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sábado, 19 de outubro de 2019

A Lição do Hibisco ou a Espiritualidade do Poeta. José d’Encarnação. «Borboleta verde, aqui não há flores. Procuras nas pedras jardins interiores?»

Cortesia de wikipedia e jdact

«Não acredito! No chão jazes agora, com as cinco pétalas murchas enroladas sobre si mesmas, como que suavemente amortalhadas, a esconder o orgulhoso filete de cinco resplandecentes anteras amarelas que ainda ontem se mostrava ufano no seu esplendor, numa sedução de mui gulosos insectos, dir-se-ia. Saudei-te ontem, quando, no meio do verde vistoso das folhagens, desabrochavas essas pétalas, também elas a ostentar um amarelo-torrado bem vistoso. Efémera foi, pois, a tua existência, flor! E, agora reparo, já em teu lugar, num caule ao lado, outro botão surgiu, numa esperança de amanhã ser ele a deliciar-nos a vista!
E dei comigo a reflectir na lição: resplandeceu, deu o que tinha a dar e, passado o seu tempo, serenamente, caiu no mármore do jardim, à espera que a recolhessem e lhe dessem o destino habitual, o regresso à terra, no desejo de a fertilizar. Assim o Poeta. Como o pintor, o fotógrafo, o músico... Na captação do momento significativo e significante do dia-a-dia, que o caminho se faz por entre a vida, escreve António Salvado.
Não, não sou poeta! Gosto, porém, de saborear as palavras bem escritas! Por dever de ofício, dado que a Associação Cultural de Cascais a que pertenço se dedicou a divulgar poetas ditos populares, leio e releio poemas e até ouso escrever prefácios e fazer apresentações. Ousadia pura, já sei! Designadamente a partir do dia em que, já muitas rimas me haviam passado pela mão, propus a um colega que, se lhe aprouvesse, diligenciasse no sentido de se publicar num jornal singela nota de leitura acerca de um livro de poemas seu. Não lhe aprouve, porque, esclareceu-me, para eu compreender a sua poesia, teria de a ler e meditar toda, todos os livros que publicara!...
Reduzi-me, pois, à minha insignificância, garanti-lhe que doravante não mais quereria fazer o papel do sapateiro que pretende ir além da sua chinela. De novo me surgiu o dilema agora, quando me foi comunicado este honroso convite! Que vou eu dizer? Nada sei de terminologias técnicas, daquelas frases plenas de teoria e de mui elaborados conceitos, eu que, mais do que nas Universidades oficiais, venho diariamente aprendendo naquilo que amiúde se exara no facebook: formado na Universidade da Vida! E, por outro lado (o que é ainda mais grave!...), que li eu do vastíssimo reportório de António Salvado? Nada, praticamente nada! Rematada é a ousadia, por conseguinte, que só enorme complacência se arriscará a perdoar!
Que me seduz nos Poetas? Essa sua enorme capacidade de captarem o instante. Leio amiúde Poesia – III, de José Gomes Ferreira. Encanta-me, por exemplo, a canção daquela borboleta verde que vi, há momentos, aturdida num passeio de Campolide:

Borboleta verde,
aqui não há flores.
procuras nas pedras
jardins interiores?

E pergunta-lhe, ainda, se procura perfumes dormidos ou flores geladas para, no fim, lhe declarar:

Borboleta verde,
chama quase morta.
Também eu, também,
aos tombos nas pedras,
não encontro a Porta.

De insignificante pormenor se faz meditação, se tiram lições, se buscam sentidos… O hibisco há pouco, a borboleta agora! Ao andar, nos encontramos connosco e com os outros. E também com o Outro, Deus, na Sua dimensão imprescindível, queira-se ou não. Encontro que António Salvado fortemente consciencializa em Na Sua Mão Direita, um livro deveras especial, impregnado de ressonâncias bíblicas: a evocação dos
apóstolos Paulo, Pedro e Judas numa procura de perdão; a água niveal de Siloé, símbolo da purificação por que se anseia; a via-sacra da vida, noite amarga em busca de um som de claridade que anime e revigore…» In José d’Encarnação, A Lição do Hibisco ou a Espiritualidade do Poeta, António Salvado, O Caminho se Faz por Entre a Vida, Colóquio, RVJ Editores, 2017, ISBN 978-989-828-984-1.

