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segunda-feira, 28 de novembro de 2016

Ernestina. Rentes de Carvalho. «… devorava-os ele como se, juntamente com a sua, tivesse de saciar também a fome de saber dos antepassados que o destino fizera nascer e viver no negrume da ignorância. Zé Maria lia, relia, decorava»

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«(…) Continuava festejeiro, tocava guitarra, bebia o seu copo, mas quando ao fim dos quatro anos de tropa a grande maioria dos camaradas foi de volta para as aldeias, ele, seguro do que tinha aprendido, fez concurso para a Guarda Fiscal. No exame ganhou o primeiro lugar, outra razão de orgulho. Mas doeu-lhe que em vez de o deixarem ficar na cidade que tanto lhe agradava, o mandassem desterrado ganhar prática em Esmoriz, uma aldeia na costa. Duas ruas de casebres. Barcos frágeis encalhados na areia. Redes estendidas sobre varais à espera de remendo. Pescadores tão pobres que no Inverno, quando o mar embravecia, ficavam sem sustento e iam a pedir esmola por longe. Vinte e cinco anos, chefe de posto. O prédio ainda lá está. Embora pequeno, era de cantaria, uma imponência entre as choupanas de madeira. Bandeira desfraldada, o distintivo e as letras douradas sobre a porta. Sentado a uma escrivaninha de pinho, ou fazendo as suas rondas, o jovem Zé Maria comandava aí quatro homens que patrulhavam a beira-mar e de madrugada apareciam na lota a recolher o imposto sobre o pescado. O comandante, que própria e alheia conhecera a miséria de perto dizia-lhes que de vez em quando fechassem os olhos, não fossem severos no peso do peixe. Recomendação supérflua. Esse era o costume, e quando a pesca rendia os pescadores não esqueciam o favor, pelo que nunca nas casas da autoridade faltava a sardinha ou a faneca, os camarões do mar próximo, o polvo que vivia agarrado aos penedos, as raias e os congros que eles iam buscar às águas longínquas donde se não via a costa. Em 1886, casado havia ano e pouco com Maria dos Santos, uma rapariga de Estevais, assistiu com ela no Porto aos grandes festejos da inauguração da ponte de D. Luís. Como era a vida nesse tempo? No comboio que nos levava a ambos de viagem para ir a aldeia, minha avó olhou-me surpreendida. Precoce, pouco mais fazendo que ler, aos oito ou nove anos as minhas frases ganhavam por vezes uma seriedade adulta. A vida era boa, respondeu ela, com uma expressão melancólica que recordo bem. Às vezes pesada, mas ia-se aguentando. Palavras de conforto para não magoar a inocência da criança que ela me julgava e eu no corpo ainda era. Mas só no corpo, porque a cabeça, essa, pelas razões misteriosas que as circunstâncias do viver engendram, funcionava acelerada e já pouco tinha de infantil. O mundo entrava-me em catadupas para o cérebro e cada cena, cada conversa, por vezes uma simples observação, bastava para que numa torrente de sentimentos se me revelassem episódios inteiros das existências que me rodeavam. A avó tinha mentido por caridade. Acabada de casar, longe do conchego da família e da aldeia, para a rapariguinha que nunca tinha conhecido mais que as ladeiras em redor, e alguma ida a Mogadouro para a feira de ano, a vida não seria leve. Criada na serenidade da montanha, nunca ela se habituou ao marulhar das ondas, à ventania constante, à areia onde se caminhava a cambalear. Mais tarde, contando o passado, diria muitas vezes que a saudade e a tristeza é que lhe tinham feito perder o primeiro filho, uma menina que só viveu horas. Mas, maior sombra que o afastamento da casa paterna, lhe causavam por certo as aventuras do homem que ela, naquele tempo de submissão, tinha de aceitar calada, fingindo não ver. Porque, infelizmente, de namorador Zé Maria passara a galaroz. Figura desempenada, ar marcial, a autoridade de comandante e o poder que lhe dava a lei sobre aquela gente pobre, as mulheres corriam para ele como moscas para o mel. Não ficaram detalhes nem provas, só murmúrios, retalhos de conversas ouvidas por acaso e que findavam súbitas ao eu chegar, mas de vez em quando uma ou outra fatalmente emprenhava e pelas aldeias da costa há-de haver mais de um ignorado tio meu. Contudo, as aventuras, discretas bastante para nunca ser apanhado em flagrante, devem ter sido para ele apenas um passatempo. Paixão funda só a tinha pelo estudo e pela leitura. Jornais, livros, os panfletos que os partidos distribuíam aos milhares, devorava-os ele como se, juntamente com a sua, tivesse de saciar também a fome de saber dos antepassados que o destino fizera nascer e viver no negrume da ignorância. Zé Maria lia, relia, decorava». In José Rentes de Carvalho, Ernestina, 2001, Quetzal Editores, Lisboa, 2009, 2014, ISBN 978-989-722-171-2.
Cortesia de QuetzalE/JDACT

quarta-feira, 20 de julho de 2016

Os lindos braços da Júlia da farmácia. Rentes Carvalho. «Ele continuava no hotel, porque as casas que tinham visitado eram grandes demais e caras, ou então pardieiros, mas ela garantia que haviam de achar. É por causa da guerra»

