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sexta-feira, 4 de março de 2011

J. M. Pereira da Silva. Cristóvão Colombo e o Descobrimento da América: Primeira Conferência, 17 de Maio de 1891. «Havia, porém, em um canto da Europa, o mais Ocidental, banhado pelo Atlântico, um povo pouco numeroso, mas guerreiro. Firmara na batalha de Aljubarrota por uma vez sua nacionalidade após três séculos de separação e tal qual independência do resto das Espanhas»

4 de Março
Cristóvão Colombo chega a Lisboa. Volta da sua 1ª viagem para a América
Cortesia de paulocampos

Com a devida vénia a Paulo Campos.

Cristóvão Colombo e o Descobrimento da América
Primeira Conferência, 17 de Maio de 1891

«Subindo hoje a esta tribuna que, há cerca de dois anos, conserva-se muda, deserta, abandonada, e relanceando os olhos pelo auditório no intuito de comprimentá-lo, e agradecer-lhe o comparecimento, assalta ao meu espirito uma ideia triste, confrange-se-me o coração com uma dolorida reminiscência. Noto a falta de um grande patriota que desde o começo e durante muitos anos seguidos honrou sempre estas
conferências, animando os oradores com sua presença, incitando os ouvintes com suas palavras, aqueles pedindo a perseverança no trabalho, a estes aconselhando concorressem afim de se alcançarem resultados vantajosos e proficuos aos estudos científicos e literários. Refiro-me ao Sr. D. Pedro II, que ora, ingratamente expelido da pátria, sente decerto ainda bater-lhe o coração de saudades por ela, e faz votos ardentes pela sua felicidade e futuro.

Documento da Bula que declara a independência do Condado Portucalense
Cortesia de forumautohoje
Pago este tributo de gratidão, prestada uma homenagem devida de respeitosa saudação, passo a tratar do assunto anunciado para nossa conferência de hoje, apelando, como em outras ocasiões, para a vossa benevolência.
Sorriu-me esta ideia com a leitura dos anúncios publicados em periódicos de várias nações. No próximo ano de 1892 celebrar-se-á o quarto centenário do descobrimento da América. Achamo-nos na América, somos Americanos, porque nós não recordaremos de época tão memorável!
Para qae se compreenda, porém, a historia do descobrimento da América, necessário nos é começar pelo estudo da situação social, politica, económica, científica ,e litterária da Europa durante o século XV.
Saía da Idade Média, penetrava na da Renascença, e passava por extraordinárias evoluções.
Caía a feudalidade, isto é, o domínio despótico, brutal e caprichoso de fidalgos, senhores de castelos, de cidades, de vastos territórios, tanto leigos como eclesiásticos e que, independentes dos chamados reis e imperadores, vitimavam os povos residentes em suas terras e sob seu jugo.
Elevava-se sobre as ruínas do feudalismo o poder ilimitado dos monarcas, que começavam a governar nações maiores e mais unidas: aparecia já também à tona d'água, reclamando liberdades civis, a classe média e popular, que até então existira esmagada e submetida.

Cortesia de purl
Desenvolvia-se a indústria e o comércio; propagava-se a instrução que estava monopolizada nos cláustros, privativa quase dos representantes da igreja cristã qae sucedera ao antigo culto do politeísmo pagão.
Ocupava-se, todavia, toda a Europa em guerras ou intestinas ou externas: Itália era presa de estrangeiros; França lutava com Inglaterra, unida à Bourgonha e Bretanha; Alemanha fazia e desfazia imperadores nominais; Espanha brigava com Árabes e Mouros, ainda donos de parte de seu solo, e repartia-se também em vários estados cristãos independentes. O império grego de Constantinopla estorcia-se em paroxismos diante das invasões e vitórias dos Turcos asiáticos, que o assaltavam de continuo.
Nenhuma nação possuía então marinha militar propriamente dita e apenas exércitos, dando-se as grandes batalhas e praticando-se as excursões bélicas em terra e só em terra.
Havia, porém, em um canto da Europa, o mais Ocidental, banhado pelo Atlântico, um povo pouco numeroso, mas guerreiro. Firmara na batalha de Aljubarrota por uma vez sua nacionalidade após três séculos de separação e tal qual independência do resto das Espanhas. Proclamara-a nas cortes de Coimbra de 1385, elevando ao trono D. João, Mestre de Avis, filho bastardo de D. Pedro I. Não tinha mais inimigos a combater, carecia, entretanto, de empregar sua actividade e aspirações audaciosas em qualquer empresa de vulto.

Cortesia de purl 
Desmembrado no princípio do século XII do Condado da Galiza, convertido em reino independente, alargara-se pela conquista sobre terras de Árabes e Mouros até o sul. Mais longe ia-lhe a ambição, e, pois, adiantou para o mar suas energias e afoitesas. Não tivera ao principio marinha, e para se apoderar dos territórios meridionais precisou do auxilio das armadas do Norte, que se dirigiam às Cruzadas. Do governo de D. Dinis em diante aprendera, porém, com os Genoveses a atirar-se ao oceano. Não o convidava ele com seus murmúrios a lançar-se-lhe nos braços?
Feliz como rei, afortunado como pai, foi D. João I. Seus cinco filhos honraram-lhe cavalheirosamente a família e a pátria, já pelos talentos e qualidades, já pela bravura do braço e ardentia do ânimo. D. Duarte foi rei e rei preclaro. D. Pedro, Duque de Coimbra, ilustrado em todos os conhecimentos cientificos e literários da época, ânimo prudente, superior, e esforçado cavalheiro, ganhou experiência em viagens pela Europa e Ásia, e era por isso chamado o Infante das sete partidas do mundo. D. Henrique de Viseu combatera em Ceuta como um leão, e entregava-se aos estudos cosmographicos. D. Fernando morreu prisioneiro de Mouros em Fez, e D. João ainda moço acabou a vida, quando ambos prometiam igualar nos méritos e qualidades a seus irmãos que tanto se haviam enobrecido.

