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quinta-feira, 7 de maio de 2020

As Farpas. Crónicas de Jornal. Ramalho Ortigão. «Fora, em vez de irem empilhados como no interior, os passageiros são ensanduichados metodicamente com as bagagens e com as mercadorias…»

Cortesia de wikipedia e jdact

«(…) É um bom tipo do género a pequena igreja velha das Almas, à entrada de Viana pelo lado de Meadela. Rodeia-a um pequeno adro, em que a erva sobe ao último degrau do cruzeiro da Via Sacra. A sombra de seis altos e esguios ciprestes marca a hora no chão, como no mostrador de um relógio de sol, e no tecto do templo, apainelado em madeira de castanho, uma pintura moderna, recente produto da arte constitucional do último quartel do nosso século, representa um óptimo burguês de Viana, director talvez do Banco Agrícola e Industrial, no acto de subir ao Céu, dando vivas à Carta e à Junta da Paróquia. Mais para o interior do campo deixa de grassar a pintura moderna nos monumentos religiosos.
Os tectos das pequenas igrejas esverdinham-se de musgo; as andorinhas fazem ninho nos relevos arquitectónicos junto do postigo gradeado do coro; crescem os tortulhos na base do madeiramento dos altares; um Bom Jesus, ingenuamente carpinteirado, parece dormir tranquilo, grato à simplicidade encantadora deste culto, satisfeito de uma felicidade vegetal nas suas cinco chagas, as quais, lembrado talvez da sua anterior existência de laranjeira, ele toma antes por alporques do que por lançadas, tendo mais vontade de dar folha e fruto aos bons viventes do que de lhes pedir fel do alto da sua cruz de talha, entre os palmitos murchos da última festa do orago! E, por fora da torre estreita e quadrada, a corda do sino, pendente do gancho da porta, oscila, solta no espaço à viração dos campos, como fazendo batuta de regente ao compassado ondular das messes.
Os abades têm as batinas velhas, os cabeções um pouco pingados de rapé e os sapatos cambadas pelas longas caminhadas às codornizes; mas são geralmente gordos, saudáveis e nédios. Os enfezados e os magrizelas são vítimas de antigas enfermidades heterodoxas, contraídas no tempo de minoristas quando estudantes nos seminários de Braga ou de Lamego, não jamais porque os definhe como curas de almas a esterilidade dos passais ou a magreza dos pés de altar. Alguns destes pastores espirituais são particularmente interessantes. Numa freguesia deste bispado o pároco, desejando desviar os rapazes seus fregueses do vício funesto do jogo, conseguiu fazer representar o drama salutar intitulado Trinta Anos ou a Vida de Um Jogador por uma companhia de curiosos analfabetos, que ele mesmo ensaiou, ensinando-lhes os papéis de ouvido, como lhes ensinara a cartilha. Na representação uma das personagens da peça, a dama, leu de-fio-a-pavio uma carta que recebia em cena, e leu-a bem, no meio dos aplausos gerais do público. Somente, por um infernal descuido, o jovem rapaz das vacas, incumbido do interessante papel da heroína a quem era endereçada a epístola, esqueceu-se de a abrir, e foi através do sobrescrito lacrado que leu com ardor, vibrante de comoção trágica, a longa narrativa do fatal caso!
Um outro, com luzes da língua francesa e espírito aberto ao modernismo, começou a prática de uma dominga quaresmal dirigindo-se aos fiéis da sua pequena paróquia rural nos seguintes termos de dentista de almas: madamas e monsiús. Esta erudita amenidade de boulevardeiro produziu sobre o pêlo de todas as ovelhas presentes uma satisfação enorme. De resto, o meu amigo Guerra Junqueiro, o qual enquanto não fizer da sua casa um poema, que eu espero, fez já um poema da casa que habita em Viana, tinha razão ao dizer-me que esta é a terra da promissão para os artistas e para os abades: a paisagem do Lima deslumbra e engorda. Uma coisa inteiramente especial e digna de estudo é o aspecto das numerosas diligências, breaks e chars-à-bancs, que circulam sobre estas estradas, desde os Arcos e desde Ponte de Lima até Viana.
Dois pequenos garranos, quando não é um só, puxam por cima do macadame faiscante de sol as mais fantásticas carradas de gente e de objectos que a imaginação pode conceber. Dentro do veículo senta-se a primeira camada de passageiros nas bancadas. Depois de todos os lugares ocupados estreitissimamente, à cunha, o veículo considera-se completamente vazio, e mete-se-lhe a segunda camada de passageiros, colocada exactamente em cima da primeira. Feita esta operação começa o interior do carro a achar-se quase cheio, mas não cheio de todo, porque entre o tecto, os joelhos e os bustos dos passageiros da segunda camada nota-se ainda um espaço oblongo a toda a extensão da berlinda, desde a portinhola do fundo até ao vidro da frente. Preenchido este espaço com um passageiro estendido ao comprido, passa-se a ocupar os bancos da imperial e o tejadilho.
Fora, em vez de irem empilhados como no interior, os passageiros são ensanduichados metodicamente com as bagagens e com as mercadorias, pela ordem seguinte: camada de mercadorias, primeira camada de passageiros, primeira camada de bagagens, segunda camada de passageiros, segunda camada de bagagens; e em cima de tudo isto, o penso para os garranos, os merendeiros e os varapaus dos passageiros e, no ar, a um lado, seguro da almofada pela cinta, seguro do guarda-lama pelas pernas, o cocheiro levado a braços pelos viajores. Para quem olha de longe, a carruagem desaparece completamente sob a enorme massa viva, e não se vê mais que um enorme e inverosímil cacho de gente agarrada uma à outra por um engaço misterioso, bamboleando ao sol, oscilando da direita para a esquerda e da esquerda para a direita, e prosseguindo lentamente, levado por duas formigas.
Chegados ao termo da viagem, na praça mais espaçosa da povoação, os garranos param, a carruagem esvazia-se, e a praça enche-se. Examinei atentamente o cocheiro de um desses veículos, e segui os seus movimentos desde que baixou do espaço até que o deixaram a sós com a parelha e com a carrimónia nua». In Ramalho Ortigão e Eça de Queirós, As Farpas, 1878, Crónica Mensal, Tipographia Universal, Principia Editora, 2003-2005, ISBN 979-972-881-840-0.

