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quarta-feira, 5 de fevereiro de 2020

A Chave de Salomão. José Rodrigues dos Santos. «O poder do campo criado pelos supermagnetos tinha de aumentar de modo a acelerar os protões, forçando-os assim a curvar a sua trajectória…»

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«(…) O corredor deserto desembocou numa porta com um painel de teclas incrustado na parede e uma tabuleta a indicar o acesso ao grande acelerador de hadron. Bellamy sabia que o acesso, além de ser limitado ao pessoal autorizado, se encontrava nesse instante vedado devido à operação em curso, embora uma minudência dessas não o detivesse. Ele era o responsável pela Direcção de Ciência e Tecnologia da CIA, uma das quatro direcções da agência de espionagem dos Estados Unidos, e tinha a noção muito clara de onde podia ou não ir, como e em que circunstâncias. Pousou os dedos no teclado embutido na parede e digitou o código de acesso que lhe fora comunicado dias antes pelos responsáveis do CERN. O pequeno ecrã do teclado respondeu com duas palavras em inglês. Access denied. Fuck!, praguejou o responsável da CIA, esmurrando a parede tal a sua irritação. Fuck! Fuck! Fuck! As palavras no ecrã a negar-lhe o acesso ao grande acelerador de hadron piscavam como pirilampos, pareciam até rir-se dele. Bem vistas as coisas, porém, sabia que não devia ficar surpreendido, pelo que dominou de imediato as emoções. O código que lhe fora entregue permitia-lhe de facto aceder a todo o complexo, raciocinou, mas não ao grande acelerador de hadron quando este estava a funcionar. Teria de improvisar. Deitou a mão ao coldre por debaixo do casaco e, ao senti-lo vazio, lembrou-se de que os seguranças no átrio de acesso ao complexo lhe tinham ficado com o Colt. Seria preciso ir por outro caminho, percebeu. Tirou a chave que trazia no bolso das calças e, com a ponta, pôs-se a desaparafusar o teclado fixado na parede. A operação levou uns meros cinco minutos, ao fim dos quais o teclado cedeu e tombou para fora, apenas preso por fios de electricidade.
Depois de analisar os fios, Bellamy pegou no telemóvel e carregou numa tecla. Acto connuo, uma lâmina saltou com um estalido e o telefone portátil transformou-se no que mais parecia um canivete suíço. O homem da CIA sorriu. Eram práticos e traiçoeiros aqueles telemóveis que a Direcção de Ciência e Tecnologia havia desenvolvido para os operacionais. Agarrou num fio negro e cortou-o com a lâmina. Depois fez o mesmo a outro fio, este vermelho. Uma vez ambos os fios soltos, pegou neles e colou-os pelas pontas soltas, estabelecendo contacto. A porta abriu-se com um zumbido suave. Gotcha!
Atravessou a porta, mas antes de seguir caminho voltou a deter-se e a atirar uma mirada atenta ao corredor de onde viera. Talvez fosse apenas a influência do campo magnético, não tinha a certeza, mas a sensação de que alguém o seguia tornara-se ainda mais poderosa. À medida que os grupos de protões iam sendo injectados de acelerador em acelerador, a tensão na sala de controlo crescia. Os sussurros entre os físicos pararam em absoluto e o ambiente adensou-se consideravelmente. O momento mais importante aproximava-se a passos rápidos. Heinrich!, gritou o director. A que velocidade estão os protões? Energia, quatrocentos e cinco gigaelectrões-volt e a crescer, Herr Direktor. O director voltou-se para o outro lado da sala. Maurice, o grande acelerador de hadron está pronto para receber a carga? Oui. Paul, como vão os magnetos? O campo magnético cresce em linha com a aceleração dos protões, sir.
O poder do campo criado pelos supermagnetos tinha de aumentar de modo a acelerar os protões, forçando-os assim a curvar a sua trajectória e, consequentemente, a manter-se dentro do grande acelerador de hadron. Todos os que estavam na sala tinham a noção de que esta questão delicada constituía um ponto crítico da operação. Heinrich, já estamos lá? Quase, Herr Direktor. Faz a contagem final. Energia, quatrocentos e quinze gigaelectrões-volt e a crescer..., energia, quatrocentos e vinte gigaelectrões-volt e a crescer..., energia, quatrocentos e vinte e cinco gigaelectrões-volt e a crescer... Atenção, Maurice..., modalidade em modo de pacote, preparar a rampa. Energia, quatrocentos e trinta gigaelectrões-volt e a crescer..., energia, quatrocentos e trinta e cinco gigaelectrões-volt e a crescer..., energia, quatrocentos e quarenta gigaelectrões-volt e a crescer... Atenção, Maurice..., modo de pacote, rampa. Iniciar o grupo de potência um dois três. Energia, quatrocentos e quarenta e cinco gigaelectrões-volt e a crescer..., energia estabilizada nos quatrocentos e cinquenta gigaelectrões-volt. Injecção!» In José Rodrigues dos Santos, A Chave de Salomão, 2014, Gradiva, 2014, ISBN 978-989-616-602-1.

Cortesia de Gradiva/JDACT

quarta-feira, 29 de janeiro de 2020

A Chave de Salomão. José Rodrigues dos Santos. «O campo magnético foi criado e está a tornar-se mais forte à medida que os protões aceleram. Não há problemas neste sector»

