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domingo, 10 de setembro de 2023

A Abadia dos Cem Pecados. Marcello Simoni. «Como única resposta, a freira convidou-a a observar o inchaço violáceo na cabeça. Receio que um fragmento ósseo se tenha desfeito e esteja a comprimir o cérebro»

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A Pedra do Exílio

Planalto de Crécy. 26 de Agosto de 1346

«Foi então que Maynard de Rocheblanche compreendeu. A intriga em que fora metido era bem mais ampla e complexa do que poderia ter imaginado. Karel do Luxemburgo não devia ser o único homem de poder envolvido na morte de Jang Blannen, e talvez nem sequer o mais perigoso. O cavaleiro intuiu que não se podia permitir agir com ingenuidade. Tinha a sensação de se encontrar sob o alcance de um grande olho que o observava de cima. O olho de um indivíduo desapiedado que o cercaria por todos os lados.

Observou pela última vez o bosque onde a mulher desaparecera. Depois, procurando vencer a ansiedade, esporeou o cavalo para este, ao longo do caminho que serpenteava à luz de um novo dia.

Reims, Convento de Sainte-Balsamie

8 de Setembro

Os dedos da freira passaram pela cabeça do homem inconsciente, exercendo uma leve pressão nas margens do hematoma, pouco acima da têmpora. A irmã Eudeline observava-o em silêncio, ansiando por uma resposta, e entretanto pensava no homem que ficara à espera, fora do valetudinarium.  Trata do meu companheiro de armas, dissera-lhe. Depois falamos. Eudeline assentira, apesar de agastada pela sua atitude. O irmão apresentara-se depois de quase dois anos de ausência e nem sequer se dera ao trabalho de lhe apertar as mãos, quanto mais de lhe dirigir uma palavra carinhosa. E sabia Deus como precisava disso. A clausura concedera paz e sabedoria, mas roubara-lhe os momentos de alegria decorridos em companhia de Maynard e da mãe de ambos. Essas memórias nunca a abandonavam, nem nas horas de oração, quando tudo o resto se eclipsava em torno das luzes esfumadas dos círios. Contudo, Eudeline não teria abandonado o claustro por motivo algum no mundo, visto que entre os seus muros encontrara a salvação. Não apenas da alma, mas também da razão. A monja infirmaria retirou os dedos do hematoma.

Reverenda madre, parece-me que o inchaço se deve a uma fratura. Uma ferida grave?, perguntou Eudeline, regressando à realidade. Aproximou-se de Robert de Vermandois, deitado numa comprida tábua de madeira, entregue a um atormentado delírio.

Como única resposta, a freira convidou-a a observar o inchaço violáceo na cabeça. Receio que um fragmento ósseo se tenha desfeito e esteja a comprimir o cérebro. Hesitou um instante e depois pousou a mão sobre dois livros colocados na mesa que se encontrava ao lado, como que para avalizar a sua tese.

Eudeline conhecia bem aqueles códices, os manuais de prática cirúrgica de Rogerio Frugardi e de Henri de Mondeville. Havia anos, ela própria os consultara, para aprender algumas noções da arte médica, mas sentira-se repugnada. Apercebendo-se de que estavam abertos nas ilustrações do crânio humano, foi tomada de um frémito. Pensais que será necessário...

Se estiver certa, terei de fazer uma incisão na pele e no osso, disse a freira, determinada. Precisarei de ajuda, talvez da irmã Marie... Eudeline abanou a cabeça. A irmã Marie é velha, não tem mão firme». Então quem...» In Marcello Simoni, A Abadia dos Cem Pecados, 2014, tradução de Inês Guerreiro, Clube do Autor, 2016, ISBN 978-989-724-278-6.

Cortesia de CdoAutor/JDACT

JDACT, Marcello Simoni, Literatura,  Conhecimento, Itália,

A Abadia dos Cem Pecados. Marcello Simoni. «O barão picardo avançava para ele e um passo vacilante, pronto a desferir a acha. A desconhecida da capa negra dirigiu um último olhar a Maynard, como se desejasse desafiá-lo…»

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A Pedra do Exílio

Planalto de Crécy. 26 de Agosto de 1346

«- Maynard desferiu-lhe um murro no ventre, encontrando a resistência de uma brigantina guarnecida de tachas. A mulher recuou. Por um instante, manifestou a intenção de desejar continuar a bater-se, mas depois observou o homem morto por Vermandois e deteve-se, dividida entre a raiva e a indecisão.

O barão picardo avançava para ele e um passo vacilante, pronto a desferir a acha. A desconhecida da capa negra dirigiu um último olhar a Maynard, como se desejasse desafiá-lo, ou seduzi-lo. por fim, fugiu, diluindo-se na escuridão a mata.

O cavaleiro foi tentado a segui-la, mas logo que viu Robert diante de si compreendeu que o barão se encontrava em estado de desespero. Meu amigo..., murmurou, ao vê-lo abater-se na terra.

Inclinou-se sobre ele, julgando-o perdido. Apercebendo-se de que ainda respirava, colocou-lhe a cabeça no seu colo. Durante o combate, a cabeça do picardo sofrera um golpe bastante violento. Estava suja de sangue, com uma ferida feia por cima da têmpora direita.

Maynard rasgou uma tira de tecido para o enfaixar, de modo a bloquear a hemorragia, embora soubesse que um remédio daquele tipo não era suficiente: Não vos abandonarei sussurrou-lhe, quase para se tranquilizar a si mesmo. Como resposta, recebeu um grunhido sonolento.

A madrugada começava a iluminar a mata, no limite da clareira. Ainda abalado pelo sucedido e precisando de reflectir, o cavaleiro forçou-se a não perder tempo. Selou os cavalos e carregou o companheiro em fim de vida no seu corcel, prendendo-o ao arção e às correias para se assegurar de que não o perdia durante o trajecto. Já sabia para onde o deveria levar. Em meio-dia, contava entregá-lo aos cuidados de mãos experientes. No entanto, antes de subir para a garupa, quis ver quem era o sicário morto durante o confronto.

O homem jazia de costas, com o tronco dilacerado por um golpe de acha. Trazia uma capa preta e uma brigantina ornada de tachas, tal como a mulher que viera com ele. Maynard reparou logo na fivela que tinha à cintura. Com grande espanto, apercebeu-se de que reproduzia um escudo de armas com um leão de prata em campo vermelho. Observou atentamente a insígnia, para se certificar de que não se enganara, mas com angústia teve de se render às evidências. Era o mesmo que aparecia no castão do anel cardinalício». In Marcello Simoni, A Abadia dos Cem Pecados, 2014, tradução de Inês Guerreiro, Clube do Autor, 2016, ISBN 978-989-724-278-6.

