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domingo, 19 de agosto de 2012

Francisco Sanches (1550-1623). Filósofo e professor. Craveiro da Silva. «Francisco Sanches busca o problema da verdade e da certeza ‘nas coisas da Natureza, na física, na metafísica e na matemática, com uma cultura universal própria dos homens do Renascimento’»


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«Perante o desespero, confessa ele na carta a C. Clávio, ‘que, de há muito, se apoderou de mim, de poder descobrir e conhecer a verdade no tocante às coisas humanas. E adiante acrescenta:
  • ‘Buscando eu, outrora, a verdade através da Física e da Metafísica, sem jamais a poder descortinar, alguém me disse ter ela estabelecido o seu poiso entre as coisas naturais e transnaturais, isto é, na Matemática’.
Quer dizer, Francisco Sanches busca o problema da verdade e da certeza ‘nas coisas da Natureza, na física, na metafísica e na matemática, com uma cultura universal própria dos homens do Renascimento’
Não a encontrou, porém, à sua volta. A metafísica com a sua teoria dos universais, abstracta, essencialista e nominalista; a física aristotélica, sem contacto com a experiência e sem busca de leis concretas, não lhe puderam dar resposta à sua pergunta de homem do Renascimento. Por outro lado pressentiu que a matemática o podia ajudar no caminho; mas também este pressentimento, quanto sabemos, não passou de aspiração frustrada.
Quando Francisco Sanches diz que procurou descobrir o caminho da verdade e da certeza através da metafísica, da física e da matemática, encontrava-se dentro do conceito de filosofia, tal como o entendiam as Escolas do seu tempo, seguindo aliás Aristóteles, para quem a filosofia correspondia em geral à ciência e incluía, além da metafísica, a matemática e a física.
E precisamente então, no tumultuar de ideias do Renascimento, dentro do conceito de filosofia aristotélica tradicional, surgia um conflito entre o conceito de metafísica e de ciência. A ciência tomava o novo rumo de ciência experimental, fruto da observação das causas próximas, da natureza; a metafísica continuava sendo a ciência do ser pelas causas últimas. Por outro lado a nova ciência, fruto da observação, recolheu sucessos sobre sucessos no campo dos conhecimentos naturais. A investigação da Natureza tornou-se portanto o campo mais dinâmico e palpável da filosofia. E Francisco Sanches aceita o desafio da ciência, ao afirmar perentoriamente que ‘a sua filosofia tem como objectivo o conhecimento da Natureza’; e assim busca com tanto maior afinco um método mais certo e fecundo que lhe abra perspectivas seguras no campo das ciências naturais quanto os métodos da Escola lhe pareciam mais inoperantes e inseguros para alcançar esse objectivo.


A sua filosofia, portanto, dirige-se ao conhecimento da Natureza. Ele mesmo nos diz que, desde o princípio da sua vida, se encontrou com este problema:
  • ‘Desde pequenino, dado à contemplação da natureza, inquiri tudo com minúcia’. E noutro lugar do Quod Nihit Scitur, ‘porque não hei-de duvidar se não posso conhecer a natureza das coisas? Desta é que deve ser a verdadeira ciência’.
Há nestas afirmações o equívoco, que é o grande equívoco da sua época, e que, como dizíamos, está também latente no seu conceito de filosofia. Como esta abarca a metafísica, as ciências naturais e a matemática, a palavra natureza encontra-se em Francisco Sanches ora no sentido metafísico ora no físico. Sanches baseia a investigação no sentido físico, a Escola respondia geralmente no sentido metafísico. Acontece, por isso, que a polémica levantada por Francisco Sanches consistirá frequentemente em refutar a metafísica como meio de conhecimento da Natureza, como propunha a Escola, e encontrar um novo meio ou método de conhecimento próprio das ciências da observação, como vai propor Francisco Sanches». In Lúcio Craveiro da Silva, Estudos de Cultura Portuguesa, Universidade do Minho, Centro de Estudos Humanísticos, Colecção Hepérides, Filosofia 2, Braga, 2002, ISBN 972-8063-14-8.