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«(…) Bellamy, movimento! apresentou-se o velho do olhar gelado, a voz baixa e rouca dos que estão habituados a comandar e a ser obedecidos com um estalar de dedos. Frank Bellamy. O segurança suíço observava o cartão, embasbacado. O senhor é da..., é da..., CIA, confirmou Bellamy num tom ácido. Parabéns, rapaz, parece que sabe ler. É um fucking génio. Um burburinho nervoso enchia a grande sala de controlo do CERN. Engenheiros, técnicos informáticos e físicos acotovelavam-se no salão, os primeiros com a atenção presa nos monitores, os últimos em silêncio ou a trocarem observações num sussurro nervoso e expectante. A tensão tornara-se tão espessa que parecia palpável. Não era de admirar. O trabalho que tinham em mãos envolvia grande responsabilidade, pois permitia responder às questões mais fundamentais da nossa existência. Como foi o momento da criação do universo? Quantas dimensões existem? Há um anti-universo? O zumbido da electrónica a computar e o murmúrio dos aparelhos de ar condicionado a funcionarem no máximo enchia a sala de controlo. O rumor permanente era rompido apenas pela voz seca do director a coordenar a operação e pelas respostas sincopadas dos técnicos a quem ia dirigindo as perguntas à vez, como um maestro a harmonizar uma orquestra. O Booster?, quis saber o director, a mão agarrada a um mug de café com o logotipo do CERN. Já está a funcionar a toda a força?
Negativo, foi a resposta do técnico que monitorizava o Booster. Ainda se encontra em aceleração. Qual o valor? Energia, setenta megaelectrões-volt e a crescer. A próxima injecção será no anel um, segmento um, dois pacotes. Cbeck. O director calou-se. Setenta megaelectrões-volt era uma energia relativamente baixa, mas o facto é que as micropartículas tinham acabado de sair do Liriac 2 a cinquenta megaelectrões-volt e era normal que o Booster levasse algum tempo a chegar aos um vírgula quatro gigaelectrões-volt necessários para os protões serem encaminhados para o mais velho acelerador de parculas do CERN, o Proton Synchroton. Bebericou um trago de café, enquanto seguia a informação no seu monitor. Paul, como estão os magnetos?, perguntou. Em linha com o ritmo de aceleração dos protões? Afirmativo, confirmou Paul, responsável pela monitorização do funcionamento dos magnetos de nióbio e titânio. O campo magnético foi criado e está a tornar-se mais forte à medida que os protões aceleram. Não há problemas neste sector.
Os olhos castanhos do director não largavam o ecrã, onde se sucediam números a um ritmo que parecia crescente. Max, o hélio?, questionou, dirigindo-se a um terceiro técnico. Permanece estável? Afirmativo. Os olhos colados ao monitor ficaram presos numa coluna e o que viu manifestamente não lhe agradou. Fez uma careta acompanhada por um grunhido, pousou o mug de café junto ao ecrã e voltou-se para o outro lado da sala. Como vai o PS, Heinrich?, perguntou, impaciente, referindo-se ao Proton Synchroton no jargão coloquial do CERN. Já está a postos para receber os protões? Negativo, Herr Direktor. Falta algum tempo para chegar aos um vírgula quatro gigaelectrões-volt. Qual o valor agora? Energia, noventa megaelectrões-volt e a crescer. Porra, Heinrich, isso está atrasado!, protestou, consciente de que o timing era crucial para o sucesso da operação; a passagem do Booster para a fase seguinte não podia sofrer demoras. Despacha-te com isso! Quero o PS em movimento quando os protões atingirem o valor de um gigaelectrões-volt, ouviste? Ja wol, Herr Direktor.
A impressão de que estava a ser seguido tornara-se muito forte nos últimos minutos e levou Frank Bellamy a deter-se junto de uma esquina do corredor e a lançar um longo e cuidadoso olhar para trás. Examinou o espaço vazio em busca de movimentos reveladores ou de sombras incriminatórias, mas nada detectou de anormal. Susteve a respiração e permaneceu trinta segundos em silêncio absoluto, atento ao mais pequeno som estranho que ali se pudesse escutar. A verdade, porém, é que o crescente rumor do acelerador de partículas em plena operação tornava difícil destrinçar qualquer ruído suspeito, o que inutilizava aquele exercício. Se alguém de facto o seguia, percebeu, não seria assim que o descobriria.
Respirou fundo. Be damned!, praguejou entre dentes. Ou estou a ficar senil e já vejo fantasmas por toda a parte ou então o gajo que me anda a seguir é muito bom... Dobrou a esquina e seguiu em frente, ainda atento aos espectros que pressentia a assombrarem os corredores. Sabia que a intuição raramente o enganava nessas coisas; se tinha a impressão de que estava a ser seguido era porque de facto isso sucedia. Já sentira coisas assim em Berlim Oriental e em Adis Abeba, nos saudosos tempos da Guerra Fria, e na altura constatara que tinha razão e conseguira liquidar os seus perseguidores num beco escondido. Quem lhe garantia que o mesmo não se estava a passar nesse momento? Mesmo assim, reconsiderou. O lugar onde se encontrava não era normal e talvez isso lhe estivesse a nublar a intuição e o raciocínio. Quem sabe se na origem do problema não estaria o poderoso campo criado pelos grandes magnetos que operavam nessa altura? Tinha perfeita consciência de que, a partir de determinado limiar, o magnetismo pode interferir nos processos cognitivos dos seres vivos, e talvez uma coisa dessas lhe estivesse a suceder». In José Rodrigues dos Santos, A Chave de Salomão, 2014, Gradiva, 2014, ISBN 978-989-616-602-1.

Cortesia de Gradiva/JDACT

terça-feira, 28 de janeiro de 2020

A Chave de Salomão. José Rodrigues dos Santos. « O desconhecido rezingou qualquer coisa imperceptivel e Jean-Claude, indiferente e compenetrado na sua tarefa, retomou a revista com o scanner de metais»

