Mostrar mensagens com a etiqueta Ruy Belo. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Ruy Belo. Mostrar todas as mensagens

domingo, 16 de abril de 2017

Poesia. Garcia Lorca. Ruy Belo. «Sin ningún viento, hazme caso! Gira, corazón; gira, corazón … Caiam agora pálpebras que cerrem o sacrifício que em nossos gestos há de sermos diários por fora»

jdact

Veleta

«Viento del Sur,

moreno, ardiente,

llegas sobre mi carne,

tiayéndome semilla

de brillantes

miradas, empapado

de azahares.


Pones roja la luna

y sollozantes los álamos cautivos, pero vienes

demasiado tarde!

ya he enrollado la noche de mi cuento

en el estante!


Sin ningún viento,

hazme caso!

Gira, corazón;

gira, corazón.


Aire del Norte,

oso blanco del viento!

llegas sobre mi carne

tembloroso de auroras

boreales,

con tu capa de espectros

capitanes,

y riyéndote a gritos

del Dante,

oh pulidor de estrellas!

pero vienes demasiado tarde.


Mi almario está musgoso

y he perdido la llave.


Sin ningún viento,

hazme caso!

Gira, corazón;

gira, corazón.


Brisas, gnomos y vientos

de ninguna parte.

Mosquitos de la rosa

de pétalos pirámides.

Alisios destetados

entre los rudos árboles,

flautas en la tormenta,

dejadme!

tiene recias cadenas

mi recuerdo,

y está cautiva el ave

que dibuja con trinos

la tarde.


Las cosas que se van no vuelven nunca

todo el mundo lo sabe,

y entre el claro gentío de los vientos

es inútil quejarse.

Verdad, chopo, maestro de la brisa?

Es inútil quejarse!


Sin ningún viento,

hazme caso!

Gira, corazón;

gira, corazón».

In Garcia Lorca. Libro de Poemas. Julio de 1920. (Vaqueros, Granada.)


Acontecimento
Aí estás tu à esquina das palavras de sempre

Amor inventado numa indústria de lábios

que mordem o tempo sempre cá.

E o coração acontece-nos

como uma dádiva de folhas nupciais

nos nossos ombros de outono.

Caiam agora pálpebras que cerrem

o sacrifício que em nossos gestos há

de sermos diários por fora.

Caiam agora que o amor chegou

In Ruy Belo. Obra Poética


JDACT

domingo, 6 de julho de 2014

Dire Straits. Adolescência / Juventude. «Mas se amanhã me olhares o teu olhar levantará nuvens de séculos sobre o meu caminho de pó. As folhas são pelo menos tão naturais como as palavras e a radical árvore tinha sido embora trabalhada vegetal e verde»

jdact e wikipedia


Povoamento
«No teu amor por mim há uma rua que começa.
Nem árvores nem casas existiam
antes que tu tivesses palavras
e todo eu fosse um coração para elas.
Invento-te e o céu azula-se sobre esta
triste condição de ter de receber
dos choupos onde cantam
os impossíveis pássaros
a nova primavera.
Tocam sinos e levantam voo
todos os cuidados
ó meu amor nem minha mãe
tinha assim um regaço
como este dia tem.
E eu chego e sento-me ao lado
da primavera».


JDACT

terça-feira, 1 de janeiro de 2013

Obra Poética. Ruy Belo. «Mas quem teve a dádiva da evidência de si, como condenar-se a si ao silêncio? Ninguém pode pagar, nada pode pagar a gratuitidade deste milagre de sermos. Que ao menos nós lhe demos, a isso que somos, a oportunidade de o sermos até ao fim»

jdact

Composição de lugar
Não caibo nesta tarde que me desfolhas
sobre o coração. Renovam-se-me sob os passos
todos os caminhos e o dia é uma página que lida
e soletrada descubro inatingível como o vento a rua e a vida.
As mesmas mãos que antes desfraldavam
domésticas insígnias abaixo dos beirais
emprestam novos pássaros às árvores.
Pétala a pétala chego à corola desta minha hora.
Roubo o meu ser a qualquer outro tempo
não há em mim memória de alguma morte
em nenhum outro lugar me edifiquei.
Arredondas à minha volta os lábios para me dizer
recuo de repente àquele princípio que em tua boca tive.
Eu sei que só tu sabes o meu nome
tentar sabê-lo foi afinal o único
esforço importante da minha vida.
Sinto-me olhado e não tenho mais ser
que ser visto por ti. Há no meu ombro lugar
para o teu cansaço e a minha altura é para ser medida
palmo a palmo pela tua mão ferida.