Cortesia deTUPrincipiaE/JDACT

As Farpas. Crónicas de Jornal. Ramalho Ortigão. «Mas há broa em todos os balaios à porta do forno, há toucinho ou há unto, pelo menos, em todas as salgadeiras, há azeitonas no cântaro da salmoeira…»

Cortesia de wikipedia e jdact

«As Farpas, nome metafórico, dado com o sentido e intenção de espicaçar a sociedade, foram edições mensais, publicadas entre 1871 e 1882, numa revista fundada por Ramalho Ortigão e Eça de Queirós, quando tinham, respectivamente, 35 e 26 anos. Foram iniciadas pelos no mesmo ano em que se realizou as chamadas Conferências do Casino, em 1871, nas quais um grupo de jovens escritores e intelectuais apresentaram o seu manifesto com pretensões de revolucionar a literatura e a sociedade cultural portuguesa da época, com base nas filosofias realistas e naturalistas do escritor francês, Gustave Flaubert. Foi a censura imposta, pelas autoridades, às conferências, enquanto esta decorriam, que motivou, em grande parte, o lançamento dessas publicações pelos dois jovens escritores. Decerto inspiradas nas Les Guêpes (As Ferroadas), do francês Alphonse Karr, As Farpas, sublinhadas com a legenda O País e a Sociedade Portuguesa - constituem um painel jornalístico da sociedade de Portugal nos finais do século XVIII, com artigos altamente críticos e irónicos a satirizar, com muito humor à mistura, múltiplos sectores da sociedade da época, da política á religião, dos costumes e hábitos, à mentalidade vigente. As Farpas constituem pois um marco na literatura e na evolução cultural do país uma vez que se impuseram como um novo e inovador conceito de fazer jornalismo, o jornalismo de ideias, de crítica social e cultural, que hoje é corrente. Eça de Queirós, por razões profissionais em que teria de se ausentar do país, tomou a decisão de abandonar o projecto ao fim de um ano quando assumiu o cargo de embaixador em Cuba, alegando não ter condições de observar o quotidiano português para o poder analisar e criticar mensalmente. Ramalho Ortigão continuaria sozinho este trabalho jornalístico até 1882. Em 1887 Ramalho decide publicar, em livro, grande parte dos seus folhetins. Assim entre 1887 e 1890 são publicados, em 11 volumes, e repartidos por temas, As Farpas de Ramalho Ortigão, tornando-se assim, também, na primeira obra literária feita a partir da condensação de artigos jornalísticos, previamente publicados em jornal ou revista, algo que hoje também é comum. Ramalho Ortigão exortou posteriormente Eça de Queirós a fazer o mesmo e os seus artigos foram publicados, em 1890, num livro intitulado Uma Campanha Alegre.

