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terça-feira, 21 de julho de 2020

O Afegão. Frederick Forsyth. «… ambos os lados do Atlântico, de que a paz finalmente chegara, e para ficar. Foi precisamente o momento em que a nova Guerra Fria…»

Cortesia de wikipedia e jdact

Stingray
«(…) O aparelho varreria a cidade, fechando cada vez mais a área, até localizar a fonte do sinal. Em Islamabad, o sargento na escuta disse ao seu superior: a conversa terminou. Mer…, disse o major. Três minutos e 44 segundos. Não podíamos esperar mais do que isso. Mas parece que ele não desligou o aparelho, informou o sargento.

Num apartamento de um prédio na cidade velha de Peshawar, Abdelahi cometera o seu segundo erro. Ao ouvir o egípcio sair de seu quarto, Abdelahi desligara imediatamente a chamada para seu irmão e enfiara o telemóvel debaixo de uma almofada. Mas se esquecera de desligar o aparelho. A 800 metros dali, os varredores do coronel Razak aproximavam-se cada vez mais.

Tanto o SIS (Serviço Secreto de Inteligência) britânico, quanto a CIA (Agência Central de Inteligência) americana mantêm operações de grande porte no Paquistão por motivos óbvios. Trata-se de uma das principais zonas de guerra na luta contra o terrorismo actual. Parte da força da aliança ocidental, que data de 1945, deve-se à habilidade de cooperação de ambas as agências. Houve momentos de divergência, principalmente depois do surto de traidores britânicos, que começara em 1951 com Philby, Burgess e Maclean. Mais adiante, quando os americanos descobriram que também mantinham uma galeria de traidores a serviço de Moscou, a CIA perdeu o preconceito para com o SIS. Em 1991, o fim da Guerra Fria conduziu à conclusão estúpida, da parte de políticos de ambos os lados do Atlântico, de que a paz finalmente chegara, e para ficar. Foi precisamente o momento em que a nova Guerra Fria, silenciosa e oculta nas profundezas do islão, estava experimentando as dores do nascimento. O 11 de Setembro pôs fim a toda rivalidade entre as agências. A regra se tornou: se nós sabemos, é melhor vocês saberem também. E vice-versa. Diversas agências estrangeiras prestavam sua contribuição à luta, mas nenhuma delas possuía a precisão dos colectores de informação anglo-americanos.
O coronel Razak conhecia ambos os chefes de secção na sua cidade. Em termos pessoais, era mais íntimo de Brian O'Dowd, o homem do SIS, e o telemóvel
dos terroristas foi originalmente uma descoberta britânica. Assim, ao descer do terraço, foi para O'Dowd que ele telefonou com a notícia. Nesse momento, o Al Qur foi ao banheiro e Abdelahi enfiou a mão debaixo da almofada para pegar o telemóvel e colocá-lo de volta em cima da mala, onde o encontrara. Com uma pontada de culpa, viu que ainda estava ligado. Desligou-o imediatamente. Temia gastar a bateria. Em todo caso, estava com oito segundos de atraso. O localizador de direcção fizera seu trabalho. Como assim, você descobriu?, perguntou O'Dowd. Seu dia subitamente se tornara Natal e vários aniversários num só. Não tem dúvida, Brian. A chamada veio de um apartamento no andar superior de um prédio de cinco andares na cidade velha. Dois dos meus agentes disfarçados estão indo até lá para averiguar e planear a aproximação. Quando vão invadir? De madrugada. Gostaria que fosse às três da manhã, mas o risco é grande demais. Eles podem fugir...» In Frederick Forsyth, O Afegão, Edições ASA, 2008, ISBN 978-989-230-267-6.

Cortesia de EASA/JDACT

segunda-feira, 6 de julho de 2020

O Afegão. Frederick Forsyth. «Anos antes, e decerto antes do evento hoje conhecido como 11 de Setembro, isto é, a destruição do World Trade Center em 2001, o Departamento de Serviços Internos de Inteligência do Paquistão…»

Cortesia de wikipedia e jdact

Stingray
«(…) Mas soldados nem sempre sabem lidar com finanças. As firmas especializadas haviam orçado em cifras de tirar o fôlego a conversão do celeiro medieval em casa de campo e lar aconchegante. Daí a decisão de fazer isso sozinho, a despeito de quanto tempo fosse necessário. O lugar era idílico. Na sua imaginação, podia ver o tecto restaurado à sua glória anterior, quando não tinha vazamentos, com noventa por cento das telhas originais preservadas e os outros dez por cento comprados de uma barraca que vendia material de demolição. As vigas mestras do telhado ainda estavam sólidas como no dia em que foram cortadas do carvalho, mas a laje teria de ser retirada e substituída por um impermeabilizante de tecto. Olhando para baixo, e vendo as antigas baias de feno empoeiradas, podia imaginar a sala de estar, a cozinha, o escritório, os corredores. Teria de recorrer a serviços profissionais para a rede eléctrica e o encanamento, mas já fora à Escola Técnica de Southampton matricular-se em cursos nocturnos de alvenaria, gessagem, carpintaria e vidreira.
Um dia haveria ali um pátio calçado com pedras e uma horta. A trilha seria revestida com paralelepípedos e haveria ovelhas pastando. Todas as noites, acampado no padoque enquanto a natureza brindava-o com uma brisa quente de fim de verão, ele refazia os cálculos e lembrava que, com paciência e muito trabalho, seria capaz de sobreviver com seu orçamento modesto. Tinha 44 anos, pele olivácea, cabelos e olhos negros e corpo magro e musculoso. E estava cansado. Cansado de desertos e florestas, de malária e sanguessugas, de noites de frio congelante, de comida ruim e pernas e braços doloridos. Conseguiria um emprego nas proximidades, e depois um labrador ou um casal de Jack Russells para compartilhar sua vida. E, talvez, até uma mulher. O homem no telhado removeu mais uma dúzia de telhas, guardou as dez inteiras, jogou fora os fragmentos das quebradas, e uma lâmpada vermelha piscou em Islamabad.
Muita gente pensa que, com um telemóvel pré-pago, todas as contas futuras são evitadas. Isso é verdade para o comprador e usuário, mas não para a operadora. A não ser que o aparelho seja usado apenas dentro da área de operação na qual foi comprado, ainda há um acerto a ser realizado, entre as empresas de telefonia, e são seus computadores que cuidam disso. Quando o irmão de Abdelahi atendeu ao telefone em Quetta, a chamada utilizava-se de uma antena situada nos arrabaldes de Peshawar. A torre pertence à Pak Tel. Assim, o computador da companhia começou a procurar pelo vendedor original do telemóvelr na Inglaterra, com a intenção de dizer, eletronicamente: Um dos seus clientes está usando meu tempo e espaço aéreo, de modo que você está me devendo. Contudo, há anos o Centro Antiterrorista (CAT) do Paquistão requerera que tanto a Pak Tel quanto a sua rival, a Mobi Tel, passassem cada chamada emitida ou recebida pelas suas redes para a sala de escuta do CAT. E, a pedido dos britânicos, o CAT inseriria nos seus computadores um software de interceptação programado para determinados números. Um deles subitamente estava activo.
Um jovem sargento paquistanês de idioma pashto monitorava o painel. Ele apertou um botão e um oficial superior entrou na linha. Depois de vários segundos na escuta, o oficial perguntou: o que está dizendo? O sargento ouviu e respondeu: o homem que ligou está dizendo alguma coisa sobre a mãe dele. Acho que está falando com o irmão. De onde? Do transmissor de Peshawar. Não era preciso dizer mais nada ao sargento. A chamada completa seria automaticamente gravada para análise futura. A tarefa imediata era localizar o emissor. O major do CAT de serviço naquele dia duvidava que uma chamada curta possibilitaria isso. E certamente o idiota não iria permanecer muito tempo na linha. No seu posto bem acima dos pavimentos subterrâneos, o major apertou três botões na sua mesa. Uma ligação foi efectuada para o chefe de seção do CAT, em Peshawar.
Anos antes, e decerto antes do evento hoje conhecido como 11 de Setembro, isto é, a destruição do World Trade Center em 2001, o Departamento de Serviços Internos de Inteligência do Paquistão, conhecido como ISI, fora infiltrado por muçulmanos fundamentalistas do Exército paquistanês. Esse era o seu problema e o motivo para a sua completa falta de confiança na luta contra o Talibã e a al-Qaeda.
Mas o presidente do Paquistão, general Musharraf, tivera pouca escolha senão ouvir o conselho vigoroso dos Estados Unidos para limpar a casa. Parte do programa fora a transferência dos oficiais extremistas do ISI para deveres militares normais; a outra fora a criação do Centro Antiterrorista, uma agência de elite composta por uma nova geração de oficiais jovens sem qualquer inclinação pelo terrorismo islâmico, por mais devotos que fossem à sua religião. O coronel Abdul Razak, previamente comandante de carros de combate, era um desses oficiais. Comandava o CAT em Peshawar, e atendeu a chamada às 14:30. O coronel escutou atentamente o seu colega da capital federal, e então indagou: quanto tempo? Até agora, cerca de três minutos. O coronel Razak tinha a sorte do seu escritório estar localizado a meros 730 metros da antena da PakTel, dentro do raio de 900 metros, normalmente necessário para que seu localizador de direcção funcionasse com eficácia. Acompanhado por dois técnicos, correu até ao terraço do edifício para começar a operar o localizador». In Frederick Forsyth, O Afegão, Edições ASA, 2008, ISBN 978-989-230-267-6.