 Cortesia de CdoAutor/JDACT

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sexta-feira, 8 de setembro de 2023

A Abadia dos Cem Pecados. Marcello Simoni. «Confessai! Estais às ordens do príncipe Karel? E se estivesse?, sibilou, dominando-o com o seu corpo franzino»

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A Pedra do Exílio

Planalto de Crécy. 26 de Agosto de 1346

«Rocheblanche já assentava o derradeiro golpe quando os gritos de Robert chamaram a sua atenção. Voltou-se apenas a tempo de o ver estremecer sob um golpe desferido a meio da cabeça. Vermandois vacilou, mas não caiu, e com um movimento inesperado vibrou uma pancada nos joelhos do adversário, deitando-o por terra.

Não pensando estar fora de perigo, o cavaleiro voltou-se imediatamente para o seu rival/ agora aturdido pelo impacto. Girou o pulso para o trespassar na garganta, mas deteve-se um segundo antes. A luz da Lua insinuara-se finalmente entre as abas do capuz negro, revelando algo que o fez recuar.

Um rosto de mulher.

Maynard esqueceu-se do ardor do due1o, combatido entre o fascínio daquela mulher e a curiosidade de saber o que a levara a atacá-lo.

Porque me atacais?, perguntou-lhe em tom ameaçador. Os lábios da mulher abriram-se num rosnar impiedoso. A sua voz era rouca, árida como vento de inverno. Sabemos tudo... Sabemos que sois vós que o tendes!

Ele fitou-a, desfalecido, tentando compreender o sentido daquelas palavras. O pergaminho com o anel!, explicou a mulher, quase desiludida com a sua ingenuidade. Que guardais tão zelosamente.

Uma recordação relampejou na mente de Maynard: o rapaz a surpreendê-lo na tenda com o anel na mão. Talvez aquele episódio não tivesse ocorrido por acaso. Ou talvez o rapaz o tivesse confiado a alguém, e a informação tivesse chegado aos ouvidos da pessoa errada... Ligada a Karel do Luxemburgo! Embora ignorasse o que realmente acontecera, o acto do príncipe de se aproximar com o carro ganhava agora um significado bem preciso. Cuidado, insinuara com o seu sorriso de serpente, descobri o logro.

O rapaz, exclamou de repente o cavaleiro. O que lhe haveis feito?-Afeiçoara-se a vós. A desconhecida sorriu, angelical e cruel. Em vez de continuar a espiar-vos, preferiu morrer e, aproveitando a hesitação do rival, assestou-lhe: um pontapé no joelho esquerdo. Rocheblanche caiu, mas, antes de tocar o chão, agarrou-se à capa da mulher para a arrastar consigo.

Então éreis vós na sacristia da igreja! Agarrou-lhe o pulso para evitar que lhe trespassasse um olho. Confessai! Estais às ordens do príncipe Karel? E se estivesse?, sibilou, dominando-o com o seu corpo franzino.

Dai-me o pergaminho ou mato-vos! Nunca!»  In Marcello Simoni, A Abadia dos Cem Pecados, 2014, tradução de Inês Guerreiro, Clube do Autor, 2016, ISBN 978-989-724-278-6.

Cortesia de CdoAutor/JDACT

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A Abadia dos Cem Pecados. Marcello Simoni. «Um inesperado grito de batalha lembrou-o de Vermandois. Olhou pelo canto do olho, para trás de si, e viu-o manipular uma acha contra um homem armado de espada, voltando a defender-se»

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A Pedra do Exílio

Planalto de Crécy. 26 de Agosto de 1346

«Será então como dizeis, Rocheblanche, insistiu o picardo, mas espero que no momento em que esta impressão se transformar numa ameaça tenhais ao vosso lado um companheiro ousado para vos apoiar.

O cavaleiro evitou replicar e permaneceu em silêncio até entender ter chegado o momento de virar para leste. Então, afastou-se com Robert da companhia de Filipe VI, para enveredar pela estrada que o conduziria a casa. E, como acontecia sempre que cavalgava por aquele percurso, sentiu-se invadir por um profundo fascínio.

Era a via do rei. A que se dirigia a Reims, onde os soberanos de França eram consagrados regentes ungidos com o óleo sagrado de São Remígio, na mística catedral.

Acordou de repente, mas não se mexeu. Ouvira um rumor. Abriu os olhos, encontrando-se estendido ao lado da fogueira apagada, sentiu o frio da terra em contacto com os membros, as roupas entranhadas da humidade da noite. Depois de dois dias de viagem, Rocheblanche e Vermandois tinham acampado ao ar livre para recuperar as forças e haviam adormecido. Reims já estava perto.

De novo aquele rumor, desta vez mais próximo. Maynard mexeu cuidadosamente os olhos, lembrando-se de que adormecera com o punhal na mão. Ainda não era madrugada, mas a abóbada estrelada iluminava a clareira e a mata à sua volta com um luar prateado. Foi portanto com grande clareza que avistou um vulto negro inclinado sobre si próprio.

Aterrorizado, pôs-se de pé, forçando a perna esquerda, com o resultado de se estatelar na relva. O vulto reagiu recuando e, depois, avançou de repente, assumindo uma forma elegante. Maynard entreviu o relampejar de uma lâmina curta e deslizou de lado, mesmo a tempo de evitar um golpe, respondendo ao ataque erguendo o punhal. Sentiu-o raspar contra a lâmina inimiga.

Um inesperado grito de batalha lembrou-o de Vermandois. Olhou pelo canto do olho, para trás de si, e viu-o manipular uma acha contra um homem armado de espada, voltando a defender-se. Transpôs a distância que o separava do agressor e pôs-se em guarda, apontando o punhal e suportando o peso com a perna direita. Desconhecia a identidade dos dois visitantes nocturnos, mas de certeza que não se tratava de meros salteadores. Não era porém o momento certo para fazer perguntas. E quando das trevas surgiu um novo ataque, não se deixou apanhar desprevenido. Virou o tronco para se esquivar e entrou nas defesas do adversário para lhe assestar uma forte cotovelada. A figura envolta na capa acusou o golpe e encolheu-se, embatendo no tronco de uma árvore». In Marcello Simoni, A Abadia dos Cem Pecados, 2014, tradução de Inês Guerreiro, Clube do Autor, 2016, ISBN 978-989-724-278-6.

Cortesia de CdoAutor/JDACT

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quinta-feira, 7 de setembro de 2023

A Abadia dos Cem Pecados. Marcello Simoni. «Ao contrário do companheiro, pelo menos ele ainda tinha algo por que se bater. O amor por Eudeline e o pacto de honra feito com Jane Blannen»

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A Pedra do Exílio

Planalto de Crécy. 26 de Agosto de 1346

«Avançaram por uma estrada dirigida a sul, aflorando aldeias que se iam esvaziando com receio do avanço dos ingleses. Montado no próprio cavalo, Maynard vigiava o andar indolente da égua e a natureza caprichosa de Robert, que aproveitava todas as oportunidades para dar provas da sua gabarolice. sob aquela aparente rudeza, o picardo deixava transparecer a frustração de um aristocrata que assistia ao fim do mundo para o qual sempre vivera, ou julgara viver. O cavaleiro partilhava aqueles sentimentos, embora tivesse consciência de que não se encontrava nas mesmas condições. Ao contrário do companheiro, pelo menos ele ainda tinha algo por que se bater. O amor por Eudeline e o pacto de honra feito com Jane Blannen.