Cortesia de RVJEditores/JDACT

terça-feira, 17 de junho de 2014

José de Encarnação. Das Guerras Peninsulares e das Epígrafes Romanas. «… put up for the night at the foot of a Roman Monument with inscription CN. IVNIO CN. F. QVIR. GALLO II VIR. TVRRANIA GLEA GENERO OPTIMO a relic no doubt of the town of Medobriga, which stood here»

jdact

«(…) Ao contrário do que ocorreu com os seus estudos da epigrafia de Óstia, Wickert nunca conseguiu publicar tal Supplementum. Deixou a Academia e a Epigrafia e empenhou-se numa carreira universitária, na Universidade de Konigsberg, primeiro, e, depois, em 1939, na de Colónia, onde se dedicou aos estudos mommsenianos, de alma e coração. Mau grado, porém, todas essas mudanças e os transtornos causados pela II Guerra Mundial, logrou conservar aqueles materiais, que, por fim, depositou, em 1956, na Academia de Berlim, quando se voltou a vislumbrar a possibilidade de se realizar esse CIL II Suppl. 2, projecto que, infelizmente, também se malogrou.
Trinta anos mais tarde, avançados que estavam já os trabalhos de uma segunda edição do CIL II, a Academia de Berlim teve a gentileza de emprestar essa documentação, durante uns anos, à redacção central do CIL II, sediada então na Kommission für Alte Geschichte und Epigraphik des Deutschen Archaologischen Instituts de Munich, donde, sob minha direcção, Vedder retirou as informações nela contidas, integradas de seguida no Ficheiro Central do projecto. Os fascículos da nova edição já publicados dão fé, sem margem para dúvidas, da envergadura e da importância daquelas informações. Precioso exemplo disso é uma singela nota que, há mais de um século, a 11 de Maio de 1905, Francis Haverfield remeteu à Academia de Berlim, que diz textualmente:

Diary of Col. Dixon R. A. for 1809-10, now being edited by major Leslie, mentions that (while travelling in Portugal), Col. D(ixon) put up for the night at the foot of a Roman Monument with inscription CN. IVNIO CN. F. QVIR. GALLO II VIR. TVRRANIA GLEA GENERO OPTIMO a relic no doubt of the town of Medobriga, which stood here.

Alexander Dickson, então coronel, mais tarde general Sir Alexander Dickson, 1777-1840, era oficial do Exército Britânico, onde prestava serviço na Artilharia Real. Participou, desde 1809 até 1813, nas Guerras Peninsulares contra as tropas napoleónicas, em que brilhantemente se distinguiu, a ponto de Sir Wellesley, mais tarde Lord Wellington, o encarregar do comando de toda a artilharia das tropas britânico-hispano-lusas aliadas, com que ainda participou na batalha de Waterloo. Durante todas essas e outras campanhas, Dickson permanecia fiel ao seu costume de ir escrevendo um diário, que, aquando da sua morte, foi entregue pelo filho, o general Sir Collingwood Dickson, juntamente com a sua correspondência militar e outros relevantes papéis, ao Royal Regiment of Artillery em Woolwich (Londres). Por fim, no ano de 1905, toda essa documentação foi editada em cinco tomos, a cargo da Royal Artillery Institution, pelo comandante John Leslie.
Esta é, evidentemente, a edição a que Haverfield alude, na sua missiva, como sendo de próxima publicação. O relato do episódio em questão, feito por Dickson no seu diário, encontra-se no segundo tomo do manuscrito editado, relativo ao ano de 1810, e mostra, por um lado, que Haverfield não reproduzia correctamente nem as circunstâncias do achado, supostamente fortuito: put up for the night at the foot of a Roman Monument nem o texto da inscrição. Refere, todavia, sem margem para dúvidas, o local onde o achado se produziu: São Salvador de Aramenha, concelho de Marvão, distrito de Portalegre, que era para Dickson o sítio da antiga Meidobriga, reflectindo, assim, a communis opinio da erudição portuguesa da época, que localizava ali a cidade lusitana de Medobriga conquistada por Q. Cassius Longinus em 48 a. C. e os Medubrigenses qui et plumbari de Plínio, que como Meidubricenses aparecem na inscrição dos populi que dedicaram a Trajano o arco da ponte de Alcântara». In Juan Manuel Abascal, Universidad de Alicante, Rosario Cebrián, Parque Arqueológico de Segóbriga, José d’Encarnação, Universidade de Coimbra, Marvão e Ammaia ao tempo das Guerras Peninsulares, IBN MARUAN, 2009, Edições Colibri, Câmara Municipal de Marvão, ISBN 978-972-772-876-3.