Cortesia de EASA/JDACT

quinta-feira, 2 de julho de 2020

O Afegão. Frederick Forsyth. «Um de seus companheiros apontou a ausência de sinal no visor do aparelho e explicou o processo de carregamento»

Cortesia de wikipedia e jdact

Stingray
«(…) Mas, caso recebessem qualquer tarefa do chefe do seu clã, morreriam para realizá-la. Naquele Setembro, foram incumbidos de proteger o egípcio de meia-idade que falava árabe nilótico, mas dominava o suficiente do idioma pashto para se comunicar. Um dos quatro jovens era Abdelahi, e seu orgulho e alegria era seu telefone móvel. Infelizmente o aparelho não estava funcionando, porque ele esquecera de recarregar a bateria. Isso foi depois do meio-dia. Uma hora perigosa demais para sair à rua e caminhar até uma mesquita local para rezar. Al Qur dissera todas as suas preces junto com seus guarda-costas, no seu apartamento no andar superior. Tinham feito uma refeição frugal e se recolhido para descansar um pouco. O irmão de Abdelahi vivia a centenas de quilómetros a oeste, na igualmente fundamentalista cidade de Quetta, e a mãe deles estava doente. Em busca de notícias da mãe, tentou falar com ele pelo telemóvel. Não iria falar nada que fosse comprometedor; apenas uma parte dos trilhões de palavras inocentes que viajavam diariamente pelo éter de todos os cinco continentes. Mas seu telemóvel não queria funcionar. Um de seus companheiros apontou a ausência de sinal no visor do aparelho e explicou o processo de carregamento. Então Abdelahi viu o telemóvel sobressalente sobre a mala do egípcio, na sala de estar.
Estava totalmente carregado. Sem ter ideia de como aquilo poderia causar qualquer problema, digitou o número do irmão e ouviu o toque da chamada para Quetta. E na toca de coelho de subterrâneos interconectados em Islamabad, que constituem o departamento de escuta do Centro Antiterrorista do Paquistão, uma pequena lâmpada vermelha começou a piscar. Muitos moradores de Hampshire consideram-no o condado mais bonito da Inglaterra. A costa sul, de frente para as águas do canal, abriga o imenso porto marítimo de Southampton e a doca de Portsmouth. Seu centro administrativo é a cidade histórica de Winchester, dominada por uma catedral com quase mil anos de idade.
No coração do condado, longe de todas as estradas, e até mesmo das rodovias, fica o silencioso vale do rio Meon, um córrego agradável em cujas margens jazem aldeias que datam do tempo dos saxões. Uma única estrada corre de sul a norte, mas o resto do vale é uma rede de alamedas coleantes franjadas com árvores, cercas vivas e prados. É uma região de fazendas como nos velhos tempos, com poucos campos de mais de dez hectares e com um número ainda menor de fazendas de mais de quinhentos hectares. A maioria das casas de fazenda é muito antiga, e algumas servidas por agrupamentos de celeiros grandes, antigos e belos. O homem empoleirado no cume de um dos celeiros desfrutava de um panorama do vale Meon e de uma visão geral da aldeia mais próxima, Meonstoke, que ficava a menos de um quilómetro e meio de distância. No momento em que, a vários fusos horários para leste, Abdelahi fez a última chamada telefónica da sua vida, o telhador enxugou um pouco de suor da testa e reiniciou seu trabalho: remover com cuidado as telhas de barro que tinham sido postas ali havia centenas de anos.
Deveria ter chamado uma empresa especializada em reparo de telhado, que teria envolvido o celeiro inteiro com andaimes. Seria mais rápido e seguro trabalhar desse modo, embora muito mais caro. E o problema era esse. O homem empunhando o martelo de telhador era um ex-soldado, aposentado depois de 25 anos de carreira, e que usara a maior parte do soldo para comprar este sonho; um lugar no campo para chamar de lar. Um lar que já fora um celeiro, e do qual, para chegar à cidade mais próxima, era preciso seguir uma trilha e depois uma estrada». In Frederick Forsyth, O Afegão, Edições ASA, 2008, ISBN 978-989-230-267-6.

Cortesia de EASA/JDACT

quarta-feira, 1 de julho de 2020

O Afegão. Frederick Forsyth. «Durante a busca nas casas e propriedades dos homens-bomba, a polícia encontrou um verdadeiro tesouro que preferiu não revelar à imprensa»

Cortesia de wikipedia e jdact

Stingray
«Se o jovem guarda-costas talibã soubesse que aquela ligação de telefone móvel iria matá-lo, não a teria feito. Mas como não sabia, fez a ligação e morreu em seguida. Em 7 de Julho de 2005, quatro homens-bomba detonaram mochilas carregadas com explosivos no centro de Londres. Cinquenta e duas pessoas morreram, cerca de 700 ficaram feridas e pelo menos cem foram mutiladas. Três dos quatro homens-bomba nasceram e foram criados em solo britânico, porém filhos de paquistaneses. O quarto era um jamaicano naturalizado britânico e convertido ao islão. Ele e um dos outros ainda estavam na adolescência; o terceiro tinha 22 anos, e o líder do grupo, 30. Todos haviam sido radicalizados, ou convertidos ao fanatismo extremo, bem no coração da Inglaterra, depois de frequentar mesquitas extremistas e ouvir pregadores fanáticos. Nas 24 horas que se seguiram às explosões, os homens foram identificados e associados a vários endereços na cidade e arredores de Leeds, norte da Inglaterra. Inclusive, todos haviam falado em intensidades diversas com sotaque de Yorkshire. O líder fora Mohammad Siddique Khan, professor numa escola para alunos com necessidades especiais.
Durante a busca nas casas e propriedades dos homens-bomba, a polícia encontrou um verdadeiro tesouro que preferiu não revelar à imprensa. Quatro recibos demonstravam que um dos integrantes mais velhos comprou telemóveis do tipo descartável, e aparelhos tri-band, que podem ser usados praticamente em qualquer parte do mundo. Cada um dos aparelhos continha um cartão pré-pago no valor de 20 libras esterlinas. Os telemóveis foram pagos em dinheiro e estavam desaparecidos. Mas a polícia logo identificou os números e classificou-os como suspeitos, de modo que seriam identificados caso voltassem a ser utilizados. Também foi descoberto que Siddique Khan e seu parceiro de maior confiança no grupo, um jovem punjabi chamado Shehzad Tanweer, passaram três meses no Paquistão em Novembro do ano anterior. Não foi descoberta pista alguma sobre quem os dois teriam visitado, mas, semanas depois das explosões, a rede de televisão árabe Al Jazeera transmitiu uma gravação de Siddique Khan na qual ele anunciava a sua morte. O vídeo certamente fora gravado durante aquela visita feita a Islamabad.
Foi apenas em Setembro de 2006 que também ficou comprovado que um dos homens-bomba levara, na viagem, um dos inocentes telemóveis desaparecidos e o presenteara ao seu organizador instrutor da al-Qaeda. (A polícia britânica já estabelecera que nenhum dos homens-bomba possuía habilidade técnica para fabricar as bombas sem instrução e auxílio). Independentemente da identidade dessa autoridade superior, esta passara o presente adiante como um sinal de respeito a um membro da comitiva de elite reunida em torno da pessoa de Osama bin Laden, no seu esconderijo nas montanhas do Waziristão do Sul, ao longo da fronteira do Paquistão com o Afeganistão, a oeste de Peshawar. O aparelho seria utilizado apenas para emergências, já que todos os agentes da al-Qaeda são cautelosos no uso de telemóveis. Contudo, o doador não teria como saber que os fanáticos britânicos haviam cometido a estupidez de deixar o recibo do aparelho na sua escrivaninha em Leeds. A comitiva de Bin Laden apresenta quatro divisões, que lidam com as operações, as finanças, a propaganda e a doutrina da organização. Cada divisão possui um director, que responde apenas a Bin Laden e ao seu co-líder, Ayman Al-Zawahiri. Em Setembro de 2006, o chefe de finanças do grupo terrorista era o egípcio Tewfik Al-Qur, conterrâneo de Zawahiri.
Por motivos posteriormente esclarecidos, Tewfik Al-Qur encontrava-se disfarçado na cidade paquistanesa de Peshawar, em 15 de Setembro, e não partia para uma viagem demorada e perigosa para longe do entorno das montanhas, mas retornava de uma. Aguardava a volta do guia que iria levá-lo aos picos waziris, e à presença do xeque em pessoa.
Para protegê-lo em sua breve estada em Peshawar, foram-lhe designados quatro fanáticos locais, pertencentes ao movimento Talibã. Como é normal aos homens originários das montanhas do noroeste, eles eram tecnicamente paquistaneses, mas da tribo dos waziris. Falavam pashto melhor que urdu, e eram leais ao povo pashtun, do qual a tribo waziris é um sub-ramo. Todos foram içados da sarjeta numa madrassa, ou internato corânico de orientação extrema, aderindo à seita wahabi do islão, a mais severa e intolerante de todas. Não tinham conhecimento ou habilidade para qualquer coisa que não fosse recitar o Corão e, portanto, como milhões de jovens criados em madrassas, eram incapazes de obter emprego». In Frederick Forsyth, O Afegão, Edições ASA, 2008, ISBN 978-989-230-267-6.

