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terça-feira, 2 de fevereiro de 2021

Os Reis Malditos 1. O Rei de Ferro. Maurice Druon. «Quanto a mim, Eduardo não me procura mais, e se por acaso acontece-lhe procurar-me, tenho tamanha vergonha que me conservo fria»

Cortesia de wikipedia e jdact

A Maldição. A Rainha Sem Amor

«(…) Olhai, prestai atenção! No pátio, Eduardo II dava ordens, apoiando-se a um jovem trabalhador, em cujo pescoço passara o braço. Reinava em torno dele uma familiaridade suspeita. Os leões da Inglaterra tinham descido de novo para o chão, sem dúvida por ter se decidido que o lugar não era bom. Eu pensava, disse Isabel, ter passado pelo pior, com o Cavaleiro de Gabaston. Aquele bearnês insolente e gabarola governava tão bem meu esposo, que chegou a governar o reino. Eduardo lhe havia dado todas as jóias do meu cofre de noiva. Positivamente, é um hábito de família ver que as jóias das mulheres, de uma forma ou de outra, acabam sendo usadas pelos homens! Tendo junto dela um parente, um amigo, Isabel deixava, enfim, exalar seus desgostos e humilhações. Os costumes do rei Eduardo II eram conhecidos em toda a Europa. Os barões e eu, no ano passado, conseguimos derrotar Gabaston; foi decapitado e seu corpo está hoje bem putrefacto sob a terra, em Oxford, disse a rainha, com satisfação. Tanta crueldade, expressa por rosto tão belo, não pareceu surpreender Roberto d'Artois. Devemos dizer que tais processos eram, naquele tempo, moeda corrente. Os reinos ficavam, muitas vezes, entregues a adolescentes, que se deixavam deslumbrar com o seu poder total, como por um brinquedo. Mal saídos da idade em que é divertimento arrancar as asas das moscas, conseguiam divertir-se arrancando cabeças de homens. E muitos jovens para temer ou imaginar a morte, não hesitavam em distribuí-la em torno de si.

Isabel subira ao trono aos dezasseis anos; em seis anos progredira muito. Pois bem, meu primo, chego a sentir falta do Cavaleiro de Gabaston, continuou ela. Porque desde então, como para se vingar de mim, Eduardo chama ao palácio tudo quanto há de mais baixo e de mais infame entre os homens do povo. É visto a percorrer as espeluncas do porto de Londres, sentando-se entre os vagabundos, rivalizando na luta com os carregadores e na corrida com os palafreneiros. Que belos torneios ele oferece, dessa maneira! Durante esse tempo, quem quiser governa o reino, contanto que organize seus prazeres, e deles partilhe. Neste momento, são os barões Despenser: o pai não é melhor que o filho, que serve de mulher a meu marido. Quanto a mim, Eduardo não me procura mais, e se por acaso acontece-lhe procurar-me, tenho tamanha vergonha que me conservo fria. Ela baixara a fronte. Uma rainha é o mais infeliz dos vassalos do reino, se seu marido não a ama. É bastante que ela tenha assegurado a descendência: sua vida, dali por diante, não conta mais. Qual seria a mulher de barão, a mulher de burguês ou de vilão, que suportaria o que eu tenho de tolerar, porque sou rainha? A última das lavadeiras do reino tem mais direitos do que eu: pode vir pedir-me apoio...

Roberto d'Artois sabia, quem não o sabia?, que o casamento de Isabel não era feliz. Mas não imaginara que o drama fosse tão profundo, que ela se sentisse atingida a tal ponto. Minha prima, minha bela prima, quero servir-vos de apoio, disse ele, calorosamente. Ela levantou tristemente os ombros, como para dizer: que podeis fazer por mim? Estavam face a face. Ele estendeu as mãos, tomou-a pelos cotovelos, tão docemente quanto lhe foi possível, e disse, murmurando... Isabel... Ela pousou as mãos sobre os braços do gigante, respondendo: Roberto... Olharam-se, e apoderou-se deles uma perturbação que não tinham previsto. D'Artois teve a impressão de que Isabel lançava um apelo secreto. Sentiu-se, de repente, e de forma estranha, emocionado, oprimido, constrangido por uma força que temia utilizar desajeitadamente. Vistos de perto, os olhos azuis de Isabel, sob o arco das sobrancelhas louras, eram ainda mais belos, as faces mais aveludadas, mais saborosas. Ela tinha a boca entreaberta, e o bordo de seus dentes brancos aparecia entre os lábios. De repente d'Artois sentiu o brusco desejo de devotar seu tempo, sua vida, seu corpo e sua alma àquela boca, àqueles olhos, àquela rainha frágil que, naquele instante, voltava a ser a adolescente que era. Ele a desejava, simplesmente, com um desejo imediato e robusto que não sabia como expressar. Seus gostos não o levavam, habitualmente, para junto de mulheres de qualidade, e as graças da galanteria não eram seu natural». In Maurice Druon, Os Reis Malditos 1, O Rei de Ferro, 1965, Gótica, colecção Cavalo de Tróia, 2006, ISBN 978-972-792-159-1.

Cortesia Gótica/JDACT

JDACT, Cultura e Conhecimento, Idade Média, Literatura, Maurice Druon,

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2021

Os Reis Malditos 1. O Rei de Ferro. Maurice Druon. «… tanto para homens como para mulheres, e que lhes faríeis chegar secretamente, sem advertir nem pai, nem esposo, como um pequeno mistério de amizade entre vós»

 

Cortesia de wikipedia e jdact

 A Maldição. A Rainha Sem Amor

«(…) Não os tendes?, insistiu ela. Nada posso fazer sem eles. Tratai de obtê-los, e eu vos juro que então irei imediatamente a Paris, com um pretexto qualquer, e farei com que cessem esses desregramentos. Em que posso ajudar-vos? Prevenistes meu tio Valois? Ela estava de novo decidida, precisa, autoritária. Tive o cuidado de nada dizer, respondeu d'Artois. Monseigneur de Valois é o meu protector mais fiel e meu melhor amigo. Mas é exactamente o contrário de vosso pai. Iria badalar por toda a parte aquilo que desejamos calar. Cedo demais daria o alarme, e quando quiséssemos agarrar as debochadas, iríamos encontrá-las puras como freiras... Então que desejais propor? Duas acções, disse d'Artois. A primeira é conseguir a nomeação de uma nova dama de companhia para Mme Margarida, e que seja pessoa nossa, que nos mantenha informados. Pensei, para isso, em Mme Comminges, que acaba de enviuvar, e que é muito considerada. É nessa altura que vosso tio Valois nos será útil. Mandai-lhe uma carta, expressando vosso desejo e fingindo interesse por essa viúva. Ele tem grande influência sobre vosso irmão Luís e, quando não fosse apenas para ter um pouco mais dessa influência, ele faria Mme Comminges entrar prontamente no Palácio de Nesle. Teríamos, assim, uma criatura nossa no lugar e, como costumamos dizer entre gente de guerra: um espião dentro dos muros vale mais do que um exército do lado de fora.

Escreverei essa carta e vós a levareis, disse Isabel. E depois? Seria preciso, ao mesmo tempo, dissipar a desconfiança que vossas cunhadas têm de vós, mostrando-vos agradável e enviando-lhes amáveis presentes, continuou d'Artois. Presentes que convenham tanto para homens como para mulheres, e que lhes faríeis chegar secretamente, sem advertir nem pai, nem esposo, como um pequeno mistério de amizade entre vós. Margarida rouba no próprio cofre joias que oferece a um desconhecido, e seria realmente muito pouca sorte da nossa parte se, dispondo de um presente do qual não teria de dar contas, não viéssemos a encontrar o nosso objecto nas mãos do rapagão em referência. Tratemos de fornecer-lhes motivos para imprudências. Isabel reflectiu por um segundo, depois aproximou-se da porta e bateu palmas.

A primeira dama francesa apareceu. Minha amiga, disse a rainha, mandai buscar aquela bolsa de ouro que o mercador Albizzi trouxe esta manhã, propondo-me a sua compra. Durante aquela pequena espera, Roberto d'Artois saiu, enfim, das suas preocupações e combinações para olhar a sala onde se encontravam os frescos religiosos pintados nas paredes, o forro imenso, guarnecido de madeira, em forma de quilha de navio. Tudo aquilo era bastante novo, triste e frio. O mobiliário era belo, mas pouco abundante. Não é muito risonho o lugar onde viveis, minha prima, disse ele. Dá mais a impressão de uma catedral do que de um castelo.

E Deus permita que não se transforme em prisão, disse Isabel, a meia voz. Como sinto falta da França, às vezes! Ele sentiu-se surpreendido tanto pelo tom como pelas palavras. Compreendeu que havia duas Isabel: de um lado, a jovem soberana, consciente do seu papel e que se esforçava um tanto para aparecer em sua majestade. E atrás daquela máscara, uma mulher que sofria. A dama francesa voltou, trazendo uma bolsa de fios de ouro tecidos, forrada de seda e fechada com três pedras preciosas, grandes como a ponta do polegar. Maravilha!, exclamou d'Artois. Exactamente o que precisamos. Um pouco pesada para enfeite feminino. É exactamente o objecto que um jovem sonha trazer à cintura, para se fazer valer... Encomendai mais duas bolsas como esta ao mercador Albizzi, disse Isabel à dama, e que ele as faça imediatamente. Depois, quando a dama francesa saiu, acrescentou para Roberto d'Artois: assim, podereis levá-las para a França. Ninguém saberá que passaram pelas minhas mãos, disse ele. Ouviu-se um ruído lá fora, gritos e risos. Roberto d'Artois aproximou-se de uma janela. No pátio, um grupo de pedreiros içava para o alto de uma abóbada uma pedra ornamental, gravada em relevo com os leões da Inglaterra; havia homens que puxavam cordas passadas em polias, e outros que, sobre um andaime, preparavam-se para agarrar a pedra. E todo aquele trabalho parecia ser executado com extremo bom humor.