Cortesia de E. Colibri/CM de Marvão/JDACT

José de Encarnação. Das Guerras Peninsulares e das Epígrafes Romanas. «Um dos conjuntos mais importantes da epigrafia latina antiga da Península Ibérica, e um dos menos conhecidos, é constituído pelos materiais que Lothar Wickert…»

Pedestal de estátua encontrado em Aramenha
Esboços das inscrições feitas por Cornide
jdact

«(…) Em 1797, três anos antes da chegada de Cornide, tinha o duque de Lafões, citado por Hübner, dado notícia dessas epígrafes à Academia Portuguesa. Hübner viu ali seis inscrições, pois ainda estava no lugar CIL II 160. Quando, em 1798, visitou a Quinta do Deão o médico alemão Langsdorff, já só identificou CIL II 159, 161, 162, 163 e 164, isto é, as mesmas cinco inscrições que Cornide vira em Agosto de 1800. Significa isso que, entre 1797 e 1798, saiu do lugar o monumento CIL II 160, que reapareceu depois e se expõe hoje no Museu de Ammaia aí instalado.
A ser assim, a História literaria de cada uma dessas cinco epígrafes é a seguinte:
  • CIL II, 159: Editio princeps, em 1797, do duque de Lafões (daí, E. Xaro nos Annaes da Sociedade Archeologica Lusitana I-III, Lisboa 1850-1851, citado por Hübner. Em 1984, a parte direita encontrava-se no Museu de Marvão e, em 1986, o fragmento esquerdo na Quinta do Deão. Hoje no Museu de Ammaia.
  • CIL II, 161: Editio princeps de Langsdorff 1798. Vista em 1996, numa casa de Gomes Esteves, no Largo de Camões, de Marvão. Hoje no Museu de Ammaia. 
  • CIL II, 162: Editio princeps de Langsdorff 1798. Em 1984 no Museu de Marvão. 
  • CIL II, 163: Editio princeps, em 1797, do duque de Lafões (daí, E. Xaro nos Annaes da Sociedade Archeologica Lusitana II, Lisboa 1851. Em 1984, na posse de José Cordeiro. 
  • CL II, 164: Editio princeps, em 1797, do duque de Lafões (daí, E. Xaro nos Annaes da Sociedade Archeologica Lusitana II, Lisboa 1851. Localiza-se a parte inferior, em 1982, na Quinta do Deão.
Quando o general Alexander Dickson visitou a Quinta do Deão, a 24 de Fevereiro de 1810, indica, no seu diário que In the yard are three or four broken stones with Roman inscriptions, que deveria ser o conjunto já descrito por Lafões, Langsdorff e Cornide. Pelas notas de E. Xaro nos Annaes da Sociedade Archeologica Lusitana, que Hübner citou, ficamos a saber que o achamento deste grupo de epígrafes ocorreu em 1797, e que, até 1810, foram descritas pelo menos em quatro ocasiões.

O Estatuto Jurídico de Ammaia a propósito de uma Inscrição copiada em 1810
Um dos conjuntos mais importantes da epigrafia latina antiga da Península Ibérica, e simultaneamente um dos menos conhecidos, é constituído pelos materiais que Lothar Wickert, encarregado pela Academia de Berlim de preparar um segundo suplemento ao CIL II de Emílio Hübner, reunira com essa finalidade. Esses materiais são um mixtum compositum: representam não apenes os resultados das viagens epigráficas de Wickert por Espanha e Portugal, levadas a cabo nos anos de 1928 e 1931, respectivamente, de que somente chegaria a publicar uma magra e aleatória selecção em dois artigos, enquanto que o resto permaneceu como work in progress, abarcando desde excertos de anteriores publicações, passando por fichas de trabalho de campo até fichas perfeitamente elaboradas para a publicação; incluem, além disso, um número imenso de cartas, folhetos e notas soltas, que foram remetidas à Academia de Berlim, posteriormente à morte de Hübner, em 1901, por colegas e por correspondentes seus tanto peninsulares como internacionais». In Juan Manuel Abascal, Universidad de Alicante, Rosario Cebrián, Parque Arqueológico de Segóbriga, José d’Encarnação, Universidade de Coimbra, Marvão e Ammaia ao tempo das Guerras Peninsulares, IBN MARUAN, 2009, Edições Colibri, Câmara Municipal de Marvão, ISBN 978-972-772-876-3.

