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terça-feira, 3 de agosto de 2021

Os Mais Recentes Achados Epigráficos do Castelo de S. Jorge, Lisboa. Amílcar Guerra. «Por um lado os textos epigráficos encontram-se quase sempre completos, aspecto que contrasta fortemente com a maioria das inscrições romanas de aparecimento mais recente…»

Cortesia de wikipedia e jdact

«(…) As circunstâncias particulares que envolveram a fase inicial da investigação levaram a que um outro monumento só fosse noticiado mais tarde. Trata-se de uma epígrafe depositada no Instituto Clássico da Universidade de Lisboa, divulgada apenas cerca de um quarto de século após o seu aparecimento. Por fim, como resultado do tratamento laboratorial de uma cinerária de chumbo depositada na mesma entidade museológica foi identificado um grafito, gravado na tampa desse recipiente. As escavações mais recentes revelaram um panorama idêntico e trouxeram à luz novos achados epigráficos cuja publicação se aguarda para breve. Todo este conjunto constitui sem dúvida o mais representativo núcleo de epígrafes de Olisipo encontradas numa mesma área, apresentando para além disso duas assinaláveis vantagens. Por um lado os textos epigráficos encontram-se quase sempre completos, aspecto que contrasta fortemente com a maioria das inscrições romanas de aparecimento mais recente, quase sempre reduzidas a pequenos fragmentos. Para além disso, foi possível determinar, por vezes com bastante precisão, o seu contexto arqueológico, o que significa que, em certos casos, contamos com dados concretos sobre a natureza dos monumentos em que as lápides se inseriam. Esta conjugação de elementos confere uma particular relevância a todo o conjunto, aspecto que sublinha igualmente a necessidade de se tornarem públicos todos os elementos relativos aos trabalhos, alguns dos quais, como se viu, aguardam publicação há mais de meio século. No que concerne estritamente ao domínio da epigrafia, parece que o caso específico da Praça da Figueira poderá proporcionar elementos substanciais para compreender todo o conjunto funerário, de modo a estabelecer o enquadramento das inscrições. Será possível, em suma, traçar as componentes essenciais do ambiente e da paisagem em que se inserem os monumentos, aspecto a que Giancarlo Susini conferiu uma especial dignidade e que constitui uma forma mais completa e mais complexa de estudar as manifestações que nos ocupam. Esta preocupação, que recentemente Luís Fernandes renovou a propósito da documentação epigráfica do teatro romano de Lisboa, tem neste caso uma idêntica justificação. Também na encosta da Sé, em geral, e no teatro romano e zona envolvente, em particular, se realizaram importantes pesquisas arqueológicas que levaram à identificação pontual de alguns achados epigráficos. De uma maneira geral, estas novas descobertas foram sendo esporadicamente assinaladas ao longo de um período muito dilatado, razão pela qual assume um especial interesse o estudo de todo o conjunto. A publicação ocasional e o estudo isolado, características que têm marcado a maioria destes achados, tornam mais clara esta carência, desde há muito sentida. Os restos materiais do teatro romano foram objecto de uma primeira intervenção em fase recente, iniciada com uma sondagem no edifício da R. de S. Mamede ao Caldas, n.os 2 e 4B, dirigida por Fernando Almeida, e continuada nos anos seguintes com uma campanha da responsabilidade de Irisalva Moita. Embora de dimensão muito mais reduzida que a da Praça da Figueira, a documentação epigráfica aí recolhida tem um especial significado, em particular a que respeita a este mesmo edifício público cuja importância na vida da cidade se manifesta precisamente em alguns documentos relevantes para compreender a vida pública ou, simplesmente, concernentes ao próprio edifício em si. Neste último caso se encontra a inscrição em caracteres gregos em que se regista o nome Μελπο[με´νη] por baixo de um relevo já fragmentado, descoberto na sequência destas intervenções. Mas estes trabalhos vieram igualmente contribuir igualmente para a redescoberta de alguns elementos da inscrição gravada no púlpito do edifício, já bem conhecida da investigação, em especial graças à documentação produzida por Francisco Xavier Fabri e à publicação de Luís António Azevedo (1815). O reaparecimento parcial deste importante documento (Moita, 1970) relançou a discussão em torno do seu texto, a respeito da qual se suscitou alguma literatura, sem que tal se tenha traduzido em modificações substanciais na interpretação tradicional, consagrada pela obra de Hübner. Mais recentemente, porém, Stylow (2001) propôs uma alteração que afecta o sentido geral do texto, preferindo atribuir uma natureza temporal à titulatura do imperador, que se iniciaria, segundo esta interpretação, com a forma Nerone. Esta sugestão parece aceitável no contexto da epigrafia monumental, mas debate-se com o óbice de não ser suportada por uma transcrição antiga e de pressupor que os editores deste documento epigráfico se equivocaram, malgrado este monumento apresentar, tendo em conta algumas partes subsistentes, uma extraordinária clareza. Talvez por esse facto Luís Fernandes (2005) tenha retomado a proposta tradicional, optando, no entanto, por não reconstituir o texto muito lacunar do segundo vão, precisamente o que coloca mais problemas. No âmbito destes trabalhos se identificaram igualmente algumas inscrições não relacionáveis com este edifício público, mas que correspondem a lápides funerárias, de proveniência muito distinta, mas reaproveitadas ao longo do tempo nas construções dessa área. Embora o seu estado frágil confere uma particular relevância a todo o conjunto, aspecto que sublinha igualmente a necessidade de se tornarem públicos todos os elementos relativos aos trabalhos, alguns dos quais, como se viu, aguardam publicação há mais de meio século. No que concerne estritamente ao domínio da epigrafia, parece que o caso específico da Praça da Figueira poderá proporcionar elementos substanciais para compreender todo o conjunto funerário, de modo a estabelecer o enquadramento das inscrições. Será possível, em suma, traçar as componentes essenciais do ambiente e da paisagem em que se inserem os monumentos, aspecto a que Giancarlo Susini (1982) conferiu uma especial dignidade e que constitui uma forma mais completa e mais complexa de estudar as manifestações que nos ocupam». In Amílcar Guerra, Os Mais Recentes Achados Epigráficos do Castelo de S. Jorge, Lisboa, Revista Portuguesa de Arqueologia, Volume 9, Número 2, 2006.

