopática, ténia, Jaurés do Ancien Régime, salada de Renan-Flaubert em louça do século XVII…»

jdact

Orpheu e Depois
«O apocalipse de 1914-1918 trouxe à Europa o começo da sua decadência e, a alguns dos seus espíritos mais privilegiados, a lúcida consciência dela: Nós-outras, civilizações, sabemos agora que somos mortais, ecoará Valéry, numa das suas proclamações emblematicamente inquietantes. O ano de 1914 terá sido o começo de uma sombria viragem para o mundo ocidental. Para nós, portugueses, foi a véspera do começo de um período literário que ainda não acabou de terminar: o modernismo. Filhos perturbados e fascinados de Orpheu e de um Fernando Pessoa sorrindo eternamente em itálico, é o que ainda hoje, em parte, somos todos nós ou, pelo menos, os melhores de nós. Dissemos: viragem; e seria este um termo adequado, se a erosão do uso lhe não tivesse, por demais, embotado as arestas. O Orpheu foi mais do que uma viragem: foi um abalo sísmico de uma tal intensidade e fulgor, que ainda hoje se lhe sentem os efeitos. O Orpheu foi mais (ou outra coisa) do que uma simples aventura literária, ainda que intensa e traumática: foi um modo de viver e de morrer (morreu-se muito e depressa, como não mandou o rei Sebastião I, entre os homens do Orpheu), foi um investimento total de um grupo de homens que ousaram ousar, uma missão impossível, um apocalíptico sondar ontológico (Eduardo Lourenço), uma dança da morte no fio acerado duma corda tensa, uma apropriação sistemática do paradoxo como método de apreensão do real mais fundo: se queres ser profundo, dirá um pouco mais tarde o presencista José Bacelar, herdeiro do Orpheu, aprende a pensar à beira do paradoxo. Os homens do Orpheu foram revolucionários, no sentido em que Gauguin, com tanta finura quanta injustiça, dizia: em arte só há revolucionários e plagiários. Não é verdade, mas ilumina.
O massacre metódico de toda uma juventude nas trincheiras europeias (reparai neste absurdo: uma guerra parada, uma matança imóvel!), o recuo da razão, o triunfo fácil e sumptuoso das forças de violência e morte, a traição, à última hora, dos próprios partidos socialistas europeus, trouxeram, como consequência, a morte da fé nos deuses que, pouco antes, triunfavam: a ciência, a razão e o progresso. Os velhos maîtres à penser esboroavam-se ao rés do desespero de quem antes os tinha venerado. Essa juventude perguntava um escritor francês, que tinha ela em 1914-1918? E respondia: um Claudel que construía um novo génio do Cristianismo para eles, que tinham deixado de acreditar; um Barrès, grande comediante que se tinha tomado a si próprio demasiado a sério; um Bourget, que vigiava, como médico, os progressos da doença cerebral do século e nada construía; mestres que não passavam de piões coca-bichinhos e fastidiosos. O que ela (a juventude) pedia, antes de mais nada, era um objectivo que as forças dadas à sua inteligência aceitassem; na falta desse objectivo, um emprego lúcido da sua vida. A ciência, de que tanto se esperava! A ciência, amiga e promotora do homem... Se ela, como tudo o resto, falira, ajudando a construir a técnica mas não sendo capaz de construir, paralelamente, um homem moralmente apetrechado para manipulá-la sem perigo de auto-destruição, se ela, portanto, falira, num mundo que ruía, o anátema dos herdeiros desiludidos e desapossados não iria poupá-la: amaldiçoo a ciência, essa irmã gémea do trabalho, proclamará o surrealista Aragon: Conhecer! Desceste tu jamais ao fundo desse poço negro? Que encontraste lá, que galeria na direcção do céu? Pois bem, só te desejo um jacto de grisú que te restitua finalmente à preguiça, que é a única pátria do verdadeiro pensamento...
Ao recuo da razão responderão os homens traídos, empunhando as forças do irracional e do subconsciente: … os homens estão sempre contra a razão, quando a razão está contra eles, dizia Helvetius. Álvaro de Campos, heterónimo de Pessoa, reflectirá a mesma desilusão, em termos de eloquente rejeição: mandato de despejo aos mandarins da Europa! Fora. Fora tu, Anatole France, Epicuro de farmacopeia homeopática, ténia, Jaurés do Ancien Régime, salada de Renan-Flaubert em louça do século XVII, falsificada! Fora tu, Maurice Barrès, feminista da acção, Chateaubriand de paredes nuas, alcoviteiro de palco da pátria de cartaz, bolor da Lorena, algibebe dos mortos dos outros, vestindo do seu comércio! O frenesi e a palhaçada são quase sempre máscaras de um abalo profundo e sincero. A paródia serve para esconder a fundura do golpe e disfarçar, com pudor, o pathos. São jogos, dirá mais tarde José Régio (um profissional no exercício exímio do cache-cache), mas são jogos sérios e mortíferos de Édipo com a Esfinge». In Eugénio Lisboa, O Segundo Modernismo em Portugal, Biblioteca Breve, Volume 9, Instituto Camões, Livraria Bertrand, Lisboa, 1984.

