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segunda-feira, 11 de setembro de 2017

O Tesouro Escondido. José Tolentino Mendonça. «Cala-te. Permanece no recolhimento. Poemen garantia: se fores realmente silencioso, em qualquer lugar onde estiveres encontrarás repouso»

jdact

«(…) Aprendamos com o relato da vocação do profeta Samuel. O jovem Samuel servia o Senhor sob a direcção de Eli. O Senhor, naquele tempo, falava raras vezes e as visões não eram frequentes. Ora, certo dia, aconteceu que Eli estava deitado, pois os seus olhos tinham enfraquecido e mal podia ver. A lâmpada de Deus ainda não se tinha apagado e Samuel repousava no templo do Senhor, onde se encontrava a Arca de Deus. O Senhor chamou Samuel. Ele respondeu: eis-me aqui. Samuel correu para junto de Eli e disse-lhe: aqui estou, pois me chamaste. Disse-lhe Eli: não te chamei, meu filho; volta a deitar-te. O Senhor chamou de novo Samuel. Este levantou-se e veio dizer a Eli: aqui estou, pois me chamaste. Eli respondeu: não te chamei, meu filho; volta a deitar-te. Samuel ainda não conhecia o Senhor, pois até então nunca se lhe tinha manifestado a palavra do Senhor. Pela terceira vez, o Senhor chamou Samuel, que se levantou e foi ter com Eli: aqui estou, pois me chamaste. Compreendeu Eli que era o Senhor quem chamava o menino e disse a Samuel: vai e volta a deitar-te. Se fores chamado outra vez, responde: fala, Senhor; o teu servo escuta! Voltou Samuel e deitou-se. Veio o Senhor, pôs-se junto dele e chamou-o, como das outras vezes: Samuel! Samuel! E Samuel respondeu: fala, Senhor; o teu servo escuta!
O Senhor, naquele tempo, falava raras vezes e as visões não eram frequentes. Parece um sumário realista da nossa experiência: também o nosso quotidiano se torna rarefeito, fragmentário e ausente em relação à manifestação de Deus. Porém, sublinhemos a frase extraordinária do autor sagrado: a lâmpada de Deus não se tinha apagado. Deus é fiel à Pessoa Humana e à história. Mesmo em situações e idades agitadas por ventos e turbulências, a nossa confiança reside aí: a lâmpada de Deus não se apagou. Diz-nos o texto que Samuel ainda não conhecia o Senhor: e nós, conhecêmo-lo? Samuel sente-se chamado, mas reage equivocadamente, pensando que é Eli que o está a interpelar. Até que é ajudado a voltar-se para o Senhor e a rezar; fala, Senhor; o teu servo escuta! O Senhor não deixa de comunicar-nos, mas é preciso uma pedagogia espiritual que nos ajude a fazer voltar para Ele os nossos sentidos interiores. Voltar-se para o Senhor, é o sentido literal da palavra conversão. O caminho crente é esse exercício pedagógico e prático de conversão, essa oportunidade real de viragem que Deus nos oferece. Nas horas nocturnas ou solares da nossa vida, nas horas que estamos a viver, rezemos com inteireza de alma a oração do jovem Samuel: fala, Senhor; o teu servo escuta!
Um último aspecto: peçamos, para este itinerário, o dom do silêncio. Como diz o poema de Sophia Mello Breyner Andresen, digamos nós:

Deixai-me limpo
o ar dos quartos
e liso
o branco das paredes
deixai-me com as coisas
fundadas no silêncio.

Os nossos sentidos espirituais abrem-se e maturam melhor no silêncio. Mergulhemos nele os trilhos do nosso caminho. É esse o conselho que os mestres espirituais cristãos unanimemente nos fazem para passarmos da cebola à humilde, mas substanciosa e vital batata. O conselho de Arsénio era este: foge. Cala-te. Permanece no recolhimento. Poemen garantia: se fores realmente silencioso, em qualquer lugar onde estiveres encontrarás repouso». In José Tolentino Mendonça, O Tesouro Escondido, 2011, Paulinas Editora, 2014, ISBN 978-989-673-140-3.