Nas margens do Lima. Setembro de 1885
Quem nunca veio a Viana, quem não atravessou a linda ponte do caminho-de-ferro, entre o aterro de S. Bento e a risonha aldeia de Darque, tão célebre outrora pelas suas faianças pombalinas; quem não percorreu a estrada litoral até Caminha, através das povoações de Âncora, da Areosa e de Afife; quem não transitou a pé pelos caminhos de uma e da outra margem do rio, por Meadela e Santa Marta, até ao pontilhão do Portuzelo rodeado de casais, de moinhos de vento e de rochas em que escachoa a água, límpida e desnevada, através da qual se veem trepidar e reluzir as trutas; quem não foi e não veio, pela direita e pela esquerda da ribeira, de Viana a Ponte do Lima e de Ponte do Lima a Viana; quem durante alguns dias não viveu e não passeou nesta ridente e amorável região privilegiada das éclogas e das pastorais, não conhece de Portugal a porção de céu e de solo mais vibrantemente viva e alegre, mais luminosa e mais cantante.
Nesta quadra do ano principalmente, na ocasião das colheitas, quando as ceifeiras, de mangas arregaçadas, atravessam os campos, carregadas de feixes de canas maduras; quando o milho começa a alourar as eiras, e ao longo das planícies ou por detrás dos outeiros, nos pontos onde alvejam casas ou muros de quintas, se ouve a cantiga das esfolhadas, o aspecto do campo ainda virente, inundado de luz, tem o que quer que seja de uma apoteose bucólica, de um idílio rural, por entre cujas estrofes o rio alastra mansamente a pacificação da água. A natureza parece uma larga festa em toda a bacia do Lima, fechada ao sul pelo biombo de montanhas que começa de leste em Lindoso, na fronteira espanhola, e termina a oeste em Faro de Anha, sobre o porto de Viana. Dentro de toda esta zona não há grandes proprietários, não há gente muito rica, e não há miséria.
Muitas casas pequenas. Nem uma só casa em ruínas, como na Beira, como no Douro. Ao longo das estradas, ou nos arruamentos contorcidos das pequenas aldeias, a tenda com a caixa do correio à porta, os bambolins de velas de sebo pendentes do tecto, cintilações amarelas, azuis e brancas de louça vidrada numa prateleira ao fundo, as pequenas tabernas com os pães moles e enfarinhados e pegados uns aos outros em cima do balcão, na padieira das portas, suspensa de um braço de ferro, a tabuleta azul, Bom vinho e comer, o ferrador, o tamanqueiro, o peneireiro, o cesteiro, o bombeiro, a tecedeira, a botica, tudo tem um ar alegre, de camisa lavada, barba feita, carnação sadia, brunida ao sol. Por detrás do cancelo do quinteiro, no mato fofo das enchidas, por baixo da ramada, ao lado das mais humildes cabanas, vê-se a porca ruça esfoçando a estrumeira, o galo branco cacarejando satisfeito, empoleirado na padiola, na escada de mão encostada à parede do cortelho ou no caniço do carro; e o podengo amarelo, de orelha bicuda, ladra da porta de casa ou de cima do muro, mostrando a quem chega os dentes anavalhados e o grande rabo em ponto de interjeição.
Não há adega, não há despensa, não há fogão de cozinha. A panela preta de barro de Prado ferve solitária sob o testo no pequeno lar enfumarado, à fogueira de cepas e de agulhas de pinheiro, entre os dois escabelos de castanho. Mas há broa em todos os balaios à porta do forno, há toucinho ou há unto, pelo menos, em todas as salgadeiras, há azeitonas no cântaro da salmoeira, há um ovo para pôr a cada galinha choca, uma braçada de erva para cada boi, uma côdea para cada cão, uma rasa de milho para cada fornada, uma estriga para cada roca, uma leira para cada enxada.
A propriedade brasileira, pintada de amarelo, com dois cães de faiança no portão e as maçanetas de vidro nas varandas, puxa aqui mais raramente pelos olhos do que nos subúrbios do Porto, de Braga e de Famalicão. O brasileiro do vale do Lima é, em geral, um pequeno brasileiro, tão pequeno que quase não passa de um rapaz que foi ao Brasil. A beleza da terra, a graça modesta dos costumes, a simplicidade da vida, exercem aqui, mais do que em outra qualquer parte, esse magnetismo nostálgico que leva o emigrado a repatriar-se o mais depressa que pode. Desde que ganhou com que comprar o campo que tem de olho, com que levantar um andar à choupana paterna, com que meter mais duas vacas no eido, e com que custear o luxo de um garrano para vir de tilbury à feira da Agonia e de um mingacho para pescar no rio, o emigrado de Entre Minho e Lima regressa modestamente, em segunda classe da Royal Mail, ao ninho natal.
Daqui, um tranquilizador equilíbrio económico, administrativo e moral: a vida barata e o voto barato. Não vale a pena para os homens de negociar em eleições com os regedores, e vale a pena para as raparigas de continuarem a fiar, a tecer, a fazer renda e a fazer manteiga, porque não há namorados com posses para lhes darem dados os brincos e os cordões de ouro. Em compensação, é excessivamente moderado o número de cães de louça, dos campanários novos, dos relógios de torre e dos comendadores da Conceição. As igrejas matrizes conservam o seu primitivo ar antigo, sombrio e musgoso, numa humidade de claustro ou de azenha». In Ramalho Ortigão e Eça de Queirós, As Farpas, 1878, Crónica Mensal, Tipographia Universal, Principia Editora, 2003-2005, ISBN 979-972-881-840-0.