Segunda Infância
À tua palavra me acolho lá onde
o dia começa e o corpo nos renasce.
Regresso recém-nascido ao teu regaço
minha mais ,funda infância meu paul.
Voltam de novo as folhas para as árvores
e nunca as lágrimas deixaram os olhos.
Nem houve céus forrados sobre as horas
nem míseras ideias de cotim
despovoaram alegres tardes de pássaros.
O sol continua a ser o único
acontecimento importante da rua.
Eu passo mas não peço às árvores
coração para além dos frutos.
Tu és ainda o maior dos mares
e embrulho-me na voz com que desdobras
o inumerável número dos dias.


Tarde interior
Vem ao meu pátio ver crescer a sombra
ó cheia de dois olhos minha amiga.
Olha-me olha-me como quem chove
conicamente sobre
um coração deposto
do corpo que o cercava

No ulmeiro do caminho
vegetal comentador do nosso amor
a folha tímida não partiu ainda
e ameaça encher a tarde toda.
Cubra-te ela a fronte
quando morrer aquém dos pássaros.

Repousa minha amiga as mãos
sobre o lugar onde estiveram as palavras
e que os gestos
arredondem um templo para a luz
que dos olhos despedes.

Já nos pesa nos pés a sombra
e pomos-lhe por cima o pensamento.

Acontecimento
Aí estás tu à esquina das palavras de sempre
Amor inventado numa indústria de lábios
que mordem o tempo sempre cá.
E o coração acontece-nos
como uma dádiva de folhas nupciais
nos nossos ombros de outono.
Caiam agora pálpebras que cerrem
o sacrifício que em nossos gestos há
de sermos diários por fora.
Caiam agora que o amor chegou

Poemas de Ruy Belo, in “Obra Poética

JDACT

domingo, 9 de dezembro de 2012

Obra poética de Ruy Belo. Aquele grande rio Eufrades. «A poesia deste homem caminhava entre o peso da superfície ocasional do mundo e devaneios de sentido onde o real confrontado se trespassava de mais que real, onde o mundo adivinhava e temia e recuava face a um outro mundo»

jdact e cortesia de wikipedia

Sepulcro dos dias
Eu sei que tu me esperas pela boca do dia
redondo sobre ti como um desejo
e que quando toda a paisagem for vã
hás-de proteger-me com tua chuva de linhas.

E no entanto paramentado com ideias de circunstância
talvez eu me olhe em outros espelhos e admita
conceitos arejados como tapetes esquecido
de que tu continuas a subir do sepulcro dos meus dias
como o primeiro orvalho que a donzela
contente por ter a possibilidade de ser vista de fora
recebe na cara ao abrir a janela.

Mas se amanhã me olhares o teu olhar levantará
nuvens de séculos sobre o meu caminho de pó.
As folhas são pelo menos tão naturais como as palavras
e a radical árvore onde te imolaram tinha sido
embora trabalhada vegetal e verde.

 
Imóvel viagem
Coisas gloriosas se têm dito de ti
árvore mais verde de quantas há não há na vida
praia prometida no fundo dos mais belos
dos menos intencionais dos mais
inexplorados olhos.
E só para ti senhor não haver
lugar na cidade nem mãos com que te ungir.
Servissem-te ao menos meus dias de espaço
não tenho nada já para morrer
abrir-te os braços é tudo o que faço.

Passaste numa nuvem pelos costumados gestos
qual onda que recua roubaste-mos ao dia
aí teve princípio toda a salvação.

Havia-me colinas prometidas
e lagos redondos como a minha sede de cervo.
Mas reduzi-me à tua irregular geografia
ó foz deste rio irrequieto.
Não há nenhuma outra paisagem
mais do que a tua cruz simplificada.


Povoamento
No teu amor por mim há uma rua que começa.
Nem árvores nem casas existiam
antes que tu tivesses palavras
e todo eu fosse um coração para elas.
Invento-te e o céu azula-se sobre esta
triste condição de ter de receber
dos choupos onde cantam
os impossíveis pássaros
a nova primavera.
Tocam sinos e levantam voo
todos os cuidados
ó meu amor nem minha mãe
tinha assim um regaço
como este dia tem.
E eu chego e sento-me ao lado
da primavera.

