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terça-feira, 27 de junho de 2017

O Viajante do Infinito. Patrick Girard. «Tu, filho de um rústico de Moconesi, eis-te agora dono das quatro paredes onde irás viver a partir deste momento»

jdact

Assassínio à porta dell’Olivella
«(…) Bartolomeo Costapelli, um cardador, não parava de vituperar os geegos: foi um justo castigo para esses cães heréticos, que se recusam a reconhecer a autoridade do papa. O irmão António, o guarda-portão de San Stefano, disse-me com a voz trémula de indignação que um dos chefes deles ousara afirmar: mais vale o turbante dos turcos do que a mitra dos latinos. Não entendi nada, mas aquilo devia ser muito grave, a julgar pela cólera dele. Que Nosso Senhor Jesus Cristo e a Sua Santíssima Mãe nos livrem para sempre dessa corja! Segundo Anna, uma criada, o viajante interrompera Costapelli com grosseria: que cristão és tu, pobre idiota, a maldizer esses gregos para quem trabalhas. Pelas tuas mãos, calculo que sejas tecelão. O que vais fazer quando tu e os teus deixarem de receber as nozes-de-galha de que vos servis para tingirdes de negro as vossas malditas lãs? São tão ásperas que só os pobres de Salerno ou de Nápoles aceitam comprá-las. Quando o estômago te gritar de fome, suplicarás a Deus para que o turco se mostre tão condescendente como os gregos. Estarás até pronto a abraçar a fé deles, desde que continuem a dispensar-te essas famosas nozes.
Ninguém se lembrava de quem desembainhara então uma faca para fazer o homem engolir semelhante blasfémia. Na penumbra, cintilara uma lâmina. O viajante esvaíra-se em sangue nos braços do companheiro, enquanto os clientes da taberna fugiam, abandonando os seus copos acabados de servir. Anos mais tarde, Domenico lembrava-se amargamente dos aborrecimentos que lhe tinha valido aquela rixa. Quando os archeiros vieram recolher o cadáver, ele ouvira um deles reprimir uma blasfémia ao analisar os documentos encontrados no homem. Algumas horas mais tarde, já ele tinha sido levado para casa do doge. O defunto falou contigo? Não, senhor. Eu estava a guardar a Porta dell’Olivella como dita o cargo que me confiou o vosso nobre pai. E que eu te retiro. Não protestes. Há muito que aguardo a oportunidade de me vingar da humilhação pela qual um dia me fizeste passar ao me recusares a entrada na cidade.
Agi de acordo com as ordens do vosso pai, o ilustre Gianni Fregoso. Ordens essas que tiveste, aliás, o grande cuidado de manter quando lhe sucedeste. Pouco importa. A tua taberna é um lugar de vício e perdição. As tuas criadas vendem os seus corpos. O prior de San Stefano queixou-se disso por diversas vezes. Até agora, aceitara fechar os olhos perante esse escândalo, mas não voltarei a tolerar que a protecção de uma das portas da cidade seja confiada a um vulgar rufião. Mas isso é condenar-me à ruína! Pierino Fregoso avaliou-o com um ar ao mesmo tempo altivo e vagamente inquieto: tens a certeza absoluta de que a vítima não disse a ninguém quem era? Foi o que a Anna me jurou. A pobre rapariga estava toda perturbada por ter assistido a um assassínio. O homem contentou-se em dizer as infelizes palavras que conheces, sem dúvida, sob influência do vinho que tanto bebeu.
Bem quero acreditar em ti. Fica sabendo que nunca ninguém deve saber o que se passou ontem na tua taberna. O assassino e os seus cúmplices não estão prestes a vangloriar-se do seu acto. Não querem ficar a espernear na ponta de uma corda. Tenho dúvidas quanto a isso, e aí está a tua sorte. Para evitar o falatório, tenho de encontrar uma razão plausível para a cessação das tuas funções como guarda da Porta dell’Olivella. A partir desta noite, a cidade ficará a saber que, pelos teus distintos méritos, te confiei a gestão das terras que possuo em Savona, onde irás instalar-te sem delongas. Sossega que serão apenas alguns pomares e arpentes de vinha que te deixarão tempo livre para te dedicares às outras tuas ocupações. Graças à minha bondade, eis-te proprietário de uma loja e de uma casa contígua à Igreja de San Giulano, onde irás fazer as tuas orações. Filippo Masetta, o meu tabelião, já redigiu uma escritura de venda fictícia, porque de ti não exijo nenhum outro pagamento além do teu silêncio. Não me agradeças, porque este presente fica-me mais barato do que o dinheiro que perderia se este assunto viesse a lume. Levaria tempo demasiado a explicar-te. Dou-te mesmo como bónus António, o escravo do morto, um mouro bastante robusto a julgar pelo que dizem os meus archeiros, que tiveram alguma dificuldade em lhe deitar a mão. Faz as coisas de modo a que ninguém saiba quem ele é, nem onde se encontra. Como vês, o teu desvalimento é, porém, brando. Tu, filho de um rústico de Moconesi, eis-te agora dono das quatro paredes onde irás viver a partir deste momento. É mais do que qualquer um dos teus filhos conseguirá ter no final de uma vida de trabalho árduo. Desaparece da minha vista antes que comece a arrepender-me da minha generosidade». In Patrick Girard, Cristóvão Colombo, O Viajante do Infinito, 2011, Editorial Presença, Lisboa, 2013, ISBN 978-972-235-138-6.