Pois bem!, disse Roberto d'Artois. Ao que parece, o rei Eduardo continua gostando dos trabalhos de pedreiro. Reconhecera entre os trabalhadores Eduardo II, marido de Isabel, homem bastante bonito, de uns trinta anos, cabelos ondulados, ombros largos, ancas fortes. Suas roupas de veludo estavam sujas de gesso. Há mais de quinze anos começaram a reconstruir Westmoutiers!, disse Isabel, encolerizada. (Como toda a corte, pronunciava Westmoutiers, à francesa, em vez de Westminster). Há seis anos estou casada, e vivo entre colher de pedreiro e argamassa. Não cessam de desfazer o que fizeram um mês antes. Não é o trabalho de pedreiro que ele ama, são os pedreiros! Pensais, por acaso, que eles ao menos o chamam sire? Tratam-no por Eduardo, caçoam dele, e isso o deixa encantado». In Maurice Druon, Os Reis Malditos 1, O Rei de Ferro, 1965, Gótica, colecção Cavalo de Tróia, 2006, ISBN 978-972-792-159-1.

Cortesia Gótica/JDACT

JDACT, Cultura e Conhecimento, Idade Média, Literatura, Maurice Druon,

quinta-feira, 15 de dezembro de 2016

Os Venenos da Coroa. Maurice Druon. «Os bálsamos e os unguentos dos irmãos hospitaleiros queimavam-no como chamas e cada penso constituía uma nova tortura. Ninguém sabia dizer-lhe se a ferida também afectara o osso»

jdact

«(…) Nesse caso prometo oferecer outro tanto a São João Baptista, que deu o nome ao nosso navio, disse então Clemência. E se escaparmos e Deus me fizer a graça de me dar um filho, chamar-lhe-ei João. Mas os nossos reis nunca têm esse nome, senhora, respondeu-lhe Bouville. Será Deus a decidir. Ajoelhou e pôs-se a rezar. Por volta do meio-dia a violência da tempestade começou a diminuir e todos sentiram a esperança renascer. A seguir o Sol rompeu por trás das nuvens. A terra estava à vista. O capitão reconheceu com alegria a costa da Provença e, mais precisamente, quando se aproximaram um pouco, as angras de Cassis. Sentia-se muito orgulhoso de ter sabido manter o navio na sua rota. Espero que penseis fundear o mais depressa possível junto daquela costa, disse Bouville. É a Marselha que devo conduzir-vos, senhor, respondeu o capitão, e de resto já não estamos longe. Seja como for, já não tenho âncoras que cheguem para fundear junto daqueles rochedos. Um pouco antes do pôr do Sol, o San Giovanni, movido pelos remos, apresentou-se na embocadura do porto de Marselha. Uma embarcação foi lançada ao mar para prevenir as autoridades comunais e para mandar descer a corrente de ferro que fechava a entrada do porto, entre a Torre de Malbert e o Forte de São Nicolau. Pouco depois apresentaram-se no navio o governador, almotacéis e prud’hommes (membros de um tribunal electivo composto em número igual de representantes dos assalariados e dos patrões e cujo papel é dirimir os conflitos individuais do trabalho), curvados sob o forte mistral, para receber a sobrinha do seu suserano, já que na altura Marselha era uma possessão dos angevinos de Nápoles.
No cais, os operários das salinas, os pescadores, os fabricantes de remos e de mastros, os calafates, os cambistas, os mercadores da judiaria, os empregados dos bancos de Génova e de Siena, contemplavam estupefactos o enorme navio sem velas, sem mastro, em evidente mau estado, mas cujos marinheiros dançavam sobre o convés gritando que se tratara de um milagre. Os cavaleiros napolitanos e as damas de companhia tratavam de pôr ordem nas toilettes. O conde de Bouville, que emagrecera várias libras e parecia dançar na roupa, proclamava aos que o ouviam a eficácia da sua promessa. Parecia achar que todos os que se encontravam a bordo deviam a vida à sua piedosa iniciativa. Senhor Hugo de Bouville, disse-lhe Guccio com uma ponta de malícia, ao que sei, não há tempestade em que ninguém faça pelo menos uma promessa como a vossa. Como explicar nesse caso que tantos navios acabem por se afundar? Isso acontece sem dúvida por se encontrar a bordo algum incréu como vós, respondeu com um sorriso o antigo camareiro-mor.
Guccio foi o primeiro a pôr pé em terra. Quase se atirou da escada, para mostrar a sua coragem e agilidade. No entanto, os que o olhavam depressa o ouviram dar um grito. Ao fim de vários dias sobre um soalho movediço, não estava preparado para pôr o pé em terra firme. Escorregou na pedra viscosa e caiu à água. Por pouco não foi esmagado entre o casco e o cais. Por instantes, a água ficou vermelha à sua volta. Na queda, fora apanhado por um gancho de ferro. Tiraram-no da água quase desmaiado, a sangrar, com a coxa rasgada até ao osso. Foi assim transportado ao hospital.

O hospital
A grande sala destinada aos homens era do tamanho da nave de uma catedral. Ao fundo havia um altar, onde todos os dias eram celebradas quatro missas, as vésperas e o ofício da tarde. Os doentes privilegiados ocupavam uma espécie de alvéolos metidos nas paredes e a que se chamava quartos de recomendação, os restantes ficavam em camas para dois: os pés de um junto da cabeça do outro. Os irmãos hospitaleiros, com longas vestes escuras, passavam constantemente entre as camas, tanto para ir cantar os ofícios como para dispensar cuidados aos doentes ou servir as refeições. O culto misturava-se com a terapêutica: os estertores respondiam aos versículos dos salmos, o perfume do incenso não bastava para disfarçar o cheiro cruel da febre e da gangrena. A morte oferecia-se em espectáculo público. As inscrições à volta das paredes em grandes letras góticas convidavam os doentes a preparar-se para a morte, e não para a cura.
Era aí que se encontrava Guccio há quase três semanas, numa alcova, a transpirar com o calor sufocante do Verão, que tornava o sofrimento mais esgotante e o internamento mais sinistro. Via com tristeza os raios de sol que atravessavam as janelas altas e vinham projectar manchas de ouro no cenário desolador. Não podia fazer o menor movimento sem um gemido. Os bálsamos e os unguentos dos irmãos hospitaleiros queimavam-no como chamas e cada penso constituía uma nova tortura. Ninguém sabia dizer-lhe se a ferida também afectara o osso, mas Guccio estava certo de que o mal não estava apenas na carne, porque sempre que lhe apalpavam a perna ou os rins quase se sentia desmaiar». In Maurice Druon, Os Reis Malditos, Os Venenos da Coroa, 1956, tradução de Helena Ramos, colecção Cavalo de Tróia, Gótica, 2006, ISBN 972-792-165-5.

Cortesia de Gótica/JDACT

segunda-feira, 7 de março de 2016

Os Venenos da Coroa. Maurice Druon. «O perigo oferece a melhor ocasião para nos tornarmos íntimos dos grandes, dizia a si mesmo. Se acabarmos por nos afundar e por morrer todos, não será desfazermo-nos em lamentações…»

