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sábado, 30 de março de 2024

O Corsário dos Sete Mares. Deana Barroqueiro. «… o menino alçava-se em bicos dos pés a olhar maravilhado para o vaivém dos elefantes de trabalho que transportavam nas trombas os pesados troncos de madeira, cortados pelos lenhadores da casta dos revolons…»

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«Finalmente em Cochim, onde haviam desembarcado no primeiro dia de Novembro, a fortaleza de madeira, com a sua pequena povoação de casas de troncos e cobertura de folhas de palma, causara-lhe desilusão e temor. Enquanto António não era provido no seu cargo, ainda ocupado pelo oficial em funções, fora-lhe atribuída para moradia uma dessas cabanas, junto ao baluarte, onde ela vivera em contínuo sobressalto do fogo, dominando os medos para não enfadar o seu homem e acorrendo sempre ao toque do sino para combater as chamas.

Graças a Zobeida e Giauhare, não sentira solidão, apesar de ser a primeira portuguesa a pisar terra da Índia, uma proeza de que muito se orgulhava. Poucos dias após a sua chegada, apenas instalada na sua nova casa e com a ajuda das meninas e de uma parteira malabar, dera à luz o filho naquele mundo onde tudo lhe era estranho. Quase morrera de susto, quando a aparadeira gentia a lavara e ao filho, por três vezes, em água quente e fria e não enfaixara a criança, como era de uso em Portugal. Os homens fazem as leis, as mulheres os costumes!, pensara, decidida a aceitar os modos da terra que não fossem contra a sua religião e natureza e este do banho, sobretudo quando estava com as regras, o que era proibido pelos físicos portugueses como coisa prejudicial e muito perigosa, era afinal um preceito prazeiroso que adoçava os sentidos.

Não se queixara, nem se arrependera da sua vinda, porque, se era esse o preço a pagar para estar com o homem que amava, dava por bem empregue o sacrifício. No ano seguinte, Iria assistiria maravilhada à reconstrução da fortaleza em pedra e cal, ordenada por dom Francisco de Almeida, que lograra o grande feito de convencer el-rei a dar-lhe permissão para a fazer assim forte e cobrir de telha os seus edifícios e as casas da nova povoação. Como alcaide-mor de Cochim, António tivera direito a casa dentro da fortaleza, para onde Iria se mudara com o filho e as meninas.

Decorridos já oito anos sobre esses sucessos, Iria ainda gostava de passear ao longo das ameias e varandas das suas altas muralhas, levando Diogo pela mão e contando-lhe histórias. Era uma bela construção de forma quadrada, tendo nas duas esquinas do lado da praia cubelos de dois sobrados, cobertos com pasta de chumbo e guarnecidos de ameias; nas outras duas esquinas erguiam-se as torres quadradas também de dois sobrados, o de cima para as casas do capitão e do alcaide-mor com a sua gente, o de baixo para armazéns de mercadorias grossas.

Caminhando pelas varandas que ligavam as torres, mãe e filho podiam ver, no lado de dentro, o pátio com o grande poço no meio e a casa da tranqueira que fora reforçada, onde viviam o feitor e os restantes oficiais. A porta abria para o lado do mar e, no interior, tinham construído um vasto alpendre com bancos muito bem lavrados onde o vizo-rei vinha tomar o fresco com os seus fidalgos. Já não necessitava de levantar Diogo nos braços para ele ver a ribeira em que se varavam as naus, com os estaleiros para a sua reparação e também construção de navios tão bons como os de Portugal. Agora, o menino alçava-se em bicos dos pés a olhar maravilhado para o vaivém dos elefantes de trabalho que transportavam nas trombas os pesados troncos de madeira, cortados pelos lenhadores da casta dos revolons, para os locais indicados pelos cornacas seminus escarranchados nos seus cachaços». In Deana Barroqueiro, O Corsário dos Sete Mares, Casa das Letras, Oficina do Livro, 2012, ISBN 978-972-462-117-3.

Cortesia de CdasLetras/JDACT

Deana Barroqueiro, JDACT, Literatura, Fernão Mendes Pinto, Crónica,

sexta-feira, 29 de março de 2024

O Corsário dos Sete Mares. Deana Barroqueiro. «… os homens que andavam nas fainas traziam todos os seus fatos vestidos, em camadas sobrepostas de saios e gibões, bragas e calças, botas, borzeguins e sapatos, barretes, boinas e sombreiros, e até cabeleiras de vestir! Iria fizera outro tanto, mas quase perdera os dedos das mãos e dos pés»

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Quando falares, cuida que tuas palavras sejam melhores que o silêncio (hindu)

Carta de Afonso de Albuquerque a el-rei Manuel I

«Senhor: Vossa Alteza me culpa, me culpa, me culpa em algumas cousas de cá da Índia, e creio que será por má informação que vos de mim darão algumas pessoas, com inveja e dor de meus feitos e meus serviços. Os que vos estas cousas escrevem, não andam em minha companhia, nem me vêem o rosto, nem são companheiros em meus trabalhos, perigos e fadigas, nem vestem as armas, (…) mas querem ganhar autoridade em vos escreverem mil enganos e falsidades; prognosticam e profetizam, falam com feiticeiras que lhes digam o que está por vir, e ajuntam toda essa massa, de que fazem esse pastel que lá mandam a vossalteza cada ano (…) e não vos deixam tomar verdadeiro assento nas cousas de vosso serviço, nem determinar o caminho que quereis que leve o negócio da Índia. Digo-vos, senhor, isto, porque se bem olhardes vossos regimentos e determinações, cada ano vem um contrairo ao outro, e cada ano fazeis uma mudança e haveis novo conselho, e a Índia não é o castelo da Mina, para cada ano bulirdes com ela, porque há nela muito grandes reis e senhores (…) que s’esforçam a vos defender que não segureis vosso estado nela, nem vos façais forte na terra, nem lhe ganheis os lugares principais; e estão confiados que haveis de leixar a Índia (…) E vossalteza ajuda-os a seu propósito, porque uma hora pondes um emplastro para este feito vir a furo, outra hora lhe pondes defensivos que não crie matéria; e tanto pode vossalteza ir por este caminho, que dareis com todo feito no chão. (…)

De Cananor ao primeiro dia de Dezembro de 1513.

Passavam já três relógios do quarto da prima quando Bento Castanho recomeça a saga de Iria Pereira e Fernão Mendes semicerra os olhos e deixa-se ir, no sabor das palavras do narrador, ao encontro do passado e daquela valente mulher, para lhe imaginar a vida e a luta em Cochim, longe da família que a trouxera ao mundo e da terra onde deixara as suas raízes.

Iria Pereira tomara a longa navegação do reino para a Índia, sete anos antes, como castigo e expiação dos seus pecados, sofrendo sem um queixume um terrível martírio durante mais de sete negregados meses escondida na S. Jerónimo, a nau de Francisco de Almeida, o vizo-rei da Índia. Muitos homens fortes haviam sucumbido às agruras da infernal viagem e só por milagre da misericordiosa Santa Iria, sua protectora, é que ela não morrera nem tivera um desmancho, encafuada num buraco malcheiroso, para não denunciar a sua presença, contando apenas com a ajuda do primo, presa de terríveis vagados que ora a deixavam prostrada, como desacordada, ora a faziam botar a comida e o estômago pela boca, mareada de morte.