Cortesia de EPresença/JDACT

O Viajante do Infinito. Patrick Girard. «Cansada de tais desvelos, a arraia-miúda exigira que se reparasse a antiga cintura da muralha, erigida uns séculos antes»

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Assassínio à porta dell’Olivella
«Ainda era dia claro, porém, todos se apressavam para chegar a tempo. Quando o mestre Domenico Colomb estava de serviço, como naquela semana, não mostrava compaixão alguma para com os retardatários. Mal o gradeado de ferro era descido, não abria a porta a mais ninguém, sob que pretexto fosse, mantendo-se insensível às súplicas de uns e às lisonjas de outros. Os hortelãos do Bisagno ainda se recordavam da contrariedade que acontecera a Pierino Fregoso, uns anos antes de suceder ao seu pai como doge. Atrasara-se junto a uma lavadeira de peito generoso e, ao chegar com os amigos às portas da cidade, vira-lhe ser recusada a entrada. Bem que se enfurecera, blasfemara, ameaçara, mas nada abalara a determinação do cérbero da muralha, como ele o apelidara com soberba. Nem que fosse um dos Reis Magos, ou Nosso Senhor Jesus Cristo em carne e osso, teria direito a um tratamento de deferência.
Deste modo, vira-se na obrigação de passar a noite com os companheiros na Hospedaria da Loba Zarolha, propriedade de Domenico, que se situava fora da cintura da muralha, a esvaziarem copos de vinho uns atrás dos outros. No Verão, como no Inverno, mal o Sol começava a descer no horizonte, a cidade encerrava-se atrás das suas muralhas. Tinham sido edificadas para a proteger dos ataques de surpresa dos salteadores a soldo dos fidalgos de Lavagna. Estas autênticas feras não hesitavam em surpreender os viajantes e os peregrinos que se aproximavam da cidade e desatendiam a vigilância. Por diversas ocasiões, tinham seguido a sua presa até junto do portão do Convento de San Stefano, enquanto os nobres se fechavam nas torres altas e ameadas que tinham mandado erigir mesmo no centro de Génova.
Cansada de tais desvelos, a arraia-miúda exigira que se reparasse a antiga cintura da muralha, erigida uns séculos antes, e cuja vigilância dos portões fora confiada a homens provenientes do seu seio. A medida dera os seus frutos. Os Fieschi, que outrora haviam semeado o terror, tinham descido do seu covil montanhoso para virem instalar-se na cidade. Tinham posto fim às pilhagens por considerarem isso mais rentável e para aproveitarem a prosperidade do porto. A paz voltara, mas os velhos hábitos mantinham-se. Mal a noite caía, o medo brocava o coração dos homens. Os campos vizinhos tornavam-se para eles o palco de estranhos acontecimentos. Feiticeiros e bruxas aproveitavam a escuridão para realizarem as suas reuniões nocturnas, ao mesmo tempo que os lobos esfomeados vagueavam em busca de alimento. Há poucas semanas ainda, nas margens escarpadas do Bisagno, tinham sido encontrados os cadáveres de dois pastores retalhados pelas terríveis mandíbulas dos carnívoros, tendo então sido enterrados à pressa. Domenico ainda se lembrava do grito rouco da mãe deles quando os corpos foram descidos para a sepultura cavada à pressa: um pranto dilacerante, inumano, que parecia ecoar os bramidos dos animais selvagens.
Era para se proteger que, todas as noites, a cidade se enclausurava e confiava a sua guarda aos archeiros de atalaia que velavam para que ninguém entrasse nem saísse da cintura da muralha. Bem seguros, os habitantes entregavam-se às suas ocupações habituais. As mulheres afadigavam-se em frente aos fogões. Os homens iam para a taberna mais próxima comentar as últimas novidades, como a chegada de uma carraca proveniente de Quios ou de Caifa ou a próxima venda de um lote de escravos comprados em Constantinopla. Longe do olhar dos pais, cortejos de crianças travessas desciam as ruelas em declive a surripiarem aqui e ali um fruto ou a deitarem ao chão bancas de mercadorias.
Eram tantas as cenas que ali tinham lugar que ninguém veria, pelo menos naquela noite, os dois soldados de cavalaria abrirem caminho na penumbra, a pouca distância da cidade. Um deles não era seguramente um desconhecido. Como se soubesse que lhe iam recusar a abertura da porta, instintivamente, dirigira-se para a Hospedaria da Loba Zarolha, confiando a sua montada a um gaiato para que a levasse para a estrebaria. Com o seu companheiro de rosto dissimulado por um capuz, entrou na grande sala pouco iluminada por velas de sebo de má qualidade, onde as criadas repeliam aos risinhos os avanços dos clientes habituais, pobres joões-ninguéns que ali tinham ido em busca de um pouco de calor e consolo depois de um dia de trabalho penoso.
Os dois homens tinham-se sentado em silêncio num canto próximo da lareira. O mais velho atirara algumas moedas para cima da mesa e pedira vinho, pão e queijo. Beberam e comeram sem prestar atenção aos que estavam mais próximo. Ao serão, bem mais tarde, o mais velho intrometera-se nas conversas. Todos comentavam a novidade trazida nessa mesma manhã pelos marujos sobre a queda de Constantinopla às mãos dos turcos». In Patrick Girard, Cristóvão Colombo, O Viajante do Infinito, 2011, Editorial Presença, Lisboa, 2013, ISBN 978-972-235-138-6.

Cortesia de EPresença/JDACT