jdact

A França esperava uma rainha. Adeus a Nápoles
«(…) Agarrado a um cabo, com o crucifixo na mão, ouvia confissões apressadas e distribuía absolvições. A agulha de marear já não servia para nada, uma vez que era sacudida em todas as direcções pela pouca água que restava na caixa onde flutuava. O capitão, um latino ardente, rasgara as vestes até ao ventre em sinal de desolação, e todos o ouviam gritar, entre duas ordens: Senhor, ajuda-me! No entanto, parecia conhecer bem o ofício e procurava evitar o pior. Mandara trazer os remos, tão longos e pesados que eram precisos sete homens para os manobrar. Para segurar a cana do leme colocara doze marinheiros, seis de cada lado. Contudo, num momento de mau humor, no início da borrasca, o conde de Bouville, chegara a gritar-lhe: ei, mestre marinheiro! É assim que sacodis a princesa prometida ao meu rei? O vosso navio deve estar mal carregado para rebolarmos desta maneira, e vós não sabeis navegar! Se não vos apressais a mostrar que sabeis fazer melhor, à chegada apresentarei queixa às autoridades do vosso ofício e vós ireis aprender navegação nos bancos de uma galera... Mas a sua cólera depressa se desvanecera. O antigo camareiro-mor acabara por vomitar sobre os tapetes do Oriente, imitando nisso, de resto, quase toda a escolta. De rosto pálido, e ensopado da ponta dos cabelos até aos dedos dos pés, o pobre gordo, convencido de estar prestes a entregar a alma ao Criador de cada vez que uma vaga levantava o navio, gemia entre dois soluços que não voltaria a ver a família e que não pecara assim tanto na sua vida que merecesse sofrer daquela maneira.
Guccio, pelo contrário, mostrava-se de uma valentia extraordinária. Com a cabeça lúcida e os pés ágeis, tomara a seu cargo a tarefa de acomodar melhor as suas arcas, especialmente as que transportavam dinheiro. Nos momentos de relativa acalmia, corria a levar um copo de água à princesa ou então espalhava essências à volta dela, para disfarçar com isso o mau cheiro resultante da indisposição dos companheiros de viagem. Há um certo tipo de homens, sobretudo de jovens, que se comportam instintivamente de maneira a justificar o que esperam deles. São olhados com certo desprezo! Há grande probabilidade de que se comportem de forma desprezível? Pelo contrário, pressentem à sua volta a estima e a confiança dos demais? Nesse caso ultrapassam-se a si mesmos e, mesmo que morram de medo, como todos os outros, comportam-se como heróis. Guccio Baglioni era um destes homens. Uma vez que dona Clemência tinha uma maneira de tratar as pessoas, pobres ou ricas, grandes senhores ou plebeus, que as honrava a todas, e além disso testemunhava uma cortesia especial em relação a este homem, que fora um pouco o mensageiro da sua felicidade, junto dela Guccio tornava-se um cavalheiro e comportava-se de forma mais orgulhosa que qualquer um dos fidalgos. Toscano, e por isso capaz de qualquer proeza para brilhar aos olhos de uma mulher, não deixava por isso de ser banqueiro de alma e coração, e jogava com o destino como outros jogam com os câmbios.
O perigo oferece a melhor ocasião para nos tornarmos íntimos dos grandes, dizia a si mesmo. Se acabarmos por nos afundar e por morrer todos, não será desfazermo-nos em lamentações, como Bouville, que mudará a nossa sorte, mas, se escaparmos, terei conquistado a estima da rainha de França. Ser capaz de pensar desta maneira num momento de perigo já era uma prova de coragem, mas nesse Verão, Guccio sentia-se invencível: amava e sabia-se amado. Assegurava assim à princesa, contra todas as indicações, que o tempo já começara a levantar e, quando o navio gemia com mais desespero, que se tratava da mais sólida das embarcações, e contava como escapara ileso de uma tempestade mais impressionante sobre o canal da Mancha. Fui levar à rainha Isabel uma mensagem do conde de Artois… A princesa Clemência comportava-se igualmente de forma exemplar. Refugiada no paraíso (paradis, compartimento de nível constante), uma imensa câmara preparada para os hóspedes reais no castelo de popa, exortava à calma as suas damas de companhia, que, como um rebanho de borreguinhas assustadas, baliam e se agarravam às paredes do navio a cada vaga violenta. Clemência não teve uma única palavra para se lamentar quando lhe anunciaram que as suas arcas de jóias e vestidos tinham sido lançadas pela borda fora.
Teria dado o dobro, disse apenas, para que os nossos bravos marinheiros não tivessem sido atingidos pelo mastro. Sentia-se menos impressionada pela tempestade que pelo sinal que aí lia. Ora aí está. Este casamento era bom de mais para mim, pensava. Fui exageradamente dominada pela alegria e pequei por orgulho. Deus vai fazer-me naufragar porque não mereço ser rainha. Na quinta manhã da abominável travessia, a princesa, numa altura em que o vento parecia ter acalmado um pouco, embora nem por isso o mar se mostrasse mais tranquilo, observou o gordo Bouville, descalço, vestido apenas com uma túnica, com os cabelos em desalinho, de joelhos, braços em cruz, na ponte do navio. Que fazeis aí, senhor?, gritou-lhe. Faço como o nosso rei São Luís, senhora, quando por pouco não naufragou ao largo de Chipre. Prometeu levar uma naveta de cinco marcos de prata a São Nicolau de Varengeville, se Deus o levasse de volta a França. Foi o senhor de Joinville que o contou». In Maurice Druon, Os Reis Malditos, Os Venenos da Coroa, 1956, tradução de Helena Ramos, colecção Cavalo de Tróia, Gótica, 2006, ISBN 972-792-165-5.

Cortesia de Gótica/JDACT

A Loba de França. 1323-1328. Maurice Druon. «Quem está contigo? Ogle. Diz-lhe que pegue numa maça, numa cunha, numa alavanca, e façam saltar a pedra. Vou com ele e volto já. Os dois homens afastaram-se»

jdact

«(…) É tolice infantil dar importância a tal coisa, dizia consigo mesmo Rogério, o Jovem. Vou mas é preparar-me. A hora aproxima-se. Contudo, sentia-se dominado por um mau pressentimento. O estranho silêncio que há instantes se instalara na Torre veio distraí-lo dos seus pensamentos. Do refeitório já não vinha qualquer barulho. As vozes dos bebedores deixaram de se ouvir, bem como o barulho dos pratos e dos pichéis. O único ruído que chegava à cela era o latido de um cão algures nos jardins e o grito distante de um marinheiro no Tamisa… Teria a conjura de Alspaye sido descoberta? Seria o silêncio na fortaleza o resultado do estupor que responde invariavelmente à descoberta das grandes traições? Com o rosto encostado às grades, o prisioneiro continha a respiração e procurava distinguir o que se passava nas sombras, bem como os mais insignificantes ruídos. Um besteiro atravessou o pátio com passo incerto, foi vomitar contra um muro, deixou-se cair no chão e já, não se levantou. Mortimer conseguia distinguir a sua forma imóvel na erva. As primeiras estrelas começavam a surgir no céu. Seria uma noite de luar. Mais dois soldados saíram do refeitório agarrados ao ventre e vieram cair junto de uma árvore. A bebedeira que traziam não era vulgar. Atingia os homens como o golpe de um bastão. Mortimer de Wigmore procurou as botas às apalpadelas, num canto da cela, e enfiou-as. Não teve dificuldade em fazê-lo, uma vez que perdera muito peso. Que estás a fazer, Rogério?, perguntou Mortimer Chirk. Estou a preparar-me, tio. Está quase na hora. O nosso amigo Alspaye parece ter feito as coisas como deve ser. A Torre afigura-se morta. É verdade que não nos trouxeram a segunda refeição, observou o velho lorde com uma ponta de inquietação. Rogério Mortimer enfiou a camisa nas bragas e apertou o cinturão à volta da cota de malha. A sua roupa estava velha, esfarrapada, uma vez que nos últimos dezoito meses lhe tinham recusado qualquer outra. Continuava a usar o uniforme de combate, tal como o haviam aprisionado quando lhe tiraram a armadura amolgada, ferindo-lhe o lábio inferior com a babeira. Se conseguires, ficarei só, e será sobre mim que se vingarão disse ainda lorde Chirk.
Havia muito de egoísmo na vã obstinação do velho em evitar que o sobrinho se evadisse. Escutai, tio. Vem aí alguém. Desta vez levantai-vos. Os passos aproximavam-se ecoando nas lajes de pedra. Uma voz chamou: Senhor! És tu, Alspaye? Sim, lorde Mortimer, mas não tenho a chave. O vosso carcereiro, com a bebedeira, perdeu a bolsa e agora, no estado em que se encontra, ninguém consegue nada dele. Já procurei por toda a parte. Do catre onde descansava lorde Chirk veio um risinho de troça. O jovem Mortimer desabafou com um palavrão. Estaria Alspaye a mentir? Teria ficado com medo à última hora? Mas nesse caso porque viera? Ou tratar-se-ia de um acaso absurdo, um desses acasos que o prisioneiro toda a tarde se esforçara por imaginar e que acabara por se materializar daquela forma? Quanto tempo temos? Só daqui a uma boa meia hora é que as sentinelas devem notar alguma coisa. Também beberam muito antes de começarem o turno de guarda. Quem está contigo? Ogle. Diz-lhe que pegue numa maça, numa cunha, numa alavanca, e façam saltar a pedra. Vou com ele e volto já. Os dois homens afastaram-se. Rogério Mortimer media o tempo pelas batidas do próprio coração. Uma chave perdida! E agora bastava que uma sentinela, por uma razão qualquer, abandonasse o posto para que tudo falhasse... O próprio lorde Chirk aguardava ansiosamente em silêncio. A sua respiração oprimida ouvia-se ao fundo do calabouço. Em breve um raio de luz passou por baixo da porta. Alspaye regressara com o barbeiro, que trazia a candeia e as ferramentas. Os dois atiraram-se à pedra em que a lingueta penetrava mais de duas polegadas. Procuravam não fazer barulho, mas todos tinham a impressão que o eco se espalhava por toda a fortaleza. As lascas de pedra caíam no chão. Finalmente a ombreira cedeu e a porta abriu-se. Depressa, lorde Mortimer, disse Alspaye. O seu rosto rosado, iluminado pela candeia, estava coberto de suor. As mãos tremiam-lhe. Rogério Mortimer Wigmore aproximou-se do tio e debruçou-se sobre ele. Não, meu rapaz. Vai tu sozinho, disse Mortimer Chirk. Tens de conseguir. Que Deus te proteja. E não queiras mal à minha velhice». In Maurice Druon, Os Reis Malditos, A Loba de França, 1965, tradução de Helena Ramos, Círculo de Leitores, 2006, ISBN 978-972-42-3862-3.