Poemas de Ruy Belo, in ‘Obra Poética’

JDACT

domingo, 18 de novembro de 2012

Há dias assim… Poesia (responsável por universalidade…). Ruy Belo. «A poesia caminhava entre o peso da superfície ocasional do mundo e devaneios de sentido onde o real confrontado se trespassava de mais que real. A sua poesia é o lugar do mundo…»

Cortesia de wikipedia

Dedicatória

A Primeira Palavra
Acompanhando a recente curvatura da terra
o primeiro olhar descreveu a sua órbita
sobre as oliveiras. Só mais tarde
a pomba roubaria o ramo
e iria de árvore em árvore propagar a Primavera.
Foi então que os olhos se cruzaram
e estava dita a primeira palavra
à superfície do tempo.

Elogio da Amada
Ei-la que vem ubérrima numerosa escolhida
secreta cheia de pensamentos, isenta de cuidados.
Vem sentada na nova Primavera
cercada de sorrisos no regaço lírios
olhos feitos de sombra de vento e de momento
alheia a estes dias que eu nunca consigo.
Morde-lhe o tempo na face as raízes do riso
começa para além dela a ser longe.
A amada é bem a infância que vem ter comigo.
Há pássaros antigos nos límpidos caminhos
e mortos como antes nunca mais.
Ei-la já que se estende ampla como uma pátria
no limiar da nossa indiferença.
Os nossos átrios são para os seus pés solitários.
Já todos nós esquecemos a casa dos pais
ela enche de dias as nossas mãos vazias.
A dor é nela até que deus começa,
eu bem lhe sinto o calcanhar do amor.
Que importa sermos de uma só manhã e não haver
árvore mais açoitada pelos diversos ventos?
Que importa partirmos num desmoronar de poentes?
Mais triste mesmo a vida onde outros passarão
multiplicando-lhe a ausência que importa
se onde pomos os pés é Primavera?
 
Condição da Terra
A minha amada chega no ar dos pinhais
cingida de resina vária como o cedro
e a maresia. Levanta-se lábil
e compromete solene o séquito da aurora.
Ou vem sobre os rolos do mar
cheia de infância pequena de destino.
Também a trazem às vezes aves como a pomba
que os mercadores ouviram
em países distantes. Tem brilhos
nos olhos de veado como se buscara
a grande fonte das águas.
Que nome tem a minha amada?
Como chamá-la se nenhum
conceito a contempla?
Em que palavra envolvê-la?
A minha amada não é da raça de estar
como o homem posta sobre a terra.
Que pés lhe darão
este destino de serem
mais ágeis do que nós os sonhos?
Ombro como o meu será lugar para ela?
Que anjo em mim a servirá?
Ai eu não sei como recebê-la
Eu sou da condição da terra
que tacteio de pé. Quase árvore
não me vestem convenientemente as estações
nem me comenta a sorte
o canto pontiagudo dos pássaros.

Vem domesticamente minha amada.
Receber-te-ei aquém dos olhos
com este humilde cabedal de dias.

Mas basta que venhas quando eu diga
do alto de mim próprio sim à terra.

Poemas de Ruy Belo, in ‘Aquele grande rio Eufrades, Dedicatória’, 1961

JDACT

sexta-feira, 26 de outubro de 2012

Obra poética de Ruy Belo. Aquele grande rio Eufrades. «A morte é a grande palavra desse homem não há outra que o diga a ele próprio. É terrível ter o destino da onda anónima morta na praia»

jdact

Para a Dedicação de um Homem
Terrível é o homem em que o senhor
desmaiou o olhar furtivo de searas
ou reclinou a cabeça,
ou aquele disposto a virar decisivamente a esquina.
Não há conspiração de folhas que recolha
a sua despedida. Nem ombro para o seu ombro
quando caminha pela tarde acima.
A morte é a grande palavra desse homem
não há outra que o diga a ele próprio.
É terrível ter o destino
da onda anónima morta na praia.

