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Pré-história de Antero
«Este e os seus amigos foram o núcleo de uma sociedade secreta que se
chamou “O Raio” e que se organizou para
combater as antigas praxes académicas que, tinham sobrevivido ao Romantismo e à
revolução liberal. É um aspecto pouco conhecido, e compreende-se, esta
participação de Antero em organizações clandestinas. Foi a sociedade secreta “O Raio” que na inauguração do ano
académico de 1862 conseguiu impedir de falar o reitor, Sousa Pinto, fazendo
sair em massa da sala os estudantes no momento em que ele se levantava para
proferir a oração inaugural. Antero redigiu um ‘manifesto dos estudantes de Coimbra à opinião ilustrada do país’,
explicando este acto, manifesto que foi assinado quase instantaneamente por 314
estudantes, entre os quais os seus mais íntimos amigos, já mencionados. O reitor
teve de demitir-se.
Por acção subterrânea da sociedade “O
Raio”, já antes, em 1862, Antero tinha sido encarregado de saudar em nome
da Academia o príncipe Humberto de Sabóia, herdeiro de Victor Manuel, de
passagem por Coimbra. Victor Manuel encabeçava a luta contra os Estados
Pontifícios e contra o poder temporal do Papa. Nessa ocasião Antero declarou:
- ‘A mocidade liberal portuguesa saúda, em nome da liberdade do mundo católico [sic], o filho do amigo de Garibaldi, o filho de Victor Manuel’.
Garibaldi era nesta época o herói romântico por excelência. Antero
falava também de ‘um fantasma do passado’, apontando a dedo o reitor, que
assistia.
O primeiro grande livro de poesia editado por Antero é “Odes Modernas”, em 1864, que é dedicado
a Germano Vieira Meireles, nesta época o seu ‘alter ego’:
- Escrevo o teu nome na primeira página deste livro como no soco da estátua da Vénus antiga gravou o escultor, enlaçados, o seu nome com o da formosura estranha que lhe servira de modelo. [...] É ‘nosso’ este livro. A mão do copista que mais vale? Se são estas páginas fragmentos do grande e belo poema da nossa comum mocidade?’
Este livro provocará poucos meses depois as alfinetadas críticas de A.
F. Castilho. Anos mais tarde o próprio autor julgará esta uma poesia ‘declamatória
e abstracta, por vezes indistinta [...] Acima de tudo, como dizem os Franceses,
poesia de combate. O panfletário divisa-se nestes versos, detrás do poeta’.
Em 1865 o papa Pio IX emite uma encíclica promulgando o que depois se
ficou chamando “Syllabus”, ou lista
dos erros condenados pela Igreja. Esses ‘erros’ abrangiam o Liberalismo, o Socialismo,
a independência do poder civil, a liberdade de opinião, etc. Contra esta
publicação protestaram os jornais, não só em nome da liberdade de opinião, mas
também em nome do poder civil. Esta encíclica deu lugar a um panfleto
intitulado “Defesa da Carta Encíclica de
S. Santidade Pio IX”. Neste estranho escrito contra o que Antero chama ‘a
opinião liberal’, ‘monstro moderno’, ataca-se tanto o Papa como a ‘opinião liberal’,
a sociedade laica e a sua legitimidade e, de maneira geral, as ‘conquistas’ da
Revolução Francesa. Foi o primeiro folheto publicado por Antero, e mostra-o
dividido entre duas opiniões opostas.
- É um protesto contra a falta de lógica com que as folhas liberais atacavam o Syllabus, declarando-se ao mesmo tempo fiéis católicos.
1865 é uma das grandes ocasiões de Antero. António Feliciano de
Castilho, o velho mestre, prefaciara o “Poema
da Mocidade” de Pinheiro Chagas, em estilo romântico tradicional, contrapondo-o
aos novos estilos de Antero de Quental, em “Odes
Modernas”, de Teófilo Braga, em “Visão
dos Tempos”, e de Vieira de Castro, hoje esquecido. Antero respondeu com um
panfleto, “Bom Senso e Bom Gosto”,
que teve um sucesso instantâneo e memorável. Teófilo Braga seguiu-se-1he,
fazendo editar por intermédio de José Fontana (empregado da Bertrand) o já referido
folheto intitulado “Teocracias Literárias”.
Seguiram-se dezenas de outros folhetos, quer de escritores veteranos,
quer de jovens estreantes. Um deles foi o do jornalista Ramalho Ortigão e que
ocasionou um duelo à espada entre ele e Antero, no qual Ramalho, um bom
desportista, ficou vencido, para surpresa geral». In Tertúlia Ocidental.
Estudos sobre Antero de Quental, Oliveira Martins, Eça de Queiroz e Outros,
António José Saraiva, Herdeiros de António José Saraiva e Gradiva Publicações,
1996, ISBN 972-662-475-4.
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