Cortesia de CLeitores/JDACT

quinta-feira, 17 de dezembro de 2015

Os Venenos da Coroa. Maurice Druon. «Poucos dias mais tarde, a San Giovanni já não passava de uma carcaça só com metade dos mastros, a gemer e a fugir das rajadas, a rebolar entre vagas gigantescas, e que o capitão mantinha com dificuldade no que imaginava ser a direcção da costa de França»

jdact

A França esperava uma rainha. Adeus a Nápoles
«(…) Obrigada, minha avó, pensava ela de olhos voltados para a janela onde Maria da Hungria desaparecera instantes antes. Sem dúvida não voltarei a ver-vos. Obrigada por tudo o que fizestes por mim. Aos vinte e dois anos sentia-me desolada por ainda não ter encontrado marido. Já, não tinha esperança de vir a casar e preparava-me para entrar num convento. Fostes vós que tivestes razão para me pedir paciência. E agora vou ser rainha de um reino atravessado por quatro grandes rios e banhado por três mares. O meu primo o rei de Inglaterra, a minha tia de Maiorca, o meu parente da Boémia, a minha irmã delfina do Vienne, e mesmo o meu tio Roberto, que reina aqui e de quem até hoje fui súbdita, tornar-se-ão meus vassalos pelas terras que têm em França ou pelos seus laços com a coroa. Não será tudo isto demasiado pesado para mim? Sentia ao mesmo tempo a exaltação da alegria, a angústia do desconhecido e a perturbação de que é tomada a alma com as mudanças irrevogáveis do destino, mesmo quando ultrapassam o que nos mostravam os nossos sonhos. O vosso povo mostra que vos ama, senhora, disse um homem corpulento que apareceu ao seu lado. Mas estou certo de que em breve o povo de França vos amará igualmente e de que bastará olhar-vos para vos oferecer uma recepção semelhante a este adeus.
Ah! Nunca deixarei de ter em vós um amigo, senhor de Bouville!, respondeu Clemência calorosamente. Tinha necessidade de espalhar a felicidade à sua volta e de agradecer a todos os que a rodeavam. O conde de Bouville, enviado do rei Luís X, e que conduzira as negociações, regressara a Nápoles duas semanas antes para vir buscar a princesa e acompanhá-la a França. E também vós, senhor Baglioni, sois meu amigo, acrescentou, voltando-se para o jovem toscano que servia de secretário a Bouville e tomava conta dos dinheiros da expedição, emprestados pelos banqueiros italianos. O jovem inclinou-se, para agradecer o cumprimento. E na verdade nessa manhã todos se sentiam felizes. Hugo de Bouville, a transpirar um pouco sob o calor de Junho e escondendo atrás das orelhas as mechas de cabelo grisalho, sentia-se alegre e satisfeito por ter cumprido a sua missão e de levar ao rei tão magnífica esposa.
Guccio Baglioni sonhava com a bela Maria de Cressay, a sua noiva secreta, a quem levava uma arca cheia de sedas e de adornos bordados. Não estava certo de ter agido bem pedindo ao tio Tolomei que o deixasse dirigir a sucursal do banco em Neauphle-le-Vieux. Deveria contentar-se com estabelecimento tão insignificante? Ora, é apenas um começo! Depressa poderei mudar de posição, e passarei a maior parte do meu tempo em Paris. Seguro da protecção da nova soberana, não via limites para a sua ascensão. Via já Maria como dama de companhia da rainha e imaginava-se ele próprio, dali a poucos meses, a ser nomeado para um cargo na casa real… Com o punho sobre a adaga, queixo bem erguido, Guccio via Nápoles estendida à sua frente sob a forte luz do Sol. Dez galeras escoltaram o navio até ao mar alto. Os napolitanos viram afastar-se e depois diminuir de tamanho aquela fortaleza branca que singrava sobre as águas.

A França esperava uma rainha. A tempestade
Poucos dias mais tarde, a San Giovanni já não passava de uma carcaça só com metade dos mastros, a gemer e a fugir das rajadas, a rebolar entre vagas gigantescas, e que o capitão mantinha com dificuldade no que imaginava ser a direcção da costa de França. Por altura da Córsega, o navio vira-se envolvido por uma daquelas tempestades tão bruscas como violentas que por vezes ocorrem no Mediterrâneo. Perdera seis âncoras a tentar fundear contra o vento ao largo da costa da ilha de Elba, e só por pouco não fora atirado contra os rochedos. E depois retomara a corrida, por entre verdadeiras muralhas de água. Um dia, uma noite e ainda outro dia continuou aquela navegação pelos infernos. Vários marinheiros foram feridos ao tentar arriar o que ainda restava do velame. As vigias dos castelos tinham desabado com toda a sua carga de pedras destinadas aos piratas. Foi necessário abrir caminho a golpes de machado para libertar os cavaleiros napolitanos que tinham ficado presos pela queda do mastro grande. Todas as arcas de vestidos e de jóias, todas as peças de ourivesaria da princesa tinham sido varridas pelo mar. A enfermaria do cirurgião-barbeiro, no castelo de proa, estava cheia de doentes e de estropiados. O capelão já não podia sequer celebrar a sua missa seca, uma vez que tanto o cibório como o cálice, os livros e os paramentos tinham sido levados por uma vaga». In Maurice Druon, Os Reis Malditos, Os Venenos da Coroa, 1956, tradução de Helena Ramos, colecção Cavalo de Tróia, Gótica, 2006, ISBN 972-792-165-5.

Cortesia de Gótica/JDACT

Os Venenos da Coroa. Maurice Druon. «Com a minha bela Clemência, a virtude voltará a reinar na corte de Paris, disse ainda consigo mesma. Como se de um adeus se tratasse, fez, com a sua mão cinzenta, um sinal da Cruz que atravessou a luminosidade que a rodeava»

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A França esperava uma rainha. Adeus a Nápoles
«(…) O enorme navio que levantara âncora no porto de Nápoles nesse dia, 1 de Junho de 1315, com um sol radioso, representava simultaneamente, aos olhos da rainha de Nápoles, o triunfo da sua política e a melancolia das missões cumpridas. Isto porque para a sua amada Clemência, uma princesa de vinte e dois anos sem qualquer dote territorial e cuja riqueza era constituída apenas pela sua reputação de beleza e de virtude, negociara a mais alta das alianças, o mais prestigiado dos casamentos. Clemência seria rainha de França. Assim, a mais destituída das princesas de Anjou receberia o mais poderoso dos reinos e tornar-se-ia suserana de todos os seus familiares. O seu caso parecia uma ilustração de todos os ensinamentos evangélicos. É verdade que se dizia que o jovem rei de França, Luís X, não era muito sedutor de aspecto nem dos mais dotados quanto ao carácter. E isso que importância tem?! O meu marido, que Deus tenha, era coxo, e nem por isso me dei mal com ele, pensava Maria da Hungria. Além disso não é para sermos felizes que somos rainhas. Havia também, à boca fechada, um certo falatório em relação à morte da rainha Margarida, na prisão, precisamente quando o rei Luís encontrava dificuldades em obter a anulação do casamento. Mas para quê dar ouvidos a tudo o que se diz? Maria da Hungria não se sentia inclinada à compaixão por uma mulher, ainda por cima uma rainha, que traíra os laços conjugais. Não via nada de surpreendente em que o castigo de Deus se tivesse abatido naturalmente sobre a escandalosa Margarida.
Com a minha bela Clemência, a virtude voltará a reinar na corte de Paris, disse ainda consigo mesma. Como se de um adeus se tratasse, fez, com a sua mão cinzenta, um sinal da Cruz que atravessou a luminosidade que a rodeava. Em seguida, com o rosto sacudido por tiques sob o véu imaculado, com o andar rígido, mas ainda decidido, foi encerrar-se na capela para aí agradecer ao Céu tê-la ajudado a cumprir a sua demorada missão real e para oferecer ao Senhor o longo sofrimento das mulheres que cumpriram o seu tempo sobre a Terra. Entretanto, o San Giovanni, um enorme veleiro com casco branco e dourado e arvorando nas velas as flâmulas de Anjou, da Hungria e de França, começava a manobrar para se afastar do porto. O capitão e os tripulantes tinham jurado sobre o Evangelho defender os seus passageiros contra a tempestade, os piratas do Norte de África e todos os perigos da navegação. A imagem de São João Baptista, protector do navio, brilhava à proa sob os raios do Sol. Nos castelos, com seteiras, a meia altura dos mastros, cem homens de armas, vigias, besteiros, lançadores de pedras, estavam a postos para repelir os piratas, se por acaso estes se atrevessem a atacar o navio. Os porões transbordavam de víveres. As ânforas de azeite e de vinho estavam enterradas na areia do lastro, onde tinham sido igualmente enterrados centenas de ovos para que se conservassem frescos. As grandes arcas onde eram transportados os vestidos de seda, as jóias e outros objectos preciosos e todas as prendas de casamento da princesa estavam empilhadas contra as paredes de uma enorme sala apertada entre o mastro principal e a popa, e onde dormiriam, sobre tapetes do Oriente, os fidalgos e os cavaleiros de escolta.
Os napolitanos acotovelavam-se no cais para ver partir aquele que lhes parecia o navio da felicidade. As mulheres erguiam os filhos acima das cabeças. Entre a multidão, ruidosa e familiar, como o povo de Nápoles sempre foi, ouvia-se gritar: Guarda comè bella! Addio, Donna Clemenza! Siate felice! Che Dio la benedica la nostra principessa! Non vi dimenticate di noi! (Vejam como é bela! Adeus senhora Clemência! Que sejais feliz! Que Deus abençoe a nossa princesa! Não nos esqueçais!) Isto porque para os napolitanos dona Clemência era uma espécie de lenda. Na cidade, o seu pai continuava a ser recordado, o belo Carlos Martel, herdeiro de Nápoles e da Hungria, amigo de poetas e, em particular, de Dante, príncipe erudito, músico, excelente no uso das armas, que percorria a península, seguido de duzentos fidalgos franceses, provençais e italianos, todos vestidos como ele, de escarlate e de um verde sombrio, e montados em cavalos com arreios de prata. Diziam-no filho de Vénus, já que era possuidor dos cinco dons que convidam ao amor, e que são a saúde, a beleza, a opulência, o lazer e a juventude. Fora fulminado pela peste, aos vinte e quatro anos. A mulher, uma princesa de Habsburgo, morrera ao saber a notícia, oferecendo assim um mito trágico à imaginação popular.
Nápoles passara a dedicar a sua ternura a Clemência, que ao crescer se ia assemelhando cada vez mais ao pai. Esta órfã da família real era muito querida nos bairros mais pobres, onde ia pessoalmente distribuir as suas esmolas. Os pintores da escola de Giotto reproduziam nos frescos o seu rosto sereno, os seus cabelos dourados e as suas longas mãos delicadas. Do alto da plataforma formada pelo tecto do castelo de popa, trinta pés acima da água, a noiva do rei de França lançava um último olhar à paisagem da sua infância, ao velho Castel dell’Ovo, onde nascera, ao Castel Nuovo, ao Maschio Angioino, onde crescera, à multidão irrequieta, que lhe atirava beijos, a toda aquela cidade deslumbrante, poeirenta e sublime». In Maurice Druon, Os Reis Malditos, Os Venenos da Coroa, 1956, tradução de Helena Ramos, colecção Cavalo de Tróia, Gótica, 2006, ISBN 972-792-165-5.

