«(…) Essas manchas no rosto... A respiração irregular... O que você tem? Nada de grave, assegurou-lhe Galib, apoiando-se à parede. Apenas uma leve indisposição. Na minha idade... Tentou sorrir. Depois que o velho se recuperou um pouco, Willalme se aproximou de Uberto e estendeu-lhe a mão. Faça boa viagem, amigo. E, com um gesto ao mesmo tempo inesperado e tímido, entregou-lhe o seu punhal árabe. Poderá ser-lhe útil. O jovem observou o objecto revestido na sua bainha de marfim. Mas é a sua jambiya! Não posso aceitar um presente desses... O francês colocou a arma nas mãos de Uberto, forçando-o a segurá-la. Não insista, detesto rodeios. A devolverá no nosso próximo encontro. O mercador lançou um último olhar ao vacilante Galib e em seguida abraçou o filho. Esse gesto simples, embora movido por sentimentos sinceros, foi difícil para ele. Manifestar afecto sempre lhe custava esforço e constrangimento. Uberto se desvencilhou. Pai, deixe disso, eu tinha 15 anos quando me abraçou pela última vez. Fique atento, filho, recomendou Ignazio. Se lhe acontecer alguma coisa, eu não me perdoarei jamais. Não se preocupe, serei rápido e cuidadoso. Nós nos veremos em Toulouse. É provável que eu já esteja lá quando chegarem. Se não, esperem-me ou deixem recado dizendo o lugar onde poderei encontrá-los. O mercador assentiu. Se houver algum contratempo, deixarei uma mensagem na hospedaria da catedral. Não me esquecerei. Galib interveio impaciente: É hora de partir.
Depois de uma derradeira
saudação, Uberto pôs o alforje ao ombro e saiu do quarto atrás do magister. O
velho e o rapaz deixaram o torreão, passando em silêncio pelos postos de guarda,
até chegarem ao pátio, de onde puderam avançar em segurança protegidos pelas
sombras da vegetação. Galib caminhava com dificuldade crescente e mais de uma
vez Uberto se prontificou a ampará-lo, mas, vendo que o ancião recusava a sua
ajuda, desistiu. No espaço de poucas horas, mudara repetidamente de opinião
sobre ele. Como quase sempre lhe acontecia quando em presença de eruditos ou
cortesãos, não conseguira compreendê-lo de início. Primeiro, julgara-o uma
pessoa ambiciosa, empenhada em obter as boas graças do rei e em fomentar
intrigas; depois, à mesa, achara-o medroso e inseguro, mas por fim soubera
apreciar a sua inteligência e o afecto sincero que dedicava a Ignazio. Só agora
fazia uma ideia precisa do ancião: Galib era obstinado e orgulhoso, não tímido,
mas previdente, e, sobretudo, estava decidido a agir em prol do bem comum.
Porém, Uberto desconfiava que estivesse escondendo alguma coisa. A silhueta do
velho continuava avançando sobre a relva, cambaleando como um soldado ferido.
Não estava encenando nada nem se entregando a um capricho de sábio entediado:
aquela era uma missão que ele queria ver cumprida a todo custo. Por isso, e
pela dignidade da sua atitude, o jovem confiava nele e resolvera ajudá-lo sem
pedir muitas explicações.
Depois de percorrer um breve
trecho, chegaram a uma pequena construção de pedra e argila. O magister se
apoiou no portal, olhando em volta. Entre depressa, disse. Uberto entrou e logo
sentiu o cheiro de feno e esterco. A luz do luar penetrava pelas fendas das
paredes iluminando o recinto, onde se viam equipamentos de estrebaria, caça,
guerra e desfile. O velho atravessou o recinto ordenando: Siga-me. Depois de
passarem por uma espécie de antecâmara, chegaram ao interior de uma cavalariça.
E, pela primeira vez desde que tinham saído do torreão, Galib virou-se para o
jovem com um olhar de cumplicidade e disse: Gosta de cavalos? Oh, sim, respondeu
Uberto. O magister aproximou-se de um magnífico garanhão já selado, acariciou-lhe
a crina e verificou se as rédeas e os arreios estavam bem firmes. Com este viajará
rápido. Era um cavalo de raça. Não um daqueles ginetes turcomanos enormes, importados
da Espanha, capazes de suportar o peso de guerreiros encouraçados; lembrava
antes um corcel árabe, embora tivesse o porte mais imponente e pernas mais
robustas. Um esplêndido exemplar, admitiu Uberto. Galib sorriu com orgulho». In Marcello Simoni, A
Biblioteca Perdida do Alquimista, 2012, tradução de Maria Irene Carvalho, Clube
do Autor, Lisboa, 2013, ISBN 978-989-724-089-8.
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