A marcha para sul prosseguiu sem dificuldades especiais até à manhã do segundo dia, quando Maynard viu aproximar-se um grande carro coberto. Antes de poder dar conta disso, uma cortina do habitáculo abriu-se, deixando assomar o rosto de Karel do Luxemburgo. O príncipe não proferiu uma palavra. Limitou-se a fixá-lo, dirigindo-lhe uma saudação, seguida de um sorriso hostil. O cavaleiro retribuiu ambos, sem manifestar receio,mnas manteve-se de sobreaviso até o pano ser corrido e o carro passar adiante com um estalido de rédeas.

Descon heço o motivo, e comentou Vermandois, quase ciumento de não ter beneficiado da mesma atenção, mas estou disposto a jurar que entre vós e o príncipe não corre bom sangue.

Maynard fez um gesto displicente.

Impressão vossa, senhor, e continuou a trote, como se nada fosse». In Marcello Simoni, A Abadia dos Cem Pecados, 2014, tradução de Inês Guerreiro, Clube do Autor, 2016, ISBN 978-989-724-278-6.

Cortesia de CdoAutor/JDACT

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segunda-feira, 30 de agosto de 2021

A Biblioteca Perdida do Alquimista. Marcello Simoni. «Vossa majestade deve ter paciência e ser forte. Em breve, seu exército assediará este castelo e o conde de Nigredo será obrigado a libertá-la»

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«(…) Mãe luminosa, eu escrevo estas cartas em louvor a ti, que foste minha boa mestra e nutriz. Tua fábula sobre o jardim da alquimia não era uma mentira. Encontrei esse jardim na sombra do claustro, além do tétrico portal de Nigredo. Assim denomino a primeira etapa da Obra, pois a matéria a ser forjada se encontra ainda em estado de obscuridade e imperfeição. Essa obscuridade me lembra a lã bruta, a que faltam a forma e a graça. Ninguém pagaria nada por ela, embora esconda dotes maravilhosos. Um grande mistério se oculta em Nigredo, o ventre escuro da terra.

O cardeal Romano Frangipane franziu a testa numa expressão de dúvida e repôs a carta no estojo de onde a tirara, junto a outras ainda não lidas. Quem poderia ter escrito coisas tão delirantes? Certamente uma freira enlouquecida no claustro ou talvez uma beata. A vibração na pálpebra esquerda prenunciou a chegada de uma dor de cabeça. O prelado suspirou, resignando-se a acolher o incómodo, consequência inevitável de suas mudanças de humor. Embora ele sofresse daquelas crises desde a juventude, elas haviam se agravado ultimamente, obrigando-o a refugiar-se no escuro e no silêncio completo. No entanto, disse para si mesmo, o agravamento dos distúrbios nervosos era normal em certas situações, sobretudo na prisão. Fazia semanas que definhava naquela torre, ou talvez meses. As janelas se abriam para um céu cinzento, coberto de névoa e fumaça negra, que não permitiam acompanhar a sucessão dos dias e das noites. Era já um milagre poder conservar a lucidez e o raciocínio. Um ressoar de passos leves antecipou a entrada de uma dama de cabelos ruivos presos num coque. Frangipane saudou-a obsequiosamente e empertigou o copo maciço, cruzando sobre o ventre os dedos que exibiam seis anéis de ouro. Vossa majestade parece preocupada, observou o prelado. E como poderia não estar, eminência? O cardeal sentiu uma pontada na têmpora esquerda, seguida de pulsações que se ramificavam pela testa. Não desanime, minha senhora. Tu és Branca de Castela, rainha da França. Virão logo socorrê-la. A dama lançou-lhe um olhar de censura. Cardeal de Sant’Angelo, por favor, poupe-me dessa conversa enfadonha. Diante dessas palavras, a dor de cabeça do cardeal se intensificou, despertando em Frangipane a vontade de pegar aquela mulher pelo pescoço e estrangulá-la. Foi um impulso violento, como violenta era a aversão que nutria por ela, por seu ar de sensualidade e soberba. Não por acaso, na corte, chamavam-na de Dame Hersent, a loba do fabliau da raposa Renard. E ele a via assim naquele momento, uma mulher insolente e lasciva. Tomado por essa onda de emoções, o cardeal chegou a pensar em esbofetear a Dame Hersent como se ela fosse uma meretriz de quatro tostões, mas, contendo-se, cerrou as mandíbulas e esboçou um sorriso paternal. Vossa majestade deve ter paciência e ser forte. Em breve, seu exército assediará este castelo e o conde de Nigredo será obrigado a libertá-la.

Não é tão simples assim. Branca caminhou até ao prelado balançando os quadris sob o vestido azul. Ela ainda não completara 40 anos e, embora houvesse acabado de dar à luz seu undécimo filho, parecia fresca como uma rosa. Finge não entender? Nosso exército se dividiu e vaga perdido pelo Languedoque. Seu comandante, Humbert Beaujeu, foi encarcerado connosco nesta torre. O cardeal de Sant’Angelo teve de concordar, incapaz de desviar os olhos daquela mulher. A dor de cabeça lhe provocava uma leve vertigem, que acalmava a ira sentida pouco antes. Tinha agora outras fantasias. Imaginava percorrer-lhe o pescoço com toques suaves e depois ir descendo, sob o vestido... Comprimiu os lóbulos frontais com o indicador e o polegar, como para impedir que sua cabeça se partisse ao meio. Por que o atormentavam desejos que jamais concretizara? Se ao menos pudesse mergulhar o rosto em água gelada! Combateu aqueles impulsos doentios e esforçou-se para falar com firmeza: Outro logo substituirá Humbert Beaujeu, nosso lieutenant, e retomará as rédeas das milícias. Tomara que esteja certo, disse Branca, que não parecia notar o conflito interior do cardeal. Mas diga-me, nenhuma notícia de nosso carcereiro? Não foi visto até agora. Não entendo, suspirou Branca. O cardeal de Sant’Angelo assentiu com um gesto de cabeça. É uma situação estranha. O conde de Nigredo não revelou ainda suas intenções. Limita-se a manter-nos prisioneiros. Talvez isso lhe baste para alcançar seus desígnios. Quais seriam eles?» In Marcello Simoni, A Biblioteca Perdida do Alquimista, 2012, tradução de Maria Irene Carvalho, Clube do Autor, Lisboa, 2013, ISBN 978-989-724-089-8.

