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sexta-feira, 24 de abril de 2020

O Tesouro do Templo. Eliette Abecassis. «Depois, baixando a cabeça, saiu da tenda, com passos apressados. De volta à minha gruta, após a longa caminhada, primeiro, sob o sol poente, depois, sob as primeiras sombras do deserto…»

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«(…) A tenda era contígua a outra, maior, que servia de refeitório. Tinha apenas uma cama, onde se achavam espalhados alguns dos seus pertences, e uma mesa desdobrável. Havia ainda várias peças de roupa, livros e utensílios diversos dispersos pela tenda, que já devia ter sido revistada pela polícia. Jane avançou com passos hesitantes. Quanto a mim, reparei na reprodução de um fragmento aramaico, em cima da mesa desdobrável. Deve ser este fragmento que o professor Ericson encontrou, murmurou Jane. De que se trata? De um fragmento do Qumran. De facto, fala-se de Melquisedec: ... no fim do mundo, quando da libertação dos filhos da luz, ele será o patrono dos justos e o soberano dos derradeiros tempos. Melquisedec é tido como o príncipe da luz, o Grande Padre que oficia nos tempos derradeiros, quando se fizer a expiação por Deus. Mas por que motivo Ericson se interessou tanto por esse personagem, em particular? Isso, já não sei... Perto da mesa, um outro objecto despertou a minha atenção. Era um gládio antigo, de metal prateado, cujo punho preto terminava com uma espécie de rosto... Ao examiná-lo mais de perto, apercebi-me de que era uma caveira e, na extremidade do cabo, havia uma cruz de pontas largas. E isto?, perguntei. É um gládio de cerimônia, explicou Jane. Ericson era franco-maçon. A sério? Não são só os essénios que perpetuam a tradição das ordens gnósticas e das religiões misteriosas. Então, é possível que Ericson quisesse recuperar o tesouro do Templo apenas para se tornar rico? Não o creio, não era um homem que se regesse por esse tipo de ambição. Toma, acrescentou, entregando-me uma fotografia. Guarda-a, é para ti.
Depois, baixando a cabeça, saiu da tenda, com passos apressados. De volta à minha gruta, após a longa caminhada, primeiro, sob o sol poente, depois, sob as primeiras sombras do deserto, estudei a fotografia do professor Ericson. Os seus cabelos grisalhos, os seus olhos escuros, a sua pele imberbe, bronzeada pelo sol, conferiam-lhe uma certa distinção. Aproximando a minha lupa da fotografia, pude discernir a letra Z, kaph, a palma da mão, que representa a realização de um esforço efectuado no intuito de domar as forças da natureza. O arqueamento do kaph é sinal de humildade, de aceitação das vicissitudes e de coragem, e o resultado a consequência de esforços mentais e físicos consideráveis. De repente, um pormenor despertou a minha atenção. Ao lado do professor Ericson achava-se Josef Koskka e os dois pareciam formar uma equipa naquela caça ao tesouro a que haviam dedicado as suas vidas, fazendo escavações em condições adversas. As mãos de ambos estavam calejadas, trabalhavam à torreira do sol com pás e picaretas. O professor, com o tronco ligeiramente inclinado para a frente, tinha um cachimbo numa mão e, na outra, um rolo que se assemelhava ao de cobre, mas era de cor prateada e não apresentava caracteres hebraicos, mas sim góticos, entre os quais, servindo-me mais uma vez da lupa, distingui uma palavra: Adhemar. Mas que podia significar? Dirigi-me à piscina, onde tomávamos os nossos banhos rituais, para me purificar, pois estivera em contacto com a morte, tanto no cemitério como no local do crime. Na ampla divisão, de tecto abobadado, o tanque, cavado na rocha, tinha profundidade suficiente para que pudéssemos imergir o corpo por completo, como a lei exige.
Despi-me, tirei os óculos, a túnica de linho branco, e desci os degraus que levavam às águas límpidas. Desde que me juntara aos essénios, não parava de emagrecer. Comia pouco e os meus músculos sobressaíam, por baixo da pele, como os troncos de uma árvore, no Inverno. Mergulhei, por três vezes, seguindo o ritual. Observei o reflexo do meu rosto nas águas cristalinas, o único espelho que me permitia ver a minha imagem, mesmo que difusa. A barba curta e os cabelos escuros e encaracolados emolduravam-me o rosto de pele clara, quase translúcida, e olhos azuis e lábios finos. Na minha testa, estava gravada a letra P, koph, com a qual se forma a palavra kadosh, santo. A sua barra, que cai na vertical, indica que se pode descer em direcção a imoralidade ao procurar a santidade. Saí da piscina, sequei-me, vesti a túnica e dirigi-me ao scriptorium, pois queria continuar o trabalho que começara.
Na grande mesa de madeira, espalhavam-se fragmentos de couro escurecido e outros escritos. Aquela divisão prolongava-se, por uma passagem estreita, até a uma cavidade, onde havia trapos, retalhos de couro e jarras, tão altas que tocavam o teto da gruta. A fim de acalmar o espírito, sentei-me em frente da mesa de trabalho. Depois, com a ajuda do canivete, comecei a raspar o couro do pergaminho, que resistia, tão áspero era, apesar de o pergaminho, em si, já haver sido cuidadosamente limpo e alisado. Tracei uma linha horizontal, tendo o cuidado de deixar margens, no alto, na parte inferior e nos espaços entre cada página. Só depois comecei a escrever, suspendendo cada letra por baixo das marcas, para obter uma escrita regular. A superfície do pergaminho deve ser uniforme e perfeitamente homogénea. Quando escrevo, gosto de sentir o couro amolecer-se ao contacto da palma da minha mão, das tintas e das cores. O pergaminho representa a pele, a vida que perdura, mau grado o fogo e a putrefacção. É por isso que conserva a escrita durante tanto tempo, ao passo que o couro se oxida». In Eliette Abecassis, O Tesouro do Templo, 2001, Círculo de Leitores, ISBN 972-423-086-4, Editora Livros do Brasil, colecção Suores Frios, 2003, ISBN 978-972-382-671-5.

