Início
de uma vida épica
Lisboa.
Maio de 1459
«(…) Aproveitando uma sombra, uma
comitiva a cavalo procurava evitar a calmaria e pôr a conversa em dia. O chefe
do grupo interrompeu o rol de preocupações devido às alterações que se
antecipavam na vida da capital, ao vislumbrar o estrangeiro que, naquele
momento, estava estático em pleno porto, rodeado de malas e criados. Dando ordens
aos que o acompanhavam, aproximaram-se do sujeito com os cavalos pelas rédeas,
apresentando-se e dialogando em véneto, a língua da Sereníssima República de
Veneza. O diálogo foi rápido, as bagagens carregadas e, a cavalo, o distinto
senhor foi conduzido pelas ruas empoeiradas da cidade. O Paço Real da Alcáçova,
resguardado pelos muros do castelo, aguardava o visitante, não por ele
propriamente, mas pela encomenda de que era portador. Stefano Travisan transpôs
a porta de acesso à sala e deparou-se com um aposento ricamente decorado, de
duas naves apartadas por arcos em ogiva com arestas em bisel, apoiados em colunas
oitavadas. Aguardava-o uma figura trajada de negro, aspecto envelhecido, sentado
numa confortável cadeira de encosto, rodeado dos seus homens. O veneziano sentiu
um baque no coração por, finalmente, estar perante tão grandiosa personagem, de
quem muito ouvira falar. O infante Henrique, duque de Viseu e grão-mestre da Ordem
dos Cavaleiros de Nosso Senhor Jesus Cristo, herdeira da Ordem do Templo, por
iniciativa d'el-rei Dinis I, criada, a 14 de Março de 1319, pela bula pontifícia
Ad ea ex-quibus do papa João XXII, aguardava-o impacientemente,
manifestando na expressão o anseio que o corroía.
Stefano Travisan vergou-se perante
o seu anfitrião, estendendo a missiva que acompanhava a encomenda, dirigida ao
grande Infante Henrique. O tio d’el-rei Afonso V recebeu e desenrolou o
pergaminho com alguma dificuldade, a respiração acelerada, eventualmente pela excitação
ou pelo cansaço físico. A leitura da carta trouxe-lhe alguns esgares, que
pareceram sorrisos. A epístola encorajava o infante a não desistir das viagens de
exploração, prestando um enorme serviço à cristandade. O silêncio era ensurdecedor,
as moscas enchiam o ar de um zumbido incomodativo, só perturbado pela respiração
pesada de Henrique, que se erguia a custo. O mensageiro de Fra Mauro terminava aqui
a sua tarefa, sendo dispensado pelo infante, depois que recebeu o último pagamento
respeitante à encomenda.
O enorme mapa-mundo foi desenrolado
sobre a mesa que dominava o centro da sala, arrancando aos presentes expressões
de espanto. Um sopro de admiração varreu o ar em volta do planisfério, atingindo
Alvise Cadamosto, Diogo Gomes, António Noli, magníficos navegadores ao serviço do
infante. A tábula rectangular, agora colorida por mares nunca navegados, prendia
a atenção destes bravos marinheiros. O planisfério representava os continentes cercados
de água, o topo do mapa correspondia ao sul, ali mesmo onde terminava a África e
se pressagiava a passagem do oceano Atlântico para o Índico. O infante Henrique
buscou as respostas às demandas que há muito o assaltavam e os seus olhos pousaram
sobre as distantes terras das especiarias. As respostas vinham nas legendas que
Fra Mauro colocara sobre os locais de interesse, sobre os quais havia algumas notícias.
Era uma obra grandiosa, profusamente
ilustrada, reunindo o saber cartográfico existente nas diversas capitais da
Europa. Há muito que o infante recorria à erudição estrangeira, sobretudo veneziana,
florentina e genovesa, para aprofundar os seus conhecimentos de cosmografia. Pôde
assim somar à perícia portuguesa a experiência de navegadores estrangeiros e,
em conjunto, demandar a costa de África. A latitude das ilhas de Cabo Verde era,
até este momento, o ponto mais a sul conhecido e alcançado pelos navegadores ao
serviço do infante Henrique. As lágrimas marejaram os olhos do velho infante, a
emoção avassalou-lhe o espírito e a voz saiu-lhe embargada: meus senhores..., estamos
perante um excelso trabalho, que já reflecte o conhecimento adquirido pelos nossos
mareantes. Vamos entrar numa nova fase!, afirmou, olhando nos olhos dos
presentes, enquanto tentava esconder o contentamento. As descobertas encaminham-se
agora para a derradeira etapa, atingir a Índia, resgatando o comércio das
especiarias das mãos dos infiéis. Apontou para o ponto do mapa onde estava representada
a passagem do oceano Atlântico para o oceano Índico». In Luís Barriga, Em Nome D’El
Rey, Clube do Autor, Lisboa, ISBN 978-989-724-448-3.
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