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Um amor em Sevilha
«(…) Escreveu o endereço, humedeceu a goma, fechou o sobrescrito vagarosamente, como se assim emprestasse solenidade ao acto, e ela guardou-o na bolsa, dizendo que à noite o entregaria ao cunhado. Ele é de confiança? Manolo? Claro que é de confiança! Ela ia abespinhar-se, mas nesse momento apareceu uma multidão a correr, alguns com armas, mal tiveram tempo de se abrigar no interior do café quando começou o tiroteio. São os vermelhos, explicou um cliente, e a Guardia Civil atrás deles. Quê?, perguntou o empregado de má cara. O homem fez um gesto de apaziguamento e, meio de lado, encaminhou-se para o fundo da sala. Já fazia escuro quando se arriscaram a sair para a rua, o céu avermelhado com o clarão dos incêndios das igrejas e da fábrica do marquês de Tena. De longe a longe ouviam-se tiros. Passava gente alvoroçada a gritar que Queipo de Llano tinha mandado metralhar o Governo Civil. Separaram-se de madrugada, combinando que no dia seguinte se encontrariam às três. Não iriam procurar casa como tinham pensado, era melhor esperar que as coisas acalmassem. Se houvesse cinema iriam ver Scarface.
Um mês depois, ele preocupado com a possibilidade de ser traído e preso, ela arrebatada de entusiasmo pela vitória do que achava a causa mais justa, assistiram à entrada triunfal do Caudillo à frente dos mouros do Ejército de África. Na sua paixão pouco ou nada tinha mudado. O arrebatamento era o do início, não lhes acontecera uma zanga, nem sequer a troca de palavras menos amigas que às vezes nasce da impaciência ou de um desacordo fútil. Ele continuava no hotel, porque as casas que tinham visitado eram grandes demais e caras, ou então pardieiros, mas ela garantia que haviam de achar. É por causa da guerra. Mas o fim não tarda, vais ver. Depois há aí casas à farta. Contactos com os camaradas não voltara a procurar, resposta da mulher também não tinha vindo, a estada em Sevilha parecia ter recebido um toque mágico, pois, ao contrário do seu carácter, sentia-se tomado de uma extrema lassitude. As tropas nacionalistas estavam às portas de Madrid, mas nem por um instante lhe pareceu que isso pudesse ter qualquer consequência para a mulher e o filho. Não lhes acontece nada, não achas? A amiga concordou. Com certeza ia haver luta, mas os vermelhos não estavam em condições de aguentar. Além disso, às mulheres e às crianças ninguém faria mal. Comiam, passeavam, amavam-se, o sol do Verão alongava as sestas, o calor da noite obrigava-os a ficar na rua até desoras. Tinham visto Scarface três vezes e no hotel já os consideravam um casal.
Até que uma manhã, acordando sozinho, teve a impressão de que saía de uma embriaguez e, sobressaltado, acabou por se sentar na cama, abanando desesperadamente a cabeça. Em que se tinha metido? Que feitiçaria o levara a passar quase dois meses no deboche, sem uma vez sequer se dar conta do que lhe acontecia? Era de garoto ingénuo. não era de homem! A história requentada e banal da paixão romântica pela prostituta! Sim, evidentemente, tinham sido meses intensos, um fogo, mas não era para continuar menos ainda para acabar ali a vida! Sorriu à ideia de que ela lhe propusesse vir a ser o seu chulo. E arrepelava-se por não poder reparar a asneira da carta que tinha escrito à mulher. Divorciar-se! Acabar os seus dias em Sevilha, tomando café, passeando no Alcázar, talvez a ter de esperar, resignado, que ela voltasse dos clientes!» In José Rente de Carvalho, Os lindos braços da Júlia da farmácia, 2011, Quetzal Editores, Lisboa, 2014, ISBN 978-972-564-967-1.

Cortesia de QuetzalE/JDACT 

sábado, 16 de julho de 2016

Ernestina. Rentes de Carvalho. «Não invento nem alindo. Era assim na vida dos meus passados e era assim ainda na minha meninice. Costumes brandos, mas não de todo desinteressados»

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«(…) Os vendavais, esses eram repentinos. Na violência do seu sopro adivinhava-se o poder de espíritos malignos, determinados a arrasar tudo. E aquela gente, que vivia ali sem capela, nem sequer umas alminhas, só com a protecção de algum santo de calendário e das medalhas penduradas nos rosários, corria a recolher os animais, agachava-se em torno da lareira a rezar para que o Senhor se compadecesse. Vida de medo. O avô, ouvi-o depois às suas irmãs, já de pequeno não era de rezas. Resmoneava com os outros, por temor de que lhe assentassem algum tabefe se mostrasse falta de respeito, mas assim que se fez rapaz deixou de rezar e não haveria força que lhe mudasse a ideia.
A caça, as raparigas e os bailes, nessa ordem, eram a sua paixão. Nenhuma distância lhe parecia grande, nenhum esforço o cansava, e se havia festa numa aldeia da redondeza, deitava um saco de trigo aos ombros, cinquenta quilos, e ia incansável ladeira abaixo, ladeira acima, a cantarolar como era seu hábito. Até Carviçais, uma caminhada de três horas. Para Estevais quatro. A Lagoaça sete. A Mós também sere. O saco de trigo entregava-o ele na taberna, em penhor das rodadas de vinho e dos maços de cigarros, para retribuir as cortesias dos amigos, parentes e conhecidos. De todos, afinal. Porque as aldeias, chegadas ou longínquas, eram uma teia de laços de sangue e amizades.
Nesse tempo em que o correio era luxo caro, pedia-se aos almocreves que dessem recomendações aos parentes de Chacim, a dia e meio de jornada, que se visitavam quando muito uma vez por geração. Batia à porta gente desconhecida, vizinhos de primos de Bemposta que iam de passagem com gado para as feiras de Moncorvo, de Trancoso, da Pesqueira, e a quem era natural que se desse ceia e dormida. Recebiam-se ofertas inesperadas: uma bôla de carne, um cesto de doces, um frango, um presunto, um garrafão de vinho. Às veres vindos não se sabia donde, nem de quem, porque tinham passado por tantas mãos que o último portador se embrulhava no recado. Mandavam-se presentes aos santos. Vós ides amanhã à festa de Vila Flor, ó Júlia? Então leva-me estes paninhos e entrega-os lá à Nossa Senhora da Assunção. Não invento nem alindo. Era assim na vida dos meus passados e era assim ainda na minha meninice. Costumes brandos, mas não de todo desinteressados.
Na solidão das serras era preciso ter quem acudisse a um desastre, a uma urgência, à precisão de ir chamar o médico ou buscar um remédio. Não falo do Cabeço, onde as três famílias que lá moravam eram por necessidade como uma família só. Falo de Estevais, a nossa aldeia, onde com festa ou sem ela o meu avô já de moço aparecia quase todos os domingos. Para as caçadas e para o namoro. Sempre de espingarda na mão, algumas vezes com o saco de trigo ao ombro para a despesa. Esse trigo ia-o ele tirando pouco a pouco da tulha paternal, às escondidas, ajudado pelas irmãs, que eram mais novas e lhe queriam tanto bem que, contaram-mo elas um dia, sorrindo enternecidas, tudo o que ele fazia se lhe desculpava, porque não se lhe conhecia uma maldade que fosse. E se era como era, de verdade a culpa cabia ao pai, homem forreta, de poucas graças, que fazia gosto em trazer a família de rédea curta». In José Rentes de Carvalho, Ernestina, 2001, Quetzal Editores, Lisboa, 2009, 2014, ISBN 978-989-722-171-2. 
Cortesia de QuetzalE/JDACT

quarta-feira, 13 de julho de 2016

O Rebate. José Rentes de Carvalho. «O retrato pendurado na sala mostrava um homem mirrado, de bigode estreito e olhos estranhamente dispostos, diante de quem a mãe se ajoelhava, o santo que nos deixou a pensão, Nosso Senhor o tenha em seu eterno descanso»