Cortesia de EASA/JDACT

sexta-feira, 29 de janeiro de 2016

Muçulmanos. Cristãos. Judeus. Toledo. Séculos XII-XIII. «… esmagado os exércitos cristãos em Sagrejas, próximo de Badajoz, em 1086; em Consuegra, em 1097; em Uclés, quase às portas de Toledo, onde morrera o filho do imperador Afonso e de Zaida»

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A Chegada dos Cristãos. O Refluxo do Islão Espanhol
«(…) Recomeça a vida intelectual. Em Itália, no norte de França, nos mosteiros e depois nas escolas urbanas, grupos de clérigos estudam os textos que lhes foram legados pelos seus antecessores, comparam-nos, analisam as suas divergências, rentam resolvê-las. Têm a impressão de tecer o fio de uma tradição interrompida, de descobrir e assimilar outra vez uma cultura esquecida: somos anões empoleirados nos ombros de gigantes, dizia um deles. Desse saber antigo, as bibliotecas da Europa apenas conservam migalhas. O ocidente cristão, faminto de livros, é exigente: vai importar dos países que conservaram a tradição antiga, dos países islâmicos, de Bizâncio, a matéria-prima indispensável ao seu desenvolvimento intelectual. Para ele, a Espanha é uma ponte. Já no final do século IX o monge Gerbert viera fazer a sua aprendizagem das matemáticas a Ripoll, na Catalunha...
Os soberanos cristãos da Espanha procuravam o apoio deste novo dinamismo. Até meados do século XI, o cristianismo espanhol tinha uma vida autónoma, praticamente separada do mundo. Aqui ainda reinava o velho rito visigodo e Roma não contava. Todavia, desde 1063, que o papa concedera indulgências aos que fossem para Espanha combater os infiéis: vê-se, nesta decisão, o primeiro exemplo de cruzada. Sancho Ramirez de Aragão respondera a estas medidas. Deslocara-se a Roma e declarara-se vassalo da Santa Sé (1068); aceitara o ritual romano: era uma forma de se proteger das ambições da vizinha Navarra e de legitimar a independência que acabara de adquirir a expensas desta. Os outros seguiram-se-lhe, rapidamente. Castela jogara a cartada de Cluny, essa grande abadia da Borgonha cujo peso, na cristandade, era então colossal. Por seu intermédio, ligara-se à família ducal de Borgonha, que tinha vários membros fixados em Espanha: um deles estará, aliás, na origem de Portugal e Constança, a mulher de Afonso VI, era natural da Borgonha. Os cluniacenses haviam criado mosteiros, fornecido bispos, imposto, em 1080, a passagem ao rito romano. Em contrapartida, faziam propaganda do caminho de Santiago que atravessava o norte do reino e cuja expansão tanto prestígio trazia ao rei de Leão; empurravam para Espanha a multidão dos imigrantes que repovoavam, tal como os moçárabes provenientes do Sul, as terras conquistadas. A escolha de Bernard Cluny para bispo de Toledo não tinha nada de surpreendente, nem a proclamação por parte de Roma, alguns anos mais tarde, da Sé da cidade como arcebispado primaz de Espanha...
1212. Um grande exército reúne-se em Toledo. Primeiro, no início da Primavera, chegaram os cruzados do Poitu, da Gasconha, da Provença e do Languedoc, uma turba indisciplinada, sedenta de saque, reunida pela prédica dos clérigos que, nos últimos anos, percorriam o sul de França. Depois, o rei de Aragão, Pedro II (1196-1213), e os seus homens; as milícias das cidades de Castela; os voluntários de Leão e de Portugal, cujos reis não quiseram acompanhá-los; Sancho VII de Navarra, cognominado o Forte, (1194-1234) e por fim, Afonso VIII de Castela (1158-1214), o anfitrião de todos eles. Ele reuniu-os para o grande embate, que se pressente ser decisivo, contra An-Nasir, o Almóada, o rei de Marraquexe. A preparação foi longa. Foi necessário assinar com Aragão acordos de partilha das eventuais conquistas: eles dariam a este último, Valência e as Baleares; o resto, a Castela. Houve que chegar a entendimento com Leão, ainda independente, para obter pelo menos a sua neutralidade benevolente. O papa teve de insistir e proclamar a cruzada. Não devemos imaginar uma vaga unânime da Espanha cristã a precipitar-se sem segundas intenções sobre o infiel. É indubitavelmente mais verosímil do que em muitas outras ocasiões, mas isso não impede outras reflexões a terra. Apesar de tudo, o resultado é bem visível: constituiu-se um enorme exército.
Há um século que a frente da Reconquista está bloqueada frente a Toledo. No entanto, após a tomada da cidade, os castelhanos haviam progredido rapidamente para sul. Mas os reis dos taifas, não vendo já saída e pressionados pelos seus súbditos a quem o perigo radicalizava a fé, haviam decidido pedir ajuda aos Almorávidas, uns fundamentalistas que tinham acabado de tomar o poder em Marrocos. Estes haviam varrido os taifas, esmagado os exércitos cristãos em Sagrejas, próximo de Badajoz, em 1086; em Consuegra, em 1097; finalmente, em Uclés, quase às portas de Toledo, onde morrera o filho do imperador Afonso e de Zaida. Destronados os Almorávidas, sucederam-lhes os Almóadas, ainda mais rígidos, ainda mais decididos a repelir o infiel e a salvar al-Andalus. Durante mais de um século, Toledo fora cercada e os seus campos devastados». In Louis Cardaillac, Tolède, XII-XIII, Éditions Autrement, Paris, 1991, Toledo XII-XIII, Muçulmanos. Cristãos, Judeus, O Saber e a Tolerância, Terramar, Lisboa, 1996, ISBN 972-710-144-5.