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«O velho de olhar glacial atravessou o átrio em passo firme e aproximou-se do dispositivo de controlo de acesso ao complexo do CERN. Não se recordava de ver todo aquele aparato de segurança quando ali escrevera da úl􀆟ma vez, mas umas bandeirinhas tricolores ao canto lembraram-lhe que o presidente francês deveria visitar as instalações na semana seguinte. Fucking Frenchies..., rosnou entre dentes. Rabujando de desagrado, ignorou o tapete rolante onde deveria depositar os objectos metálicos que trazia no bolso para a inspecção de segurança por raios X. Em vez disso dirigiu-se directamente aos torniquetes de passagem e só se deteve diante do detector de metais. Ficou então imóvel, quase uma estátua, apenas o movimento impaciente dos dedos e dos olhos azuis frios e perscrutadores a darem sinal de vida. Um segurança suíço fez-lhe um gesto para avançar. O visitante deu dois passos em frente e, atento ao nome Jean-Claude Bloch que o segurança trazia no crachá pregado ao peito, cruzou o detector. Soou nesse momento um sinal de alarme e acendeu-se uma luz vermelha sobre a máquina. O recém-chegado trazia metais. Com um scanner na mão, Jean-Claude aproximou-se do homem de olhos azuis. Levante os braços, por favor. O idoso obedeceu e o segurança colou-lhe o scanner às ancas. De imediato o engenho emitiu um zumbido. O visitante meteu as mãos ao bolso e, com um sorriso sem humor, como uma criança apanhada a roubar chocolates da despensa, extraiu os objectos metálicos que ali trazia. São apenas as chaves, umas moedas e o telemóvel, murmurou. Nada de especial, como vê. Jean-Claude olhou-o reprovadoramente e, com uma ponta de irritação a trepar-lhe no tom de voz, indicou o tapete rolante da máquina de raios X. Da próxima vez que cá vier ponha os metais ali, se não se importa. Isso facilitar-nos-ia a tarefa.
O desconhecido rezingou qualquer coisa imperceptivel e Jean-Claude, indiferente e compenetrado na sua tarefa, retomou a revista com o scanner de metais. Verificou as pernas, mandou o recém-chegado tirar os sapatos e inspeccionou-os também. Depois colou-lhe o engenho aos ombros e aos braços. Quando chegou ao peito o scanner voltou a emitir um zumbido. Damn!, praguejou o velho, contrariado. Esqueci-me da minha fucking amiguinha. Meteu a mão por baixo do casaco e retirou um objecto metálico colado à camisa. Os olhos do segurança arregalaram-se de susto ao reconhecer o objecto na mão do visitante. Uma pistola. Jean-Claude deu um salto para trás, o alarme estampado no rosto e na postura do corpo, e com um movimento rápido extraiu do coldre a sua própria arma. Freeze!, gritou, agarrando com as duas mãos uma Glock que apontou ao idoso. Não se mexa! Alertados pela reacção do colega, os restantes seguranças sacaram também as suas armas e viraram-nas para o visitante. A sirene de alerta começou entretanto a soar por todo o átrio, um uivo ondulado e urgente, e gerou-se a confusão. Algumas pessoas gritavam de pânico e outras corriam para sair dali. Parecia ter-se desencadeado subitamente um pandemónio; num instante estava tudo tranquilo, logo a seguir o caos generalizara-se.
Vamos lá, rapazes, não exagerem, protestou o idoso, ainda de pistola na mão e com várias armas apontadas para ele. É apenas o meu velho Colt, que diabo! Um cidadão honesto já não pode andar protegido neste mundo tão violento? Quieto!, insistiu Jean-Claude, a Glock de serviço apontada ao alvo. Baixe-se muito devagar e pouse a pistola no chão. Brandiu a sua arma, a sublinhar o aviso. Muito devagar, ouviu? Se fizer qualquer movimento repentino, terei de disparar. Está bem, está bem, assentou o visitante, aparentemente pouco impressionado com toda a perturbação que se gerara em volta dele. Conheço os procedimentos, não se preocupem. O velho baixou-se devagar e pousou o Colt no chão. Depois voltou a erguer-se, os braços no ar, até fitar de novo os homens que lhe apontavam as armas. Com um movimento rápido, o segurança diante dele pontapeou a pistola para longe. Depois, já mais tranquilo, fez com a arma um sinal a indicar o chão. Deite-se. Ponha as mãos atrás da nuca! O desconhecido revirou os olhos de enfado. Oiça, não acha que está a exagerar? O que se passou foi simplesmente um pequeno... Deite-se!
O visitante permaneceu um longo instante em pé, os olhos gelados e inquisiti-vos a medirem os seguranças que lhe apontavam as armas e a avaliarem friamente a situação, a mente a fazer cálculos sobre a melhor maneira de proceder. Por fim suspirou, a decisão tomada, e baixou devagar os braços. Todos esperavam que se deitasse no chão, como lhe fora ordenado, mas manteve-se de pé, um ancião de fato azul-escuro e gravata vermelha rodeado por seguranças que lhe apontavam armas. Não ouviu o que eu disse?, insistiu Jean-Claude, brandindo a sua pistola. Deite-se imediatamente! Sempre com gestos lentos e precisos, os olhos sem largarem os homens que o cercavam, o desconhecido meteu de novo a mão no interior do casaco. Quieto!, gritou o segurança, outra vez muito alarmado, receando que o visitante tirasse do casaco uma segunda arma. Quieto ou disparo! Nem mais um movimento! Mas o idoso voltou a ignorar a advertência. Inseriu os dedos no bolso interior do casaco e, sempre sem pressas, extraiu o objecto que procurava e virou-o na direcção do segurança que o ameaçava. Um cartão.
Apesar do nervosismo, Jean-Claude desviou fugazmente os olhos e espreitou o cartão, primeiro a medo, depois tão intrigado que o estudou com maior atenção. O pequeno rectângulo plastificado tinha uma fotografia a cores do lado esquerdo a exibir um rosto, que o segurança comparou com o do seu portador; as íris azuis frias e calculistas eram as mesmas, tal como as rugas que lhe rasgavam os cantos dos olhos, o rosto longo e seco, o queixo quadrado e os cabelos tão brancos que pareciam farrapos de neve. Não havia dúvida, tratava-se do visitante. Analisou o resto do cartão. À direita estava um círculo azul com a cabeça de uma águia no meio e em baixo um longo código de barras. Entre a fotografia e o círculo encontravam-se os dados a identificar o titular do cartão. No topo a informação Employee ID 1123-XO, no meio a indicação Status: Directorate of Science and Technology, Director, e em baixo o nome e a referência ao nível cinco de acesso de segurança». In José Rodrigues dos Santos, A Chave de Salomão, 2014, Gradiva, 2014, ISBN 978-989-616-602-1.

