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terça-feira, 7 de outubro de 2014

Pensamentos. Reflexões. Agostinho da Silva. «As liberdades essenciais são três: liberdade de cultura, liberdade de organização social, liberdade económica. Pela liberdade de cultura, o homem poderá desenvolver ao máximo o seu espírito crítico e criador; ninguém lhe fechará nenhum domínio…»

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Liberdade. A fé dos homens é ainda na liberdade
«(…) Estão vivos noventa por cento dos sábios com que contou a Humanidade desde o início da sua História, dispõem de meios que em outras épocas nem ousariam sonhar-se; as descobertas que se fazem, incluindo as que estão ligadas às viagens espaciais, contra as quais tanta gente está, exactamente como esteve contra as portuguesas o Velho de Os Lusíadas, permitiriam já hoje um paraíso de abundância e segurança sobre o mundo, se fosse tão fácil porem os homens o seu temperamento de acordo com a sua inteligência como lhes é fácil fazer obedecer à sua inteligência as forças adormecidas do universo físico; adormecidas no adormecimento em que a Bela esperava seu Príncipe; e caminhando para a mesma íntima fusão. Todas as esperanças nos são abertas; os avanços tecnológicos estão ao nosso dispor e para o único fim em que serão úteis, para nos darem tempo livre; talvez, durante alguns séculos ainda, tempo livre para criarmos matemática ou poesia ou pintura; depois, tempo livre já mais certo, que é o de vermos a matemática ou a poesia e a pintura como existindo no mundo à volta com mais plenitude do que em nossas equações, versos e quadros, dispensando a existência dos artistas, que terão sido apenas meios de comunicação da beleza para quem ainda não podia ver directamente; e afinal, na idade melhor, sendo nós próprios matemática, poesia e pintura, vivendo arte e ciência, e, por viver, as criando; este é o tempo livre que Deus tem: vive, e o mundo é; vive o mundo, e Ele é; o qual Deus nos quer à sua imagem e semelhança, como nós o temos querido à nossa; quando as duas vontades se encontrarem, e só então, haverá Paraíso». In Educação de Portugal

As liberdades essenciais
«As liberdades essenciais são três: liberdade de cultura, liberdade de organização social, liberdade económica. Pela liberdade de cultura, o homem poderá desenvolver ao máximo o seu espírito crítico e criador; ninguém lhe fechará nenhum domínio, ninguém impedirá que transmita aos outros o que tiver aprendido ou pensado. Pela liberdade de organização social, o homem intervém no arranjo da sua vida em sociedade, administrando e guiando, em sistemas cada vez mais perfeitos à medida que a sua cultura se for alargando; para o bom governante, cada cidadão não é uma cabeça de rebanho; é como que o aluno de uma escola de humanidade: tem de se educar para o melhor dos regimes, através dos regimes possíveis. Pela liberdade económica, o homem assegura o necessário para que o seu espírito se liberte de preocupações materiais e possa dedicar-se ao que existe de mais belo e de mais amplo; nenhum homem deve ser explorado por outro homem; ninguém deve, pela posse dos meios de produção e de transporte, que permitem explorar, pôr em perigo a sua liberdade de espírito ou a liberdade de espírito dos outros. No Reino Divino, na organização humana mais perfeita, não haverá nenhuma restrição de cultura, nenhuma coacção de governo, nenhuma propriedade. A tudo isto se poderá chegar gradualmente e pelo esforço fraterno de todos». In Doutrina Cristã.

In Agostinho da Silva, Citações e Pensamentos, O Homem não Nasceu para Trabalhar, Nasceu para Criar, Casa das Letras, Alfragide, 2009, ISBN 978-972-46-1922-4.

Cortesia de Casa das Letras/JDACT

domingo, 5 de outubro de 2014

Pensamentos. Reflexões. Agostinho da Silva. «… na palavra ou no silêncio, mesmo nos mais embrutecidos por qualquer lado das guerras, mesmo nos mais afastados de um pensar coerente, a ideia dominante é a de que querem viver suas vidas próprias na liberdade e na paz»

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O drama do intelectual
«(…) Suscita o seu aparecimento, morrerá contente se sentir galopar por cima e para além do seu corpo uma forte, decidida e esclarecida mocidade. Não abafa nos seus concidadãos o que eles têm de bom, desenvolve, carinhoso e enérgico, as ásperas virtudes, as rijas possibilidades que os lancem com passo de vitória no caminho do futuro. Quer na gratidão uma secura espartana, para que se não possa confundir com a adulação a Pisístrato. E o seu drama começa na altura em que nele buscam mais a autoridade do que a razão». In Diário de Alcestes

O verdadeiro intelectual
Não há nenhuma vida verdadeiramente intelectual em que a polémica não seja um acidente, um desnível entre o engenho e a cultura adquirida, por um lado, e, por outro, o meio ambiente; o pensador não é, por estrutura, polemista, embora não fuja ante a polémica, nem a considere inferior; o seu domínio é no campo da paz, não entre os instrumentos de guerra; quando a batalha se oferece sabe, como o filósofo antigo, marchar com a calma e a severa repressão dos instintos que o mundo inteiro, ante a sua profissão, tem o direito de exigir; o seu dever de cidadão impõe-lhe que tome, ao ecoar da voz bárbara, a lança que defende as oliveiras sagradas e os rítmicos templos. A sua linha, porém, o fio de cumeadas por que se alongam os seus passos melhores comportam apenas uma invenção superadora, um perpétuo oferecer aos seus amigos humanos de toda a descoberta possibilidade de um caminho mais belo e mais nobre.
Vê-se como um guia e um observador de horizontes que se estendam para além dos limites do mar e dos limites do céu; a sua missão é a de pôr ao alcance de todos o que novamente contemplaram os seus olhos e de os ajudar a percorrer a estrada que abriu ou desvendou; com toda a humildade, todo o carinho que provêm de ter medido a imensa distância que ainda o separa de Deus e de ter aprofundado a tristeza e a treva em que se debatem e se amesquinham seus irmãos; inteligência e caridade não andam longe uma da outra quando são ambas verdadeiras». In Considerações

Liberdade. A fé dos homens é ainda na liberdade
«Neste tempo em que estamos, outro nome para nós devem tomar a Beleza e o Amor que Deus é, e o nome que devemos fundir numa Trindade agora plenamente vista é o de liberdade. Apesar do sistema económico que não deixa que os homens aproveitem pleno e rápido o que o génio lhes inventa, embora seja o génio em grande parte incitado a fazê-lo pelo próprio sistema económico, ou pela concorrência em que ele se baseia; apesar de vermos num mundo tão cioso de seu cristianismo que se continua a queimar comida para que os preços não desçam, e isto mesmo num Mercado Comum Europeu de que tantos tão facilmente se enamoram; apesar de homens serem conservados no desemprego, com a fome ou a humilhação do socorro estatal, apenas porque tal convém ao lucro; apesar de que noutra metade do mundo a saída do subdesenvolvimento se esteja processando em regimes que não põem nos meios que empregam a concordância com os fins, isto é, que são repressivos quando têm por ideal a total abolição de autocracias; apesar de se estar caminhando, mesmo nos países que mais livres pareciam, para formas de repressão em que o homem se esmaga; apesar do pouquíssimo respeito que se demonstra pelos direitos do indivíduo ou das nações; apesar de toda a noite que afigura estar descendo sobre o mundo; a fé dos homens é ainda na liberdade, a pressão sobre a economia é ainda a da liberdade, a limitação aos governos, tão predispostos ao abuso, é ainda a da liberdade; e, na palavra ou no silêncio, mesmo nos mais embrutecidos por qualquer lado das guerras, mesmo nos mais afastados de um pensar coerente, a ideia dominante é a de que querem viver suas vidas próprias na liberdade e na paz». In Agostinho da Silva, Citações e Pensamentos, O Homem não Nasceu para Trabalhar, Nasceu para Criar, Casa das Letras, Alfragide, 2009, ISBN 978-972-46-1922-4.

