Um amor que confunde palácios e governos
«(…) Chegaram à fronteira depois de vários dias de viagem. Percorriam
pequenas distâncias em cada dia, descansando em velhos solares que lhes eram
cedidos pelo nobres locais ou em tendas semelhantes às das tropas, que lhes
permitiam ficar fora das povoações. Passavam as horas no interior da liteira, a
apreciar a paisagem ou a jogar xadrez e dados. Por vezes, Inês seguia a cavalo,
enquanto Constança, recostada nas almofadas, contemplava a planície
onde, de quando em vez, se recortavam as sombras de algumas árvores. Continuava
calada, o olhar melancólico perdido na distância. Inês, pelo contrário, ia
exultante. Desde o dia em que partira de A Limia, e sem que isso significasse
desacordo com a família Manuel, sempre se convencera intimamente de que
estava a viver uma etapa de transição, uma espécie de período provisório que formava
como que uma antecâmara do seu destino. A mesma intuição que lhe dizia que em
Portugal a aguardava qualquer coisa, não sabia o quê, que prometia ser
definitivo. Quando, antes de dormir, contava as estrelas, dava corpo e espírito
ao futuro. O seu destino tomava então a forma de um homem bem-parecido e justo,
o cheiro de um lareira acesa, o murmúrio de cantigas e brincadeiras infantis.
Enfim, uma família, que seria a sua. Terminaria aquela vida errante, deixaria
de ser uma filha sem pai, irmã de um outro sangue, senhora sem estatuto
próprio. Não. Quando aquele homem aparecesse na sua vida, Inês teria, finalmente,
encontrado o seu lugar. Deixaria aquela situação indefinida, passaria a ter
nome e apelidos.
Não conseguia entender o estado de espírito de Constança. Era incapaz de
compreender os seus temores. A amiga sempre fora reconhecida como filha de João
Manuel, infante de Castela. Agora era noiva do herdeiro do trono de
Portugal e, um dia, seria rainha. A sua vida seguia, portanto, uma linha bem
direita, era um quadro bem definido, uma trajectória previsível com datas e
nomes concretos. Além do mais, o astrólogo fora bem claro. Em Portugal esperavam-nas
amor e carinhos, risos e prantos, nascimentos e mortes. Para fazer uma tal
previsão, não era necessário consultar os astros. O vaticínio confirmara o que Inês
já sabia. Em Portugal aguardava-as a vida.
Logo que atravessaram a fronteira, Inês voltou a sentir-se criança. A
fala trazia-lhe de volta recordações escondidas, aromas esquecidos e até certas
cores que, em Castela, se haviam diluído numa gama de tons de ocre. Pouco a
pouco, foi despertando nela a memória da língua em que tinha crescido e pôs
todo o seu empenho em ensinar a Constança os rudimentos de um idioma
em que, agora, descobria melodias e sonoridades ignoradas. Os vinhedos de entre
o Douro e o Mondego, a vegetação exuberante das serras da Estremadura
portuguesa e, por fim, o largo e caudaloso Tejo, trouxeram-lhe de volta os
arvoredos da infância e aquele cheiro a terra molhada que, mesmo quando não
estava a chover, andava pelo ar. Depois, chegada já ao destino, a paisagem
tornava-se mais agreste, ainda que a serra de Sintra lhe proporcionasse o
reencontro com a paisagem do passado.
Em Agosto, na data prevista, chegaram a Lisboa. A comitiva deteve-se às
portas da cidade e organizou-se um pequeno acampamento, onde as pessoas podiam
libertar-se do pó dos caminhos e recobrar forças para aquele que se previa
fosse o grande dia da vida de Constança. Segundo estava acordado,
o infante Pedro viria ao seu encontro para a escoltar até à capital. Inês
dirigia as camaristas encarregadas de preparar o vestuário e o calçado da
noiva. Dissimulava o nervosismo com a verborreia prolixa e o movimento incessante.
Uma sucessão infinda de perguntas sem resposta, de passos sem destino, de arcas
que eram abertas e logo fechadas, o preparar de enfeites e o rumorejar de
sedas. À sua volta, Nieve era vítima
do mesmo frenesim, dando pequenos saltos e latindo de vez em quando. As amas
tentavam acompanhá-la, sem o conseguirem, e as camaristas torciam o nariz e
procuravam compreender as ordens que ia dando.
Por fim, Constança não aguentou mais: - Inês, por amor de Deus,
sossegai. Até parece que sois vós que estais a preparar-vos para a apresentação
ao futuro esposo. - E se estivesse?
- replicou, mantendo o velho hábito de responder a uma pergunta com outra. -
Não será possível que no séquito do infante Pedro venha um belo donzel que
repare nesta dama recém-chegada?
Enquanto falava, envolvia-se, divertida, num dos mantos de seda da amiga e, com
uma reverência exagerada, imitava os gestos de uma grande senhora». In
Inês de Castro, María Pilar Queralt de Hierro, Editorial Presença, Lisboa,
2006, ISBN 978-972-23-3081-7.
Cortesia de Editorial Presença/JDACT