Cortesia de ICamões/JDACT

sábado, 11 de outubro de 2014

A Hora Universal dos Portugueses. Pedro Veiga. «A burguesia portuguesa, vencendo a aristocracia em Aljubarrota, ao mesmo tempo que com alta visão dos seus interesses económicos e da sua capacidade comercial sustentava a causa do Mestre de Aviz»

jdact

«(…) Por outro lado, a criação do Estado sobreposto às classes privilegiadas, embora daí resultasse o imediato reforço da autoridade real, traz consigo, também, a formação duma consciência nacional, que à burguesia particularmente se deve. A burguesia tendo surgido da Idade Média por reacção às fortes estruturas do passado, dominado pelo signo militar, e, por consequência, pelo espírito de autoridade e de submissão que é seu apanágio, criou naturalmente outros valores ou deu-lhes um impulso novo. Assume então foros de factor político aquilo que nela é representativo, a posse dos instrumentos de troca, e foram esses instrumentos de troca que puseram os povos, até aí isolados em verdadeiros mundos fechados, em mais estreita comunicação, como foram eles, igualmente, o veículo que trouxe para os planos superiores do estado as ideias romanas da soberania e as garantias cívicas que ou nelas se continham ou delas derivavam. Aliás, a nova ordem de coisas altera profundamente o conceito que de classe concebia e Idade Média. À clerezia e à nobreza não foi apenas a posse dos bens patrimoniais que deu homogeneidade e consciência. Deve considerar-se mesmo que não eram eles que principalmente a definiam. E porque eram de natureza espiritual ou política os valores que as distinguiam, essas classes se apresentam, de certo modo, exclusivistas e impenetráveis. Esta é a razão por que, com mais propriedade, se deverão designar antes por Ordens.
Com os novos tempos, a força da burguesia reside essencialmente no trabalho que acumulara e convertera em dinheiro. Os restantes valores perderam grande parte do seu prestígio, daí a burguesia nunca, na verdade, se ter estratificado e assumido a fisionomia de casta. Isso explica que ela seja contraditória por excelência e nos seus limites confunda os seus interesses com as classes que a tocam. Isso explica por que a burguesia é, de sua natureza, uma classe revolucionária enquanto que as classes que a precederam no governo da sociedade ou a que lhe poderá vir a suceder, foram ou serão classes conservadoras. Isso explica, finalmente, por que o espírito burguês é inquieto e perturbado enquanto que o socialista substitui à inquietação a positividade e às angústias da inteligência a força construtiva e o sentimento social da segurança. A burguesia portuguesa, vencendo a aristocracia em Aljubarrota, ao mesmo tempo que com alta visão dos seus interesses económicos e da sua capacidade comercial sustentava a causa do Mestre de Aviz, armando os seus navios e recrutando voluntários ingleses, criando um Estado aberto à actividade marítima, era esteio e voz do sentimento nacional de que a arraia-miúda, com uma clarividência profética, já se havia feito intérprete. Entre a valorização da Terra, isto é, a produção, e a actividade dos portos, isto é, o comércio, se dividiam os cuidados da Administração portuguese no século XIV». In Pedro Veiga, A Hora Universal dos Portugueses, Tipografia Sequeira, Prometeu, Porto, 1948.