Cortesia de Casa das Letras/JDACT

sexta-feira, 3 de outubro de 2014

Agostinho da Silva. Pensamentos. Reflexões. «… o saber é puramente exterior e muito mais fácil de adquirir do que em geral se supõe. O político que se apresenta com as minhas ideias políticas, o filósofo que se apresenta com as minhas ideias filosóficas (palavras de Alcestes), o pedagogo que se apresenta com as minhas ideias pedagógicas»

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O homem de ideias
«Não é lícito dizer que tem ideias aquele que as foi buscar a outro, que envergou um sistema já pronto, que não o construiu ele mesmo a pouco e pouco, à medida que se ia alargando e aprofundando a sua visão do mundo; para ter ideias é necessário um trabalho de autoformação, de modelação contínua da alma, uma assimilação que não cessa de tudo o que uma determinada personalidade encontra de assimilável no que a cerca, ou passado ou presente; a ideia surge da vida própria e não da vida dos outros; o homem que tem individualidade (é muito difícil ser indivíduo), ou a busca, pode inserir no seu pensamento fragmentos de pensamento alheio, mas apenas insere aqueles que, como algarismos num número, mudam de valor conforme a posição; inventa uma coluna vertebral que só a ele pertence e caracteriza, depois procura o que se lhe pode adaptar sem desarmonia nem contradição.
Faz como o caracol que se não instala na concha de outro caracol; fabrica-a e aumenta-a ao mesmo ritmo que se fabrica e aumenta o corpo que a enche; os eremitas são bichos traiçoeiros. Aprender ideias não tem valor senão quando nos serve para formar ideias; se apenas as queremos usar não merecemos nem a confiança nem a consideração de ninguém; o saber é puramente exterior e muito mais fácil de adquirir do que em geral se supõe. O político que se apresenta com as minhas ideias políticas, o filósofo que se apresenta com as minhas ideias filosóficas (palavras de Alcestes), o pedagogo que se apresenta com as minhas ideias pedagógicas, mas que reconheço não terem nem a minha política, nem a minha filosofia, nem a minha pedagogia, não têm, na verdade, as mesmas ideias; usam-nas somente; são como actores a quem tivesse emprestado os meus fatos e que jamais confundirei comigo; decerto não subirei ao palco para lhes entregar o meu país, ou a direcção da minha vida, ou a educação de um moço; posso ainda admirá-los se representarem bem: mas sei o significado primitivo de hipócrita». In Glossas

O drama do intelectual
«O intelectual, aquele que representa na Humanidade o que ela tem de realmente humano, gosta mais de quem dele se afasta do que de quem segue sem condições, disposto a transformar a doutrina que ouve numa ortodoxia opressora; como se sente diminuído nos ambientes de serralho, anseia pelo que lhe ofereça ocasião de jogo e se constitua adversário. O campo em frente da sua tenda está aberto a todos os campeões amigos de justar e quebrar lanças». In Agostinho da Silva, Citações e Pensamentos, O Homem não Nasceu para Trabalhar, Nasceu para Criar, Casa das Letras, Alfragide, 2009, ISBN 978-972-46-1922-4.

Cortesia de Casa das Letras/JDACT

terça-feira, 18 de fevereiro de 2014

A Lenda do Graal no Contexto Heterodoxo do Pensamento Português. Almir Campos Bruneti. «O ‘Lancelote em prosa’, conta toda a história do mais famoso dos cavaleiros do rei Artur, começando com o seu nascimento. Posteriormente ele vai à corte do rei Artur para ser armado cavaleiro e daí nasce a paixão pela rainha Guinevere (Ginebra)»

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As Lendas Arturianas. A Matéria da Bretanha. A Evolução
«(…) Destes ramos o mais antigo é o Lancelote em prosa. as duas partes iniciais lhe são posteriores e parecem ter sido compostas com o fim específico de proporcionar um começo lógico à história e dar unidade ao ciclo. A Estoire expande a narrativa de Boron. Conta como José de Arimateia, depois de sair da prisão, vai para o Oriente com sua esposa, seu filho Josephes e um pequeno grupo de pessoas. Com ele vai o Santo Graal, transportado dentro de uma arca. Depois de converterem inúmeros sarracenos eles se transportam de modo miraculoso para a Inglaterra onde convertem os bretões ao cristianismo. Josephes deixa o Graal aos cuidados do seu sobrinho Alain, o qual se transfere para a Terre Foraine onde o rei, Afasi, depois de convertido, constrói um castelo para abrigar o Graal, Corbenic. A história acaba no tempo do rei Pelles, avô de Lancelote. A Estoire de Merlin, segunda parte da Vulgata, é uma versão em prosa do Merlin de Boron completada por uma continuação pseudo-histórica a que modernamente se dá o nome de Vulgate Merlin. A história conta os vários sucessos iniciais do reinado do rei Artur e as vitórias que ele alcançou com a ajuda do mago, e termina com o desaparecimento de Merlin, encantado pela mulher a quem amava e a quem havia ensinado o segredo de como agir para prendê-lo.
O Lancelote em prosa, conta toda a história do mais famoso dos cavaleiros do rei Artur, começando com o seu nascimento. Após a morte de seu pai, o rei Ban de Benoic, uma fada leva o menino para ser educado no seu palácio do meio de um lago. Posteriormente ele vai à corte do rei Artur para ser armado cavaleiro e daí nasce a paixão pela rainha Guinevere (Ginebra), o que lhe traz muita honra em suas façanhas cavaleirescas, mas que o impede de aproximar-se do Graal de maneira mais completa. Uma personagem importante é Galeaut, amigo de Lancelote, que leva o valente cavaleiro a confessar seu amor pela esposa de Artur, tema imortalizado por Dante na Divina Comédia. No final da história somos informados de como é gerado Galaaz, o cavaleiro do santo Graal. Através de artes mágicas, Lancelote é levado a deitar-se com Elaine, filha do rei Pelles. O cavaleiro aceita seu papel porque pensa estar com a rainha Guinevere (Ginebra). Ao saber da verdade no dia seguinte ele fica furioso e, mais tarde, quando Guinevere, enciumada, rompe com ele por causa de seu crime de deslealdade não intencional, o Cavaleiro do Lago fica louco e só recupera o uso da razão pela graça do Santo Graal. A quarta parte, a Queste del Saint Graal, conta a vinda de Galaaz para a corte do rei Artur, o início da Demanda, as aventuras acontecidas com os vários cavaleiros que saíram em busca do Santo Vaso, a chegada dos heróis a Corbenic, a ida do Graal para Sarras, a morte de Galaaz e de Perceval, e a volta de Boorz para a corte. A última parte, a Mort Artu, pinta a derrocada final da sociedade arturiana minada por guerras e dissenções internas e acaba com a entrada de Guinevere para um convento e de Lancelote para um eremitério, culminando tudo com a ida de Artur para Avalon, de onde voltará um dia.
A seguir ao ciclo da Vulgata temos uma versão em prosa do romance de Tristan ao qual se juntou a história de Lancelote e Guinevere e a história do Graal. Este ciclo subsiste em duas redacções: a Primeira versão e a Segunda versão ou Versão Ampliada. Aqui o tema do Graal, que na Vulgata era a parte principal da história, e que sublinhava dramaticamente a disparidade entre os ideais cavaleirescos e os ideais cristãos, condenando aqueles, tem mais uma função estrutural do que ideológica e serve o propósito de preparar o leitor para a morte de Tristão e Iseu. Aquela tensão entre as duas ideologias (a cavaleiresca e a religiosa) da Vulgata parece ter levado um novo remanieur a tentar escrever uma versão mais homogénea da história, isto é, compor uma nova Vulgata em que Lancelote, modelo do ideal cavaleiresco, fosse substituído pelo rei Artur na sua função de eixo principal da sociedade arturiana. Desse modo, logo após o aparecimento do ciclo da Vulgata e da Primeira Versão do Tristan, mas antes da Segunda Versão Ampliada, vem à luz um novo ciclo onde se combina a Vulgata com elementos da Primeira Versão. Este ciclo, ao qual inicialmente se deu o nome de Pseudo-Boron, passou a ser conhecido como Post-Vulgate Roman du Graal depois dos pormenorizados estudos de Fanni Bogdanow. Ao contrário do que aconteceu com a Vulgata o Post-Vulgate Roman du Graal não se conservou em nenhum manuscrito original e só pode ser reconstituído por meio de alguns fragmentos em francês e, principalmente, através das versões espanholas e portuguesas do material arturiano». In Almir Campos Bruneti, A Lenda do Graal no Contexto Heterodoxo do Pensamento Português, Sociedade de Expansão Cultural, Lisboa, 1974.