Cortesia de RPArqueologia/JDACT

JDACT, Cultura e Conhecimento, Amílcar Guerra, Lisboa, Casa de Estudo,

Os Mais Recentes Achados Epigráficos do Castelo de S. Jorge, Lisboa. Amílcar Guerra. «Por um lado os textos epigráficos encontram-se quase sempre completos, aspecto que contrasta fortemente com a maioria das inscrições romanas de aparecimento mais recente…»

Cortesia de wikipedia e jdact

«(…) As circunstâncias particulares que envolveram a fase inicial da investigação levaram a que um outro monumento só fosse noticiado mais tarde. Trata-se de uma epígrafe depositada no Instituto Clássico da Universidade de Lisboa, divulgada apenas cerca de um quarto de século após o seu aparecimento. Por fim, como resultado do tratamento laboratorial de uma cinerária de chumbo depositada na mesma entidade museológica foi identificado um grafito, gravado na tampa desse recipiente. As escavações mais recentes revelaram um panorama idêntico e trouxeram à luz novos achados epigráficos cuja publicação se aguarda para breve. Todo este conjunto constitui sem dúvida o mais representativo núcleo de epígrafes de Olisipo encontradas numa mesma área, apresentando para além disso duas assinaláveis vantagens. Por um lado os textos epigráficos encontram-se quase sempre completos, aspecto que contrasta fortemente com a maioria das inscrições romanas de aparecimento mais recente, quase sempre reduzidas a pequenos fragmentos. Para além disso, foi possível determinar, por vezes com bastante precisão, o seu contexto arqueológico, o que significa que, em certos casos, contamos com dados concretos sobre a natureza dos monumentos em que as lápides se inseriam. Esta conjugação de elementos confere uma particular relevância a todo o conjunto, aspecto que sublinha igualmente a necessidade de se tornarem públicos todos os elementos relativos aos trabalhos, alguns dos quais, como se viu, aguardam publicação há mais de meio século. No que concerne estritamente ao domínio da epigrafia, parece que o caso específico da Praça da Figueira poderá proporcionar elementos substanciais para compreender todo o conjunto funerário, de modo a estabelecer o enquadramento das inscrições. Será possível, em suma, traçar as componentes essenciais do ambiente e da paisagem em que se inserem os monumentos, aspecto a que Giancarlo Susini conferiu uma especial dignidade e que constitui uma forma mais completa e mais complexa de estudar as manifestações que nos ocupam. Esta preocupação, que recentemente Luís Fernandes renovou a propósito da documentação epigráfica do teatro romano de Lisboa, tem neste caso uma idêntica justificação. Também na encosta da Sé, em geral, e no teatro romano e zona envolvente, em particular, se realizaram importantes pesquisas arqueológicas que levaram à identificação pontual de alguns achados epigráficos. De uma maneira geral, estas novas descobertas foram sendo esporadicamente assinaladas ao longo de um período muito dilatado, razão pela qual assume um especial interesse o estudo de todo o conjunto. A publicação ocasional e o estudo isolado, características que têm marcado a maioria destes achados, tornam mais clara esta carência, desde há muito sentida. Os restos materiais do teatro romano foram objecto de uma primeira intervenção em fase recente, iniciada com uma sondagem no edifício da R. de S. Mamede ao Caldas, n.os 2 e 4B, dirigida por Fernando Almeida, e continuada nos anos seguintes com uma campanha da responsabilidade de Irisalva Moita. Embora de dimensão muito mais reduzida que a da Praça da Figueira, a documentação epigráfica aí recolhida tem um especial significado, em particular a que respeita a este mesmo edifício público cuja importância na vida da cidade se manifesta precisamente em alguns documentos relevantes para compreender a vida pública ou, simplesmente, concernentes ao próprio edifício em si. Neste último caso se encontra a inscrição em caracteres gregos em que se regista o nome Μελπο[με´νη] por baixo de um relevo já fragmentado, descoberto na sequência destas intervenções. Mas estes trabalhos vieram igualmente contribuir igualmente para a redescoberta de alguns elementos da inscrição gravada no púlpito do edifício, já bem conhecida da investigação, em especial graças à documentação produzida por Francisco Xavier Fabri e à publicação de Luís António Azevedo (1815). O reaparecimento parcial deste importante documento (Moita, 1970) relançou a discussão em torno do seu texto, a respeito da qual se suscitou alguma literatura, sem que tal se tenha traduzido em modificações substanciais na interpretação tradicional, consagrada pela obra de Hübner. Mais recentemente, porém, Stylow (2001) propôs uma alteração que afecta o sentido geral do texto, preferindo atribuir uma natureza temporal à titulatura do imperador, que se iniciaria, segundo esta interpretação, com a forma Nerone. Esta sugestão parece aceitável no contexto da epigrafia monumental, mas debate-se com o óbice de não ser suportada por uma transcrição antiga e de pressupor que os editores deste documento epigráfico se equivocaram, malgrado este monumento apresentar, tendo em conta algumas partes subsistentes, uma extraordinária clareza. Talvez por esse facto Luís Fernandes (2005) tenha retomado a proposta tradicional, optando, no entanto, por não reconstituir o texto muito lacunar do segundo vão, precisamente o que coloca mais problemas. No âmbito destes trabalhos se identificaram igualmente algumas inscrições não relacionáveis com este edifício público, mas que correspondem a lápides funerárias, de proveniência muito distinta, mas reaproveitadas ao longo do tempo nas construções dessa área. Embora o seu estado frágil confere uma particular relevância a todo o conjunto, aspecto que sublinha igualmente a necessidade de se tornarem públicos todos os elementos relativos aos trabalhos, alguns dos quais, como se viu, aguardam publicação há mais de meio século. No que concerne estritamente ao domínio da epigrafia, parece que o caso específico da Praça da Figueira poderá proporcionar elementos substanciais para compreender todo o conjunto funerário, de modo a estabelecer o enquadramento das inscrições. Será possível, em suma, traçar as componentes essenciais do ambiente e da paisagem em que se inserem os monumentos, aspecto a que Giancarlo Susini (1982) conferiu uma especial dignidade e que constitui uma forma mais completa e mais complexa de estudar as manifestações que nos ocupam». In Amílcar Guerra, Os Mais Recentes Achados Epigráficos do Castelo de S. Jorge, Lisboa, Revista Portuguesa de Arqueologia, Volume 9, Número 2, 2006.