Cortesia de E. Colibri/CM de Marvão/JDACT

quarta-feira, 18 de julho de 2012

José de Encarnação. Das Guerras Peninsulares e das Epígrafes Romanas. «O relato de Cornide do dia 8 de Agosto, com saída de Portalegre e chegada a Nisa. […] pudemos observar que os desenhos estavam ‘elaborados’, passados a limpo juntamente com o diário, no repouso de Lisboa ou de qualquer outra localidade portuguesa…»


Esboços das inscrições feitos por Cornide em 8AGO1800
jdact

«Pensara ir nessa mesma tarde para Castelo de Vide, que está uma légua e meia a SW de Marvaom [Marvão], mas faltou-me o tempo e contentei-me com observar a sua posição, que não me pareceu tão vantajosa como aquela em que eu me encontrava porque, apesar de o castelo dominar a praça, também ele se encontra dominado pela serra. Castelo de Vide tem um regimento com o seu nome e apenas um destacamento de 20 ou 30 homens. Parti de Marvaom [Marvão] para Puerto Alegre [Portalegre], atravessando a serra oriental por um caminho péssimo até uma légua antes da cidade; passei pela deliciosa ribeira de Niza [Nisa], povoada de vinhas e de árvores de fruto, e cheguei finalmente à povoação uma hora após o anoitecer. Aí fui obsequiado pelo governador, o tenente--coronel Mateo de Pina, cavaleiro do país, que me ofereceu várias curiosidades das ruínas de Arameña [Aramenha] de barro e de vidro, que lhe pedi me enviasse para Lisboa, pois a pouca comodidade da minha equipagem não me permitia levá-las comigo sem risco de as partir.

Até aqui o relato de Cornide do dia 8 de Agosto, com saída de Portalegre e chegada a Nisa. Quando já conhecíamos este documento, pudemos observar que os desenhos estavam "elaborados", quer dizer, passados a limpo juntamente com o diário, no repouso de Lisboa ou de qualquer outra localidade portuguesa em que Cornide tivesse descansado nas jornadas seguintes ao dia 8 de Agosto de 1800.
Não se tratava dos desenhos originais, posto que, se assim fosse, não apareceriam já inseridos num cuidadoso diário. Tinha que haver algum rascunho prévio... E havia! Isto é; “há”. Junto ao diário da passagem por S. Salvador de Aramenha nessa data, conservam-se, por sorte, os esboços que Cornide realizou naquela manhã de 8 de Agosto na Quinta do Deão de Portalegre.
Encontram-se esses esboços noutro documento, que contém muitos apontamentos próprios e alheios, onde figura um folio in 4º intitulado “Aramenha”, e os rascunhos, por esta ordem, de CIL II 16I, 164, 163, 162 e 159, ou seja, na mesma ordem em que seriam depois incorporados no diário.
Os diários de Cornide de 1800 e do general Alexander Dickson em 1810 trazem novos dados para a “História Literária” das inscrições de “Ammaia” descobertas na Quinta do Deão, S. Salvador de Aramenha, concelho de Marvão, distrito de Portalegre». In Juan Manuel Abascal, Universidad de Alicante, Rosario Cebrián, Parque Arqueológico de Segóbriga, José d’Encarnação, Universidade de Coimbra, Marvão e Ammaia ao tempo das Guerras Peninsulares, IBN MARUAN, 2009, Edições Colibri, Câmara Municipal de Marvão, ISBN 978-972-772-876-3.


continua
Cortesia de E. Colibri/CM de Marvão/JDACT

sexta-feira, 18 de maio de 2012

José de Encarnação. Das Guerras Peninsulares e das Epígrafes Romanas. «Fica compensada a vida dos de Marvaom [Marvão], por gozarem de permanente saúde e atingirem avançada idade, desfrutando das necessárias comodidades da vida, abundante em frutas e carnes de porco e de ovelha, ambas de excelente gosto»



jdact

‘A parte do diário dedicada a S. Salvador de Aramenha, que motiva estas páginas, contém a descrição das epígrafes que Cornide viu na chamada "Quinta do Deão" ou "Horta do Deão", que sabemos, pelo diário, que é a «horta e casa do deão de Portalegre e outras terras de sua pertença. Transcrevemos integralmente esta parte do diário’