Cortesia de SEC/JDACT

A Lenda do Graal no Contexto Heterodoxo do Pensamento Português. Almir Campos Bruneti. «Anos mais tarde o imperador Vespasiano, ao ser miraculosamente curado de lepra pelo véu da ‘Verónica’, segue para Jerusalém a fim de vingar o Salvador e José é libertado»

Cortesia de wikipedia e jdact

As Lendas Arturianas. A Matéria da Bretanha. A Evolução
«(…) Apesar de Chrétien de Troyes ter sido o autor que primeiro colocou o Graal dentro do contexto da lenda arturiana, não existe qualquer princípio de unidade na sua obra, isto é, os seus romances versificados não têm ligação entre si. Cada um constitui uma história completa muito embora em dois deles, no Ivain e no Lancelot, o cavaleiro Gauvain pudesse ser considerado como elemento de ligação. Entretanto, não há absolutamente nenhum detalhe em qualquer dos romances que autorize a conclusão de que Chrétien pretendia fazer uma sequência do outro. Além disso, não houve por parte de Chrétien em nenhuma de suas obras a tentativa de estabelecer um ciclo arturiano completo uma vez que ele nunca se ocupou em relatar nem o nascimento nem a morte do rei Artur. Coube a um cavaleiro borguinhão, Robert Boron, entre 1191 e 1212, a empresa de realizar em verso um esquema geral da lenda arturiana onde se explicasse também a origem e o significado do Graal e sua transferência de Jerusalém à Inglaterra. Desse modo ele concebe uma trilogia a que dá o nome de La Livres dou Graal. Desta trilogia subsistem apenas a primeira parte, o Joseph ou Le Roman de l’Estoire dou Graal, e 502 versos da segunda parte, o Livre de Merlin. Ambas as histórias foram depois refundidas em prosa.
A versão de Boron está eivada de uma atmosfera fortemente cristianizada uma vez que ele incorpora lendas piedosas no relato da crónica inicial da lenda do Graal. Aqui aparece a figura de José de Arimateia que havia recolhido no cálice (o Graal ?) usado por Cristo na Santa Ceia as últimas gotas do sangue do Salvador. Depois da ressurreição de Cristo, José de Arimateia é aprisionado e o Mestre lhe aparece na prisão e o encarrega de guardar a preciosa relíquia. Anos mais tarde o imperador Vespasiano, ao ser miraculosamente curado de lepra pelo véu da Verónica, segue para Jerusalém a fim de vingar o Salvador e José é libertado. Este transfere-se com sua família para outro local e aí, sob inspiração do Espírito Santo, institui a mesa do Graal em homenagem à da Santa Ceia. Mais tarde, ainda em obediência a uma ordem do Espírito Santo, José confia o Graal à guarda de seu cunhado Bron, o qual segue, em companhia de seus doze filhos, para a Inglaterra a fim de pregar o Evangelho e aguardar a vinda do último guardião do Graal que seria o seu próprio neto. Na segunda parte da trilogia, Boron, usando como fontes principais a Historia Regum Britanniae e a Vita Merlini, de Geoffrey of Monmouth, obras que ele modifica e reelabora livremente, dedica-se a sanar as discrepâncias temporais e materiais da história de modo a tornar crível o aparecimento do Graal dos tempos apostólicos na corte do rei Artur. Boron nos conta como o mago Merlin, filho de um íncubo e de uma virgem, tem poderes que lhe possibilitam ver o passado e o futuro; como Uther, depois da morte de seus irmãos Moine e Pandragon, toma o nome de Utherpandragon e é coroado rei da Inglaterra, e como, a conselho de Merlin, estabelece a Mesa-Redonda sobre o modelo da mesa da Santa Ceia; como Utherpandragon se apaixona por Ygerne, esposa do duque de Tintagel, que recusa o seu amor mas é enganada por ele com o auxílio de Merlin; como o duque é morto em batalha e ,como Utherpandragon casa-se com Ygerne que nessa altura já se encontrava grávida de Artur o qual, ao nascer, é confiado ao cavaleiro Auctor com cujo filho, Keu, é educado; finalmente, como Artur fica sendo rei da Inglaterra após ter sacado a espada de uma bigorna que havia surgido em frente à igreja na manhã do Dia de Natal.
A terceira parte da trilogia, que conta a história de como Perceval, o neto do rei Bron, leva a cabo a aventura do Graal, e como depois da destruição de Artur e seu reino Merlin retira-se para o seu esplumoir e nunca mais é visto, está relatada em prosa na versão conhecida como o Didot-Perceval. Em seguida a Boron aparece, entre os anos de 1215 a 1230, uma nova e vasta compilação homogénea das lendas arturianas. É o que se convencionou chamar de Ciclo do Pseudo-Walter Map, ou Ciclo da Vulgata. Nesta compilação o tema do Graal é pela primeira vez ligado à história do amor adulterino de Lancelote e da rainha Guinevere (Ginebra). O ciclo está dividido em cinco partes:
  • A Estoire del Saint Graal; 
  • A Estoire de Merlin;
  • O chamado Lancelote propriamente dito ou Lancelote em prosa por sua vez dividido em três partes: a) o Enfances Lancelot (também chamado Galeaut); b) o conto da Charrette, baseado em Chrétien de Troyes; c) o Agravain que serve de transição para o romance seguinte; 
  • A Queste del Saint Graal; 
  • A Mort Artu.
In Almir Campos Bruneti, A Lenda do Graal no Contexto Heterodoxo do Pensamento Português, Sociedade de Expansão Cultural, Lisboa, 1974.

Cortesia de SEC/JDACT

segunda-feira, 28 de outubro de 2013

A Lenda do Graal no Contexto Heterodoxo do Pensamento Português. Almir Campos Bruneti. «… um carpinteiro da Cornualha fabrica uma mesa redonda que poderia acomodar mais de 1600 comensais ao mesmo tempo, mas que era suficientemente leve para ser transportada…»