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«(…) As mãos voltam aos bolsos rotos, uma comédia, o dinheiro trazia-o numa saca de chita, por baixo do casaco. Tinham-no deixado a tinir e a saca atirou-a ao rio, ou ao comboio, não se lembra, o vinho embaralha-lhe a cabeça, aqueles estouros são do foguetório e a festa com certeza ainda dura, porque é que o Marques se zanga? Vá! Fie o quartilho! Então não ouve? Pelaram-me! Mais dum conto de réis! Caminha aos bordos, arrima-se ao balcão, conciliador, retira o chapéu com uma vénia: então não tenho crédito? E uma terra, e a mula!... A querer agarrar o taberneiro que se afasta, debruça-se, e o chapéu que repusera na cabeça cai do outro lado. Dê-mo! Põe-no na rua, diz a mulher, saindo da cozinha para ver. O Marques deixa o balcão, empurra-o devagar: vai lá. Ficamos amigos? Ainda tenho... E esse ninguém mo tira!... Furioso, a querer desprender-se da mão que o fere: não preciso de fiados, seu bardamer…!  Agarra-se à meia-porta, mas o safanão atira-o contra as faixas de palha, um voo que nunca mais acaba, a mulher acena de longe com um lenço, o chefe acena com a bandeira e o comboio parte, embala-o. A taberneira ia afastar-se, o melhor era não se meter e fazer que não via, mas não pôde: deixa-lo aí? Ele responde sem se voltar: que a coza! Mas o camião?... Que lhe passe por cima. Encara-a, mas já ela entra na cozinha, sorrateira, de olhos baixos, fechando a porta sem barulho. Desde a festa só se falam o preciso, e atrás do balcão, se por acaso a roça, empurra-a com ódio, contém-se para não lhe bater, a fingida! Ai não me toques! Ai que me matas! Ai que me dói!... Tinha-se deitado culpas, que era o vício... Qual vício... Culpa dela, o estafermo... Vinte anos! Se quero mulher tenho de ir à feira! Arrependido até aqui!... Os sardinheiros vão chegando, encharcados, abrigam as burras debaixo do alpendre, empilham as caixas vazias e alguns entram para beber, mal-humorados. Faz-se noite antes de irmos embora! E então? A culpa é minha? Com certeza a chuva estragou a estrada, e o camião, carregado, demora a passar. Ou alguma avaria, porque quando o azar começa... Ó Artur! Senhor? O rapaz leva um dedo ao chapéu ainda com aquele hábito de fazer continências. Pega no cavalo e vai ver. Pois sim. O cão do Zé Grande, aninhado contra as costas do dono, levanta-se e vai até ao portão, pára a farejar o vento, estende o cachaço, os beiços arrepanhados, as orelhas tesas, o primeiro uivo mal se ouve, mas os outros são de arrepiar. O taberneiro grita desabrido ao ver que o rapaz se encosta à ombreira: Vais ou quê? Não é preciso. Já lá vem. O cão esquiva a pedrada e continua a uivar. Ao primeiro estrondo Ana Rosa atirou-se para cima da cama, a travesseira sobre a cabeça, sem dar ouvidos à mãe que matracava a porta: tens medo? Rapariga! Tinha corrido o fecho, esperava ainda antes de responder, aperreando, medo tinha ela e queria companhia. Ana Rosa! Estás aí? - Estou. Ouviu-a suspirar e depois os passos que se afastavam. Certas horas, sem mais razão, os carinhos, e os paparicos punham-na de mau humor, respondia torto, ou então casmurrava e a mãe, que dantes era o tudo, parecia-lhe desprezível, mesquinha, acumulavam-se as zangas por um nada, como de manhã, na rua, quando a mulher tinha dito: bom dia, senhora professora. Julgou que era gracejo e ia explicar que ainda demorava, dois anos, talvez, e era se tudo corresse... Mas a mãe não lhe deu tempo, fê-la andar. Pouco importa. Quero que to chamem. Mas... Deixa lá. Assim é que fica bem e habituam-se. Cansada, encolhia os ombros, lengalenga que entrava por um ouvido e saía por outro, restos de azedume: se nas cidades houvesse tanto respeito como cá, aconteciam menos desgraças! O mal vem quando os pobres começam a dar-se ares, a julgar... Hein? Já o teu pai dizia que na África é o mesmo. Se não andasse à chicotada os pretos comiam-no vivo! E os pobres daqui são como os pretos de lá, tal e qual! Ou pior! Quando a gente não se precata... O retrato pendurado na sala mostrava um homem mirrado, de bigode estreito e olhos estranhamente dispostos, diante de quem a mãe se ajoelhava, o santo que nos deixou a pensão, Nosso Senhor o tenha em seu eterno descanso e ajoelhava também, a temer aquele olhar vesgo. O teu pai disse que havias de estudar para professora, palavras que tantas vezes repetidas tinham adquirido um significado diferente, mas estudava, lutando contra a moleza, levada para diante pelos cem aguilhões que a mãe manejava, sempre a temer falhas, invejas, mau-olhado, como se o defunto ainda comandasse, constantemente a relembrar-lhe cautelas e que agradecesse ao santinho que as protegia. Agarra-te aos estudos! Os estudos! Como é que lhe poderia explicar? E já tens modos! Nunca lhe tinha perguntado a que modos se referia, talvez os modos de senhora, o que as outras pareciam ter de nascença e que as freiras lhe ensinavam, franzindo a boca. Os dezoito anos doíam-lhe e o que a mãe achava perfeito, a corpulência das ancas, as pernas gordas, valia-lhe alcunhas que sofria com lágrimas: qual Ana Rosa? E a outra, fungando de riso: a cu de arroba!» In José Rentes de Carvalho, o Rebate, 1971, Quetzal Editores, 2012, ISBN: 978-989-722-005-0. 
Cortesia de QuetzalE/JDACT

domingo, 3 de julho de 2016

O Rebate. José Rentes de Carvalho. «Dum lado o comer, os panos e o que é da lavoura. Do outro a taberna: balcão, pipas, uma prateleira para os copos, bancos que ainda brilham porque foram lavados e esfregados para a festa»