Cortesia de T.Sequeira/JDACT

segunda-feira, 29 de setembro de 2014

A Hora Universal dos Portugueses. Pedro Veiga. «Por um lado, enquanto definha a exploração da terra, fenómeno que em Portugal já se começa a sentir a partir de Afonso IV, sendo impotentes as leis fernandinas (Leis das Sesmarias) para debelar a crise, acentua-se e progride o intercâmbio…»

jdact

«(…) Passe, por isso, em julgado, que com a crise mística das Cruzadas, a Europa procura restabelecer o equilíbrio na sua vida económica, operando-se então um profundo movimento político e social com base na translação dos valores económicos, daí resultando a subversão da riqueza imobiliária, representada pelos domínios senhoriais, e a criação de novo expoente económico: o metal amoedado e a letra de câmbio. O dinheiro domina o ritmo vital da idade e nascer. Novos horizontes se abrem ao homem; a uma nova conformação vai, por sua vez, obedecer a ordem social afirmei no meu ensaio sobre a Civilização Burguesa. E assim foi de facto.
Preparada nesse imenso crisol que e Idade Média foi, a Burguesia, que o comércio e a indústria, a política financeira dos judeus e a decadência da aristocracia fundiária e militar, elevara ao primeiro plano da vida civil; ia dirigir os destinos da Europa até aos nossos dias, e ia, fundindo os seus interesses com a essência da Civilização Cristã, escrever toda a história universal com a quilha das naus, a palavra dos missionários, as alabardas dos tércios, os dogmas da autoridade do Estado, as liberdades da Razão e a epopeia incendiária da Revolução, ia escrever, acentuo de novo, os fastos da história contemporânea, com a sua vontade revolucionária, porque, servindo os interesses da Civilização, a intervenção da Burguesia como classe organizada na vida social marca na Europa a maior revolução depois do cristianismo e da constituição hierárquica da Igreja. Agora quero eu frisar um estranho paradoxo histórico. Particularista a civilização aristocrática da Idade Média não concebeu um ideal que possamos designar como nacional. Teve outros, decerto, o mais alto dos quais foi inspirado pelo fervor religioso. Mas basta considerar a pulverização da soberania política, o estádio de conglomeração episódica que formava a rede política do feudalismo, para podermos definir a Europa cristã como um conjunto amorfo de soberanias pessoais, uma comunidade aristocrática dominada pela autoridade temporal e espiritual do papado.
Duma maneira só, verdadeira Respublica Christiano, na linguagem dos teólogos e dos jurisconsultos, na qual a soberania régia e o poder episcopal dos bispos, na sociedade civil e na eclesiástica, em princípio, se reconheciam equiparados perante a suprema autoridade do Vigário de Cristo. O papa encarnava a noção muçulmana de Califa. O papa era a cúpula da Igreja no espiritual e no temporal, fórmula percursora do super-estado que os idealistas demandam com afã no horizonte nebuloso. Como aquele  assegurava a unidade religiosa e proclamava a guerra de Deus contra os inimigos do seu nome. A Idade Média tendia para a Teocracia e foi a Revolução Burguesa que a destruiu com o seu conceito de nação e a formação do Estado Moderno. A história surpreende na obtenção pela Burguesia do poder económico e na sua crescente hegemonia política um duplo e contraditório efeito. Por um lado, enquanto definha a exploração da terra, fenómeno que em Portugal já se começa a sentir a partir de Afonso IV, sendo impotentes as leis fernandinas (Leis das Sesmarias) para debelar a crise, acentua-se e progride o intercâmbio comercial europeu e, em especial, o que com o Próximo Oriente mantinham depois das Cruzadas as armadas das poderosas Repúblicas marítimas italianas. Daqui resulta uma tendência cosmopolita mais que nenhuma outra capital na explicação da história portuguesa». In Pedro Veiga, A Hora Universal dos Portugueses, Tipografia Sequeira, Prometeu, Porto, 1948.