Cortesia de RPArqueologia/JDACT

JDACT, Cultura e Conhecimento, Amílcar Guerra, Lisboa, Casa de Estudo,

segunda-feira, 2 de agosto de 2021

Os Mais Recentes Achados Epigráficos do Castelo de S. Jorge, Lisboa. Amílcar Guerra. «As mais antigas acções aí realizadas, foram empreendidas por Irisalva Moita na sequência do aparecimento de importantes vestígios arqueológicos afectados por essa obra…»

Cortesia de wikipedia e jdact

«(…) Por circunstâncias que não cabe no âmbito deste trabalho enunciar, mas normalmente relacionadas com o desenvolvimento de projectos urbanísticos e em consequência de um novo enquadramento legal de obras públicas em centros históricos, desenrolaram-se na cidade, em especial nas duas últimas décadas, muitas intervenções arqueológicas. Um número significativo decorreu na área que corresponderia ao espaço da antiga Olisipo, genericamente centrada em torno do morro do Castelo, mas abarcando igualmente algumas zonas baixas, nomeadamente o cordão que circunda esta elevação desde a actual Praça do Martim Moniz até à zona ribeirinha do Tejo por altura do Chafariz do Rei, passando pela Baixa Pombalina. Esta intensa actividade arqueológica acabou por produzir resultados substanciais, infelizmente nem sempre tornados públicos com a desejável celeridade e com o necessário rigor. As consequências desta multiplicação das intervenções fizeram-se sentir inevitavelmente no domínio das inscrições romanas da cidade ao proporcionarem um conjunto de elementos que pode considerar-se muito relevante para a compreensão da história de Olisipo, quer pelo seu número, quer pela importância. No período que decorre da publicação do último repertório de inscrições romanas da cidade, que abarca os últimos sessenta anos, o panorama foi já substancialmente acrescentado, em especial devido a algumas intervenções em áreas muito distintas. Em primeiro lugar, pela sua importância e notoriedade, figuram os trabalhos realizados na Praça da Figueira e imediações: nos anos ‘60, em consequência da abertura da linha de metropolitano no espaço onde actualmente se encontra a estação do Rossio e, mais recentemente, nos anos ‘90, como resultado de uma intervenção arqueológica que precedeu a construção de um parque de estacionamento subterrâneo. As mais antigas acções aí realizadas, foram empreendidas por Irisalva Moita na sequência do aparecimento de importantes vestígios arqueológicos afectados por essa obra, o que levou a primeira visita ao local em 7 de Fevereiro de 1961 e ao acompanhamento dos trabalhos, repletos de atribuladas vicissitudes, sem que fosse possível suster o avanço da destruição, a não ser por um curto período. As suas reiteradas diligências acabaram, finalmente, por conduzir à entrada no processo da Junta Nacional de Educação, que assumiu a responsabilidade pelos trabalhos mais de um ano depois daquela data e empreendeu escavações no local. Esta intervenção sistemática, dirigida por Fernando Bandeira Ferreira permitiu identificar uma necrópole romana relativamente bem preservada, mas já profundamente afectada, na qual se encontraram algumas lápides funerárias, que constituem actualmente uma boa parte do espólio epigráfico da colecção do Museu da Cidade, em Lisboa. Apesar das condições em que decorreram estas acções, registou-se ao mesmo tempo um número significativo de sepulturas, bem como o seu amplo recheio, por vezes recolhido já fora do contexto. Na apresentação dos primeiros resultados destes trabalhos e do seu espólio mais significativo deu-se conta do aparecimento de lápides em diferentes publicações, como consequência da atribulada história que envolve os achados. Como resultado das responsabilidades assumidas na direcção da pesquisa, Fernando Bandeira Ferreira publicou, em colaboração com Justino Mendes Almeida, quatro monumentos, três dos quais com contexto arqueológico conhecido. Outras quatro epígrafes foram recolhidas por Irisalva Moita, que delas deu notícia na pormenorizada na descrição das suas diligências e no repertório dos achados que a acompanha, duas das quais já anteriormente assinaladas». In Amílcar Guerra, Os Mais Recentes Achados Epigráficos do Castelo de S. Jorge, Lisboa, Revista Portuguesa de Arqueologia, Volume 9, Número 2, 2006.