Cortesia de Terramar/JDACT

terça-feira, 20 de janeiro de 2015

O Tempo no Pensamento Islâmico. Loius Massignon. «O instante marca, ao crepúsculo, o início de um Dia, yawm, que estabelece uma indicação, ou épochè, um início de era: é assim o dia 16 de Julho de 622…»

jdact

«Desde Kant que os matemáticos nos acostumaram a considerar o tempo como uma forma a priori da nossa intuição; ligado ao espaço tridimensional, o tempo constitui a quarta dimensão do universo em expansão. Contudo, sentimos uma espécie de contracção no nosso pensamento quando julgamos captar o tempo; sentimos que há mais no possível do que no existencializado, nos dados do problema do que nas suas soluções, na procura do que nas invenções. O tempo 4ª dimensão de Minkowski continua a ser discutível. Um pensamento religioso que tende para um monoteísmo transcendente, como é o Islamismo, tem uma visão totalmente diferente do tempo. Não se trata de o inventar, o tempo é que nos revela a ordem (amr) de Deus, esse fiat (kun, kûni) que provoca os nossos actos de pessoas responsáveis. Por conseguinte, para, o teólogo muçulmano, o tempo não é uma duração contínua, é uma constelação, uma via láctea de instantes (tal como o tempo não existe, o que existe são apenas pontos). A heresiografia condena como materialistas os Dahriyûn, os filósofos que divinizam a Duração (dahr). Para o Islamismo, que é ocasionalista e só descobre a causalidade divina na sua eficiência actual, só existe o instante, hîn, ân, piscadela de olho: lamh albasar, anúncio lacónico de uma decisão judiciária de Deus, que confere ao nosso acto nascente o seu estatuto (hukm): que será proclamado no Dia em que se ouvir o Clamor de Justiça.
Esta percepção descontínua do tempo em instantes não é mera subjectividade religiosa. Para toda a comunidade muçulmana, o instante é como uma revocação autoritária da Lei, tão inevitável como inesperada. O instante fundamental na vida do Islão surge ao cair da noite, com o primeiro Crescente do mês lunar, ghurrat al-hilâl, que declara aberto um prazo, de duração variável, para o cumprimento litúrgico dessa observância legal (peregrinação, em primeiro lugar; depois, prazo de isolamento, ou viuvez?, etc.). Não é permitido prever por meio de tabelas teóricas o primeiro Crescente, há que espiá-lo, constatá-lo empiricamente, por duas testemunhas do instante. Este método é ainda hoje o de todo o Islão (à excepção dos Ismaelitas). É o iltimâs al-hilâl. Nisso, o Islamismo aproxima-se da humanidade mais primitiva, que venera na própria irregularidade das fases da lua a manifestação de uma Vontade misteriosa independente das estações solares. Quando muito, tolera-se um calendário muito primitivo, chamado das 28 mansões lunares (364 dias), que fornece empiricamente o nome da estrela (Najm), ou melhor, da constelação zodiacal em que se deve espiar a aparição do primeiro Crescente no fim do mês lunar anterior. O instante marca, ao crepúsculo, o início de um Dia, yawm, que estabelece uma indicação, ou épochè, um início de era: é assim o dia 16 de Julho de 622, dia inaugural da hégira muçulmana em Medina: são assim, antes dela, os ayyâm al-‘Arab, dado que as lutas tribais constituem o único calendário real dos árabes antes do Islamismo. Instantes de paragem para as consciências, que implicam introversão, na memória». In Loius Massignon, O Tempo no Pensamento Islâmico e outros textos, tradução de Maria Figueiredo, Fundação Oriente, Edições Cotovia, Lisboa, 1983, 1997, ISBN 972-8028-98-9.

Cortesia da FOriente/JDACT

sábado, 3 de janeiro de 2015

Muçulmanos. Cristãos. Judeus. Toledo. Séculos XII-XIII. «No ano da tomada de Toledo, morreu Gregório VIII, o papa de Canossa, o que humilhara o imperador. Passado um pouco mais de tempo, Urbano II (1088-1099), lançará as cruzadas…»

Cortesia de wikipedia e jdact

A Chegada dos Cristãos. O Refluxo do Islão Espanhol
«(…) Quando o rei de Castela, seu senhor, quis apoderar-se do reino, o Cid considerou que este era seu e respondeu devastando as terras do seu suserano, o que provocou a retirada rápida deste último. Quando al-Qadir morreu, tomou o seu lugar e reinou com equanimidade sobre mouros e cristãos, perfeitamente independente. Morreu em 1099, e sucedeu-lhe sua mulher, dona Ximena. Foi expulsa do seu reino em 1102 por um regresso ofensivo dos Almorávidas, mouros africanos, puritanos e pouco propensos a compromissos. Mediante múltiplos contactos, duas sociedades interpenetram-se. Milhares de nobres e de soldados cristãos vindos do norte, amigos ou inimigos consoante os dias, viajam e permanecem em terra muçulmana. Aprendem a língua dos outros, apreciam os seus costumes e os seus gostos, também amam: Zaida, neta do rei de Sevilha, refugiar-se-á, antes de enviuvar, na corte de Afonso VI; o rei de Castela, o conquistador de Toledo, amá-la-á, ela entregar-se-á a ele, por ele se irá converter e dar-lhe o único filho que lhe sobreviveu... Aliás, foi Afonso quem tocou o dobre a finados dos taifas. Mais do que perseguir os mouros, ele queria suplantar os outros reis cristãos, seguindo a pura tradição de Leão, que governava, e afirmava-se único sucessor dos visigodos. Precisava de dinheiro, sempre de mais dinheiro, de parias, de cada vez mais parias. Quase todas os taifas lhe pagavam tributo. Era sobretudo aliado de al-Qadir, então rei de Toledo, ameaçado pelos seus homólogos de Sevilha e de Saragoça, que cobiçavam o seu território e cujo trono vacilava, minado pelo descontentamento dos seus próprios súbditos, esmagados pelos impostos e humilhados pelo enorme poder dos cristãos.
Fora expulso por uma revolta. Afonso propôs-se devolver-lhe o trono enquanto al-Qadir prometia ceder-lhe Toledo se os cristãos conquistassem para ele o reino de Valença. Só restava cercar a cidade e devastar os campos para chamar à razão os habitantes. Isso demorou alguns anos, porque não se justificava um assalto frontal. A 6 de Maio de 1085, Toledo rendeu-se e, a 25, Afonso fazia nela a sua entrada. Na verdade, merecia o título que há algum tempo lhe era dado pela sua chancelaria de Imperador de toda a Espanha: reconquistara a velha capital dos visigodos; fora o primeiro a forçar a fronteira de al-Andalus; era o maior de todos os reis cristãos e quase todos os taifas se reconheciam seus vassalos. Todavia, em Toledo, muitos dos muçulmanos haviam fugido. A comunidade moçárabe, sem dúvida a mais numerosa de toda a Espanha, apoderara-se de uma parte dos bens dos emigrados. A importante comunidade judia, no seu bairro reservado, estava toda lá. A capitulação era liberal: todos, incluindo os muçulmanos, conservavam os seus bens e a sua religião; as mesquitas seriam respeitadas; os impostos mantidos ao nível anterior. O rei apoderava-se das propriedades do soberano destronado e dos bens abandonados. Na verdade, muito em breve a cidade, moçárabes incluídos, sentiu que fora conquistada. Emigrantes vindos do norte, muitas vezes de além-Pirenéus, reservaram o centro para si. Por iniciativa sua, a grande mesquita foi transformada em catedral. Os moçárabes viram-se privados do direito de elegerem o seu patriarca: foi-lhes imposto um bispo francês, Bernard de Cluny, e o seu rito, o velho rito visigodo que, durante três séculos e meio catalizara a sua resistência, classificado como superstição toledana, pelos clérigos estrangeiros, foi limitado a seis igrejas onde o deixaram morrer. Bens consideráveis foram distribuídos aos recém-chegados. Foi afastado o moçárabe Sisnando, a quem Afonso confiara o governo da cidade. O rei entregava-a aos povos do norte. Não há a certeza de que estivesse plenamente de acordo, mas tinha as suas razões.
Porque se os cristãos de Espanha estavam a levar a melhor sobre os muçulmanos, deviam-no em parte ao apoio que lhes era concedido por uma Europa em plena renovação. Na verdade, as coisas estão a alterar-se além-Pirenéus, a partir do século X. Um pouco por todo o lado, os senhores reúnem os habitantes, até então dispersos por aldeias, em grupos mais coesos, mais fáceis de controlar mais fáceis de organizar. Reúnem as suas forças. A organização paroquial, que vai constituir enquadramento da vida quase até aos nossos dias, é posta em funcionamento. O domínio do homem sobre o território torna-se mais forte. A floresta recua, a população aumenta, e, segundo tudo indica, o mesmo ocorre com a produção. As trocas, que nunca haviam cessado completamente, recomeçam com vigor. Até o grande comércio renasce e as cidades reencontram a função económica que quase tinham perdido no final do império romano. As frotas italianas disputam novamente aos muçulmanos o domínio dos mares. A Igreja desperta. Pela primeira vez, os papas apresentam-se como um elemento federador, como consciência e dirigentes do Ocidente acima dos próprios imperadores. No ano da tomada de Toledo, morreu Gregório VIII, o papa de Canossa, o que humilhara o imperador. Passado um pouco mais de tempo, Urbano II (1088-1099), lançará as cruzadas, a enxurrada das forças vivas do Ocidente, ao ataque de Jerusalém: o espírito de cruzada fortalece a unidade da Europa cristã». In Louis Cardaillac, Tolède, XII-XIII, Éditions Autrement, Paris, 1991, Toledo XII-XIII, Muçulmanos. Cristãos, Judeus, O Saber e a Tolerância, Terramar, Lisboa, 1996, ISBN 972-710-144-5.