Cortesia de Gótica/JDACT

quinta-feira, 5 de novembro de 2015

Os Reis Malditos. O Rei de Ferro. Maurice Druon. «Isabel conservava-se pensativa diante daquele furacão de palavras. D'Artois aproximou-se dela e, baixando a voz: Elas vos odeiam. É verdade que, de minha parte, não gostei muito delas, desde o princípio…»

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A Maldição. A rainha sem amor
«(…) Isabel teve uma expressão decepcionada. Roberto d'Artois adiantou-se ao que ela ia dizer, estendendo os braços. Esperai, esperai, disse ele. Isso não é tudo. A honesta, a pura, a casta Margarida mandou arranjar um aposento na velha torre do Palácio de Nesle a fim, disse ela, de lá recolher-se para fazer suas orações. Acontece porém que ela faz suas orações exactamente nas noites em que vosso irmão Luís está ausente. E a luz brilha ali até bem tarde. Sua prima Branca, às vezes sua prima Joana, vão ter com ela. Espertas, as donzelas! Se alguma fosse interrogada, não lhe custaria nada dizer: Como? De que me acusais? Mas eu estava com a outra. Uma mulher culpada defende-se mal. Três devassas obstinadas são uma fortaleza. Entretanto, vede bem: nas mesmas noites em que Luís está ausente, nas mesmas noites em que a Torre de Nesle tem luz, naquela ribanceira ao pé da torre, naquele lugar sempre deserto há movimento. Já se viu saírem homens que não estavam vestidos de frades e que, se tivessem vindo cantar o ofício da tarde, teriam entrado por outra porta. A corte cala-se, mas o povo começa a murmurar, porque os criados tagarelam antes dos senhores... Falando, ele se agitava, gesticulava, caminhava, abalava o chão, e sacudia o ar com grandes movimentos de sua capa. A exibição de excesso de força era, em Roberto d'Artois, uma forma de persuasão. Procurava convencer tanto com os músculos quanto com as palavras, e encerrava seu interlocutor num turbilhão. E a grosseria de sua linguagem, tão de acordo com o seu aspecto, dava a impressão de ser a prova de uma rude boa fé.
Entretanto, observando-o mais de perto era possível pensar se todo aquele movimento não seria alarde de pelotiqueiro, ou representação de comediante. Um ódio atento, tenaz, luzia nos olhos cinzentos do gigante. E a jovem rainha esforçava-se por conservar-se senhora de si. Falastes nisso com meu pai?, disse ela. Minha boa prima, conheceis o rei Filipe melhor do que eu. Acredita tanto na virtude das mulheres que seria preciso mostrar-lhe vossas cunhadas deitadas com os seus amantes para convencê-lo a ouvir-me. E eu não sou muito bem-visto na corte, desde que perdi meu processo... Sei, meu primo, que foram injustos convosco, e se dependesse só de mim essa injustiça seria reparada. Roberto d'Artois precipitou-se para a mão da rainha, pousando ali os lábios, num grande ímpeto de gratidão. Mas justamente por causa desse processo, recomeçou docemente Isabel, não poderiam julgar que estais agindo por vingança? O gigante levantou-se de um salto. Mas está claro, senhora, que estou sendo instigado pelo desejo de vingança!
Decididamente era desarmante, aquele grande Roberto! Pensava-se em armar-lhe um laço, apanhá-lo em flagrante, e ele se abria, inteiramente, como uma janela. Roubaram-me a herança do meu condado de Artois, exclamou ele, para dá-lo à minha tia Mafalda de Borgonha..., a cadela, a rameira! Que ela rebente! Que a lepra lhe coma a boca! Que o peito lhe caia em podridão! E por que fizeram isso? Porque, à força de engodar, de intrigar, de forrar as mãos dos conselheiros de vosso pai com belas libras sonantes, ela conseguiu casar com vossos irmãos aquelas duas devassas que são suas filhas, e a outra devassa, que é sua prima. Começou então a imitar um discurso imaginário de sua tia Mafalda, condessa da Borgonha e de Artois, dirigindo-se ao rei Filipe, o Belo: Meu caro senhor, meu parente, meu compadre, e se casásseis minha querida Joana com vosso filho Luís? Não? Ele não quer? Acha que ela é um tantinho enfezada? Pois bem: dai-lhe Margarida, então, e depois dai Joana a Filipe, e minha doce Branca ao vosso belo Carlos. Que prazer, vê-los enamorar-se uns dos outros! E depois, se me concederem o Artois, que era propriedade de meu defunto irmão, meu Franco-Condado da Borgonha irá para aquelas pombinhas. Meu sobrinho Roberto? Que lhe deem um osso àquele cão! O Castelo de Conches, o condado de Beaumont bastam para tal labrego. E eu sopro minhas malícias nas orelhas de Nogaret, e mando mil maravilhas a Marigny..., e caso uma, e caso duas, e caso três. E mal isso se faz, minhas loureirazinhas começam as suas combinações, seus recadinhos, arranjam amantes, e se ocupam em cornear muito bem a coroa da França...
Ah!, se fossem irrepreensíveis, senhora, eu saberia roer meu freio. Mas comportarem-se assim com tamanha baixeza, depois de me terem prejudicado tanto, as meninas da Borgonha hão de saber quanto isso lhes custará, e eu me vingarei nelas de tudo quanto me fez a mãe (O caso da sucessão do Artois é um dos mais prodigiosos dramas de herança que a história regista; em 1237, São Luís dera o condado pariato do Artois, como apanágio, a seu irmão Roberto. Esse Roberto I d'Artois teve um filho, Roberto II, que se casou com Amicie de Courtenay, dama de Conches. Teve dois filhos: Filipe, morto em 1298 de ferimentos recebidos na Batalha de Furnes, e Mafalda, que se casou com Othon, conde palatino da Borgonha; por morte de Roberto II, ocorrida em 1302, na Batalha de Courtray, ferido por trinta golpes de pique, a herança do condado foi reclamada ao mesmo tempo por seu neto Roberto III (filho de Filipe) e por sua filha Mafalda, que invocava uma disposição do direito consuetudinário do Artois; Filipe, o Belo, em 1309, resolveu a pendência em favor de Mafalda; esta, tornada regente do condado da Borgonha pela morte de seu marido, nesse meio tempo casara as suas duas filhas, Joana e Branca, com o segundo e o terceiro filhos de Filipe, Filipe e Carlos; a decisão que a favoreceu foi grandemente inspirada por essas alianças, que traziam novamente para a coroa o condado da Borgonha, chamado Franco-Condado, entregue como dote a Joana; Roberto não se deu por vencido, e durante vinte anos, com obstinação rara, através de acções jurídicas ou por acção directa, manteve contra a tia uma luta em que todos os processos foram utilizados de parte a parte, delacção, calúnia, falsificações, feitiçaria, envenenamento, agitação política; tal luta terminou tragicamente para Mafalda, tragicamente para Roberto, tragicamente para a França e tragicamente para a Inglaterra).
Isabel conservava-se pensativa diante daquele furacão de palavras. D'Artois aproximou-se dela e, baixando a voz: Elas vos odeiam. É verdade que, de minha parte, não gostei muito delas, desde o princípio, e sem saber por quê, disse Isabel. Não gostais delas porque são falsas, porque não pensam senão no prazer e não têm o senso de seus deveres. Mas elas vos odeiam porque têm ciúmes de vós. Minha sorte, entretanto, nada tem de invejável, disse Isabel, suspirando, e o lugar delas parece-me mais doce do que o meu. Vós sois uma rainha, senhora. Vós o sois na alma e no sangue. Vossas cunhadas poderão usar a coroa, mas nunca serão rainhas. E é por isso que sempre vos tratarão como inimiga. Isabel levantou para seu primo os belos olhos azuis, e d'Artois sentiu que dessa vez acertara. Isabel estava definitivamente de seu lado. Tendes os nomes de..., enfim..., dos homens com os quais minhas cunhadas..., disse ela». In Maurice Druon, Os Reis Malditos, O Rei de Ferro I, 1965, tradução de Nair Lacerda, Gótica, colecção Cavalo de Tróia, 2006, ISBN 978-972-792-159-1.