Cortesia de CLeitores/ELBrasil/JDACT

O Tesouro do Templo. Eliette Abecassis. «Nunca pensei que este tipo de investigação fosse tão difícil. As condições de sobrevivência são precárias: a água rareia, o calor é intenso e, na maior parte das vezes, não encontramos nada mais do que cacos»

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«(…) Finalmente!, exclamou. Vai ser necessário seguires essa pista, se percebes onde quero chegar... De facto, começo a perceber... Também podes interrogar a filha do professor Ericson. Ela mora no bairro onde tu vivias. O professor Ericson não era judeu, interveio Jane, como se adivinhasse os meus pensamentos, mas a filha dele converteu-se ao judaísmo... Veio falar comigo, esta manhã. Bom, tenho de vos deixar, anunciou Shimon. Até breve, Ary. Avançou alguns passos, parou, voltou-se e acrescentou, com semblante carregado: penso que voltaremos a ver-nos, mais cedo do que julgas. Nesse mesmo instante, o homem que parecia dormitar, em frente da sua tenda, aproximou-se. Dei comigo a pensar se ele ouvira a nossa conversa e se não fingira dormir quando eu e Jane passámos por ele. Ary, apresento-te Josef Koskka, arqueólogo.
É horrível, exclamou Koskka, carregando nos erres e revelando, assim, a sua pronúncia polaca, horrível... Estamos todos... Fiquei muito abalado com o que aconteceu a Peter. Além de meu amigo, era um grande investigador, de renome internacional. Não é verdade, Jane? Ela sentara-se numa rocha. Sim, de facto, é horrível, concordou, num fio de voz. O professor Ericson tinha inimigos?, perguntei. Sem dúvida, respondeu Koskka. Ele recebera ameaças recentemente. Certa noite, foi mesmo vítima de uma emboscada. Quiseram assustá-lo, uns homens que usavam turbante, como os beduínos. E quem eram? Não sei, mas, durante a sua estada aqui, Peter tinha travado amizade com os padres samaritanos de Naplusa, porque desejava estudar a recitação que eles faziam de certas passagens bíblicas. Jane meneou a cabeça tristemente. Anteontem, ele foi até à minha tenda para me dizer que limpara, com a ajuda de um pincel e de uma trolha, algumas peças de cerâmica, que achara na copa de Khirbet Qumran. Entre essas peças havia um jarro, intacto, no interior do qual o professor encontrara fragmentos de um manuscrito. Estava eufórico, como se fosse tirar do jarro um homem, com mais de dois mil anos, que lhe revelaria todos os seus segredos em linguagem arcaica. Jane esboçou um ténue sorriso.
Nunca pensei que este tipo de investigação fosse tão difícil. As condições de sobrevivência são precárias: a água rareia, o calor é intenso e, na maior parte das vezes, não encontramos nada mais do que cacos. Depois, é preciso limpar cada fragmento, tentar reconstituir a peça a que pertence e tirar daí algumas conclusões. É como construir um quebra-cabeças ou deslindar um enigma... Mas dizia que o professor Ericson encontrou fragmentos de um manuscrito num jarro..., atalhou Koskka, mostrando-se, de súbito, muito interessado na conversa. Ah, sim, desculpe... Jane fez uma pausa. Fitei o seu rosto marcado pelo cansaço e pela emoção. Josef Koskka tirou o chapéu e enxugou a testa com um lenço. Gotículas de suor escorriam e seguiam pelos pequenos sulcos abertos pelas rugas que lhe marcavam o rosto. Contei-as: uma, duas, três, dispostas na forma de ZI, tau, a última letra do alfabeto, a da verdade, mas também da morte. Tau representa o fim de uma acção, o futuro tornado presente.
É estranho..., comentou Jane. O professor disse-me que um dos fragmentos falava de uma personagem do fim dos tempos, Melquisedec, que o deixara intrigado. Naquela altura, pensei que não era importante, mas, agora... E depois de tudo o que se passou aqui, há tantos anos... Está a referir-se à época em que Jesus viveu perguntou Koskka.
Sim... Depois, houve aquelas discórdias, perfeitamente estúpidas, em torno de Jesus e do Mestre de justiça dos essénios... Mas nós nada temos a ver com isso, rematou Koskka. Procuramos o tesouro do Rolo de Cobre, não o Messias dos essénios. Julgamos, acrescentou Jane, que a soma da prata e do ouro mencionada no rolo ultrapassa os seis mil talentos... É uma quantia astronómica, sem igual, comparada com as riquezas da Palestina daquela época... O equivalente, hoje em dia, a muitos milhões de dólares. Por isso mesmo, esses fragmentos do manuscrito não se volatilizaram!, concluí. Após um breve silêncio, acrescentei: Jane, gostaria de visitar a tenda do professor Ericson. Eu conduzo-te até lá». In Eliette Abecassis, O Tesouro do Templo, 2001, Círculo de Leitores, ISBN 972-423-086-4, Editora Livros do Brasil, colecção Suores Frios, 2003, ISBN 978-972-382-671-5.