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terça-feira, 29 de julho de 2014

Muçulmanos. Cristãos. Judeus. Toledo. Séculos XII-XIII. «… chegou a ver-se os seus exércitos defrontando-se ao serviço de dois príncipes muçulmanos rivais, ou mesmo para proteger um muçulmano dos assaltos de um cristão. As terras do Islão são um campo aberto aos aventureiros»

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A Chegada dos Cristãos. O Refluxo do Islão Espanhol
«(…) Em meados do século XI, a chama será erguida pela Toledo do prestigioso al-Ma'mun (1045-1077), que alberga os artistas e sábios expulsos de Córdova pelo desmoronamento do califado. Al-Andalus faz verdadeiramente parte de um conjunto de elementos que se estende até ao Indo, onde circulam os homens, as ideias e os livros, onde nunca se perdeu a memória das obras da Antiguidade e onde nunca se interrompeu a tradição de leitura. Deste ponto de vista, está-se a anos luz da Europa cristã. A Europa cristã, exactamente. Durante muito tempo, Al-Andalus desprezou-a. E claro que foi preciso fazer um esforço para repelir os exércitos de Carlos Magno, que penetraram até Saragoça e Barcelona, mas finalmente haviam sido detidos e a maioria do terreno perdido, reconquistada. Durante muito tempo, pouco mais incómodo causaram aqueles grupos guerreiros das Astúrias e da Galiza que a pouco e pouco se espalharam pelo grande planalto do Norte. Ocupam Leão, a capital, e Santiago de Compostela, onde pretendem ter descoberto o túmulo do apóstolo do mesmo nome; mas ainda há, bem pouco, os raides de Almançor, o déspota de Córdova, puseram a ferro e fogo as suas vilas e cidades. Todavia, ganham peso porque Al-Andalus divide-se. Curiosamente, sempre lhe foi difícil dotar-se de um regime estável. Durante quase cinquenta anos, dependera de Damasco. Em 756, apresentara-se em Córdova um príncipe vindo do Oriente, o último dos Omíadas, o último sobrevivente da família dos califas, massacrada e destronada num golpe de estado sangrento. Instalara-se, tomara o título de califa e, de então para a frente, a Espanha muçulmana era independente. Com dificuldade, entre revoltas de governadores e intrigas de palácio, encontrara sempre um homem de pulso para a manter unida, nem que fosse à custa de uma ditadura sanguinária.
Mas pouco depois do ano 1000, o ano 1000 dos cristãos, ocorrera o irreparável: Al-Andalus fraccionara-se em taifas, em principados independentes e rivais, incessantemente virados uns contra os outros; Sevilha, Toledo, Saragoça, Valência, Granada, Badajoz, para falar apenas dos mais importantes e não falar desses Estados minúsculos que eram Huelva, Moron, Arcos, Rueda, Denia ou Lérida, uma boa vintena no seu total. Como podia a alma dos verdadeiros crentes não sofrer com esta escandalosa fragmentação? Tanto mais que os cristãos beneficiavam com isso. Não estavam menos divididos: os reinos de Leão, de Castela (em volta de Burgos e muitas vezes unidos, esses dois), de Navarra (em redor de Pamplona), os condados catalães (uma meia dúzia pelo menos, mas dominados pelo conde de Barcelona), o pequeno reino de Aragão, que estava a formar-se nos altos vales dos Pirenéus centrais, invejavam-se ainda mais do que temiam os muçulmanos. Mas, estendiam-se, e cada vez mais rapidamente.
Porque o aparecimento dos taifus constituíra para eles uma bênção. Atraídos pelo ouro, eles que praticamente lhe tinham perdido o uso, os seus soberanos haviam posto os seus exércitos ao serviço dos reizinhos muçulmanos e haviam enriquecido consideravelmente. A pouco e pouco foram-se tornando ousados e agora exigiam. Já não lhes era pedida a sua protecção: eram eles que a impunham. Obrigavam a que lhes fossem dados verdadeiros tributos, as parias, que arruinavam os príncipes de al-Andalus e os seus povos. Pobre do que não pagava! Uma razia em breve o obrigava a voltar à razão: al Ma'mun de Toledo, al Muktamid de Sevilha, o mais poderoso dos soberanos muçulmanos, haviam conhecido essa experiência. Em contrapartida, os cristãos mantinham a sua palavra e protegiam, de facto, os seus clientes contra o que quer que fosse: chegou a ver-se os seus exércitos defrontando-se ao serviço de dois príncipes muçulmanos rivais, ou mesmo para proteger um muçulmano dos assaltos de um cristão. As terras do Islão são um campo aberto aos aventureiros. Célebre, entre eles, o Cid, Rodrigo Diaz Vivar. Nobre castelhano, nascido em Burgos, ao serviço de Afonso VI, encontrava-se numa embaixada em Sevilha para receber a paria quando repeliu os exércitos granadinos que atacavam a cidade, comandados pelo conde Garcia Ordoñez, também castelhano. Expulso da corte do seu senhor na sequência de querelas políticas, colocou-se, com um exército sem dúvida composto, pelo menos em parte, por vassalos seus, ao serviço do rei mouro de Saragoça, por conta de quem esmagou (as crónicas dizem que capturou) o conde de Barcelona. Daí passou a Valença, onde permaneceu durante anos, atacando uns, exigindo tributo a outros, protegendo al-Qadir, o soberano da cidade, vassalo de Afonso, contra os seus inimigos, tanto cristãos como muçulmanos». In Louis Cardaillac, Tolède, XII-XIII, Éditions Autrement, Paris, 1991, Toledo XII-XIII, Muçulmanos. Cristãos, Judeus, O Saber e a Tolerância, Terramar, Lisboa, 1996, ISBN 972-710-144-5.

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quarta-feira, 4 de dezembro de 2013

Muçulmanos. Cristãos. Judeus. Toledo. Séculos XII-XIII. « Parafraseando o título de uma obra célebre, ‘os árabes invadiram mesmo a Espanha’. Vieram em grande número, em muito maior número do que outrora se imaginava, da longínqua Arábia e do Norte de África»

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A Chegada dos Cristãos. O Refluxo do Islão Espanhol
«(…) 1050. Já1á vão mais de trezentos anos e um país completamente transformado. A Espanha é muçulmana; ou antes, os dois terços meridionais da Espanha, a sul de uma linha que vai de Lisboa a Navarra. A norte, a Espanha fria, húmida, miserável, abandonada aos cristãos que, com guarnições e expedições periódicas, operações de polícia e de pilhagem bem como militares, se instalaram nas montanhas do lado de lá de uma vasta no man's land quase vazia, que garante a segurança de Al-Andalus, a Espanha meridional, rica, povoada e cultivada. Entre as duas, uma fronteira militar juncada de cidades fortificadas: Badajoz, Toledo, Saragoça; complementada por uma estrada, que permite aos exércitos que sobem do sul socorrer rapidamente qualquer ponto ameaçado. Al-Andalus é, antes de tudo, uma civilização agrícola, uma agricultura rica, onde a irrigação, as culturas hortícolas e os pomares parecem desempenhar um grande papel; é também uma civilização urbana onde a tradição árabe fez reviver as cidades quase mortas dos visigodos: Córdova, em primeiro lugar a capital, admirada pelos viajantes; Sevilha, a mercantil, Almeria, Granada, Valência, Saragoça e Toledo, reduzida a um papel de segundo plano mas que faz grande figura se comparada com os pobres povoados do país cristão... Al-Andalus é o comércio, com os Francos amantes de ouro e de produtos de luxo, mas sobretudo com Túnis, com Alexandria. Al-Andalus, enfim, é para os cristãos do norte, o país da prata e do ouro, o país onde circulam os dinares, essas moedas que têm o peso da lei cujo uso a Europa quase perdeu.
Todavia, nem tudo é fácil na Espanha muçulmana, a começar pela sociedade que carece de homogeneidade. O Islão é tolerante e não obrigou os cristãos a converterem-se. Na religião muçulmana, o clero exerce o seu ministério, os mosteiros funcionam, ensina-se teologia, especula-se sobre as relações entre o Filho e o Pai, e o culto continua... É certo que sem poder manifestar-se no domínio público. Mas o estatuto jurídico do cristão coloca-o num estado de inferioridade flagrante: paga um imposto especial, não tem direito a casar com uma muçulmana, e estão sempre prontos a declará-lo convertido, ao mínimo sinal que dê, sem possibilidade de arrependimento. Salvo raras excepções, são sobretudo os postos de comando que lhe são vedados. Por outro lado, as conversões são numerosas, e a comunidade cristã enfraquece todos os dias. Em breve chegará o tempo em que os cristãos do sul, apanhados entre uma vaga fundamentalista muçulmana e a expansão dos seus correligionários do norte que lhes chamam, talvez com desprezo, moçárabes, vão ter de renunciar à sua especificidade. Entretanto, sentem-se cada vez mais constrangidos e, quando podem, emigram para as terras cristãs.
O mesmo não se poderia dizer dos judeus. São numerosos, sobreviventes das perseguições visigóticas ou imigrantes vindos um pouco de todo o lado, atraídos pela tolerância que lhes é demonstrada e pelo crescimento das cidades. O seu estatuto é semelhante ao dos cristãos, e o seu papel aumenta na administração. Em certos Estados, no século XI, alguns deles desempenharão o papel de verdadeiros primeiros-ministros. O direito coloca o muçulmano no vértice da pirâmide social e a prática ainda mais. Pois, parafraseando o título de uma obra célebre, os árabes invadiram mesmo a Espanha. Vieram em grande número, em muito maior número do que outrora se imaginava, da longínqua Arábia e do Norte de África (ainda se faz a distinção entre árabes e berberes). Os convertidos de origem cristã, que estão colocados numa posição inferior à dos muçulmanos de origem, fizeram o resto. O Islão é maioritário. Mais ainda, a cultura é muçulmana: a organização social, os modelos familiares, as estruturas de pensamento são muçulmanas. Também o árabe é a língua das ciências e das artes; ciências e artes que, desde o século X, brilham nas cortes e nas cidades. As artes plásticas, a arquitectura, desenvolveram-se e oferecem monumentos que entraram no património universal, como a grande mesquita de Córdova; a poesia, na mais pura tradição oriental, produz obras-primas. O pensamento especulativo experimenta um impulso notável nas escolas jurídicas, e até, sob o grande al-Hakam II, que reúne em Córdova, na segunda metade do século X, uma magnífica biblioteca, as matemáticas e a astronomia». In Louis Cardaillac, Tolède, XII-XIII, Éditions Autrement, Paris, 1991, Toledo XII-XIII, Muçulmanos. Cristãos, Judeus, O Saber e a Tolerância, Terramar, Lisboa, 1996, ISBN 972-710-144-5.