A Multiplicação do Cedro
O senhor deus é espectador desse homem.
Encheu-lhe o regaço de dias e soprou-lhe
nos olhos o tempo suave das árvores.
Deu-lhe e tirou-lhe uma por uma
cada uma das quatro estações.
A Primavera veio e ele árvore singular
à beira do tempo plantada
vestiu-se de palavras.
E foi a folha verde que deus passou
pela terra desolada e ressequida.
Quando as palavras o deixaram de cobrir,
ficaram-lhe dois dos olhos por onde
o senhor olha finitamente a sua obra.
Até que as chuvas lhe molharam os olhos
e deles saíram rios que foram desaguar
ao grande mar do princípio.

Poema quase Apostólico
Está sereno o poeta.
Desprende-se-lhe dos ombros e cai
depois em pregas por ele abaixo a manhã.
Não pertencem ao dia os gestos que ele tem
não morrerão na noite seus assombrosos passos
dizem que ele volta a pôr em movimento a roda
de crianças de atitudes desmedidas
que o vento varreu e parque algum queria.
E abre os braços para deixar cair na cidade
um ano favorável ao senhor
e põe o rosto do senhor por trás das suas palavras.
Elas decerto o hão-de dar a quem as demandar.

Homem para Deus
Ele vai só ele não tem ninguém
onde morrer um pouco toda a morte que o espera
se é ele o portador do grande coração
e sabe abrir o seio como a terra,
temei não partam dele as grandes negações.
Que há de comum entre ele e quem na juventude foi
que mão estendem eles um ao outro
por sobre tanta morte que nos dias veio?
É no seu coração que todo o homem ri e sofre,
é lá que as estações recolhem findo o fogo
onde aquecer as mãos durante a tentação
é lá que no seu tempo tudo nasce ou morre.
Não leva mais de seu que esse pequeno orgulho
de saber que decerto qualquer coisa acabará
quando partir um dia para não voltar
e que então finalmente uma atitude sua há-de implicar,
embora diminuta uma qualquer consequência.
O que deus terá visto nele para morrer por ele?
Oh que responsabilidade a sua
que não dê como a árvore sobre a vida simples sombra
que faça mais do que crescer e ir perdendo vestes.

Oh que difícil não é criar um homem para deus!

Poemas de Ruy Belo, in ‘Obra Poética’

JDACT

sábado, 12 de novembro de 2011

Pedro Eiras. Ruy Belo, a habitação do mundo. «De muitas delas de resto falei, não sei talvez eu me possa enganar, foram tantas as vezes que me enganei mas por trás da mulher da terra e do mar…»

Cortesia de sputnikmmx

Surpreender o Lugar
Há outra forma de justeza, que não passa pela medição de distâncias. Nem pela habitação propriamente dita (o que é, insisto, uma tautologia) - mas pela transgressão pura da habitação: o salto. Ou seja: em Ruy Belo, o homem que habita a terra habita além da terra. Em “Homem de Palavra[s]”:

Amei a mulher amei a terra amei o mar
amei muitas coisas que hoje me é difícil enumerar
De muitas delas de resto falei
Não sei talvez eu me possa enganar
foram tantas as vezes que me enganei
mas por trás da mulher da terra e do mar
pareceu-me ver sempre outra coisa talvez o senhor
É esse o seu nome e nele não cabe temor
Mas depois deste sonho sou obrigado a cantar:
Eis que o senhor está neste lugar
[…]
Aqui - mulher terra mar -
Aqui só pode ser a casa de deus

Acompanha-se a “heurese”, passo a passo, no poema: a evidência em «Amei a mulher amei a terra amei o mar», a transcendência - cega - quando «por trás da mulher da terra e do mar / pareceu-me ver sempre outra coisa talvez o senhor», a síntese justa (justeza, justiça?) de «Aqui - mulher terra mar - / Aqui só pode ser a casa de deus». Resposta humilde: «deus», com minúscula, é a terra, mesmo se é preciso ver «por trás [...] da terra» - cegar? O poema não é dialéctico, se se resolve nesse “por trás de”, que interrompe fulgurantemente a indagação, e mesmo se esse lugar de transcendência é suspeito de engano («foram tantas as vezes que me enganei»).

Há outros exemplos, incontáveis.
[…]

Simone Weil, quase no início de “O Enraizamento”:
  • «Se mantivermos sempre presente no espírito o pensamento de uma ordem humana verdadeira [...] estaremos na situação de um homem que anda na noite, sem guia, mas pensando sem descanso na direcção que quer seguir. Para um tal viajante, existe uma grande esperança».
In Pedro Eiras, Ruy Belo: a habitação do mundo, Colóquio e Letras.