Cortesia de CLeitores/ELBrasil/JDACT

quinta-feira, 12 de dezembro de 2019

O Tesouro do Templo. Eliette Abecassis. «Saí da piscina, sequei-me, vesti a túnica e dirigi-me ao scriptorium, pois queria continuar o trabalho que começara. Na grande mesa de madeira, espalhavam-se fragmentos de couro escurecido e outros escritos»

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«(…) De um fragmento do Qumran. De facto, fala-se de Melquisedec: ... No fim do mundo, quando da libertação dos filhos da luz, ele será o patrono dos justos e o soberano dos derradeiros tempos. Melquisedec é tido como o príncipe da luz, o Grande Padre que oficia nos tempos derradeiros, quando se fizer a expiação por Deus. Mas por que motivo Ericson se interessou tanto por esse personagem, em particular? Isso, já não sei... Perto da mesa, um outro objecto despertou a minha atenção. Era um gládio antigo, de metal prateado, cujo punho preto terminava com uma espécie de rosto... Ao examiná-lo mais de perto, apercebi-me de que era uma caveira e, na extremidade do cabo, havia uma cruz de pontas largas. E isto?, perguntei. É um gládio de cerimónia, explicou Jane. Ericson era franco-maçon. A sério? Não são só os essénios que perpetuam a tradição das ordens gnósticas e das religiões misteriosas. Então, é possível que Ericson quisesse recuperar o tesouro do Templo apenas para se tornar rico? Não o creio, não era um homem que se regesse por esse tipo de ambição. Toma, acrescentou, entregando-me uma fotografia. Guarda-a, é para ti. Depois, baixando a cabeça, saiu da tenda, com passos apressados. De volta à minha gruta, após a longa caminhada, primeiro, sob o sol-poente, depois, sob as primeiras sombras do deserto, estudei a fotografia do professor Ericson. Os seus cabelos grisalhos, os seus olhos escuros, a sua pele imberbe, bronzeada pelo sol, conferiam-lhe uma certa distinção.
Aproximando a minha lupa da fotografia, pude discernir a letra Z, kaph, a palma da mão, que representa a realização de um esforço efectuado no intuito de domar as forças da natureza. O arqueamento do kaph é sinal de humildade, de aceitação das vicissitudes e de coragem, e o resultado a consequência de esforços mentais e físicos consideráveis. De repente, um pormenor despertou a minha atenção. Ao lado do professor Ericson achava-se Josef Koskka e os dois pareciam formar uma equipa naquela caça ao tesouro a que haviam dedicado as suas vidas, fazendo escavações em condições adversas. As mãos de ambos estavam calejadas, trabalhavam à torreira do sol com pás e picaretas. O professor, com o tronco ligeiramente inclinado para a frente, tinha um cachimbo numa mão e, na outra, um rolo que se assemelhava ao de Cobre, mas era de cor prateada e não apresentava caracteres hebraicos, mas sim góticos, entre os quais, servindo-me mais uma vez da lupa, distingui uma palavra: Adhemar. Mas que podia significar? Dirigi-me à piscina, onde tomávamos os nossos banhos rituais, para me purificar, pois estivera em contacto com a morte, tanto no cemitério como no local do crime. Na ampla divisão, de tecto abobadado, o tanque, cavado na rocha, tinha profundidade suficiente para que pudéssemos imergir o corpo por completo, como a lei exige.