O último mês de viagem, Outubro de mil quinhentos e cinco, coincidira com o fim da sua prenhez e, apesar do incómodo peso e do calor, fora menos penoso do que os anteriores. Por terem partido de Lisboa em Novembro, sofrera o primeiro Inverno quase até Cabo Verde, logo seguido de um Verão de grandes calmas, ao passarem a linha equinocial; contudo, fora muito pior o segundo Inverno, cerca do cabo da Boa Esperança, quando nevou no dia de S. João e seguintes, com tanta força que os grumetes passavam horas a lançar a neve dos navios às pazadas. O vizo-rei e os demais fidalgos não saíam dos seus aposentos, assando-se aos braseiros, por ser menor o perigo do fogo, e os homens que andavam nas fainas traziam todos os seus fatos vestidos, em camadas sobrepostas de saios e gibões, bragas e calças, botas, borzeguins e sapatos, barretes, boinas e sombreiros, e até cabeleiras de vestir! Iria fizera outro tanto, mas quase perdera os dedos das mãos e dos pés.

Depois adviera medonha tempestade quando, para fugir do frio, se tinham acercado de terra: ondas altíssimas pareciam querer engolir as naus e, no seu esconderijo, sobrepondo-se ao bramido do mar e ao estrondear da trovoada, chegavam-lhe os gritos e rogos que os matalotes lançavam aos céus, encomendando a salvação da sua alma a Jesus Cristo ou a Nossa Senhora, e ela orara também em silêncio, à espera da morte. As suas vozes haviam chegado aos céus, porque o temporal amansara antes de os navios se desfazerem e serem engolidos pelos mares». In Deana Barroqueiro, O Corsário dos Sete Mares, Casa das Letras, Oficina do Livro, 2012, ISBN 978-972-462-117-3.

Cortesia de CdasLetras/JDACT

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sábado, 22 de abril de 2023

A Herança Messiânica. Michael Baigent, Richard Leigh, Henry Lincolin. «Nem a televisão nem as empresas editoriais ficaram cegas para as possibilidades. Desde 1982, vários novos livros foram lançados. Em 1983, The ilIusionist, um romance de Anita Mason, propôs uma perspectiva controversa…»

Cortesia de wikipedia e jdact

 «(…) Ainda assim, há sinais de que a situação começa a mudar lentamente. Pode ser, é claro, que esses sinais sejam enganosos ou ilusórios, e que o pêndulo volte a oscilar em favor da fé simples, e que os frutos dos estudos históricos continuem a ser ignorados ou silenciados. Nesse aspecto, o contágio do fundamentalismo norte-americano é sem dúvida um mau agouro. Seja como for, há no ar diferentes sinais de melhora, numerosos a ponto de corresponder, em escala modesta, a uma espécie de Zeitaeist, um espírito, ou corrente, ou movimento que se espalha pelo mundo.

Durante os anos em que fizemos nossa pesquisa, muitas outras publicações já estavam em circulação, ajudando a criar um clima favorável. Na década de 1970, pelo menos dois romances, um deles um trabalho literário sério, bem-visto pela crítica, partiram da hipótese da descoberta do corpo mumificado de Jesus. Outro romance popular pôs os Evangelhos em questão, sugerindo a existência de um novo corpus de relatos bíblicos de primeira mão, e este livro foi transformado numa minissérie de televisão. Em sua monumental obra Terra nostra, certamente um dos doze mais importantes romances publicados em qualquer língua desde a Segunda Guerra Mundial, o respeitado romancista mexicano Carlos Fuentes descreve como Jesus escapou da morte por meio de uma crucificação fraudulenta, envolvendo um substituto. Pelo menos um romance, Magdalene, de Carolyn Slaughter, apresenta Madalena como amante de Jesus. E Liz Greene, inspirando-se na nossa própria pesquisa, escreveu sobre uma linhagem que descenderia de Jesus em The Dreamer of the Vine, um romance sobre Nostradamus publicado em 1980.

No que diz respeito a trabalhos mais académicos, os manuscritos de Nag Hammadi foram publicados pela primeira vez em tradução inglesa em 1977 e, em menos de dois anos, inspiraram o best-seller de Elaine Pagel, The Gnostic Gospels. Morton Smith, que havia divulgado seus achados sobre a Igreja primitiva em The Secret Gospel, traçou em seguida um controverso retrato de Jesus em Jesus the Magician. Haim Maccoby voltou sua atenção para o Jesus histórico em Revolution in Judaea e o mesmo fez Geza Vermes em obras como Jesus the Jew. A série de estudos que Hugh Schonfield está desenvolvendo sobre a Palestina do século I foi sendo publicada a intervalos regulares ao longo da década de 1970. Num nível teológico, alguns clérigos anglicanos suscitaram considerável controvérsia ao pôr em questão a divindade de Jesus numa coletânea de ensaios, The Myth of God lncarnate. Por fim, merece menção The Jesus ScroIl, da autoria do australiano Donovan Joyce, um livro curioso, sem respaldo nos factos, mas fascinante.

Assim, em 1982, quando O santo graal e a linhagem sagrada foi publicado, as águas já haviam sido agitadas por uma onda recente de elementos relativos ao Jesus histórico. É verdade que muita gente ainda não sabe sequer em que medida, por exemplo, os Evangelhos se contradizem entre si. Ou que há outros Evangelhos além dos que constam do Novo Testamento, que foram excluídos do cânon de maneira mais ou menos arbitrária por concílios compostos de homens obviamente mortais, obviamente falíveis. Ou que a divindade de Jesus foi decidida pelo voto no Concílio de Nicéia, cerca de três séculos depois da morte do próprio Jesus. É verdade também que o fundamentalismo continua fanático nos Estados Unidos. E, como observamos antes, ainda há na Grã-Bretanha pessoas capazes de atribuir um incêndio provocado por um raio em York à ira de Deus provocada pela nomeação de um bispo um tanto boquirroto, como se, em meio à violência, à animosidade, ao preconceito, à insensibilidade e aos perigos do mundo moderno, Deus não tivesse mais nada com que se preocupar, nada de melhor para fazer com Seus recursos. E quando esse mesmo bispo faz uma declaração tão óbvia, tão corriqueira, como a de que a Ressurreição não pode ser cabalmente provada, ainda há quem grite blasfêmia ou heresia e peça seu afastamento. Seja como for, há alguma coisa no ar, da qual o próprio bispo é uma manifestação.

Seria falso de nossa parte afectar ignorância quanto ao impacto causado por nosso livro, tanto em vendas como em controvérsia. Pela primeira vez, desde Passo ver Plot, de Hugh Schonfield, de 1963, algumas questões relativas ao Novo Testamento, a Jesus e à origem do cristianismo foram levantadas para o público leitor em geral, para o chamado mercado de massa, e não para um punhado de especialistas académicos e teólogos. E ficou patente que o grande público leitor estava não só preparado, mas positivamente ávido por ouvir.