«Daí segui eu para Marvaom [Marvão], que, em linha recta, apenas distará meia légua, mas leva mais de hora e meia; esta pequena praça está assentada, como disse, no ponto mais elevado da serra do norte, sobre uma massa de pedra escarpada larga e estreita; a fortificação é irregular mas um tudo-nada moderna; da parte do poente tem o castelo, reforçado ultimamente com alguns baluartes; há nele una cisterna e, na parte exterior, em direcção à vila, outra muito capaz e bem edificada e de que dizem que pode dar água para a guarnição por mais de seis meses. A vila, que constará de uns 150 fogos, situa-se na parte oriental do castelo e as suas casas são de pouca monta; tem duas paróquias, uma antiga e outra mais moderna; vi junto a esta cinco ou seis colunas de mármore que me disseram terem sido trazidas das ruínas de Arameña [Aramenha], a qual, assim como outras duas ou três paróquias, pertence ao termo de Marvaom [Marvão].
Para subir a este castelo há dois caminhos, que, apesar da aspereza do cerro, são bastante suaves, pois se formaram vários giros e ziguezagues; começam no Sever, à saída de uma ponte de pedra que tem, do lado de Arameña [Aramenha], uma torre quadrada para lhe defender o acesso. Os dois caminhos, gira um pela parte oriental e outro pela ocidental e entram na vila pelas duas portas que dão para esses pontos; a oriente, e um tudo-nada mais abaixo da vila e das suas obras exteriores, há um convento de Capuchos.
Fica compensada a vida dos de Marvaom [Marvão], como que numa região aérea e separados do trato com os mais homens, por gozarem de permanente saúde e atingirem avançada idade, desfrutando das necessárias comodidades da vida, de que os provê o seu dilatado termo, abundante em frutas e carnes de porco e de ovelha, ambas de excelente gosto.
Quando cheguei ao ponto mais alto do castelo, tive a sensação de me encontrar elevado num balão: sob os meus pés, um extenso país, especialmente para oriente, norte e poente; reconheci, a olho nu, San Vicente, Valencia de Alcántara, El Carvajo [e] Herrera em Espanha, Montalbán [Montalvão] e Castelo de Vide em Portugal e, no tortuoso curso do Sever, a raia que separa os dois reinos até à sua confluência com o Tejo.
Todos estes terrenos inferiores, ainda que pareçam planos se se comparam com a elevação deste castelo, são, na realidade, mui escabrosos e ásperos, mas não deixam, por isso, de produzir excelentes plantas, algum centeio e, nas azinhagas, frondosos castanheiros, que, tal como as azinheiras e os sobreiros, são as árvores mais comuns e mais úteis da região; esta a defende a referida praça, que, pelas já aludidas circunstâncias, eu a contemplo como sendo a mais forte de Portugal, embora, para a defesa geral do reino, eu não saiba que utilidade possa ter a sua manutenção, pois é fácil evitá-la em qualquer entrada». In Juan Manuel Abascal, Universidad de Alicante, Rosario Cebrián, Parque Arqueológico de Segóbriga, José d’Encarnação, Universidade de Coimbra, Marvão e Ammaia ao tempo das Guerras Peninsulares, IBN MARUAN, 2009, Edições Colibri, Câmara Municipal de Marvão, ISBN 978-972-772-876-3.

continua
Cortesia de E. Colibri/CM de Marvão/JDACT

quarta-feira, 28 de março de 2012

José de Encarnação. Das Guerras Peninsulares e das Epígrafes Romanas: «… a confirmação de que era esta a mesma povoação a que Plínio dá o nome de Plumbario. … do outro lado do Sever, que recebe aqui um grande aumento de caudal com seis olhos de água que rebentam um tudo-nada mais abaixo. … estende-se em jeito de galeria por bastante espaço até a um poço ou corrente de água que impossibilita a passagem…»


jdact

A parte do diário dedicada a S. Salvador de Aramenha, que motiva estas páginas, contém a descrição das epígrafes que Cornide viu na chamada "Quinta do Deão" ou "Horta do Deão", que sabemos, pelo diário, que é a «horta e casa do deão de Portalegre e outras terras de sua pertença. Transcrevemos integralmente esta parte do diário: 
  • [fólio 13]. "A 8 [de Agosto] continuei a minha viagem até Marvaom [Marvão] para reconhecer o sítio e vestígios da antiga Meidubriga e do Itinerário de Antonino que sabia deviam existir num pequeno lugar chamado S. Salvador de Arameña [Aramenha], não longe de Marvaom [Marvão]; subi, pois, a Serra de Portalegre pelo caminho de Valência de Alcântara e, por entre frondosos e sombrios renques de castanheiros, cheguei à falda ocidental do monte de S. Mamede, o cabeço mais alto desta cordilheira, junto a cujo cume há uma ermida daquele santo, na qual fazem vida retirada quatro ou cinco anacoretas como os do Bom Jesus da Arrábida. Situa-se este monte nos confins de Portugal e não em Espanha, como o coloca o Sr. López no seu mapa. Devido à sua altura e por não ter outro mais dominante em redor é, decerto, o melhor ponto de defesa de toda esta fronteira e como tal o reconheceram os generais portugueses em 1797. Da sua falda, donde brotam muitas fontes que originam o rio Sever, segui, por veredas escabrosas mas povoadas de castanhais, o curso deste ribeiro, que me conduziu a Arameña [Aramenha]; está situada esta freguesia num vale compreendido entre duas cordilheiras que formam a Serra de Portalegre: a do meio-dia, em que está aquela cidade e cujo ponto mais elevado é S. Mamede, e a do norte, cuja maior altura é ocupada pelo castelo de Marvaom [Marvão] e na qual se situa também Castelo de Vide e os penedos chamados as Pitarrañas [Pitarranhas]. Por este vale vinha desde Abrantes o caminho para Mérida pelas mansões de Fraximum, Mundobriga e Septem Arae, que, segundo a opinião mais provável, correspondia a uma légua de San Vicente, na Dehesa de Maiorga; eu não consegui descobrir vestígios dessa via, quer porque o vale está em grande parte cultivado, quer porque o Sever, nas enxurradas, desfigurou o terreno; vi, porém, muitos troços da muralha da antiga povoação, que se estendia de sul para norte, na falda da cordilheira a sul, desde um cerrito a sudoeste até à margem do rio no terreno hoje ocupado por uma horta e pela casa do deão de Portalegre e outras terras de sua pertença; foi aqui que se encontraram moedas de ouro de Vespasiano e Severo, juntamente com outras de cobre de vários imperadores, cerâmica, vasos de vidro e outras curiosidades, mas sobretudo as inscrições que se conservam no pátio da casa e que copiei e são as seguintes: 
Com nº 1, texto CIL II 161 (Amoenus…)
jdact