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«(…) Não respondeu. Antes da festa ainda as tinha, embrulhadas no papel das décimas? no meio da caderneta?, de brincadeira até disse que podiam comer um porco inteiro. Encostada ao fontenário um instante, agoniada de vómitos, encaminhou-se para a igreja, sem dar conta de que a seguravam pelo braço, a sentir as entranhas despegadas e o garrote do medo, sufocando. Os dedos procuraram o rosário no bolso do avental, remexendo o lenço, a medalha, o pensamento longe, ou gastastes tudo?, onde é que as pusestes?, a nossa desgraça!..., rogai por nós pecadores, agora e na hora... Ao vê-lo no arraial, a rir-se das coisas sem tino que dizia, nem sequer lhe tinha passado pela ideia, como se ele fosse melhor que os outros! Oh! A nuvem formou-se de repente, cor de chumbo, destoando no azul limpo do céu. Não tarda aí! As moscas, sentindo a mudança, desalmam-se contra as bestas, contra as crianças que as mães deixam à soleira da porta, na pressa de acudir à lenha, à roupa, de recolher as lonas dos feijões. A rua enche-se de gente, gritos, estrondos, as galinhas voam, os porcos desembestam contra as tábuas das cortelhas, grunhindo de medo, no céu aparece outra nuvem e a luz faz-se crua como de madrugada, o vento ruge entre os pinheiros, o pó escurece tudo. Caem pingas grossas aqui, além, com o primeiro relâmpago desaba o dilúvio, num pronto a rua tem palmos de água e ao longe ouve-se o barulho da ribeira, engrossada pelo enxurro que as encostas ressequidas não seguram. Os homens correm atrás dos animais que o medo faz cabrear, guiam-nos à cinturada, cegos, encharcados, rogando pragas, chamando em vão. À mula ninguém acode. Presa pela rédea a uma argola, escouceia contra a parede, desvairada, sangrando da barbela onde a serrilha morde a cada movimento. De quem é? O sapateiro espreita para ver, mas os outros, sentados em torno da banca, não se interessam. Ainda se enforca! E a rir, aprovando, retoma a forma, atento à conversa. Qual trezentos?... Nem trinta. Dez mil réis vi eu. Mais nada. E o que deu à outra? Tanto como tu! Diz lá, hein? Quanto estavas... E ela disse..., quanto foi? Assustado, faz sinal que a mulher em cima ouve tudo, põe o dedo sobre os lábios. Ide lá acudir! Que lhe acuda o dono. Deu à filha. Até disse que a punha por conta e ela começou a rir. A mulher a descer a escada fá-los calar, passa, queda-se à porta a olhar a mula que embaraçou a rédea no cachaço. Mas de quem é? Do Grande. Pouco se lhe dá! Nem muito. Com certeza está a cozê-la. O Manuel levanta-se, repuxa as calças e, apagando o cigarro cuidadosamente, guarda a ponta no bolso. Que horas são? Quatro. A ver se veio carta. Parece que quer mandar arranjar a casa. A esses nada falta! Dizem que ele sozinho pagou o fogo! Cá por mim, se um dia me atrevo... Só as lojas que ele tem! E as casas!... Olham-no escarninho, sem acreditar, mas acenam que sim, que sim, tem, pois tem, e tocam-se com os cotovelos, riem-se do lorpa, bazófia que chega para dez, até parece que o que o primo ganha lhe está no bolso, se é que ganha, que ainda ninguém foi ver. A tia Rita, corcovada, não chega à argola, furiosa ao vê-los sentados: vinde cá, ó mandriões! Quem é o desalmado que deixa assim... O Abílio levanta-se contrafeito e, sem paciência para deslindar os nós, tira a navalha, corta a rédea, a mula vai rua abaixo toda mansidão. Brusca como veio, a trovoada passou, as crianças brincam nas poças, da bica sai uma água barrenta que não se aproveita, as galinhas depenicam a lama com frenesim, no forno ouve-se um grito seguido de um estalo, depois alguém chora e uma voz que diz: assim aprendes. O Manuel pára, espera que a mulher do sapateiro se afaste da porta e o deixe passar. Escute o que lhe digo!... A loja divide-se em duas. Dum lado o comer, os panos e o que é da lavoura. Do outro a taberna: balcão, pipas, uma prateleira para os copos, bancos que ainda brilham porque foram lavados e esfregados para a festa, e as mesas também, mas nelas ficaram manchas do vinho derramado, queimadelas de cigarros, entalhes feitos à faca pelos que bebem pouco. A guitarra e a viola estavam dantes penduradas à esquerda da porta, servia-se quem queria, mas por causa dos abusos pô-las sobre as pipas, atrás do balcão. Toca quem bebe. Mandou tapar a janela a pedra e cal, penduravam-se lá os curiosos, ficam os candeeiros acesos, porque a porta dá para o pátio donde não vem luz. Uma furna onde o Zé Grande se agasalhou ao primeiro cheiro de trovoada, esquecido, afagando o pêlo do cão que o farejara desde casa. O balcão corre ao longo da taberna, prolonga-se na outra loja, separa o Marques dos fregueses como uma fronteira. Uma grade completa a divisória. O taberneiro deita uma vista de olhos, mas não ouve, habituado aos que se entornam com dois copos, evitando dar trela. Faz que não vê, avia, arruma, arranja lugar para as caixas que o camião vai trazer. Um quartilho. Não se apressa, mas vem, desconfiado, dá-lhe tempo a que tire o dinheiro. Não fio. Também não preciso! As mãos procuram em vão e o taberneiro pousa a medida. Rebusca dum lado, do outro, arreda o cachorro para mexer à vontade. Sete mil réis. Ainda agora os tinha! Pois tinhas. Meça lá, homem! Verá que os encontro!» In José Rentes de Carvalho, o Rebate, 1971, Quetzal Editores, 2012, ISBN: 978-989-722-005-0.

Cortesia de QuetzalE/JDACT

terça-feira, 12 de abril de 2016

O Meças. J. Rentes de Carvalho. «Teria sete anos? Oito? Obrigavam-no a ficar, mas baixava os olhos e não respondia, agastado quando o sacudiam a querer que agradasse»