Cortesia de T.Sequeira/JDACT

In Memoriam. Alice F. Falcão Oliveira. Guilherme Oliveira. «Como menina queria receber carinhos; como senhora ansiava por amor; e como artista sentia as dores pungentes da vida e era sensível a beleza que procurava e criava. Não podia ficar satisfeita só com carinho, amor ou beleza»

guilhermeoliveira e jdact

Com a devida vénia a Guilherme de Oliveira

À memória da minha querida Alice
«(…) Ali estava na minha frente a criança travessa e amiga de guloseimas que espera que os grandes, lhe dêem bombons. Vista de perto parecia uma figurinha de cera, pequenina, quebradiça e lábil. A vida dela estava toda nos belos e grandes olhos e na voz estranha, plástica e quente. O encanto dos olhos e a doçura da voz encobriam todo o seu ser; nada mais interessava conhecer-lhe; era toda espiritualidade contida num corpo que seria belo mas para cuja apreciação não havia lugar porque, o brilho do seu espírito e a candura da sua alma nos guiavam por caminhos de beleza e de bondade. O que me surpreendeu logo, no início das nossas relações, foi o colorido magoado e triste da sua alegria decerto comunicativa e o grau de integração afectiva do seu carácter rico de qualidades e de harmonias. Falava como uma criança, sem preconceitos, clara, directa e ingénua; mas o conteúdo psicológico das suas palavras simples e expontâneas era rico de ideias e de beleza. Tinha alma de criança, coração de mulher e espírito de artista. Por isso a sua alegria era franca, consciente e perturbada: quando a criança ria, a mulher reflectia e a artista sofria. O conjunto destas ressonâncias interiores tão diferentes tinha um colorido inocente, quer ela risse, quer chorasse, porque também a sua tristeza era salpicada de tons leves que se destacavam da camada infantil da sua personalidade. Quem a olhasse distraído das profundezas do seu ser diria que ela era azougada e feliz. Porém os que, como eu, a observassem com interesse e ternura, depressa reconheciam que a sua vida interior tinha recessos torturados por desconsolos profundos e por anseios insatisfeitos. A razão destas desarmonias estava na diferença constitucional dos seus pendores que ora a solicitavam para um caminho, ora para outro.
Como menina queria receber carinhos; como senhora ansiava por amor; e como artista sentia as dores pungentes da vida e era sensível a beleza que procurava e criava. Não podia ficar satisfeita só com carinho, amor ou beleza. Para a realização completa de todas as aspirações da sua mentalidade superior e polimorfa, ela precisava de carinho, de amor e de beleza e tinha que ser sempre menina, senhora e artista. Criança, corria atrás de quimeras douradas, olhava atónita os homens e as coisas, colhia flores, corria pelos caminhos, brincava com a lua e pedia as estrelas, e queria ser amimada e embalada ao som de canções e de histórias maravilhosas. Todas as coisas do mundo a surpreendiam, a alegravam, atemorizavam ou lhe causavam uma admiração pasmada que se exprimia nos seus belos e grandes olhos muito abertos e parados de espanto. As pequenas como as grandes contrariedades faziam-lhe correr lágrimas grossas e silenciosas e levavam-na a refugiar-se nos braços das pessoas grandes que a amassem ou, na falta destas, no silêncio do seu quarto onde soluçava no desespero da solidão e da mágoa. Tinha que ser amada e acarinhada como uma criança, a minha pobre Alice!
Mas se o que existia nela de criança exigia ternura e satisfação de pequeninas vontades, a senhora erguia-se de entre a personalidade infantil e mostrava-se com todo o brilho e grandeza da maturação perfeita. Então era vê-la calma, corajosa, senhora de si, a resolver os problemas da vida, a amparar amorosamente os que precisavam do seu carinho, do seu amor ou do seu auxílio. De súbito tudo se transformava nela, e era ela agora que animava, que acarinhava os grandes, despertando neles a camada infantil que existe em todos os adultos, só velada pela educação e pela cultura. Ninguém se podia furtar ao consolo de ser criança sob a acção da sua presença apaixonante e carinhosa». In Guilherme de Oliveira, Memoriam, Alice Freire Falcão Oliveira, 1921-1947, Tipografia Atlântida, Coimbra, 1949.