Todas as seguintes estão em pedras de forma idêntica, mas umas defeituosas e outras inteiras, e todas de pedra granitoide.


Com nº 2, texto de CIL II 164 (L. Voconius Fuscus); o nº 3 é para CIL II 163 (Optata…) e o nº 4 para CIL II 162 (C. Licinius Verus…)
jdact 
  • No interior da horta, vê-se outra grande placa de mármore branco, na qual, com bonitas letras de duas polegadas, se encontra gravada a seguinte inscrição, em que, embora esteja quebrado um canto da pedra, se lê bem o que segue:

O nº 5 é para CIL II 159
jdact 
  • Reconhecido muito bem o terreno para que não me restassem dúvidas de que era esta a Mundobriga do Itinerário, só me faltava obter a confirmação de que era esta a mesma povoação a que Plínio dá o nome de Plumbario, devido às minas de chumbo exploradas nos arredores, o que verifiquei passando a ver a boca da dita mina, distante um quarto de légua do sítio da cidade, do outro lado do Sever, que recebe aqui um grande aumento de caudal com seis olhos de água que rebentam um tudo-nada mais abaixo do pisão da fábrica de Portalegre; a referida boca desce perpendicularmente, mas logo abaixo, segundo me informaram, estende-se em jeito de galeria por bastante espaço até a um poço ou corrente de água que impossibilita a passagem, o que constituiu, sem dúvida, a causa de os trabalhos das minas terem sido suspensos. Eu não descobri sinais de chumbo nem escórias e só notei que toda a montanha é de pedra calcária, que os naturais utilizam para fazer cal, para cuja finalidade dispõem de um forno nas imediações da referida abertura».

In Juan Manuel Abascal, Universidad de Alicante, Rosario Cebrián, Parque Arqueológico de Segóbriga, José d’Encarnação, Universidade de Coimbra, Marvão e Ammaia ao tempo das Guerras Peninsulares, IBN MARUAN, 2009, Edições Colibri, Câmara Municipal de Marvão, ISBN 978-972-772-876-3.


Continua
Cortesia de E. Colibri/CM de Marvão/JDACT

segunda-feira, 9 de janeiro de 2012

José de Encarnação. Das Guerras Peninsulares e das Epígrafes Romanas: «Entretido com as novidades das diferentes cidades portuguesas, a viagem até Lisboa, que devia ser o centro de operações nos três anos seguintes, atrasou-se mais do que a conta. De facto, Cornide e os seus companheiros demoraram-se vários dias em Vila Viçosa, Évora e, sobretudo, em Beja…»

jdact

José Andrés Cornide de Folgueira e as Inscrições de Ammaia (Conventus Pacensis)
«O Duque de Frías fora precisamente aquele que, a 9 de Março de 1801, quando Cornide e os seus companheiros tiveram que atravessar prematuramente a fronteira entre Portugal e Espanha no início das tensões militares, lhes facilitou a passagem do equipamento e os acolheu em «Badajoz, aonde chegámos às cinco e achámos socorro para a nossa fome na generosidade do Duque de Frías, que nos mandou dar de comer assim que chegámos à sua casa, depois de nos ter apresentado ao general».

