O Rei de Marfim
«(…) Falas de outra luta? Tu,
minha irmã, é que referiste esse rei de Mmarfim como sendo o bom rei Duarte
nosso avô. À roda dele giravam nobres senhores e esboçavam-se as lutas que ao
depois se seguiram. Marfim, ébano... eu sei. encetaremos outra jogada, outras
jogadas. reveremos tudo. com a morte recente da nossa avó Isabel de Urgel
fecha-se um círculo de tamanho ódio! Psiu! falasse baixo! Tia Filipa podia
ouvir pobre senhora de luto pela mãe...
Tudo aí começou voltou-se Filipa em lágrimas. Não chores,
minha tia! Então? Levantava-se Joana a abraçá-la, a sentá-la ao pé de si, trinta
e um anos secos e martirizados. Tudo aí começou ..., abriu-se em soluços, e agora, de uma casa tão grande e tão feliz, só
eu e a triste da minha irmã Catarina encerrada na casa.
(…)
A Tempestade
No dia seguinte, a fúria do vento minguava e nós fomos costeando a
Dalmácia, Argentina, Zara, Lissa, Meleda, Cúrsula, terras sujeitas umas a
Veneza e outras à senhoria de Aragusa. Vinham-me à lembrança fragmentos de
antigas e recentes leituras: a Dalmácia era a pátria de São Jerónimo e também
do papa mártir São Caio, da parentela do imperador Diocleciano; Aragusa ou
Ragusa, o antigo Epidauro, era ao presente dos Turcos e chamava-se Dobrónica,
cidade grandíssima, rica, muito nomeada naquelas partes, terra de grandes
tratos e mercadores, onde se fazem muitas naus, as maiores e mais grossas de
todo o Levante. É daqui o nosso padre guardião, frei Bonifácio. Seguimos sempre
ao longo da costa, o que amenizava a viagem, pois tinham nossos olhos com que
se entreterem. Que montes seriam aqueles?, apontava frei Zedilho. Eu consultava
o meu enquirídio e não demorava muito a identificá-los: eram os montes
Acroceráunios, muito afamados na Antiguidade.
Ah! Deles fazia memória São Jerónimo no segundo prólogo da Bíblia,
comentava o meu teólogo. Vinha depois a costa do Epiro, a que está ligada a
Macedónia, pátria de Alexandre Magno, do qual tantas grandezas contam tantos
escritores gregos e latinos.
As línguas de todas estas terras são muito diversas umas das outras, mas
os Aragúsios e os Dalmacianos entendem-se bem entre si pela contínua
comunicação. Os Albaneses e os Epirotas usam comumente o grego, mas, como
presentemente estão submetidos aos Turcos, toda a gente principal e nobre fala
a língua turca. Estas informações colhi-as eu de um marinheiro grego chamado
Pérides, a quem frequentemente fazíamos perguntas quando queríamos saber alguma
coisa.
Era muito sensível ao facto de a sua pátria grega estar sob o domínio
turco. Isolava-se amiúde junto à amurada a olhar a linha da costa passar, os
montes e vales, as lágrimas a desfiarem-lhe pelas faces e cantando baixinho, só
para si, saudosas melopeias que aprendera em menino. Ansiava pelo dia em que a
Grécia sua bem-amada recobrasse a independência. Mal adivinhava eu, naquele
tempo, que também me estava destinado ter, a respeito do meu país, essa
dolorosíssima experiência!... Contava-nos ele factos nunca ouvidos.
De todas as partes e províncias e em especial do Epiro, da Macedónia e da
Albânia, todas as pias de baptizar eram obrigadas cada ano a dar certas
crianças de tributo ao grão-turco... Dar crianças ao turco?, admirava-se,
escandalizado, frei Zedilho. Para quê?, secundava eu. Que as mandava criar com
muito cuidado e diligência, doutrinar na bruta e maldita seita do sancarrão
Mafamede e instruir em todas as boas artes militares: na cavalaria, no pelejar
com toda a sorte de armas. Com que fim?
Criavam assim um corpo militar de eleição, no qual residia toda a força e
potência humana do grão-turco. Era com eles que fazia a guerra a todo o
mundo..., e conquistava tantos reinos e províncias como tinha tomado aos
cristãos, por nossos pecados, rematava eu tomando calor no que dizia, e pela
ambição e cobiça de alguns príncipes católicos, se este nome lhes cabia, que
procurando com injustas guerras o alheio perdiam o próprio...
Aqueles eram os guerreiros a
que se chamava janízaros. Mas não era só nas guerras que o grão-turco deles se
servia. Usava-os também no governo da sua corte e de todos os seus reinos e
províncias. Segundo o esforço, a prudência, a valentia e virtude que cada um
demonstrava ia-lhes dando os ofícios e honras, dignidades e prémios que lhe
parecia merecerem: a uns fazia baxás, que eram uma espécie de vizo-reis de
reinos e províncias, a outros sanjacos, que eram governadores das cidades e
seus termos, a outros berebés, chauses, cádis, que eram como justiças-mores das
terras onde residiam...» In Fernando Campos, A Esmeralda Partida, 1995,
Difel, Lisboa, 2008, ISBN 978-972-290-330-1.
Cortesia de Difel/JDACT
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