Mostrar mensagens com a etiqueta O Navegador da Passagem. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta O Navegador da Passagem. Mostrar todas as mensagens

segunda-feira, 21 de novembro de 2011

Bartolomeu Dias: «O “Capitão do Fim”. “Há tempos de coruja e tempos de falcão”, ouvira-lhe dizer mais de uma vez e, na verdade, D. João II mostrara-se no início da sua governação como a coruja, encoberta mas sempre à espreita, atacando na sombra para se assenhorear da sua presa. Agora, forte no seu pouso, como todos podiam ver, era chegado o tempo de o falcão voar à conquista de outros céus e de mais ricos terrenos de caça»

Cortesia de flickr

«Os leais servidores ali presentes, e ele era um dos seus mais fervorosos admiradores, sabiam que o “Príncipe Perfeito” não podia apresentar pontos fracos na sua governação. Fizera aumentar o seu poder esmagando o crescente número dos inimigos e descontentes, sobretudo entre a mais alta nobreza do reino e no seio da própria família, mandando degolar por crime de traição o duque de Bragança, D. Fernando, confiscando-lhe os vastíssimos domínios de terras, vilas e cidades, assim como os imensos bens de fortuna, em favor da Coroa.
Ao abater sem hesitações o mais poderoso fidalgo do reino, para mais seu primo e ainda cunhado da rainha, el-rei fizera despertar grande ódio e temor entre a nobreza, ciosa dos seus privilégios, nomes e brasões. Por obra da intervenção divina ou graças à sua poderosa rede de espiões, não tardara a descobrir uma nova conspiração para o assassinar, cujo chefe desta vez lhe era ainda mais próximo, pois se tratava de D. Diogo, o duque de Viseu, irmão preferido de D. Leonor e a quem ele criara em sua casa como a um filho. De novo se adiantara aos inimigos, atraindo o cunhado ao paço e, sem hesitações, apunhalara-o com a sua própria mão.

Cortesia de cnc

Ao receber a notícia da morte do irmão, a rainha rompera em gritos e prantos desesperados que se ouviram por todo o paço, sem que as aias lograssem impedi-la de arrancar os cabelos e torcer e ferir os braços e el-rei, informado do seu estado, fora visitá-la para lhe falar das culpas do irmão e das causas que tivera para o matar, mas, perante os seus gritos e a recusa de o ouvir, ameaçara-a de a tomar também por culpada na mesma intriga do duque de Viseu. D. Leonor, varada de medo, sufocara, então, o pranto mas não o ódio que lhe crescia no peito.

Os homens, nas cousas que lhe muito cumprem, dissera ao sair dos aposentos da esposa com o rosto fechado e os olhos raiados de vermelho, se de facto são homens, não devem ter nenhuma conta com as tenções nem desejos das mulheres, as quais são sempre mais inclinadas a seus particulares apetites e vontades, que a toda boa razão e honra de seus maridos.
Mandara prender e degolar em público, para servir de lição, todos os que haviam conspirado com o cunhado e nem escaparam os que haviam logrado fugir e esconder-se em Castela, julgando-se a salvo, Pois Pêro da Covilhã por lá andara, qual lebréu a farejar e a levantar a caça, até todos serem descobertos e o seu castigo confiado a alguns assassinos a soldo.
Ao todo, justiçara oitenta adversários, alguns de muita qualidade como Álvaro de Ataíde e Fernando de Meneses e, para não escandalizar as almas piedosas, fizera envenenar encobertamente, na cisterna onde o encarcerara, o bispo de Évora, seu inimigo principal.

Cortesia de retratosreaisportugueses

Só então os atemorizados opositores, entre os quais se incluía a rainha D. Leonor, encolheram as garras e converteram-se pelo menos aos olhos do mundo em vassalos submissos, tendo a Coroa ganho finalmente o poder e a riqueza de que o generoso D. Afonso V a esbulhara, entregando-os nas mãos gananciosas dos nobres, por via de mercês e privilégios. Mas por quanto tempo os guardaria?
Sois muito má de servir
e sois sempre ravinhosa,
nam quereis ver nem ouvir,
também tocais de raivosa;
sois soberba, sois infinta,
sois muito forte mulher.