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As Lendas Arturianas. A Matéria da Bretanha. A Evolução
«(…) A próxima etapa tem lugar com a composição do poeta normando Wace, o Roman de Brut, terminado em 1155 e dedicado à nova rainha da Inglaterra, Leonor da Aquitânia. Aqui já aparece a Mesa-Redonda à qual se deu esta forma para evitar problemas de precedência com relação à hierarquia social da corte. Esta concepção deve-se provavelmente à crença, corrente na época, de que a mesa em que Cristo e seus apóstolos 'tomaram a Santa Ceia era de forma circular, muito embora Loomis mencione uma tradição celta semelhante como núcleo possível da mesa arturiana. De qualquer forma, basta visitar as citânias galaico-portuguesas para constatar-se a preferência dada à forma circular pelos povos celtas. O poema de Wace, baseado na História de Geoffrey of Monmouth, e escrito em francês, tenta dar à lenda uma feição artística e cortês, uma vez que era destinado aos nobres da corte e produzido sob o patrocínio do rei Henrique II. Por volta de 1200 o poema de Wace é traduzido para inglês, em versão ampliada, pelo poeta Layamon que, ao contrário do primeiro, cuja característica principal tinha sido a descrição colorida da corte arturiana, vai dar ênfase especial ao aspecto dramático e emocional da história. O estilo é elaborado e os conflitos emocionais são sugeridos através do uso de símiles e do discurso indirecto. Entre as várias adições que Layamon acrescenta ao texto de Wace, uma das mais interessantes é a que se refere à Mesa-Redonda. Ele conta que durante uma cerimónia em presença do rei e da rainha iniciou-se violenta discussão a respeito de quem teria precedência sobre quem, o que levou a brigas e derramamento de sangue. Artur condena à morte o iniciador da contenda e seus parentes masculinos, e determina que se cortem os narizes a todas as mulheres da família.
Para resolver o impasse, um carpinteiro da Cornualha fabrica uma mesa redonda que poderia acomodar mais de 1600 comensais ao mesmo tempo, mas que era suficientemente leve para ser transportada a onde quer que o rei fosse. A partir desse dia nunca mais houve brigas na corte por questões de hierarquia. Esta adição parece ter origens bretãs. Com Chrétien de Troyes a lenda arturiana atinge uma expressão artística dificilmente igualada em versões posteriores. Da vida do poeta sabe-se muito pouco. Através de indicações e dados coligidos em suas obras foi possível estabelecer as décadas entre 1150 e 1190 como o provável período de sua actividade literária sob a protecção de benfeitores importantes. Do seu labor artístico ficaram-nos as seguintes obras:
  • Erec et Enide;
  • Cligès;Lancelot ou Le Chevalier de la Charrette;
  • Yvain ou Le Chevalier au Lion;
  • Guillaume d'Angleterre;
  • Perceval ou Il Contes del Graal.
Entre estes romances o Perceval sobressai-se pela característica de ser a primeira obra em que a lenda do Graal aparece ligada à corte do rei Artur. O livro divide-se em três partes:
  • uma relação sumária dos sucessos acontecidos com o herói na infância e adolescência até sua passagem pela corte arturiana e aventuras subsequentes culminando com os episódios relativos a Blanchefleur;
  • quatro episódios que tratam exclusivamente do Graal;
  • como que colocando Perceval e o tema do Graal de lado, um relato das aventuras de Gauvain.
A história do Graal fica incompleta, pois o conto é interrompido antes que o herói volte ao castelo do Rei Pescador pela segunda vez. Entretanto, ela é continuada por quatro autores distintos:
  • Um anónimo (antigamente designado como pseudo-Wauchier que acrescenta entre 9500 a 19600 versos aos 9234 usualmente aceites como de autoria de Chrétien;
  • Um segundo autor anónimo (anteriormente identificado corno sendo Wauchier de Denain) com mais 13000 versos;
  • Manessiet, ao serviço da condessa Joana de Flandres, que acrescenta 10445 versos;
  • Gerbert de Montreuil que termina com 17000 versos.
In Almir Campos Bruneti, A Lenda do Graal no Contexto Heterodoxo do Pensamento Português, Sociedade de Expansão Cultural, Lisboa, 1974.

Cortesia de SEC/JDACT

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012

O Pensamento e as Interpretações. Fernando Pessoa. «Por isso o humanitarismo e o internacionalismo são conceitos de morte, só cérebros saudosos do inorgânico o podem agradavelmente conceber. Todo o internacionalista devia ser fuzilado para que obtenha o que quer, a integração verdadeira no meio a que tende a pertencer»


Cortesia de puraessencia e sedlpk

Só Existem Nações, não Existe Humanidade
«A humanidade não existe sociologicamente, não existe perante a civilização. Considerar a humanidade como um todo é, virtualmente, considerá-la como nação; mas uma nação que deixe de ser nação passa a ser absolutamente o seu próprio meio. Ora um corpo que passa a ser absolutamente do meio onde vive é um corpo morto. A morte é isso - a absoluta entrega de si próprio ao exterior, a absoluta absorção no que cerca. Por isso o humanitarismo e o internacionalismo são conceitos de morte, só cérebros saudosos do inorgânico o podem agradavelmente conceber. Todo o internacionalista devia ser fuzilado para que obtenha o que quer, a integração verdadeira no meio a que tende a pertencer. Só existem nações, não existe humanidade». In Fernando Pessoa, «Textos Filosóficos e Esotéricos, pág. 101»


Cortesia de espacod e sedlpk 

A Sociedade é Baseada no Instinto Individual
A vida de uma sociedade é, fundamentalmente, uma vida de acção. As relações dos indivíduos adentro dela, são, fundamentalmente, relações entre as actividades, entre as acções, deles. As relações dessa sociedade com outras sociedades - sejam essas relações de que espécie forem - são relações de qualquer espécie de actividade, são relações de acção. É, portanto, pelas faculdades que conduzem à acção que o indivíduo é directamente social. Ora, como a ciência constata que são os instintos, os hábitos, os sentimentos - tudo quanto em nós constitui o inconsciente, ou o subconsciente - que levam à acção, segue que é pelos seus instintos, pelos seus hábitos, pelos seus sentimentos - e não pela sua inteligência - que o indivíduo é directamente social.
Por que espécie de instintos, porém, é que o indivíduo é directamente social? Alguns dos seus instintos, como o instinto de conservação e o instinto sexual, são sociais apenas indirectamente. Servindo-os, o indivíduo serve, em último resultado, a sociedade a que pertence, porque, mantendo a sua vida, mantém a vida de um elemento componente da sociedade a que pertence, e, propagando a espécie, contribui para a continuidade de vida dessa sociedade; mas nem um, nem outro, desses instintos tem um fim directamente social. O serviço desses instintos envolve, ao contrário, um grau maior ou menor de concorrência, de luta, com outros indivíduos. Esses instintos, portanto, embora necessários à sociedade, são de ordem individual e não social». In Fernando Pessoa, «Ensaio: A Opinião Pública, pág. 101/102»

Cortesia Casa das Letras/JDACT

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2012

O Pensamento e as Interpretações. Georg Hegel. «A Razão governa o mundo e, consequentemente, governa e governou a história universal. Em relação a essa razão universal e substancial, todo o resto é subordinado e serve-lhe de instrumento e de meio. A razão é tão poderosa quanto ardilosa»

Cortesia de factspage
O Sentido do Espírito
«Para conhecer bem os factos e enxergá-los no seu verdadeiro lugar, deve-se estar no cume - não os considerar de baixo pelo buraco da fechadura da moralidade ou de alguma outra sabedoria.
(...) O ponto de vista geral da história filosófica não é abstractamente geral, mas concreto e eminentemente actual, porque é o Espírito que permanece eternamente junto de si mesmo e ignora o passado. À semelhança de Mercúrio, o condutor das almas, a Ideia é na verdade o que conduz os povos e o mundo, e é o Espírito, a sua vontade razoável e necessária, que orientou e continua a orientar os acontecimentos do mundo». In Georg Hegel, «Curso de 1822»

Cortesia de toonpool
A Razão
«A razão é a suprema união da consciência e da consciência de si, ou seja, do conhecimento de um objecto e do conhecimento de si. É a certeza de que as suas determinações não são menos objectais, não são menos determinações da essência das coisas do que são os nossos próprios pensamentos. É, num único e mesmo pensamento, ao mesmo tempo e ao mesmo título, certeza de si, isto é, subjectividade, e ser, isto é, objectividade.
(...) A razão é tão poderosa quanto ardilosa. O seu ardil consiste em geral nessa actividade mediadora que, deixando os objectos agirem uns sobre os outros conforme à sua própria natureza, sem se imiscuir directamente na sua acção recíproca, consegue, contudo, atingir unicamente o objectivo a que se propõe.
(...) A Razão governa o mundo e, consequentemente, governa e governou a história universal. Em relação a essa razão universal e substancial, todo o resto é subordinado e serve-lhe de instrumento e de meio. Ademais, essa Razão é imanente na realidade histórica, realiza-se nela e por ela. É a união do Universal existente em si e por si e do individual e do subjecitvo que constitui a única verdade». In Georg Hegel, «Propedêutica Filosófica, Enciclopédia das Ciências Filosóficas e Curso de 1830»