Cortesia de Gradiva/JDACT

quinta-feira, 28 de novembro de 2019

O Pavilhão Púrpura. José Rodrigues dos Santos. «Colapso? Crash? Falências? Caramba, que palavras tão dramáticas os camones gostavam de usar! Como tinha de dar resposta ao exercício e não fazia a menor ideia daquilo de que os tipos da universidade…»

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«(…) A Ásia, para onde as nossas atenções se irão voltar com crescente pormenor, atravessava também um momento de grande turbulência e choque entre as ideias das diferentes ditaduras de origem marxista, as comunistas e as fascistas. A China vivia o período unificador das Expedições do Norte, quando o Kuomintang e o Partido Comunista se uniram contra os senhores da guerra e depois se desentenderam. A minha Lian-hua, apenas um ano mais velha que a Nadija, vivia no Jardim das Flores Esplendorosas, a quinta da família, e fora raptada pelos comunistas do bando de Mao Tse-tung. O pai pedira ajuda ao Kuomintang, mas a verdade é que ela estava nas mãos do inimigo e fora levada para parte incerta. O sequestro permitira a Lian-hua ver como agiam os guerrilheiros comunistas e a menina acabou forçada a integrar uma unidade que tinha por missão atacar os proprietários de terras para fomentar a grande revolução que supostamente desembocaria na ditadura do proletariado do socialismo e depois no comunismo sem classes. A acção, contudo, correra mal e ela viu-se sozinha num mato infestado de tigres. Como escaparia? Pela mesma altura, e do outro lado do mar da China, o Japão parecia tranquilo. Parecia. O meu amigo Fukui, cujo pai fora morto por assassinos shikaku provavelmente enviados pelos velhos inimigos da família Satake, os Miyamoto, embrenhava-se na ciência política e ia concluindo que o Japão precisava de se afastar das ideias tradicionais do xintoísmo e do confucianismo e de abraçar a modernidade ocidental em toda a sua plenitude. Fukui constatara que os seus antepassados pelo lado da mãe eram cristãos de Nagasaki, quem sabe se portugueses?, e a descoberta acicatara-lhe a curiosidade.
Pois agora, amigo leitor, vou relatar-lhe o que sucedeu a seguir. Convém termos presente que naquela época a informação não circulava com a rapidez com que hoje se expande, apesar da telegrafia e da recente popularização da telefonia, a que agora se chama rádio. É por isso que não consigo reprimir um sorriso sempre que penso na maneira como tive conhecimento daquele que veio a revelar-se um dos mais importantes de todos os acontecimentos da década de 1920 e na forma como então reagi. Não foi pelos jornais que soube do que se passava, não foi por telegrama, não foi sequer através da telefonia. Foi graças a uma pergunta que me chegou por carta. Eu explico. Na altura era ainda jovem e estava a tirar um curso de Economia por correspondência de uma universidade americana, o Instituto Superior de Chicago e do Montana. Acontece que, no início de 1930, eles me mandaram um exercício. A primeira pergunta era sobre os motivos do colapso da Bolsa de Nova Iorque uns meses antes, em Outubro de 1929, e a segunda dizia respeito às relações de causa-efeito entre o crash de Wall Street e a vaga de falências que se desencadeou na América. Fiquei admirado com estas perguntas pois nunca ouvira falar em tal assunto. Colapso? Crash? Falências? Caramba, que palavras tão dramáticas os camones gostavam de usar! Como tinha de dar resposta ao exercício e não fazia a menor ideia daquilo de que os tipos da universidade estavam a falar, fui ter com o Custódio, um amigo que trabalhava no BNU, e perguntei-lhe o que se passava com a Bolsa de Nova Iorque.
Pois, parece que há uns problemas, disse ele. Noutro dia vieram aqui os bifes do Hong Kong and Shanghai Bank e vi-os muito preocupados. Por quê?, admirei-me eu. O crash é lá na América… Isso não é assim tão simples, explicou o meu amigo. Há o problema do contágio. Repara, os americanos têm muitos investimentos aqui no Oriente e também na Europa. Como as empresas americanas estão a ir à falência ou a enfrentar grandes dificuldades, começaram a retirar o dinheiro que investiram no estrangeiro. Preferem ter esse dinheiro na América para não irem também à falência, estás a ver? Além disso parece que o governo americano ergueu barreiras alfandegárias destinadas a impedir as importações e assim proteger a indústria do seu país, o que significa que aqui na Ásia estamos com dificuldade em vender os nossos produtos para a América. Consta que na Europa andam a enfrentar o mesmo tipo de complicações na exportação dos produtos deles. E então? Qual é o problema dessas barreiras alfandegárias? Custódio olhou-me fixamente. Pensa bem, Jorge. Se os americanos deixam de comprar o que produzimos, quem comprará?
Confesso que não tive resposta para a pergunta, mas apesar de todas estas informações fiquei céptico. Não me pareceu credível que uns probleminhas quaisquer na Bolsa de Nova Iorque pudessem afectar assim tanto a nossa vida no outro lado do planeta. Que os ingleses do Hong Kong and Shanghai Bank estivessem assustados até achei normal, pois era natural que o banco tivesse muitos investimentos na América e a vaga de falências criasse receios. Agora que uma questão destas nos tocasse no dia-a-dia? Não, nem pensar! O Custódio bem podia falar em contágio e noutras expressões do foro médico e epidemiológico, mas para ser franco tudo aquilo se me afigurou um exagero. Com as explicações que obtive no BNU lá respondi às perguntas que constavam do exercício do Instituto Superior de Chicago e do Montana, meti tudo no correio e não me preocupei mais com o assunto. Tinha de resto a nítida sensação de que a realidade descrita nessas minhas respostas pertencia a um mundo que não era meu; tratava-se de uma espécie de universo paralelo onde a economia não possuía a menor correspondência com a realidade na qual eu e o resto do planeta vivíamos. Não decorria a vida normalmente em Macau? Não era a nossa existência marcada pela mesma modorra prazenteira de sempre? Para que nos interessava realmente o dito crash em Nova Iorque?» In José Rodrigues dos Santos, O Pavilhão Púrpura, Gradiva, 2016, ISBN 978-989-616-709-7.