Cortesia da FC Gulbenkian/JDACT

Luisa Freire. Ecos. Gustav Mahler: «… o eco do mundo em nós e o eco de nós em nós mesmos, som que repetimos de mil maneiras gastas quando nos gastamos a procurar dizer-nos»


Cortesia de novelosdesilencio e meggouveia

Ecos
Gustav Mahler: Sinfonia nº 5, Quarto andarnento

Este “Adagietto”, diz-se, terá sido enviado
na sua partitura inicial como uma carta
de amor.

Pode ser, sim, um poema de amor
uma elegia, uma oração
um canto de tristeza
um hino à solidão.

O som estende a sua sombra
pelo desejo em suspenso -
contido e declarado,
em crescendo mas calado e
repetido.

É, assim a música:
tudo cabe nela quando ela nos enche.

O eco é uma palavra curta nas letras e ampla
no sentido: ele é tudo o que fica a ressoar
ou a repetir o mesmo som.

Dele o dicionário dá uma longa definição onde
entram as leis da física, mas do eco diz também:
«lugar onde se produz o eco».

Somos então o lugar e o próprio som -

o eco do mundo em nós e
o eco de nós em nós mesmos,
som que repetimos de mil maneiras gastas
quando nos gastamos a procurar dizer-nos

ou a tentar descobrir a palavra exacta, a que liberta,
para encontrar apenas a palavra surda e sonsa

aquela que só ouve o que lhe apraz e que só diz
o que lhe interessa.
Poema de Luísa Freire, in «Colóquio Letras»

JDACT

Ruy Belo. Carta Inédita a Nuno Júdice. «Para Sagres estava projectado o “Mar Novo”, aquele monumento, aprovado em concurso público, […] com painéis ou frescos de Júlio Resende, tudo cancelado à ultima hora por decisão ditatorial daquele homem de botas…»

Cortesia de snpcultura

Madrid, 16 de Novembro de 1971
Meu caro Nuno Júdice

«Há muito pensava escrever-lhe. Causa próxima: o postal colectivo que, no Verão, me mandaram do Algarve. Comove-me a mim, que sou precisamente um ocidental - não no sentido político, mas por ter nascido no cabo da Europa - que se lembrem de mim como amigo, embora depois disponham de ampla liberdade para criticar os meus livros. Ainda hoje me lembro daquela estúpida resposta que lhe dei sobre a ausência de temática social em “Aquele grande rio Eufrates”, durante aquele colóquio comigo na Faculdade de Letras.
Escolhi mal o exemplo, porque respondi demagogicamente, em vez, de salientar nesse meu primeiro livro, agora em vias de reedição, os muitos poemas onde transparece o dia-a-dia, embora esse livro, sem deixar de ser ambíguo a vários níveis, constitua, quanto ao significado, o meu itinerário metafísico e mesmo místico. Realmente não só “Aquele grande rio Eufrates” passa por Sagres.
Para Sagres estava projectado o “Mar Novo”, aquele monumento, aprovado em concurso público, concebido por aquele arquitecto irmão da Sophia, com painéis ou frescos de Júlio Resende, tudo cancelado à ultima hora por decisão ditatorial daquele homem de botas, que até ao fim anotava a 1ápis o orçamento da Universidade de Coimbra e morreu «orgulhosamente só». O livro da Sophia intitulado precisamente “Mar Novo”, a partir do indignado poema que escreveu a propósito, assinala talvez a intervenção da Sophia na vida cultural e política. Acabou-se para ela a praia da Granja, o mar, a infância, o horror à cidade. A Sophia é muito recta. É, sem qualquer espécie de aristocratismo, muito humana e só não pactua com a mediocridade e com as capelinhas.