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sexta-feira, 15 de novembro de 2013

Muçulmanos. Cristãos. Judeus. Toledo. Séculos XII-XIII. «Cerca do ano 1000, sofre uma profunda renovação e evidencia, em todos os domínios, um dinamismo pouco habitual: reorganização dos estados, ascensão do papado e das ordens religiosas, renascimento intelectual…»

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Um toledano diferente dos outros
«(…) Verás a descrição que aí é feita do palácio que Salomão mandou construir, não longe do templo, na outra extremidade do átrio. Nesse palácio, havia uma fonte magnífica cuja bacia, devido às suas dimensões, era comparada a um mar de bronze. Ora essa bacia repousava sobre doze bois, três olhavam para norte, três para ocidente, três para sul e três para oriente; o mar erguia-se à sua frente, e todas as garupas estavam voltadas para dentro. E sabes com que frutos estavam ornados os capitéis? Com romãs.
Quando decidi construir esse soberbo pátio à volta da fonte, inspirei-me em Salomão. Pensei que esse rei, esse sacerdote, esse arquitecto, esse sábio, devorado pelo zelo de Deus, merecia todo o nosso respeito. Tal como ele, quis aproximar-me do Altíssimo através de uma bela obra. O belo não é o mais maravilhoso reflexo de Deus que possuímos? O meu príncipe terminou com este comentário singelo: Não ignoras que o arquitecto a quem confiei os trabalhos é um cristão do Norte. Com o meu consentimento, imprimiu-lhes a sua marca: as galerias cobertas que rodeiam o pátio lembram estranhamente os claustros dos seus mosteiros onde os monges se passeiam em silêncio. Assim, num mesmo espaço, os três troncos da família do Livro estão reunidos para celebrar a beleza. Calámo-nos e reflectimos os dois em silêncio. Não ouso dizer ao meu príncipe que, para mim, Granada não é mais do que um reflexo da beleza de Toledo, e Toledo um reflexo do paraíso.
Tulaytuli abre muito os olhos, o primeiro clarão da alvorada rasga o horizonte. Nessa praia de Cádis coloca-se em frente ao oceano. Está na hora da oração da autora. Prosterna-se. Chora e reza. Reza e chora. In Louis Cardaillac.

A Chegada dos Cristãos. O Refluxo do Islão Espanhol
Potência regional dominante, a Castela de Afonso VI estende o seu protectorado à totalidade da Espanha muçulmana e apodera-se de Toledo em 1085. Durante mais de um século, a cidade será fronteira da cristandade em relação ao Islão. Ocorrem trocas culturais entre Castelhanos, Francos, que se juntaram aos conquistadores, e Muçulmanos que nela permaneceram. A partir do século VI, o mundo cristão do Ocidente parece uma praça cercada. Política, demográfica e intelectualmente, fechou-se sobre si próprio. Cerca do ano 1000, sofre uma profunda renovação e evidencia, em todos os domínios, um dinamismo pouco habitual: reorganização dos estados, ascensão do papado e das ordens religiosas, renascimento intelectual em Itália e em França. Estende progressivamente as suas fronteiras para o norte, a Europa Central, e sobretudo o sul e o leste mediterrânico onde o arraem o ouro mas também os elementos de saber, cultura antiga, contribuições árabes e orientais, de que necessita para alimentar o seu crescimento. É exigente e conquistador, oscila entre a guerra e a troca.
O contacto entre os dois mundos é particularmente intenso em Espanha, por ser duradoiro e por não se reduzir à guerra, mesmo no domínio político. A importância e a versatilidade dos jogos de alianças entre soberanos muçulmanos das taifas e soberanos cristãos, são bem prova disso. Mas também porque os dois campos, muçulmano e cristão, estão bem integrados nos seus universos respectivos e, por conseguinte, prontos a servir de difusores. A tomada de Toledo, na sequência de um acordo ambíguo, mas mesmo assim acordo, e no respeito relativo do outro, é símbolo disso mesmo. Marca também o confronto dos dois mundos e a concorrência que os opõe: os muçulmanos são progressivamente expulsos da cidade; as reacções almorávida e, em seguida, almóada, separadas por um intervalo onde a compenetração recomeça, bloqueiam o avanço cristão e fazem de Toledo, durante mais de um século, um local de fronteira, um ponto de passagem obrigatório entre as duas culturas. Conscientes deste facto, embriagados pelos êxitos militares que, pontualmente foram impressionantes, os reis de Castela puderam proclamar-se imperadores. Em meados do século XIII, o Islão ocidental desmorona-se e, em alguns anos, perde Valência e Andaluzia: na verdade, o reino de Granada apenas subsiste como colónia genovesa.
Fim de Abril de711. Tariq, um general berbere enviado por Muza que governa a África do Norte em nome de Walid I, o longínquo califa de Damasco, sucessor do profeta, desembarca em Algeciras. Dois meses mais tarde, nas margens do rio Guadalete, aniquila o exército de Rodrigo, o último rei visigodo, traído por uma parte dos seus. Tariq marcha sobre Toledo, a capital do reino, para a pilhar. Toma-a sem resistência, dado que a maior parte da população a abandonara. O saque é considerável. Muza, alertado, acorre com reforços. Em cinco anos, toda a Espanha cai nas mãos de um punhado de guerreiros que aí dominam cerca de dois milhões e meio de cristãos. Pequenos grupos de refugiados resistem ainda nas montanhas das Astúrias e na Galiza; há bolsas de resistência no País Basco, nos altos vales dos Pirenéus; mas nada disso conta». In Louis Cardaillac, Tolède, XII-XIII, Éditions Autrement, Paris, 1991, Toledo XII-XIII, Muçulmanos. Cristãos, Judeus, O Saber e a Tolerância, Terramar, Lisboa, 1996, ISBN 972-710-144-5.