Cortesia de CAutor/JDACT

Bibliotecas, História, JDACT, Literatura, Marcello Simoni,

domingo, 29 de agosto de 2021

A Biblioteca Perdida do Alquimista. Marcello Simoni. «Airagne!, tentou gritar, lutando contra a sensação de asfixia que lhe apertava a garganta. Sentiu junto de si aquela criatura monstruosa quando o terror o invadiu e seu coração parou de bater»

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«(…) Seu nome é Jaloque, derivado do árabe šaláwq, vento do mar. Ganhei-o do califa al-Mamun, senhor do Magrebe, em troca de alguns tratados astrológicos. Os arqueiros berberes cavalgam em animais dessa mesma raça... Agora é seu. O jovem se inclinou, agradecendo, e aproximou-se do cavalo. Acariciou-lhe o focinho e o pescoço e só então notou que havia um arco de caça preso ao arção posterior. Mera precaução, explicou Galib, entregando-lhe uma aljava. Poderá ser útil. Uberto concordou com um aceno de cabeça. Prendeu a aljava ao flanco direito, pôs um pé no estribo e alçou-se à sela. O corcel bateu com as patas no chão por alguns instantes, depois ergueu a cabeça e bufou. As esporas são desnecessárias, hein, Jaloque?, sussurrou o jovem ao ouvido do animal, acariciando-lhe a crina. Parece mesmo impaciente para galopar. Galib, novamente sério, tirou um rolo da manga esquerda da batina e estendeu-o com certa pressa a Uberto. Entregue esta carta a Raymond Péreille quando chegar ao rochedo de Montségur. Por meio dela, peço-lhe que o ponha a par das informações de que dispõe sobre o conde de Nigredo e lhe dê uma cópia de um raro manuscrito de alquimia que possui: o Turba Philosophorum . Acho que poderá ser de muita utilidade a você e seu pai, para que se inteirem das manobras do inimigo. E vá tranquilo, o senhor de Péreille me conhece há bastante tempo. Não deixará de ajudá-lo. Farei isso, magister. Óptimo, filho. Agora escute: quando sair do castelo, não se dirija à porta principal da muralha, mas sim ao lado oposto. Siga a muralha até uma pequena cancela, onde o esperam dois guardas com quem fiz um acordo. Deu-lhe uma bolsa recheada de moedas. Entregue-lhes isto e o deixarão passar sem problemas. Uberto pegou a bolsa, sopesou-a e prendeu-a ao cinto, junto com a jambiya. Diga a meu pai que me espere em Toulouse, pediu o jovem. E, esporeando o cavalo, saiu a trote da estrebaria. O velho observou-o afastar-se, enquanto uma dor repentina no peito obrigava-o a ajoelhar-se no chão. Lembre-se, gritou apertando nervosamente um tufo de palha entre os dedos, lembre-se do Turba Philosophorum! Uberto, já distante, fez sinal de que entendera sem virar-se na sela. A silhueta do jovem cavaleiro, cada vez mais longínqua, desapareceu na noite.

Enquanto se esforçava para voltar a seu quarto, Galib concluiu que não teria mais muito tempo de vida. Um veneno misterioso devastava-lhe o corpo. Talvez o houvesse ingerido na ceia, misturado à sopa de centeio ou ao refresco de groselha. Ou lhe tivesse sido ministrado depois, durante o sono, antes do encontro secreto com Uberto. Fosse como fosse, a maldita substância começava a turvar sua percepção da realidade. A luz das tochas emergia das sombras com estranha intensidade, alongando-se pelo chão como rastros de caracol. O cheiro de resina e salitre chegava-lhe às narinas amplificado e nauseante; a vertigem impedia-o de continuar andando e a falta de ar aumentava a cada passo. Por isso apressara tanto Uberto, correndo o risco de parecer grosseiro e mesmo suspeito. Cerca de uma hora antes, notara os sintomas da intoxicação e sua experiência na matéria o induzira logo a atribuí-los ao envenenamento. Fora obrigado a agir enquanto estava ainda lúcido. E ele o fez. Tinha conseguido encaminhar o rapaz. Agora só lhe restava chegar ao seu alojamento e consultar algum livro para descobrir o antídoto apropriado, embora isso lhe parecesse um esforço quase inútil. Antes, porém, devia encontrar uma maneira de informar Ignazio das suas suspeitas.

A estrada que levava ao torreão parecia interminável, um calor opressivo no rosto e no peito forçava-o a parar a todo instante para recuperar o fôlego. De súbito, numa dessas pausas, viu-se diante de uma figura envolta numa capa preta. O encontro foi tão inesperado que o velho recuou um passo, arriscando-se a cair. Quem é você?, perguntou num primeiro impulso, mas logo emendou: Ah, eu o conheço... Muito bem, replicou o encapuzado. Assim ficará mais à vontade para me revelar aonde enviou o rapaz com tanta urgência. Maldito... O velho levou a mão ao peito. Então foi você quem me envenenou... É muito perspicaz, magister. Lê nas pessoas quase tão bem quanto nos livros. A figura avançou lentamente. E por falar em livros, deve imaginar o que estou procurando. Diga-me então onde está o Turba Philosophorum. Galib recuou mais um passo. Não lhe direi nada. Paciência, suspirou o encapuzado. Quer saber de uma coisa? A dose de veneno que lhe dei não seria mortal para um homem saudável, mas você está decrépito. Será talvez questão de minutos... Ao que parece, já tem dificuldade para respirar. O magister cambaleou, mas fez um esforço e se apoiou a uma parede. Foi então que, num último lampejo de lucidez, viu algo cintilar no pescoço do homem da capa: um pingente dourado com a forma de um insecto de oito patas. O símbolo de Airagne!, exclamou aterrorizado. Aquele lugar maldito... Sim, o castelo de Airagne, confirmou a sombra em tom ameaçador. Airagne, a morada do conde de Nigredo... Pois bem, mas agora você..., sabe muitas coisas, ou melhor, coisas demais. O encapuzado se aproximou. O velho, agora tomado pelo delírio, não viu uma figura humana avançar ao seu encontro, mas oito patas compridas e finas, providas de olhos bulbosos, que luziam na treva.

Airagne!, tentou gritar, lutando contra a sensação de asfixia que lhe apertava a garganta. Sentiu junto de si aquela criatura monstruosa quando o terror o invadiu e seu coração parou de bater». In Marcello Simoni, A Biblioteca Perdida do Alquimista, 2012, tradução de Maria Irene Carvalho, Clube do Autor, Lisboa, 2013, ISBN 978-989-724-089-8.