Eu creio que conhecerá as minhas posições actuais pelo menos através da Helena Abreu. De qualquer maneira, o meu último livro encerra bastantes contradições para poder ser ideologicamente enquadrado no catolicismo. As epígrafes do princípio, embora extraídas da Bíblia, não correspondem a um credo. Acontece até que a segunda é altamente polémica porque, ao compreender só metade do versículo do Novo Testamento, equivale a reivindicação da terra relativamente a um pretenso céu.
Quando sai o seu livro? Aqui estou, na Universidade de Madrid. Sinto-me muito bem. Passou-me a asma que tinha desde os seis meses, durmo melhor, compro muitos livros e sei pouco de Portugal. Se, por um lado, não me interessa que traduzam poesia minha para qualquer outra língua, não quero continuar a fazer carreira literária.
Bem, por hoje basta. Nuno, escreva-me na volta do correio para: …
Abraça-o este seu amigo, que talvez venha a «Mourrir à Madrid»,
Ruy Belo»

In Cartas Inéditas de Ruy Belo, Colóquio Letras nº 178, Fundação Calouste Gulbenkian.

Cortesia de invernoemlisboa

Cortesia da FC Gulbenkian/JDACT

domingo, 30 de outubro de 2011

Ruy Belo. A Habitação do Mundo: «Como a tardia folha que tem insaciável vocação de chão. Pois nesse " insaciável" se diz que folhas e homens viajam no espaço, cobrem, talvez dominem alguns passos de terra, mas a terra ficará sempre à distância...»


Cortesia da fcg e esquerdadavirgula

Homem de Palavra[s]
Amei a mulher amei a terra amei o mar
amei muitas coisas que hoje me é difícil enumerar.
De muitas delas de resto falei.
Não sei talvez eu me possa enganar
foram tantas as vezes que me enganei
mas por trás da mulher da terra e do mar
pareceu-me ver sempre outra coisa talvez o senhor.
É esse o seu nome e nele não cabe temor.
Mas depois deste sonho sou obrigado a cantar:
Eis que o senhor está neste lugar
[...]
Aqui - mulher tera mar -
Aqui só pode ser a casa de Deus.

Aonde estás, Emmanuel, aonde?
[...]
Que vieste fazer a Elsenor?
Perder-te nos passinhos insistentes miudinhos
usados nos caminhos das modernas praias
entre risos e lágrimas locais?

Eu sei que só tu sabes o meu nome
tentar sabê-lo foi afinal o único
esforço importante da minha vida.
Sinto-me olhado e não tenho mais ser
que ser visto por ti. Há no meu ombro lugar
para o teu cansaço e a minha altura é para ser medida
palmo a palmo pela tua mão ferida.
[...]
Poema de Ruy Belo, in «Homem de Palavra[s]»

JDACT

segunda-feira, 10 de outubro de 2011

Silvina Rodrigues Lopes. Ruy Belo. Como quem num dia de Verão abre a porta de casa: «… nenhuma palavra, nenhum livro, pode dizer o mundo, pois há sempre para cada homem de palavra(s) outra palavra, ou a mesma tornada outra por uma nova vizinhança, uma nova articulação, um novo fôlego, um novo jogo, para dizer de novo…»

Cortesia de bibliotecadanazare

Como quem num dia de Verão abre a porta de casa
«Ironia e Verdade são as noções inseparáveis que suportam e orientam a leitura de Ruy Belo aqui proposta - ironia das ficções que se fazem e desfazem, verdade instaurada nesse fazer-desfazer, nos intervalos em que uma necessidade emerge não como harmonia e perfeição correspondente a uma finitude das coisas, mas como necessidade de continuar desfazendo e refazendo. Continuar, porém, numa contiguidade que diverge, não como o noivo que, feliz, recita os versos de Cesário Verde «Se eu não morresse nunca e eternamente / buscasse e conseguisse a perfeiçáo das coisas?» (em «Estudo» de Homem de Palavra[s]), mas com quem ao recitá-los neles sublinha o antagonismo entre a permanência do eu e a busca ou desejo como impulso que se sustenta da sua própria realização. Eternamente buscar e conseguir é sempre já renascer diferente, é sempre mudar: o eterno retorno como espaço-tempo do «próprio» enquanto mudança, isto é, enquanto dizer sempre já ex-apropriado pela linguagem, e que, como tal, dá sempre de novo às coisas (e ao eu como uma coisa) o seu lugar entre o espaço e o tempo da continuidade intersubjectiva (formas que constituem a história do mundo e dos indivíduos) e o vazio de que ele se origina. A finitude é o preço a pagar pela alegria de não haver fim, alegria do Verão, da linguagem na sua única estação, a da poesia, que, como o título deste ensaio (um verso de Alberto Caeiro) pretende sugerir, se assemelha a um gesto quotidiano de abertura. Do entendimento disso decorre o entendimento das relações linguagem-mundo como não-causais, isto é, não determinadas por qualquer automatismo, não-subsumíveis num “telos”. Que o mundo não é uma construção da linguagem é o que o processo de limitação e abertura que caracteriza toda a exposição do mundo evidencia:
  • nenhuma palavra, nenhum livro, pode dizer o mundo, pois há sempre para cada homem de palavra(s) outra palavra, ou a mesma tornada outra por uma nova vizinhança, uma nova articulação, um novo fôlego, um novo jogo, para dizer de novo a perfeição-sem-fim (imperfeição) das coisas e das relações. Esse jogo, porém, decorre de as construções da linguagem, ao mesmo tempo que colocam limites ao que é possível dizer-se, poderem ser ilimitação, abertura para fora do possível.