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«Alguém terá de lhe emprestar as palavras, porque as desconhece, mas se lhas tivessem ensinado seria incapaz de dizê-las, estonteado pelo remoinho, a vida a desfilar em ondas de desespero, ocasiões falhadas, sempre ele o que perde, a sofrer envergonhado, o que baixa os olhos e até de si próprio tem de fugir. Quando pensa no que ficou para trás deveria usar o passado em vez do presente, mas pouco adianta que os verbos se conjuguem, o medo dá-lhe do tempo uma noção onde se funde o que foi e o que é, o que viu acontecer e as vezes que perdeu, horas sofre em que o garoto e o homem quase velho são um, igual neles a dor, enraivecidos ambos na mesma impotência.
Precisado de sossego, corre para ali, sem memória de quando lá foi a primeira vez, nem porquê, entregando-se à força que nele manda como bruxaria ou praga rogada. Instinto, voz que lho sussurra, certas noites mete pela estrada velha, e quando chega ao segundo cruzamento vira à esquerda, sobe pelo atalho do pinhal, o carro em primeira a resvalar no piso de caruma e terra solta. No alto apaga os faróis, desliga o motor, espera que os olhos se habituem, entranha-se de silêncio, e num automatismo procura o maço, o isqueiro, tira um cigarro que vai esquecer entre os dedos. Já ouviu dizer que são quase mil metros, e pode ser verdade, só muito longe, avultando para o lado da Espanha, se recortam picos mais a1tos.
O olhar habituou-se, a noite perdeu o negrume, roda sobre si próprio a orientar-se, procurando distinguir qual será o reflexo das luzes de Salamanca, talvez aquela claridade, ou a outra, para a esquerda. Reconhece Foz Côa, o mais são luzinhas de pueblos e aldeias, fazendo um tremular de pirilampos na noite de calor abafado. Aguarda o momento de poder separar o antes do depois, o proveito da perda, e que os vultos se esfumem, os rostos percam as feições, deixe de ouvir os gritos, os suspiros, as ameaças, o ronco do homem montado na irmã. Quase uma hora passada e ainda respira a custo, como se tivesse corrido, mas o alívio há-de chegar. Acende o cigarro.
Fragas, atalhos, cotovelos de estrada, arribas e desfiladeiros. Torvelinhos de água. Becos, janelas sem vidros, pardieiros, estrume a fumegar, cães de gado, dentro dele tudo se esboroa, mingua e some em nevoeiro, sem adivinhar com que fim ou sem distinguir para que longe. Palavras e subentendidos, juras e gestos, intenções, promessas, aquele sorriso, aquele abraço, a partida, as voltas, os desencontros, a perdição. Que lhe resta do que pareceu ou do que foi? Do que disseram? Do que julgou ouvir? Sem dar conta, menino ainda actor se criou, dois palmos e já sofrido de medo, certo de que a vida era guerra, o seu teatro, um escape, o corpo de poucas forças, um revés. No sangue a intuição de perda, vinda do mais escuro do tempo, sabe Deus que mágoas dos que passaram sem deixar nome ou pegada, iguais aos bichos, como eles apodrecendo em campa rasa, lembrados por um jeito e logo esquecidos.
Silhuetas apenas, vê-os desfilar na contraluz, de aspecto têm o que lhes empresta na fantasia e um pouco do que guardou por ter ouvido. Mas donde vêm os que sem hora nem aviso o assaltam e molestam? Que razões têm quem as não descobre? A alguns nem sequer conhece, ou talvez não lembre, serão os que enterramos fundo no esquecimento, a vala comum dos amores traídos, das amizades findas, das derrotas, traições e ignomínias a que o viver obriga, mesmo quando a decência é o norte». In J. Rentes de Carvalho, O Meças, Quetzal Editores, Língua Comum, Lisboa, 2016, ISBN 978-989-722-286-3.

Cortesia de QuetzalE/JDACT

domingo, 10 de abril de 2016

Os lindos braços da Júlia da farmácia. Rentes Carvalho. «Era felicidade demasiada para que, mais tarde ou mais cedo, o remorso não aparecesse a incomodá-lo e, recordado dos princípios em que tinha sido criado, sentou-se a escrever à mulher a carta fatal»

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Um amor em Sevilha
«(…) O que aqui interessa, porém, é o dia de Primavera de 1937 em que chega a Sevilha sob nome falso, tendo por ordem hospedar-se em determinado hotel e aguardar que lhe entreguem aí informações sobre as tropas de Franco. A medida que o tempo ia passando sem o mensageiro aparecer, ele, já cansado das belezas da Giralda, do bulício das ruas e da incerteza da sua missão, deixava-se ficar pelo hotel, comendo tapas no bar, indo tarde e más horas para a cama, hesitando se não seria mais sensato regressar a Madrid e à família. Mau grado a riqueza de detalhes com que em geral acompanhava as recordações, neste caso particular a sua narração era sóbria e breve, quase como se, tantos anos depois, ainda lhe fosse doloroso pôr no retrato mais que o estritamente essencial. E assim, da mulher que uma tarde entrou no bar e se sentou junto dele. visivelmente rapariga da vida. Simpática, nunca saberemos mais: nem a idade, o porte, nada do seu rosto.
Talvez devido às circunstâncias, ou ao perigo que os rodeava, a cidade não tardaria a revoltar-se a favor dos nacionalistas e vivia-se um ambiente de catástrofe, estalou entre aquele rapaz de vinte e seis anos e a mulher incógnita uma paixão única, tão devoradora que, dentro de dias, a ele pouco sobrava do sentido da realidade. Todos os desejos da carne se lhe realizavam, mesmo os nunca sonhados; nenhuma loucura parecia impossível; abria-se-lhe, repentina, uma vastidão insuspeita de felicidade e prazer. E o passado: amigos, família, trabalho, as horas de tertúlia, o pudor da esposa, tudo isso parecia extremamente monótono e desagradável, um planeta longínquo. A guerra? Que lhe interessava a guerra? Por hábito, mais do que por interesse, tinha perguntado de vez em quando se havia algum recado, uma mensagem, mas ele próprio era o primeiro a estranhar a diligência. E se o porteiro, ao vê-lo, sussurrava que ainda não aparecera ninguém, dava-lhe precipitadamente a gorjeta, como para fazê-lo calar. Noites que não iria esquecer horas loucas, momentos em que o mundo em redor parecia habitado por gente cuja existência somente se justificava porque serviam de figurantes no teatro da sua paixão. O prazer deixara de ser repetitivo, para se tornar um crescendo cujos limites se dilatavam em permanência, cada vez mais longínquos, cada vez mais fundos.
Era felicidade demasiada para que, mais tarde ou mais cedo, o remorso não aparecesse a incomodá-lo e, recordado dos princípios em que tinha sido criado, sentou-se a escrever à mulher a carta fatal. Tinha-a discutido longamente com a amiga e delineado um plano. O melhor. não tosse acontecer algum contratempo, era proceder já. Ela, todavia, sem o contrariar ou contradizer, não tinha mostrado entusiasmo nem pressa. E não era preciso que casassem, disse. Então não eram felizes como estavam? Sim, claro, ele teria de sair do hotel, alugavam casa, porque a dela era pequenina e barulhenta. Rasgou a primeira versão da carta, demasiado seca. Rasgou também a segunda, porque lhe pareceu patética. As que se seguiram nem as chegou a terminar e só na tarde do dia seguinte, finalmente, conseguiu explicar o acontecido em duas páginas. Pedindo desculpa do passo informava a mulher para que preparasse o divórcio com um advogado. Por parte dele não haveria qualquer obstáculo. Cedia-lhe tudo (fizesse o favor de lhe remeter os seus livros, quando tivesse ocasião) e desejava-lhe muitas felicidades. Beijos ao menino. Sentiu-se aliviado de um peso, mas nessa noite tornou a relê-la, acrescentando em post-scriptum que agradecia uma resposta urgente.
No dia seguinte leu-a à amiga, estranhando que ela parecesse comover-se. Achas que não está bem? Não era isso. Achava até muito bem, era uma carta linda. Mas dava-lhe tanta pena! Quantos anos tinha o menino? Ele contou pelos dedos: dez. meses. Diante da esplanada onde se tinham sentado, formavam-se grupos em volta dos vendedores de jornais que apregoavam as últimas edições, gritando mais uma vitória de Franco, os massacres de Andaluzia. O envelope, ainda em branco, tinha-se-lhe amarfanhado no bolso e acenou ao empregado para que lhe trouxesse outro. E mais dois cafés. Será que o correio funciona?, perguntou à amiga. Ela tinha a impressão de que não, porque a cidade se achava praticamente cercada, mas o cunhado ia algumas vezes a Marchena, em segredo, e de lá certamente ainda havia correio para Madrid». In José Rente de Carvalho, Os lindos braços da Júlia da farmácia, 2011, Quetzal Editores, Lisboa, 2014, ISBN 978-972-564-967-1.