Cortesia da U. do Minho/JDACT

sábado, 18 de agosto de 2012

Francisco Sanches (1550-1623). Filósofo e professor. Craveiro da Silva. «…esta desilusão, como ele confessa, era no entanto fruto de uma busca incessante, de uma sede interior, não satisfeita, que se condensava sobre o problema da busca da verdade e da certeza sobretudo na investigação da Natureza»


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«Francisco Sanches, nascido em 1550 ou 1551, iniciou os seus estudos em Braga. Por volta de 1562 acompanhou seus pais para Bordéus e ai se matriculou no Colégio de Guyenne e mais tarde formou-se em Medicina na Universidade de Mompilher. A sua vida foi principalmente dedicada ao ensino na Universidade de Tolosa onde exerceu o magistério na Faculdade de Artes (1585-1610) e, depois do concurso, professor da faculdade de medicina da mesma Universidade desde 1610 até 1623, data do seu falecimento. Na Universidade de Tolosa conserva-se um quadro com o seu retrato, colocado por colegas, seus contemporâneos, com o letreiro:
  • ‘Franciscus Sanches Lusitanus’.
O livro que o celebrizou foi principalmente o ‘Quod Nihil Scitur’ (Que Nada se Sabe) e por isso a ele nos vamos referir pois a sua interpretação não é unânime: antes era considerado apenas como um grande céptico mas actualmente prefere-se ver nele o precursor do novo método de investigar as ciências.
Comecemos por situá-lo na sua época.
No Renascimento, juntamente com uma ampla oposição à filosofia da Escola que perdera o ímpeto criador do século XIII e se esgotava em dialécticas abstractas de análise sem interesse, renovou-se o estudo de novas correntes da filosofia antiga. O ‘Platonismo’ começou a ser cultivado e, com ele, o ‘Estoicismo’ e o ‘Epicurismo’.
E no final do período, como fruto destas correntes bastante dispersas, despontou também, como fruto de certo cansaço criador, o antigo cepticismo e a dúvida. Neste período ‘renascentino’, na busca de um novo sentido especulativo, não apareceu nenhum grande filósofo que o encarnasse.
Por isso, as novas correntes, mais do que em algum génio, devemos procurá-las sobretudo nas tendências inovadoras que pairavam no ambiente. Os autores que cultivavam essas tendências tinham consciência de criar um mundo novo pela maneira de encarar, através de um novo método ansiosamente procurado, o ‘Indivíduo’ e a ‘Natureza’. Daí a sua reacção generalizada contra a lógica e a dialéctica das Escolas e daí também a sua crítica contra a física e a antropologia aristotélicas e a cosmologia ptolomaica.
Esta mudança de perspectivas do pensamento metafísico e abstracto para o pensamento movido pelo interesse do concreto e da Natureza, e o proliferar de vários sistemas, uns arcaizantes e outros incoerentes, trouxe ao ânimo de Francisco Sanches, que em 1576 começava a lançar-se na tarefa filosófica de buscar a verdade e o método de saber interpretar a Natureza, um profundo desencanto; e esta base psicológica e cultural aproximou-o do cepticismo.
Francisco Sanches
  • ‘manuseava os escritos dos antigos, escreveu ele no Quod Nihil Scitur’, sondava o pensamento dos contemporâneos. Respondiam todos a mesma coisa, nada que me satisfizesse. Confesso que alguns ainda me apresentavam como que uns esboços de verdade. Não encontrei, contudo, ninguém que me declarasse, com sinceridade e sem tergiversações o que devia pensar acerca das coisas’. E quê? Cada qual trata de construir para si uma ciência com ideias próprias ou alheias; desta deduz outras e assim sucessivamente, a tal ponto que, por falta de análise profunda das coisas, constroem um labirinto de palavras sem qualquer fundamento de verdade. Nele aturdido nada ficarás a saber acerca da natureza das coisas’.
E a seguir enumera as escolas cujas soluções lhe parecem ineficazes e contraditórias em busca da verdade:
  • Daqui os Átomos de Demócrito, as Ideias de Platão, os Números de Pitágoras, os Universais e o Intelecto agente e o possível de Aristóteles. Com tudo isto apresentando-se como pioneiros das coisas ignoradas ou ocultas da natureza, vão arrebanhando a gente inculta.
Esta desilusão, como ele confessa, era no entanto fruto de uma busca incessante, de uma sede interior, não satisfeita, que se condensava sobre o problema da busca da verdade e da certeza sobretudo na investigação da Natureza». Lúcio Craveiro da Silva, Estudos de Cultura Portuguesa, Universidade do Minho, Centro de Estudos Humanísticos, Colecção Hepérides, Filosofia 2, Braga, 2002, ISBN 972-8063-14-8.