Nem a televisão nem as empresas editoriais ficaram cegas para as possibilidades. Desde 1982, vários novos livros foram lançados. Em 1983, The ilIusionist, um romance de Anita Mason, propôs uma perspectiva controversa mas historicamente válida sobre a consolidação da Igreja primitiva; foi incluído na lista final de indicações para o Booker Prize, o mais prestigioso prêmio literário da Grã-Bretanha. Em 1985, Anthony Burgess, de maneira talvez ainda mais controversa, explorou quase o mesmo território em The Kingdom of the Wicked. Uma tempestade incipiente foi provocada pelo romance de Michele Roberts, The Wild Girl. Inspirando-se, como nós, em dados dos manuscritos de Nag Hammadi, Michele Roberts apresenta Madalena como amante de Jesus e mãe de seu filho. Publicado em brochura em 1985, The Wild Girl provocou medonhas fulminações, não somente de grupos de pressão, como era previsível, mas também de um pretenso Torquemada com assento no Parlamento; até que avaliações bem mais lúcidas tivessem conseguido se impor, o livro ficou sob a ameaça de acção penal nos termos da antediluviana lei britânica da blasfêmia». In Michael Baigent, Richard Leigh, Henry Lincolin, A Herança Messiânica, 1994, Editora Nova Fronteira, 1994, ISBN 978-852-008-568-5.

 Cortesia ENFronteira/JDACT

 JDACT, Michael Baigent, Richard Leigh, Henry Lincolin, Literatura, Religião, Crónica,

A Herança Messiânica. Michael Baigent, Richard Leigh, Henry Lincolin. «O que não conseguiram fazer foi, no entanto, transmiti-las aos leigos. Em discussões privadas, tivemos contacto com sacerdotes de muitas religiões. Poucos expressaram alguma hostilidade às conclusões do nosso livro…»

Cortesia de wikipedia e jdact

«(…) Em algum ponto no passado, supôs-se, com base em interpretação especulativa, que Pilatos usara o título como zombaria. Supor outra coisa teria sido levantar muitas questões espinhosas. Hoje, a maioria dos cristãos aceita cegamente, como facto consumado, que Pilatos usou o título por escárnio. Mas isso não é de modo algum um facto estabelecido. Se lermos os próprios Evangelhos, sem nenhuma ideia preconcebida, não encontraremos nenhuma sugestão de que o título não foi usado com absoluta seriedade, de que não era perfeitamente legítimo e reconhecido como tal pelo menos por alguns dos contemporâneos de Jesus, entre os quais Pilatos. A julgar pelos próprios Evangelhos, Jesus pode de facto ter sido rei dos judeus, e/ ou assim considerado. Somente a tradição persuadiu as pessoas do contrário. Sugerir que Jesus pode realmente ter sido rei dos judeus não é, portanto, ir contra as evidências. É meramente divergir de uma tradição há muito estabelecida, um sistema de crenças há muito estabelecido, baseado em última análise na interpretação especulativa de alguém. Se alguma coisa vai contra as evidências é esse sistema de crenças. Pois, no relato que Mateus faz do nascimento de Jesus, os três magos perguntam: Onde está o Rei dos judeus que acaba de nascer? Se Pilatos pretendia usar o título a pretexto de zombaria, como podemos resolver a questão dos magos? Será que eles também o usavam por zombaria? Certamente não. No entanto, se estavam aludindo a um título legítimo, por que Pilatos não poderia ter feito o mesmo?

Os Evangelhos são documentos de uma simplicidade chapada, mítica. Retratam um mundo reduzido a uns poucos traços toscos, um mundo de carácter intemporal, arquetípico, quase de conto de fadas. Mas a Palestina, quando do advento da era cristã, não era um reino de faz-de-conta. Ao contrário, era um lugar absolutamente real, povoado por pessoas reais, como poderíamos encontrar em qualquer parte do mundo em qualquer outra época na história. Herodes não foi o rei de uma lenda obscura. Foi um potentado muito real, cujo reinado (37- 4 a.C.) se estende além do contexto bíblico para coincidir no tempo com o de figuras seculares bem conhecidas, como Júlio César, Cleópatra, Marco Antônio, Augusto, por exemplo, e outros personagens que nos são familiares a partir dos manuais escolares e até a partir de Shakespeare. Como dissemos, a Palestina no século I, como qualquer lugar do mundo, estava sujeita a um complexo emaranhado de factores sociais, psicológicos, políticos, económicos, culturais e religiosos. Numerosas facções lutavam entre si e intestinamente. Complôs manipulavam e maquinavam nos bastidores. Vários partidos perseguiam objectivos conflitantes, muitas vezes fazendo frouxas alianças entre si com propósitos meramente oportunistas. Tratos eram feitos na clandestinidade. Jogos de interesses marcavam a luta pelo poder. O povo em geral, como o povo de qualquer lugar e de outras épocas, oscilava entre o torpor apático e o fanatismo histérico, entre o medo ignóbil e a convicção ardorosa. Muito pouco disso, ou nada, é transmitido pelos Evangelhos, apenas um resíduo de confusão. No entanto, essas correntes, essas forças, são essenciais para qualquer compreensão do Jesus hist6rico, o Jesus que realmente palmilhou o solo da Palestina 2 mil anos atrás, e não o Cristo da fé. Foi esse Jesus que nos esforçamos por discernir e compreender mais claramente. Fazer semelhante esforço não é declarar-se anticristão.

O Contexto

Na esteira de O santo graal e a linhaaem sagrada, quando certos cristãos nos acusaram com veemência de sermos anticristãos, só pudemos dar de ombros, impotentes. Nós próprios, é preciso repetir, não tínhamos nenhum desejo de assumir o papel de iconoclastas; fomos simplesmente apanhados no conflito entre facto e fé. As sugestões que fizemos sobre Jesus tampouco nos pareciam ter algo de chocante ou ultrajante. Como o leitor terá notado, praticamente todas as sugestões tinham sido feitas antes, em sua maioria muito recentemente, e foram bastante divulgadas. Além disso, não estávamos sozinhos. Não estávamos maquinando uma tese excêntrica, temerária, feita sob medida para produzir um best-seller instantâneo. Ao contrário, praticamente todas as nossas sugestões coincidiam muito com as principais tendências dos estudos bíblicos contemporâneos, e era precisamente nesses estudos que grande parte da nossa pesquisa tinha origem. Consultamos os especialistas reconhecidos no campo, muitos dos quais não eram conhecidos pelo grande público; e, no geral, pouco mais fizemos do que sintetizar suas conclusões de uma maneira facilmente digerível. Essas conclusões já eram bastante conhecidas pelos membros dos cleros, que em grande parte as aceitaram prontamente. O que não conseguiram fazer foi, no entanto, transmiti-las aos leigos.

Em discussões privadas, tivemos contacto com sacerdotes de muitas religiões. Poucos expressaram alguma hostilidade às conclusões do nosso livro. Alguns discordaram de um ou outro ponto específico, mas a maioria julgou nossa tese geral plausível, até provável em certos casos, e de modo algum desabonadora da estatura de Jesus ou da fé cristã. A cristãos leigos, contudo, as mesmas conclusões pareceram envolver blasfémia, heresia, sacrilégio, e quase todos os outros pecados religiosos catalogados. Foi essa discrepância de reacção que nos pareceu particularmente espantosa e instrutiva. Clérigos, de quem poderíamos esperar uma atitude mais combativa nesse campo, reagiram com algo entre a indiferença céptica mas não surpreendida e o  endosso completo. Seus rebanhos reagiram com algo entre a desilusão horrorizada e o ultraje vociferante. Nada teria podido deixar tão a nu o fracasso das igrejas em manter suas congregações a par dos desenvolvimentos no campo das investigações bíblicas». In Michael Baigent, Richard Leigh, Henry Lincolin, A Herança Messiânica, 1994, Editora Nova Fronteira, 1994, ISBN 978-852-008-568-5.