Cortesia de T.Atlântida/JDACT

domingo, 28 de setembro de 2014

A Hora Universal dos Portugueses. Pedro Veiga. «De pedra solta, pau e colmo era a habitação dos rústicos, poucas resistiriam, por isso, aos vendavais da História, mas o seu tipo manteve-se nos lugares alheios à Civilização, e o arcaico das suas linhas a cada passo nos transporta para o fundo das Idades»

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«(…) Território escasso, mal povoado. Nas fozes dos rios principais: o burgo do Porto, terra altiva de mercadores e mesteirais de foral, e Lisboa, princesa sarracena decaída da antiga glória, até que as naus das descobertas de novo a nimbaram de oiro. Neles e em Coimbra, Braga e Guimarães e Évora e Lamego, cidades antigas por cujas calçadas passaram os ginetes invasores, despertam os primeiros indícios da vida civil: municipalismo e artesanato. Uma vida urbana incipiente à sombra da Igreja e dos homens de boa linhagem. Em ruelas estreitas, empinadas e disformes, uma multidão anónima mercadeja e trabalha. De madeira ou granito, janelas rotuladas à moirisca ou de friestas mediévicas, portas em arco; gradeamentos de ferro batido, alpendres e sacadas de colunas, tectos forrados em caixotões, eis as habitações coevas do homem medieval. Aqui e acolá um terreiro espaçoso servia de mercado e praça pública como hoje em dia. Longas fiadas de arcarias serviam de fundo à multidão. Ruas cobertas, cortadas de arcos movimentavam a arquitectura rude. Lajeado irregular calçava as ruelas. Longos panos de muralha esquinados de castelos protegiam a povoação. Ao descer do dia cerravam-se as portas e nos nichos e cruzeiros votiva luz iluminava as obras sacras dos imaginários. O melhor lavor de pedra e os maiores cuidados na fábrica se ofereciam a Deus e pela terra cristã, as casas de devoção eram um grito de Fé, e tantas vezes hospício dos pobres e asilo dos perseguidos da Justiça.
Alinhavam-se as profissões por ruas e, sob os auspícios da Igreja, nasciam no nosso país as corporações dos mesteirais que mais tarde, em tempos de el-Rei João I, seriam poder público. Povoada de castelos era a terra de Portugal. Serviam de paço aos nobres senhores dos contos e honras mas os mais numerosos demarcavam a raia e sucediam-se em linhas sobrepostas por essas colinas além, à medida que o montante e a besta retomavam para e cruz as terras estremenhas. Eram vigias e aos monges militares cabia, em regra, sua defesa. Serviam também de refúgio aos servos e vilões quando algara moirisca pela Primavera e Estio, como furacão devassador, rompia pelas chácaras e terras de lavradio.
De pedra solta, pau e colmo era a habitação dos rústicos, poucas resistiriam, por isso, aos vendavais da História, mas o seu tipo manteve-se nos lugares alheios à Civilização, e o arcaico das suas linhas a cada passo nos transporta para o fundo das Idades. Do que da terra brotava pelo humano esforço da grei, vivia esta sociedade rudimentar, afeita ao rude esforço da relha e ao bravio lidar das armas. Daí essa nossa nobreza antiga apegada ao torrão, lhana e vigorosa, que na própria terra que recebeu de mercê das mãos dos seus Reis, mergulhava a raiz dos seus privilégios de classe e da sua ascendência social. Aqui, a Nobreza desempenhou uma função social enquanto foi para o camponês e abegão o senhor que o defendia da usura e da depredação e, nas suas querelas, simbolizava o princípio da autoridade Quem arredar de si na exegese da História a análise dos factos económicos, pode ser um político que quer encontrar na lição dos tempos idos um índice de valores normativos jamais um homem isento de emoções passionais. Faz da História um acto de apostolado e Fé, não um cosmorama das realidades humanas. Um sectário, nunca um humanista.
Na Europa o movimento das cruzadas obedece a uma corrente proselítica, a um imenso arrebol de Fé? Decerto. Mas obedeceu também a outras causas, preparadas subterraneamente nas camadas da infra-estrutura económica do Ocidente. Era oportuno alongar-nos algo sobre a economia europeia contemporânea das Cruzadas e do chômage que afligia a aristocracia militar. Isso afastar-nos-ia, porém, da directriz tracejada: o momento único na História em que todas as forças da civilização se concentraram no homem português que singrava os mares, descobria os continentes, combatia os Turcos, propagava a Fé, detinha os segredos dos oceanos e os grossos cabedais do tráfico oriental, abordava as longínquas paragens do Extremo Oriente e se afoitava, seguro, a circumnavegar o globo». In Pedro Veiga, A Hora Universal dos Portugueses, Tipografia Sequeira, Prometeu, Porto, 1948.