Cortesia da U. do Minho/JDACT

terça-feira, 11 de maio de 2010

Francisco Sanches: O elo perdido entre os descobrimentos e a ciência moderna

(1550/1551-1622)
Cortesia de purl
Francisco Sanches foi um médico, filósofo e matemático português. Nasceu no território pertencente à diocese de Braga, judeu convertido foi em 1550 baptizado na Igreja de São João do Souto, da mesma cidade, em 25 de Julho de 1551.
Saiu de Portugal muito novo, os escritos da época afirmam 12 anos, para estudar em Bordéus, onde se matriculou e frequentou o famoso colégio de Guyenne, que era um foco intenso de renovação intelectual, em que influíam o Renascimento italiano e o reformismo religioso.
Em 1573 matriculou-se na Faculdade de Medicina de Montpellier e, dois anos depois, fixou residência em Toulouse, onde foi director dos serviços médicos durante mais de trinta anos, cidade onde permaneceu até ao fim da vida, ensinando medicina. Foi considerado nesta universidade um dos mestres mais ilustres. Como homenagem póstuma foi colocado o seu retrato num dos ângulos da sala dos Actos e lá permanece. Também Braga não o esqueceu, levantando-lhe uma estátua e dando o seu nome a uma escola. 

Autógrafo no Diploma da Universidade de Mompilher
Cortesia de wikipédia
Além de médico foi também um eminente filósofo: contestou a filosofia de Aristóteles e o pretenso saber da escolástica, mostrando o falível do testemunho dos sentidos, denunciando a ineficácia dos métodos tradicionais e tentou definir o seu próprio ideal de conhecimento.
A sua obra principal saiu na I edição (Lyon, 1581), com o título «Quod nihil scitur» (Que nada se sabe), mas a II edição (Frankfurt, 1618), trouxe o título mais condicente com o seu pensamento: «De multum nobili et prima universali scientia quod nihil scitur».
Segundo Moreira de Sá, «Francisco Sanches, astrónomo, geómetra, filósofo e médico, observador infatigável da Natureza, autêntico protótipo do homem do Renascimento, legou-nos uma obra que foi o arauto da revolução filosófica dos séculos XVII e XVIII».

Cortesia de hemerotecadigital
Francisco Sanches, referenciado como um filósofo céptico, explorou a situação epistemológica do homem e tentou mostrar que as reivindicações do conhecimento do homem em todas as áreas do conhecimento levantavam muitas duvidas. A atitude filosófica de Sanches foi desenvolvida ao longo do século XVII por outros filósofos que, partindo do seu cepticismo, evoluíram para uma valorização do conhecimento científico a partir de uma interpretação hipotética e empírica. O seu pensamento é frequentemente apresentado como precursor da crítica gnoseológica cartesiana e do experimentalismo de Bacon. Na sua primeira obra, Quod nihil scitur (Que nada se sabe), revela-se contrário à pretensão de uma ciência feita e um adversário do dogmatismo científico-filosófico. Embora reconhecendo sempre a presença de um arquitecto supremo como origem de todo o universo, Sanches valoriza o plano experimental, considerando que o universo é um sistema de leis, excluindo todas as formas de conhecimento e de linguagem que impliquem deslocação de sentido. Manifesta também a sua insatisfação em relação à metafísica e à pseudo-ciência.
Quando esteve em Itália, especializou-se em estudos anatómicos e cirúrgicos, influenciado pelos trabalhos de Realdo Colombo e Vesálio.  A sua actividade enquanto médico deu origem à publicação, pelos seus filhos e por Delassus, da obra Opera Medica. Segundo Joaquim de Carvalho, «O seu conhecimento não arrancou de livros, mas da sua própria experiência e teve por objecto uma teoria da ciência e uma teoria explicativa da Natureza com o tipo de saber que o médico aplica».
Opera Medica
Cortesia wikipédia
Para um melhor conhecimento do pensamento filosófico e científico de Francisco Sanches, ler o texto de Pedro Calafate em Filosofia Portuguesa, no Centro Virtual Camões.
 Ler ainda o texto de Onésimo Teotónio de Almeida, em Episódios - Francisco Sanches - O «Elo perdido entre os descobrimentos e a ciência moderna».

Cortesia do Instituto Camões/JDACT