O Bastardo que Nunca Existiu?
«(…) A
história tem barbas, remontando já à primeira metade de Quinhentos, mas
continua a suscitar muitas dúvidas e reservas entre os historiadores pátrios. Anselmo
Braamcamp Freire, o célebre autor dos Brasões
da Sala de Sintra, por exemplo, recusa-se a aceitar a hipótese de
dom Duarte ter tido um filho fora do casamento, com razões que Luís Miguel
Duarte, o mais recente biógrafo do rei Eloquente, considera impossível não
acompanhar. O monarca seria o modelo das virtudes que apregoava no seu livro.
Contudo, os argumentos que apresenta contra António Caetano Sousa não
convenceram muitos genealogistas, como Felgueiras Gayo, por exemplo, que, na
peugada do autor da História
Genealógica, continuam a afirmar a existência do bastardo de dom
Duarte. Veríssimo Serrão, na sua História
de Portugal, também o faz. Seria ele João Manoel, ou João Manoel de
Portugal e Vilhena, como alguns historiadores e genealogistas preferem chamar-lhe,
e teria nascido, em data que se ignora, dos amores do rei com Joana Manoel Vilhena.
Esta era uma senhora de qualidade que, dizem uns, veio para Portugal com a rainha
dona Leonor de Aragão e, afirmam outros, era dama da rainha dona Filipa de Lencastre.
Se Joana Manoel era dama de dona Leonor, João Manoel é filho adulterino; se,
porém, era dama de dona Filipa, então pode o bastardo ter nascido antes do
casamento de seu pai, celebrado em 1429.
João Manoel foi dado à
luz em Lisboa, sendo recolhido no Mosteiro do Carmo, onde se diz que Nuno Álvares
Pereira, o Santo Condestável,
o criou com estimação. Educado em virtuosos princípios e ilustrado nas belas letras,
tomou o hábito carmelita e, prosseguindo os estudos, saiu bom letrado. Provincial
da Ordem do Carmo, em 1441, foi mandado a Roma para tratar da dispensa que era
necessária ao casamento do rei Africano com dona Isabel, sua prima, filha do
infante Pedro. Trouxe da Cidade Eterna a dispensa requerida, e o título de
Bispo Titular de Tiberíades. Em 1443, foi feito bispo de Ceuta e primaz de África.
E, em 1450, Afonso V nomeou-o seu capelão-mor. Nove anos depois, foi nomeado
bispo da Guarda. Mas não tomou posse da diocese. O rei nunca reconheceu este
seu filho, que, por isso, nunca foi tratado como tal. Explica o autor da História Genealógica: Somente ao
pai compete fazer semelhante declaração e, não a tendo feito dom Duarte,
mais ninguém a podia fazer. Por isso, mal podia El-Rei Afonso V conferir-lhe
aquela honra que seu pai não lhe dera.
Mas João Manoel
aceitou o seu estatuto com talento e discrição. E reconheceu perante o rei
Africano, seu meio-irmão, que a quem seu pai encobriu o real sangue, que lhe
dera a natureza, bem é que Vossa Alteza lho negue. Ainda assim, em muitas
ocasiões depois Afonso V confessar o parentesco.
De uma Justa
Rodrigues Pereira, mulher solteira e nobre, que depois fundou o Mosteiro de
Jesus, em Setúbal, em que acabou com vida exemplar e
com quem, sendo moço, o bispo teve trato, houve dois filhos: João
Manoel, alcaide-mor de Santarém, mordomo-mor de Manuel I e embaixador em
Castela, e Nuno Manoel, guarda-mor do rei Manuel, almotacé-mor e senhor de
Salvaterra de Magos. Ambos foram legitimados por Afonso V, em 1475, e
tiveram copiosa e ilustre descendência». In Isabel Lencastre, Os Bastardos Reais, Os
Filhos Ilegítimos, Oficina do Livro, 2012, ISBN 978-989-555-845-2.
Cortesia de OdoLivro/JDACT
JDACT, História de Portugal, Isabel Lencastre, O Paço Real, Conhecimento,