Cortesia de T.Sequeira/JDACT

sábado, 27 de setembro de 2014

Gomes Leal. Antologias Universais. José Régio. «Dizem mais que na seda das varetas do seu leque ducal de mil matizes… Satã cantara as suas tranças pretas, e os seus olhos mais fundos que as raízes!»

jdact e cortesia de vvolegov


A senhora duquesa de Brabante
«Tem um leque de plumas gloriosas,
na sua mão macia e cintilante,
de anéis de pedras finas preciosas
a senhora duquesa de Brabante.
Numa cadeira de espaldar doirado,
escuta os galanteios dos barões.
É noite: e, sob o azul morno e calado,
concebem os jasmins e os corações.

Recorda o senhor bispo acções passadas,
falam damas de jóias e cetins,
tratam barões de festas e caçadas
à moda goda: aos toques de clarins.
Mas a duquesa é triste. Oculta mágoa.
Vela seu rosto de um solene véu.
Ao luar, sobre os tanques chora a água…
Cantando, os rouxinóis lembram o céu..

Dizem as lendas que satã vestido
de uma armadura feita de um brilhante,
ousou falar do seu amor florido
à senhora duquesa de Brabante.
Dizem que o ouviram ao luar nas águas,
mais loiro do que o sol, marmóreo, e lindo,
tirar de uma viola estranhas mágoas,
pelas noites que os cravos vêm abrindo…
[…]
Poema de Gomes Leal (parte), in ‘A Alberto Osório de Castro’

JDACT

quarta-feira, 24 de setembro de 2014

Líricas Portuguesas. 1ª Série. José Régio. «Vy oj’eu donas muy bem parecer e de muy bom prez e de muy bom sen e muyt’amigas son de todo ben, mays d’üa moça vos quero dizer: de parecer venceu quantas achou hüa moça que x’agora chegou»

jdact

Os Poetas dos Cancioneiros. Séculos XII a XVI
Rei Sancho I
«El-Rei Sancho I nasceu em 1159 e morreu em 1211. É, portanto, um dos nossos mais antigos trovadores, a ser seu, como parece averiguado, o Cantar de amigo. Tal é a opinião de Carolina Michaëlis, que o supõe composto pelo rei para a sua célebre amante Maria Pais Ribeiro.

Cantar de Amigo
«Ai eu coitada!
Como vivo en gram cuidado
por meu amigo
que ei alongado!
Muito me tarda
o meu amigo na Guarda!

Ai eu coitada!
Como vivo en gram desejo
por meu amigo
que tarda e non vejo!
Muito me tarda
o meu amigo na Guarda!»

João Garcia de Guilhade
Foi um simples cavaleiro-vilão na opinião de Rodrigues Lapa, e cavaleiro de pequena nobreza na de Carolina Michaëlis. Não há datas precisas sobre a sua biografia. Parece ter levado a vida de soldado, e ser português, chamando-se Guilhade não de qualquer localidade galega, mas dum dos lugares portugueses com o mesmo nome. Terçou armas, poeticamente, com o fidalgo João Soares Coelho, num litígio célebre. O fidalgo o amesquinhou por vilão, sem contudo, o vencer como trovador. É um dos nossos mais fecundos e originais poetas do século XIII, distinguindo-se, quer nas cantigas de amor, quer nas de amigo, quer nas de escárnio ou maldizer pela sua agilidade técnica e a vivacidade do seu espírito.