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Muçulmanos. Cristãos. Judeus. Toledo. Séculos XII-XIII. «Contaste os leóes? - Sim, doze leões que representam as doze tribos de Israel, e a estrela de David, que tão bem assinalaste, lembra-nos também a origem dessas esculturas. Ornaram, há vários séculos, o palácio do juiz Ibn Nagrila…»

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Um toledano diferente dos outros
«(…) O meu coração sangrou especialmente por ocasião da tomada desta última cidade; na verdade, em 646, com muitos amigos granadinos fomos dar ajuda às tropas de Toledo. Sim, contra os nossos próprios correligionários! A política assim o exigia: o novo reino de Granada tinha de manter um difícil equilíbrio entre os nossos dois poderosos vizinhos dado que um e outro estavam mais do que dispostos a anexar-nos. Por vezes, aliámo-nos aos Merinidas de Marrocos para nos protegermos dos Castelhanos, outras vezes aos Castelhanos para repelir os Merinidas. Tínhamos de dar garantias tanto a uns como a outros. Mas destes séculos passados em Granada, guardo sobretudo a recordação dos dias felizes. Foram numerosos porque, nesta cidade, encontrava essa mesma vida espiritual, essa alegria de aprender e também de ensinar que outrora conhecera em Toledo. Bastava o meu nome de Tulaytuli para me abrir uitas portas incluindo as do palácio do meu sultão. Fui mesmo conselheiro e confidente de Muhammad V. Vivi na sua companhia, no maravilhoso palácio de Alhambra. Quando terminavam as audiências concedidas ao povo na sala do Mexuar, e depois dos notáveis terem sido recebidos na sala do trono, o meu rei pedia-me que o seguisse até às zonas privadas do palácio. Aí, sentados no chão durante horas, conversando, gozávamos da frescura dos jactos de água, da verdura dos jardins, da luz que brincava nas fachadas cobertas por uma decoração infinita; por vezes o meu olhar seguia uma das linhas dos cordões de estuque e essa linha nunca terminava, símbolo da infinitude divina.
Um dia, testemunho de suprema confiança, detivemo-nos no pátio que marca o centro do harém. Lá em cima, as mulheres dissimuladas por detrás do muxarabiés, deviam estar a olhar-nos; de vez em quando, um riso cristalino vinha juntar as suas notas ao murmúrio da água. No centro, uma fonte magnífica: doze leões de mármore suportam uma grande bacia. Cada leão tem na fronte a estrela de David. Com a cabeça virada para o exterior, parecem guardar o jacto de água central; mas são também parte integrante da fonte, visto que a água, inicialmente recolhida na bacia de mármore branco, sai pelas fauces de cada um deles para depois cair numa regueira que a distribui por quatro canais. Precisamente, neste dia, a nossa conversa recaiu sobre essa fonte e sobre esse pátio, e posso reproduzi-la com toda a fidelidade. Nessa ocasião, compreendi até que ponto o meu soberano era digno do seu título de Príncipe dos Crentes. Era como esse monarca ideal que Ibn Zafar apresentava como mais raro do que o ouro, mais maravilhoso do que o grifo e mais extraordinário do que a alquimia.
 - Príncipe - disse-lhe, essa estrela de David na fronte dos leões intriga-me. Por que razão está esse símbolo religioso dos nossos irmãos judeus neste local? O meu sultão pareceu meditar por instantes como que para reunir velhas recordações há muito ocultas no mais profundo do seu ser. Disse-me apenas: - Contaste os leóes? - São doze, respondi. - Deu-me então esta longa explicação: - Sim, doze leões que representam as doze tribos de Israel, e a estrela de David, que tão bem assinalaste, lembra-nos também a origem dessas esculturas. Ornaram, há vários séculos, o palácio do juiz Ibn Nagrila, vizir de um dos reis ziridas de Granada. Reparaste decerto também, amigo Tulaytuli, que cada um dos quatro canais que conduzem a água através das platibandas, se dirige para um dos quatro pontos cardeais. Esta água que surgiu no centro do pátio evoca essa fonte que, de acordo com o Alcorão, se encontra no centro do paraíso. O livro do Génesis, na Bíblia, referia já, bem antes, que nascia um rio no Éden que se dividia em quatro braços: Pishon, Gihon, Tigre e Eufrates. Sabes, o Islão é o sinal da Revelação. Antes da vinda de Maomé (Muhammad), antes de este receber a bênção de Deus, os profetas vieram trazer aos homens uma mensagem divina. Javé é Deus, Alá é Deus. Só há um Deus e profetas. O Islão não veio destruir, mas aperfeiçoar e completar. Não te surpreendas pois por encontrares aqui símbolos estranhos à nossa lei. Também eles nos aproximam de Deus. Moisés ensinou-nos que podíamos contemplar Deus cara a cara. Quando recebeu as tábuas da Lei, no alto da montanha do Sinai, foi através de uma nuvem espessa que Javé se lhe dirigiu. Os símbolos aproximam-nos de Deus, e só através destes reflexos podemos aproximar-nos dele. Este pátio não passa de um reflexo longínquo do paraíso a que Ele nos destina. Evocamo-lo, mas não o imitamos, pois Deus não admite que nos associemos à sua obra de criação. Reflexo longínquo, afirmei, sim, pois esse pátio que admiramos não passa, na realidade, do reflexo de um reflexo. Não percebes? Eu explico-te. Aconselho-te a releres o Livro dos Reis na Bíblia». In Louis Cardaillac, Tolède, XII-XIII, Éditions Autrement, Paris, 1991, Toledo XII-XIII, Muçulmanos. Cristãos, Judeus, O Saber e a Tolerância, Terramar, Lisboa, 1996, ISBN 972-710-144-5.

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sexta-feira, 18 de outubro de 2013

Muçulmanos. Cristãos. Judeus. Toledo. Séculos XII-XIII. «… a de ver que as nossas “Tábuas Toledanas” eram traduzidas e depois ampliadas e comentadas pelo rei Afonso X. Passariam a chamar-lhes, daí em diante, as ‘Tábuas do Rei Afonso…’»

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Um toledano diferente dos outros
«(…) Foi então que escrevi o Kitab Tabaqat al-Uman, o livro das gerações das nações, fruto das minhas meditações sobre esses esquemas da ciência. Nele explicava por que razão a Toledo onde eu vivia podia ser comparada com a Atenas de Péricles ou com a Bagdad abássida de al-Mansur. Nessas cidades, a tinta do aluno era mais sagrada do que o sangue do mártir. Toledo, Atenas, Roma, Constantinopla, Cairo pertencem a um mesmo clima que favorece a reflexão e o estudo; estão igualmente distanciadas do calor que atrofia a inteligência e das brumas do Norte que a obscurecem. O desastre que representou para nós a queda de Toledo, embora tenha sido um rude golpe para o Islão, não impediu que a ciência continuasse a progredir ao longo dos séculos XII e XIII cristãos. O impulso estava dado, e agora vinham de toda a Europa procurar o saber nesses textos herdados da biblioteca de al-Hakem II e em obras posteriores. Apenas restava traduzi-las. Foi essa a ocupação de monges cristãos, sábios judeus e de alguns dos nossos que colaboraram nessa tarefa. Pelo meu lado, apenas voltava episodicamente a Toledo apesar das grandes satisfações que me proporcionavam as trocas de informações com um ou outro sábio judeu ou cristão. Mas, para mim, o mundo desabara em 477 (1085). Daí para a frente, Toledo deixara de ser a minha cidade, deixara de ser o meu universo.
Tive a tristeza de ver destruir o quiosque de cristal de al-Ma'mun quando os Almorávidas, vindos de novo de África para deter o avanço cristão, tentaram retomar a cidade. Mas, bastante mais tarde, tive também uma grande satisfação: a de ver que as nossas Tábuas Toledanas eram traduzidas e depois ampliadas e comentadas pelo rei Afonso X. Passariam a chamar-lhes, daí em diante, as Tábuas do Rei Afonso. Esta alteração de autoria não me provocou qualquer amargura. Voltava a Toledo, de longe em longe, vindo de Granada onde agora me instalara, para negociar a venda de alguns manuscritos preciosos de que os cristãos tinham especial necessidade. Tinha uma autorização permanente que me permitia deslocar-me de Granada, muçulmana, para Toledo, cristã. Neste momento preciso, uma recordação se me impõe acima de todas as outras, a do meu amigo Nathan a cujo respeito desejaria evocar agora uma conversa que tivemos durante uma dessas visitas.
Nesse dia, perguntei pois ao judeu Nathan qual era, segundo ele, a lei que lhe parecia mais luminosa. Sorriu e com única resposta, contou-me esta história muito bela: Há séculos, vivia no Oriente um homem que possuía um anel de valor incalculável. Não que fosse de um metal precioso, mas tinha o poder secreto de tornar agradável a Deus e aos homens quem quer que o usasse. Transformava aquele que o detinha no chefe incontestado e venerado de toda a gente. Quando morreu, o homem legou o anel ao seu filho preferido que, por sua vez, o transmitiu àquele que fora escolhido para futuro chefe da casa. De geração em geração, o anel acabou por chegar às mãos de um pai de três filhos que não conseguia resolver-se a escolher um deles, porque os amava a todos igualmente, e teve mesmo a fraqueza de o prometer a cada um deles. Sentindo chegar o seu fim, chamou secretamente o seu vizinho Mardoqueu, o ourives, e encomendou-lhe outros dois anéis em tudo iguais ao primeiro; o artesão conseguiu fazê-los tão bem que o próprio pai foi incapaz de distinguir qual era o original. Chamou cada um dos seus filhos e, sem testemunhas, deu um anel a cada um. Quando o pai morreu, cada um dos três filhos exibia o sinal da autoridade e apresentava-se como o escolhido. Espanto geral! É impossível provar qual é o verdadeiro anel e os três filhos pretendem legitimamente dirigir a casa comum. E Nathan concluiu: Também nós, judeus, cristãos, muçulmanos, provimos de uma descendência comum mas encontramo-nos na impossibilidade de provar hoje em dia qual é a verdadeira fé. Nathan, disse-lhe, a partir de hoje, apenas te chamaremos Nathan, o sábio.
Em Granada, depois dos Almorávidas, cujo rigorismo se me tornou insuportável, vi chegar outros africanos, os Almóadas. Depois, o destino da cidade tomou uma nova direcção quando uma nova dinastia, a dos Nasridas, reorganizou o reino. Durante esse tempo, em Toledo, os cristãos não se limitavam a traduzir as nossas obras e organizavam campanhas militares: em 633 (1236) tomaram Córdova, em 646 (1248), Sevilha». In Louis Cardaillac, Tolède, XII-XIII, Éditions Autrement, Paris, 1991, Toledo XII-XIII, Muçulmanos. Cristãos, Judeus, O Saber e a Tolerância, Terramar, Lisboa, 1996, ISBN 972-710-144-5.