Cortesia de QuetzalE/JDACT

Ernestina. Rentes de Carvalho. «… que por pouco ia ferindo um vizinho, doutra vez pegou fogo à casa, a brincar com uma faca… Ernestina tornou-se no seio da família uma espécie de risco permanente»

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«(…) Desde o Verão de 1945, a única vez que lá estive, não se passa ano que não intente voltar. Mas por uma razão ou outra a visita vai sendo adiada, mesmo que não haja agora o receio do mau caminho. Da nossa aldeia para lá ainda se enrosca pelas vertentes o secular carreiro de cabras, mas pelo que oiço dizer, indo de Carviçais, o caminho está plano, e guiando com cuidado até se pode passar de automóvel. Custa a crer, mas a verdade é que sempre encontro desculpas para o não ir verificar, talvez porque inconscientemente quero guardar intactas as imagens da memória longínqua. Os moradores abandonaram as casas dezenas de anos atrás, quando a lavoura deixou de compensar. Tirante a quinta das Arcas, a meia encosta, também já despovoada, mas onde por enquanto ainda tratam das oliveiras e dos amendoais, o que eu conheci como searas são hoje matos. No meu tempo de criança a brisa fazia ondular num ritmo hipnótico as ladeiras plantadas de cereal, e não era preciso muita fantasia para imaginar um dedo gigantesco a passar e repassar sobre elas, dando-lhes vida. O dedo de Deus. Agora, mais bastos que no passado, os pinheiros estendem-se à toa pelos montes. Vistas de longe, as suas copas parecem um tapete verde lançado sobre a terra estéril, onde os silvedos, as giestas, as estevas, os carrascos e cem outros arbustos daninhos crescem tão densos que só as fragas maiores não desapareceram ainda sob eles.
A paisagem tornou-se agreste como a de um deserto e, ao contrário de antigamente, quando por toda a parte havia homens na lida da terra, hoje raro se vê alguém a cavar ou a lavrar. Os burros e os mulos são poucos. Os bois desapareceram. Rebanho não há nenhum. A linha do comboio fechou. Nas terras mais próximas da estrada, compradas por dez réis de mel coado aos pobres que emigraram, ou aos velhos que as não podiam trabalhar, a fábrica do papel mandou plantar eucaliptos em filas intermináveis. E essas filas regulares de árvores calibradas, cuidadas, duma monotonia industrial, idênticas no porte como frangos de aviário, prenunciam um mundo novo, uniforme e controlado, fazem contraste ao passado que em torno delas agoniza lentamente.
O meu avô José Maria nasceu no Cabeço. Embora eu guarde nítidas outras memórias mais remotas, dele, que me ensinou a ler e a escrever, e faleceu quando eu passava dos cinco anos, só tenho recordações esparsas. A do grande bigode encaracolado. A de uma farda de gala de veludo azul com botões dourados e alamares. A espada. Mas o seu rosto só o conheço das fotografias. Da sua voz. dos seus modos, do porte, nada ficou. Quase tudo o que sei dele ouvi-o contar. Algumas vezes em versões contraditórias ou com detalhes diferentes. Outras vezes por gente que lhe tinha querido bem e passava por alto o seu génio iroso, as suas imprevisíveis mudanças de humor, o feitio severo que outros lhe criticavam. Ouvi dizer também que era bom, cumpridor, fiel aos seus amigos e aos ideais republicanos, o nome que então se dava ao socialismo. Deixou fama como caçador. O resto que sei catei-o em papéis soltos, ou nos cadernos de papel esverdeado e pautado que ainda guardo e que ele usava para anotações. No topo de cada página lê-se em maiúsculas: Alfândega do Porto. Na margem esquerda, numa linha vertical: Remessa de documentos para a sede. Com a sua mão a guiar o meu dedo, foram essas as primeiras palavras que me ensinou a soletrar.
No Cabeço a vida era ritmada pelos afazeres do dia, sempre os mesmos, comandada pela tirânica sucessão das sementeiras e das colheitas. Vida dura. Por única distração havia a mudança do tempo. Muito longe, onde diziam que ficava o mar, viam-se em montões as nuvens que trariam a chuva do dia seguinte. Sobre a serra de Bornes, como que a dois passos, nasciam as trovoadas que depois estouravam mais secas que tiros de canhão e cujo eco se repetia e ricocheteava nas encostas, prenunciando catástrofes». In José Rentes de Carvalho, Ernestina, 2001, Quetzal Editores, Lisboa, 2009, 2014, ISBN 978-989-722-171-2.