Despi-me, tirei os óculos, a túnica de linho branco, e desci os degraus que levavam às águas límpidas. Desde que me juntara aos essénios, não parava de emagrecer. Comia pouco e os meus músculos sobressaíam, por baixo da pele, como os troncos de uma árvore, no Inverno. Mergulhei, por três vezes, seguindo o ritual. Observei o reflexo do meu rosto nas águas cristalinas, o único espelho que me permitia ver a minha imagem, mesmo que difusa. A barba curta e os cabelos escuros e encaracolados emolduravam-me o rosto de pele clara, quase translúcida, e olhos azuis e lábios finos. Na minha testa, estava gravada a letra P, koph, com a qual se forma a palavra kadosh, santo. A sua barra, que cai na vertical, indica que se pode descer em direcção à imoralidade ao procurar a santidade.
Saí da piscina, sequei-me, vesti a túnica e dirigi-me ao scriptorium, pois queria continuar o trabalho que começara. Na grande mesa de madeira, espalhavam-se fragmentos de couro escurecido e outros escritos. Aquela divisão prolongava-se, por uma passagem estreita, até a uma cavidade, onde havia trapos, retalhos de couro e jarras, tão altas que tocavam o tecto da gruta. A fim de acalmar o espírito, sentei-me em frente da mesa de trabalho. Depois, com a ajuda do canivete, comecei a raspar o couro do pergaminho, que resistia, tão áspero era, apesar de o pergaminho, em si, já haver sido cuidadosamente limpo e alisado. Tracei uma linha horizontal, tendo o cuidado de deixar margens, no alto, na parte inferior e nos espaços entre cada página. Só depois comecei a escrever, suspendendo cada letra por baixo das marcas, para obter uma escrita regular. A superfície do pergaminho deve ser uniforme e perfeitamente homogénea. Quando escrevo, gosto de sentir o couro amolecer-se ao contacto da palma da minha mão, das tintas e das cores. O pergaminho representa a pele, a vida que perdura, mau grado o fogo e a putrefacção. É por isso que conserva a escrita durante tanto tempo, ao passo que o couro se oxida. Podemos escrever e voltar a escrever num pergaminho, depois de o molhar em soro de leite, para amolecê-lo: os palimpsestos, tal como os tell, fazem-se a imagem deste país, com uma história rica». In Eliette Abecassis, O Tesouro do Templo, 2001, Círculo de Leitores, ISBN 972-423-086-4, Editora Livros do Brasil, colecção Suores Frios, 2003, ISBN 978-972-382-671-5.

Cortesia de CLeitores/ELBrasil/JDACT

sexta-feira, 29 de novembro de 2019

O Tesouro do Templo. Eliette Abecassis. «O professor disse-me que um dos fragmentos falava de uma personagem do fim dos tempos, Melquisedec, que o deixara intrigado»