Cortesia de RPArqueologia/JDACT

 DACT, Cultura e Conhecimento, Amílcar Guerra, Lisboa, Casa de Estudo, 

Os Mais Recentes Achados Epigráficos do Castelo de S. Jorge, Lisboa. Amílcar Guerra. «O núcleo evidencia grande diversidade, tanto no estado de conservação dos textos como no que respeita ao seu contributo para a história do municipium Olisiponense»

Cortesia de wikipedia e jdact

«Dá-se a conhecer uma dezena de monumentos epigráficos em língua latina, identificados no decurso de diversos trabalhos arqueológicos levados a cabo no interior do Castelo de S. Jorge, em especial na zona da chamada Praça Nova. O núcleo evidencia grande diversidade, tanto no estado de conservação dos textos como no que respeita ao seu contributo para a história do municipium Olisiponense. A heterogeneidade manifesta-se igualmente no que concerne à cronologia das inscrições, abarcando uma ampla diacronia que vai desde o período alto-imperial até à Alta Idade Média. A esta última fase pertencem alguns exemplares que se integram no que se designa como epigrafia paleocristã, os quais constituem um interessante contributo para a análise das transformações ocorridas neste período pouco conhecido da história da cidade». In Resumo

«O conjunto epigráfico de Olisipo e do seu território constitui um dos mais numerosos da Península Ibérica e a análise da sua distribuição tem posto em evidência a elevada concentração de inscrições nesta área (Mócsy, 1985). Este facto excepcional decorre, em primeiro lugar, da circunstância d’a cidade se ter afirmado como uma importante área agrícola e, ao mesmo tempo, como a principal plataforma comercial da Lusitânia. Estas circunstâncias reflectem-se, inevitavelmente, no poder económico dos seus habitantes, bem como no desenvolvimento urbano e na demografia da cidade. Mas a importância deste repertório resulta igualmente do facto de a comunidade cívica ter adquirido, desde cedo, o estatuto privilegiado de municipium civium Romanorum, aspecto que está na base de uma intensa vida pública (Mantas, 1994), espelhada em diversas manifestações epigráficas. Contudo, o especial relevo que este amplo repositório de inscrições assume deve-se, em boa parte, à excepcional riqueza do território do municipium e dos seus importantes núcleos de inscrições, entre os quais sobressai o da região de Sintra, o qual, só por si, apresenta mais inscrições que a própria urbs. Mas, para além deste, há que ter em conta os achados do restante espaço rural, com especial relevo para a área que actualmente corresponde aos concelhos de Torres Vedras e Cascais. Merece ainda uma referência especial a região de Mafra, onde se tem vindo recentemente a registar também um número considerável de novas epígrafes, que aproxima esta área, tradicionalmente mais pobre neste aspecto, das zonas contíguas. Não devemos, por fim esquecer, que o território de Olisipo beneficia de um outro factor que deve ter contribuído de forma substancial para esta excepcional dimensão do repertório epigráfico, a saber, a existência de matéria-prima abundante e de muito boa qualidade, a qual serviu de suporte a uma grande parte dos monumentos erigidos na região. Foi em especial utilizado um calcário local, conhecido habitualmente como lioz, por vezes designado como pedra lioz ou mesmo mármore lioz, o qual parece ter sido explorado em diversos lugares da Península de Lisboa, em particular na área de Pero Pinheiro, onde ainda hoje se mantém essa actividade extractiva de considerável significado económico tanto na antiguidade como agora. Na sua globalidade, o repertório de todo o território olisiponense rivaliza com o mais amplo da província, aquele que corresponde à colónia Emeritensis, a sua capital. Por outro lado, contrasta com o de Scallabis, particularmente pobre em número e em qualidade, apesar de a cidade corresponder à sede da circunscrição jurídica romana da qual depende Olisipo. O exemplo escalabitano demonstra, com clareza, nem sempre existir uma relação directa entre a importância administrativa de lugar e a quantidade e qualidade dos vestígios epigráficos que subsistiram. Trata-se, no entanto, de um caso que configura mais uma situação de excepção que uma regra, para o qual falta ainda encontrar uma explicação satisfatória. O panorama oferecido pela realidade olisiponense, no qual a riqueza das manifestações epi[1]gráfica se sobrepõe à importância política e económica do aglomerado, é de facto, a norma. Nesta cidade se constata igualmente que o já vasto conjunto epigráfico se tem vindo a enriquecer nos últimos tempos a um ritmo considerável, com achados que vão sublinhando a vivacidade do centro urbano ao longo do tempo e a prosperidade dos seus habitantes». In Amílcar Guerra, Os Mais Recentes Achados Epigráficos do Castelo de S. Jorge, Lisboa, Revista Portuguesa de Arqueologia, Volume 9, Número 2, 2006.