Cantiga de Amigo
«Quer’eu, amigas, o mundo loar
por quanto bem mi nostro Senhor fez:
fez-me fremosa e de mui bom prez,
ar faz-mi meu amigo muit’amar:
aqueste mundo x’est a malhor ren
das que Deus fez a quen el i faz bem.

O paraíso bõo x’é’de pran,
ca o fez Deus, e non digu’eu de non,
mai-los amigos, que no mundo son,
e amigas muit’ambos lezer na:
aqueste mundo x’est a melhor ren
das que Deus fez a quen el i faz bem.

Querria-m’eu o parais’aver,
des que morresse, ben come quen quer,
mais, poi-la dona seu amig’oer
com el pode no mundo viver,
aqueste mundo x’est a melhor ren
das que Deus fez a quen el i faz bem.
E quem aquesto non tever por ben
já nunca lhi Deus dê en ele ren».

Cantiga de Amor
«Vy oj’eu donas muy bem parecer
e de muy bom prez e de muy bom sen
e muyt’amigas son de todo ben,
mays d’üa moça vos quero dizer:
de parecer venceu quantas achou
hüa moça que x’agora chegou.

Cuydava-m’eu que non avyam par
de parecer as donas que eu vi,
attan ben me parecian ali,
mays, poi’la moça filhou seu loguar,
de parecer venceu quantas acou
hüa moça que x’ agora chegou.

Que feramente as todas venceu
a mocelinha en pouca sazon!
De parecer todas vençudas son!
Mays, poy’la moça hi pareceu,
de parecer venceu quantas achou
hüa moça que x’agora chegou».

In José Régio, Líricas Portuguesas, 1ª Série, Selecção, Prefácio, Notas, Portugália Editora, Lisboa, 1959.

Cortesia Portugália/JDACT

quarta-feira, 23 de julho de 2014

A Hora Universal dos Portugueses. Pedro Veiga. «… a Península, foi o entreposto natural das duas civilizações, a chave de todos os roteiros marítimos que seguiram os povos vindos do oriente asiático ou do norte africano, ao mesmo tempo que o ‘términus’ das longas estradas terrestres…»

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«Neste ensaio mal esboçado, pobre de húmus erudito, daquele lastro espesso que os assírios sábios da nossa Terra tem por hábito acumular nos rodapés das suas sapientes memórias e que na opinião duns tantos se considera cultura, se quis de relance abordar alguns dos problemas que para o homem moderno a Renascença representa na trajectória histórica do Ocidente. Uma afirmação capital ressalta do texto: a de que, consciente ou inconscientemente, reagindo contra as forças particularistas das hierarquias militares e nobiliárquicas inspiradas pela feudalidade e o espírito universal e internacionalista da igreja, a classe burguesa forjou a consciência nacional e concebeu a nação como expoente territorial e político dos interesses do Povo, fora das castas e das dinastias. A pátria é, pois, um produto da inteligência burguesa.
A arqueologia pré-histórica, afirma Ricardo Severo, o português das duas bandas do Atlântico, com o seu método naturalista de análise, desfez a miragem oriental; que colocava nesse ideal paraíso onde raiam as auroras, a fonte de todos os povos e civilizações. Afirmou-se com nitidez a existência de uma civilização ocidental, que tem as suas artes e indústrias, que tem uma escrita composta de sinais alfabétiformes, que tem, em suma, vigor e cunho originais, (in Origens).
Para além dos Romanos, senhores do mundo, além ainda do mais puro arcaísmo grego, resumido na cultura micénica, a Península, como diz o arqueólogo invocado, foi o entreposto natural das duas civilizações, a chave de todos os roteiros marítimos que seguiram os povos vindos do oriente asiático ou do norte africano, ao mesmo tempo que o términus das longas estradas terrestres do centro, do norte e do oriente europeu. Aqui se estabelece o polo ocidental. Nesses factos remotos há um sopro de predestinação e as barcas acompanham já o jeito da onda ao seguirem de angra em angra, ao singrarem até às radas, lançando o fundamento de novos povoados nas concavidades do litoral.
Não se pode hoje ignorar que lado a lado do viver agrário e patriarcal das tribus e povos que pelas encostas e cumeadas, nos castros e cividades que fundaram, foram os precursores remotos da gente portuguesa, uma importante vida marítima na safra da pesca e no serviço da navegação se assinala já nas povoações ribeirinhas do mar, abrindo às perspectivas do tráfico externo os compartimentos do interior. E agora, contemplando a paisagem humana que pelos séculos fora vem até nós, vemos o velho Portugal ganhar vida própria, depois que as ambições medievais encontraram seguro penhor de independência na própria grei, em certa pureza genealógica que lhe dava unidade e que a onda sarracena não conseguiu anular e a terra, nos seus afagos e na sua mediania, mantinha vivaz e fecunda, dando à sociedade rudimentar dos começos do período portucalense uma feição constitucionalmente democrática, como diz Alberto Sampaio, na qual os nobres e cavaleiros vivem em comunidade com os humildes lavradores.
Os bastiões da nacionalidade estão aí, na irmandade do sangue e na pobreza forte, que hoje ainda, são, porventura, a fonte mais pura da solidariedade entre a gente lusitana. O mais que os críticos da história erigem em causa, em razão condutora, seja a atracção do mar, a política centrífuga, o sentido cosmopolita (factor económico-geográfico), seja a superior política dos grandes órgãos da cristandade militante, de além Pirinéus, a ordem de Cluny, seja a vontade forte dos barões, que à realeza investida de divino poder, opõe a aristocracia fechada e igualitária, de tradições germânicas, ciosa dos seus foros e de espada livre (factores políticos, ecuménico um, particularista outro), são forças que, sem dúvida desencadearam e hoje explicam a acção, mas que ao cabo fracassariam se um sentimento bem vivo de comunhão familiar não se elevassem da grei. E é ela, heróica de virtudes e vigorosa de robusta personalidade, que enche a cena da História quando os olhos se volvem ao passado e contemplam a sombra gigantesca que Portugal projectou no mundo». In Pedro Veiga, A Hora Universal dos Portugueses, Tipografia Sequeira, Prometeu, Porto, 1948.