Cortesia de Gradiva/JDACT

sexta-feira, 22 de novembro de 2019

O Pavilhão Púrpura. José Rodrigues dos Santos. «Já na outra extremidade da Europa a ditadura pertencia ao proletariado, ou pelo menos era o que os ditadores comunistas alegavam. Lenine tinha morrido e Stalin preparava-se para pôr de lado…»

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«(…) Doutor Lobo, tenho de lhe dar os parabéns!, diz ele com um enorme sorriso na cara. O senhor está curado! Esta afirmação é feita no tom de quem celebra um golo de Portugal na final do Mundial, claro. Não sei como, por vezes milagres destes acontecem, mas o facto é que o tratamento funcionou melhor do que se esperava e a sua doença desapareceu! Está curado! Levanto-me e abraço-o, dou pinotes de alegria, estou curado!, estou curado!, a vida é bela e este hospital é maravilhoso! Os enfermeiros e os outros pacientes ouvem os gritos e vêm ter comigo, parabéns, doutor Lobo!, dizem uns, o senhor merece!, acrescentam outros, e eu a todos abraço e com todos festejo a boa nova: a doença desapareceu e estou enfim curado, Portugal pode não ter ganho o Mundial mas eu ganhei o meu campeonato. Depois saio dali e vou beber uns copos ao Hotel Lisboa. Se não fosse tão velho até ia ver as tailandesas do Jai Alai, e porque não ir vê-las mesmo com esta idade? No fim de contas estou a sonhar e nos sonhos permitimo-nos tudo, não é verdade? Ah, sonhos…
A realidade, todos o sabemos, não se compadece com os nossos desejos e quando estas fantasias reconfortantes acabam temos sempre de voltar a ela. As coisas são como são, não como queremos que sejam. Carrego esta doença comigo e ela não se irá embora só porque o quero ou por quaisquer artes mágicas. Apesar de todas as esperanças que os meus sonhos acalentam, sei no meu âmago que a doença me matará. Por isso a minha vida tornou-se uma dança estranha e desgastante entre sonho e realidade. Nuns momentos fantasio com a cura e noutros caio em mim, enfrento a realidade e assumo que estou a chegar ao fim da linha. A gangrena avança cá dentro e com ela me levará, não há nada que eu possa fazer a não ser resignar-me ao que o destino já me reservou. A terrível verdade, aquela que sempre soube sem na verdade o saber, é que não sou imortal. Hoje, porém, e depois de ouvir a notícia que o doutor Évora me deu, sinto-me aliviado. Não tenho um mês de vida pela frente, mas sete. Sei que em breve voltarei a sentir-me obcecado com este problema, que retomarei a terrível contagem decrescente, que o insuportável peso da morte me assentará de novo sobre os ombros e que no final a terrível realidade acabará mais uma vez por se impor ao doce sonho. Neste momento, contudo, quero sentir-me alegre e fruir a minha efémera felicidade. Vou viver mais do que esperava e isso, consideradas as minhas penosas circunstâncias, é uma bênção.
Além disso, sinto-me melhor. Não sei se foi da boa nova ou se é do tratamento, mas o facto é que a boa disposição regressou e voltei a ter forças e a sentir ânimo. É por isso que estou agora sentado à minha secretária a redigir estas palavras. Estive um mês parado, sem vontade nem alento para rabiscar uma linha que fosse. A história da Nadija, do Artur, da Lian-hua e do Fukui, queridos amigos que tanto me marcaram, flores de lótus que com gestos simples honraram a humanidade neste mundo conspurcado de lama, reduzir-se-ia à narrativa do que lhes aconteceu na primeira parte das suas vidas, que deixei inscrita nas páginas de As Flores de Lótus. As forças faltavam-me e a história estava condenada a ficar por aí.
O alento, todavia, voltou quando menos esperava. Acredito, não me perguntem como nem porquê, que a Providência me concedeu estes meses suplementares com um propósito definido. E que propósito poderá ser esse senão terminar o que em boa hora comecei? É por isso que aqui estou de novo, de cara lavada e ânimo renovado, animado pela determinação férrea de contar o que se passou com aquelas quatro pessoas que tão importantes foram para mim. É isso o que quero fazer e é isso o que farei. Recordará, que o livro precedente nos deixou em suspenso quando os acontecimentos cristalizaram um virar de página da história do século XX, numa altura em que, no rescaldo do desastre da Primeira Guerra Mundial, as grandes tendências ditatoriais da década de 1920 se começaram a definir. Na ponta ocidental da Europa a revolução do 28 de Maio de 1926 trouxera a ditadura para Portugal e o meu amigo Artur, então um jovem tenente a quem a mulher, Catarina, ainda não conseguira dar filhos, viu-se inesperadamente no epicentro dos acontecimentos. Coube-lhe a missão de convencer o doutor Oliveira Salazar a assumir a pasta das Finanças num período de absoluto descrédito da democracia e da República.
Já na outra extremidade da Europa a ditadura pertencia ao proletariado, ou pelo menos era o que os ditadores comunistas alegavam. Lenine tinha morrido e Stalin preparava-se para pôr de lado o breve regresso à economia de mercado encetado pela Nova Política Económica para avançar, ou recuar, para o comunismo puro e duro, com as requisições forçadas e a colectivização das terras. A minha Nadija era então apenas uma criança, mas a família regressara à Ucrânia para viver na pequena propriedade que o pai herdara. Como se iriam dar com a experiência política, social e económica então em curso? Poderia o comunismo funcionar?» In José Rodrigues dos Santos, O Pavilhão Púrpura, Gradiva, 2016, ISBN 978-989-616-709-7.

Cortesia de Gradiva/JDACT

O Pavilhão Púrpura José Rodrigues dos Santos. «Talvez mais seis meses. Quase dei um salto de alegria na cadeira. Eu sei que, apresentada a coisa desta maneira, a minha reacção pode parecer exagerada»

