Hipóteses para uma periodização da Idade Média
«Especialmente
se considerarmos na sua totalidade o cadinho dos povos e das civilizações que
contribuíram para a formação inicial da Europa medieval, bem como os seus
contactos recíprocos, até os limites do continente nos aparecem móveis e permeáveis,
constituídos, como são, mais do que por barreiras, por zonas cujas partes mais
remotas estão implicadas em recontros cada vez mais esporádicos.
A
própria separação de Oriente e Ocidente, consequência das migrações bárbaras,
das expedições islâmicas, da separação e primado da Igreja de Roma em relação às
orientais, da distinção cada vez mais nítida da Europa em relação a Bizâncio,
que constitui um traço distintivo da primeira Idade Média, não foi, contudo, tão
nítida como se poderia crer por um exame que levasse em conta, principalmente,
a redução das vias de comunicação e do tecido urbano, a decadência dos portos e
do tráfego, o desaparecimento das escolas e o aumento das distâncias no plano
político e cultural. Basta pensar que Carlos Magno e até os otões se aperceberam
da necessidade de manter relações com Constantinopla, que os árabes, como é bem
sabido, transmitiram aos europeus o seu saber e o antigo, que os muçulmanos
foram por várias vezes chamados por cristãos a socorrê-los contra outros cristãos
e concordaram frequentemente com os poderosos locais em lutar com os seus
correligionários, que os mouros penetraram em vastos territórios, como a Península
Ibérica e não só, com forças reduzidas e confiados no apoio de populações
deprimidas e oprimidas e que não faltaram casos, alguns deles importantes, de
casamento entre fiéis de religiões diferentes.
É
exactamente nesta vertente que estão em curso os estudos talvez mais
inovadores, que se propõem mostrar a permeabilidade do islão e contribuir para
abater as barreiras religiosas e culturais hoje ventiladas, sem por isso
renunciar a reclamar o relevo da específica tradição europeia, baseada numa
particular pluralidade de formas sociais e políticas e na sua variabilidade.
Da
Queda do Império Romano do Ocidente a Carlos Magno
A
desagregação do Império Romano do Ocidente é o termo de um percurso histórico
de longa duração, já reconhecível no século III, de regionalização dos territórios
imperiais, que cada vez mais se configuram como zonas autónomas e não
integradas. A deposição de Rómulo Augústulo em 476 é apenas um momento, talvez
o mais visível no plano historiográfico, desta longa transição.
Tendências secessionistas
A
fragmentação política do Império Romano não é o resultado directo da deposição
do último imperador do Ocidente em 476, data convencional do início da Idade
Média. Com efeito, já dois séculos antes se manifestaram tendências centrífugas
na estrutura imperial: no decurso da crise do século III e em particular
durante o reinado de Galieno (c. 218-278, imperador desde 253), o império
encontra-se dividido em três grandes troncos autónomos.
No
Oeste, a revolta de Póstumo (?-c. 269, imperador de 260 a 268) dá origem à
constituição de um império gálico (formado pela Gália, a Península Ibérica e a
Britânia) que dura 13 anos sob o próprio Póstumo, Mário (?-269, imperador desde
268), Vitorino (?-c. 270, imperador desde 268) e Tétrico (?-273, imperador
desde 271). No Oriente, pelo contrário, o poderio económico-comercial de
Palmira leva à constituição de um verdadeiro império centrado nas cidades
caravaneiras, primeiro sob Odenato (?-267, rei desde 258) e depois sob Vabalato
(? -273, rei desde 267), mas governado principalmente, segundo dizem as fontes,
por Zenóbia, mulher do primeiro e mãe do segundo (rainha de 267 a 273). Só
Aureliano (214/215-275, imperador desde 270) consegue recuperar os dois reinos secessionistas
em 273 e reconstituir a unidade do império. Mas já a partir desse momento, e
ainda mais durante o século IV, se mostra cada vez com maior evidência a presença
de ímpetos centrífugos e, mais em geral, de uma regionalização em zonas cada
vez mais autónomas umas das outras e menos integradas num conjunto.
São
disso prova as várias usurpações, cada vez mais ligadas a um determinado território.
O objectivo é, com frequência, a constituição de reinos secessionistas e o
reconhecimento de uma autoridade igual à dos imperadores já existentes: é o
caso, por exemplo, da rebelião de Caráusio (imperador de 286 a 293), que domina
a Britânia e a Gália setentrional, herdadas na sua morte por Aleto (?-296,
imperador desde 293) e depois por Constâncio Cloro (c. 250-306, imperador desde
293), mas também por Magnêncio (c. 303-353, imperador desde 350), Magno Máximo
(c. 335-388, imperador desde 383) e Constantino III (?-411, imperador desde
407)». In Umberto Eco, Idade Média, Bárbaros, Cristãos,
Muçulmanos, Publicações dom Quixote, 2010-2011, ISBN 978-972-204-479-0.
Cortesia de PdQuixote/JDACT
JDACT, Umberto Eco, Idade Média, Cultura e Conhecimento,