Cortesia de T.Sequeira/JDACT

terça-feira, 22 de julho de 2014

In Memorium Memoriae. Poema. David Mourão-Ferreira. «Mármore, sim, mas mole. E vento, porque não? Mármore capaz de tudo, de tudo recolher e transmudar em nada. De transmudar o ouro, alquimia ao contrário, na poeira que o vento ao próprio vento espalha…»

Cortesia de alicejorge e jdact

«Em primeiro lugar glorificava, nos seus cantos, de entre todos os deuses, Mnemósina, mãe das musas». In Hino Homérico a Apolo

In Memorium Memoriae
«Da nem sempre sublime variedade do Mundo,
da não rara amargura,
do remorso,
de tudo,
dia a dia te nutres, dia a dia te envolves!

Dia a dias te expandes,
tão grande que és o vulto
sobreposto por vezes à linha do horizonte…
Dia a dia no dia te enforcamos, e à noite
apareces de novo no trópico do sono.
Dia a dia, no vento. Dia a dia, no tronco.

Tens na carne incorpórea, de memória, mil corpos,
e concentras nos olhos, aglutinantes, glaucos
de um verde que não é de esperança nem de escarro,
mas de lago, de lodo, de limo delinquente,
a saudade e o desprezo do mundo que te foge,
dia a dia no mármore, dia a dia no vento.

Mármore, sim, mas mole. E vento, porque não?
Mármore capaz de tudo,
de tudo recolher
e transmudar em nada. De transmudar o ouro,
alquimia ao contrário, na poeira que o vento
ao próprio vento espalha…
Mármore, sim, mas mole.
E mais que mármore Mar, que dentro de nós more.

Luta de corpo-a-corpo
no interior do corpo.
Monólogo do Tempo
no interior da alma.
Monólogo monólogo
com saltos inesperados! Monólogo no mármore
mais mole de que há memória…
Mármore, e Mar, e vento sobre o Mar…
Memória!»
[…]
Poema de David Mourão-Ferreira

In David Mourão-Ferreira, In Memorium Memoriae, Poema, ilustrações de Alice Jorge, Minotauro, 1962.

Cortesia de Minotauro/JDACT