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«(…) Finalmente!, exclamou. Vai ser necessário seguires essa pista, se percebes onde quero chegar... De facto, começo a perceber... Também podes interrogar a filha do professor Ericson. Ela mora no bairro onde tu vivias. O professor Ericson não era judeu, interveio Jane, como se adivinhasse os meus pensamentos, mas a filha dele converteu-se ao judaísmo... Veio falar comigo, esta manhã. Bom, tenho de vos deixar, anunciou Shimon. Até breve, Ary. Avançou alguns passos, parou, voltou-se e acrescentou, com semblante carregado: penso que voltaremos a ver-nos, mais cedo do que julgas. Nesse mesmo instante, o homem que parecia dormitar, em frente da sua tenda, aproximou-se. Dei comigo a pensar se ele ouvira a nossa conversa e se não fingira dormir quando eu e Jane passámos por ele.
Ary, apresento-te Josef Koskka, arqueólogo. É horrível, exclamou Koskka, carregando nos erres e revelando, assim, a sua pronúncia polaca, horrível... Estamos todos... Fiquei muito abalado com o que aconteceu a Peter. Além de meu amigo, era um grande investigador, de renome internacional. Não é verdade, Jane? Ela sentara-se numa rocha. Sim, de facto, é horrível, concordou, num fio de voz. O professor Ericson tinha inimigos?, perguntei. Sem dúvida, respondeu Koskka. Ele recebera ameaças recentemente. Certa noite, foi mesmo vítima de uma emboscada. Quiseram assustá-lo, uns homens que usavam turbante, como os beduínos. E quem eram? Não sei, mas, durante a sua estada aqui, Peter tinha travado amizade com os padres samaritanos de Naplusa, porque desejava estudar a recitação que eles faziam de certas passagens bíblicas. Jane meneou a cabeça tristemente. Anteontem, ele foi até à minha tenda para me dizer que limpara, com a ajuda de um pincel e de uma trolha, algumas peças de cerâmica, que achara na copa de Khirbet Qumran. Entre essas peças havia um jarro, intacto, no interior do qual o professor encontrara fragmentos de um manuscrito. Estava eufórico, como se fosse tirar do jarro um homem, com mais de dois mil anos, que lhe revelaria todos os seus segredos em linguagem arcaica. Jane esboçou um ténue sorriso.
Nunca pensei que este tipo de investigação fosse tão difícil. As condições de sobrevivência são precárias: a água rareia, o calor é intenso e, na maior parte das vezes, não encontramos nada mais do que cacos. Depois, é preciso limpar cada fragmento, tentar reconstituir a peça a que pertence e tirar daí algumas conclusões. É como construir um quebra-cabeças ou deslindar um enigma... Mas dizia que o professor Ericson encontrou fragmentos de um manuscrito num jarro..., atalhou Koskka, mostrando-se, de súbito, muito interessado na conversa. Ah, sim, desculpe... Jane fez uma pausa. Fitei o seu rosto marcado pelo cansaço e pela emoção. Josef Koskka tirou o chapéu e enxugou a testa com um lenço. Gotículas de suor escorriam e seguiam pelos pequenos sulcos abertos pelas rugas que lhe marcavam o rosto. Contei-as: uma, duas, três, dispostas na forma de ZI, tau, a última letra do alfabeto, a da verdade, mas também da morte. Tau representa o fim de uma acção, o futuro tornado presente. É estranho..., comentou Jane. O professor disse-me que um dos fragmentos falava de uma personagem do fim dos tempos, Melquisedec, que o deixara intrigado. Naquela altura, pensei que não era importante, mas, agora... E depois de tudo o que se passou aqui, há tantos anos... Está a referir-se à época em que Jesus viveu perguntou Koskka. Sim... Depois, houve aquelas discórdias, perfeitamente estúpidas, em torno de Jesus e do Mestre de justiça dos essénios...
Mas nós nada temos a ver com isso, rematou Koskka. Procuramos o tesouro do Rolo de Cobre, não o Messias dos essénios. Julgamos, acrescentou Jane, que a soma da prata e do ouro mencionada no rolo ultrapassa os seis mil talentos... É uma quantia astronómica, sem igual, comparada com as riquezas da Palestina daquela época... O equivalente, hoje em dia, a muitos milhões de dólares. Por isso mesmo, esses fragmentos do manuscrito não se volatilizaram!, concluí. Após um breve silêncio, acrescentei: Jane, gostaria de visitar a tenda do professor Ericson. Eu conduzo-te até lá. A tenda era contígua a outra, maior, que servia de refeitório. Tinha apenas uma cama, onde se achavam espalhados alguns dos seus pertences, e uma mesa desdobrável. Havia ainda várias peças de roupa, livros e utensílios diversos dispersos pela tenda, que já devia ter sido revistada pela polícia. Jane avançou com passos hesitantes. Quanto a mim, reparei na reprodução de um fragmento aramaico, em cima da mesa desdobrável. Deve ser este fragmento que o professor Ericson encontrou, murmurou Jane. De que se trata?» In Eliette Abecassis, O Tesouro do Templo, 2001, Círculo de Leitores, ISBN 972-423-086-4, Editora Livros do Brasil, colecção Suores Frios, 2003, ISBN 978-972-382-671-5.

Cortesia de CLeitores/ELBrasil/JDACT

sexta-feira, 10 de maio de 2019

O Tesouro do Templo. Eliette Abecassis. «Estou contente por te ver aqui, Ary, exclamou. Depois, voltou-se para Jane. Como está? Vai-se andando..., respondeu ela. Shimon aproximou-se e murmurou-lhe: pensavas que tinha partido para a Síria»