Cortesia ENFronteira/JDACT

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quarta-feira, 19 de abril de 2023

A Herança Messiânica. Michael Baigent, Richard Leigh, Henry Lincolin. «Mas o tempo em que Cortés viveu, como o tempo em que Jesus viveu, está documentado. Sabemos um bocado sobre o contexto histórico, o mundo em que esses personagens existiram

Cortasia de wikipedia e jdact

«(…) Em 1520, Hernán Cortés, ao penetrar na antiga capital mexicana de Tenochtitlán, foi tomado por um deus pelos astecas. Como jamais tinham visto armas de fogo ou cavalos, os astecas viram essas coisas não só como sobrenaturais mas como confirmação da condição divina de Cortés, de sua identidade como um avatar do seu deus supremo, Quetzalcóatl. Hoje, obviamente, podemos compreender como tal equívoco pôde acontecer. Até para um europeu ocidental da época, ele teria sido compreensível. É bastante claro que Cortés não tinha absolutamente nada de divino. No entanto, é igualmente claro que, nas mentes daqueles que acreditaram na sua divindade, ele era realmente um deus.

Suponhamos que um índio mexicano moderno, talvez com vestígios de uma ascendência asteca, afirme que acredita na divindade de Cortés. Talvez isso nos pareça um tanto esquisito, mas não poderíamos nos atrever a contestar a crença do índio, especialmente se sua origem social, educação, criação, cultura, tudo isso tiver contribuído para fomentá-la. Ademais, essa fé poderia envolver algo muito mais profundo do que a mera crença na divindade de Cortés. O índio poderia afirmar que experimentava Cortés dentro de si, que comungava pessoalmente com Cortés, que Cortés lhe aparecia em visões, que através de Cortés ele se aproximava de uma unidade com Deus ou com o sagrado. Como poderíamos cogitar de contestar afirmações como estas? O que um homem experimenta na intimidade da sua psique deve necessariamente permanecer inviolado e inviolável. E há muitas pessoas, perfeitamente lúcidas, perfeitamente equilibradas, merecedoras de todo o respeito que, na privacidade da sua psique, acreditam em coisas muito mais estranhas que a divindade de Cortés.

Mas o tempo em que Cortés viveu, como o tempo em que Jesus viveu, está documentado. Sabemos um bocado sobre o contexto histórico, o mundo em que esses personagens existiram. Esse conhecimento não é uma questão de crença pessoal, mas de simples facto histórico. E se um homem permite que sua crença pessoal distorça, altere ou transforme o facto histórico, ele não pode esperar que outros, quer partilhem ou não da sua crença, fechem os olhos para esse processo. O mesmo princípio se aplica se um homem permite que sua fé pessoal desarrume consideravelmente as leis da probabilidade ou o que sabemos sobre a natureza humana. Não poderíamos, como dissemos, discutir com um homem que acredita na divindade de Cortés, ou que, de alguma maneira, experimentou Cortés dentro de si. Poderíamos, no entanto, discutir com um homem que afirmasse que Cortés, mesmo sem a sua armadura, era imune a lanças e flechas, que atravessou a cavalo os céus ou os mares, ou que usava armas que sabemos só terem sido inventadas dois séculos depois.

Não é que os registros estabelecidos sobre Cortés neguem explicitamente essas coisas. Eles não o fazem, pela simples razão de que nada disso foi afirmado a propósito de Cortés enquanto ele estava vivo. Mas essas afirmações contrariam de maneira tão flagrante a história conhecida, a experiência humana e a simples probabilidade, que é extremamente difícil acreditar nelas. Corno crença pessoal, podem ser inatacáveis. Apresentadas como facto histórico, porém, repousam numa base demasiado improvável e tênue.

Jesus suscita um problema essencialmente análogo. Não temos nenhum desejo de contestar a fé pessoal, a crença pessoal de ninguém. Não estamos tratando do Cristo ou Christus da teologia, a figura que goza de urna existência muito real e muito vigorosa nas psiques e consciências dos que têm fé. Estamos tratando de um outro personagem, alguém que realmente caminhou pelas areias da Palestina 2 mil anos atrás, assim como Cortés pisou as pedras do deserto mexicano em 1519. Estamos tratando, em suma, do Jesus da história, e a história, por mais vaga e incerta que por vezes possa ser, está sempre pondo em xeque nossos desejos, nossos mitos, nossas imagens mentais, nossas ideias preconcebidas». In Michael Baigent, Richard Leigh, Henry Lincolin, A Herança Messiânica, 1994, Editora Nova Fronteira, 1994, ISBN 978-852-008-568-5.

 Cortesia ENFronteira/JDACT

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quarta-feira, 31 de agosto de 2022

Deana Barroqueiro no 31. O Corsário dos Sete Mares. «E Iria? Que parte teve nessa história?, pergunta a mulher do mercador, enfadada com os desvios que os homens davam constantemente à saborosa prática sobre as cativas…»

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Cochim

«(…) E como haveis de o matar?, perguntara el-rei, rindo. Senhor, de um só golpe todo o matarei. Assi!, respondera dom Lourenço e, levantando a alabarda, desferira um golpe no chão com tamanha força que a lâmina toda se meteu pelo sobrado dentro, arrancando muitos aplausos e brados de espanto aos assistentes. Não há dúvida que com tal golpe já todo o fogo será morto, felicitara-o Huriabem, encantado.

Senhor, eu bem vejo que não posso escapar das chamas, dissera dom Francisco, em tom de profunda tristeza, aproveitando a boa disposição d’el-rei e dos cortesãos para apresentar um novo pedido. Mais tarde ou mais cedo, o fogo queimará as casas onde guardo as fazendas d’el-rei de Portugal, vosso irmão, e os aparelhos dos navios da armada, que será a maior perda. Eu fui criado na guerra e nunca tive receio dela, mas agora tenho medo do fogo que qualquer mouro de Calecut me poderá pôr na porta, o que não me deixa repousar nem de noite nem de dia. Rogo a Vossa Alteza, por grande mercê, que, em lugar das casas de canas e ola que nos arderam, mas deixe fazer de pedra e telha, à nossa maneira, onde tudo esteja seguro. Porque, se o não puder fazer, ainda que eu e todos os portugueses estejamos prontos para morrer por vosso serviço, teremos de ir invernar em Angediva. Huriabem acabara por ceder aos rogos do príncipe e dos caimais, para que não fizesse inimigos daqueles poderosos estrangeiros que o haviam socorrido na guerra, e dera o seu consentimento ao vizo-rei para a construção da fortaleza em pedra, com a condição de não cobrir imediatamente os edifícios com telha, a fim de não escandalizar os seus súbditos. Dom Francisco lançara logo mãos à obra, pondo a gente comum e os fidalgos a trabalhar lado a lado, sem lhes dar descanso, a acartar e assentar pedra, a escoar com baldes a água das fundações, que eram muito próximas do mar, ou a fazer qualquer outra tarefa necessária. O rajá e o príncipe vinham visitar as obras e pasmavam de ver os fidalgos cobertos de lama a partir pedra ou vergados sob o peso de cestos e baldes. Nobres cavaleiros a trabalharem como escravos!, exclamara Huriabem. Quem me dera ser rei de tal gente que assi se sacrifica pelo seu soberano, mesmo quando se acham no outro lado do mundo, longe das suas vistas!