Cortesia de O Citador/JDACT

quinta-feira, 5 de janeiro de 2012

O Pensamento e as Interpretações. Fernando Pessoa. «Assim como as cores e os sons sabem uns a outros, os ódios sabem a amores, e as coisas concretas a abstractas, e as abstractas a concretas. Quebram-se os laços que, ao mesmo tempo que ligavam tudo, separavam tudo, isolando cada elemento»

Cortesia de wikicultured

Quando Falo com Sinceridade não sei com que Sinceridade Falo

«Não sei quem sou, que alma tenho.
Quando falo com sinceridade não sei com que sinceridade falo. Sou váriamente outro do que um eu que não sei se existe (se é esses outros).
Sinto crenças que não tenho. Enlevam-me ânsias que repudio. A minha perpétua atenção sobre mim perpétuamente me ponta traições de alma a um carácter que talvez eu não tenha, nem ela julga que eu tenho.
Sinto-me múltiplo. Sou como um quarto com inúmeros espelhos fantásticos que torcem para reflexões falsas uma única anterior realidade que não está em nenhuma e está em todas.
Como o panteísta se sente árvore [?] e até a flor, eu sinto-me vários seres. Sinto-me viver vidas alheias, em mim, incompletamente, como se o meu ser participasse de todos os homens, incompletamente de cada [?], por uma suma de não-eus sintetizados num eu postiço». Fernando Pessoa, in «Para a Explicação da Heteronímia», página 143.

Cortesia de htmlgiant

Toda a Sociedade Está dentro de Mim

«Fazer qualquer coisa ao contrário do que todos fazem é quase tão mau como fazer qualquer coisa porque todos a fazem. Mostra uma igual preocupação com os outros, uma igual consulta da opinião deles - característica certa da inferioridade absoluta. Abomino por isso a gente como Oscar Wilde e outros que se preocupam com seres imorais ou infames, e com o impingir paradoxos e opiniões delirantes. Nenhum homem superior desce até dar à opinião alheia tal importância que se preocupe em contradizê-la.
Para o homem superior não há outros. Ele é o outro de si próprio. Se quer imitar alguém, é a si próprio que procura imitar. Se quer contradizer alguém, é a si mesmo que busca contradizer. Procura ferir-se, a si próprio, no que de mais íntimo tem... faz partidas às suas próprias opiniões, tem longas conversas cheias de desprezo e com as sensações que sente. Todo o homem que há sou Eu. Toda a sociedade está dentro de mim. Eu sou os meus melhores amigos e os meus verdadeiros inimigos. O resto - o que está lá fora - desde as planícies e os montes até às gentes - tudo isso não é senão paisagem... ». Fernando Pessoa, in «Reflexões Pessoais», página 147.

Cortesia de emmashouseinportugal 

Sonhos sem Ilusões

«Saber não ter ilusões é absolutamente necessário para se poder ter sonhos. Atingirás assim o ponto supremo da abstenção sonhadora, onde os sentimentos se mesclam, os sentimentos se extravasam, as ideias se interpenetram. Assim como as cores e os sons sabem uns a outros, os ódios sabem a amores, e as coisas concretas a abstractas, e as abstractas a concretas. Quebram-se os laços que, ao mesmo tempo que ligavam tudo, separavam tudo, isolando cada elemento. Tudo se funde e confunde». Fernando Pessoa, in «O Livro do Desassossego», página 148.

JDACT

domingo, 25 de dezembro de 2011

O Pensamento e as Interpretações. Agostinho da Silva. «Do êxtase, porém, não alimentamos grandes desejos; o amor que nele descobrimos não pertence à categoria do amor que mais nos interessa, o que eleva o amado acima de si próprio, o que se esforça por esculpir uma alma com entusiasmo e paciência»

In Memoriam
MLAC, JLT e ATJ

Cortesia d engfconsultoria

O Povo Culto
«Os povos serão cultos na medida em que entre eles crescer o número dos que se negam a aceitar qualquer benefício dos que podem; dos que se mantêm sempre vigilantes em defesa dos oprimidos não porque tenham este ou aquele credo político, mas por isso mesmo, porque são oprimidos e neles se quebram as leis da Humanidade e da razão; dos que se levantam, sinceros e corajosos, ante as ordens injustas, não também porque saem de um dos campos em luta, mas por serem injustas; dos que acima de tudo defendem o direito de pensar e de ser digno».

Tolerância às Opiniões
«Para que os homens possam sentir-se felizes com a minha companhia, é necessário antes de tudo que eu tenha a grande força de ver como prováveis as opiniões a que aderiram, desde que as não venham contradizer os factos que posso observar; não devo supor-me infalível; não devo considerar-me a inteligência superior e única entre o bando de pobres seres incapazes de pensar; cumpre-me abafar todo o ímpeto que possa haver dentro de mim para lhes restringir o direito de pensarem e de exprimirem, como souberem e quiserem, os resultados a que puderam chegar; de outro modo, nada mais faria de que contribuir para matar o universo: porque ele só vive da vida que lhe insufla o pensamento poderoso e livre».

Realização e Êxtase
«Conviria distinguir bem um do outro o caminho para o êxtase e o próprio êxtase; o primeiro ainda pode ter algum interesse por todas as lutas interiores, por todas as incertezas, por todo o esforço de pensar amplamente a que em geral dá origem; no entanto já nele mesmo poderíamos ver, além de uma preocupação egoísta, uma alternativa de esperança e desespero, um gosto da revelação e dos auxílios sobrenaturais que não poderão talvez classificar-se como superiores.
Do êxtase, porém, não alimentamos grandes desejos; o amor que nele descobrimos não pertence à categoria do amor que mais nos interessa, o que eleva o amado acima de si próprio, o que se esforça por esculpir uma alma com entusiasmo e paciência; é um amor a que se chega como recompensa de tarefa cumprida; não marca as delícias do caminho difícil, apaga-as da memória; faz desaparecer do peito do homem o seu único motivo de alegria, a sua única fonte de verdadeira glória.
Viver interessa mais que ter vivido; e a vida só é vida real quando sentimos fora de nós alguma coisa de diferente; se a diferença se tornar oposição, se o que era caminho diverso se transformar em muro de rocha, então no duelo que se trava, no instável equilíbrio que a cada momento se pode romper e precipitar-nos das alturas, nesta batalha em que não há um minuto de rancor pelo adversário, encontraremos a grande e forte vida; ora o êxtase consiste realmente no apagar das distinções, na identificação perfeita de dois termos».

Agostinho da Silva, in «Diário de Alcestes».

Cortesia de psicoliberdade

JDACT

O Pensamento e as Interpretações. Matias Aires. Friedrich Nietzsche. Fernando Pessoa: «Que as coisas mais momentosas se concretizem, que um dia os homens venham todos a ser felizes, que se encontre uma solução para os males da sociedade, mesmo na sua concepção, enfurece-me. E, contudo, não sou mau nem cruel; sou louco, e isso duma forma difícil de conceber»

In Memoriam
MLAC, JLT e ATJ

Cortesia de dark

O Que Esconde o Admirável 
«São raras as acções, que sejam ilustres por si mesmas; dificilmente haverá algumas, que não deixem conhecer que vêm do homem. As mais das cousas admiram-se, porque se não conhecem; e juntamente porque nelas há um rico véu, que as cobre: vemos um exterior brilhante, que muitas vezes serve de esconder um abismo horrendo; a mesma luz arma-se de raios, para que não possa examinar-se de onde lhe vêm os resplandores; a formusura em tudo nos atrai; a nossa admiração não pode passar além; donde a encontra, aí fica suspensa, e cega.  
Isto sucede nas acções dos homens; as mais sublimes, parece que nos cegam, e suspendem; e talvez seriam detestáveis, se lhes não ignorássemos as causas. Tudo o que tem ar de grande prende a nossa imaginação de sorte, que não fica livre para discorrer na cousa, senão no estado de grandeza em que a vê, e não para indagar de onde veio, nem como veio» Matias Aires, in «Reflexões Sobre a Vaidade dos Homens e Carta Sobre a Fortuna». 