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«Hoje tive uma boa notícia. Como é habitual desde que há quase meio ano me foi diagnosticada uma doença fatal a aproximar-se da fase terminal, esta manhã fui ao Hospital Conde de São Januário para o tratamento e as análises do costume. Tiraram-me sangue, fizeram-me uma TAC, meteram-me numa máquina para me submeter a uma ressonância magnética, injectaram-me as drogas da terapia…, enfim, fizeram o que sempre fazem quando lá tenho de ir. Os procedimentos prolongaram-se por toda a manhã. Depois, e apesar do enjoo, desci a colina da Guia para almoçar no Clube Militar e, pelas três da tarde, subi de novo ao hospital para a consulta que tinha marcada com o doutor Évora. Confesso que esta consulta constitui sempre para mim um momento de grande tensão e nervosismo, uma vez que é o instante em que me é revelada a evolução da doença. As novidades raramente são positivas, pelo que, não me importo de o reconhecer, entro sempre naquele gabinete com suores frios a percorrerem-me o corpo e as pernas tão fracas e a tremerem tanto que tenho até a impressão de que o meu tronco não está assente em pernas, mas em esparguete cozido. Desta feita, porém, algo de novo aconteceu.
Sabe uma coisa curiosa?, observou o médico enquanto examinava os resultados das análises, da ressonância magnética e da TAC com uma expressão mais positiva do que era habitual. Creio que a progressão da doença abrandou. Depois de passar meses a fio a ouvir más notícias sempre que ali me sentava, foi a primeira vez que as palavras dele realmente me animaram. A sério, doutor?, admirei-me, o peito de repente desanuviado, a esperança a incendiar-me o coração apesar de a cabeça me recomendar prudência. Isso quer dizer…, quer dizer o quê? O médico indicou uma mancha visível na ressonância magnética. Está a ver aqui? Pegou noutra imagem, a da ressonância que eu havia feito no mês passado, e pô-las lado a lado, a actual e a anterior. Agora compare. Olhei para uma e para a outra e a sombra da desilusão perpassou-me no espírito. Aumentou, doutor… Pois sim, mas aumentou pouco. Não vê? Admito que os meus conhecimentos nesta área são nulos, ou andam lá perto, pois não consegui perceber onde via ele razões para o menor dos optimismos.
Eu…, confesso que não, balbuciei, o desapontamento já a tomar conta de mim mas apesar de tudo a esperança a manter ainda acesa a sua muito trémula chama. A mancha cresceu… Mas cresceu menos do que devia ter crescido! Esforcei-me por ver ali o que ele via, tentei medir a taxa de crescimento; é verdade que à esquerda parecia quase na mesma, mas o resto estava indubitavelmente maior. O facto é que, depressa ou devagar, o mal continuava a espalhar-se. E então, doutor? Não percebe? Isto quer dizer que o senhor vai viver um pouco mais do que eu pensava… O meu coração deu um pulo e arregalei os olhos, esperando contra a esperança que a resposta à minha pergunta seguinte me desse razões para festejar. Quanto tempo mais? O doutor Évora olhou-me com uma expressão que tenho dificuldade em definir. Talvez mais seis meses. Quase dei um salto de alegria na cadeira. Eu sei que, apresentada a coisa desta maneira, a minha reacção pode parecer exagerada. No fim de contas este anúncio significa que morrerei daqui a sete meses, e sete meses não são nada numa vida. É como se fosse já depois de amanhã. Contudo, ponha-se por favor no meu lugar.
Há cinco meses este mesmo médico diagnosticou-me uma doença a entrar na fase terminal e deu-me então seis meses de vida. Cinco desses meses já se esgotaram, só me resta um. Pode imaginar o que uma situação destas representa na cabeça de uma pessoa? Acha que é possível ser-nos passada uma sentença de morte sem que queimemos o dia a pensar nela e a fazer contas ao tempo cada vez mais diminuto que nos resta? Não há quase momento em que, estando acordado, não pense na minha morte iminente. Contabilizo os dias, as horas e até os minutos; o assunto tornou-se uma verdadeira obsessão, mórbida é certo, mas que não tenho modo de evitar ou controlar. E agora, quando pelas minhas contas já só me restam uns trinta dias, eis que o mesmo médico, depois de mais uma vez me vasculhar nas entranhas, chega à conclusão de que tenho afinal sete vezes mais tempo de vida do que inicialmente se pensava. Ou seja, em vez de um mês, sobram-me ainda sete. Será que o significado de um anúncio destes pode ser compreendido em toda a sua plenitude? A minha vida será sete vezes mais longa do que eu esperava! Sete vezes! Não é isso motivo mais do que suficiente para celebrar?
Saí do hospital leve como uma flor, como se o imenso peso que a morte me carregara sobre os ombros tivesse sido subitamente levantado, e ia tão ligeiro e feliz que até dancei no caminho para casa; parecia o garoto que fui quando no Liceu Infante D. Henrique arranquei um beijo à Constança, o primeiro que dei a uma garota. Repito que tenho a consciência de que sete meses de vida não são nada, parece evidente, mas acaba por ser muito mais do que ainda esta manhã me atrevia a esperar. Claro que, como qualquer pessoa a quem um médico anuncia uma doença tão terrível como esta, vivo na quase permanente esperança de um restabelecimento miraculoso da minha saúde. Por vezes, quando me ponho a sonhar acordado, imagino-me sentado no gabinete do doutor Évora, depois de mais uma infindável sessão de exames e tratamentos, a ouvi-lo anunciar-me a novidade maravilhosa». In José Rodrigues dos Santos, O Pavilhão Púrpura, Gradiva, 2016, ISBN 978-989-616-709-7.

Cortesia de Gradiva/JDACT

segunda-feira, 4 de dezembro de 2017

O Homem de Constantinopla. José Rodrigues Santos. «Eu ... eu ... Madame Duprés puxou-me pela mão. Vem depressa!, insistiu. É a última oportunidade! Senhor Sarkisian?, chamava o turco. Alô? Alô?»