Cortesia Gótica/JDACT

terça-feira, 3 de novembro de 2015

Os Reis Malditos. O Rei de Ferro. Maurice Druon. «… e sentou-se, a cavaleiro, sobre o pé do gigante. Este levantou-o no ar por três ou quatro vezes. Encantado com aquela brincadeira, o principezinho ria. Ah! Messire Eduardo!, disse Roberto d'Artois…»

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A Maldição. A rainha sem amor
«(…) Aquele gigante contava vinte e sete anos, mas sua idade desaparecia sob os músculos, e poderiam bem dar-lhe uns trinta e cinco. Tirou as luvas, dirigindo-se para a rainha, pôs um joelho em terra, com flexibilidade surpreendente em tal colosso, e levantou-se, antes que ela tivesse tempo de convidá-lo a isso. Então, senhor meu primo, disse Isabel, fizestes boa travessia marítima? Execrável, senhora. Horrível, respondeu Roberto d'Artois. Uma tempestade que nos obrigava a vomitar as tripas e a alma. Pensei que minha última hora tivesse chegado, e até comecei a confessar a Deus os meus pecados. Por felicidade eram tantos que, mal alcançara a metade, já havíamos chegado. Guardei o suficiente para a volta. Desatou a rir, fazendo os vitrais estremecerem. Mas, com os demónios, tenho mais jeito para correr terras do que para cavalgar a água salgada. E se não fosse por amor de vós, senhora minha prima, e pelas coisas urgentes que tenho a dizer-vos... Haveis de permitir que eu acabe, meu primo, disse Isabel, interrompendo-o. E mostrou-lhe o menino. Meu filho começou a falar hoje. Depois, voltando-se para lady Mortimer: Desejo que ele se habitue com o nome dos parentes, e que saiba, desde que seja possível, que seu avô Filipe, o Belo, é o rei da França. Começai a dizer diante dele o pai-nosso e a avé-maria, e também a prece ao Senhor São Luís. São coisas que devem ser instaladas no coração antes mesmo que a razão as compreenda.
Ela não estava descontente por mostrar a um de seus parentes da França, também descendente de um irmão de São Luís, de que maneira velava pela educação de seu filho. É belo o ensino que ides dar a este jovem, disse Roberto d'Artois. Nunca é cedo demais para aprender a reinar, respondeu Isabel. Sem desconfiar de que era dela que se tratava, a criança divertia-se a caminhar, em passos cheios de precaução e titubeantes, como fazem os bebés. Quando se pensa que também fomos assim!, disse d'Artois. Olhando-vos, então, meu primo, disse a rainha, sorrindo, custa bastante crer, é verdade. Por um instante, ela pensou no sentimento que poderia ter a mulher que engendrara aquela fortaleza humana, e no sentimento que ela própria teria quando seu filho se tornasse um homem... A criança avançava para a lareira com a mão estendida, como se pretendesse agarrar uma chama na sua mão minúscula. Roberto d'Artois cortou-lhe o caminho, pondo de permeio sua bota vermelha. Sem mostrar o  menor receio, o principezinho agarrou aquela perna, que mal podia rodear com seus braços, e sentou-se, a cavaleiro, sobre o pé do gigante. Este levantou-o no ar por três ou quatro vezes. Encantado com aquela brincadeira, o principezinho ria.
Ah! Messire Eduardo!, disse Roberto d'Artois. Ousarei eu, mais tarde, quando fordes um príncipe poderoso, lembrar-vos que cavalgastes na minha bota? Sim, meu primo, respondeu Isabel, se vos mostrardes sempre nosso amigo leal... Que nos deixem, agora, acrescentou ela. As damas francesas saíram, levando a criança que, se o destino seguisse normalmente seu o curso, se tornaria um dia o Rei Eduardo III da Inglaterra. Roberto d'Artois esperou que se fechasse a porta. Pois bem, senhora, disse ele, para completar as boas lições que mandais dar ao vosso filho, podeis, bem depressa, ensinar-lhe que Margarida de Borgonha, rainha de Navarra, futura rainha da França, também neta de São Luís, será chamada, por seu povo, Margarida, a Prostituta. Realmente?, perguntou Isabel. Então, o que pensávamos era verdade? Sim, minha prima. E não somente no que se refere a Margarida. O mesmo se dá com as vossas outras duas cunhadas. Quê? Joana e Branca? Branca, eu tenho certeza. Joana... Roberto d'Artois, com sua mão imensa, fez um gesto de incerteza. Ela é mais hábil do que as outras, acrescentou ele. Mas tenho todas as razões para acreditar que seja também uma refinada meretriz. Deu três passos e, tomando uma atitude altiva, declarou: Vossos três irmãos são cornu…, senhora, cornu… como qualquer labrego!
A rainha levantou-se. Suas faces mostravam-se um tanto coloridas. Se o que dizeis é verdade, eu não tolerarei tal coisa, disse ela. Não tolerarei essa vergonha e nem que minha família seja objecto de risos. Os barões da França também não o suportarão, retrucou d'Artois. Tendes os nomes, as provas? Roberto d'Artois tomou um grande fôlego. Quando fostes à França no Verão passado, com vosso esposo, para aquelas festas que foram realizadas na ocasião em que tive a honra de ser armado cavaleiro junto com vossos irmãos..., porque bem sabeis que não me poupam as honras que nada custam, comentou ele, com um riso trocista, naquele dia eu vos confiei minhas suspeitas e vós me falastes nas vossas. Pedistes que vigiasse e vos informasse. Sou vosso aliado. Vigiei, e agora venho informar. Então? Que soubestes?, perguntou Isabel, impaciente. Pois bem! Antes de mais nada, que certas jóias desapareciam do cofre de vossa doce, vossa digna, vossa virtuosa cunhada Margarida. Ora, quando uma mulher se desfaz secretamente de suas jóias, ou é para presentear um amante ou para comprar cúmplices. Está claro, não achais? Ela pode dizer que deu esmolas à Igreja. Nem sempre. Quando determinado broche, por exemplo, tiver sido trocado em casa de um mercador lombardo por um punhal de Damasco... E descobristes em que cinto está preso esse punhal? Infelizmente não!, respondeu d'Artois. Procurei, mas perdi a pista. As meretrizes são hábeis, como vos disse. Jamais cacei cervos, em minhas florestas de Conches, tão espertos quanto elas em apagar as pegadas e em tomar atalhos». In Maurice Druon, Os Reis Malditos, O Rei de Ferro I, 1965, tradução de Nair Lacerda, Gótica, colecção Cavalo de Tróia, 2006, ISBN 978-972-792-159-1.

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domingo, 20 de setembro de 2015

O Menino do Polegar Verde. Maurice Druon. «Tistu era um menino esquisito, com um nome esquisito. Recusava-se a aceitar ideias pré-fabricadas pelas pessoas grandes, que simplesmente não sabem, por mais que pretendam, de onde viemos, por que estamos aqui e o que devemos fazer nesse mundo».