Dar Estilo ao Seu Carácter  
«Dar estilo» ao seu carácter... é uma arte deveras considerável que raramente se encontra! Para a exercer é necessário que o nosso olhar possa abranger tudo o que há de forças e de fraquezas na nossa natureza, e que as adaptemos em seguida a um plano concebido com gosto, até que cada uma apareça na sua razão e na sua beleza e que as próprias fraquezas seduzam os olhos. Aqui ter-se-á acrescentado uma grande massa de segunda natureza, nos pontos onde se terá tirado um pedaço da primeira, à custa, nos dois casos, de um paciente exercício e de um trabalho de todos os dias. Neste lugar disfarçou-se uma fealdade que se não podia fazer desaparecer, noutro ela foi transmudada, fez-se dela uma beleza sublime. Grande número de elementos, que se recusavam a tomar forma, foram reservados para ser utilizados nos efeitos de perspectiva: darão os longes, o apelo do infinito. Foi a unidade, a pressão de um mesmo gosto que dominou e afeiçoou no grande e no pequeno: a que ponto, vemo-lo por fim, uma vez terminada a obra; que esse gosto seja bom ou mau, importa menos do que se pensa, basta que tenha havido um. 
Serão as naturezas fortes e dominadoras que apreciarão as alegrias mais subtis nesta opressão, nesta escravatura, nesta perfeição ditadas pela lei pessoal; o aspecto de qualquer natureza estilizada, de qualquer natureza, enfim, vencida e submetida, alivia a paixão da sua forte vontade; se têm de construir palácios, se têm de plantar jardins repugna-lhes também deixar a natureza livre. Pelo contrário, os carácteres fracos, aqueles que não se dominam, odeiam a servidão do estilo: sentem que se tornariam inevitavelmente vulgares se esta amarga opressão lhes fosse imposta: não saberiam servir sem se tornar escravos, por isso detestam fazê-lo. Semelhantes espíritos - e podem ser de primeira ordem - empenham-se sempre em se dar a si próprios e em dar ao seu meio o ritmo de naturezas livras - selvagens, arbitrárias, fantasistas, desordenadas e surpreendentes - ou em interpretar-se como tais: e fazem bem, porque é só assim que se satisfazem! Uma única coisa é, com efeito, necessária: que o homem chegue a estar contente consigo, qualquer que seja a arte ou a ficção de que se serve para esse fim: é somente então que ganha uma fisionomia suportável! Os que estão descontentes consigo próprios estão sempre prontos a vingar-se: como nós que seremos as suas vítimas, quanto mais não seja tendo de suportar sempre o seu desagradável espectáculo. Porque o espectáculo da fealdade torna as pessoas más e sombrias». Friedrich Nietzsche, in «A Gaia Ciência».

Cortesia de obuscar

O Meu Carácter 
«Cumpre-me agora dizer que espécie de homem sou. Não importa o meu nome, nem quaisquer outros pormenores externos que me digam respeito. É acerca do meu carácter que se impõe dizer algo. Toda a constituição do meu espírito é de hesitação e dúvida. Para mim, nada é nem pode ser positivo; todas as coisas oscilam em torno de mim, e eu com elas, incerto para mim próprio. Tudo para mim é incoerência e mutação. Tudo é mistério, e tudo é prenhe de significado. Todas as coisas são «desconhecidas», símbolos do Desconhecido. O resultado é horror, mistério, um medo por de mais inteligente. Pelas minhas tendências naturais, pelas circunstâncias que rodearam o alvor da minha vida, pela influência dos estudos feitos sob o seu impulso (estas mesmas tendências) - por tudo isto o meu carácter é do género interior, autocêntrico, mudo, não auto-suficiente mas perdido em si próprio. Toda a minha vida tem sido de passividade e sonho. Todo o meu carácter consiste no ódio, no horror e na incapacidade que impregna tudo aquilo que sou, física e mentalmente, para actos decisivos, para pensamentos definidos. Jamais tive uma decisão nascida do autodomínio, jamais traí externamente uma vontade consciente. Os meus escritos, todos eles ficaram por acabar; sempre se interpunham novos pensamentos, extraordinárias, inexpulsáveis associações de ideias cujo termo era o infinito.  
Não posso evitar o ódio que os meus pensamentos têm a acabar seja o que for; uma coisa simples suscita dez mil pensamentos, e destes dez mil pensamentos brotam dez mil interassociações, e não tenho força de vontade para os eliminar ou deter, nem para os reunir num só pensamento central em que se percam os pormenores sem importância mas a eles associados. Perpassam dentro de mim; não são pensamentos meus, mas sim pensamentos que passam através de mim. Não pondero, sonho; não estou inspirado, deliro. Sei pintar mas nunca pintei, sei compor música, mas nunca compus. Estranhas concepções em três artes, belos voos de imaginação acariciam-me o cérebro; mas deixo-os ali dormitar até que morrem, pois falta-me poder para lhes dar corpo, para os converter em coisas do mundo externo.  
O meu carácter é tal que detesto o começo e o fim das coisas, pois são pontos definidos. Aflige-me a ideia de se encontrar uma solução para os mais altos, mais nobres, problemas da ciência, da filosofia; a ideia que algo possa ser determinado por Deus ou pelo mundo enche-me de horror. Que as coisas mais momentosas se concretizem, que um dia os homens venham todos a ser felizes, que se encontre uma solução para os males da sociedade, mesmo na sua concepção, enfurece-me. E, contudo, não sou mau nem cruel; sou louco, e isso duma forma difícil de conceber. Embora tenha sido leitor voraz e ardente, não me lembro de qualquer livro que haja lido, em tal grau eram as minhas leituras estados do meu próprio espírito, sonhos meus - mais, provocações de sonhos. A minha própria recordação de acontecimentos, de coisas externas, é vaga, mais do que incoerente. Estremeço ao pensar quão pouco resta no meu espírito do que foi a minha vida passada. Eu, um homem convicto de que hoje é um sonho, sou menos do que uma coisa de hoje». Fernando Pessoa, in «Notas Autobiográficas e de Autognose».

Cortesia de O Citador/JDACT

domingo, 18 de dezembro de 2011

O Pensamento e as Interpretações. Agostinho da Silva. «Reservemos para nós a tarefa de compreender e unir; busquemos em cada homem e em cada povo e em cada crença não o que nela existe de adverso, para que se levantem as barreiras, mas o que existe de comum e de abordável, para que se lancem as estradas da paz; empreguemos toda a nossa energia em estabelecer um mútuo entendimento; ponhamos de lado todo o instinto de particularismo e de luta, alarguemos a todos a nossa simpatia»

Cortesia de embaixadaportugalbrasil

Compreensão
Compreender e unir

«Já são em número demasiado os que vieram ao mundo para combater e separar; o progresso e valor de cada seita e de cada grupo dependeram talvez desta atitude discriminadora e intransigente; aceitemos como o melhor que foi possível tudo o que nos apresenta o passado; mas procuremos que seja outra a atitude que tomarmos; lancemos sobre a terra uma semente de renovação e de íntimo aperfeiçoamento.
Reservemos para nós a tarefa de compreender e unir; busquemos em cada homem e em cada povo e em cada crença não o que nela existe de adverso, para que se levantem as barreiras, mas o que existe de comum e de abordável, para que se lancem as estradas da paz; empreguemos toda a nossa energia em estabelecer um mútuo entendimento; ponhamos de lado todo o instinto de particularismo e de luta, alarguemos a todos a nossa simpatia.
Reflictamos em que são diferentes os caminhos que toma cada um para seguir em busca da verdade, em que muitas vezes só um antagonismo de nomes esconde um acordo real. Surja à luz a íntima corrente tanta vez soterrada e nela nos banhemos. Aprendamos a chamar irmão ao nosso irmão e façamos apelo ao nosso maior esforço para que se não quebre a atitude fraternal, para que se não perca o dom de amor, para que se não cerre o coração à mais perfeita voz que nos chama e solicita.
Não os queremos trazer ao nosso grémio nem ingressar no deles; apenas desejamos que da melhor compreensão entre uns e outros, do conhecimento das essências, se erga a morada de um Pai que não distingue entre os eleitos e a todos por igual protege e incita; cada um ficará em sua lei; só pretendemos que não tome os de leis diferentes por implacáveis inimigos ou por almas perversas e perdidas; são homens como nós e vão-se dirigindo ao mesmo fim; desde já os vejamos como futuros companheiros». Considerações, In Agostinho da Silva, Citações e Pensamentos, Casa das Letras, organização de Paulo Neves da Silva, 2009, ISBN 978-972-46-1922-4.