Só lhes faz bem, Alteza, rira-se o vizo-rei, porque ficam com os braços mais compridos, o que lhes dará vantagem na guerra, quando empunharem a espada ou a lança. Vestido, como sempre, de um saio de lã e boleta aberta do mesmo tecido, carapuça branca na cabeça e uma caninha na mão, dom Francisco distinguia-se pela simplicidade do trajo e nobreza da figura, a percorrer a obra cada dia, provendo a todos e tudo vigiando. Dava pressa aos homens, ansioso por terminar os panos das muralhas e as fortificações, não fosse o rajá mudar de aviso e suspender as obras, escondendo as bombardas que mandava trazer desmontadas das naus, durante a noite, para não criar alarme nos gentios e mouros que poderiam denunciá-lo a Huriabem. A conclusão dos trabalhos, em tão breve tempo que aos próprios construtores admirara, fora festejada com procissão, muitos comeres, música e danças de moças gentias.

E Iria? Que parte teve nessa história?, pergunta a mulher do mercador, enfadada com os desvios que os homens davam constantemente à saborosa prática sobre as cativas, para murmurarem das invejas dos capitães e das lutas pelo poder. Contai-nos, por vossa vida, o resto da sua lenda. De início, como vos disse antes, a vida parecia correr-lhes bem, mas quando começaram as guerras entre Afonso Albuquerque e o bando de Cochim, Iria Pereira apartou-se de António Real ou ele dela…

O som de um apito interrompe-o e o grumete, que acaba de virar a ampulheta, diz com voz entoada: Uma hora passou,/ outra começou/ melhor há-de ser/ se Deus quiser. E logo brada: É meia-noite. A pé, grumetes, qu’é o quarto da modorra, a pé! Por momentos a Cisne anima-se com o movimento dos matalotes que trocam de turno e alguns dos assistentes erguem-se com pena de deixar a história por acabar. Bento Castanho conforta-os: Vejo que se fez tarde, meus amigos. Ide dormir, que amanhã aqui estarei para contar a história de Iria, se houver quem ainda me queira ouvir. Com muitos risos, bênçãos de bem haja!, Deus vos bendiga! e desejos de uma santa noite, todos se recolhem às câmaras, catres ou recantos onde têm lugar para estender a esteira ou a rede de dormir. Céu salteado, vento fresco e variado!, entoa ao longe uma voz, que muitos já não ouvem». In Deana Barroqueiro, O Corsário dos Sete Mares, Casa das Letras, Oficina do Livro, 2012, ISBN 978-972-462-117-3.

Cortesia de CdasLetras/JDACT

Deana Barroqueiro, JDACT, Literatura, Fernão Mendes Pinto, Crónica, 

sábado, 20 de agosto de 2022

O Corsário dos Sete Mares. Deana Barroqueiro. «Mandou a alguns dos seus homens de confiança que escondidamente fossem lançar fogo às casas de madeira dos portugueses e da feitoria (que mantinha vigiadas para não deixar o fogo alastrar e consumir as mercadorias armazenadas)…»

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Cochim

«(…) Se quereis saber como tudo se passou, anui, agradado do elogio, eu vo-lo contarei com toda a verdade, porque a tudo fui presente. Com um murmúrio de aprovação, cada um se acomoda o melhor que pode no espaço exíguo e desconfortável da coberta para ouvir o soldado da Índia que, como aquela dona dizia, é um bom contador de histórias. Bento Castanho cerra os olhos por momentos, como para arrumar as ideias, e começa: Para conseguir a fortaleza de pedra, o vizo-rei jogou com a gratidão e o receio do soberano a quem, no ano de mil quinhentos e três, os portugueses tinham ajudado a vencer o exército do Samorim de Calecut, livrando-o da sua vassalagem e fazendo dele um rei muito mais poderoso. Em paga desse auxílio, Huriabem permitira aos primos Albuquerque a construção de um forte de madeira na boca do rio, o lugar escolhido pelo feitor Diogo Fernandes Correia, por ter uma bela baía onde se poderia fazer um amplo porto para carregar as naus. Ao longe, os três grandes rochedos, dispostos em fileira e seguindo a linha da costa, pareciam sentinelas vigilantes…

Pela sua privilegiada situação, a sul de Calecut, Cochim era a escolha óbvia para capital da Índia portuguesa, necessitando para tal de uma fortificação de pedra e cal, defendida por muralhas, uma forte artilharia, sustentada por uma boa povoação de gente lusa com cristãos da terra que, em pouco tempo, se convertesse numa cidade populosa e próspera. Francisco de Almeida viera determinado a fazê-la, recorrendo a todos os meios pacíficos, como odiaas, peitas e promessas de futuros benefícios, para vencer a relutância d’el-rei Huriabem, o qual, muito embora predisposto a satisfazer todos os pedidos dos seus aliados cristãos, achava que uma construção muralhada, armada com grossa artilharia seria uma clara manifestação de medo face aos seus potenciais inimigos e, portanto, uma grande perda da sua honra. Para mais, querendo o vizo-rei construir edifícios cobertos de telha, um privilégio de que em todo o Malabar apenas gozavam as casas dos reis ou os templos dos seus pagodes e que, por uma antiga lei de Calecut, era também interdito aos pouco poderosos reis de Cochim, que se arriscavam a perder o reino em caso de desobediência.

Não querendo de nenhum modo agravar quem lhe concedera o monopólio da pimenta, carregando-lhe em cada ano todas as naus do reino com a preciosa especiaria, Francisco de Almeida fingira acatar a determinação do soberano e fizera construir uma grande povoação de muitas ruas com casas de madeira sobradadas, cobertas de palha ao modo malabar, onde também havia boticas e tendas da gente da terra que vendiam toda a sorte de coisas de comer, boas e baratas. Ao mesmo tempo, peitava em segredo os caimais, os seus duques e condes, bem como os regedores do reino, fazendo-lhes grandes honrarias e cumulando-os de presentes; como o seu filho Lourenço conquistara a amizade do príncipe herdeiro, que lhe chamava irmão, contava ter nele um formidável aliado. O rajá, todavia, não se decidia a satisfazer-lhe o pedido e o vizo-rei recorreu a remédios mais extremos. Mandou a alguns dos seus homens de confiança que escondidamente fossem lançar fogo às casas de madeira dos portugueses e da feitoria (que mantinha vigiadas para não deixar o fogo alastrar e consumir as mercadorias armazenadas), recompensando os donos pelos seus prejuízos à custa do rei Huriabem que lhes pagava os soldos. Por fim, fizera incendiar a sua própria casa e a igreja, que deixara arder até ao fim, para ter maior razão de queixa contra os mouros de Calecut que, a mando do Samorim, queriam escorraçar de Cochim os portugueses que defendiam el-rei contra os seus inimigos.

Nessa tarde, apresentara-se com o seu filho na corte do rajá, para agradecer a preocupação e o pesar que Sua Alteza manifestara pelo desastre. Apesar de muito moço, Lourenço ganhara o cognome de Aquiles Português, por ser um formidável guerreiro e se mostrar indestrutível em combate, com a sua armadura branca e a portentosa alabarda. Quando ia aos paços reais, nunca deixava de levar a arma, por saber quanto a sua vista maravilhava o próprio rei, que sempre lhe pedia para fazer algumas demonstrações com ela. Não haverá mais trabalho nem medo do fogo, anunciara o príncipe, indicando Lourenço que se mantinha respeitosamente atrás de seu pai, porque este valente cavaleiro me confirmou que vem para o matar com a sua poderosa alabarda. Era a arma mais espantosa que gentios e mouros alguma vez haviam visto no Oriente: uma haste grossa, chapeada com uma barra de ferro, dourada e retorcida em redor dela, com uma lâmina de quase meio côvado de comprimento, tendo no revés um bulhão ou punhal de três pontas e um punção roliço; na outra extremidade da haste, brilhava o aço de um ferrão quadrado, também de meio côvado. Era tão pesada que nenhum outro homem na armada a conseguia menear». In Deana Barroqueiro, O Corsário dos Sete Mares, Casa das Letras, Oficina do Livro, 2012, ISBN 978-972-462-117-3.