Cortesia de RPArqueologia/JDACT

JDACT, Cultura e Conhecimento, Amílcar Guerra, Lisboa, Casa de Estudo, 

segunda-feira, 9 de janeiro de 2012

Amílcar Guerra. Plínio, O Velho, e a Lusitânia. Arqueologia e História Antiga: «Que o Guadiana era fronteira entre a Lusitânia e a Bética repete-o com frequência Plínio. Considerando-a embora genericamente correcta, a historiografia moderna tem encontrado elementos que permitem duvidar da exactidão desta notícia. O caso mais discutido relaciona-se com a parcela de território da margem esquerda do Guadiana nas proximidades de Mérida…»

Cortesia de ediçõescolibri

PLIN.3,6
In eo prima Hispania terrarum est, ulterior appellata, eadem Baetica, mox a fine Murgitano citerior eademque Tarraconensis ad Pyrenaei iuga. Ulterior in duas per longitudinem prouincias diuiditur, siquidem Baeticae latere septentrionali praetenditur Lusitania amne Ana discreta. Ortus hic in Laminitano agro citerioris Hispaniae et modo in stagna se fundens modo in angustias resorbens aut in totum cuniculis condens et saepius nasci gaudens in Atlanticum effunditur. Tarraconensis autem adfixa Pyrenaeo totoque eius a latere decurrens et simul ad Gallicum oceanum Hiberico a mari transuersa se pandens Solorio monte et Oretanis iugis Carpetanisque et Asturum a Baetica atque Lusitania distinguitur.

Comentário
Plínio 3,6
“in eo” - Com esta expressão Plínio estabelece ligação com o período anterior. “Eo” refere-se ao primeiro grande ‘sinus’ do Mediterrâneo que se estende desde “Calpe” até ao “promunturium Bruttium”.

“prima Hispania terrarum est” - Alteração da ordem normal pela interposição de ‘Hispania’ entre dois elementos correlacionados. Com este processo se coloca ‘prima’ em lugar de destaque, acentuando deste modo a ideia de primazia. Não podemos deixar de notar que “Baetica” está “in clausula”, assinalando-se, pela sua posição nos extremos, os dois elementos principais.

“Ulterior appellata eadem Baetica” O elemento comum “appellata”, também o menos importante, ocupa a posição central, enquanto que os nomes “Ulterior” e “Baetica” são postos em relevo pela sua posição na frase.

Parece haver uma contradição evidente entre esta afirmação e a que se faz um pouco mais adiante ao considerar-se a ulterior dividida em duas províncias. As duas realidades correspondem a momentos diferentes da presença romana na Península Ibérica, separados por alguns séculos. A afirmação aqui feita seria válida durante o período que se segue à criação, em 197 a.C. de, de duas províncias na Hispânia, a “Ulterior” e a “Citerior”. No tempo de Plínio, contudo, esta nomenclatura estava desactualizada, visto todos os autores estarem hoje de acordo em atribuir a Augusto o desmembramento da Ulterior em Bética e Lusitânia, embora se discuta ainda a data precisa em que tal aconteceu.
Dessau pensa que ela deverá ter ocorrido em 2 a. C., por isso, considera posterior a essa data uma inscrição em que se atribui à “Hispania Ulterior Baetica” a designação de “prouincia pacata”. A maioria dos estudiosos concorda em recuar esta ocorrência para uma data compreendida entre 27 e 12 a.C., dado que a Lusitânia figurava já como província autónoma no mapa de Agripa. Albertini interpretou uma informação de Díon Cássio que permitiria, segundo ele, considerar que em 27 a.C. já existiriam as três províncias da Hispânia. A principal objecção que se levanta reside no facto de “Augusta Emerita”, a capital da Lusitânia, ter sido seguramente fundada em 25 a.C.. Mais prováveis parecem ser as datas que se aproximam de 12 a.C. e que têm sido sugeridas por diversos autores, sem que haja, entanto, um acordo pleno a esse respeito.

Cortesia de wikipedia

“a fine Murgitano Citerior eademque Tarraconensis ad Pyrenaei iuga” - A inclusão de “Citerior eademque Tarraconensis” entre as duas expressões correlacionadas introduz uma nítida simetria na construção deste período, cujo centro é ocupado pela expressão referida. Os elementos que a enquadram são muito semelhantes, mas neles podemos notar o quiasmo na posição do atributivo geográfico. Significativo é, a nosso ver, o facto de se tratar no texto de uma questão de limites, de tal modo que as expressões que definem as fronteiras são precisamente os extremos da frase, estabelecendo-se, deste modo, uma correspondência entre os planos da expressão e do conteúdo.

“mox” - O elemento que introduz esta frase contrapõe-se a “prima”, que inicia a anterior.

São aqui omitidos elementos já presentes na frase anterior (“Hispania, est, appellata”), como corolário de uma tendência geral (e de Plínio. em particular) para a brevidade da linguagem científica, facto que se manifesta sob variadas formas.

A “fine Murgitano” - O termo de “Murgis” é aqui considerado fronteira, junto à costa, entre a Bética e a Tarraconense, o que nem sempre aconteceu. Essa localidade, tradicionalmente e com base numa falsa etimologia, situada em Muxacra ou Mujácar, tem sido identificada por alguns autores com a actual Dalias e por outros com Ciavieja, nas proximidades de Almería. Na maioria dos autores clássicos esta função é atribuída a “Carthago Noua”. O próprio Plínio nos informa que foi com base neste último dado que Agripa elaborou o seu mapa e que, por esse facto, as medidas nele contidas não eram iguais às do seu tempo. Da análise deste passo pliniano resulta que o estabelecimento desse novo limite de província deve ser colocado entre 12 a.C. (data da morte de Agripa) ou 7 a.C. (ano em que o mapa foi concluído) e 2 a.C.. Teria sido com base noutros documentos oficiais, provavelmente de carácter administrativo, ou nas estatísticas oficiais que Plínio estabeleceu esta fronteira. Prieto e Marín pensam que as razões que levaram Augusto a proceder a esta modificação se prendem com o desejo de controlar importantes zonas mineiras situadas entre os dois limites.
[…]
Que o Guadiana era fronteira entre a Lusitânia e a Bética repete-o com frequência Plínio e encontra-se igualmente referido em MELA 2,78. Considerando-a embora genericamente correcta, a historiografia moderna tem encontrado elementos que permitem duvidar da exactidão desta notícia. O caso mais discutido relaciona-se com a parcela de território da margem esquerda do Guadiana nas proximidades de Mérida, que pertencia à Lusitânia. Esta questão, já colocada por Hübner a respeito de “Metellinum”, foi posteriormente esclarecida por alguns estudiosos que eliminaram algumas imprecisões da sua formulação inicial. Arias retomou o assunto à luz do texto que descreve a paixão de S. Eulália a que García Iglesias acrescenta os contributos da epigrafia e algumas referências de autores clássicos. Estes dados permitem concluir que, contrariamente ao que Plínio e Mela diziam, a Lusitânia ia além do Anas. Recentemente Sillères veio trazer uma achega fundamental para a resolução do problema ao localizar as centuriações de Mérida do lado de lá do GuadianaaT, partindo da referência que delas faz Higino.