Cortesia de Terramar/JDACT

Muçulmanos. Cristãos. Judeus. Toledo. Séculos XII-XIII. «… uma discussão que tive com um cristão chamado Eulógio; acusava os meus de ‘terem destruído a biblioteca de Alexandria, aquando da conquista do Egipto no século I da Hégira’»

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Um toledano diferente dos outros
«(…) É verdade, confesso que várias vezes abandonei Toledo, cansado de todas estas intrigas, estas conspirações, esta violência, mas também porque fui atraído, um pouco mais tarde, pela vida cultural brilhante que reinava em Córdova, na época dos grandes califas. Foi então que escrevi a obra que mais contribuiu para a minha fama, al-Muhtasar; é ao mesmo tempo um tratado que expõe e comenta todas as nossas crenças religiosas e um convite à renúncia a todas as tentações que nos afastam do bom caminho. Mas, durante este exílio momentâneo, permaneci fiel à minha cidade. A ela regressei quando de novo aí reinou o espírito nas décadas que precederam a sua conquista por Afonso VI. Este século V da Hégira foi para nós, muçulmanos, a idade de ouro cultural da cidade.
Fui aí chamado para ser nomeado cadi pelo soberano da cidade, chefe de uma dessas taifas, de um desses pequenos estados que haviam nascido após o desmembramento do califado de Córdova. A Toledo que então conheci, era capital de um reino cujos príncipes rivalizaram com o fausto de Córdova e de Sevilha. Quando a tornei a ver, após uma ausência demasiado longa, fiquei fascinado com o luxo exótico dos palácios que o rei al-Ma'mun herdara dos seus predecessores. Por outro lado, ele próprio embelezou e aumentou a cidade para a transformar numa maravilha artística. Para o realizar, os melhores artistas e os artífices mais competentes, arquitectos, escultores, pintores, alguns vindos das longínquas terras do Oriente, nela convergiram e exibiram os seus talentos.
Um determinado poeta da corte podia, com justiça, exclamar, ao contemplar a cidade alcandorada num promontório e rodeada pelas gargantas que o Tejo talhou na rocha: Toledo está além de tudo o que se diz dela. Deus vestiu-a como uma noiva cingindo-lhe a cintura com um rio semelhante à Via Lâctea e coroando-lhe a cabeça com ramos que são como estrelas. Os arredores imediatos não eram menos belos. Ao longo do Tejo estendiam-se, a perder de vista, pomares onde se colhiam sobretudo romãs muito saborosas. No meio dos jardins perto de Alcântara, a ponte, a famosa almunya, residência de campo, real. Aí se erguia um grande pavilhão, chamado o salão da Nora. Ao lado, um vasto lago em cujo centro fora construído um quiosque onde o rei se poderia dirigir de barco. O quiosque tinha forma de cúpula e era feito de vitrais de mil cores e as juntas que os uniam eram de ouro. Um dispositivo engenhoso conduzia a água ao cimo da cúpula de modo que, ao escorrer pelas paredes, envolvia completamente o refúgio real com uma cortina de frescura.
Na estação calmosa, al-Ma'mun gostava de aí se recolher para gozar de uma temperatura mais clemente. De noite acendiam-se tochas no seu interior e o espectáculo que proporcionava visto da margem era mágico. Um poeta, convidado pelo príncipe, descreve-nos deste modo a visão que teve: O salão brilhava como se o céu se encontrasse no mais alto do firmamento e a lua cheia no seu zénite. As flores perfumavam o ambiente e, no rio, os convidados bebiam à vontade. A nora gemia como gemem, feridas pela chama devoradora da dor, a camela que perdeu a sua cria ou a mãe que vê morrer o seu filho. O céu parecia banhado com gotas de orvalho. Os leões das fontes abriam as suas enormes fauces para dar água à vontade. Perante tanta beleza, todo o toledano se sentia com alma de poeta. Quanto a mim, o cargo de cadi deixava-me inúmeros tempos livres que ocupava com o estudo. Dirigia os trabalhos de um grupo de astrónomos; entre eles encontrava-se o meu discípulo preferido, Azarquiel, que continuou a minha obra publicando as Tábuas de Toledo que calculáramos juntos. Estava ali o fruto de vinte e cinco anos de observações do céu.
Essas tabelas tratavam do movimento dos planetas, da medição do tempo, e dos eclipses. Azarquiel e eu tentávamos deste modo adaptar os dados dos Antigos às coordenadas de Toledo. Quantas vezes, durante a minha tão longa existência, me insurgi contra esses ignorantes que afirmavam que o nosso único mérito foi termos servido de intermediários para a cultura grega! Sim, demos a conhecer Aristóteles e Euclides, Ptolomeu e Hipócrates, mas também corrigimos e melhorámos as suas obras. Graças à sua observação do céu, Ptolomeu chegou a conclusões interessantes, mas os nossos observatórios de Damasco, em seguida os de Bagdad, e por fim os de Toledo, fizeram descobertas extraordinárias. E, além do mais, em Toledo, aperfeiçoámos e fabricámos muitos instrumentos de observação e de cálculo. Por exemplo, foi em Toledo que Ibrahim ibn Saïd al-Sahbi inventou e construiu o astrolábio universal. Toledo vivia, Toledo pensava, Toledo criava. Vejo um signo desta vitalidade no gosto universal entre os toledanos pelas coisas escritas. O que está escrito fixa o saber para as gerações seguintes. É verdade que partilhamos este gosto com a totalidade do nosso povo. Lembro-me de uma discussão animada que tive com um cristão chamado Eulógio; acusava os meus de terem destruído a biblioteca de Alexandria, aquando da conquista do Egipto no século I da Hégira. Como podia ele acreditar que um dos nossos emires tivesse pronunciado esta frase criminosa: Se esses livros contrariam a nossa fé, devem ser destruídos, se concordam, são inúteis?
Tive de lhe citar, para acabar de o convencer, as setenta bibliotecas de Córdova dos califas que, todas elas reuniam mais de um milhão de obras. A principal, a dos Príncipes, não fora criada no terceiro século da Hégira pelo emir Muhammad? Abderrahman II teve o cuidado de a enriquecer e mandou ao Oriente o poeta astrólogo Abbas ibn Nasih com a missão de lhe trazer todas as obras que conseguisse encontrar. Mas foi al-Nakem II que a tornou igual à de Alexandria visto que então possuía quatrocentos mil volumes. E nós, toledanos, herdámos uma boa quantidade dessas obras quando o califado se desmembrou». In Louis Cardaillac, Tolède, XII-XIII, Éditions Autrement, Paris, 1991, Toledo XII-XIII, Muçulmanos. Cristãos, Judeus, O Saber e a Tolerância, Terramar, Lisboa, 1996, ISBN 972-710-144-5.

Cortesia de Terramar/JDACT