Quer dizer: durante a viagem por Portugal, Cornide havia espiado as estruturas defensivas militares portuguesas e fundamentou o seu trabalho no interesse pelas antiguidades e na fama que o precedia como um dos intelectuais do seu tempo. Não só isso! Também mantivera correspondência com o Duque de Frías sobre a possível invasão de Portugal, escassos meses antes de visitar S. Salvador de Aramenha, e tivera o sangue frio de viajar montado em machos, por todo o território, com os desenhos das fortificações portuguesas que ora conhecemos. Apesar disso, nesta e naquela localidade, grande ou pequena, entrava em contacto com as autoridades, mostrava o seu interesse pelas antiguidades e delas recebia os convenientes passaportes que lhe permitiam circular livremente por todo o país. Não estranhará, pois, que, nestas circunstâncias, quando se passavam alguns meses sem notícias suas, nos companheiros de Madrid começasse a despontar um certo nervosismo, como sabemos por algumas cartas que nos chegaram e que seria prolixo ajuntar aqui.
Essa tarefa de espionagem explica as pormenorizadas descrições dos sistemas defensivos, de cada guarnição, as avaliações da capacidade de defesa das diferentes praças e, obviamente, a pasta com planos de instalações defensivas com que chegou a Madrid três anos depois. Isso faz com que o seu relato seja, em certos momentos, similar ao do general Alexander Dickson, pois ambos uniam ao seu interesse e curiosidade por tudo o que os rodeava, a necessária atenção pela natureza de um território como actores de um conflito.

jdact

J. A. Cornide entrou em Portugal a 11 de Novembro de 1798, acompanhado pelo almeriense Narciso Heredia, que, com 22 anos, já era Catedrático de Filosofia e Matemáticas na Universidade de Granada e que seria, pouco depois, Conde de Ofalia; por Manuel Carrillo de Albornoz e pelo desenhador Melchor de Prado, natural de Santiago de Compostela e Académico de Mérito da Real Academia de San Fernando:
  • «Aqueles para me ajudarem a copiar o Códice das Partidas existente no arquivo da Chancelaria de Portugal existente no Mosteiro de São Bento de Lisboa, e este para fazer os desenhos de antiguidades e inscrições», tal como escreve Cornide para justificar a comitiva. Com eles seguiam alguns criados e bem nutrida equipagem.

Entretido com as novidades das diferentes cidades portuguesas, a viagem até Lisboa, que devia ser o centro de operações nos três anos seguintes, atrasou-se mais do que a conta. De facto, Cornide e os seus companheiros demoraram-se vários dias em Vila Viçosa, Évora e, sobretudo, em Beja, aonde chegaram a 27 de Novembro e onde Cornide fez amizade com o bispo Manuel do Cenáculo Vilas-Boas e pôde descrever prolixamente a sua colecção. Após uma semana em Beja, saíram desta cidade «na terça-feira, 4 de Dezembro, dirigindo-nos para Lisboa pelo caminho de Santiago do Escoural, por não ser praticável o de Alcácer do Sal por causa das chuvas». A 8 de Dezembro de 1798, a comitiva de Cornide entrava em Lisboa, na barcaça que fazia a travessia desde Aldeia Galega. À sua frente quedavam dois anos e meio de viagens por Portugal, que nos legariam um dos sumários mais copiosos das antiguidades deste país.
Durante o Verão de 1800, José Andrés Cornide dedicou-se à exploração do “Alentejo Boreal” ou, mais exactamente, a comprovar as notícias que conhecia por Resende sobre o Alentejo português. O seu diário, minucioso em extremo, indica que o périplo começou em Lisboa a 22 de Julho:
  • «Ao mesmo tempo que empreendi esta viagem para conferir algumas inscrições e citações de André de Resende e outros antiquários portugueses, quis trazer em minha companhia os meus dois companheiros D. Narciso Heredia e D. Manuel Carrillo, para que vissem Setúbal, Tróia e a Arrábida, e com igual objectivo se ofereceram para fazer connosco a viagem o irlandês J. Murphy, autor da “Viagem de Portugal e do Estado do Mesmo Reino”, impresso em seu nome, assim como da “Descrição do Templo da Batalha”, e o comerciante de Madrid D. Joseph Escola, que vive na nossa pousada. Saímos, pois, de Lisboa na segunda-feira, 22 de Julho, comemos na Moita e fomos dormir a Setúbal, na pousada de um italiano chamado Baptista, casado com uma irlandesa, onde se serve muito bem a 30 reais por pessoa; a 23, passámos a Tróia; a 24, à Arrábida; a 25, dia do nosso padroeiro São Tiago, descansámos e, de tarde, vimos a Feira de Setúbal e estivemos numa festa de touros, precedida por uma marcha ou mogiganga ao ar livre, das de Lisboa; a 26, regressaram àquela cidade e, como eu já tinha feito o caminho de Alcácer do Sal por terra, quis agora fazê-lo em parte por água e reconhecer, ao mesmo tempo, o sítio do Pinheiro, antiga possessão do Duque de Aveiro e hoje agregada à Casa do Infantado...».