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«Tistu é um nome esquisito, que a gente não acha em nenhum calendário, nem do nosso país nem dos outros. Não existe um São Tistu.Mas havia, no entanto, um menino a quem todos chamavam Tistu... E é preciso explicá-lo. Um dia, mal acabava de nascer e parecia um menino bonito bercinho de vime, fora levado à igreja para ser baptizado. Um padrinho de chapéu preto e uma madrinha de mangas compridas declararam ao padre que ele se chamava João Baptista. Nesse dia, como quase todos os bebés em idênticas circunstâncias, o coitadinho protestou, gritou, ficou vermelho de chorar. Mas as pessoas grandes, que não compreendem os protestos dos recém-nascidos e teimam em sustentar as suas ideias pré-fabricadas, garantiram com a maior firmeza que o menino se chamava mesmo João Baptista.
Mas em seguida, mal a madrinha de manga comprida e o padrinho de chapéu preto o recolocaram no berço, deu-se um facto curioso: as pessoas grandes já não conseguiam pronunciar o nome que lhe haviam dado, e puseram-se a chamá-lo de Tistu. O facto, aliás, não é tão raro assim. Quantos meninos e meninas foram registados no tabelião ou na igreja com os nomes de José, Maria ou António, e só são chamados de Jucá, Cotinha ou Tônico! Isto prova simplesmente que as ideias pré-fabricadas são ideias mal fabricadas, e que as pessoas grandes não sabem mesmo o nosso nome, como também não sabem, por mais que o pretendam, de onde foi que viemos, por que estamos aqui e o que devemos fazer neste mundo.
Esta observação é muito importante e requer ainda algumas explicações. Se só viemos ao mundo para ser um dia gente grande, logo as ideias pré-fabricadas se alojam facilmente em nossa cabeça, à medida que ela aumenta. Essas ideias, pré-fabricadas há muito tempo, estão todas nos livros. Por isso, se a pessoa se aplica à leitura ou escuta com atenção os que leram muito, consegue ser bem depressa pessoa importante, igual a todas as outras. É bom notar que há ideias pré-fabricadas a respeito de qualquer coisa, o que é bastante prático, permitindo-nos passar facilmente de uma para outra.
Mas, quando a pessoa veio à terra com determinada missão, quando fomos encarregados de executar certa tarefa, as coisas já não são tão fáceis. As ideias pré-fabricadas, que os outros manejam tão bem, recusam-se a ficar na nossa cabeça: entram por um ouvido e saem pelo outro, e vão partir-se no chão. Causamos assim muitas surpresas. Primeiro, aos nossos pais. Depois, a todas as outras pessoas grandes, tão apegadas às suas benditas ideias! E foi justamente o que aconteceu com o garotinho, a quem chamaram Tistu sem consultá-lo.

Os cabelos de Tistu eram louros e crespos na ponta. Como raios de sol que terminassem num pequeno cacho ao tocar na terra. Tistu tinha grandes olhos azuis e faces rosadas e macias. Todas as pessoas o beijavam. Porque as pessoas grandes, sobretudo de nariz grande, rugas na testa e cabelo no ouvido, estão sempre beijando as criancinhas de face macia e rosada. Eles dizem que as crianças gostam, e isto é outra das ideias que inventaram. Porque são eles, os grandes, que gostam, e as crianças de face macia e rosada são muito boazinhas em prestar-se a isso. Todos os que viam Tistu exclamavam: oh!, que garoto bonito! Mas Tistu não ficava vaidoso. A beleza lhe parecia uma coisa inteiramente natural. E até se surpreendia com o facto de todos os homens, todas as mulheres e todas as crianças não serem como seus pais e ele próprio.
Porque os pais de Tistu, é bom dizer logo, eram também muito bonitos. Foi de tanto olhá-los que ele se habituou a pensar que o normal é ser bonito, enquanto o vestir mal de cara, lhe parecia uma excepção e mesmo uma injustiça. O pai de Tistu, que se chamava Sr. Pai, tinha os cabelos negros cuidadosamente fixados com brilhantina; era alto e se vestia com aprumo; não se via grão de poeira na gola do seu casaco, e perfumava-se com água-de-colónia» In Maurice Druon, O Menino do Polegar Verde, 1957, Editora Caravela, 1987, ISBN 978-972-639-004-6.

Cortesia de Caravela/JDACT

De como um Rei Perdeu a França. Maurice Druon. «Nem todos esses soberanos foram águias. Mas quase sempre ao incapaz ou ao infeliz sucede imediatamente, como por uma graça do céu, um monarca de grande estatura; ou ainda um grande ministro governa no lugar de um príncipe fraco»

Cortesia de wikipedia e jdact

«As tragédias da história revelam os grandes homens: mas são os medíocres que provocam as tragédias. No começo do século XIV, a França é o mais poderoso, o de mais densa população, o mais activo, o mais rico dos reinos cristãos, aquele cujas intervenções são temidas, respeitados, a protecção, solicitada. E pode-se pensar que se abre para a Europa um século francês. Que aconteceu, quarenta anos depois, para que esta França fosse esmagada nos campos de batalha por uma nação cinco vezes menos populosa, que sua nobreza se dividisse em facções, que sua burguesia se revoltasse, que seu povo sucumbisse sob o excesso de impostos, que suas províncias se desprendessem umas das outras, que bandos de salteadores se entregassem à devastação e ao crime, que a autoridade fosse escarnecida, a moeda, aviltada, o comércio, paralisado, a miséria e a insegurança se instalassem por toda parte? Por que esta derrocada? O que, afinal, fez regredir o destino? A mediocridade. A mediocridade de alguns reis, a sua vaidade enfatuada, a sua incompetência nos negócios, sua inaptidão para se cercar de assessores competentes, a sua displicência, a sua presunção, a sua incapacidade de conceber grandes intentos ou somente prosseguir naqueles concebidos antes deles.
Nada se realiza de grande, na ordem política, e nada perdura, sem a presença de homens cujo génio, carácter e vontade inspirem as energias de um povo. Tudo se desfaz desde que personagens ineptas se sucedam no topo do Estado. A unidade se desfaz quando a grandeza se desgasta. A França é uma ideia aceita pela história, uma ideia espontânea que, a partir do ano 1000, abriga uma família reinante, e que se transmite tão obstinadamente de pai a filho que a primogenitura no ramo mais antigo toma-se rapidamente uma suficiente legitimidade. O acaso, certamente, tem a sua parte, como se o destino quisesse favorecer, através de uma dinastia robusta, esta recente nação. Da eleição do primeiro Capeto à morte de Filipe, o Belo, onze reis apenas em três séculos e um quarto, e cada um deixando um herdeiro homem. Oh! Nem todos esses soberanos foram águias. Mas quase sempre ao incapaz ou ao infeliz sucede imediatamente, como por uma graça do céu, um monarca de grande estatura; ou ainda um grande ministro governa no lugar de um príncipe fraco.
A extraordinariamente jovem França quase perece nas mãos de Filipe I, homem de pequenos vícios; de vasta incompetência. Sobrevêm então o corpulento Luís VI, infatigável, que encontra, no seu advento, um poder ameaçado a cinco léguas de Paris, e o deixa, ao morrer, restaurado ou estabelecido até aos Pireneus. O inseguro, inconsequente Luís VII lança o reino nas desastrosas aventuras de além-mar; mas o abade Suger mantém, em nome do monarca, a coesão e a actividade do país. E assim a oportunidade da França, oportunidade que se repete, é ter em seguida, repartidos entre o fim do século XII e o começo do XIV, três soberanos de génio ou de excepção, cada qual servido por uma assaz longa permanência no trono, quarenta e três anos, quarenta e um anos e vinte e nove anos, para que o seu intento principal se torne irreversível. Três homens de natureza e de virtudes bem diferentes, mas todos os três acima do comum dos reis.
Filipe Augusto, forjador da história, começa, em torno e além das possessões reais, a confirmar a unidade da pátria. São Luís, iluminado pela piedade, começa a estabelecer, em torno da justiça real, a unidade do direito. Filipe, o Belo, governante superior, começa a impor em volta da administração real a unidade do Estado. Nenhum deles teve o empenho, antes de tudo, de agradar, mas o de ser diligente e eficaz. Cada qual teve que absorver a amarga beberagem da impopularidade. Mas foram mais lamentados após a morte, porque desacreditados, zombados ou odiados enquanto vivos. E, sobretudo, o que tinham desejado começou a existir. Uma pátria, uma justiça, um Estado: os fundamentos definitivos de uma nação. A França, com esses três supremos artesãos da ideia francesa, saíra do tempo das virtualidades. Consciente de si, afirmava-se no mundo ocidental como uma realidade indiscutível e, desde logo, preeminente.
Vinte e dois milhões de habitantes, fronteiras bem guarnecidas, um exército rapidamente mobilizável, feudatários mantidos na obediência, circunscrições administrativas muito bem controladas, estradas seguras, um comércio activo; que outro país cristão pode nesse tempo se comparar com a França e não lhe ter inveja? O povo se queixa, é verdade, sentindo sobre si a mão que julga com firmeza; lamentará muito mais quando for entregue a mãos demasiado frouxas ou muito loucas. Com a morte de Filipe, o Belo, de súbito, a fractura. A longa oportunidade da sucessão está esgotada. Os três filhos do Rei de Ferro desfilam no trono sem deixar descendência masculina. Contamos, precedentemente, os dramas que a corte da França conheceu em torno de uma coroa várias vezes lançada no leilão das ambições». In Maurice Druon, De como um Rei Perdeu a França, 1977, tradução Homero Silveira, Gótica, colecção Cavalo de Tróia, 2007, ISBN 978-972-792-208-6.