Cortesia de QuetzalE/JDACT

quarta-feira, 23 de março de 2016

Ernestina. Rentes de Carvalho. «Teimosa, desastrada, desobediente, repontona, com queda para transformar em calamidade as coisas simples! Um dia à janela deixou escapar das mãos uma jarra de vidro…»

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«Deus criou o mundo em Vila Nova de Gaia, numa tarde quente de Maio em 1930. E eu, quando uns quatro anos depois comecei a observar conscientemente a Sua criação, não o fiz como seria de esperar, apenas com os olhos que Ele me tinha dado à nascença, mas quase exclusivamente através dum binóculo. Esse irresistível e constante desejo de querer ver tudo de mais perto foi causa de grandes desesperos familiares, gritarias e alguns tabefes. Minha mãe era obrigada a puxar às mãos ambas para me desgrudar da janela, onde eu, horas imóvel a gozar a agitação do rio e do Porto, corria o risco de ficar raquítico. Mas se me obrigavam a movimentar-me o perigo era ainda maior, porque poucos passos dava sem ter o aparelho apertado contra os olhos, perdendo-se a conta das vezes que caí por erro de cálculo ou pelo fascínio de ver que, sem dor, conseguia amputar as pernas e fazer com que os pés me saíssem do peito. A prognose era que eu acabaria cego. À mesa não o largava. No penico descobria através dele um universo de formas imprevistas. Deformados pelo aumento, ou curiosamente diminutos, o garfo e a faca perdiam a trivialidade doméstica, excitavam a imaginação. Deitávamo-nos juntos e antes de adormecer eu percorria detalhadamente com ele os recantos do tecto em busca de aranhas, moscas, centopeias, fascinado por aquele mundo que existia indiferente à lei da gravidade ou, como eu dizia então, andava no ar de patas para cima.
Mendigos ou visitas, a padeira, o farrapeiro, os vizinhos que não estavam a par, quem batia à nossa porta sobressaltava-se ao descobrir que, pela força e naturalidade do uso, o binóculo parecia ter-se-me incrustado na cabeça como uma prótese. Esse maravilhoso instrumento fora-me dado pelo meu avô José Maria que, ao que parece, o ganhara às cartas a um patrão de traineira seu amigo. E com os tubos de cobre ele tinha de facto qualquer coisa de marítimo, mas ao mesmo tempo parecia um brinquedo, pois as minhas mãos abarcavam-no sem dificuldade e o seu poder de aumento não era excessivo. Foi também o avô que me ensinou a desenroscar as lentes para, concentrando com elas os raios do sol, fazer o milagre do lume sem fósforos. Queimei papéis, queimei as unhas e a pele, a sola dos sapatos, o pêlo do gato, roupa posta a secar, jornais, pontas de cigarro. Fiz um razoável número de buracos nos caixilhos das janelas. Um dia, a ver se descobria de que ponto vinha o fogo, pus-me a espreitar o sol através da lente, e só não ceguei do olho esquerdo porque o anjo da guarda me desviou a mão a tempo. Ficou a cicatriz na pálpebra, lembrança da primeira intervenção do sobrenatural, que a partir daí se deve ter ocupado de mim a tempo inteiro. pois outra explicação não vejo para ter escapado mais ou menos são aos perigos e trambolhões da minha infância.
O Cabeço são cinco ou seis casas de pedra solta na crista do Malhão, serra que nasce na margem esquerda do Sabor, e que pelo isolamento parece mais alta que os seus setecentos metros. Lugarejo desabrigado, exposto a todos os ventos, sem árvore que lhe dê sombra nas temerosas canículas, com a água longe, compreende-se mal que alguém jamais o tenha escolhido para moradia. A paisagem é majestosa. Num redor de dezenas de quilómetros avistam-se de lá aldeias e santuários, planaltos, encostas de terra avermelhada, serranias que, conforme a hora, passam do amarelo aos tons mais escuros do cinzento, ribeiros delgados que lembram cobras luzidias a esgueirar-se pelos vales. Vê-se até longe na Espanha. Vê-se a serra de Bornes. Vêem-se as montanhas que ficam para norte de Bragança». In José Rentes de Carvalho, Ernestina, 2001, Quetzal Editores, Lisboa, 2009, 2014, ISBN 978-989-722-171-2.

Cortesia de QuetzalE/JDACT

quinta-feira, 17 de março de 2016

Os lindos braços da Júlia da farmácia. Rentes Carvalho. «Quando nos despedíamos eu saía com a impressão de ter sido inconveniente como amigo, mal-agradecido como confidente. Apenas numa ocasião me respondeu ele com um fatigado…»

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Um amor em Sevilha
«Ele sabia contar. De costas para a janela do pequeno apartamento onde então vivia, um braço na mesa, as pernas a descansar num banco, fazia reviver, naquele interior soturno onde a luz ficava acesa o dia inteiro, o tumulto de Madrid nos anos antes da Guerra Civil. Não me diga! Unamuno? Don Miguel, pois claro! E vinham as anedotas, os bons ditos, comezainas, passeatas, as horas de tertúlia no Ateneo. Os personagens postos ali diante de mim, mais que vivos: Baroja, Valle-Inclán, Lorca, Gómez de la Serna, Miró... O pintor? Não. O escritor. O irmão. Incomparável, aquela maneira de reviver. A vivacidade emprestada aos diálogos, o mimetismo com que, ao reproduzir um gesto, deixava de ser ancião para retornar à pele do jovem que então tinha sido. Grande gente. Uma época extraordinária. Mas porque não escreve tudo isso? Além de não dar resposta, nesses momentos ele nem sequer me encarava, certo de que o tempo se encarregaria de me fazer avaliar a insensatez da proposta. De facto, mas isso vim a aprendê-lo muito mais tarde, quase só o que as biografias esquecem ou escondem vale a pena ser contado.
Quando nos despedíamos eu saía com a impressão de ter sido inconveniente como amigo, mal-agradecido como confidente. Apenas numa ocasião me respondeu ele com um fatigado, para quê? A quem é que estas coisas poderiam interessar? E, antes de eu cair em pomposidade e cumprimentos, o seu encolher de ombros arrumou definitivamente a questão. Mas não era apenas a extraordinária maneira de fazer reviver os personagens e as horas: a intimidade que ele tinha tido com os homens e os acontecimentos mais importantes desse tempo tornava a narrativa fascinante. Os detalhes da sua vida não entram aqui, e dela só usarei o indispensável para esta história verdadeira. Português do Minho exilado em Madrid, tinha casado com uma rapariga espanhola e havia poucos meses que era pai quando rebentou a Guerra Civil. A combinação das ideias e das amizades levou-o a alinhar com os republicanos, logo encarregado de missões que o obrigavam com frequência a ausentar-se da família, cruzando a Espanha sob os disfarces mais variados, ora padre, vendedor ambulante, fotógrafo... Um dia, tendo-se dado por médico, mostraram-lhe um soldado que apodrecia de gangrena num palheiro e, ao acordar do desmaio, viu-se na prisão.
As suas recordações, temperadas pela experiência, levavam-no a pintar um quadro sóbrio da tragédia que fora a Guerra Civil, não esquecendo de apontar que tinha encontrado lealdade em ambos os campos; que torcionários, assassinos, os corruptos e os judas, não apareciam exclusivamente entre o inimigo. Pouco capaz de fanatismo, devera a sua sobrevivência mais ao acaso do que à capacidade de compreender as razões bizantinas que opunham os clãs, ou de penetrar motivações políticas que desafiavam o raciocínio. Em determinado momento tivera a cabeça posta a prémio pelos franquistas, os anarquistas, os comunistas de El Campesino e pelos nazis da Legião Condor. Duas vezes foi alvejado a tiro, escapando ileso, e quando numa terceira o deixaram por morto, a bala só lhe tinha trespassado o ombro. Ao fugir em Janeiro de 39, vendo-se são e salvo do outro lado dos Pirenéus, ele, que desde menino esquecera o rezar, viu-se de joelhos a agradecer o milagre». In José Rentes de Carvalho, Os lindos braços da Júlia da farmácia, 2011, Quetzal Editores, Lisboa, 2014, ISBN 978-972-564-967-1.

