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Lusbuna.
Verão de 1142
«Por
sobre o adarve, o velho Abdalah esticou o braço em direcção às tropas cristãs
que se retiravam e lançou trágico: eles regressarão! Depois de terem saqueado
as aldeias e as quintas à volta de Lusbuna, os portugueses, junto com alguns
cruzados francos, haviam tentado conquistar a cidade branca, a jóia junto à foz
do Tejo, há muito cobiçada pelo rei Ibn Errik. Abdalah elevou os braços
trementes aos céus e bradou: o nosso fim está próximo! Que Alá, o Altíssimo nos
guarde! As crianças espetavam olhares receosos na figura frágil, à qual, não obstante
as vestes pobres, as longas barbas brancas conferiam respeito e sapiência. Por
baixo do turbante branco, o olhar turvo mergulhou em tristeza e o ancião
iniciou o seu lamento habitual: o meu pai, Alá o tenha em misericórdia, foi
testemunha do esplendor de Qurtuba (Córdova). Porque não souberam os crentes da
fé verdadeira manter o califado de al-Andalus? Existisse ainda essa força, essa
imponência, e os cristãos jamais nos venceriam! Mais uma vez, os pequenos se
perguntavam que idade o ancião teria. O califado já se extinguira há cem anos
e, se o pai dele era desse tempo, Abdalah era capaz de já ter passado os oitenta!
Dos quatro cantos do mundo nos chegavam estudantes e sábios, a fim de se
deleitarem com as dezenas de milhares de livros e manuscritos existentes na
biblioteca de Qurtuba. Todos os crentes eram ávidos de conhecer o Califado do
Oeste. E a orgulhosa cidade recebia-os de braços abertos... Interrompeu-se no
seu abraço ao horizonte, que mirava como se a saudade que lhe atormentava a
alma lá estivesse estampada. Aischa quedava-se suspensa. A brisa agitava-lhe os
caracóis negros, que lhe acariciavam as faces de pele clara, herança de sua
mãe..., e que de repente lhe lembraram de que se esquecera do véu! Com doze
anos, ainda não enraizara o hábito de se cobrir em público. A conhecida
tolerância de seu pai, um dos mercadores mais ricos de Lusbuna, de nada lhe
valeria, descobrisse ele que ela nem sequer amarrara os cabelos.
Abdalah
parecia não fazer tensões de regressar à sua história e Aischa acabou a
suspirar de impaciência. A moça suava debaixo do sol, na alcáçova, o ponto mais
alto da cidade, apesar das suas vestes de algodão leve. Sentia a garganta seca
e ansiou pela frescura do seu jardim, o repuxo a jorrar fios de água
cintilantes... Sangue! Aischa estremeceu àquele grito inesperado de Abdalah,
que apontava, muito abertos, os olhos meio cegos às crianças: rios de sangue
jorraram durante afinal os crentes combateram-se entre si, cercaram Qurtuba,
pilharam-na, incendiaram-na. Condenaram o califa à morte, o próprio sucessor do
Profeta, que Alá tenha em glória! E al-Andalus ainda não parou de se dividir em
reinos cada vez mais pequenos, cada vez mais fracos... Os olhos encheram-se-lhe
de lágrimas, fechou a mão num punho tremente. Como foi possível que nos
tivéssemos esquecido de que só a unidade conduz à vitória? Elevou de novo os
braços aos céus e citou o Corão: no dia em que a Terra se transformará noutra Terra
e o Céu noutro Céu, todos comparecerão perante Deus, o Único, o Poderoso. Os
culpados serão postos a ferros, pez líquido cobrir-lhes-á os corpos, fogo
consumirá as suas faces... Tornou a encarar as crianças e soltou, numa voz de
trovão: o dia do Juízo Final está próximo! Supliquemos Misericórdia a Alá,
senhor dos Mundos! Assustada, Aischa virou-lhe as costas. Desceu as escadas do
adarve e atravessou a bâb al-qasbâ,
ou Porta da Alcáçova, saindo para o terreiro onde normalmente havia um pequeno
mercado, mas que não funcionava há alguns dias, devido aos combates.
Encontrava-se
lá muita gente a comentar os feitos de Ibn Errik. A moça pôs-se a caminho de
casa, colina abaixo, por entre as ruas labirínticas, até atingir o principal
eixo viário da cidade que ligava a oriental bâb
al-maqbara, ou Porta do Cemitério, à grande Porta do Ocidente bâb al-garbi, a maior de Lusbuna,
junto à mesquita aljama. Nas imediações deste templo, começava a zona do suq, o ponto de ligação entre a
cidade alta e a baixa, onde as ruas, um pouco mais largas, facilitavam a
actividade dos mercadores. Mas Aischa tomou a direcção oposta da mesquita,
aproximando-se da bâb al-hammã,
ou Porta das Termas, situada perto das nascentes de águas quentes e frias, onde
se haviam construído as termas abobadadas. Por isso mesmo, muitas famílias
ricas, como a dela, tinham-se instalado naquela zona ribeirinha intramuros. Ninguém
diria que aquelas simples paredes caiadas abrigavam casas sumptuosas, a cujas
entradas só se tinha acesso através de travessas privadas. Muitas delas eram
construídas em sobradado, ou seja, o piso superior avançava sobre a rua,
formando balcões de ressalto e passadiços, cobrindo completamente amplos troços
das ruelas estreitas. Adufas, portadas de madeira finamente trabalhada, decoravam
as janelas e permitiam que as mulheres pudessem observar o exterior sem serem
vistas. Por toda a parte se comentavam os feitos de Ibn Errik, o rei cristão,
que há três anos, para os lados de Ourique, vencera um exército três vezes
maior do que o dele. Aischa não acreditava que ele possuísse forças
sobrenaturais, como se dizia. Até parecia que os muçulmanos de Lusbuna não
estavam habituados a lidar com cristãos! Afinal, moravam ali quase tantos
moçárabes como seguidores do Profeta Maomé». In Cristina Torrão, A Cruz de
Esmeraldas, Edição Ésquilo, 2009, ISBN 978-989-809-261-8.
Cortesia de
Ésquilo/JDACT