Cortesia de Gótica/JDACT

A Flor-de-Lis e o Leão. Os Reis Malditos. Maurice Druon. «As doações haviam sido claramente escritas e enumeradas, o que tranquilizava um pouco João de Hainaut, tio da desposada, a quem ainda eram devidas quinze mil libras da soldada dos seus cavaleiros na campanha da Escócia»

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Os novos reis. O casamento de Janeiro
«(…) Isabel não era a única a quem aquela presença incomodava. João Maltravers, genro de Mortimer, fora o carcereiro do rei caído em desgraça. A sua súbita elevação ao cargo de senescal denunciava com demasiada clareza que os seus serviços o haviam recompensado. Oficialmente, Eduardo II morrera de morte natural, embora ninguém na corre aceitasse essa fábula. O conde de Kent, meio-irmão do rei morto, inclinou-se para o seu primo Pescoço Torcido e sussurrou-lhe: Ao que parece, o regicídio passou a dar direito a um lugar na família. Edmundo de Kent tremia de frio. A cerimónia parecia-lhe demasiado longa, o ritual de Iorque demasiado complicado. Porque não teriam celebrado o casamento na capela da Torre de Londres, ou de outro castelo real qualquer, em vez de transformar a ocasião numa feira? A multidão incomodava-o. E ainda por cima tinha de suportar a presença de Maltravers… Não seria indecente que o homem que despachara o pai estivesse assim presente, e num lugar de honra, no casamento do filho?
Pescoço Torcido, com a cabeça inclinada sobre o ombro direito, enfermidade a que devia o cognome, murmurou: nada como o pecado para facilitar a entrada na nossa casa. O nosso amigo é o primeiro a prová-lo... O nosso amigo, era Mortimer, em relação ao qual os sentimentos dos ingleses se haviam modificado profundamente desde que, há apenas um ano e meio, desembarcara no reino à cabeça do exército da rainha e fora recebido como libertador. No fim de contas, a mão que obedece não é mais feia que a cabeça que comandar, pensava Pescoço Torcido. E Mortimer é sem dúvida mais culpado, e com ele Isabel, que Maltravers. Mas todos nós somos um pouco culpados. Todos contribuímos para destronar Eduardo II. Isto não podia ter acabado de outra maneira.
Entretanto o arcebispo apresentava ao jovem rei três moedas de ouro cunhadas numa face com as armas de Inglaterra e de Hainaut e na outra com um ramalhete de rosas, as flores emblemáticas da felicidade conjugal. Estas moedas eram os bens matrimoniais, símbolos das dotações de rendas, terras e castelos que o marido constituía a favor da mulher. As doações haviam sido claramente escritas e enumeradas, o que tranquilizava um pouco João de Hainaut, tio da desposada, a quem ainda eram devidas quinze mil libras da soldada dos seus cavaleiros na campanha da Escócia. Prosternai-vos, senhora, aos pés de vosso marido, para receber as moedas, disse o arcebispo à recém-casada. Todos os habitantes de Iorque esperavam aquele momento, curiosos de saber se o ritual local seria inteiramente respeitado, se o que era válido para qualquer súbdita o era também para uma rainha.
Ninguém previra que Filipa de Hainaut não só se ajoelharia, mas além disso, num impulso de amor e de gratidão, abraçaria os joelhos daquele que a fizera rainha. A flamenga roliça era capaz de improvisar sob o impulso do amor. Recebeu da turba uma imensa ovação. Estou convencido de que serão felizes, afirmou Pescoço Torcido a João de Hainaut. O povo vai amá-la, disse Isabel a Mortimer, que se aproximara dela. A rainha-mãe sentiu-se ferida; a ovação não era para ela. Agora é Filipa que é rainha, pensava. O meu tempo aqui terminou. Mas talvez agora me calhe a França... Uma semana antes, um ginete com as vestes bordadas com a flor-de-lis estivera em Iorque para a informar de que o seu último irmão, o rei Carlos IV de França, estava a morrer». In Maurice Druon, 1966, Os Reis Inimigos, A Flor-de-Lis e o Leão, tradução de Helena Ramos, Círculo de Leitores, 2007, ISBN 978-972-42-3926-2.

Cortesia de CLeitores/JDACT

A Loba de França. 1323-1328. Maurice Druon. «Ouvia-se o condestável gritar: O prémio do rei! Quem ganhará? Um xelim! Depois, quando o sol começava a baixar, os soldados foram lavar-se nas cisternas, e, mais ruidosos do que pela manhã, comentando suas façanhas ou suas derrotas»

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«(…) Aliás, minhas pernas não me sustentariam, acrescentou ele. Por que não as exercitais um pouco? Saí dessa cama. Além disso, eu vos carregarei, já vos disse.
Isso! Vais carregar-me por cima das muralhas, e depois para a água, eu, que não sei nadar. Vais levar-me a cabeça ao cepo, eis tudo, e a tua também. Deus talvez esteja trabalhando na nossa libertação, e tu vais arruinar tudo com essa loucura em que te obstinas. É sempre assim: a revolta está no sangue dos Mortimer. Lembra-te do primeiro Rogério, filho do bispo e da filha do rei Herfast da Dinamarca. Batera todo o exército do rei da França sob as muralhas de seu castelo de Mortimer-en-Bray. Entretanto, de tal maneira ofendeu o Conquistador, nosso primo, que todas as suas terras e bens lhe foram confiscados... Sentado no escabelo, Rogério, o Jovem, cruzou os braços, fechou os olhos e recostou-se um pouco para apoiar as costas à parede. Era preciso deixar que a invocação diária dos antepassados acabasse, era preciso ouvir pela centésima vez como Ralph, o Barbudo, filho do primeiro Rogério, havia desembarcado na Inglaterra, ao lado do duque Guilherme, e como recebera Wigmore em feudo, e por que, desde então, os Mortimer eram poderosos em quatro condados.
Do refeitório vinham as canções báquicas que os soldados vociferavam ao fim da refeição. Por favor, meu tio, disse Mortimer, deixai um pouco os nossos avós. Não tenho, como vos acontece, tanta pressa assim de ir ter com eles. Sim, sei que descendemos do sangue de um rei. Mas numa prisão o sangue dos reis pouco vale. O gládio de Herfast por acaso nos irá libertar agora? Onde estão as nossas terras? Entregam-nos nossas rendas aqui neste calabouço? E quando tiver acabado de ouvir de vossos lábios os nomes de nossas avós: Hadewige, Melisanda, Matilde, a Sovina, Walcheline de Ferrers, Gladousa de Braose, serão elas as únicas mulheres com quem poderei sonhar até meu último suspiro?
O ancião ficou um momento perplexo, contemplando distraidamente sua mão inchada, de unhas desmesuradamente longas e rachadas. Cada qual povoa sua prisão como pode, disse. Os velhos com seu passado perdido, os jovens com o amanhã que não chegarão a ver. Tu imaginas ser amado por toda a Inglaterra, acreditas que toda a Inglaterra trabalha por ti, que o bispo de Orleton é teu amigo fiel, que a própria rainha movimenta-se pela tua salvação, que logo partirás para a França, para a Aquitânia, para a Provença..., que sei eu! E que ao longo do teu caminho os sinos irão tocar, em repique de boas-vindas. Entretanto, verás que esta noite ninguém aparecerá aqui. Passou os dedos sobre as pálpebras com um gesto cansado, depois virou-se para a parede. Mortimer, o Jovem, voltou ao respiradouro, insinuou a mão entre as grades e deixou-a cair, como se estivesse morta, sobre a poeira.
O tio agora vai dormir até à noite, pensava ele. Depois, no derradeiro momento, resolverá. Realmente, com ele não será fácil. E não irá fazer com que tudo malogre?... Ah! Aí está Eduardo. A ave se detivera a pequena distância da mão inerte e limpava o grande bico negro contra a pata. Se eu te estrangular, minha fuga terá êxito. Se falhar, não conseguirei evadir-me. Não era mais um brinquedo, era uma aposta com o destino. Para ocupar seu tempo de espera, para enganar sua ansiedade, o prisioneiro sentia necessidade de fabricar presságios e vigiava, com olho de caçador, o enorme corvo. Este, porém, como se tivesse percebido a ameaça, afastou-se. Os homens saíam do refeitório, com a fisionomia toda iluminada. Dividiam-se em pequenos grupos, através do pátio, para os jogos, as corridas e as lutas que eram tradição de festa. Durante duas horas, com o busto nu, suavam ao sol, rivalizando em força para se imobilizarem mutuamente contra o chão, ou em habilidade para atirar clavas contra uma estaca de madeira.
Ouvia-se o condestável gritar: O prémio do rei! Quem ganhará? Um xelim! Depois, quando o sol começava a baixar, os soldados foram lavar-se nas cisternas, e, mais ruidosos do que pela manhã, comentando suas façanhas ou suas derrotas, voltaram ao refeitório para de novo comer e beber. Quem não estivesse bêbado na noite das cadeias de São Pedro mereceria o desprezo de seus companheiros! O prisioneiro ouvia-os atirarem-se ao vinho. A escuridão descia sobre o pátio, a sombra azulada das noites de Verão. E o cheiro de lodo, vindo das valas do rio, fazia-se de novo sensível. Subitamente, um crocitar furioso, rouco, prolongado, um desses gritos de animal que causam inquietação aos homens, rasgou o ar diante do respiradouro. Que é isso?, perguntou o velho lorde de Chirk do fundo da cela. Falhei, disse o sobrinho. Agarrei-o pela asa, em lugar de agarrá-lo pelo pescoço. Conservava nos dedos algumas penas pretas que contemplava tristemente à incerta luz do crepúsculo. O corvo desaparecera, e, dessa vez, não mais voltaria». In Maurice Druon, Os Reis Malditos, A Loba de França, 1965, tradução de Helena Ramos, Círculo de Leitores, 2006, ISBN 978-972-42-3862-3.

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