Cortesia de galeriadecr

Pondo de parte a hipótese de uma transcendência que comande em absoluto as combinatórias de signos linguísticos, fixando-lhes um sentido, e a hipótese de um “telos” imanente à linguagem (a gramática como única dimensão dela) põe-se consequentemente de parte quer o uso da linguagem como busca de sentido quer a auto-referencialidade sem resto das combinatórias de linguagem. O que implica que se considere a interrupção do processo auto-reflexivo pela intervenção nesse processo da força diferenciadora do fora, que permite a significação enquanto ausência de garantia de um sentido.

Admitir que um texto existe na relação com outros textos, ou com todos os textos existentes, diz ainda respeito à dimensão do círculo auto-reflexivo e não à sua interrupção. Esta, o modo como o fora de texto irrompe no texto perturbando a sua completa estabilidade, não é localizável nem na sua letra nem numa esfera de conceitos ou ideias, pertencendo sim à composição que o poema é na sua unidade (mas não totalidade) irrecusável. É assim o espaço-tempo do fazer, do escrever, que se inscreve no jogo diferencial ou potencial de ressonância, que é a composição. O fora do texto como causa é então indiscernível da significância. Os elementos disponíveis que constituem os materiais a combinar existem no poema retirando-se do seu uso, dos textos e contextos «naturais», aqueles que os ligam sem equívoco a imagens, conceitos e ideias, num processo que, atendendo ao que ali se oblitera (sonoridades, grafias, não-linearidade da inscrição), desencadeia o jogo de relações que é condição de contínua metamorfose, a qual diz a impossibilidade de haver coisas em si ou palavras em si.

Cortesia de aminhasintra

Ruy Belo refere este processo de composição em «Os Fingimentos da Poesia», onde diz:
  • «Arranca esse senhor [o poeta] à linguagem quotidiana aquelas palavras que lhe faltavam para fechar um poema. Como é que lá chega? Pegando naquilo que vê, pensa ou sente e sacrificando-o ao fio da sua meditação. Despreza aquele conjunto de circunstâncias que rodeavam a palavra e dá nova arrumação à palavra liberta. Tanto faz que se fale de desumanização, como de falsidade, como de fingimento».
Ao lermos Ruy Belo, percebemos como o dar «nova arrumação» é constitutivo dessa poesia que recorrendo frequentemente à citação de expressões vindas de textos poéticos, ou do quotidiano, as desvia da dose de circunstâncias que inevitavelmente as impregnam. Daí um efeito de continuidade entre várias maneiras de pensar/fazer a poesia, que se apresenta como captação de passagens entre processos e estilos. Ao lado de alguns poemas breves, a tradição de poemas longos renasce em Ruy Belo separando-se da imanência impessoal da épica, da transcendência bíblica e da subjectividade romântica. A extensão do poema é então ditada pela necessidade de continuar, uma necessidade que, decorrendo da inesgotabilidade do que pode ser dito, não é a de um infinito da inspiração ou da força interior mas, pelo contrário, a da inapresentabilidade da verdade, que o poema sustenta, desejando, através das «falsas pistas» (ver o poema «Estudo» ,in “Homem de Palavra[s]”) que constrói, sempre variáveis, pois é sempre outro o espaço-tempo do escrever que se inscreve no poema ao ser por ele «ex-crito». A necessidade de continuar é então a exigência fundamental do «labor» poético, aquilo que o devia de qualquer finalidade: a inesgotabilidade do mundo (a casa da poesia) pelo decurso do tempo e do consequente fluxo de memórias-metamorfoses obriga só por si a uma permanente reescrita - espécie de auto-correcção permanente, em que a disseminação de novas pistas compõe o jogo da verdade, no qual a interrogação «o que é a verdade?» pode tomar parte, mas nunca a resposta que a limitaria ou converteria numa pista falsa, sincera ou insincera, tanto faz - porque ela mesma é construída no processo de limitação-abertura que o mundo é. As associações de sonoridades e os vários tipos de semelhanças e dissemelhanças exaustivamente postos em jogo são outro modo (mais vertical e vertiginoso) de fuga à totalidade (ao mundo como totalidade, consenso, regra), expondo também ele a equivocidade, através da sobreposição de rumores próximos e distantes». In Silvina Rodrigues Lopes, Ruy Belo, Como quem num dia de Verão abre a porta de casa, Fundação Calouste Gulbenkian, Colóquio Letras, ISBN 010-1451.