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«(…) Apenas um homem, dos seus cinquenta anos, cabelos grisalhos e lisos, separados por uma risca ao lado, pele encarniçada pelo sol e as têmporas reluzentes de suor, se encontrava sentado numa cadeira, em frente de uma das tendas. Imobilizado pelo calor, parecia dormitar. Quando nos dirigimos para a de Peter Ericson, Shimon Delam, saiu de lá acompanhado por dois polícias. Mal me viu, avançou para mim com passos rápidos. Fitámo-nos, olhos nos olhos, para nos analisarmos um ao outro, como havíamos aprendido no exército, táctica que nos permitia adivinhar os pensamentos secretos de outra pessoa. Continuava o mesmo: moreno, de feições finas, olhos quase rasgados, baixo, anafado, mordiscando o seu eterno palito, que fazia as vezes do cigarro. Na sua testa, estava desenhada a letra, J nun, que representa a fidelidade, a modéstia e, na sua forma final, evoca a recompensa prometida ao homem justo. Assim, nun é a letra da justiça. Estou contente por te ver aqui, Ary, exclamou. Depois, voltou-se para Jane. Como está? Vai-se andando..., respondeu ela. Shimon aproximou-se e murmurou-lhe: pensavas que tinha partido para a Síria. Não, preferi ficar por cá. Voltando-se novamente para mim, brindou-me com um sorriso. Estava visivelmente satisfeito. Estou contente por ver que aceitaste, Ary. Mas..., protestei, eu ainda não disse que... Sabes bem quanto precisamos de ti, atalhou Shimon. Foste brilhante, da última vez... Não há ninguém como tu para recrutar ajudantes..., comentei, mas... Só tu poderias ter resolvido aquele mistério, tal como agora. Se queres saber a minha opinião, penso que se nos depara uma história de uma outra época, que só um arqueólogo, um escriba, um... essénio, não é assim que se chamam?, que em tempos foi soldado pode compreender.
Eu ainda não aceitei, Shimon. Por isso mesmo insistiu ele mordiscando calmamente o seu palito estou aqui para te convencer, de uma vez por todas. Sou todo ouvidos. Este caso... Antes de continuar, Shimon voltou-se para Jane, que de imediato se afastou. Não, Jane, pode ficar. Shimon fez nova pausa, tirou o palito da boca e esmagou-o no chão como se fosse um cigarro. Não vou estar com grandes rodeios. Um homem foi assassinado, um arqueólogo que procurava um tesouro, baseando-se num manuscrito de Qumran. Ora esse tesouro pode ter pertencido aos essénios, não é verdade, Ary? Enganas-te, intervim. Os essénios nada possuem, intitulam-se os pobres. Justamente, continuou Shimon, com um sorriso sarcástico. Esse pequeno pecúlio seria muito bem-vindo... Não vejo qual a relação..., repliquei, encolhendo os ombros. Eu esclareço-te: nós estamos convencidos de que os essénios estão envolvidos neste caso... Aquelas palavras fizeram-me estremecer. A quem te referes quando dizes nós, Shimon? perguntei, em tom ríspido. Ao Shin Beth. Vocês têm conhecimento da existência dos essénios? Claro que sim.
Não devias falar desse assunto a ninguém, Shimon, murmurei, cerrando os maxilares. Raios, Ary! Estamos a falar dos nossos serviços secretos! O que entra no Shin Beth... Nunca sai de lá, rematei. No entanto, tu, e Jane estão a par, o que se torna perigoso para nós. Parece-me que queres obrigar-me a lembrar-te de que fui eu quem te salvou quando correste perigo, há dois anos. E que também fui eu quem te deixou partir para as grutas sem te denunciar à polícia, quando mataste o rabi. Mas por que razão vocês desconfiam da nossa comunidade? Então, Ary, pára um pouco para raciocinar. Quem, além dos essénios, poderia ter cometido um assassínio ritual nesta região? Quem poderia proceder a um sacrifício que, se bem compreendi, os vossos textos dizem que só pode ser executado no dia do julgamento? Não pude responder àquela pergunta e o rosto de Shimon iluminou-se». In Eliette Abecassis, O Tesouro do Templo, 2001, Círculo de Leitores, ISBN 972-423-086-4, Editora Livros do Brasil, colecção Suores Frios, 2003, ISBN 978-972-382-671-5.

Cortesia de CLeitores/ELBrasil/JDACT

O Tesouro do Templo. Eliette Abecassis. «… algumas tendas de tela áspera e usada, dispostas na base do Penhasco, que fora abandonado à pressa, como se os seus ocupantes tivessem sido confrontados com uma terrível ameaça»