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A Biblioteca Perdida do Alquimista. Marcello Simoni. «Gosta de cavalos? Oh, sim, respondeu Uberto. O magister aproximou-se de um magnífico garanhão já selado, acariciou-lhe a crina e verificou se as rédeas e os arreios estavam bem firmes»

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«(…) Essas manchas no rosto... A respiração irregular... O que você tem? Nada de grave, assegurou-lhe Galib, apoiando-se à parede. Apenas uma leve indisposição. Na minha idade... Tentou sorrir. Depois que o velho se recuperou um pouco, Willalme se aproximou de Uberto e estendeu-lhe a mão. Faça boa viagem, amigo. E, com um gesto ao mesmo tempo inesperado e tímido, entregou-lhe o seu punhal árabe. Poderá ser-lhe útil. O jovem observou o objecto revestido na sua bainha de marfim. Mas é a sua jambiya! Não posso aceitar um presente desses... O francês colocou a arma nas mãos de Uberto, forçando-o a segurá-la. Não insista, detesto rodeios. A devolverá no nosso próximo encontro. O mercador lançou um último olhar ao vacilante Galib e em seguida abraçou o filho. Esse gesto simples, embora movido por sentimentos sinceros, foi difícil para ele. Manifestar afecto sempre lhe custava esforço e constrangimento. Uberto se desvencilhou. Pai, deixe disso, eu tinha 15 anos quando me abraçou pela última vez. Fique atento, filho, recomendou Ignazio. Se lhe acontecer alguma coisa, eu não me perdoarei jamais. Não se preocupe, serei rápido e cuidadoso. Nós nos veremos em Toulouse. É provável que eu já esteja lá quando chegarem. Se não, esperem-me ou deixem recado dizendo o lugar onde poderei encontrá-los. O mercador assentiu. Se houver algum contratempo, deixarei uma mensagem na hospedaria da catedral. Não me esquecerei. Galib interveio impaciente: É hora de partir.

Depois de uma derradeira saudação, Uberto pôs o alforje ao ombro e saiu do quarto atrás do magister. O velho e o rapaz deixaram o torreão, passando em silêncio pelos postos de guarda, até chegarem ao pátio, de onde puderam avançar em segurança protegidos pelas sombras da vegetação. Galib caminhava com dificuldade crescente e mais de uma vez Uberto se prontificou a ampará-lo, mas, vendo que o ancião recusava a sua ajuda, desistiu. No espaço de poucas horas, mudara repetidamente de opinião sobre ele. Como quase sempre lhe acontecia quando em presença de eruditos ou cortesãos, não conseguira compreendê-lo de início. Primeiro, julgara-o uma pessoa ambiciosa, empenhada em obter as boas graças do rei e em fomentar intrigas; depois, à mesa, achara-o medroso e inseguro, mas por fim soubera apreciar a sua inteligência e o afecto sincero que dedicava a Ignazio. Só agora fazia uma ideia precisa do ancião: Galib era obstinado e orgulhoso, não tímido, mas previdente, e, sobretudo, estava decidido a agir em prol do bem comum. Porém, Uberto desconfiava que estivesse escondendo alguma coisa. A silhueta do velho continuava avançando sobre a relva, cambaleando como um soldado ferido. Não estava encenando nada nem se entregando a um capricho de sábio entediado: aquela era uma missão que ele queria ver cumprida a todo custo. Por isso, e pela dignidade da sua atitude, o jovem confiava nele e resolvera ajudá-lo sem pedir muitas explicações.

Depois de percorrer um breve trecho, chegaram a uma pequena construção de pedra e argila. O magister se apoiou no portal, olhando em volta. Entre depressa, disse. Uberto entrou e logo sentiu o cheiro de feno e esterco. A luz do luar penetrava pelas fendas das paredes iluminando o recinto, onde se viam equipamentos de estrebaria, caça, guerra e desfile. O velho atravessou o recinto ordenando: Siga-me. Depois de passarem por uma espécie de antecâmara, chegaram ao interior de uma cavalariça. E, pela primeira vez desde que tinham saído do torreão, Galib virou-se para o jovem com um olhar de cumplicidade e disse: Gosta de cavalos? Oh, sim, respondeu Uberto. O magister aproximou-se de um magnífico garanhão já selado, acariciou-lhe a crina e verificou se as rédeas e os arreios estavam bem firmes. Com este viajará rápido. Era um cavalo de raça. Não um daqueles ginetes turcomanos enormes, importados da Espanha, capazes de suportar o peso de guerreiros encouraçados; lembrava antes um corcel árabe, embora tivesse o porte mais imponente e pernas mais robustas. Um esplêndido exemplar, admitiu Uberto. Galib sorriu com orgulho». In Marcello Simoni, A Biblioteca Perdida do Alquimista, 2012, tradução de Maria Irene Carvalho, Clube do Autor, Lisboa, 2013, ISBN 978-989-724-089-8.

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sábado, 22 de fevereiro de 2020

Abadia dos Cem Pecados. Marcello Simoni. «Mal o conhecia, ignorava o seu nome, mas nutria por ele um sentimento de reconhecimento que pretendia recompensar, salvando-o da miséria»

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A pedra do exílio
Planalto de Crécy. 26 de Agosto de 1346
«(…) Temos de ir, disse Vermandois, espetando um pontapé num gato que se aproximara a ronronar. Maynard anuiu. Levantara-se de madrugada para carregar as peças da armadura na égua. Nessa noite dormira pouco. Aproveitava o ar matinal para despertar e afastar a preocupação. Desde que o rapaz lhe falara no indivíduo da capa preta, os seus pensamentos desviavam-se permanentemente para a figura escondida na penumbra da sacristia, fomentando em si o receio de uma emboscada. No entanto, havia outra razão pela qual não conseguia ficar parado. Embora continuasse a desconhecer o significado do enigma do Lapis exilii, lembrara-se finalmente do local onde ouvira as palavras contidas no primeiro verso do pergaminho. Ocorrera sob uma arcada de pedra, diante de um livro aberto numa estante de igreja... Em Reims, no convento onde se encontrava encerrada a sua irmã Eudeline. Estou quase pronto, disse ao companheiro, dando-lhe uma palmada no ombro.
Recuperastes rapidamente. O picardo analisou o seu aspecto, agradado. Ainda bem, meu amigo, visto que podemos pôr-nos a caminho com o séquito de sua majestade. Que honra, murmurou o cavaleiro, passando à verificação da sela do cavalo negro. Ainda coxeava, mas conseguia manter-se em equilíbrio sem o cajado. Vermandois emitiu um grunhido. A honra de quem foge com o rabo entre as pernas, e aproximou-se do cavalo preto, desgrenhando-lhe a crina. Também vos dirigis a Paris? Antes de responder, Maynard apertou as correias que fixavam os estribos. Seguirei com o séquito até ao condado de Beauvais e depois avançarei para levante. Para Reims, imagino. Os vossos feudos esperam-vos. Os feudos não, mas uma pessoa muito querida. Os olhos do picardo semicerraram-se. Uma longa viagem, e ainda agora acabais de recuperar. Não queirais fazer de minha ama, acrescentou Rocheblanche, aproveitando o ensejo. Já vos estou suficientemente grato. Robert Vermandois tentou esconder o embaraço.
Na verdade, meu amigo, aproveitarei a vossa companhia para desfrutar de um pouco de hospitalidade. Como sabeis, não possuo terra nem família para as quais regressar. Maynard observou a sua expressão sem se fazer notar, imaginando quanto lhe teria custado semelhante confissão. O barão descendia de uma linhagem muito antiga, de origens quase lendárias. No entanto, tendo ficado viúvo, vira os familiares da esposa dissipar os seus bens. Privado de feudos e de dinheiro, dizia-se que vivia recolhido num castelo à espera de aventuras guerreiras. Não tenho intenção de ficar na minha habitação, sorriu, conciliador. Assim sendo, ter-vos ao meu lado será um privilégio. Dito isto, terminou os preparativos fixando ao arção uma longa espada de corte, recuperada do acampamento para substituir a que perdera em batalha, e prendeu à cintura a espada de estoque, de lâmina mais curta e pesada. Combinou assim caminhar perto do rapaz. Mal o conhecia, ignorava o seu nome, mas nutria por ele um sentimento de reconhecimento que pretendia recompensar, salvando-o da miséria. Desejava mantê-lo na sua companhia para fazer dele um palafreneiro ou um escudeiro. Contudo, depois de procurar por todo o acampamento, teve de renunciar ao propósito. Parecia ter desapa­recido por completo.
Conformado a partir sem o rapaz, Maynard apressou os últimos preparativos. Entretanto, pensou na sua casa, nos escassos feudos herdados do pai e na irmã, a única sobrevivente da família. Não a via há mais de um ano, e o pensamento de voltar a abraçá-la fazia com que as suas preocupações abrandassem.
Como determinado, pôs-se a caminho com Vermandois no séquito do rei, com os nobres de elevado estatuto e com os religiosos: um privilégio a que teria voluntariamente renunciado, quanto mais não fosse pelo facto de uma companhia bem guarnecida gozar da vantagem de desencorajar as emboscadas dos mais ousados exploradores de Eduardo III. Na sua maior parte, os homens da comitiva deslocavam-se a cavalo, entregando a mulas e a outros animais de carga o peso das armas e das armaduras. Não faltavam carros, utilizados principalmente para transportar as figuras de maior estatuto». In Marcello Simoni, A Abadia dos Cem Pecados, 2014, tradução de Inês Guerreiro, Clube do Autor, 2016, ISBN 978-989-724-278-6.