Cortesia de comunidade
De Mouros estava livre Portugal; nem um pisava em seu solo que não vivesse em cativeiro: tentou ao rei e aos princípes uma grande facção, atravessar os mares que separam a Africa da Europa, levar a guerra aos territórios e dominios em que Mouros se achavam, e expeli-los também daquelas regiões, como o haviam sido de Portugal. Dito e feito. Ceuta, a mais rica e comerciante cidade de Marrocos, foi atacada e subjugada em 1415 pelas armas de D. João I: teve de arriar o crescente de Mahomet e ornar-se com a cruz santíssima de Cristo: e foi o Infante D. Henrique, seu principal vencedor, nomeado para governar a conquista verificada.
Teve então D. Henrique ensejo de aprender a língua árabe, ler seus livros, estudar seus monumentos científicos, ouvir seus sábios, seus cosmógrafos, e muito lucrou e aprendeu, porque eram ainda os Árabes o povo mais ilustrado da época. Terminado seu governo e restituído à pátria, um pensamento, um intuito se lhe fixou no espirito, adiantar, estender os conhecimentos cosmográficos e geográficos, descobrir terras de que já haviam faltado os antigos Gregos e Romanos, e que então se não conheciam mais, devassar os segredos dos mares, opulentando com novos domínios sua pátria, dilatar e propagar a religião cristã, e desenvolver enfim o comércio com novas mercadorias e escambos». In J. M. Pereira da Silva, Cristóvão Colombo e o Descobrimento da América.

Continua.
Cortesia de University of California Libraries/JDACT

sábado, 1 de maio de 2010

João das Regras: Segundo Fernão Lopes «notável barom, comprido de ciência e mui grande letrado em leis»

João das Regras (13??-1404)
Pintura de Acácio Lino
João das Regras nasceu em Lisboa em data desconhecida pelo ano de 13.. e foi um jurisconsulto português. No contexto da Crise de 1383-1385 em Portugal destacou-se pela magistral representação da causa do Mestre de Avis nas cortes de Coimbra de 1385, cujo corolário foi a aclamação dele como rei de Portugal.
De acordo com Fernão Lopes esteve em Bolonha, e é verosímil que tenha estudado na Universidade daquela cidade. Foi professor da Universidade de Lisboa, onde mais tarde desempenhou o alto cargo de encarregado ou protector, equivalente, segundo alguns, ao cargo de reitor (Carta Régia de 25 de Outubro de 1400).

Túmulo de João das Regras (século XV) na Igreja de S. Domingos de Benfica.
Tal como o seu padrasto, teve uma acção importante no levantamento de Lisboa que alçou o Mestre de Avis por regedor e defensor do Reino. Conselheiro e chanceler do Mestre, a sua acção na crise de 1383-1385 culminou na inteligente argumentação em que, omitindo o nome do mestre, negou validade às pretensões dos outros candidatos ao trono:
  • A D. Beatriz, filha do falecido rei de Portugal, nega João das Regras quaisquer direitos por nulidade do casamento de Fernando I de Portugal com Leonor Teles de Menezes, que era já casada com João Lourenço da Cunha quando o rei a desposou; por incerteza quanto à paternidade de D. Fernando, dado o comportamento irregular de Leonor Teles; por haver contraído um casamento com o rei D. João I de Castela, seu parente (a mãe do rei de Castela era tia-avó de D. Beatriz) sem a dispensa do papa legítimo Papa Urbano IV, em vez do antipapa Clemente VII;
  • Ao rei de Castela, por ter quebrado o tratado antenupcial de Salvaterra de Magos de Março de 1383 e por ser herege, refuta João das Regras o direito a ser rei de Portugal, pois, pela violação daquele tratado, perdia o direito que havia nos reinos de Portugal e, ademais, reconhecera o antipapa e fora excomungado pelo legítimo papa; além disso, porque o seu parentesco com o rei D. Fernando se dava pela linha feminina (as suas mães eram irmãs), o que pelo direito consuetudinário hispânico não dava direitos de sucessão;
  • Os infantes D. Dinis e D. João, filhos de el-rei D. Pedro I e de Inês de Castro, portanto, irmãos de D. Fernando, não podiam ter direito ao trono porque eram ilegítimos: D. Pedro nunca casara com Inês de Castro; além disso fizeram guerra contra Portugal aliados a Henrique II de Castela e a D. João I de Castela.
Inteligentemente, a sua estratégia demonstrou que o trono português estava vago, pois nenhum dos pretendentes tinha direito a ele. Cabia assim às Cortes escolher livremente um novo rei, sendo o Mestre, «per unida concordança de todolos grandes e comum poboo» aclamado rei de Portugal.
O rei concedeu muitas mercês a João das Regras:
  • Fê-lo cavaleiro de sua casa, senhor das vilas de Castelo Rodrigo, Tarouca e Beldigem;
  • Senhor de Cascais e seu termo, do reguengo de Oeiras, das dízimas das sentenças condenatórias de Évora, da jurisdição da Lourinhã e das rendas da portagem de Beja.
Fernão Lopes refere-se a ele «como notável barom, comprido de ciência e mui grande letrado em leis».
História de Portugal/Wikipédia/JDACT