No mesmo trabalho, García Iglesias aborda igualmente idêntica questão, mas relativa ao território português de além-Guadiana, concluindo não haver dados que permitam resolver o diferendo entre os historiadores. Mais tarde, porém, Francisco Martín volta ao assunto em defesa da pertença à Lusitânia do território em causa, fundando-se em boa parte nos dados do ITIN. Anton. Aug. 426 e 427, na atracção da fronteira e em argumentos de ordem administrativa e económica». In Amílcar Guerra. Plínio, O Velho, e a Lusitânia, Arqueologia e História Antiga, Edições Colibri, 1995, ISBN 972-8047-97-5.

continua
Cortesia de Edições Colibri/JDACT

quarta-feira, 9 de novembro de 2011

Amílcar Guerra. Plínio, O Velho, e a Lusitânia. Arqueologia e História Antiga: «Ora a passagem de Plínio pela Península permitiu-lhe, para além da obtenção de notícias transmitidas oralmente, um conhecimento da produção escrita, tanto de natureza mais propriamente literária, como técnica»

Cortesia de wikipedia

«A popularidade que a obra atingiu tem, pois, plena justificação na forma como Plínio. soube dar resposta às exigências do seu tempo em matéria de gosto, satisfazendo a curiosidade de um público sem pretensões de um rigor científico.

Valor da Obra e fiabilidade da Informação
Na pareciação global da qualidade desta obra enciclopédica, as opiniões actuais nem sempre são favoráveis. A primeira falha que geralmente lhe é apontada tem que ver com a ausência de um método científico na sua investigação, neste aspecto contrastante com alguns percursores da antiguidade. No domínio das ciências naturais sobreleva-se, com frequência, a diferença entre o racionalismo aristotélico e a postura pliniana, mais atraída pelas curiosidades que pela preocupação com uma observação rigorosa e o estabelecimento de uma taxonomia metodologicamente correcta.

O valor do contributo pliniano contudo, pode (e deve) ser apreciado sob uma perspectiva diferente, mais consentânea com os ideais do seu tempo. Trata-se, em primeiro lugar, como refere o próprio Plínio, de um notável repositório de conhecimentos, onde o factos notáveis, as curiosidades, os “mirabilia” ocupam um lugar de destaque e se sobrepõem a uma exposição racionalizada do mundo. E como o seu sobrinho acentua, o conjunto resulta de um excepcional labor de leitura e de um notável esforço e persistente trabalho de recolecção de dados, com as mais diversas proveniências.

Cortesia de wikipedia

Coloca-se deste modo um leque de questões que interessa particularmente o nosso trabalho:
  • em primeiro lugar saber qual a dimensão das verdadeiras leituras de Plínio. Até que ponto ele conhecia por via directa um vasto repositório de fontes citadas tanto no prefácio da sua obra, como ao longo do próprio texto;
  • em segundo lugar avaliar em que medida o seu conhecimento directo das realidades se poderá reflectir nela.
Alguns autores defenderam, no que especialmente toca à geografia, que Plínio recorreu a uma única obra, sendo hipótese habitualmente sustentada o ele dever o essencial dos seus dados a Varrão. Insinua-se, com frequência que poderá ter recorrido ao subterfúgio de citar muitos autores que realmente conhecia apenas de segunda mão e de os incluir dentro das suas fontes para demonstrar uma erudição que realmente não possuía.

Estas convicções representam o contraponto de uma perspectiva que as informações antigas, especialmente de Plínio-o-Moço, deixariam entrever, segundo a qual a NH é uma colagem de um imenso conjunto de informações pesquisada num diversificadíssimo número de autores que nem sequer são exaustivamente citados, limitando-se o autor a incluí-los entre os “alii” que não nomeia explicitamente. Esse, de resto, seria o sentido das suas próprias afirmações no prefácio, a que Ferraro deu uma significativa interpretação.

Cortesia de ecolibri

O que parece evidente é, em primeiro lugar, a discrepância entre as listas de autores apresentadas no início da sua obra e a verdadeira origem dos autores de que provêm as informações, essencialmente pela utilização, para esse efeito, das listas de autores estrangeiros correspondentes, que Varrão tinha já utilizado. Não podemos, por este motivo, remeter para os índices dos autores para corroborar ou negar este tipo de afirmações.
Contudo, a falta de veracidade a respeito das suas fontes não pode ser tomada como um sintoma de uma dependência não assumida de uma obra ou de um autor em especial. E, da mesma maneira, o facto de não se citar uma fonte determinada não pode significar um desconhecimento da mesma. Pode, para este caso concreto, tomar-se o exemplo da descrição geográfica do território peninsular.