Cortesia FCGulbenkian/JDACT

quarta-feira, 9 de março de 2011

A Bela Poesia: Ruy Belo. «... Já todos nós esquecemos a casa dos pais ela enche de dias as nossas mãos vazias... multiplicando-lhe a ausência que importa se onde pomos os pés é primavera?»

Cortesia de nescritas

Povoamento
No teu amor por mim há uma rua que começa
Nem árvores nem casas existiam
antes que tu tivesses palavras
e todo eu fosse um coração para elas
Invento-te e o céu azula-se sobre esta
triste condição de ter de receber
dos choupos onde cantam
os impossíveis pássaros
a nova primavera
Tocam sinos e levantam voo
todos os cuidados
Ó meu amor nem minha mãe
tinha assim um regaço
como este dia tem
E eu chego e sento-me ao lado
da primavera
Ruy Belo
 
Elogio da Amada
Ei-la que vem ubérrima numerosa escolhida
secreta cheia de pensamentos isenta de cuidados
Vem sentada na nova primavera
cercada de sorrisos no regaço lírios
olhos feitos de sombra de vento e de momento
alheia a estes dias que eu nunca consigo
Morde-lhe o tempo na face as raízes do riso
começa para além dela a ser longe
A amada é bem a infância que vem ter comigo
Há pássaros antigos nos límpidos caminhos
e mortes como antes nunca mais
Ei-la já que se estende ampla como uma pátria
no limiar da nossa indiferença
Os nossos átrios são para os seus pés solitários
Já todos nós esquecemos a casa dos pais
ela enche de dias as nossas mãos vazias
A dor é nela até que deus começa
eu bem lhe sinto o calcanhar do amor
Que importa sermos de uma só manhã e não haver em volta
árvore mais açoitada pelos diversos ventos?
Que importa partirmos num desmoronar de poentes?
Mais triste mesmo a vida onde outros passarão
multiplicando-lhe a ausência que importa
se onde pomos os pés é primavera?
Ruy Belo
 
JDACT

terça-feira, 7 de dezembro de 2010

Ruy Belo. Poesia: «Chovam as estações soprem os ventos, jamais hão-de passar das margens na manhã inocente ou na complexa tarde»

Cortesia de constancalucas 

Teoria da Presença de Deus
Somos seres olhados
Quando os nossos braços ensaiarem um gesto
fora do dia-a-dia ou não seguirem
a marca deixada pelas rodas dos carros
ao longo da vereda marginada de choupos
na manhã inocente ou na complexa tarde
repetiremos para nós próprios
que somos seres olhados.

E haverá nos gestos que nos representam
a unidade de uma nota de violoncelo
E onde quer que estejamos será sempre um terraço
a meia altura
com os ao longe por muito tempo estudados
perfis do monte mário ou de qualquer outro monte
o melhor sítio para saber qualquer coisa da vida.
Ruy Belo

Cortesia de poesiadosdiasuteisvcm

Grandeza do Homem
Somos a grande ilha do silêncio de deus.
Chovam as estações soprem os ventos,
jamais hão-de passar das margens.
Caia mesmo uma bota cardada
no grande reduto de deus e não conseguirá
desvanecer a primitiva pegada
É esta a grande humildade a pequena
e pobre grandeza do homem.
Ruy Belo
 
Cortesia de Constança Lucas/JDACT