Cortesia de CdoAutor/JDACT

Abadia dos Cem Pecados. Marcello Simoni. « Aproveitava todos os momentos de solidão para o examinar, na esperança de alcançar o seu significado profundo, sobretudo depois do pôr-do-Sol, à chama de uma candeia…»



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A pedra do exílio
Planalto de Crécy. 26 de Agosto de 1346
«(…) Entretanto, as visitas de Vermandois tornaram-se assíduas. Antes de levantar as tendas, o barão picardo insistia em querer ver Maynard restabelecido. Com esse objectivo, enviou-lhe um cirurgião para o tratar, o qual lhe aplicava unguentos curativos e uma modesta quantidade de ópio, para atenuar a dor na perna. Além disso, procurou a sua companhia em especial para se entreter em longas partidas de xadrez, durante as quais os dois beberricavam aguardente e conversavam sobre tudo um pouco. Muito rapidamente, o cavaleiro convenceu-se de que as suas melhoras não se deviam apenas aos medicamentos, mas também à presença daquele homem rude e orgulhoso. Que o ajudara a curar-se sobretudo em espírito. Desde que saíra da sacristia, trazia dentro de si uma grande amargura. A indiferença de Filipe VI face ao destino de Calais apresentara-lhe algo de mais desagradável do que uma simples reacção humana. Com efeito, as palavras do rei encerravam uma triste verdade, que muitos não expressavam. Os tempos da cavalaria haviam chegado ao fim. Fora suplantado por um tipo de guerra mais evoluído, no qual a coragem dos homens não contava relativamente ao extermínio dos inimigos. Entre um movimento de peças e outro, o cavaleiro falava do assunto com Robert, lamentando-se por viver numa época privada de coragem e de dignidade. Por outro lado, não era ingénuo. Sabia bem que as nobres gestas viviam apenas nas chanson recitadas nos torneios e nas legendae dos santos guerreiros. No entanto, não era hipócrita. Considerava que as estratégias de Eduardo III eram tão ignóbeis como as prepotências perpetradas por muitos milites franceses. Mas dentro de si ainda havia fé. A fé nos ideais que alimentara desde criança. A fé que vira pisada primeiro pelo pai e agora pelo seu soberano.
No entanto, outra preocupação não lhe dava tréguas: o texto contido no pequeno pergaminho. Aproveitava todos os momentos de solidão para o examinar, na esperança de alcançar o seu significado profundo, sobretudo depois do pôr-do-Sol, à chama de uma candeia, quando os maus presságios não lhe permitiam ganhar o sono. Foi assim que uma noite, depois da enésima tentativa, se apercebeu de que o primeiro verso do enigma lhe infundia uma remota sensação de familiaridade. O anjo, a pedra, o mar... Já devia ter ouvido aquelas palavras, estava convencido disso, ainda que não se conse­guisse lembrar de onde ou de quando. Invadido pela frustração, pôs o pergaminho de lado para observar a insígnia do anel de ouro. Seria possível que Karel do Luxemburgo estivesse realmente envolvido naquele obscuro acontecimento?, perguntou-se. Está sempre rodeado de padres, dissera Robert de Vermandois. De padres..., e de cardeais. O que fazeis, senhor? Maynard ergueu a candeia e viu o rapaz surgir das sombras. Não tens nada com isso, exclamou, irritado consigo mesmo por se ter deixado apanhar de surpresa. E esse magnífico anel?, questionou o jovem, apontando para o objecto, que cintilava na escuridão. É vosso? Nunca vi nada de semelhante. Preocupa-te com os teus assuntos, repreendeu-o o cavaleiro, cada vez mais áspero. O rapaz dirigiu-se para a saída, fingindo-se ofendido. O que significa que não vos contarei sobre o homem de preto. Que homem?, perguntou Maynard, voltando a chamá-lo. Aquele que há pouco andava a rondar a vossa tenda. Logo que me viu, foi-se embora. Rocheblanche franziu as sobrancelhas. Serias capaz de o descrever? Estava muito escuro para lhe ver o rosto, respondeu o rapaz. Trazia uma capa preta com o capuz descido até ao queixo. Só reparei que era de estatura baixa e que devia ser bastante novo, porque não tinha barba». In Marcello Simoni, A Abadia dos Cem Pecados, 2014, tradução de Inês Guerreiro, Clube do Autor, 2016, ISBN 978-989-724-278-6.