Cortesia de CdasLetras/JDACT

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domingo, 19 de junho de 2022

Os Conquistadores de Lisboa. Domingos Amaral 3. «Aquela era a senha de felicidade, o convite para Mem tomá-la, a palavra que abria as portas do seu corpo. Mas não era possível»

 

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Silves, Junho de 1141

«(…) Futuro poderoso, bem mais gostoso.

Já no palácio, Mem encontrou Zaida nos jardins. Há meses que não dormiam juntos, mas ela abraçou-o com um carinho demasiado intenso, apertando-o contra o peito de forma nada inocente. Tenho saudades de vós..., murmurou a princesa. Mantinha viva a ternura do passado, desejava continuar a vê-lo, podiam encontrar-se em segredo. Aliás, recordou a princesa, as mulheres de Córdova nunca haviam amado só um homem, essa tradição durava há séculos, queria honrá-la. Por isso, pegou na mão do almocreve e murmurou: Mem querido...

Aquela era a senha de felicidade, o convite para Mem tomá-la, a palavra que abria as portas do seu corpo. Mas não era possível. Zaida não podia ter o melhor dos dois mundos, um emir no palácio e um almocreve atrás de uma laranjeira no jardim. A guerra vai começar..., alertou Mem, dando um passo atrás, para melhor combater o feitiço que ela um dia lhe lançara. Logo após a derrota dos muçulmanos na batalha de Ourique, a princesa Zaida zangara-se violentamente com a irmã Fátima, com a prima Raimunda e com os respectivos maridos, Abu Zhakaria, governador de Santarém, e Ismar, príncipe de Córdova. As acusações mútuas de traição, a distribuição de culpas pela derrota perante os portucalenses, o acinte das duas mulheres contra ela, recipitaram a ruptura, e Zaida, acompanhada por Mem, fugira dos outros para se juntar a Ibn Qasi. Ismar, Raimunda, Fátima e Zhakaria vão guerrear-vos!, previu Mem, sugerindo uma nova estratégia. Seria inteligente propor um pacto ao rei de Portugal. Ibn Qasi precisa de aliados. O almocreve, apesar de a amar, também queria a glória dela. Contudo, naquele momento, ela não pensava em guerras e insistiu: Mem querido...

Roçou-se, dengosa, enquanto ele reparava nos criados que cirandavam pelo jardim ou espreitavam à varanda. Não podemos..., disse Mem. Falai com Ibn Qasi. E não vos esqueçais de denunciar-lhe o alcaide de Mértola, esse estafermo!

Terminada a batalha de Ourique, Mem e Zaida tinham rumado a Mértola, onde haviam passado mais de um ano à espera de Ibn Qasi, entretanto ausente em Marrocos.

Pretendente distante, diverte-se o amante.

Nesses dias, Mem dormira sempre com a princesa, mas enquanto esperavam pelo regresso do sufi deram-se conta de que o indivíduo a quem Ibn Qasi confiara o governo da cidade de Mértola era um falso. Uma víbora..., ajuizara certo dia Zaida. Ibn Wasir nascera árabe e descendia de sírios, mas era a sua propensão para a traição que os preocupava. As primeiras vezes que conviveram com aquele ser curto de perna e magro de carnes, que falava depressa de mais, cuspia saliva e parecia sempre nervoso, Mem e Zaida notaram que Ibn Wasir tanto proclamava como essencial a falência estrondosa do califado almorávida de Marraquexe, liderado por Ali Yusuf, como se alvoroçava contra o perigo do avanço dos almóadas, os novos aliados de Ibn Qasi. Talvez o meu mestre se tenha equivocado, murmurara o desleal.

Mais desagradável ainda fora a suspeita que ele lançara sobre as lealdades religiosas de Zaida. Haveis vivido muito tempo entre cristãos?, perguntara Wasir, com óbvia malícia. Disseram-me que haveis pensado em converter-vos, para poderdes desposar Afonso Henriques... Incomodada, nas semanas seguintes a princesa evitou o alcaide e limitou-se a conviver com Mem, mas depressa a beleza e a afabilidade serena do amigo começaram a causar-lhe sarilhos». In Domingos Amaral, Assim Nasceu Portugal, Os Conquistadores de Lisboa, A Intriga de Compostela, Oficina do Livro, Casa das Letras, 2017, ISBN 978-989-741-713-9.

 

Cortesia de CdasLetras/JDACT

 

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sexta-feira, 17 de junho de 2022

Os Conquistadores de Lisboa. Domingos Amaral 3. «Órfã de pai e mãe, Zaida era uma desconhecida em Córdova, pois estivera prisioneira dos cristãos mais de duas décadas. O sangue real que lhe corria nas veias…»

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A Intriga de Compostela 1140-1142. Arcos de Valdevez, Março de 1141

«(…) Apesar deste alvoroço em Arcos de Valdevez, não chegara o momento certo de a intriga de Compostela tomar conta de Chamoa. A lealdade apaixonada de uma mulher só se quebra se ela se sentir traída, o que ainda não era o caso. Pouco depois, para evitar mencionar o que conversara com o imperador de Leão, Chamoa proclamou que devíamos saber por onde andavam a princesa Zaida e o almocreve Mem, pois Afonso VII iria atacar Córdova em breve e certamente que a vida dos seus queridos amigos poderia correr perigo. Mais uma vez, meus queridos filhos e netos, em Arcos de Valdevez, a minha cunhada adiou a desconfortável revelação da intriga de Compostela e nada me disse, preferindo desviar-nos a atenção para o Sul, para o mundo muçulmano, que andava, também ele, em violento turbilhão.

Silves, Junho de 1141

Naquela tarde de Junho, o almocreve Mem pediu para ser recebido pela princesa Zaida, que agora vivia no palácio de Silves e ia desposar Ibn Qasi, o sufi que reinava no Al-Gharb.

Amiga a casar, tempo de abalar.

Desde que a Primavera nascera e milhares de flores tinham transformado Silves num caleidoscópio maravilhoso de cores, tornara-se evidente para Mem que aquele príncipe sufi cuja barba era apenas uma fina linha junto ao queixo e que usava sempre sandálias para se sentir leve, estava possuído por uma fortíssima paixão por Zaida. Lisonjeada, a princesa entregara-se, sentindo que finalmente tinha a seu lado um amável e poderoso chefe.

Princesa sem dono, procura um trono.

Enquanto existira uma ínfima hipótese de convencer Afonso Henriques a casar-se com ela, Zaida tudo tentara para o seduzir, admitindo mesmo converter-se ao cristianismo. Mas, depois de rejeitada e mal se vira longe, forçara o coração a substituir o príncipe de Portugal por Ibn Qasi, o candidato alternativo disponível.

Mulher com talento, engrandece com o casamento.