Cortesia da Casa das Letras/JDACT

quarta-feira, 14 de dezembro de 2011

O Pensamento e as Interpretações. Jean-Paul Sartre. «Se, na verdade, a existência precede a essência, não é possível explicação por referência a uma natureza humana dada e hirta; dito de outro modo, não há determinismo, o homem é livre, o homem é liberdade»

(1905-1980)
Paris
Cortesia de wikipedia

Existimos em Função do Futuro
«Tentai apreender a vossa consciência e sondai-a. Vereis que está vazia, só encontrareis nela o futuro. Nem sequer falo dos vossos projectos e expectativas: mas o próprio gesto que surpreendeis de passagem só tem sentido para vós se projectardes a sua realização final para fora dele, fora de vós, no ainda-não. Mesmo esta taça cujo fundo não se vê - que se poderia ver, que está no fim de um movimento que ainda não se fez -, esta folha branca cujo reverso está escondido (mas poderia virar-se a folha) e todos os objectos estáveis e sólidos que nos rodeiam ostentam as suas qualidades mais imediatas, mais densas, no futuro. O homem não é de modo nenhum a soma do que tem, mas a totalidade do que não tem ainda, do que poderia ter. E, se nos banhamos assim no futuro, não ficará atenuada a brutalidade informe do presente? O acontecimento não nos assalta como um ladrão, visto que é, por natureza, um Tendo-sido-Futuro. E, para explicar o próprio passado, não será a primeira tarefa do historiador procurar o futuro?». In Jean-Paul Sartre, in «Situações I»

Cortesia de joshwehe

Antes de Vivermos, a Vida é Coisa Nenhuma
«O homem começa por existir, isto é, o homem é de início o que se lança para um futuro e o que é consciente de se projectar no futuro. O homem é primeiro um projecto que se vive subjectivamente, em vez de ser musgo, podridão ou couve-flor; nada existe previamente a esse projecto; nada existe no céu ininteligível, e o homem será em primeiro lugar o que tiver projectado ser. Não o que tiver querido ser. Porque o que nós entendemos ordinariamente por querer é uma decisão consciente, e para a generalidade das pessoas posterior ao que se elaborou nelas. Posso querer aderir a um partido, escrever um livro, casar-me: tudo isto é manifestação de uma escolha mais original mais espontânea do que se denomina por vontade. (...)
Escreveu Dostoievsky: «Se Deus não existisse, tudo seria permitido.» É esse o ponto de partida do existencialismo. Com efeito, tudo é permitido se Deus não existe, e, por conseguinte, o homem encontra-se abandonado, porque não encontra em si, nem fora de si, a que agarrar-se. Ao começo não tem desculpa. Se, na verdade, a existência precede a essência, não é possível explicação por referência a uma natureza humana dada e hirta; dito de outro modo, não há determinismo, o homem é livre, o homem é liberdade. Se, por outro lado, Deus não existe, não encontramos em face de nós valores ou ordens que legitimem a nossa conduta. Assim, não temos nem por detrás de nós nem à nossa frente, no domínio luminoso dos valores, justificação ou desculpas. Estamos sozinhos, sem desculpa. É o que exprimirei dizendo que o homem está condenado a ser livre.

Se suprimi Deus Pai, cumpre que alguém invente os valores. Temos de tomar as coisas como elas são. Aliás, dizer que inventamos os valores não significa senão isto: a vida não tem sentido a priori. Antes de vivermos, a vida é coisa nenhuma, mas é a nós que compete dar-lhe um sentido, e o valor não é outra coisa senão o sentido que tivermos escolhido». In Jean-Paul Sartre, in «O Existencialismo é um Humanismo»

Cortesia de O Citador/JDACT

segunda-feira, 21 de novembro de 2011

O Pensamento e as Interpretações: Parte XXXIII. Luís de Camões. «Que me dizeis ao contentamento do mundo, onde toda a duração dele está enquanto se alcança? Porque, acabado de passar, acabado de esquecer. E com razão, porque, acabado de alcançar, é passado; e maior saudade deixa do que é o contentamento que deu»

Cortesia de earlymorningtalkwordpress

Nunca Estamos Contentes
Já ouvistes dizer: «Ninho feito, pega morta». Que me dizeis ao contentamento do mundo, onde toda a duração dele está enquanto se alcança? Porque, acabado de passar, acabado de esquecer. E com razão, porque, acabado de alcançar, é passado; e maior saudade deixa do que é o contentamento que deu. Esperai, por me fazer mercê, que lhe quero dar umas palavrinhas de propósito:

Mundo, se te conhecemos,
porque tanto desejamos
teus enganos?
E, se assim te queremos,
muito sem causa nos queixamos
de teus danos.

Tu não enganas ninguém,
pois a quem te desejar
vemos que danas;
se te querem qual te vem,
se se querem enganar,
ninguém enganas.

Vejam-se os bens que tiveram
os que mais em alcançar-te
se esmeraram;
que uns, vivendo, não viveram,
e os outros, só com deixar-te,
descansaram.

E se esta tão clara fé
te aclara teus enganos,
desengana;
sobejamente mal vê
quem, com tantos desenganos,
se engana.

Mas como tu sempre morres
no engano em que andamos e que vemos,
não cremos o que tu podes,
senão o que desejamos
e queremos.

Nada te pode estimar
quem bem quiser estimar-te
e conhecer-te;
que em te perder ou ganhar,
o mais seguro ganhar-te
é perder-te.

E quem em ti determina
descanso poder achar,
saiba que erra;
que sendo a alma divina,
não a pode descansar
nada da terra.

Nascemos para morrer,
morremos para ter vida,
em ti morrendo.
O mais certo é merecer
nós a vida conhecida,
cá vivendo.

Enfim, mundo, és estalagem
em que pousam nossas vidas
de corrida;
de ti levam de passagem
ser bem ou mal recebidas
na outra vida.
Luís Vaz de Camões, in «Cartas»

Cortesia de O Citador/JDACT

domingo, 2 de outubro de 2011

O Pensamento e as Interpretações: Parte XXXII. Florbela Espanca e Manuel Bernardes. «... Daqui se infere, que quanto maior é a grandeza de estado de uma pessoa, tanto maior é o seu cativeiro (excepto aqueles poucos, que só no exterior são grandes, e no seu interior pequenos); porque necessita de inumeráveis coisas para o adquirir»

Cortesia de vitorfaria

Dotado de Verdadeira Virtude
«O que é dotado de verdadeira virtude tem os seus males por fora, os seus bens por dentro. Pelo contrário o amigo de glória vã, o hipócrita, o mundano, os seus males estão por dentro, porque são verdadeiros; e os seus bens por fora, porque são imaginados, e aparentes.
Entre todas as virtudes somente a humildade se ignora a si mesma: como traz os olhos baixos, e fitos no abismo do seu nada, não reflecte sobre o seu conhecimento, porque o verdadeiro humilde não presume que o seja». 
Estado de Grandeza Dependente
«A pura, perfeita, e absoluta liberdade consiste em não necessitar de coisa alguma: e esta é própria dos bem-aventurados. Outra mais inferior consiste em necessitar de poucas coisas: e quanto estas forem menos, tanto a liberdade será de mais alto grau. E esta é a que na presente vida podemos, e devemos procurar (...).
Daqui se infere, que quanto maior é a grandeza de estado de uma pessoa, tanto maior é o seu cativeiro (excepto aqueles poucos, que só no exterior são grandes, e no seu interior pequenos): porque necessita de inumeráveis coisas para o adquirir, e conservar: antes nessas mesmas coisas consiste o tal estado». In Manuel Bernardes, «Luz e Calor»