Cortesia deTUPrincipiaE/JDACT

sábado, 7 de maio de 2016

As Farpas. Janeiro 1878. Eça de Queirós e Ramalho Ortigão. «O poder espiritual do mundo moderno era representado em França por uma trindade sacrosanta: Victor Hugo, a força do sentimento; Raspail, a força do trabalho; Littré, a força da filosofia»


jdact e wikipedia

«No breve espaço dos últimos quinze dias a humanidade pagou á morte um pesado tributo. Escrevemos no meio de túmulos gloriosos e amados. Deixaram de existir, em França, Raspail e Courbet; na Itália Victor Manuel, no Brazil José de Alencar; em Portugal, Augusto Soromenho. Raspail, entre todos esses o maior, deixa na terra um immenso vacuo imprehenchivel. Desappareceu com elle uma das mais poderosas forças sociaes do mundo moderno, a porção mais fecunda e mais gloriosa da grande alma do povo. Ninguem como elle amou a humanidade e ninguem empregou tão vastas e tão profundas faculdades no culto do seu amor. Foi o maior contribuinte dos descobrimentos scientificos d'este seculo. Creou a chimica organica e póde-se dizer que creou tambem a physiologia botanica e a anathomia microscopica. Fundou a hygiene em bases novas, não como uma dependencia da medicina, mas como um desdobramento da sciencia social. Foi elle o que definiu pela primeira vez em fundamentos positivos o dogma do suffragio universal. Foi ainda elle o primeiro que proclamou no Hotel de Ville a Republica de 48. Este eximio cultor, acrescentador e reformador do todas as sciencias physicas, de todas as sciencias biologicas e de todas as sciencias socilaes, astronomo, chimico, physiologista, medico, archeologo, economista, era alem d'isso um delicado e valente escriptor. O seu genio profundo actuou efficazmente no desenvolvimento do estudo dos astros, das plantas, dos animaes, do homem, e bem assim na reforma do todas as instituições politicas e sociaes, na reforma administrativa, na reforma judiciaria, na reforma penitenciaria e na reforma penal. O seu altivo caracter de soberano plebeu tornou-o sempre irreconciliavel com todo o favor, com lodo o auxilio, com toda a collaboração official. Recusou todas as distinções honorificas, todos os cargos publicos, todos os diplomas scientificos ou litterarios. As suas observações astronomicas, os seus trabalhos de chimica, as suas applicações do microscopio ao estudo das celulas e dos tecidos fizerarn-se n'uma agua furtada humilde dos bairros baratos de Paris com os instrumentos mais rudimentares, no isolamento austero da independencia o do sacrificio.
Esse intrepido filho do povo tinha a fibra de Galileu, de Giordano Bruno e do Bernardo Palissy. A academia franceza, commovida com uma tão exemplar grandeza d'alma, resolveu conferir-lhe em 1833 o premio Montyon, declarando-lhe pela boca do grande Geoffroy-Saint-Hilaire que ella o considerava como sendo o homem que mais serviços tinha prestado á sciencia e á humanidade. Guizot, então ministro da instrução publica, interveio na resolução da academia prohibindo que o premio da virtude cahisse no cofre da rebelião. O chefe do partido conservador francez não podia esquecer que fôra esse mesmo sabio obscuro o despremiado o que no anno anterior, em plena Restauração, ousara fulminar a votação da lista civil com a phrase memoravel paga por elle com 500 francos de multa e 15 mezes de cadeia: deveria ser enterrado vivo debaixo das ruinas das Tulherias todo o cidadão que ousasse pedir á França 14 milhões para viver. É que Raspail, a intelligencia sempre apta para organisar, foi egualmente o braço