Cortesia de CdoAutor/JDACT

sexta-feira, 5 de julho de 2019

A Biblioteca Perdida do Alquimista. Marcello Simoni. «Enquanto se esforçava para voltar ao seu quarto, Galib concluiu que não teria mais muito tempo de vida. Um veneno misterioso devastava-lhe o corpo»

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«(…) Galib, novamente sério, tirou um rolo da manga esquerda da batina e estendeu-o com certa pressa a Uberto. Entregue esta carta a Raymond Péreille quando chegar ao rochedo de Montségur. Por meio dela, peço-lhe que o ponha a par das informações de que dispõe sobre o conde de Nigredo e lhe dê uma cópia de um raro manuscrito de alquimia que possui: o Turba Philosophorum. Acho que poderá ser de muita utilidade a você e seu pai, para que se inteirem das manobras do inimigo. E vá tranquilo, o senhor de Péreille me conhece há bastante tempo. Não deixará de ajudá-lo. Farei isso, magister. Óptimo, filho. Agora escute: quando sair do castelo, não se dirija à porta principal da muralha, mas sim ao lado oposto. Siga a muralha até uma pequena cancela, onde o esperam dois guardas com quem fiz um acordo. Deu-lhe uma bolsa recheada de moedas. Entregue-lhes isto e o deixarão passar sem problemas. Uberto pegou a bolsa, sopesou-a e prendeu-a ao cinto, junto com a jambiya. Diga a meu pai que me espere em Toulouse, pediu o jovem. E, esporeando o cavalo, saiu a trote da estrebaria. O velho observou-o afastar-se, enquanto uma dor repentina no peito obrigava-o a ajoelhar-se no chão. Lembre-se, gritou apertando nervosamente um tufo de palha entre os dedos, lembre-se do Turba Philosophorum! Uberto, já distante, fez sinal de que entendera sem virar-se na sela. A silhueta do jovem cavaleiro, cada vez mais longínqua, desapareceu na noite.
Enquanto se esforçava para voltar ao seu quarto, Galib concluiu que não teria mais muito tempo de vida. Um veneno misterioso devastava-lhe o corpo. Talvez o houvesse ingerido na ceia, misturado à sopa de centeio ou ao refresco de groselha. Ou lhe tivesse sido ministrado depois, durante o sono, antes do encontro secreto com Uberto. Fosse como fosse, a maldita substância começava a turvar a sua percepção da realidade. A luz das tochas emergia das sombras com estranha intensidade, alongando-se pelo chão como rastros de caracol. O cheiro de resina e salitre chegava-lhe às narinas amplificado e nauseante; a vertigem impedia-o de continuar andando e a falta de ar aumentava a cada passo. Por isso apressara tanto Uberto, correndo o risco de parecer grosseiro e mesmo suspeito. Cerca de uma hora antes, notara os sintomas da intoxicação e sua experiência na matéria o induzira logo a atribuí-los ao envenenamento. Fora obrigado a agir enquanto estava ainda lúcido. E ele o fez. Tinha conseguido encaminhar o rapaz. Agora só lhe restava chegar ao seu alojamento e consultar algum livro para descobrir o antídoto apropriado, embora isso lhe parecesse um esforço quase inútil. Antes, porém, devia encontrar uma maneira de informar Ignazio de suas suspeitas.
A estrada que levava ao torreão parecia interminável, um calor opressivo no rosto e no peito forçava-o a parar a todo instante para recuperar o fôlego. De súbito, numa dessas pausas, viu-se diante de uma figura envolta numa capa preta. O encontro foi tão inesperado que o velho recuou um passo, arriscando-se a cair. Quem é você?, perguntou num primeiro impulso, mas logo emendou: ah, eu o conheço... Muito bem, replicou o encapuzado. Assim ficará mais à vontade para me revelar aonde enviou o rapaz com tanta urgência. Maldito... O velho levou a mão ao peito. Então foi você quem me envenenou... É muito perspicaz, magister. Lê nas pessoas quase tão bem quanto nos livros. A figura avançou lentamente. E por falar em livros, deve imaginar o que estou procurando. Diga-me então onde está o Turba Philosophorum. Galib recuou mais um passo». In Marcello Simoni, A Biblioteca Perdida do Alquimista, 2012, tradução de Maria Irene Carvalho, Clube do Autor, Lisboa, 2013, ISBN 978-989-724-089-8.

Cortesia de CAutor/JDACT

segunda-feira, 24 de junho de 2019

A Biblioteca Perdida do Alquimista. Marcello Simoni. «… as esporas são desnecessárias, hein, Jaloque?, sussurrou o jovem ao ouvido do animal, acariciando-lhe a crina. Parece mesmo impaciente para galopar»

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«(…) Essas manchas no rosto... A respiração irregular... O que você tem? Nada de grave, assegurou-lhe Galib, apoiando-se à parede. Apenas uma leve indisposição. Na minha idade... Tentou sorrir. Depois que o velho se recuperou um pouco, Willalme se aproximou de Uberto e estendeu-lhe a mão. Faça boa viagem, amigo. E, com um gesto ao mesmo tempo inesperado e tímido, entregou-lhe seu punhal árabe. Poderá ser-lhe útil. O jovem observou o objecto revestido na sua bainha de marfim. Mas é a sua jambiya! Não posso aceitar um presente desses... O francês colocou a arma nas mãos de Uberto, forçando-o a segurá-la. Não insista, detesto rodeios. Você a devolverá no nosso próximo encontro. O mercador lançou um último olhar ao vacilante Galib e em seguida abraçou o filho. Esse gesto simples, embora movido por sentimentos sinceros, foi difícil para ele. Manifestar afecto sempre lhe custava esforço e constrangimento.
Uberto se desvencilhou. Pai, deixe disso, eu tinha 15 anos quando você me abraçou pela última vez. Fique atento, filho, recomendou Ignazio. Se lhe acontecer alguma coisa, eu não me perdoarei jamais. Não se preocupe, serei rápido e cuidadoso. Nós nos veremos em Toulouse. É provável que eu já esteja lá quando chegarem. Se não, esperem-me ou deixem recado dizendo o lugar onde poderei encontrá-los. O mercador assentiu. Se houver algum contratempo, deixarei uma mensagem na hospedaria da catedral. Não me esquecerei. Galib interveio impaciente: é hora de partir. Depois de uma derradeira saudação, Uberto pôs o alforje ao ombro e saiu do quarto atrás do magister.
O velho e o rapaz deixaram o torreão, passando em silêncio pelos postos de guarda, até chegarem ao pátio, de onde puderam avançar em segurança protegidos pelas sombras da vegetação. Galib caminhava com dificuldade crescente e mais de uma vez Uberto se prontificou a ampará-lo, mas, vendo que o ancião recusava sua ajuda, desistiu. No espaço de poucas horas, mudara repetidamente de opinião sobre ele. Como quase sempre lhe acontecia quando em presença de eruditos ou cortesãos, não conseguira compreendê-lo de início. Primeiro, julgara-o uma pessoa ambiciosa, empenhada em obter as boas graças do rei e em fomentar intrigas; depois, à mesa, achara-o medroso e inseguro, mas por fim soubera apreciar sua inteligência e o afecto sincero que dedicava a Ignazio. Só agora fazia uma ideia precisa do ancião: Galib era obstinado e orgulhoso, não tímido, mas previdente, e, sobretudo, estava decidido a agir em prol do bem comum. Porém, Uberto desconfiava que estivesse escondendo alguma coisa.
A silhueta do velho continuava avançando sobre a relva, cambaleando como um soldado ferido. Não estava encenando nada nem se entregando a um capricho de sábio entediado: aquela era uma missão que ele queria ver cumprida a todo custo. Por isso, e pela dignidade de sua atitude, o jovem confiava nele e resolvera ajudá-lo sem pedir muitas explicações. Depois de percorrer um breve trecho, chegaram a uma pequena construção de pedra e argila. O magister se apoiou no portal, olhando em volta. Entre depressa, disse. Uberto entrou e logo sentiu o cheiro de feno e esterco. A luz do luar penetrava pelas fendas das paredes iluminando o recinto, onde se viam equipamentos de estrebaria, caça, guerra e desfile. O velho atravessou o recinto ordenando: siga-me. Depois de passarem por uma espécie de antecâmara, chegaram ao interior de uma cavalariça. E, pela primeira vez desde que tinham saído do torreão, Galib se virou para o jovem com um olhar de cumplicidade e disse: gosta de cavalos? Oh, sim, respondeu Uberto. O magister aproximou-se de um magnífico garanhão já selado, acariciou-lhe a crina e verificou se as rédeas e os arreios estavam bem firmes.
Com este V.viajará rápido. Era um cavalo de raça. Não um daqueles ginetes turcomanos enormes, importados da Espanha, capazes de suportar o peso de guerreiros encouraçados; lembrava antes um corcel árabe, embora tivesse o porte mais imponente e pernas mais robustas. Um esplêndido exemplar, admitiu Uberto. Galib sorriu com orgulho. Seu nome é Jaloque, derivado do árabe šaláwq, vento do mar. Ganhei-o do califa al-Mamun, senhor do Magrebe, em troca de alguns tratados astrológicos. Os arqueiros berberes cavalgam em animais dessa mesma raça... Agora é seu. O jovem se inclinou, agradecendo, e aproximou-se do cavalo. Acariciou-lhe o focinho e o pescoço e só então notou que havia um arco de caça preso ao arção posterior.
Mera precaução, explicou Galib, entregando-lhe uma aljava. Poderá ser útil. Uberto concordou com um aceno de cabeça. Prendeu a aljava ao flanco direito, pôs um pé no estribo e alçou-se à sela. O corcel bateu com as patas no chão por alguns instantes, depois ergueu a cabeça e bufou. Com você, as esporas são desnecessárias, hein, Jaloque?, sussurrou o jovem ao ouvido do animal, acariciando-lhe a crina. Parece mesmo impaciente para galopar». In Marcello Simoni, A Biblioteca Perdida do Alquimista, 2012, tradução de Maria Irene Carvalho, Clube do Autor, Lisboa, 2013, ISBN 978-989-724-089-8.