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«(…) Depois mergulhámos no mutismo retemperador de quem se sente resignado e afogámos a tristeza em novas encomendas no bar, eu sempre fiel ao meu copo de whisky, ela agarrada ao seu cálice de vinho do Porto. Tudo se passou então com uma velocidade estonteante. Os acontecimentos começaram a precipitar-se quando, uma hora mais tarde, um empregado do hotel se aproximou de mim e anunciou um telefonema na recepção. Do estrangeiro, esclareceu ele com urgência na voz, como se nada existisse de mais importante que uma chamada do estrangeiro. Estranhei a circunstância, não havia muita gente que estivesse a par do meu paradeiro e as chamadas internacionais eram de facto raras, mas a realidade é que havia um telefonema para mim e naturalmente fui atender. M’sieur Sarkisian?, perguntou a voz do outro lado, com um sotaque estranho, talvez da Europa Central. Krikor Sarkisian? Sou eu mesmo. Quem fala? Daqui Mehmet Bey. Ouvia-se muito mal, a linha telefónica estralejava de ruídos e assobios e a voz do outro lado parecia vir do fundo de um longo túnel, decerto lançada de uma cidade longínqua do outro lado da Europa. Quem? Mehmet Bey. O contacto do seu pai em Istambul. Um turco. Desde a minha juventude que aprendera a desconfiar dos Turcos. Sofri tanto às mãos dessa gente que por eles não me sobrava um pingo de simpatia. Fiquei por isso de pé atrás. Ah, como está?, cumprimentei-o com a voz gelada. Em que lhe posso ser útil? Encontrei-a!, exclamou ele num tom estranhamente triunfal, quase eufórico. Encontrei-a! Nunca me esquecerei destas palavras gritadas de tão longe e que me chegaram como um miado débil; ainda hoje as escuto nos meus ouvidos, um eco doce que o tempo aprisionou. Confesso, para ser sincero, que a princípio não entendi. Já se tinham passado tantos anos ... Como julguei que o senhor Bey era um dos homens contratados pelo meu pai para identificar obras de arte pelos quatro cantos da Europa, pensei até que se estaria a referir a uma peça qualquer que tivesse localizado no mercado de Istambul. Talvez um quadro, uma moeda antiga, um tesouro da tapeçaria persa ou um vaso chinês. Encontrou-a? Desculpe, mas agora não tenho cabeça para falar sobre esses assuntos. Por esta altura já ambos gritávamos ao bocal dos nossos aparelhos, num esforço caricato de nos fazermos ouvir nas duas extremidades do túnel em que se transformara aquela chamada, um e outro em cada uma das pontas meridionais da Europa. Lembra-se da busca ordenada pelo seu pai e pelo meu, há uns quarenta anos, de uma senhora desaparecida?, insistiu o homem do outro lado da linha. Encontrei-a! O meu coração deu um salto no momento em que compreendi enfim o que me era dito. Senti o equilíbrio fugir-me e tive de me apoiar ao balcão da recepção, tão violento e profundo foi o choque. Fiquei um longo instante sem saber o que dizer, na verdade incapaz de pronunciar uma palavra que fosse, a mão sobre os lábios e atordoado com a notícia, querendo acreditar mas receando fazê-lo. Seria possível? Teria ela sido mesmo encontrada? Alô? Senhor Sarkisian? Está a ouvir-me? Sim, sim, respondi de forma quase maquinal, tentando ainda recompor-me das emoções que o anúncio alvoroçara.
Estou aqui. Percebeu o que lhe disse? Eu ..., tem a certeza de que a encontrou? Está seguro de que é ela? Não poderá ser outra pessoa? É ela!, insistiu o turco com a ênfase de quem não tinha a mínima dúvida do que afirmava. Falei com a senhora e tudo. Está confirmadíssimo. É ela. Foi como se se tivesse aberto em mim nesse instante um dique fechado há exactamente trinta e nove anos. Dei comigo a soluçar, desamparado e ao abandono, um abrupto mar de lágrimas a embaciar-me os olhos. Apercebi-me da presença de madame Duprés ao meu lado e pensei que me tinha vindo confortar, mas, no meio daquela situação, como se o destino se enchesse de malícia e tudo quisesse complicar, compreendi que ela trazia urgência no olhar. Vencendo a vaga de emoções que me turvava o raciocínio, fiz um esforço para me dominar. O teu pai despertou, ouvi-a dizer. Vem depressa! Vem antes que ele se vá!
Alô, senhor Sarkisian?, perguntava ao mesmo tempo a voz do outro lado da linha. Está a ouvir me? Fitei-a e percebi que o meu pai tinha prioridade. Olhei para o telefone negro e decidi que também o turco tinha prioridade. Para onde devia voltar-me? O que fazer? A minha confusão era total, parecia que uma orquestra havia encetado uma sinfonia desalinhada, cada instrumento a tocar para o seu lado e eu ali perdido como um maestro incompetente, incapaz de coordenar a cacofonia em que se transformara aquele instante de pura indecisão. Eu ... eu ... Madame Duprés puxou-me pela mão. Vem depressa!, insistiu. É a última oportunidade! Senhor Sarkisian?, chamava o turco. Alô? Alô? Em definitivo, e considerando as circunstâncias, o meu pai estava à frente de tudo o resto. Senhor Bey, disse apressadamente para o bocal do telefone. Agora não posso falar. Onde nos poderemos encontrar? Na próxima segunda-feira, ao meio-dia, na recepção do Pera Palace, em Istambul, devolveu ele com a prontidão de quem já tinha tudo planeado. Está bem para si? Vemo-nos segunda-feira. Desliguei o telefone e corri atrás de madame Duprés, que subia já as escadas na companhia do doutor Fonseca, o médico que o meu pai contratara logo que se instalou em Lisboa. Chegámos ao primeiro andar e dirigimo-nos à suite que ele ocupava. Cruzei a porta e mergulhei na penumbra. As cortinas estavam corridas, como se um véu opaco assombrasse o quarto, e pairava no ar o cheiro característico das antecâmaras da morte. Os lençóis cobriam a cama, brancos como uma mortalha asséptica, a flutuar ao ritmo pausado da respiração. Ao chegar-me à cabeceira, porém, apercebi-me de que ele tinha os olhos abertos, baços de torpor mas ainda com uma centelha de vida a animá-los». In José Rodrigues Santos, O Homem de Constantinopla, Edições Gradiva, 2013, ISBN 978-989-616-549-9.