constantemente pronto para resistir.
Portentosa existencia, que ficará na historia entre as mais bellas e mais extraordinárias legendas do genio do homem! Destinado por seu pae á carreira ecclesiastica, foi educado n'um seminario, começou por ser um theologo. Era porém de tal modo intenso e explosivo o seu amor de verdade e do progresso que, principiando por ensinar theologia aos dezenove annos, acabou por alcançar a gloria immarcessivel de ser condemnado aos oitenta, aos oitenta annos de idade!, por abuso da liberdade de pensamento! O poder espiritual do mundo moderno era representado em França por uma trindade sacrosanta: Victor Hugo, a força do sentimento; Raspail, a força do trabalho; Littré, a força da philosophia. D'esses tres anciãos o primeiro que desceu ao tumulo é o que mais fecundo exemplo nos podia legar, porque as virtudes que o assignalaram são d'aquellas que dependem mais da vontade que do entendimento. Esse exemplo de uma actividade sempre enthusiasta, juvenil e ardente, em nenhuma outra parte é mais precioso do que na sociedade portugueza, onde as idéas radicaes, que são as sentinelas avançadas da civilisação, tão raramente encontram servidores desinteressados que as mantenham; onde a mocidade mais vivaz e intelligente está defendendo no parlamento e no jornalismo as opiniões mais retrogradas, onde finalmente o futuro não tem partido. Possa a memoria do sublime Raspail alentar a perseverança e a firmeza no coração d'aquelles que, longe de todas as correntes officiaes se sacrificam heroicamente pelo estudo desprotegido, pelo trabalho talvez calumniado, talvez perseguido, ao amor e ao aperfeiçoamento dos seus similhantes! Que todos os que são moços e fortes se inclinem sobre esta campa onde repousa um triumpho, e reflictam, que é na pedra tumular de Raspail que deverão aguçar o fio das suas espadas todos aquelles que combatem pela consciencia e pela verdade!» In Eça de Queirós e Ramalho Ortigão, As Farpas, Janeiro 1878, Crónica Mensal, 3ª Série, Tomo I, Tipographia Universal, Principia Editora, 2003-2005, ISBN 979-972-881-840-0.

Cortesia de TUniversal/PrincioiaE/JDACT

sexta-feira, 29 de outubro de 2010

A Questão Coimbrã, 1865: A defesa de uma poesia actual, objectiva e socialmente empenhada, que tivesse como referência os contributos da ciência e da filosofia e as leis da evolução histórica

Feliciano de Castilho
Cortesia depedraformosa
A Questão Coimbrã

Em 1865, António Feliciano de Castilho, mentor de um grupo de escritores da geração ultra-romântica portuguesa, teceu grandes elogios a duas obras de poetas ultra-românticos, D. Jaime, de Tomás Ribeiro (1863) e Poema da Mocidade, de Pinheiro Chagas (1865), ao mesmo tempo que fazia comentários depreciativos em relação à poesia de Antero de Quental e de Teófilo Braga, dois jovens poetas que despontavam na cena literária.
Estes dois últimos pertenciam a um grupo de estudantes de Coimbra que se encontrava longe dos meandros do poder político e da corte literária de Castilho e tinha concepções literárias opostas ao ultra-romantismo. Tanto um como o outro responderam a Castilho de um modo desabrido e contundente, desencadeando polémica nos meios literários. Muitos escritores se envolveram na questão, uns a favor de Castilho, outros alinhando com os poetas conimbricenses.