Cortesia de CAutor/JDACT

quarta-feira, 26 de dezembro de 2018

O Manuscrito nos Confins do Mundo. Marcello Simoni. «Chega, padre, sede compassivo, recomendou-lhe o chanceler com a sua calma fingida. Deixemos ao nosso magíster esta magra consolação»

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O Signo do Sagitário. Paris, noite de 26 de Fevereiro
«(…) Uma calúnia?, repetiu Philippus num tom sarcástico. Não digais tolices, magíster. As vossas referências a Aristóteles não se limitaram ao episódio de hoje, sabemo-lo muito bem. E, além disso, também sabemos que possuís livros de filosofia natural. Libri proibiti. Suger cresceu em raiva e em vergonha. Já não lhe restavam dúvidas, tinham-lhe montado uma armadilha. Mas dizei-me por que razão me encontro aqui? Quereis humilhar-me? Quereis confirmar o primado da teologia sobre a ciência médica? Não, este é apenas um preâmbulo. O chanceler concedeu-lhe um sorriso, deixando entrever um aspecto da sua verdadeira personalidade. Rolando de Cremona, em comparação, era um pequeno gato indefeso. O motivo é informar-vos de que as vossas infracções poderão custar-vos a excomunhão. É inaudito, vossa paternidade!, protestou Suger. Parece-me uma medida excessiva. Excessiva, não direi, mas evitável. Phiiippus balançou-se na cadeira, como se fizesse uma manobra de diversão. Seria uma solução indolor.
O exílio, pontuou frei Rolando, rápido como uma punhalada. Suger sentiu-se desfalecer. Não podeis pedir-me que deixe o Studium de Paris..., exclamou com voz destroçada. Só de pensar nessa hipótese teve a impressão de se precipitar num poço sem fundo, e por pouco não caiu de joelhos. A ciência médica é a minha vida! É tudo para mim! Não compreendeis? Se deixasse esta cidade... Não vos servirá de nada lamentar-vos, admoestou-o Philippus, quase impassível. Tendes razão, e se jurasse nunca mais divulgar a filosofia natural…
Já o fizestes uma vez, quando vos foi entregue a cátedra. Ao que parece, não vos serviu de nada. E, no entanto, como podeis pretender que me vá embora sem um pré-aviso razoável, depois de tantos anos de trabalho... Pensai bem, interrompeu-o o chanceler. Se fôsseis alvo de excomunhão, nunca mais iríeis encontrar um emprego digno dos vossos conhecimentos, nem em Paris nem noutro sítio qualquer. Era verdade, pensou Suger. Nenhuma escola acolheria um magíster ferido de anátema. Nem mesmo o mais genial. Estava preocupado, mas insistir só iria piorar as coisas. Porque a acusação era fundada. Como bem sabia, os decretos eclesiásticos proibiam categoricamente que os livros de filosofia natural fossem lidos e comentados em público ou em segredo, sob pena de excomunhão. Muitos outros mestres, antes dele, tinham-se visto constrangidos a emigrar para Toulouse para poderem continuar a ensinar Aristóteles sem serem perseguidos.
E, no entanto, não suportava a ideia de se dar por vencido perante Philippus Cancellarius e os seus lambe-botas. A frustração fazia-lhe dores de estômago e alimentava uma raiva desdenhosa, mas era sobretudo o desespero que lhe apertava o coração. O que faria dali em diante? Para onde iria? Envolto num tumulto de sentimentos, avançou de repente e bateu com o punho na escrivaninha. Não penseis que isto vai ficar por aqui!, gritou. Depois mordeu os lábios, lembrando-se, de repente, de uma outra questão. Além disso, exclamou, não penseis que irei deixar de exercer antes de ter preparado um dos meus discípulos para o bacharelato. Nem pensar nisso, disse frei Rolando entre dentes. O vosso discípulo será entregue a magísteres bem mais competentes. Deveis afastar-vos já.
Chega, padre, sede compassivo, recomendou-lhe o chanceler com a sua calma fingida. Deixemos ao nosso magíster esta magra consolação. Pensando bem, dentro em breve, em Paris, não haverá lugar para quem ensina as mentiras de Aristóteles. Um sorriso abriu-se entre as suas gordas bochechas. Suger de Petit-Pont é apenas o primeiro de uma longa lista.
No limite das suas forças, o médico conteve-se a custo para não se lançar contra os seus acusadores. Depois reparou nos dois guardas que tinha atrás de si. Arrastaram-no para o exterior, humilhando-o uma vez mais». In Marcello Simoni, O Manuscrito nos Confins do Mundo, 2013, Clube do Autor, Lisboa, 2014, ISBN 978-989-724-169-7.
                                                                                                              
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