Órfã de pai e mãe, Zaida era uma desconhecida em Córdova, pois estivera prisioneira dos cristãos mais de duas décadas. O sangue real que lhe corria nas veias, era neta do último califa cordovês, Hixam III, de nada servia no presente à bonita e voluptuosa princesa, se ela não tivesse a protecção de um marido, a riqueza de uma família nobre da Andaluzia onde se amparar. O generoso corpo, os longos cabelos negros, a fina inteligência e a sua imensa cultura nada obteriam sem o poder de alguém que os potenciasse.

Esposa de emir, poderá progredir.

Contudo e para Mem, a união amorosa entre Zaida e Ibn Qasi representava o fim de uma amizade que incluíra as brincadeiras tórridas na cama. O bonito e loiro almocreve sempre soubera que, no dia em que ela encontrasse um marido à altura das suas vastas ambições, ele teria de se afastar. Zaida era uma Benu Ummeya, uma das derradeiras descendentes da família dos antigos califas de Córdova, e aspirava ao regresso ao trono andaluz. E agora Ibn Qasi podia carregá-la até lá». In Domingos Amaral, Assim Nasceu Portugal, Os Conquistadores de Lisboa, A Intriga de Compostela, Oficina do Livro, Casa das Letras, 2017, ISBN 978-989-741-713-9.

 

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terça-feira, 14 de junho de 2022

Os Conquistadores de Lisboa. Domingos Amaral 3. «Que quereis que faça?, angustiou-se Chamoa. O imperador baixou a voz e falou na morte do conde Henrique, em Astorga, muitos anos antes. Nesse triste dia…»

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A Intriga de Compostela 1140-1142. Arcos de Valdevez, Março de 1141

«(…) A minha cunhada bateu as pestanas, baralhada, mas foi obrigada a novo volteio naquelas mãos masculinas fortes, antes de ouvir da boca de Afonso VII a intriga que escutara já de seu pai. Afonso Henriques podia não ser o verdadeiro filho do conde Henrique e de dona Teresa, pois esse tinha nascido aleijado! Foi um milagre!, contestou Chamoa, fiel à história oficial. Os milagres são sempre tão oportunos..., comentou Afonso VII. Sempre a sorrir, este recordou que já sua mãe, a rainha Urraca, contava que Egas Moniz decerto trocara os bebés, colocando o seu filho mais velho no lugar do verdadeiro príncipe. O Lourenço Viegas?, espantou-se Chamoa. O imperador ignorou a pergunta e, com a frieza de um mestre das estocadas, atirou-lhe de súbito: Vosso marido, Paio Soares, nunca vos falou disso?

Confrontada com tão inesperada interrogação, Chamoa tropeçou e o duo parou de dançar. Atrapalhada, ela sentiu a cabeça andar à roda e foi o monarca leonês, qual gentil cavalheiro, a ampará-la.

Meu marido sabia e nunca me contou?

Eu estava demasiado longe para os ouvir e apenas me apercebi da clara angústia estampada no rosto de minha cunhada. A referência ao primeiro esposo abanara-lhe as mais sólidas convicções e balbuciou: Paio Soares só me contou o segredo da relíquia... Como se apenas quisesse o bem dela, Afonso VII recordou-lhe que Paio Soares fora alferes do conde Henrique e homem de confiança deste. Se conhecia o esconderijo da relíquia sagrada, certamente também saberia o segredo das crianças trocadas. Com um franzir de testa inquisitivo, o imperador questionou-a: Não foi Afonso Henriques quem o matou, a mando dos nobres portucalenses, de Egas Moniz e de outros? Aterrada, Chamoa suspeitou pela primeira vez de que a morte de Paio Soares podia não se justificar apenas pelos ciúmes que Afonso Henriques lhe tinha, mas por algo mais sinistro, uma conspiração contra um dos poucos que conheciam a verdade sobre o nascimento do príncipe.

Bela Chamoa, porque desejam Egas e Peculiar afastar-vos da corte?, interrogou-se o imperador, respondendo de imediato à questão que lançara. Temem que façais revelações incómodas! As pestanas de minha cunhada batiam cada vez mais velozes, mas o monarca leonês não se comoveu e aplicou-lhe um golpe final afiado, declarando que o esclarecimento daquela questão seria essencial para decidir o futuro do pai dela. Ou Chamoa conseguia desvendar o mistério das crianças trocadas, caso em que Gomes Nunes se mantinha como conde de Toronho, ou o seu adorado pai sofreria um exílio doloroso.

Nossa Senhora, Virgem Santíssima!

Aterrada, Chamoa perguntou como poderia desatar tal nó sem afrontar Afonso Henriques? Se pusesse em causa a identidade do príncipe, não só perderia o amor dele, como seria expulsa do Condado Portucalense! Era um beco sem saída, por isso exclamou: Faça o que fizer, meu pai está perdido! Nesse momento, vi pelo canto do olho que finalmente Afonso Henriques se aproximava, irritado com seu primo por este monopolizar as atenções de Chamoa. Suspirei fundo, o pior passara, o meu melhor amigo não os vira enlaçados. Que quereis que faça?, angustiou-se Chamoa. O imperador baixou a voz e falou na morte do conde Henrique, em Astorga, muitos anos antes. Nesse triste dia, além de Paio Soares e de meu pai, Egas Moniz, também havia estado presente um confessor, que perdoara os últimos pecados do pai de Afonso Henriques. Talvez esse padre saiba a verdade, tentai descobrir quem é, terminou Afonso VII, virando-se depois para trás a sorrir, enfrentando Afonso Henriques». In Domingos Amaral, Assim Nasceu Portugal, Os Conquistadores de Lisboa, A Intriga de Compostela, Oficina do Livro, Casa das Letras, 2017, ISBN 978-989-741-713-9.

 

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quarta-feira, 23 de fevereiro de 2022

A Bagagem do Viajante. José Saramago. «A notícia correu o país inteiro, provocando o frémito das grandes ocasiões patrióticas: uma couve portuguesa plantada na Austrália atingiu 2,40 metros de altura (por extenso e para não haver dúvidas: dois metros e quarenta centímetros)…»

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Saudades da Caverna

«(…) Não sei que autor de anteontem dizia que o melhor instrumento de medição das altas e baixas pressões económicas era os pequenos anúncios dos jornais. Achava o dito autor, e julgo que o conseguia demonstrar, que aquilo que se vende, de particular a particular, em bens de luxo ou objectos úteis, define de um modo bastante rigoroso uma situação económica geral. Claro que por este meu jeito tacteante de avançar na matéria se está já notando que me falta saber e capacidade para discutir a tese, nem creio que tal discussão adiantasse muito neste tempo de grandes concentrações económicas e de impérios comerciais. Acho preferível passar adiante, não me caiam em cima os coriscos da informática. Fique apenas desta introdução quanto basta para se compreender melhor o sobressalto de espírito que me trouxe o tema desta crónica. Certos usos e costumes (certas vendas, certas compras) não surgem por acaso, e para o assunto que hoje me ocupa nem sequer o apelativo de moda designa seja o que for, uma vez que a moda não é mais do que a difusão promovente de um uso primeiramente limitado. E chego desta maneira ao meu tema. Que razões profundas, que mecanismos, que vozes ancestrais, se estão definindo, movendo, articulando, nesta sociedade, para que se tivesse tornado tão usual uma terminologia que evoca tempos revolutos, sobretudo, e é isto que me parece mais importante, quando aplicada a lugares de ajuntamento, de repasto, isto é, onde o gregarismo é padrão. Que saudades da caverna latejam na memória inconsciente dos grupos, para que tenha surgido este aluvião de boites e restaurantes com nomes velhos? Que psicólogo ou psicanalista me explicará a razão de tantos cacos, carunchos, toscos, caixotes, choupanas, ferraduras, cubatas, cangas, chocalhos, naus, veleiros? E dos archotes, calhambeques, lareiras, carripanas, breques, baiúcas, chafarizes, tocas, braseiros e túneis?

