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A
Mulher que Amou Jesus
«(…) Ou será que o que conta é o
que ele não disse, ou o
que os outros não dizem sobre ele? Então, você mesma conversa com ele!, mandou
Natã. É isso! Da próxima vez que ele estiver no armazém, você vai lá e fala com
ele! E, no meio tempo, o que devo dizer-lhe? Diga..., diga-lhe que eu gostaria
de saber sobre ele tanto quanto sei sobre o jumento da família... Não vou fazer
isso! Você terá de se decidir!, disse o pai. Basta destas tolices. Você terá de
decidir hoje. Não irá falar com ele. Se você falar com ele, vai assustá-lo! Pronto,
agora ele tinha dito o que pensava. Estavam loucos para que ela casasse e
ficaram delirantes de felicidade quando o homem de Naim pedira sua mão, pensou
Maria. Tornara-se um estorvo, solteira, aos 16 anos. Essa poderia ser a sua
última chance. Eu... Eu vou ter... Tenho de pensar sobre isso pelo menos até
amanhã, disse. Façam-me esse favor. Afinal de contas, esperamos até mais quando
compramos o... Basta de falar no jumento!, explodiu Natã.
A noite mal começara e o sono
parecia chegar, sono que lhe faltara por tantas noites. Ao entardecer sucedeu-se
logo a escuridão, com aquele cheiro peculiar do azeite queimando na lamparina,
assinalando o cair da noite sobre a casa. Finalmente, chegara a hora de se
deitar. Maria deitou-se na cama estreita do quarto frio, surpreendentemente
frio, apesar do Inverno ainda não ter chegado. Puxou mais cobertas até à cabeça
e fechou os olhos. Queria fugir do mundo real. Porém, o sono parecia agora
deixá-la, por perversidade. Tinha plena consciência de cada uma das sombras no seu
quarto, de cada som e da luz da lua brilhando num dos cantos, como o olho de um
deus implacável, penetrante. O que se está passando comigo?, perguntou a si
mesma numa vozinha submissa. Parece que não consigo mais pensar, nem pareço eu
mesma. Quase via a sua respiração no quarto. Lentamente, expirou e, sim!, dava para
ver uma nuvenzinha contra o luar. Era impossível. Estava mais quente lá fora.
Não era possível que estivesse frio dentro de casa.
E a opressão na sua mente, como
se alguém a estivesse empurrando para baixo, fazendo pressão sobre ela. E aquele homem..., Joel... Tente
pensar em Joel, ordenou a si própria. Ele quer casar, levá-la para a casa dele.
Imagine o seu rosto. Tentou pensar nele, invocar o seu rosto, mas não
conseguia. Parecia ter sumido da sua memória. De repente, pensou ouvir um
rangido dentro do quarto. Sentando-se, inteiramente acordada, esforçou-se para
ver do que se tratava. A escuridão era total e ela não conseguia penetrá-la.
Então, lentamente, algo pareceu tomar forma na escuridão, um pequeno baú. Que
se mexia, fazendo um rangido ao se deslocar pelo chão de pedra. Olhou-o, com
medo, enquanto o baú se deslocava para onde batia a luz do luar. Ou seria o
luar que o movera? Queria orar, mas vinham aos seus lábios palavras sem
sentido, confusas, que desconhecia. O que haveria no baú?, perguntou a si própria.
Mas estava tão apavorada que não iria sair da sua cama para ver. Em vez disso,
ficou olhando, ansiosa, para o baú.
Embora fosse forçada a ficar numa
posição completamente rígida, na cama, acabou adormecendo, o que era estranho.
Teve sonhos curiosos e detalhados: sonhou com cavernas negras, que ficavam na
colina por trás da cidade, que se estendiam, profundas, e pareciam não ter fim.
Pareciam a própria noite. Mas quando se anunciava a aurora e ela já ouvia os
barulhos de passos, do lado de fora, e de pescadores remando seus barcos para
começar o seu trabalho, ela saiu do seu sonho caverna e voltou para o seu
quarto. Imediatamente, olhou para o chão para ver onde estava o baú. Sabia que tudo
isso era só um sonho, um baú que se movia. Mas ele estava lá... Não exacztamente
onde estava antes, mas também não estava no centro do quarto. Talvez sua mãe o
tivesse trazido para lá e ela não tivesse reparado, ou então poderia tê-lo
visto rapidamente, e depois sonhado com ele. Ou teria o baú tornado a mover-se
depois que ela adormecera? Sem uma palavra, levantou-se. O quarto ainda estava
muito frio. Pegou num xale, colocou-o em volta dos ombros e esfregou os braços,
para aquecê-los. Estupefacta, descobriu que os braços estavam cheios de arranhões,
arranhões que constituíam uma espécie de desenho e doíam ao serem tocados.
Quase deu um grito, mas conseguiu
abafá-lo. Estendeu os braços e olhou para as marcas. Pareciam arranhões feitos
com espinhos. Tentou relembrar tudo o que fizera no dia anterior. Seria possível
que tivesse chegado perto de cardos? Ou teria ficado sonâmbula? Já tinha havido
na cidade o caso de um menino que caminhava dormindo; saía andando, em plena
noite, e na manhã seguinte não se lembrava de nada. Seus pais tiveram que amarrá-lo
à cama para evitar que saísse para a rua. Ficava apavorada só de pensar que
poderia ter saído de casa, desprevenida e exposta aos perigos. Abaixou-se junto
ao baú e passou as mãos sobre a tampa, uma superfície lisa, construída pelo
carpinteiro local, decorada com algumas tachas. Tocou-o com as pontas dos
dedos. Não tinha rodas nem qualquer outra coisa que permitisse movê-lo com
facilidade. Pelo contrário; os pinos fortes da base estavam solidamente
grudados ao chão, tornando difícil deslocá-lo. Mas, e aí, a respiração pareceu
parar, aqueles pinos fariam um
ruído de rangido, se o baú fosse arrastado pelo soalho! E, na verdade, pequenos
traços no chão, atrás do lugar onde o baú se encontrava, provavam que ele havia
sido deslocado». In Margaret George, A Paixão de Maria Madalena, 2002, Saída de Emergência,
Edições Fio de Navalha, 2005, ISBN 972-883-911-1.
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