Cortesia de arvoredeperola

Amar Intensamente
«De que vale no mundo ser-se inteligente, ser-se artista, ser-se alguém, quando a felicidade é tão simples! Ela existe mais nos seres claros, simples, compreensíveis e por isso a tua noiva de dantes, vale talvez bem mais que a tua noiva de agora, apesar dos versos e de tudo o mais. Ela não seria exigente, eu sou-o muitíssimo. Preciso de toda a vida, de toda a alma, de todos os pensamentos do homem que me tiver. Preciso que ele viva mais da minha vida que da vida dele. Preciso que ele me compreenda, que me adivinhe. A não ser assim, sou criatura para esquecer com a maior das friezas, das crueldades. Eu tenho já feito sofrer tanto! Tenho sido tão má! Tenho feito mal sem me importar porque quando não gosto, sou como as estátuas que são de mármore e não sentem». 

Amar não é Ser Egoísta
«Tenho a certeza que tu és o meu maior amigo, o mais dedicado, o melhor de todos. Como eu o vi hoje bem! Como tu és leal e bom! Tão diferente de todos os outros homens que para te pagar o que no futuro hei-de dever-te, será pequena a minha vida inteira, mesmo que ela seja imensa. Os outros, amando as mulheres, são como os gatos que quando acariciam, é a eles que acariciam. Amar não é ser egoísta, é tantas, tantas vezes o sacrifício de nós próprios! A dedicação de todos os instantes, um interesse sem cálculo, uns cuidados que em pequeninas coisas se revelam e o pensamento constante de fazer a felicidade de quem se ama». In Florbela Espanca, «Correspondência, 1920»

Cortesia do Citador/JDACT

quarta-feira, 3 de agosto de 2011

O Pensamento e as Interpretações: Parte XXXI. Aristóteles. «... resulta a definição da filosofia que procuramos. É imprescindível que seja a ciência teórica dos primeiros princípios e das primeiras causas, porque uma das causas é o bem, a razão final»

Cortesia de girafamania

A Indagação das Causas e dos Princípios.
«Visto que esta ciência (a filosofia) é o objecto das nossas indagações, examinemos de que causas e de que princípios se ocupa a filosofia como ciência; questão que se tomará muito mais clara se examinarmos as diversas ideias que formamos do filósofo. Em primeiro lugar, concebemos o filósofo principalmente como conhecedor do conjunto das coisas, enquanto é possível, sem contudo possuir a ciência de cada uma delas em particular. Em seguida, àquele que pode alcançar o conhecimento de coisas difíceis, aquelas a que só se chega vencendo graves dificuldades, não lhe chamaremos filósofo? De facto, conhecer pelos sentidos é uma faculdade comum a todos, e um conhecimento que se adquire sem esforço em nada tem de filosófico. Finalmente, o que tem as mais rigorosas noções das causas, e que melhor ensina estas noções, é mais filósofo do que todos os outros em todas as ciências. E, entre as ciências, aquela que se procura por si mesma, só pelo anseio do saber, é mais filosófica do que a que se estuda pelos seus resultados; assim como a que domina as mais é mais filosófica do que a que se encontra subordinada a qualquer outra. Não, o filósofo não deve receber leis, mas sim dá-las; nem é necessário que obedeça a outrem, mas deve obedecer-lhe o que seja menos filósofo.
(...) Pois bem: o filósofo que possuir perfeitamente a ciência do geral tem necessariamente a ciência de todas as coisas, porque um homem em tais circunstâncias sabe, de certo modo, tudo quanto está compreendido sob o geral. Todavia, pode dizer-se também que se toma muito difícil ao homem alçar-se aos conhecimentos mais gerais; as coisas que são seus objectos como que estão mais distantes do alcance dos sentidos.

(...) De tudo quanto dissemos sobre a própria ciência resulta a definição da filosofia que procuramos. É imprescindível que seja a ciência teórica dos primeiros princípios e das primeiras causas, porque uma das causas é o bem, a razão final. E que não é uma ciência prática, prova-o o exemplo dos que primeiramente filosofaram. O que, a princípio, levou os homens a fazerem as primeiras indagações filosóficas foi, como é hoje, a admiração. Entre os objectos que admiravam e que não podiam explicar, aplicaram-se primeiro aos que se encontravam ao seu alcance; depois, passo a passo, quiseram explicar os fenómenos mais importantes; por exemplo, as diversas fases da Lua, o trajecto do Sol e dos astros e, finalmente, a formação do universo. Ir à procura duma explicação e admirar-se é reconhecer que se ignora. (...) Portanto, se os primeiros filósofos filosofaram para se libertarem da ignorância, é evidente que se consagraram à ciência para saber, e não com vista à utilidade». In Aristóteles, Metafísica.

Cortesia de culturaculturamix
 
Cortesia de O Citador/JDACT

segunda-feira, 6 de junho de 2011

O Pensamento e as Interpretações: Parte XXIX. Leon Tolstoi. Miguel Torga. «Os homens não são feitos assim. Podemos dizer que determinado homem se mostra mais frequentemente bom do que mau, mais frequentemente inteligente do que estúpido, mais frequentemente enérgico do que apático, ou inversamente; mas seria falso afirmar de um homem que é bom ou inteligente, e de outro que é mau ou estúpido»

Cortesia de thirdworldorphans

O Homem não é sempre Igual.
«Um dos preconceitos mais conhecidos e mais espalhados consiste em crer que cada homem possui como sua propriedade certas qualidades definidas, que há homens bons ou maus, inteligentes ou estúpidos, enérgicos ou apáticos, e assim por diante. Os homens não são feitos assim. Podemos dizer que determinado homem se mostra mais frequentemente bom do que mau, mais frequentemente inteligente do que estúpido, mais frequentemente enérgico do que apático, ou inversamente; mas seria falso afirmar de um homem que é bom ou inteligente, e de outro que é mau ou estúpido. No entanto, é assim que os julgamos. Pois isso é falso. Os homens parecem-se com os rios: todos são feitos dos mesmos elementos, mas ora são estreitos, ora rápidos, ora largos, ora plácidos, claros ou frios, turvos ou tépidos». In Leon Tolstoi, «Ressurreição».

Cortesia de ebicubadrealentejo

É Impossível que o Tempo Actual não Seja o Amanhecer doutra Era
«É impossível que o tempo actual não seja o amanhecer doutra era, onde os homens signifiquem apenas um instinto às ordens da primeira solicitação. Tudo quanto era coerência, dignidade, hombridade, respeito humano, foi-se. Os dois ou três casos pessoais que conheço do século passado, levam-me a concluir que era uma gente naturalmente cheia de limitações, mas digna, direita, capaz de repetir no fim da vida a palavra com que se comprometera no início dela. Além disso heróica nas suas dores, sofrendo-as ao mesmo tempo com a tristeza do animal e a grandeza da pessoa. Agora é esta ferocidade que se vê, esta coragem que não dá para deixar abrir um panarício ou parir um filho sem anestesia, esta tartufice, que a gente chega a perguntar que diferença haverá entre uma humanidade que é daqui, dali, de acolá, conforme a brisa, e uma colónia de bichos que sentem a humidade ou o cheiro do alimento de certo lado, e não têm mais nenhuma hesitação nem mais nenhum entrave». In Miguel Torga, «Diário (1942)»

Cortesia de O Citador/JDACT