Cortesia de ecolibri e jdact

Cornide começara a viagem com uma nutrida companhia; contudo, a partir de Setúbal, prosseguiu, a 26 de Julho, apenas com os criados e, quiçá, com algum familiar, como dá a entender a dado passo, na intenção de se dedicar directamente à observação das antiguidades, prescindindo doravante dos divertimentos e das excursões lisboetas dos seus companheiros.
No palácio ou Casa do Pinheiro, Cornide procurou, sem êxito, como não podia deixar de ser, a inscrição CIL II, incluída por Hübner entre as falsificações de Resende; nessa mesma tarde, seguiu caminho para ir dormir em Montenovo [Monte Novo], «em casa do feitor do meu amigo Bertrand, o livreiro de Lisboa, e comer no dia seguinte em Alcázar [Alcácer], em cuja matriz que está no castelo, copiei a inscrição de L. Porcio Himero, da tribo Galériar, referida por Resende».
A viagem continuou, a 27 de Julho, por Porto do Rei e, a 28, por S. Mamede do Sado e Sta. Margarida do Sado, onde Resende localizara duas epígrafes romanas; depois de ter dormido em Porto Carvalho, Cornide seguiu, no dia 29, para o Torrão e Viana de Alvito.

NOTA: No Torrão, visitou Cornide a ermida dos Santos Justo e Pastor, tratando de comprovar os dados de Resende. Numa folha inserida no diário, anota Cornide algumas precisões epigráficas: “Ni en la capilla de San Justo y Pastor ni en Beja se conserva la inscipción que trae el mismo Resende pág. 290 dedicada a los mismos santos, que dice así [texto de Resende de IHC l]. En el mismo templo había ono cipo de letra elegantísima que decía [texto de CIL II 37 tomado de Resende]. Añade, finalmente Resende que habia otros tres cipos metidos en la pared y cuyas letríts no son legibles por estar vuebos hacia dentro. Otra inscripción dice que había menos elegante y en un cipo más pequeño; pero lo tengo mis dudas sobre su legitimidad [texto de CIL II 5 tomado de Resende]. Inscripción leída por Resende en un templo antiguo dedicado a Júpiter a 2 millas del lugar de Terraom [Torrão] en el Alentejo pág. 290 [texto de CIL II 32]. Dice Resende que de un lado tenía esculpido un árbol que le era desconocido y del otro un águila con las alas extendidas en acción de volar, y en las garras un rayo de tres puntas (el rayo de Júpiter). Este cipo se conserava en el Museo de Beja, a donde le copié reconocí que el árbol es una encina, árbol dedicado a Júpiter”».

No dia 30, por Vidigueira seguiu até Marmelar; a 31, pernoitou em Moura, a que dedica bastante atenção no texto, e, a 1 de Agosto, chegou, à última hora, à vila de Mourão. Dali, por Olivença (2 de Agosto) e Juromenha (3 de Agosto), chegou a Vila Viçosa no dia 4, onde se ocupou a verificar novamente os dados de Resende e seguiu para Estremoz. A viagem prosseguiu, no dia 5, por Fronteira até Alter do Chão e Alter Pedroso, onde identificou, na capela de S. Bento, a inscrição CIL II 169; pernoitou em Portalegre, dedicou dois dias a reconhecer a cidade e os seus monumentos, e, a 8 de Agosto de 1800, José Andrés Cornide fazia a sua entrada em S. Salvador de Aramenha com a intenção de verificar a existência de antiguidades nesta localidade, «para reconhecer o sítio e vestígios da antiga Meidubriga».

A parte do diário dedicada a S. Salvador de Aramenha, que motiva estas páginas, contém a descrição das epígrafes que Cornide viu na chamada "Quinta do Deão" ou "Horta do Deão", que sabemos, pelo diário, que é a «horta e casa do deão de Portalegre e outras terras de sua pertença». In Juan Manuel Abascal, Universidad de Alicante, Rosario Cebrián, Parque Arqueológico de Segóbriga, José d’Encarnação, Universidade de Coimbra, Marvão e Ammaia ao tempo das Guerras Peninsulares, IBN MARUAN, 2009, Edições Colibri, Câmara Municipal de Marvão, ISBN 978-972-772-876-3.

Cortesia de E. Colibri/CM de Marvão/JDACT