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O Teatro em 1871
«(…) Não se esqueça,
aliás, que por finais do século o índice de analfabetismo era da ordem dos 75%.
O diagnóstico de Eça Queirós estava, pois, certo. Mas faltava encontrar a
terapêutica. E nenhum dos homens da geração de 70, mau grado o interesse que,
de um modo ou de outro, todos eles manifestaram pelo teatro, se empenhou a
fundo em descobri-la.
A Geração de 70 e o Teatro
Com efeito, a
intervenção dos intelectuais de 70 na vida teatral do país assumiu a figura de
uma pequena secante. Nenhum deles fez do teatro, como Garrett, o centro da sua
paixão dominante, embora eventualmente para ele ou sobre ele houvessem escrito,
sem que, no primeiro caso, daí tenham advindo consequências de maior para a sua
obra ou para a evolução da nossa literatura dramática. Já no segundo caso o seu
contributo se revestiu de um significado mais relevante: a investigação
histórica de um Teófilo Braga, a doutrinação estética de um Lourenço Pinto, sobrelevam
decididamente o mérito dos, raros aliás, textos dramáticos dos seus
companheiros de geração. No citado artigo das Farpas, Eça defendia a criação de um teatro normal que
estimulasse a criação de uma literatura dramática, isto é, o enriquecimento do
nosso património intelectual». Não foi, decerto, cumprido este propósito com o
seu único labor teatral conhecido: uma imprevista tradução (que aliás ficou
inédita) de um melodrama francês de Joseph Bouchardy, Philidor, modelo acabado
daqueles dramas de efeito que não pouparia, mais tarde, aos seus sarcasmos... É
certo que no seu espólio literário foram encontrados apontamentos para uma peça
a extrair de Os Maias,
o único dos meus livros que sempre se me afigurou próprio a dar um drama, e
um drama patético, de fortes caracteres, de situações morais altamente
comoventes, diria ele em carta dirigida ao escritor brasileiro Augusto Fábregas,
que transpusera O Crime do Padre
Amaro para a cena. A adaptação teatral dos Maias ficaria, porém, a dever-se
a José Bruno Carreiro (e estrear-se-ia em 1945, no Teatro Nacional, por ocasião
das comemorações do primeiro centenário do grande romancista), mas circunscrever-se-ia
praticamente ao conflito passional do livro, reduzindo-lhe o alcance da crítica
social.
Outras teatralizações da
ficção queirosiana foram empreendidas, quase sempre com êxito, pelo conde de Arnoso
e Alberto Oliveira (Suave Milagre, 1901),
Vaz Pereira (O Primo Basílio,
1915), Artur Ramos (A Relíquia, em
colaboração com Luis Sttau Monteiro, 1969), e A Capital, em colaboração com Artur Portela Filho, 1971).
E o colaborador de Eça nas Farpas,
Ramalho Ortigão, (1836-1915), também limitou a sua actividade dramatúrgica
à tradução de obras alheias, embora de melhor quilate que o melodrama de
Bouchardy: o Anthony de
Dumas (1870), O Marquês de Villemer de
George Sand, A Esfinge e O Acrobata
de Feuillet (1874), Fromont
& C.ª de A. Daudet e A. Belot (1899), a Electra de Pérez Galdós
(1901).
O interesse de Teófilo
Braga (1843-1924) pela história da nossa literatura em geral, e do teatro em
particular, corporizou-se nos quatro tomos da sua História do Teatro Português, publicados em 1870 e
1871 e respectivamente dedicados à Vida
de Gil Vicente e sua Escola (que em 1898 seria por ele
desenvolvido e desdobrado em dois volumes), à Comédia Clássica e as Tragicomédias, à Baixa Comédia e a Ópera, a Garrett e os Dramas Românticos. Com
todos os seus lapsos e inexactidões, as suas hipóteses arriscadas, que o facto
de se tratar de um terreno virgem, pela primeira vez explorado, amplamente justificava,
com todos os seus preconceitos, a sua conformação aos esquemas mentais do
positivismo, ela é ainda o estudo mais completo, mais sistemático, mais rico de
informações, que ao nosso teatro até hoje se consagrou: e a verdade, como observou
Augusto Costa Dias, é que poucos souberam, como Teófilo, analisar as ideologias
na criação literária, os seus aspectos alienatórios e as suas determinações económico-sociais».
In
Luiz Rebello, O Teatro Naturalista e Neo-Romântico (1870-1910, Série Literatura,
volume 16, Instituto de Cultura Portuguesa, Livraria Bertrand, 1978, Centro
Virtual Camões, Instituto Camões.
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