A sua atenção fora mais uma vez desviada para o jogo das cartas. A trova lançada àquela dama da rainha poderia servir também à Sereníssima Senhora, sua ama, e escutou-a como um aviso e uma ameaça a el-rei que se mostrava sempre indiferente ante o perigo.
Há tempos de coruja e tempos de falcão”, ouvira-lhe dizer mais de uma vez e, na verdade, D. João II mostrara-se no início da sua governação como a coruja, encoberta mas sempre à espreita, atacando na sombra para se assenhorear da sua presa. Agora, forte no seu pouso, como todos podiam ver, era chegado o tempo de o falcão voar à conquista de outros céus e de mais ricos terrenos de caça.
Os arautos e passavantes tocaram as trombetas, anunciando a sua chegada e pondo fim ao jogo de cartas. Sua Alteza entrou na sala com o bispo D. Diego de Ortiz e os seus conselheiros mais privados, tomando assento na cadeira real, com os pés pousados sobre uma almofada de veludo carmesim». In Navegador da Passagem, Deana Barroqueiro, Porto Editora, 2008.

Wikipédia/Deana Barroqueiro/Porto Editora/JDACT

domingo, 20 de novembro de 2011

Bartolomeu Dias: «O “Capitão do Fim”. Não muito longe do estrado, um numeroso grupo de damas e gentis-homens jogava um jogo de cartas com trovas da invenção de Garcia de Resende, o escrivão da puridade d'el-rei e poeta nas horas vagas, muito ao gosto da corte…»

Cortesia de vidaslusofonas

«As paredes da sala principal da casa onde pousava D. João II tinham sido revestidas, para a audiência, de ricos panos de seda e de rás. Sobre um alto estrado forrado de veludo vermelho, com dossel de brocado carmesim, sentados de cada lado da cadeira real ainda vazia, a sereníssima rainha D. Leonor e o príncipe presidiam aos jogos e danças com que os cortesãos entretinham a espera da embaixada. De pé, um pouco atrás da rainha, viu o duque D. Manuel a quem el-rei concedera os bens e títulos de duque de Viseu e de Beja, do primogénito Diogo, a fim de apaziguar a esposa e manter satisfeito esse cunhado ambicioso, dissimulado e escorregadio como uma enguia.

Ao chegar da sua ultima viagem, achara D. Afonso muito formoso e espigado para os seus quase doze anos de idade, porém mais inclinado às coisas do avô D. Afonso V que às de seu pai, como este mesmo reconhecia. “É mais brando e macio do que cumpre a um príncipe herdeiro de um grande trono”, ouvira-o dizer um dia, vendo o filho trocar o jogo de canas pelo sarau de poesia. Desta vez, a função a que assistia seria seguramente ao gosto do moço príncipe.
Seu pai ordenara a todos os que tinham logrado permissão de assistir ao recebimento das embaixadas para se apresentarem em trajo de gala e com os seus melhores atavios, no que fora prontamente obedecido, pois, dada a singular austeridade de D. João e o seu defeso de luxos e ostentações, escasseavam as ocasiões para os cortesãos alardearem a sua opulência e supremacia e ninguém iria desperdiçar tão raro ensejo. Assim, os nobres e as suas damas luziam com soberba galanteria as sedas e brocados roçagantes, cheios de cor e de bordados, adornados com as suas mais belas jóias de oiro e pedraria.

Cortesia de esquilo

De igual modo, os oficiais do serviço de Sua Alteza trajavam de veludo e os seus moços e criados vestiam as librés de gala, desde o mordomo-mor, que dirigia as cerimónias, ao porteiro-mor, com a sua hoste de porteiros de maça e reis d'armas, assim como o vedor-mor, com os vedores da Fazenda, os dois mestres-sala ou ainda a capela real com todos os seus tangedores e cantores, além de inúmeros arautos e passavantes com trombetas, tambores, charamelas e sacabuxas, todos engalanados.

NOTA: Charamela era um instrumento musical com uma palheta metida numa caixa que se soprava com força, como nas buzinas. A sacabuxa assemelhava-se a uma trompa.