Cortesia de purl e lutadoresdarepublica
Para os novos intelectuais (a chamada Geração de 1870), atentos às ideias e acontecimentos europeus e actualizados do ponto de vista estético, científico e filosófico, a arte, e sobretudo a poesia, devia contribuir para a mudança das mentalidades com vista à realização da revolução social. Defendiam, para o efeito, uma poesia actual, objectiva e socialmente empenhada, que tivesse como referência os contributos da ciência e da filosofia e as leis da evolução histórica.

A Geração de 1870
Cortesia de rakumis
A Questão Coimbrã, tal como as Conferências do Casino, inserem-se num processo mais vasto de liquidação do subjectivismo e sentimentalismo ultra-romântico, de combate à influência do catolicismo e de desgaste do regime político vigente (monarquia constitucional). A Geração de 1870 deu um contributo fundamental à renovação da cultura e da mentalidade portuguesas do século XIX, deixando trabalhos marcantes nos campos da literatura, do pensamento e da história, entre outros.

Cortesia de portugaltchat/JDACT

Ramalho Ortigão: «Não, a vida não é uma festa permanente e imóvel, é uma evolução constante e rude. O escritor plástico»


Caricatura de Bordalo Pinheiro
(1836-1915)
Porto
Cortesia delagash  

José Duarte Ramalho Ortigão foi um escritor português. Dedicou-se ao jornalismo, na função de crítico literário, e à produção de folhetins no «Jornal do Porto».
Matriculou-se com a idade de catorze anos no curso de Direito da Universidade de Coimbra, começando a leccionar francês no colégio dirigido por seu pai, o Colégio da Lapa, pouco tempo depois e no qual lhe sucedeu em 1860.
Interveio na célebre Questão Coimbrã (1865), defendendo António Feliciano de Castilho, por meio do folhetim «Literatura de Hoje» batendo-se em duelo com Antero de Quental em razão disso.
Em 1868 veio para Lisboa como oficial da secretaria da Academia de Ciências, estabelecendo uma ligação com Eça de Queirós e com o grupo das Conferências do Casino. Em 1870 começa a publicação, no «Diário de Notícias», em folhetins, do Mistério da Estrada de Sintra, em parceria com Eça. Este convívio com Eça deve ter conduzido à sua adesão ao realismo.

Cortesia de stellapsicanalise
Desde 1871 começa a publicar com Eça, «As Farpas», definidas como panfletos de oposição social e política pelo riso que são publicadas mensalmente. Ramalho Ortigão edita, mais tarde (de 1887 a 1891), «As Farpas», por temas. Nestes escritos salienta-se o pendor didáctico da sua sátira política e social dentro do critério positivista mas sem renunciar aos valores patrióticos, a que acedeu, deixando o seu inconformismo revolucionário, e que o tornou figura de destaque na geração nacionalista que conduziu ao Integralismo Lusitano.
A partida de Eça levou-o a ser mais influenciado por Téofilo Braga.

Para além da crítica humorada, que leva a cabo em As Farpas, é de salientar a autoria de livros de viagens como, por exemplo, A Holanda (1885) e John Bull (1887) em que capta uma grande variedade de cores, feitios e movimentos do mundo dos sentidos em feiras e arraias e também em locais pitorescos e que fazem dele um «escritor plástico». Importante referir ainda o notável e intuitivo dom de crítica de arte, o primeiro que aparece em Portugal, e que é patente em muitas páginas dos seus livros, como na sua obra O Culto da Arte em Portugal, de 1896.



Cortesia de tlaxcala, purl e arteeletra
Obras
  • O Mistério da Estrada de Sintra (com Eça de Queirós);
  • 1870-71 - Correio de Hoje;
  • Em Paris;Biografia de Emília Adelaide Pimentel;
  • 1871-72 - As Farpas (com Eça de Queirós);
  • 1871-1882 - As Farpas;
  • 1875 - Banhos de Caldas e Águas Minerais;
  • 1876 - As Praias de Portugal;
  • Teófilo Braga: Esboço Biográfico;
  • Notas de Viagem;
  • Pela Terra Alheia: Notas de Viagem;
  • A Lei da Instrução Secundária na Câmara dos Deputados de Portugal;
  • 1883 - A Holanda;
  • 1887 - John Bull - Depoimento de uma testemunha acerca de alguns aspectos da vida e da civilização inglesa;
  • 1896 - O Culto da Arte em Portugal;
  • 1908 - D. Carlos o Martirizado;
  • 1911-14 - Últimas Farpas;
  • 1914 - Carta de um Velho a um Novo.
Cotesia de wikipédia/Dicionário Histórico/CITI/JDACT