Cortesia de EGradiva/JDACT

segunda-feira, 1 de maio de 2017

O Homem de Constantinopla. José Rodrigues Santos. «De repente, como por encanto, ou talvez graças a um desconcertante passe de ilusionismo, os acontecimentos aceleram e tudo se precipita»

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«Nenhum ser humano esquece o dia em que o pai morreu.
Dizem que é o momento em que nos tornamos adultos e o futuro nos é confiado como a chave de uma mansão de que somos enfim herdeiros. Fingimos que assumimos a vida como senhores do nosso destino, mas a orfandade nada nos oferece a não ser a solidão dos que se descobrem entregues à sua sorte. Vivi essa tragédia pessoal numa jornada estranha, uma daquelas tardes em que tudo parece suceder ao mesmo tem o, como se Deus jogasse com a nossa desgraça tirando-nos com uma mão o que nos dá com a outra. A vida tem, aliás, destas coisas. Tropeçamos nos anos como se estivéssemos anestesiados, não passamos de sonâmbulos a vaguear por um sonho cujos contornos mal discernimos, perdidos num labirinto tecido pelos mistérios que assombram os caminhos abertos diante de nós. De repente, como por encanto, ou talvez graças a um desconcertante passe de ilusionismo, os acontecimentos aceleram e tudo se precipita. Foi o que se passou naquele dia em que entrei no hotel, um estabelecimento de luxo instalado num palacete perdido nos confins ocidentais da Europa. Franqueei o átrio como um animal acossado, ansioso e deprimido, vergado pelo futuro que intuía incerto. A viagem para Lisboa havia sido cansativa e quando por fim me deixei cair no sofá, depois de falar com o médico e de ir ao primeiro andar espreitar o meu pai moribundo, fiquei com a impressão de que já não seria capaz de me levantar, tão macias achei as almofadas e tão fatigado me sentia. Olhei em volta e respirei o ambiente sereno do hotel. O grande salão estava finamente decorado, como sempre, mas o que mais me encantou, admito, foi o tapete fofo no qual os meus pés se afundavam com infinito deleite.
Enquanto saboreava o whisky com gelo que fui buscar ao bar para me forçar a descontrair, deixei a mente vagabundear pelos acontecimentos das últimas vinte e quatro horas. Tudo começara quando me chegou o telegrama com as notícias do colapso que o meu pai tinha sofrido em Lisboa. Apesar de estar plenamente consciente de que, com aquela idade, qual­quer situação do género poderia ocorrer a todo o momento, foi como se alguém me tivesse despertado com uma bofetada. Uma coisa é pensarmos em abstracto na possibilidade de isto acontecer, outra é algo assim suceder de facto. Descobrimos nesse instante que nunca estamos realmente preparados.
O que se passou a seguir à chegada da notícia transformara-se já numa amálgama confusa de pedaços de imagens que flutuavam caoticamente na minha memória, como folhas secas que o vento do Outono atirava em sucessivos remoinhos pelo ar. Lembro-me vagamente de ir a Piccadilly comprar à pressa um bilhete da BOAC, depois a corrida desenfreada no meu Morgan até ao aeródromo de Croydon, o interminável voo de seis horas sobre o Atlântico, a aterragem aos solavancos do De Havilland na pista de Lisboa, as cores das casas que a luz límpida da cidade tornava alegremente garridas, os rostos apreensivos que me acolheram no Aviz, a placidez vertida pela face impassível do meu pai no momento em que o vi estendido na cama. Estava a morrer e parecia dormitar.
Uma mão amiga apertou-me o ombro, trazendo-me de volta ao salão do hotel. Alors, mon cheri?, perguntou-me a voz feminina num tom maternal. T'es bien? Virei a cabeça e reconheci o vulto alquebrado de madame Duprés. Tinha o olhar cansado de quem não dormia havia alguns dias e dava a impressão de que envelhecera consideravelmente desde que com ela me cruzara pela última vez, uns três anos antes. Seria da fadiga ou do choque? A verdade é que a senhora contava mais de oitenta anos, pelo que a única verdadeira surpresa deveria ser a energia que a animou até tão avançada idade. Qualquer que fosse a sua fonte, todavia, a vitalidade manifestamente apagara-se e dela apenas sobrava um clarão difuso, como o hálito do sol no langor moribundo do crepúsculo.
Ainda não estou em mim, confessei. Alguma novidade? A velha francesa abanou a cabeça, os olhos a pestanejarem com uma tristeza prenhe de resignação. Infelizmente não. Madame Duprés acomodou-se numa chaise longue ao meu lado, os gestos suaves e melancólicos, o corpo aterradoramente frágil. Parecia um espectro prestes a quebrar-se. Ele alguma vez recuperou a consciência? De início sim. O doutor disse-me que se trata de um tipo raro de coma, como se a consciência fosse sucessivamente ligada e desligada. Mas os momentos em que está desperto são cada vez mais raros, curtos e espaçados. O olhar dela pousou em mim e pareceu acender-se por momentos, como a chama mortiça de uma vela que desperta ao sabor de uma aragem súbita. Por isso, se ele acordar outra vez, aproveita.
Aproveita cada segundo, frui cada palavra, guarda cada olhar. Poderá não haver outra oportunidade, entendeste? Assenti com a cabeça, perfeitamente consciente de que, se voltasse a falar com o meu pai, seria decerto para lhe dizer adeus. O médico português já me tinha aliás dado conta da gravidade da situação, sublinhando que a questão se encontrava para além dos conhecimentos da medicina. Se nutria ainda algumas ilusões quanto ao verdadeiro estado em que ele se encontrava, perdi-as por completo nessa conversa. Nos últimos tempos, perguntei de repente, ele falou de mim?
Madame Duprés abanou a cabeça. Como sabes, o teu pai não era muito expansivo, murmurou de olhos submissos. Mas não tenhas dúvidas de que a vossa zanga o deixou muito abatido. Nunca mais foi o mesmo. O era que ela utilizou para se referir a meu pai soou-me amargamente a requiem antecipado; dava a impressão de que já tinha desistido dele e se resignara ao inevitável. A pessoa mais afectada, talvez por ter vivido de perto toda a situação, era de facto madame Duprés. Apesar de ser eu o filho, dei comigo a tentar consolá-la e a fazer-lhe ver que a vida é uma viagem com ponto de partida e de chegada. O meu pai estava no fim do caminho, tínhamos de nos preparar e aceitar o inevitável desenlace. Ela chorou ali ao lado de mim, em pleno salão do Aviz, os pés afundados naquele tapete fofo, as mãos a taparem o rosto molhado de lágrimas. Não me envergonho de dizer que chorei também». In José Rodrigues Santos, O Homem de Constantinopla, Edições Gradiva, 2013, ISBN 978-989-616-549-9.
Cortesia de EGradiva/JDACT