Não muito longe do estrado, um numeroso grupo de damas e gentis-homens jogava um jogo de cartas com trovas da invenção de Garcia de Resende, o escrivão da puridade d'el-rei e poeta nas horas vagas, muito ao gosto da corte, como lhe era dado ver pela grande animação dos jogadores, com os risos e malícias que ecoavam pela sala, de mistura com algumas zangas e amuos dos perdedores. Por desfastio, juntou-se aos espectadores que aplaudiam e vaiavam os jogadores.
Havia quarenta e oito cartas, cada uma com sua trova escrita, metade de mulheres e metade de homens, sendo doze trovas de louvor e doze de deslouvor para cada grupo. Bem baralhadas as cartas, o jogador tirava uma em nome de certa dama ou de gentil-homem e lia a trova em voz alta em sendo de louvor, aplaudia-se o visado, em sendo de escárnio, todos apupavam e se riam do desafortunado ou da desventurada. Ouviu o nome de um seu conhecido e prestou atenção à leitura da maliciosa D. Joana de Mendonça que proclamava:

Vossos dias já passaram,
logo pareceis passado,
sois das damas enjeitado
e nunca vos enjeitaram.

Cortesia de jcabral

Não pôde deixar de sorrir, pois, pelo menos naquele caso, a trova de escárnio acertara em cheio, visto o fidalgo ser bem servido de anos, muito emproado e amador confesso de damas a quem muito importunava e que dele zombavam sem dó nem piedade:

Sois mais pai que servidor,
sois mais avô que galante,
por isso des hoje avante
deixai as damas, senhor.

Ainda os risos não tinham esmorecido e já o estribeiro-mor, Francisco Homem, lia a sua trova a uma dama, cujo nome não ouvira, de novo absorto em outros pensamentos, com o olhar preso no estrado onde se sentavam as três pessoas mais chegadas a el-rei, o seu filho e herdeiro, a mulher e o cunhado e, no entanto, os dois últimos haveriam de ser os seus maiores inimigos, dissimulados e feros, trabalhando à sombra dos parentes de Castela, não desperdiçando a mínima ocasião de se opor aos seus desígnios». In Navegador da Passagem, Deana Barroqueiro, Porto Editora, 2008.

Continua
Wikipédia/Deana Barroqueiro/Porto Editora/JDACT

sexta-feira, 9 de abril de 2010

Caravela dos Descobrimentos: Um navio adequado para a exploração marítima

novafloresta
O termo caravela ocorre pela primeira vez na documentação portuguesa em 1255, encontrando-se ainda em 1754, numa obra impressa, e num manuscrito de 1766. É portanto fácil de compreender que encobre referências a múltiplas embarcações, desde a pequena caravela latina de um mastro até à caravela redonda ou de armada, passando pela caravela latina de dois mastros, que protagonizou as viagens de exploração atlântica até 1488, sem deixar porém de continuar a ser utilizada depois desta data em várias circunstâncias.

Cadamostro, navegador de Veneza, dissera um dia: «... serem as caravelas portuguesas os melhores navios de vela que andavam sobre o mar e, se fossem providas de todo o necessário, poderiam navegar por toda a parte...»
A caravela latina apareceu nos Descobrimentos em 1440, segundo atesta Zurara: «Bem é que no ano de 40 se armaram duas caravelas a fim de irem àquela terra do Rio do Ouro, mas porque houveram acontecimentos contrários, não contamos mais de sua viagem». In rónica dos Feitos de Guiné, cap. XI.
Tratar-se-ia da caravela com dois mastros de pano latino, uma coberta e um pequeno castelo de popa, com um só piso, com cerca de 50 tonéis de arqueação. Navio ideal para singrar em mares desconhecidos, pela facilidade com que bolinava (isto é, progredia em ziguezague contra o sentido dominante do vento), a caravela podia navegar junto à costa e entrar em embocaduras de rios: um navio adequado para a exploração marítima, portanto. Mas é também o maior navio até então empregue nas viagens de descobrimento, representando por isso a vantagem e necessidade de progredir para Sul com uma embarcação capaz de levar os tripulantes até mais longe, combinando uma autonomia adequada com as qualidades marinheiras que essas viagens exigiam.

Foi por isso o navio empregue nestas viagens até Bartolomeu Dias dobrar o cabo da Boa Esperança. Mas é bem provável, como aventou Jorge de Matos, que o impedimento para a continuação da última viagem de Diogo Cão (terminada em 1486 ou 1487) tenha sido precisamente a falta de autonomia da caravela, agora patente pelo alongamento das explorações marítimas. Ou seja, o navegador ter-se-ia visto constrangido a voltar para trás, face a uma costa desértica (onde não tinha a certeza de poder reabastecer-se) e sem provisões que garantissem o retorno com segurança (sobretudo água potável). Em reforço desta explicação ocorre o facto de a armada de Bartolomeu Dias incorporar uma naveta para abastecimentos, capitaniada por seu irmão Diogo Dias, que foi abatida uma vez cumprida a sua função, servindo de apoio às duas caravelas de exploração. Depois do regresso a Lisboa, em finais de 1488, os navegadores deram conta ao rei da sua impossibilidade de prosseguir a viagem por não terem navios fortes para enfrentar os «mares grossos» que encontraram. Por isso, Vasco da Gama levará naus na primeira viagem a fazer a ligação marítima com o Oriente, navios que, entre outras vantagens apresentavam uma capacidade de carga muito superior, e portanto maior autonomia nas viagens de longo curso.