Os passos da geografia pliniana que aqui se apresentarão parecem revelar em primeiro lugar uma diversidade de fontes, sem contudo se apresentar como significativa. Para além de Varrão, comparece unicamente entre os autores citados no próprio texto o nome de Agripa. No entanto, toma-se evidente, por um conjunto de informações respeitantes a realidades mais recentes, que Plínio mantinha uma relativa actualização dos dados para determinadas regiões. É sabido que contamos, neste caso particular, com o facto de estar assente que Plínio exerceu na Tarraconense uma procuratela que lhe terá permitido contactar mais de perto com esta realidade. Esses conhecimentos poderão decorrer das suas próprias funções administrativas ou, mais simplesmente constituírem informações que o seu conhecimento dos círculos peninsulares poderiam proporcionar. Ora a passagem de Plínio pela Península permitiu-lhe, para além da obtenção de notícias transmitidas oralmente, um conhecimento da produção escrita, tanto de natureza mais propriamente literária, como técnica». In Amílcar Guerra. Plínio, O Velho, e a Lusitânia, Arqueologia e História Antiga, Edições Colibri, 1995, ISBN 972-8047-97-5.

Cortesia de Edições Colibri/JDACT

sexta-feira, 21 de outubro de 2011

Amílcar Guerra. Plínio, O Velho, e a Lusitânia. Arqueologia e História Antiga: «Do conteúdo de obras menores como o “De uita Pomponi Secundi” e “De iaculatione equestri” pouco se sabe. Mais problemática é a atribuição, com base na tradição humanista, de um opúsculo, não referido na lista citada, atribuído igualmente ao seu sobrinho e filho adoptivo, o “De uiris illustribus”»

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A Carreira Equestre de Plínio
A Obra
«A primeira designação justifica-se por uma obra de carácter retórico em três livros, “Studiosi”, enquanto que as questões gramaticais ocupariam os oito livros do “Dubius sermo”. O título e os fragmentos desta obra permitem situar o seu conteúdo dentro da tradicional querela entre analogistas e anomalistas. Escrita no tempo de Nero, é claramente marcada pelo estoicismo e, ao assumir os princípios dos anomalistas, encara a defesa da liberdade no plano da linguagem como a sua defesa num plano mais geral.

Das obras históricas propriamente ditas sobressaem, pela sua extensão e pela influência que tiveram em outros autores,
  • “Bella Germaniae”,
  • “Historiae a fine Aufidi Bassi”.
Do conteúdo de obras menores como o “De uita Pomponi Secundi” e “De iaculatione equestri” pouco se sabe. Mais problemática é a atribuição, com base na tradição humanista, de um opúsculo, não referido na lista citada, atribuído igualmente ao seu sobrinho e filho adoptivo, o “De uiris illustribus”.

Quanto à “Naturalis Historia”, apresentada com o título de “naturae historiarum XXXVII (libri), convém desde logo precisar o significado do título, uma vez que a sua tradução literal na línguas modernas pode levar a que se perca de vista o verdadeiro alcance do original.

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Em primeiro lugar o termo grego “historia” tem um âmbito maior que a sua equivalente actual, uma vez que ele correspondia ao termo "investigação", sem implicar que esta dissesse respeito a determinados factos do passado. Por outro lado o próprio conceito de “natura” é mais amplo, corresponde mais ao significado de "universo". Teremos, por isso, de considerar preferível uma proposta semelhante à de J. Bayet, “recherche sur le monde”, já que corresponde melhor ao largo âmbito temático da obra.
Estamos pois perante uma "investigação sobre o mundo”, rica e diversificada, como acentuava Plínio-o-Moço, “nec minus uarium quam ipsa natura”, que começa pelos astros, percorre os seres animados e termina de novo nos inanimados, as gemas em concreto, numa construção que levou F. Della corte a defini-la como uma “Ringcomposition” que abre com "as pedras infinitamente grandes" e se conclui com "as infinitamente pequenas".

Antes da sua investigação coloca P. um prefácio em forma epistular, cuja análise tem sido bastante proveitosa para a compreensão de algumas características do seu trabalho. Por ele tomamos conhecimento que a obra é dedicada ao imperador Tito e terá sido concluída certamente em 77. Para além disso o autor com frequência proporciona elementos que permitem definir o carácter do seu trabalho.

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Trata-se de cumprir com ela o duplo objectivo de ” iuuare e placere”, nem sempre fácil de atingir dado que o assunto é “sterilis matéria”, obrigando a que dela esteja ausente a “amoenitas”. Reconhece que a natureza da obra não deixa lugar para o engenho, nem a recursos que confeririam maior leveza e a tornariam mais agradável, quer se tratasse de efeitos retóricos, quer consista na introdução de factos curiosos.
Nestes dois casos, como em outros, não podemos tomar à letra as afirmações do autor, dado ser manifesto que não faltam exemplos que contradigam esta opinião sobre a sua própria obra.

Na função de agradar se enquadram os “mirabilia” e os prodígios, abundantemente representados nesta obra, que, na perspectiva de Gigon, traduzem o desejo do saber pelo saber, um elemento de base da cosmologia grega, cuja tradição P. retoma, elementos que faz alternar com as explicações racionais. Por outro lado, assumindo uma característica típica da sua época e aplicando teorias expostas em obras anteriores, podemos dizer que, não raro, a “Naturalis Historia” apresenta exemplos que permitem contradizer o juízo que de si mesmo pretendeu dar a respeito da preocupação retórica». In Amílcar Guerra. Plínio, O Velho, e a Lusitânia, Arqueologia e História Antiga, Edições Colibri, 1995, ISBN 972-8047-97-5.