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«(…) Os nossos olhares cruzaram-se de novo, o que me fez sobressaltar. Jane mudara. Não fisicamente, continuava a mesma, sempre bela, mas havia-lhe acontecido algo que lhe endurecera as feições, apesar do seu sorriso, um sorriso triste, nostálgico, a que correspondi sem me aperceber. Já tens conhecimento do crime?, perguntou Jane. Sim, respondi. Sabes quem era a vítima? Jane baixou os olhos, recuou alguns passos, passou a mão pelo rosto e só depois se aproximou novamente de mim. O seu olhar ensombrou-se quando murmurou: chamava-se Peter Ericson, era o chefe da nossa expedição. Tudo aconteceu anteontem, durante a noite. Fui eu que o encontrei, na manhã seguinte, quando vim até aqui. Quem mais o viu? Os outros membros da nossa equipa. Regressaram imediatamente ao acampamento para chamar a polícia. Eu fiquei aqui, sem saber o que pensar... Ele estava salpicado de sangue. Sete marcas ao todo, como sete sinais. E vestia uma estranha túnica de linho branco.
Silêncio. Têm de partir, Jane...
Então, é isso?, ripostou ela. Querem assustar-nos, para nos afastar de Qumran? O que procuravam aqui?, murmurei. Seguíamos as indicações da lista incluída no Rolo de Cobre. O Rolo de Cobre?, interroguei, atónito. De todos os rolos encontrados em Qumran, este era o mais enigmático, por ser o único de metal. Além do mais, era de muito difícil interpretação, mas parecia que continha uma lista de locais onde podia haver um tesouro fabuloso. Eu sei, continuou Jane. Algumas pessoas pensam que essa lista se refere apenas a tesouros imaginários extraídos do folclore judaico da época dos Romanos. Mas, nós... Ou melhor, o professor Ericson estava convencido de que as descrições do rolo eram demasiado realistas para serem apenas produto do imaginário colectivo. E como te envolveste... Como acabaste por participar nessa..., caça ao tesouro? Há dois anos, pouco depois da tua partida para as grutas, resolvi juntar-me à equipe do professor Ericson, que procedia a escavações aqui.
Mas como conseguiu decifrar o Rolo de Cobre?, perguntei. É um texto tão..., crítico. Existem formas diferentes de lê-lo. Ericson conseguira reconstruir frases completas. A sério...? E obtiveram bons resultados? Julgas que o seu assassínio está relacionado com as nossas investigações, não é verdade? É uma possibilidade... Observei atentamente Jane. Se bem que continuasse à minha frente, empertigara-se e recuara mais um pouco, numa atitude de desconfiança. Quem vos financia?, continuei. Diferentes grupos judaicos religiosos, ortodoxos ou liberais, e recebemos igualmente ajuda de fontes privadas internacionais. Mas os que trabalham aqui não têm qualquer salário, somos voluntários. Apenas nos dão de comer e alojamento. E encontraram alguma coisa? É uma investigação que requer muito tempo, Ary... Ao fim de cinco meses, descobrimos um silo, com kethorite, um incenso usado no templo. Mas tudo isso parece agora tão irrisório... Jane tirou uma folha do bolso e entregou-me. É uma cópia de parte do Rolo de Cobre. Como podes ver, o texto assemelha-se a uma grelha. É preciso lê-lo na diagonal. Seguindo as suas instruções li-o, em voz alta: Bekever she banahal ha-kippa... O túmulo que se encontra na ribeira da cúpula...
Jane indicou, com a ponta do dedo, uma outra passagem. Entre Jericó e Sacara... Existem dois eixos... Norte-sul e este-oeste... E o tesouro estaria no cruzamento desses dois eixos, certo? Foi lá que encontrámos uma pequena ânfora de óleo. Ericson
julgava que se tratava do que era usado no santuário de Jerusalém. Mas, e quanto ao tesouro em si? O rosto de Jane iluminou-se com um sorriso triste. Nada. De seguida, sentou-se numa pedra.
Já nada sei desde ontem, Ary... Estava calor, o sol batia nas nossas cabeças, parecia que ardíamos no inferno. Mesmo assim, avançamos, passando os cantis uns aos outros, mas a água estava morna. Caminhávamos juntos, sem sentir o cansaço. Dirigíamo-nos para Khirbet Qumran. Com os nossos bastões, mais parecíamos um grupo de patriarcas e nada nos podia deter. Nem o calor, nem as serpentes, nem os escorpiões. Naquela manhã, ele não nos acompanhou quando saímos do acampamento. Pensámos que se nos juntaria mais tarde... A certa altura, parámos para comer e foi quando me afastei do grupo..., e o vi. Pedi a Jane que me levasse ao acampamento onde os arqueólogos se haviam instalado. Sem me fazer qualquer pergunta, conduziu-me, no seu jipe, durante alguns quilómetros, por entre uma paisagem árida, até ao acampamento, situado ao lado do kibutz que ficava perto de Qumran. Era um bivaque improvisado, não mais do que algumas tendas de tela áspera e usada, dispostas na base do Penhasco, que fora abandonado à pressa, como se os seus ocupantes tivessem sido confrontados com uma terrível ameaça». In Eliette Abecassis, O Tesouro do Templo, 2001, Círculo de Leitores, ISBN 972-423-086-4, Editora Livros do Brasil, colecção Suores Frios, 2003, ISBN 978-972-382-671-5.