A Caravela Vera Cruz nos 150 Anos da A.N.L
«Eram formosíssimas, de pequeno calado, muito veleiras e demandando pouca água, portanto aptas a navegar junto à costa, com as suas velas triangulares e o casco mais comprido e estreto do que o das naus ou de qualquer outro navio de vela, mas arredondado e de bordadura alta. Ofundo era estreito e o casco terminava num esporão de abordagem, só com um castelo na popa, para que à proa nada impedisse a caravela de cortar oa ventos, podendo virar de bordo com grande rapidez». In O Navegador da Passagem.
Na documentação técnica existem regimentos relativos à construção de outro tipo de caravelas. As caravelas redondas, um nome moderno que vingou na historiografia, pela mesma razão que se chamam  navios como a nau ou o galeão. Ou seja, são navios que armam pano redondo, na realidade velas com formato trapezoidal, ganhando aquela designação pelo aspecto que tomam quando enfunadas pelo vento. Caravelas armadas ou de armada são designações de época, que indiciam a sua funcionalidade. Caravela de armada significa quase sempre que se destinava à navegação em armada ou ao serviço de armadas.
A caravela redonda possui castelos de popa e proa, ao contrário da latina, que não pode ter qualquer estrutura erguida sobre a proa do navio, por causa da manobra da verga do mastro do traquete. Deste ponto de vista, a caravela redonda está mais próxima das naus e galeões que da sua congénere latina.
Descobrimentos, viagens e explorações portuguesas: datas e primeiros locais de chegada de 1415-1543, principais rotas no Oceano Índico (azul), territórios portugueses no reinado de D. João III (verde)

Não existe qualquer indicação minimamente segura quanto à cronologia dos diversos tipos de caravelas, depois de estabelecida a primazia da latina de dois mastros nas navegações atlânticas da segunda metade de Quatrocentos. Pimentel Barata avançou a hipótese de a caravela latina de três mastros ter aparecido já pelos finais do século XV  embora só se documente pelo primeiro quartel da centúria seguinte.
Nos finais desse século as caravelas utilizadas eram de 50 tonéis, com castelos da popa de dois pisos, dois mastros com panos latinos e bocas de fogo para falcões (as peças de artilharia que o calado permitia), navios velozes, capazes de lutar contra mares tempestuosos e ventos poderosos»  « ... eram como gaivotas, capazes de voar por entre quaisquer cabos, pontas e promontórios e também de pousar em qualquer angra, praia, além de fugir dos perigos tão rápida como o vento... » In O Navegador da Passagem.    
Teria já dois pavimentos à popa, tolda e chapitéu aberto à ré, e uma mareagem de grades à proa. Para a tonelagem avençou os 100 tonéis, o que parece ser perfeitamente razoável, dado o comprimento de quilha requerido para a implantação de três mastros. A caravela redonda ou de armada ter-lhe-ia sucedido pelo segundo quartel do século, tomando paulatinamente o lugar da forma anterior (Pimentel Barata, op. cit., pp. 30-31). Julgamos porém ser muito plausível que a caravela redonda tenha aparecido bem mais cedo, muito provavelmente com a viagem de Pedro Álvares Cabral.
Wikipédia/Instituto Camões/JDACT

quarta-feira, 7 de abril de 2010

Bartolomeu Dias: O «Capitão do Fim»