Cortesia de PEditora/JDACT

O Tesouro Escondido. José Tolentino Mendonça. «Busquemos Aquele que confirma, Aquele que dá consistência ao nosso desejo»

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«Comecemos, talvez de um modo desajeitado, perguntando: o nosso mundo interior é uma cebola ou uma batata? A pergunta faz-nos sorrir, é um bocado cómica, mas, se quisermos, acaba por colocar-nos perante a nossa realidade de uma forma bastante profunda. A pergunta pode ser feita numa cozinha, por uma criança que está a descobrir o mundo, pode ser proferida por filósofos nas suas reflexões ou ser formulada por um mestre espiritual. O nosso mundo interior é uma cebola ou uma batata? Nietzsche, por exemplo, dizia que tudo é interpretação, isto é, não há um núcleo de Ser a sustentar a nossa experiência de vida, tudo são cascas de cebola, modos de ver, perspectivas, interpretações. Para lá disso não há mais nada. A visão cristã do mundo está certamente do lado da batata, pois defende que, mesmo escondida por uma crosta ou por um véu, está uma realidade que é substanciosa e vital.
A verdade é que mesmo sabendo que a vida é uma batata, nós vivêmo-la, muitas vezes, como se fosse uma cebola. Vivemos de opiniões, de verdades parciais e provisórias, de paixões, vivemos aparências e modas como se a vida fosse isso. Esgotamo-nos a desfilar cascas e camadas, sem um centro que nos dê realmente acesso ao pleno sentido. Há uma escritora contemporânea, Susan Sontag, que diz que a nossa existência como que fica sequestrada neste sem fim de interpretações que nos distraem da viagem essencial. Não habitamos em nós próprios, levados por ideias, pontos de vistas, absolutizações das circunstâncias, cascas e mais cascas. Segundo ela, o mais urgente seria apurar e aprofundar os nossos sentidos, aprendendo a ver melhor, a sentir melhor, a escutar melhor.
Na vida espiritual também é isso o mais importante. Simone Weil escrevia: a oração é feita de atenção. É a orientação para Deus de toda a atenção de que a alma é capaz. Da qualidade da atenção depende em muito a qualidade da oração. Ao iniciarmos este tempo de vida interior, sintamos o desafio da atenção, da vigilância, que outra coisa não é que, confiadamente, ver melhor, sentir melhor, escutar melhor o que Deus revela em nós. Deixemos a nossa confusão de cebola. A Bíblia, que é para os crentes um autêntico manual de introdução à aventura espiritual, oferece-nos muitos exemplos de como é necessário reganhar esta atenção interior, para escutar Deus que nos fala. Tomemos dois textos para a nossa reflexão: primeiro, o episódio inaugural da vocação de Moisés, no deserto: Moisés estava a apascentar o rebanho de Jetro, seu sogro, sacerdote de Madian. Conduziu o rebanho para além do deserto, e chegou à montanha de Deus, ao Horeb. O anjo do Senhor apareceu-lhe numa chama de fogo, no meio da sarça. Ele olhou e viu, e eis que a sarça ardia no fogo mas não era devorada. Moisés disse: vou adentrar-me mais para ver melhor esta grande visão: por que razão não se consome a sarça? O Senhor viu que ele se adentrava para ver; e Deus chamou-o do meio da sarça: Moisés! Moisés! Ele disse: eis-me aqui!
Reparemos no verbo que Moisés utiliza: vou adentrar-me. Quer dizer, vou avizinhar-me o mais possível, vou colocar-me dentro, vou como que mergulhar no que está diante de mim. Quando ele deixou de satisfazer-se com as visões parciais, distanciadas e nebulosas, quando desejou com todas as forças uma certeza clara para as perguntas do seu coração, diz-nos o livro do Êxodo, que o Senhor viu-o..., e chamou-o. O Senhor está pronto a chamar-nos. Adentremo-nos. Deixemos uma espiritualidade vaga, onde somos espectadores dispersos. Busquemos Aquele que confirma, Aquele que dá consistência ao nosso desejo». In José Tolentino Mendonça, O Tesouro Escondido, 2011, Paulinas Editora, 2014, ISBN 978-989-673-140-3.

Cortesia de PEditora/JDACT