Cortesia de QuetzalE/JDACT

domingo, 13 de março de 2016

O Rebate. José Rentes de Carvalho. «Que cansada estou, meu Deus! Que cansada! As mezinhas e as rezas não ajudavam, engravidava, és como as coelhas, às ninhadas, com este seis, um fora, um dentro...»

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«Numa aldeia de Trás-os-Montes a chegada de um dos seus filhos emigrados para França, que vem endinheirado e casado com uma francesa, provoca um verdadeiro cataclismo. Em França o Valadares, trabalhando na terra como um mouro, é premiado com a fortuna do patrão desde que case com a filha, moça doidivanas e descontrolada. Valadares e a mulher vêm a Portugal quando das tradicionais festas da aldeia. A partir deste momento a perturbação causada pelo comportamento de ambos, ele, através do dinheiro, buscando uma ingénua e primitiva glória no seu burgo; ela usando a sedução e a provocação erótica na fauna masculina aldeã, desencadeia um rol de acontecimentos desgraçados que o rebate final expressa eloquentemente. A paisagem existe com fauna, flora e tudo. É a que decorre das suas próprias gentes como penedos que rebolam num cataclismo através dos precipícios das montanhas. A rua já num rebuliço, a atrapalharem-se na porta, aos empurrões, primeiro chego eu! O carrão parou com um solavanco e de dentro, casaco de couro, botas de oficial, saiu o francês, a gozar a surpresa, a rir. Ó primo! O Manuel, esquecido do inchaço da mão, batia-lhe com ela nas costas, a remirá-lo, os outros apertando e empurrando para chegarem mais perto, a quererem tocar-lhe, mostrar-se, alguns envergonhados, respondendo embaraçados às graças dele, como se fosse milagre que ainda se lembrasse dos nomes e os tratasse por tu.
A água do chafariz cai às gotas, e os cântaros, alinhados ao longo do adro, esperam vez. As mulheres, amodorradas pela tarde, procuram a sombra, desbragadas, comidas de moscas, protegidas por xailes que foram da mãe, passados do preto ao verde surro, a assoar neles os fedelhos que o sol não queima. O meio-dia não é apogeu, é morte, o sino toca a reza sem alegria, pesado, as mãos fazem o sinal da cruz, as conversas param, o cão levanta-se, derreado, língua de fora, hesita antes de lamber a água que cai da pia. Passa ali!, Maria Moreira atira-lhe um pontapé, ergue o cântaro e põe outro sob a torneira. Até é capaz de ter raiva! Tem é fome. O dono que o sustente. Boa te vai! Se tivesse para ele! Quem? Chega-se, o cântaro apoiado na anca: Quem? E a outra num sussurro, os olhos a espiar: o Grande. Gastou tudo! A tia Rita, que também ouviu, persigna-se, arrepanha o xaile contra os ombros: sempre se disse!... Quem não se arruma... Nem para adubo. Oh!... É o que faz andar com elas!... Pobre do cão! Mais contra a parede, a evitar a porta do forno para que as outras não oiçam, a Moga conta pelos dedos: a uma viu o meu homem. Trezentos mil réis! Fora comes e bebes! Agora bem se coze. Nos palheiros, então, um regabofe! Duas. Mãe e filha! O do Gaitas quis tantas porcarias que até elas... Nossa Senhora!
O pasmo mata a conversa, separam-se, retoma o cântaro que tinha pousado no chão e vai rua abaixo curvada com o peso, aproveitando a sombra, cismática, mas se lhe pergunta não diz, quantas vezes terá também, e então lá por longe aos meses, a dizer que não tem sorte, que ganha pouco... Entra de través para não bater na ombreira e o fedor da loja das bestas faz-lhe voltar a cara, passa, sobe a escada, entorna a água na talha e senta-se, acabada de forças, as mãos a amparar o ventre. Dar-lhes de comer é que custa!... As camas ao longo da parede, defronte do lume, separadas dele pelo escano e pela mesa. No outro lado, atrás da cantareira, a lenha, duas tábuas a fazer de armário, a arca do pão, entre as camas a arca da roupa e o luxo do casamento: o lavatório com bacia de esmalte. Bem precisava de pôr outros jornais a cobrir a parede, que os ratos comem tudo. Dantes bastava pedir, mas agora vendem-nos, não se dá nem aos pobres, na tenda são a cinco tostões o quilo. Por isso não tinha querido a mordomia e se lha oferecessem outra vez bem teria de dizer que não. E eles!... Esfarrapados, sem camisa, alguns nem meias traziam nos pés, mas vinha a festa e os lordes deitavam-se às mulheres da vida, perdiam a vergonha. Que cansada estou, meu Deus! Que cansada! As mezinhas e as rezas não ajudavam, engravidava, és como as coelhas, às ninhadas, com este seis, um fora, um dentro... Quando nasceram os gémeos julgou que a matava, como se a culpa fosse dela. As caras que fez!... Mas chamou o médico. Olha, perdido por dez!... Tinha visto a morte. As pernas inchadas, doridas das voltas à igreja, de joelhos, sem chumaços, só Nosso Senhor sabia o que lhe tinha custado, há mais de três semanas e ainda não podia tirar as ligaduras. Estendida na sacristia, o padre zangado, de cá para lá, vossemecê bem sabe que não é assim que se pede a Deus! Assim ou assado... Nem pão nem batatas, a tulha rapada, dias compridos, ruins a passar. A suspeita repentina fê-la pôr em pé, mas não se lembrava e mordeu os dedos com o esforço de recordar se as trazia com ele na carteira. Entre a roupa? Eram duas notas de quinhentos... Deitou a correr, o outro cântaro havia de estar cheio, não esperava pela noite, ia à Ladeira perguntar-lho, nem a outra lhe importava, nem a pontada, queria saber. Estás como a cera!» In José Rentes de Carvalho, o Rebate, 1971, Quetzal Editores, 2012, ISBN: 978-989-722-005-0.

Cortesia de QuetzalE/JDACT