Esta atracção do primitivo, que até na decoração dessas casas ganha aspectos de ideia fixa, quase agressiva, se por um lado pode significar a continuidade, em plano diferente, de certa atracção de contrários que nos caracterizou como sociedade particular (o infante dom Miguel e os arrieiros, o marquês de Marialva e o fado, os capotes brancos do Bairro Alto, os fidalgos pegadores de touros), há-de certamente obedecer a razões menos visíveis e mais gerais, as mesmas, talvez, que fizeram surgir bandas desenhadas cujos heróis são homens e' mulheres da pré-história, da idade da pedra, ainda incapazes de inventar a roda mas já enleados nos problemas e nos conflitos de hoje. Andaremos nós à procura de uma nova inocência, de um recomeço? A escolha daqueles nomes será movida por um obscuro e aparentemente contraditório rancor contra as sociedades de consumo? Ou será antes um reflexo de má consciência que leva a dar às coisas, não o nome que lhes cabe mas o nome que as nega, como se essa operação de mágica linguística extraísse o veneno da serpente? Se eu tiver um palácio e lhe chamar a minha barraca, afasto com isso o raio que é atraído pelos lugares altos? Em grande conta eu me teria se fosse capaz de dar resposta a tais perguntas. Mas não será melhor deixá-las intactas? Se o leitor as considerar ociosas, facilmente as esquecerá, depois de protestar contra a perda do meu tempo e do seu tempo. Mas se murmurar: E boa! Nunca tinha pensado nisso, então ganhei bem o meu dia. O que, posso garantir, não é todos os dias que acontece.

Elogio da couve portuguesa

A notícia correu o país inteiro, provocando o frémito das grandes ocasiões patrióticas: uma couve portuguesa plantada na Austrália atingiu 2,40 metros de altura (por extenso e para não haver dúvidas: dois metros e quarenta centímetros), e continua a crescer. Sob céus e climas estranhos, rodeada de cangurus, ameaçada certamente pelas tribos primitivas do interior, ao alcance do terrível boomerang, a couve portuguesa dá uma lição de constância e de fidelidade às origens, ao mesmo tempo que mostra ao mundo as nossas raras qualidades de adaptação, o nosso universalismo, a nossa vocação de grandes viajantes. E continua a crescer». In José Saramago, A Bagagem do Viajante, 1973, Editorial Futura, Editora Caminho, 1998, ISBN 978-972-212-339-6.

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A Bagagem do Viajante. José Saramago. «O vestido é todo em azuis, amarelos, vermelhos, e mostra os braços brancos e espalmados como coxas. Fixo o olhar no braço direito, que vejo melhor»

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Um Braço no Prato

(…) Logo no primeiro golpe de rede se vê quem está sentado às mesas: funcionários, comerciantes, espíritos subalternos, todos com aquele ar de parentesco nos modos, nas palavras, nos fatos, e sobretudo nas ideias, que define o pequeno burguês. Por isso mesmo, todos têm os olhos apagados, o rosto voraz e ao mesmo tempo humilde, a presença obtusa. O restaurante é ruidoso e grande. As poucas crianças distribuem-se por todas as idades, desde o colo babado e chorão até ao cataclismo infantil; as rugas, essas, começam por ser sinal de expressão e acabam na pele de papel amarrotado, bom para deitar fora. Os adolescentes são raros, ou apenas acompanham silenciosamente os adultos. Não há dúvida de que Portugal envelhece. Ao meu lado direito está um casal de meia-idade. Escolheram com a boca franzida os pratos, o marido encomendou o vinho, e ficaram à espera calados. Ele usa um alfinete de gravata que é como um ramalhete de pedras, provavelmente verdadeiras; ela não traz muito que a distinga, a não ser, talvez, o sorvo assobiado com que engolirá a sopa. Estes dois não falarão um com o outro durante todo o almoço.

À esquerda tenho duas gerações: um casal de velhos, a filha e o genro. A filha serve todos da travessa, atirando a comida como quem diz: Comam!, e guardando para si os piores bocados como quem diz: Reparem! Os velhos são gulosos, mastigam com os lábios moles e besuntados, e deitam olhares rápidos à travessa, a ver se ainda resta alguma coisa e se terão tempo de participar na segunda roda. Todos bebem cerveja. Que direi daquele homem de rosto duro, no meio da família gritadora e numerosa, que não verei falar nunca, e cujos olhos às vezes se afogam em ódio? Que poderei contar da longa mesa que se apresenta no enfiamento da minha, toda coberta de restos de côdeas e de nódoas de vinho alastrado e perdido? Que direi do que dirão aqueles que me olham a furto, se é olhar o rápido lampejo que orientam para mim, se não é apenas um movimento tão involuntário e inconsciente como o pestanejar?

Mas agora ponho os olhos num casal que entrou e que resume toda a mais gente que mastiga, deglute e transpira. São ambos altos, corpulentos, clientes certos como se depreende da familiaridade com que tratam e são tratados pelo pessoal. Vão sentar-se num canto, ele um pouco escondido pela dama que está à minha direita e que, neste momento, já comida a sopa, extrai cuidadosamente da boca, com os dedos, as espinhas do peixe-espada; mas a mulher, que faz ângulo recto com ele, fica-me ao alcance facilmente. Olhemos bem, que vale a pena. Mesmo sentada, continua a ser alta. Da corpulência ficou o seio avantajado que invade a mesa pela fronteira de um decote redondo e aberto. Tem os cabelos pintados de uma cor que ralha com os olhos e a pele, uma espécie de mogno com riscos de pau-rosa. Os lábios são finos e pintados por fora, a fingir uma boca carnuda. E durante a refeição vão ficar esborratados, com a tinta a subir capilarmente pelas rugas minúsculas que lhe sulcam a parte superior da boca. Tem as mãos cobertas de anéis aparatosos e usa brincos compridos que oscilam como barbilhos de leitão.

O vestido é todo em azuis, amarelos, vermelhos, e mostra os braços brancos e espalmados como coxas. Fixo o olhar no braço direito, que vejo melhor. É realmente uma magnífica peça de carne, de grande tamanho, que a dona exibe aos circunstantes com estremecimentos e sacudidelas que não são apenas ocasionais. Acredita provavelmente que é o seu grande trunfo afrodisíaco e atira com ele aos homens que estão em redor, atira-o para o meu prato com um grande ar de fêmea pública. Cautelosamente, empurro-o para a borda, entre os restos e o molho já frio, e chamo o empregado para pedir-lhe o café e que me leve dali tudo. E se nesse momento tivesse entrado no restaurante uma adolescente de mini-saia, esbelta e luzidia, mostrando a pele polida e jovem, as burguesas juntariam as cabeças oleosas, odiosas, e acusá-la-iam de obscenidade. Mas obsceno era aquele braço enorme que o criado levava no meu prato, e que ia ser despejado na lata do lixo». In José Saramago, A Bagagem do Viajante, 1973, Editorial Futura, Editora Caminho, 1998, ISBN 978-972-212-339-6.

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