Cortesia de CLeitores/ELBrasil/JDACT

O Tesouro do Templo. Eliette Abecassis. «… após uma longa separação que cada um de nós julgava ser para toda a eternidade. Mas era como se essa eternidade tivesse findado naquele preciso instante. Dois anos..., murmurei»

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«(…) Gelado pelo terror que me invadira, recuei. Aquele sacrifício, com as sete marcas de sangue, era idêntico ao que o grande padre efectuava, no dia do Yorri Kippur antes de entrar no Santo dos Santos, onde devia encontrar Deus. Só que sacrificava touros. Porque razão se matara um homem daquela maneira? Qual o significado de tal acto? A poucos metros dali, as ruínas de Qumran formavam um grande quadrilátero. Aproximei-me do que restava das instalações que tão bem conhecia, onde, outrora, haviam trabalhado os meus antepassados, naquele deserto onde a água era tão vital quanto difícil de obter. Porém, as vozes, que não me largavam, a pouco-e-pouco enchiam-se de carne, transformando-se em corpos. Parecia-me vê-los agruparem-se em volta do grande tanque que assegurava o escoamento das águas sazonais, bem como o seu armazenamento, tirando do aqueduto a quantidade necessária ao consumo e à purificação e, das cisternas, a água potável para saciar a sede, ou afluindo até à piscina de águas límpidas, onde os meus antepassados purificavam almas e corpos. Parecia-me ver as suas túnicas brancas, a adejar solenemente, enquanto se dirigiam à sala de reuniões que servia de refeitório. Podia vê-los à volta da mesa, sentados segundo uma ordem hierárquica: primeiro, os padres, depois, os Levis, antes dos Numerosos. Quase podia ouvir os cozinheiros, ocupados na preparação da refeição, enquanto os oleiros coziam os seus potes nos fornos da oficina de cerâmica.
Podia ver os escribas a fazerem cópias dos rolos da comunidade, no scriptorium, hábeis no manuseamento dos seus instrumentos de escrita, de bronze e argila. Copiavam centenas de textos, que gravavam, dia e noite, em pergaminhos. Depois, ao anoitecer, via os membros da comunidade a regressarem às suas habitações, após as tarefas do dia. Viviam como nós, os essénios actuais, seus herdeiros, preparando, em segredo, a chegada do mundo futuro. No seu zénite, o Sol espalhava uma luminosidade ofuscante e não corria uma aragem. Apenas um calor sufocante, parecido com o que sentimos quando abrimos a porta de um forno. De súbito, estremeci. A sombra de um olhar pesava sobre as minhas costas. Porém, não era uma sombra do passado, uma imagem, nem, tão-pouco, uma presença desconhecida. Voltei-me e o meu coração deu um salto. Senti as pernas vacilarem e, durante breves instantes, julguei tratar-se de uma miragem. Nunca me passara pela cabeça que, um dia, voltaria a vê-la. Pensava que a tentação se afastara para sempre, julgava que a esquecera, mas enganara-me... Jane Rogers. Duas tranças curtas, lábios finos, rugas minúsculas nas têmporas, desenhando as letras do amor, olhos escondidos atrás de óculos de sol redondos e uma tez que eu não reconhecia: uma pele tisnada pelo sol de Agosto, a sul de Qumran, onde os raios solares incidem com maior intensidade, até levarem à loucura.
Jane. Não havia eu sonhado com ela todas as noites desde aquele dia em que entrara nas grutas? E, em torno da sua imagem, quantos remorsos, quanto arrependimento... Quantas vezes havia dito a mim mesmo: nada mais existe além dela, é tudo o que desejo, tudo a que aspiro. O meu olhar beijou a sombra projectada pelo seu corpo magro, coberto por calções de caqui e uma camisola de algodão branca. Por fim, consegui erguer os olhos e fitá-la. Ela tirou os óculos de sol. Ary.
No seu rosto, desenhava-se a letra yodh, em décima posição no alfabeto hebraico, que contém o número dez. Yodh, símbolo da realeza, da harmonia das formas, mas também do mundo futuro. É a letra mais pequena do alfabeto, porque yodh é humilde, embora, ao mesmo tempo, se trate de uma letra fundadora. Dez igual a um mais zero, número que evoca a causa primeira, a origem de todos os princípios... Já passou muito tempo - disse ela. Esboçou um gesto com a mão, como que para ma estender, mas deteve-se. Ali fiquei, imóvel, sem saber como deveria cumprimenta-la. Seguiu-se um silêncio, feito de embaraço e de surpresa, de reconhecimento e de perturbação, após uma longa separação que cada um de nós julgava ser para toda a eternidade. Mas era como se essa eternidade tivesse findado naquele preciso instante. Dois anos..., murmurei». In Eliette Abecassis, O Tesouro do Templo, 2001, Círculo de Leitores, ISBN 972-423-086-4, Editora Livros do Brasil, colecção Suores Frios, 2003, ISBN 978-972-382-671-5.

Cortesia de CLeitores/ELBrasil/JDACT