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terça-feira, 18 de outubro de 2011

Amílcar Guerra. Plínio, O Velho, e a Lusitânia. Arqueologia e História Antiga: «A sua estada na Tarraconense, está bem documentada tanto por informações concretas sob a realidade observada, como pela ligação com personagens que passaram por esta província. Entre estes se conta Lárcio Licínio…»

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A Carreira Equestre de Plínio
«Gaio Plínio Secundo terá nascido nos finais de 23 ou inícios de 24 d.c., na cidade de Como, e dele se traçou este breve perfil biográfico:
  • “Plinius Secundus Nouocomensis equestribus militiis industrie functus procurationes quoque splendissimas et continuas summa integritate administrauit et tamen liberalibus studiis tantam operarn dedit, ut non temere quis plure in otio scripserit. itaqure bella omnia, quae umquam cum Germanis gesta sunt, uiginti uoluminibus comprehendit, item naturalis historiae triginta septern libros absoluit. periit clade Campaniae”.
Retêm-se, pois, como aspectos mais salientes da sua vida, o exercício das procuratelas e a obra literária de que se sublinham neste texto duas obras «históricas»:
  • Os vinte livros dos “Bella Germnniae” e os trinta e sete da “Naturalis Historia”.
A sua condição de cavaleiro obrigou-o a percorrer diferentes províncias e os cargos que exerceu justificam que se tenha tornada um conhecedor de muitas realidades concretas, assumindo, sem dúvida, no caso concreto da Península Ibérica, um grande relevo. O início da sua carreira, está intimamente ligada à Germânia., uma vez que, depois de uma passagem por Roma, desempenha nessa província funções preliminares de um “cursus honorum” equestre. Aí terá decorrido, entre 46 e 58, o exercício das “tres militiae”, provavelmente no exercício da última, teve oportunidade de travar amizade com Tito.
É de resto uma personagem intimamente ligada à dinastia dos flávios e, por consequência, conhece durante os júlio-claúdios, especialmente durante os últimos anos do reinado de Nero, alguns problemas. Mas também é essa circunstância que lhe permite gozar de uma situação de privilégio sob Vespasiano, a ponto de se tornar um conselheiro particular do imperador, segundo a interpretação mais corrente da informação de PLIN. Ep. 3,5,9: “ante lucem ibat ad Vespasianum imperatorem”.

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Dentro de uma normal carreira equestre se insere a sua nomeação como “procurator” em diversas províncias. Sobre este aspecto, que nos interessa particularmente, se debruçaram alguns estudiosos, que, recorrendo ao tipo de informações proporcionadas fundamentalmente por conhecimentos particulares de determinadas áreas do império, procuraram traçar o seu percurso, sem que, no entanto, se tenham estabelecido com segurança as províncias e sequência cronológica dos diferentes exercícios. Para Münzer P. teria exercido, no período que medeia entre 70 e74, quatro procuratelas consecutivas, respectivamente Narbonense, África, Tarraconense e Bélgica. R. Syme, revendo a investigação de Münzer, conclui que o exercício do cargo na Narbonense e na Bélgica que este último autor levanta ainda algumas dúvidas, tal como Ziegler já tinha assinalado

Pelo contrário, a sua estada na Tarraconense, está bem documentada tanto por informações concretas sob a realidade observada, como pela ligação com personagens que passaram por esta província. Entre estes se conta Lárcio Licínio, o “iuridicus Hispaniae Citerioris” que terá feito uma generosa oferta pelo repositório de informação entretanto coligido por P., e ao qual se deve ligar o censo promovido nessa província, circunstância que permite situar com grande probabilidade o seu cargo de “procurator” entre72 e74. De facto, como assinala Syme, esta será a razão pela qual P. apresenta os actualizados censos relativos ao Noroeste, uma vez que terá sido em 73-74 que estes se realizaram.

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O exercício da procuratela permitiu-lhe ter indirectamente contacto com o amplo território peninsular, mas é nitidamente mais completo no que diz respeito ao âmbito em que o seu cargo se exerceu. É fácil constatar que as notícias dependentes de uma observação ou conhecimento directo se situam precisamente na Tarraconense, sendo a Lusitânia e a Bética claramente preteridas. Por outro lado, a simples referência a “Hispania” equivaleria, concretamente na notícia de introdução do pistacho na península, a “Citerior”, em contraste com o uso de “Baetica” e “Lusitania” nas referências específicas a estas duas províncias.
Este cargo, exercido por tempo muito limitado, não permitia um conhecimento aprofundado do terreno, sobretudo se atendermos às limitações do tempo e à sua extensão. Por esta razão, são absolutamente justificadas as limitações da informação pliniana, sobretudo no que toca à falta de correcção de notícias anteriores manifestamente inexactas.

A Obra
Para além de importantes informações sobre aspectos biográficos da correspondência do seu sobrinho, uma célebre carta de Plínio-o-Moço a Bébio Macro, transmite-nos uma lista das suas obras principais, dispostas por ordem cronológica. A sua extensa produção reparte-se essencialmente entre escritos que genericamente abrangemos sob a designação de «históricos» e outros que abordam problemas gramaticais e retóricos. No seu conjunto, justificam a classificação de “orator et historicus” como alguns códices atestam». In Amílcar Guerra. Plínio, O Velho, e a Lusitânia, Arqueologia e História Antiga, Edições Colibri, 1995, ISBN 972-8047-97-5.

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