Rota da viagem de Bartomoleu Dias (1487-88)
Wikipédia
Bartolomeu Dias (c. 1450 - 1500) foi um navegador português que ficou célebre por ter sido o primeiro europeu a navegar para além do extremo sul de África, «dobrando» o Cabo da Boa Esperança e chegando ao oceano Índico a partir do Atlântico
Jaz aqui, na pequena praia extrema,
O Capitão do Fim. Dobrado o Assombro,
O mar é o mesmo: já ningém o tema!
Atlas, mostra alto o mundo no seu ombro.
(Fernando Pessoa, «epitáfio de Bartolomeu Dias», in Mensagem)
(Deana Barroqueiro)
Dele, que possuía origens judaicas, não se conhecem os antepassados, mas mercês e armas a ele outorgadas passaram a seus descendentes. Seu irmão foi Diogo Dias. Há quem o diga descendente de Dinis Dias escudeiro de D. João I e como navegador descobrira Cabo Verde em 1445. Ignora-se onde e quando nasceu, no entanto alguns historiadores sustentam ter ele nascido em Mirandela, Trás-os-Montes.
Na sua juventude terá frequentado as aulas de Matemática e Astronomia na Universidade de Lisboa e serviu na fortaleza de São Jorge da Mina. Estava habilitado quer a determinar as coordenadas de um local, quer a enfrentar tempestades e calmarias como as do Golfo da Guiné.

Estátua de Bartolomeu Dias na Cidade do Cabo
Wikipédia
Em 1486, D. João II confiou-lhe o comando de duas caravelas e de uma naveta de mantimentos com o intuito público de saber notícias do Preste João. Ao comando da caravela S. Pantaleão estava João Infante. O propósito não declarado da expedição seria investigar a verdadeira extensão para Sul das costas do continente africano, de forma a avaliar a possibilidade de um caminho marítimo para a Índia. Porém antes disso, capitaneara um navio na expedição de Diogo de Azambuja ao Golfo da Guiné.

Segundo as palavras de Deana Barroqueiro: «Bartolomeu Dias aparece-nos como um comamdante a quem não é atribuído o justo valor e como um homem que caminha para a morte triste e amargurado, sem saudades do passado, mas orgulhoso do que fez e capaz de reconstituir passo a passo a viagem que o tornou o primeiro português a ultrapassar o Cabo e a abrir o caminho para o grande desígnio de D. João II». «Vivendo sob a égide de três reis, em tempo de grandes perturbações políticas e sociais, mas também de intensa efervescência cultural e científica, Bartolomeu Dias foi espectador, agente e por vezes peão nos lances mortais dos perigosos jogos de poder...». «Entregara-se de corpo e alma à empresa, porém o Venturoso, em favorecimento dos seus validos, acabara por lhe negar a honra que lhe pertencia por direito próprio, concedendo-a a Vasco da Gama. Mas atropelos e injustiças...». Como dissera um poeta:
Faz o tempo outra volta:
tornam-se boas vontades
maus desejos,
honram mais quem mais se solta,
e em todalas verdades
catam pejos.
Marinheiro experiente, o primeiro a chegar ao Cabo das Tormentas, como o batizou em 1488, um dos mais importantes acontecimentos da história das navegações. A expedição partiu de Lisboa em Agosto de 1487. Em Dezembro atingiu a costa da actual Namíbia, o ponto mais a sul cartografado pela expedição de Diogo Cão. Continuando para sul, descobriu primeiro a Angra dos Ilhéus, sendo assaltado, em seguida, por um violento temporal. Treze dias depois, procurou a costa, encontrando apenas o mar. Aproveitando os ventos vindos da Antárctica, que sopram vigorosamente no Atlântico Sul, navegou para nordeste, redescobrindo a costa, que aí já tinha a orientação este-oeste e norte (já para leste do Cabo da Boa Esperança, que foi renomeado pelo rei português D. João II, assegurando a esperança de se chegar à Índia. Continuou para leste, cartografando diversas baias da costa da actual África do Sul (úteis no futuro como portos naturais), e chegando até à baía de Algoa (800 km a leste do cabo da Boa Esperança), então conhecido como Cabo das Tormentas.
Bartolomeu Dias foi o primeiro navegador a navegar longe da costa no Atlântico Sul. A sua viagem, continuada por Vasco da Gama, abriu o caminho maritimo para a Índia.

Seria em 1500 o principal navegador da esquadra de Pedro Álvares Cabral. A carta de Pero Vaz de Caminha faz diversas referências a ele, apontando para a confiança total que nele tinha Cabral. Quando a armada navegava em direção ao Cabo, após sua estada no Brasil, um forte temporal causou o naufrágio de quatro naus, entre elas a de Bartolomeu Dias.
«... com a sua espantosa façanha, ultrapassou a dimensão de português e fez-se História de outras nações como a África do Sul onde, com direito a estátua e museu, goza de estatuto de herói primordial...». In Navegador da Passagem.
Wikipédia/Deana Barroqueiro/Porto Editora/JDACT